2 Do juízo à crítica - DBD PUC · PDF fileCrítica da faculdade do...

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    2Do juzo crtica

    2.1.Forma e juzo

    Forma dat esse reiA forma d a essncia das coisas

    Mxima escolstica

    Como j esboado na Apresentao, fora eleito iniciar com a filosofia de

    Kant, principalmente no que tange a noo de juzo para, assim, passar a noo de

    crtica propriamente, muito inspirada nos primeiros romnticos de Jena.

    importante deixar clara para no causar uma estranheza desnecessria a

    densidade formal desta Primeira Parte.

    Abaixo, encontrar-se- uma breve exposio sobre a forma e o juzo, numa

    linguagem que se pode dizer demasiado acadmica para os apreciadores da

    literatura benjaminiana. Esta forma de exposio assemelha-se quela de O

    conceito de crtica de arte no romantismo alemo (tese de doutorado de

    Benjamin), distinta de todos os demais textos do ensasta. Como disse Scholem,

    apesar de uma possvel traio ao seu prprio pensamento, Benjamin se orgulhou

    por toda a vida de sua summa cum laude e, decerto, esta uma fonte de motivao

    cientfica a que se deve ater por algumas laudas frente.

    Da lngua alem, possvel conhecer dois termos que podem ser traduzidos

    por forma em portugus: Gestalt und Form. O emprego da palavra Gestalt se

    aproxima mais (no etimologicamente, mas conceitualmente) do grego morfhv

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    (morph) do que de eivdo"26 (edos). Gestalt no designa a forma em sua total

    abstrao da matria (no envolvendo contraste algum com esse termo ou

    contedo), mas a unio do todo morfolgico de uma coisa ou um indivduo,

    estruturada pelos sentidos. Os objetos que tm uma Gestalt so concebidos como

    unidades orgnicas, somente apreciveis como um todo, no por considerao

    distinta de suas partes. (INWOOD, 1997. p.150) (Gestalt se aproxima da viso

    holstica de mundo dos hindus ou taostas, por exemplo).

    Na histria do pensamento, a forma entendida enquanto Gestalt vir a ser

    explorada na contempornea Gestalt-terapia, nascida com o psiclogo Fritz Perls

    (18931970) em dilogo com a fenomenologia e com o pensamento de Merleau-

    Ponty27. Porm, sobre a concepo de Form que Kant vai se ater, ainda tratando

    e discutindo com a dicotomia clssica forma-matria. Form, esta sim, pode ser

    entendida como a delimitao do espao ou como a determinao da matria de

    uma coisa (enquanto a matria determinada, a forma determinante). Esta

    ltima concepo, se concebida abstratamente pelos clssicos, que ser alvo das

    crticas de Kant, reduzida a sua noo transcendental.

    Suas prprias e notoriamente complexas posies derivam a forma da unidade transcendental da apercepo, como em Crtica da razo pura, ou da negociao entre o sujeito e o mundo em Crtica da faculdade do juzo28 e em escritos ulteriores. (CAYGILL, 2000. p.160)

    Kant, por sua vez, no poderia explorar conclusivamente a noo de forma

    enquanto Gestalt, devido aos seus pressupostos crticos formulados atravs dos

    seus juzos sintticos a priori, pois assim poderia cair numa relao quase

    ontolgica entre o sujeito e o mundo, como ocorreu com a filosofia de Merleau-

    26 Para a utilizao da lngua grega, apesar dos termos clssicos serem pr-alexandrinos (escritos todos com letras maisculas, como EIDOS, p.ex.), ser utilizado o alfabeto moderno para expresso do mesmo, por este j ter recebido, culturalmente, o direito de uso comum nos textos acadmicos. Os termos usufrudos por Benjamin so Idee (oriundo do eivdo" platnico) e Form, como em Kant. No poderia ser diferente, mesmo considerando a materialidade da imagem que compe a idia benjaminiana, como mais a frente ser explorado.27 Maurice Merleau-Ponty (19081961), fenomenlogo francs, amigo de Jean-Paul Sartre.28 Crtica da faculdade do juzo (Critik der Urteilskraft) de Immanuel Kant (1724-1804) o terceiro tratado crtico (publicado em 1790), o qual o prprio filsofo afirmou ter concludo toda a sua tarefa crtica ser abreviado, vez ou outra, como CJ, como consagrado em edies brasileiras.

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    Ponty. Todavia, mesmo no utilizando este termo, a noo de Gestalt poderia ser

    explorada e interpretada, de certa maneira, como parte da Analtica da faculdade

    de juzo teleolgica, sob o ponto de vista de um juzo reflexivo (e no

    determinante) do mundo postulado enquanto organismo, constitudo de partes

    perceptveis empiricamente, mas ajuizadas pelo entendimento e sintetizadas na

    noo de todo, com aparentes intrnsecas finalidades em si mesmas. (CJ, 65-68)

    A viso de Merleau-Ponty a respeito da Gestalt esttico-artstica, dada a sua

    teoria da percepo (ou do olhar); enquanto a de Kant est luz da esttica

    transcendental da primeira parte da Crtica da faculdade do juzo, mas teleolgica,

    vendo o organismo em sua suposta finalidade.

    Traando um breve itinerrio histrico da forma, para o aristotelismo

    medieval (como em Toms de Aquino), a matria prima (que deve ser entendida

    metafisicamente), eterna como o mundo e, por isso, um conceito ontolgico

    que, na ausncia da dependncia da forma, s poderia ser vago e indeterminado. A

    forma entra na dialtica clssica como uma maneira de resolver este problema da

    vagueza da matria. Na filosofia primeira de Aristteles matria e forma so

    pressupostos de sua teoria do ente, entendido como um conjugado atual de ambos.

    Matria e forma se encontram unificadas pelo ser (eivnai), como diz a

    interpretao latina de Toms, no ente (ontov"), por assim dizer, o composto

    realstico de matria e forma. luz do tomismo, na criao do ente e na

    dependncia do Ser (Deus ou Ato Puro), matria e forma so atualizadas29. Para

    Plato, esta entendida no domnio do Mundo das Idias (ou das Formas) que

    so, em certo sentido, separadas da matria, onde seu vnculo s pode ser

    concebido por participao e organizada por um grande artfice (ou artista), o

    demiurgo.

    Seguindo em parte a tradio, Kant entende a relao entre forma e matria

    como conceitos que so um determinante e outro determinado, respectivamente. A

    diferena conceitual mais relevante para Kant est na forma enquanto faculdade a

    priori do sujeito transcendental. Sua novidade geral est nas noes de sujeito 29 Toms de Aquino diz que biblicamente, segundo a teologia, o mundo foi criado no tempo, mas admite que isso no possa ser concebido pela razo (filosoficamente ou segundo a perspectiva do Filsofo, Aristteles). O conceito de atualizao no implica em um movimento dado no tempo, mas na ordem de dependncia do ser do ente ou do prprio Deus.

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    transcendental e dos juzos sintticos a priori. No obstante, a novidade de Kant,

    no que tange esta relao entre matria e forma, est tambm nesta mesma

    concepo do ajuizamento, dado entre outra relao, que ocorre entre as

    faculdades humanas, principalmente, entre a sensibilidade e o entendimento. As

    formas so faculdades a priori do sujeito e no uma realidade separada (como

    para Plato) ou uma realidade do prprio ens inquantum ens 30 (como para

    Aristteles).

    A crtica de Kant interessa a Benjamin no que tange no ao que est mais

    direcionado a Aristteles, mas principalmente ao mero pedantismo de Plato,

    devido a sua filosofia ter levado precocemente a uma dualidade de mundos e

    queles entusiastas filosficos e religiosos afirmarem um imediato conhecimento

    intuitivo do verdadeiro mundo sem terem de se dar ao trabalho de filosofar.

    (CAYGILL, 2000. p.158)

    na segunda parte da terceira crtica (CJ) que Kant (ao tratar da realidade

    dos objetos matemticos) critica diretamente a concepo clssica de Plato,

    considerando que o ateniense antecipou as suas concluses ao separar as formas

    do mundo sensvel (e do sujeito) num mundo supra-sensvel.

    Plato, (...) ao deparar com uma tal constituio original das coisas (a qual para ser descoberta implica que possamos afastar toda a experincia) e ao deparar tambm com a faculdade do nimo que consiste em poder criar a harmonia dos seres a partir do seu princpio supra-sensvel (...), caiu num entusiasmo que o levou, por cima dos conceitos da experincia, a idias que lhe pareceram somente explicar-se mediante uma comunidade intelectual31 com a origem de todos os seres. [Plato] pensava deduzir da intuio pura, que habita no ntimo do esprito humano, aquilo que Anaxgoras deduziu dos objetos da experincia e da respectiva ligao final. (KANT, 2008. p.26.)

    J na Crtica da razo pura (publicada em 1781; segunda edio em 1787),

    30 Falar ente em si mesmo, para Aristteles, uma redundncia, pois ente indefinvel e s pode ser o que em si mesmo; cabe adotar a mxima latina ente enquanto ente devido s interpretaes do Dr. Angelicus (Toms de Aquino), aceita pela tradio filosfica aristotlico-tomista.31 Kant no parece sugerir os supostos ensinamentos iniciticos, esotricos e restritos comunidade dos alunos internos da Akadhmiva. Todavia, difcil garantir a impossibilidade dessa verdade. A crtica de Aristteles a respeito dos mundos ao mestre (bem como a crtica que se faz relao entre res cogitans e res extensa de Descartes) lgica e historicamente vlida, mas seria preciso um estudo mais severo das escolas de mistrios que prezam pelo conhecimento oculto de grandes filsofos. verdade que h uma tentativa esotrica que busca formular uma superao dessas dicotomias.

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    Kant trata das formas da intuio pura, a saber, o espao e o tempo, assim como