3244 Na Toca Jaguar

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    23-Jul-2015
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Na toca do Jaguar toca do JaguarQuando marcamos o bate-papo com o cartunista Jaguar, achamos por bem cercar a fera em seu habitat natural. Um bar, sem dvida - mas em qual, dentre os zilhes que existem no Rio de Janeiro, deveramos registrar a entrevista?

Desenho feito exclusivamente para os estimados leitores do Portal Literal.

Mistura Fina!, decretou o cartunista carioca. Afinal, o ltimo reduto de sua turma na Zona Sul do Rio estava prestes a fechar as portas; nenhum outro lugar melhor que o Mistura, portanto, para conversamos com um dos fundadores do Pasquim e da Banda de Ipanema. Nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar comeou sua carreira em 1952, na revista Manchete, ao mesmo tempo em que trabalhava como funcionrio do Banco do Brasil - subordinado a Srgio Porto, que chegou a tentar convenc-lo a no trocar o emprego pelo humorismo. O conselho no vingou, para sorte do pas cujo cenrio poltico a maior fonte de inspirao do cartunista, e com ele tem aprendido a rir das prprias desgraas. Para prend-lo ao bar por horas a fio e arrancar-lhe as melhores histrias, recorremos a algumas rodadas de cervejas geladas, doses precisas de Steinhagger e presena indispensvel de Nani e mais trs nomes da nova gerao do humor brasileiro: o gacho Allan Sieber, o carioca Arnaldo Branco e o mineiro Leonardo, trio responsvel pela revista F.. Como gancho pro bate-papo, a nova ocupao de Jaguar como consultor de humor da editora Desiderata - responsvel pelo relanamento de boa parte da turma do Pasquim (MIllr, Ivan Lessa, Henfil, alm de antologias do prprio) e tambm de cartunistas como Sieber e Ado Iturrusgarai). A primeira hora... Jaguar comea falando do Los Trs Amigos, Angeli, Laerte e Glauco...

Jaguar. ... a sua autobiografia vai se confundir com a biografia dos dois. Eram trs caras da periferia de So Paulo. E a, quero que voc escreva isso e tal. E a o Angeli fez um velho cartunista fake, que no sou eu, mas um outro cara. Era assim: tem uma mulher entrevistando: Como que voc, aos 70 e tantos anos, tem tanta vitalidade criativa, e quer fazer isso, e fazer aquilo? Como voc explica essa sua energia?. A o velho cartunista diz assim: Catuaba. Hahahaha [risos gerais]. Claro que , foi em cima do papo que eu tive com ele, porra. Eu disse: Eu exijo que voc bote de novo a minha cara l. Bruno. E ele voltou a botar? Jaguar. Vai botar, prometeu. Bruno. Vamos l ento, Jaguar. Como que comeou aquelas velhas perguntas-chavo tu desenhavas desde criana, j tinhas esse mesmo trao, ou ele foi melhorando ao longo dos anos? Jaguar. No, eu era um... Todos os cartunistas que eu conheo, por exemplo, o Ziraldo imitava o Smilby, um cartunista ingls, ruim. Eu lia o Paris Match, que tinha uma pgina de grandes cartunistas, o Chaval, Dan Mose, Tetsu, Andr Franois. Eu escolhi exatamente o pior de todos para imitar, trash, medocre. O Millr deu mais sorte, porque ele escolheu o melhor cartunista do mundo, que era o Steinberg, hehehe. Agora eu fico impressionado com dois caras, um que eu fiz a orelha e vou lanar agora, o livro do Reinaldo, do Casseta. Eu sou um idiota completo, porque muita gente considera que eu sou um dos melhores cartunistas brasileiros, mas quando eu publicar o Reinaldo, eles vo descobrir que ele muito melhor que eu, p. Ento eu digo assim: s dois cartunistas que eu conheo nasceram prontos. Um esse cara aqui, Leonardo... Leonardo. Eu no concordo contigo, quanto ao Reinaldo, concordo. Jaguar. Eles j chegaram prontos, no imitavam ningum, eles eram eles j, entendeu? [para o Nani] E voc, imitava quem? Nani. Carlos Estevo, pegava d O Cruzeiro. Jaguar. verdade que o Carlos Estevo at hoje no tive coragem de perguntar pra ningum se matou? Nani. No, no, acho que no. Jaguar. Meteu uma carabina igual ao Hemingway. Nani. No, acho que no. Jaguar. Me disseram que sim. Voc acha que no? Voc mineiro...

Andr Franois

Steinberg

Nani. Acho que no. Ele morou em Minas, era de Recife. Morou no final da vida l em Belo Horizonte, publicava no Estado de Minas. Jaguar. Porque o Amigo da Ona, que foi uma criao do Pricles, era imitado de um cara chamado De Vito, argentino. A o Pricles se matou, com gs. Depois o Carlos Estevo ficou fazendo o Amigo da Ona, e, segundo me disseram, se matou com um tiro de carabina, e o outro cara tambm morreu, que eu esqueci o nome. Quem era o outro cara? Nani. Quem fez o Amigo da Ona foi o Fritz, mas acho que ele no morreu ainda, no. Voc que amigo da ona em falar que o Fritz morreu. Jaguar. Agora, tem uma cara que hoje trabalha na polcia, faz aquele retrato falado. Ele fez o Amigo da Ona e t vivo at hoje. Bruno. Tu falou que procurou imitar logo o pior, o trash. Por qu? Assim terias mais facilidade em conseguir super-lo? Jaguar. Eu era um ignorante completo, entendeu? O meu desenho era o seguinte: quando eu apresentei os meus trabalhos para o Hlio Fernandes, na Tribuna da Imprensa, o Hlio olhou pra mim e disse: Olha, o pior desenho que eu j vi na minha vida. Eu sou irmo do maior humorista brasileiro e entendo disso. Eu fiquei puto da vida e s de raiva resolvi virar humorista. A comecei a imitar os caras certos, Andr Franois... Eu entrei da seguinte maneira: o Borjalo era humorista da Manchete, e todos os outros humoristas brasileiros essa poca era o qu?, 1950 e poucos estavam n O Cruzeiro. Quando compraram o passe dele para O Cruzeiro, no tinha mais humorista. Ento fizeram um concurso e eu ganhei, empatado com o Claudius, que era do Rio Grande do Sul, e um outro cara, chamado Brando. Se lembra dele? Nani. Me lembro, ficou no ltima Hora muito tempo. Jaguar. O Brando, quando ganhou o concurso veio pro Rio, achando que vida de cartunista mulheres, carros conversveis. Eu disse: Nada disso, cara, tem que fazer como eu. Eu ganho a minha grana pra pagar as contas no Banco do Brasil, p. A ele fez concurso pro Banco do Brasil, passou e virou bancrio. Hahahaha! Eu encontrei com ele h poucos anos, ele estava deprimido. Deprimido no sei por que, tava cheio da grana, era gerente do Banco do Brasil em Madri. Deprimido porque no se realizou como...

O Amigo da Ona

Leonardo. Ele nunca mais desenhou... Jaguar. Tinha um trao interessante. Quando eu comecei a fazer cartum tinha cinco humoristas no Brasil, s. O Pasquim teve uma grande vantagem, abriu pra todo mundo. Esse cara aqui, por exemplo apontando pro Nani, comeou l. Ele chegava diariamente com 30, 40 cartuns, eu dizia pra ele: , Nani, pelo amor de deus, eu no tenho como publicar tudo isso, so todos bons, seno vou publicar s os teus cartuns, no publico mais nada no jornal. Por que voc no vai tomar umas cachaas? Ou namorar... Nani. Pior que eu ia. Allan Sieber. Seguiu o conselho. Jaguar. Hehe. Vai fazer alguma coisa pra... porque ele chegava todo dia. Esse cara uma Nigara. Nani. Eu desenho muito rpido. Quando eu fao as tiras, fao sete tiras em uma hora.Borjalo

Andr Franois, o cara certo imitado por Jaguar.

Jaguar. E voc como eu, ns dois temos uma qualidade em comum no sabemos desenhar. Por exemplo, o Angeli, aquele maluco, faz um quadrinho que tem cenrio, uma biblioteca, com todos os livros, com os ttulos, tem uma janela, dando uma perspectiva. Eu e o Nani, eu rabisco qualquer coisa, sem cenrio, porque, na nossa opinio, o que interessa no o cenrio, a idia, p, o cara achar graa. Nani. Porque a piada perecvel. No outro dia tu quer ler outra, n? diferente de msica, o cara compe uma msica e canta ela a vida toda. Agora, piada voc tem que fazer uma no dia seguinte, na hora seguinte. Jaguar. Os paulistas, aqueles ex-boys... Bruno. Quem so os ex-boys? Jaguar. Laerte, Angeli e Glauco. Eles desenham me-ti-cu-lo-sa-men-te. Devem desenhar o dia inteiro. O tempo que levam para fazer um quadrinho, o Nani faz 20 cartuns, hehehe. Bruno. E isso algo dos paulistas?

Jaguar. No, eu admiro, tenho a maior admirao, mas jamais faria isso porque o tempo em que ele t trabalhando eu vou beber nos bares com os meus amigos, p, hehehe. Nani. Tem que contratar um arquiteto pra fazer o cenrio nos seus desenhos. Bruno. Tu tavas falando do espao que tinha n O Cruzeiro. E depois d O Cruzeiro, quais foram os... Jaguar. Eu no trabalhei nO Cruzeiro, trabalhei na Manchete. Fiquei l algum tempo e fui demitido e fiquei indignado. O diretor da Manchete era o Nahum Sirotsky e ele me demitiu. Mas como me demitiu? Os leitores esto escrevendo cartas me elogiando e voc me demite? Ele falou: T demitido. Sabe por que ele me demitiu? Pelo seguinte: porque ele tava participando de um esquema para fundar a revista Senhor e o Carlos Scliar, diretor de Arte, disse: Demite esse garoto a, que ele vai trabalhar comigo na revista Senhor. Mas eu no sabia e a fiz uma onda contra ele, dizia que ele era um centauro, metade cavalo, e metade cavalo tambm. Hahahaha... Ele teve que agentar, coitado. Bruno. E a tu entrou pra Senhor? Jaguar. Fala-se muito no Pasquim, mas a revista Senhor foi muito mais importante, sobre todos os aspectos cultural, a parte de criao , uma revista como nunca houve outra igual, porque o Carlos Scliar era um artista, no era um cara de publicidade. E a ele contratou o Glauco Rodrigues, que era um excepcional desenhista. Bea Feitler, que depois foi ser editora do Harpers Bazaar, virou celebridade internacional, e eu. era um trabalho fantstico. Eu tenho um episdio muito engraado. O Pasquim na verdade, a Senhor] publicou grande parte da obra da Clarice Lispector, Fernando Sabino, e o Jorge Amado havia feito A morte [e a morte] de Quincas berro dgua e eu cheguei pro Scliar e falei: P, eu quero ilustrar isso a. No, guri, aquele negcio de gacho, n? No guri, quem vai ilustrar o Glauco Rodrigues. Eu falei: Mas, p, o Glauco no bebe. Sim, ele no bebe, mas desenha muito melhor que tu. Hahahaha [gargalhadas gerais. Eu fiquei puto, mas mais tarde eu acabei, por outra editora, fazendo as ilustraes do Quincas berro dgua, que a obraprima dele, n? Eu acho. Bruno. E por que tu achas que o Pasquim levou essa fama, de ter revolucionado a imprensa, e a revi