A biblia a historia de deus e d roma downey e mark burnett

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  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros,com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudosacadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fimexclusivo de compra futura.

    expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ou quaisqueruso comercial do presente contedo

    Sobre ns:

    O Le Livros e seus parceiros disponibilizam contedo de dominio publico epropriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que oconhecimento e a educao devem ser acessveis e livres a toda e qualquerpessoa. Voc pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Info ou emqualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutandopor dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo

    nvel."

  • Ttulo original: A Story of God and All of UsCopyright 2013 por Lightworkers Media e Hearst Productions, Inc.

    Copyright da traduo 2013 por GMT Editores Ltda.Publicado mediante acordo com Faith Words, Nova York, NY, USA.

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode serutilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes

    sem autorizao por escrito dos editores.

    traduo: Fabiano Moraispreparo de originais: Alice Dias

    reviso: Ftima Amendoeira Maciel, Magda Tebet e Renata Dibprojeto grfico e diagramao: Valria Teixeira

    capa: Miriam Lernerimagens de capa e miolo: Lightworkers Media / Hearst Productions Inc.

    produo digital: SBNigri Artes e Textos Ltda.

    CIP-BRASIL. CATALOGAO NA PUBLICAOSINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

    D779bDowney, Roma

    A Bblia:a histria deDeus e detodos ns[recursoeletrnico] /Roma

  • RomaDowney,Mark Burnett[traduo deFabianoMorais]; Riode Janeiro:Sextante,2013.

    recurso digital:il.Traduo de:

    A story of Godand all of us

    Formato:ePub

    Requisitosdo sistema:Adobe

  • do sistema:AdobeDigitalEditions

    Modo deacesso: WorldWide Web

    ISBN978-85-7542-979-2(recursoeletrnico)

    1. Bblia -Usodevocional. 2.Tcnicas deautoajuda. 3.Religio. 4.Livros

  • Livroseletrnicos. I.Burnett,Mark. II.Ttulo.

    13-03725 CDD: 220.61CDU: 27-27 Todos os direitos reservados, no Brasil, por

    GMT Editores Ltda.Rua Voluntrios da Ptria, 45 Gr. 1.404 Botafogo

    22270-000 Rio de Janeiro RJTel.: (21) 2538-4100 Fax: (21) 2286-9244

    E-mail: [email protected]

  • NOTA DA EDITORA

    Esta uma obra de fico. Embora concebidas com baseno relato bblico, as situaes descritas nem sempre refletem

    com exatido todos os detalhes da narrativa sagrada.

  • NNOTA DOS AUTORES

    A PRIMAVERA DE 2011, comeamos a trabalhar em uma minissrie de TVchamada A Bblia. Ela comearia com o Livro do Gnesis e terminaria com oApocalipse. Como voc pode imaginar, logo de cara nos vimos diante de um imensodesao: como contar essa histria? Mais especicamente: como transformar umanarrativa sagrada que engloba milhares de anos e conta centenas de dramasindividuais em um programa de apenas 10 horas de durao?

    Tnhamos duas opes: ou selecionvamos dezenas de pequenos resumos econtvamos vrias histrias curtas, ou escolhamos um nmero menor depersonagens e crivamos um roteiro cuja intensidade emocional fosse maisprofunda.

    Estava claro que a segunda opo era a melhor.Ento nossa equipe de roteiristas comeou a escrever a srie, sob a orientao

    de vrios telogos, consultores e especialistas na Bblia. Todo esse conhecimentotrouxe tona um conjunto muito rico de imagens espirituais e histricas. Para nossagrande alegria, quando mostramos o trabalho para outras pessoas em busca defeedback, a reao foi sempre a mesma: Eu nunca tinha conseguido imaginar ashistrias bblicas com tanta clareza, Preciso reler a Bblia e Vocs deviampublicar esse roteiro.

    A princpio camos relutantes, mas comeamos a fazer pesquisas edescobrimos alguns fatos impressionantes: metade dos americanos no sabe quaisso os primeiros cinco livros da Bblia; 12% dos cristos dos Estados Unidosacreditam que Joana dArc foi esposa de No e muitos creem que Sodoma eGomorra foram marido e mulher. Se nosso roteiro fez com que vrias pessoastivessem vontade de reler a Bblia e lhes deu uma viso mais clara dessas histrias,ento, se o transformssemos num romance, poderamos incentivar ainda maisgente a se interessar pelo livro sagrado.

    Assim, comeamos a escrever A Bblia: A histria de Deus e de todos ns. Nonos sentimos preparados para ensinar a Bblia e no somos telogos. Somosroteiristas de televiso. Seria fcil as pessoas dizerem que ns picotamos ashistrias e que inclumos imprecises teolgicas no texto. Mas queremos deixaruma coisa bem clara: no pretendemos recontar a Bblia. Essa histria j foi contadada forma mais rica e complexa possvel, por meio das palavras de Deus e dosprofetas, discpulos e apstolos que Ele escolheu. O que zemos foi romancear algunsdesses belos relatos com base no roteiro que escrevemos para a minissrie.

    Decidimos incluir tambm um caderno de fotos com imagens da minissriepara ilustrar algumas das passagens mais importantes do livro.

  • Temos muito a agradecer ao nosso pequeno exrcito de roteiristas, nossaexcelente equipe de produo e todos os nossos consultores e especialistas na Bblia.Tambm gostaramos de agradecer a voc por ter este livro em mos. Esperamosque tanto ele quanto a minissrie inspirem muitas pessoas a lerem e relerem a maiore mais bela histria de todos os tempos.

    ROMA DOWNEY E MARK BURNETTCalifrnia, 2013

  • APRLOGO

    T AGORA, NADA EXISTE. NO H UNIVERSO. No h vida. No h luz.No h escurido.No h respirao. No h esperana, medos, sonhos, culpa.

    No h pecado.Nada.Deus tudo o que h. E Deus amor.Ento, de repente, Deus se torna o Criador. Haja luz! retumba Sua voz por sobre o grande vazio.Um lampejo de claridade innita extingue o nada, criando os cus. E com essa

    luz vem o vento, uma rajada brusca que percorre todo o recm-criado Universo.Ento a gua, disforme e aparentemente sem fim, alaga tudo.

    Em seguida, Deus divide as guas, criando os mares, o cu e a terra.Ele decreta que plantas, sementes e rvores se espalhem pelo solo e que haja

    estaes. E estrelas no cu. E criaturas pela terra e pelos mares.Por m, Deus cria o homem Sua imagem e semelhana. Em seguida, cria a

    mulher, pois o homem no deve estar sozinho. Seus nomes so Ado e Eva, e elesvivem em um paraso chamado den.

    Tudo isso leva seis dias no tempo de Deus.No stimo dia, Ele descansa.

    Mas a criao perfeita de Deus se corrompe, arruinada pelos homens e mulheres quedo as costas para o seu Criador. Primeiro Eva, seguida por Ado, Caim e assimpor diante. Gerao aps gerao, a devoo a Deus praticamente desaparece. Omal domina o corao dos homens e das mulheres. Isso no agrada o Criador, queama a Terra e seu povo e quer apenas o melhor para eles.

    Ento Deus comea tudo de novo. Ele destri a humanidade para poder salv-la.

    por isso que uma grande arca de madeira est sendo jogada de um ladopara outro no mar tempestuoso. noite. O vento uivante e a chuva torrencial que caidos cus ameaa afundar a embarcao. Dentro da arca, o caos total. Umalamparina balana no teto e ilumina uma gaiola que abriga dois papagaios deplumagem colorida. Um velho chamado No luta para se manter sentado em um

  • banco preso em uma das paredes. Sua esposa est sentada perto dele. Do outro ladoda cabine, os trs lhos de No, apavorados, abraam rmemente suas mulheresenquanto a grande embarcao oscila na escurido da noite. Esses momentos deterror so uma experincia cotidiana para todos nesta famlia, mas ningumconsegue se habituar a eles.

    De repente, No atirado ao cho. Ele no um marinheiro e foi comrelutncia que aceitou fazer esta viagem. Consegue ouvir, vindos do poro de carga,os mugidos dos bois, o relinchar dos cavalos, os balidos dos carneiros e os gritos deagonia de um sem-nmero de outros animais. H exatamente dois de cada espcie.Por mais que No limpe os estbulos todos os dias, o poro da arca umaimundcie s, sem nenhuma ventilao. Apenas uma pequena leira de janelas noconvs superior libera o fedor dos gros putrefatos e dos dejetos de animais, que semistura umidade da embarcao e gera um caldeiro de odores repugnantes. Essescheiros sobem pelos pavimentos da arca e penetram pelas cabines bolorentas eclaustrofbicas. No s impregnam o ar que No e sua famlia respiram, comotambm o tecido de suas tnicas, os poros de suas peles e os poucos alimentos quecomem. Se o dilvio passasse, No poderia abrir uma escotilha e deixar entrar umabrisa fresca. Mas parece que a tempestade nunca vai acabar.

    Um giser de gua jorra de um novo vazamento no casco. As mulheresgritam. Com esforo, No se levanta e tampa o buraco. Do lado de fora, umabaleia-azul salta de dentro dgua. um animal gigantesco, mas parece diminutoperto da arca de No.

    No um lder rme, um marido amoroso e um bom pai. Acalma a famliaaterrorizada contando a histria da criao. Uma histria que ele conhece muitobem.

    No terceiro dia fala No com a voz tranquila , Deus criou a terra, comrvores, plantas

    Algum dia ns vamos voltar a ver terra rme? pergunta a esposa de Sem,um dos seus filhos.

    No a ignora. com rvores, plantas e frutas. Ento Vamos ou no? insiste a mulher. Ela linda, seu olhar inocente torna o

    medo em seu rosto ainda mais perturbador. Ns vamos voltar a ver terra firme?A f de No est no limite. Mesmo assim, ele assume uma expresso de

    bravura. claro que sim. E continua sua narrativa, mas apenas porque ouvi-la lhes

    traz consolo. E, no quinto dia criou todas as criaturas do mar Ele d umarisadinha ao ouvir os gritos dos dois macacos. A gaiola deles ca ao lado da dospapagaios. Aqueles animais podem ser tudo, menos criaturas do mar! E ascriaturas do ar acrescenta No, pensando nas pombas e nos falces que vivem ladoa lado a contragosto. Por m, no sexto dia, Ele fez todas as criaturas da terra,

  • inclusive ns! E recebemos de Deus o paraso. Incrvel, no? O paraso. Mas ento No faz uma pausa para se recompor. A ideia do que est prestes a dizer desconcertante. A humanidade j tivera tudo em suas mos.

    Tudo. Mas ento Mas ento Ado e Eva colocaram tudo a perder. Eles comeram o fruto da

    nica rvore no paraso que lhes era proibida. Esta foi a nica coisa que Deus lhespediu. Nada mais. No comam o fruto desta rvore. Nada poderia ser maissimples.

    O monlogo de No est comeando a ganhar ritmo, enquanto o dilvio camais violento l fora. Um trovo rimbomba bem alto, como se uma explosotivesse aberto uma cratera na arca.

    Escolhas erradas diz ele com amargura. Decises erradas. Esta a fontede todo o mal: desobedecer a Deus. por isso que, com um simples gesto deinsubordinao, Ado e Eva zeram com que o mal entrasse no mundo. por issoque estamos nesta arca. Porque o mal que Ado e Eva trouxeram se espalhou pelaTerra, e Deus a est purificando para que a humanidade possa ter um novo comeo.

    Ele corre os olhos pela pequena cabine, tando as poucas pessoas ali. Suahistria afastou a mente delas do dilvio, e perceber isso o incentiva a prosseguir.

    Foi por isso que Deus me falou: Construa uma arca. No se interrompe,lembrando-se de como o momento tinha sido engraado. Eu perguntei: O que uma arca? Deus me respondeu: o mesmo que um navio. Ento eu disse: O que um navio?

    Todos riem. Eles tinham passado a vida inteira no deserto, onde no haviamuita gua, muito menos uma embarcao especial que flutuasse nela.

    Deus descreveu a arca para No. Ela seria projetada e construda de acordocom as especicaes ditadas por Ele. A enorme embarcao abrigaria um casal decada espcie animal existente. Assim que estivesse pronta, Deus lanaria sobre omundo uma tempestade colossal, que inundaria todas as terras e exterminaria toda aSua criao. Somente as pessoas e animais a bordo da arca de No sobreviveriam.

    No ento a construiu, embora seus amigos houvessem zombado dele e suaprpria mulher o tivesse considerado um tolo. Ora, ele estava a quilmetros do marmais prximo, sem a menor possibilidade de zarpar naquele barco. Mesmo assim,continuou a construir a arca, prego por prego, tbua por tbua, erguendo cercadospara abrigar os tigres, elefantes, lees e rinocerontes. Sua imensa embarcao seagigantava sobre o solo do deserto e podia ser vista a quilmetros de distncia. Ele esua arca se tornaram uma grande piada que se espalhou aos quatro ventos, e muitosvieram de longe s para v-la mesmo que fosse apenas para balanar a cabea erir da loucura de No.

    Ento a primeira gota de chuva caiu. No foi uma gota qualquer, pois elaatingiu a terra com um estrondo que parecia prenunciar o juzo nal. O cu, antes deum azul lmpido, primeiro cou cinzento e depois tornou-se negro. Entre na arca,

  • ordenou Deus. No obedeceu e trouxe sua famlia a bordo consigo.

    Ele no precisou falar duas vezes conta No sua plateia entretida dentro dapequena cabine.

    Cada um dos presentes se recorda da correria para entrar na embarcao,lembrando tambm a viso arrasadora de amigos e vizinhos que imploravam poruma vaga na loucura de No. Mas no havia espao.

    Uma chuva incessante se abateu. As guas subiram medida que riossubterrneos irrompiam do solo. Ondas gigantes se elevavam e engoliam a terra.Inundaes varriam casas, mercados e vilarejos inteiros do mapa. As pessoasmorriam aos milhares. Os mais sortudos eram os que no sabiam nadar e seafogavam de imediato. Os que tentavam se manter tona tinham tempo de reetirsobre seu destino e o de seus entes queridos antes de serem tragados pelas guas.

    Quando a terra aos poucos comeou a desaparecer e foi sendo substituda pelagua a perder de vista, No fechou a escotilha e derrubou as vigas que sustentavam aarca. Logo o mar ergueu sua gigantesca embarcao (que, para seu alvio, utuoumuito bem) e eles saram oscilando para onde, s Deus sabia. Mas uma coisa eracerta: Deus os salvaria da aniquilao, por pior que fosse o dilvio e por mais altasque ficassem as guas.

    A narrativa de No surte o efeito desejado e deixa todos mais tranquilos dentroda pequena cabine. No vai sozinho at o convs e, pela primeira vez no que parecemter sido meses, os mares esto calmos. Ele sabe que as guas logo comearo abaixar.

    Graas a No e sua arca, o mundo renasce. Deus o considera um homem justo e,por causa dele, a humanidade tem a chance de recomear do zero. Atravs dele, a fnascer. Atravs dele, Deus continuar a abraar o mundo e executar Seu planopara o homem um plano traado antes mesmo de a Terra ser criada.

    Porm, antes de abraar o mundo, Deus se concentrar numa s nao depessoas que O temem, honram e adoram. Nessa nao viver um homem justo efiel como No. Seu nome ser Abrao. Mas isso ainda est por vir.

    Agora, No se delicia com o calor do sol em seu rosto. A arca oscila emdireo terra rme, e ele consegue sentir que as guas do dilvio esto baixando.Assim, quando ouve a voz de Deus em alto e bom som, ele sabe que sua jornada

  • chegou ao fim. Saia da arca ordena Deus.A grande porta lateral da embarcao baixada. Os animais correm em

    debandada rumo terra seca e se espalham rapidamente.Para salvar o mundo, Deus quase o destruiu. No foi escolhido para dar

    prosseguimento aos planos Dele para a humanidade. Mas a humanidade volvel edestinada a repetir os mesmos erros, virando as costas para Deus e para Seu amorsem limites.

    Mas Ele agir novamente para salvar o mundo. De uma vez por todas. Daprxima vez, no entanto, no precisar de No.

    Da prxima vez, ir enviar Seu nico filho.Esta a histria de Deus e de todos ns.

  • PARTE UM

    UM HOMEM CHAMADOABRAO

  • MILHARES DE ANOS ATRS, NA CIDADE DE UR, onde hoje em dia ca oIraque, passa-se a histria de um homem chamado Abro. Ele descendente diretode No, oito geraes depois, atravs da linhagem de Sem. Abro um vigorososenhor de 75 anos, espadado e com uma longa barba grisalha. Sua esposa Sarai famosa por sua grande beleza, embora tenha mais ou menos a mesma idade deAbro. A nica tristeza de Abro o fato de Sarai ser incapaz de gerar lhos, masele jamais deixa essa frustrao transparecer. O sorriso nunca abandona seu rosto, eele sempre traz as palavras Que a paz esteja consigo nos lbios.

    Abro entra no grande templo de Ur e recebido calorosamente por seusamigos. Ur uma cidade de muitos deuses, e as paredes do templo esto cobertas desmbolos: uma coruja, uma lua crescente, uma cobra e o sorriso sereno de umadeusa. Ao redor de Abro, adoradores rodopiam, consumidos pelo ritmo de umaprocisso que entra pelas grandiosas portas. Uma esttua de madeira pintada comcores vivas trazida sobre uma liteira e largada em um altar baixo, no qual umbode est amarrado. A multido canta cada vez mais alto enquanto um sacerdotesaca uma faca sacricial. O barulho ensurdecedor berros, cnticos, aplausosclamorosos. O sacerdote segura a parte de trs da cabea do bode e a puxa paracima, de modo a expor o pescoo do animal.

    Normalmente, Abro estaria concentrado no ritual, mas desta vez ouve umavoz que nunca tinha ouvido antes. Ela fala somente a Abro, ningum mais notemplo consegue ouvi-la.

    Abro. a voz de Deus. Deixe seu pas, seu povo e a casa de seu pai e vpara a terra que lhe mostrarei.

    Abro ergue os olhos para o cu, boquiaberto de espanto enquanto a vozinconfundvel de Deus faz promessas espetaculares em troca daquela enormeexigncia.

    O sacerdote, que j havia cortado a garganta do bode, afunda a lmina nabarriga macia do animal para revelar seu fgado. Abro no v nada disso.

    Farei de voc uma grande nao e o abenoarei. Seu nome ser conhecidopor todos. Abenoarei aqueles que o abenoarem e amaldioarei todos os que oamaldioarem. E todos os povos da Terra sero abenoados atravs de voc.

    Um homem de menor envergadura teria cado desconado. Ou talvez sentissemedo. Mas Abro d ouvidos ao chamado de Deus, motivo pelo qual Ele o escolheupara a tarefa que tem em mente, assim como havia escolhido No. Abro caparado no templo em polvorosa, onde o sacerdote ergue no ar o fgado do bode. Noh uma nica gota de dvida em suas veias.

    Sim sussurra Abro para Deus, sua voz transbordando de entusiasmo. Sim.

    Uma coisa Deus instruir um homem a deixar para trs sua ptria, seusamigos e a linhagem que compe sua famlia por geraes a o; outracompletamente diferente um homem dar esta notcia para sua mulher. Abro volta

  • correndo para casa, ansioso por contar o ocorrido a Sarai. Quando chega ao seuquintal, v seu adorado sobrinho L.

    Abro espalma a mo em seu ombro em um gesto amigvel e se encaminhaa passos rpidos para a porta de entrada.

    A mulher de L tambm est por ali, varrendo o quintal, quando Abro passadepressa por ela. Ela e o marido trocam olhares intrigados: percebem na mesmahora que h algo diferente em Abro. Algo muito diferente. Os dois encolhem osombros.

    Ao entrar em casa, Abro chama a esposa: Sarai. Ento, grita: Sarai!Ele encontra sua mulher nos fundos, ajoelhada diante de uma estatueta de

    argila. Uma estatueta de fertilidade? A voz de Abro soa tenra e reconfortante.

    Precisamos mesmo delas? De que nos serviram? Elas nos trouxeram lhos, poracaso?

    Sarai chora, pensando ouvir decepo na voz do marido. Abro, fracassei como sua esposa. por minha culpa que no fomos

    abenoados.Abro se lembra da boa notcia que tem para contar e toma sua mulher nos

    braos. Sarai, ns fomos abenoados. Hoje Deus falou comigo. Que Deus? O nico.Sarai recua, confusa. O mundo deles possui muitos deuses e dolos diferentes,

    cada qual destinado a suprir uma necessidade especca. Depositar sua f em um sdeus uma atitude extremamente arriscada.

    verdade assegura Abro. Ele me escolheu. Escolheu a ns. Para qu? No entendo. Ele quer que saiamos daqui. Sair daqui? Mas aqui que est toda a nossa vida. Isso mesmo, Sarai. Vamos partir desta cidade rumo a uma nova terra. E

    teremos filhos l. Disso eu tenho certeza. Deus me prometeu.Sarai quer acreditar em Abro. Ela quer desesperadamente ter uma criana, e

    faria qualquer coisa para dar um lho homem para seu marido. Mas a ideia deabandonar seu lar e partir lhe parece quase insuportvel. Ela olha rme para Abro,dividida entre o amor que sente por ele e o medo do que pode acontecer se deixarem asegurana de Ur.

    Abro compreende. Ele um homem compassivo que ama sua esposa maisdo que a si mesmo. Mas sabe que deve fazer a vontade de Deus.

    Acredite em mim, Sarai. Acredite. Ele falou comigo. Ele me prometeu. EDeus sempre mantm Suas promessas. Precisamos ter f e crer que Ele nos

  • conduzir a uma terra de maravilhas.Sarai sempre acreditara que havia algo de extraordinrio em seu marido. Ele

    no homem de fazer armaes delirantes. Embora ele esteja pedindo algoinimaginvel, ela sabe que deve confiar nele.

    Sarai aperta a mo de Abro e sorri. Conduza-nos at l.

    Abro parte com Sarai, seu sobrinho L e a esposa, e mais um pequeno exrcito deagregados composto de amigos e servos da famlia. Entre eles, est a jovem serva deSarai, uma egpcia chamada Hagar. Eles viajam na direo noroeste, seguindo asestradas milenares da regio atualmente conhecida como o Crescente Frtil,conando que Deus os conduzir terra que havia prometido a Abro. A viagem osleva at uma cidade chamada Har e, por m, at um local de fartura, repleto degua e rvores e que oferece um osis verde em meio ao deserto rido. Mas essaterra no suciente para todo o grupo de Abro e seus animais. Alm disso,sementes de discrdia so plantadas pela esposa de L, uma mulher invejosa emesquinha que desaa a autoridade de Abro por este t-la obrigado a abandonarsua terra natal. Logo eles chegam a um impasse, com Abro e seus seguidores deum lado e os seguidores de seu adorado sobrinho L de outro.

    A situao nalmente sai do controle quando dois pastores comeam a brigar.Um acredita que o outro est invadindo seu pasto e vice-versa. Eles rolam no cho,trocando socos e se engalnhando. L quem os v primeiro. Ele corre em direo briga, sua mulher acompanhando-o a poucos passos de distncia.

    Lemuel! grita L ao seu pastor. Pare! Agora!Com relutncia, Lemuel larga Amasa, um dos pastores de Abro. Amasa

    ainda consegue dar um ltimo soco e se esquiva antes que Lemuel possa revidar. Osdois homens esto ofegantes, suas tnicas esto cobertas de poeira e seus rostos,arranhados e sangrando.

    Abro ouviu a confuso e se aproxima do local. O que est havendo aqui? pergunta. O seu pastor est roubando o nosso pasto sibila a mulher de L. Precisamos de pasto para alimentar nossas famlias insiste Amasa. Ns tambm retruca Lemuel, de punhos cerrados, pronto para voltar a

    brigar. Esta terra de todos ns diz Abro calmamente para os homens. Ela

    nos foi dada por Deus para que a dividssemos.A esposa de L est furiosa. Ela fuzila Abro com o olhar.

  • Ento Ele deveria nos ter dado uma terra maior reclama ela. Um silnciode espanto recai sobre o grupo. A esposa de L estava zombando no apenas deAbro, mas tambm de Deus. Ela deveria se desculpar com Abro e pedir perdo aDeus. Mas ela ainda no terminou. Isso no pode continuar assim diz paraAbro antes de lanar um olhar duro para o marido. Diga a ele o que nsdecidimos.

    L parece desconfortvel. Ele ama Abro como um pai e no conseguesuportar a ideia de desapont-lo. Hesitante, engole em seco antes de dizer o queprecisa.

    Abro balbucia. Somos muitos. E simplesmente no h terra o bastante. Mas o Senhor prover responde Abro, esforando-se ao mximo para

    soar otimista. Tenha f! Em um Deus que no podemos ver? ironiza a esposa de L.Abro nge no ter ouvido essas palavras. Ele olha bem no fundo dos olhos

    do sobrinho, que se recusa a retribuir o olhar. Est na hora de cada um seguir o seu caminho diz L.Abro fica horrorizado. No! Devemos ficar juntos.L est prestes a falar, mas sua mulher o interrompe. Para morrermos de fome, velho? Para vermos nossos pastores matarem

    uns aos outros por uma folha de relva?Desta vez, Abro d ateno esposa de L, mas apenas para lhe lanar um

    olhar duro feito pedra. Por mais amoroso que Abro seja, e apesar de sua reputaode ser gentil, ele tambm um homem rigoroso. A mulher se encolhe sob o olhardele e sua lngua mordaz se cala na mesma hora.

    Tio diz L, relutante. Ns vamos embora. No temos escolha. Mas para onde vo? pergunta Abro em tom de splica. Para onde os pastos so mais verdes, perto de Sodoma. L, Sodoma uma cidade cruel e perversa. As pessoas de l deram as costas

    para Deus. Mas pelo menos no esto passando fome rosna a esposa de L.

    Abro est sozinho no topo de uma colina a partir da qual consegue enxergar porquilmetros de distncia em todas as direes. Ele est construindo um altar paralouvar a Deus. Pedra por pedra, ele se pe a ergu-lo, mergulhado na meditaosilenciosa do trabalho. Pode ver as tendas de seu povo no vale quase vazio maisabaixo, os rebanhos se recolhendo para a noite, os grandes bosques. Tambm v L

  • e sua tribo ao longe, seguindo seu caminho rumo ao leste, na direo de Sodoma. um momento triste. A luz vermelha do crepsculo banha toda a vasta regio. Abrosuspira. Ele ama aquela terra que Deus lhe deu, e se delicia com suas muitas belezas.Deus tornou a falar com ele depois que L foi embora, e Abro O ouviu como umservo obediente.

    Erga seus olhos de onde est e lance seu olhar para norte, sul, leste e oeste.Toda a terra que v, Eu a darei a voc e aos seus descendentes para todo o sempre.

    Abro fez conforme Deus mandou, e construir o altar para oferecer umsacrifcio uma maneira de agradecer-Lhe. Mas seu corao continua em grandeconflito. Ele se sente profundamente perturbado pela partida de L e pelo fato de Saraiter voltado a adorar dolos de fertilidade. Dvidas sobre sua capacidade de lideranao atormentam todos os dias.

    Para Abro, ser escolhido por Deus tinha parecido uma bno. Mas agoraele sabe que tambm signica uma luta. Abro coloca uma ltima pedra ao p doaltar e ento se ajoelha para orar. Semanas se passam e Abro continua a sentir afalta do sobrinho. Um dia, enquanto ora, ele baixa os olhos para o vale e casurpreso ao ver uma gura solitria caminhando em sua direo. Parece Lemuel, opastor de L. Embora ainda esteja muito longe, Abro consegue ver que ele estmancando e puxando um dos lados do corpo.

    Abro desce correndo a colina e segue a passos rpidos at a gura que seaproxima. Lemuel arrasta os ps at ele, quase sem foras. Suas roupas esto emfarrapos. Sangue seco cobre sua pele. Seu rosto est ferido e sujo. Quando v Abro,ele para e cambaleia, como se estivesse prestes a desmoronar.

    O que aconteceu? pergunta Abro, chocado. No tivemos a menor chance. Havia muitos deles geme Lemuel, caindo ao

    cho. Fomos parar no meio de um conito entre grupos rivais da regio. Meurebanho se perdeu. At a ltima ovelha.

    Abro retira seu odre do pescoo e o entrega para o pastor, que bebe a guacom avidez. Ele espera que Lemuel termine antes de fazer mais perguntas. Olha bemno fundo dos olhos do pastor, sem desviar o olhar nem por um instante.

    Lemuel sabe no que Abro est pensando e, ao entregar de volta o odre, suavoz fica embargada de agonia.

    L est vivo diz ele. Mas eles o capturaram.Abro fica horrorizado. Ele me ajudou a fugir prossegue Lemuel para que eu pudesse encontr-lo

    e implorar por sua ajuda.Hagar, no esplendor de sua juventude e vitalidade, chega com uma tigela

    dgua. Ela mergulha um pano na gua e o torce, em seguida abrindo a tnica deLemuel para limpar uma ferida em um dos lados de seu corpo. Mesmo seencolhendo de dor, ele no desvia o olhar de Abro.

    Voc nossa nica esperana diz o pastor.

  • noite, Abro se rene em sua tenda com Sarai e as famlias que o acompanharamem busca de um novo lar. O assunto a guerra.

    Vamos lutar. Entre ns h muitos homens treinados em combate dizAbro para o grupo.

    Mas, meu amor interrompe Sarai, ansiosa , vocs no so soldados. No importa. Eu fiz L vir conosco. Disse a ele para confiar em Deus. Mas L e sua esposa tiveram escolha. Foram eles que resolveram partir!Abro j estava decidido. Eles so parte da nossa famlia diz ele para Sarai. Precisamos ajud-los.A esposa de Amasa, o pastor briguento, balana a cabea. Ela est prestes a

    dizer para Abro que resgatar L seria uma loucura. Mas, antes que pudesse sepronunciar, seu marido leva um dedo aos seus lbios. Ele ento se levanta e seaproxima de Abro, parando ao seu lado. Os outros homens fazem o mesmo.

    Ns voltaremos promete Abro a Sarai.Ele corre os olhos pelos seus corajosos homens enquanto eles se preparam s

    pressas para a batalha e se despedem de suas famlias, sem saber se voltaro umdia. Sarai est aflita e abraa com fora a cintura de Abro, com os olhos marejadosde lgrimas.

    Eu amo voc diz ela.Abro se afasta sem dizer nada. Seu amor por Sarai j est mais do que claro.

    Ele um homem rme e um bom marido. Abro apanha sua espada, cuja lminaaada brilha luz do fogo. Ergue a arma para examin-la, em busca de pontosfracos. No vendo qualquer imperfeio na lmina, ele a enfia no cinto.

    Deus olhar por ns diz Abro, tranquilizando a esposa.Suas palavras so poderosas, e a conana em seus olhos faz o corao de

    Sarai se encher de orgulho, apesar do medo que sente. Ela pousa com carinho a mono rosto do marido e o puxa para si. Beija-o com paixo, sabendo que talvez seja altima vez.

    Abro olha-a bem nos olhos, ento se afasta e parte em direo noite escura.No h tempo a perder.

    Abro e seu exrcito improvisado avanam com cautela rumo ao acampamentoinimigo. Se eles estivessem mesmo em guerra, haveria guardas a postos, e asfogueiras para preparar a comida j estariam apagadas h tempos. Mas aqueles

  • soldados tinham acabado de derrotar seus oponentes que fugiram para as colinas,alguns caindo nos poos de piche do vale de Sidim , e o momento decomemorao. Eles esto sentados em volta do fogo, rindo e bebendo. Osprisioneiros que decidiram no matar encontram-se sentados em um crculo nocho, as mos atadas atrs das costas. A esposa de L est sendo cutucada com umalana pelo guarda que a vigia. Ela grita de dor, o que faz com que os soldados aolhem com mais lascvia. H muito tempo que esto longe de suas casas e de suasmulheres. Um deles, talvez vrios, ir possu-la esta noite. Amarrado eamordaado, L forado a assistir queles homens devorarem sua esposa com osolhos e humilh-la. Suas tentativas de protestar so inteis e conseguem apenasdivertir os guardas.

    Abro observa a cena de onde est, nos limites do acampamento. Sua famliaaumentou desde que ele seguiu as ordens de Deus e saiu em busca de uma nova terra.Seu exrcito composto de 318 pastores. No so guerreiros, mas sabem manejarfacas e machados graas aos anos de experincia afugentando lobos de seusrebanhos.

    Seus inimigos, no entanto, so centenas. So homens rudes, com cicatrizes pelocorpo e msculos conquistados em longos dias de campanha e incontveis horas decombate cara a cara. So oponentes treinados e disciplinados, que acabaram dederrotar os reis de Sodoma e Gomorra e seus exrcitos. Esto descansados e debarriga cheia. Atac-los em seu prprio acampamento seria suicdio.

    Mas Abro sabe que seus homens tm duas coisas a seu favor: o fatorsurpresa e a profunda f em Deus.

    Enquanto seu exrcito se espalha ao redor do acampamento na calada danoite, Abro ora. Pede a Deus que abenoe seus homens e que lhe d fora econana para lider-los. Enquanto ora, consegue sentir o cheiro de cordeiro sendogrelhado na fogueira, o fedor de madeira queimando, o odor pungente de homenssujos e o aroma pesado e empoeirado da prpria noite. Os cheiros tornam a batalhaainda mais premente. Uma voz baixa e discreta em sua cabea o recorda de queexistem momentos em que o melhor virar as costas e ir embora. L e sua mulherzeram uma m escolha ao abandonar Abro. Ningum o chamaria de covarde seele decidisse voltar agora que suas chances esto claras. Ele termina sua orao, sacasua espada, ergue-a no ar e aponta-a para frente: o sinal de que seus homens deveminiciar o ataque. Uma onda silenciosa de pastores-soldados invade o acampamentoinimigo.

    Conem em Deus! vocifera Abro. Seu exrcito avana. As fogueirasiluminam Abro e seus homens. Abro o primeiro a verter sangue, afundando suaespada na barriga de um soldado inimigo. O soldado grita de agonia e, num piscarde olhos, todas as cabeas no acampamento se voltam na direo deles.

    Raaaaaghh! grita Abro, arrancando sua espada do corpo do homemmorto e brandindo-a imediatamente contra outro soldado inimigo.

  • Outros imitam o grito de guerra. Uma espada corta o ar bem ao lado dorosto de Abro, errando-o por centmetros. Sem perder tempo, ele crava sua prpriaespada no corpo do inimigo. O caos toma conta do acampamento medida que ossoldados correm para apanhar suas armas. Mas, em meio confuso, eles noconseguem chegar s tendas: Abro e seus homens os ceifam como trigo, cortando-os e esmurrando-os. Ele tinha razo sobre o ataque surpresa.

    Atravessando uma pilha de cadveres, Abro encaminha-se at onde L estaprisionado.

    Deus est conosco! sussurra no ouvido do sobrinho enquanto corta a cordaque ata suas mos.

    A essa altura, a batalha est se tornando um massacre. Os inimigos fogemnoite adentro. Os homens de Abro os perseguem e os matam, pois sabem que, seno forem abatidos, os soldados iro voltar em algum momento para obter suavingana.

    A mulher de L chega ao lado do marido, puxa-o para perto e sussurra emseu ouvido, evitando o olhar de Abro.

    L exclama Abro, extasiado. No est vendo? To poucos de nscontra tantos deles! Este um triunfo do nosso poderoso Deus!

    Mas agora L quem no consegue olhar Abro nos olhos. O que foi? pergunta Abro. Seu instinto lhe diz que est prestes a ouvir ms

    notcias. Mas que m notcia poderia haver depois de tamanha vitria?L hesita e ento olha de relance para a esposa, que assente com a cabea. Abro Tio balbucia L. Estas so as palavras mais difceis que ele j

    teve de pronunciar na vida: Ns vamos continuar seguindo nosso caminho.Abro olha primeiro para um e depois para o outro, confuso. Para onde? pergunta. Sodoma. Sodoma? No pode estar falando srio. Vamos voltar para a cidade. Viveremos melhor por l.O rosto de Abro ca carregado. Essa no uma expresso que L v com

    frequncia, e ele sabe que deve tem-la. Abro faz um gesto amplo com o brao,indicando os corpos dos que morreram em combate. Conhece todos pelo nome.Conhece suas esposas e filhos e sabe que, ao voltar, ter que dar pessoalmente a eles anotcia de suas mortes. Eles lutaram com bravura. No entanto, a deciso de L fazcom que tudo tenha sido em vo. Abro sente uma tristeza profunda em seu corao.

    L, oua bem minhas palavras: esses homens morreram para salv-lo. Eu sei! E no tenho como retribuir o que eles zeram por mim. Mas

    tambm perdi homens justifica L. Se no fosse por eles, voc estaria morto pela manh diz-lhe Abro. Sua

    mulher teria sido um trofu para algum soldado sujo e para muitos de seusamigos. No venha me falar sobre os homens que perdeu.

  • Tio, veja bem, o seu Deus no cumpriu Suas promessas. No podemoscomer f. Tampouco podemos beb-la. Ela tambm no vai nos dar o que vestir.

    Mas eu irei fazer tudo isso, L. E Deus est cumprindo Suas promessas. Noest vendo? Meu pequeno grupo de pastores mal treinados derrotou um poderosoexrcito. De que outra forma isso seria possvel? Eu imploro: venha conosco!

    Por qu? diz a esposa de L, dando um passo frente com ousadia. Oque o seu Deus prometeu?

    Uma nao! Um futuro! Uma famlia! Um lho! responde Abro. Eleacredita em cada slaba do que diz.

    A sua mulher nunca lhe dar um filho zomba ela.Essas palavras magoam Abro que, arrasado, cai em silncio.A esposa de L prossegue: E quanto a comida? gua? Abrigo?Abro a ignora. Ele est exausto. A batalha deixou seus nervos em

    frangalhos. E agora isto? Ele pousa a mo no ombro de L. Sobrinho. Desta vez, devemos ficar juntos.L tinha os olhos baixos, mas sua mente estava decidida. Ele pousa a prpria

    mo na de Abro e a remove do seu ombro com delicadeza. No, tio. Ns precisamos ir.Enquanto os corpos dos feridos so colocados em carroas para serem levados

    de volta para casa, a esposa de L tenta argumentar com Abro. Venha conosco oferece.Abro olha no fundo dos olhos dela pelo que parece ser uma eternidade. Ento

    lhe d as costas, enojado, e passa andando pelos seus homens. Vamos ordena por sobre o ombro. Ele e seus soldados vo embora.O ar est pesado. L, ao lado da esposa, ca parado em silncio em meio aos

    inimigos abatidos, sabendo que Abro jamais voltar a confiar nele.Abro no olha para trs. Em vez disso, concentra seus pensamentos nas

    vivas que precisar consolar e nos amigos mortos que ter de enterrar. A partemais difcil ser encarar Sarai e lhe explicar como deixou L e sua mulher partirempara Sodoma depois do enorme preo que seus homens tiveram de pagar pararesgat-los. Ela sempre havia conado em sua sabedoria, mas, desta vez, Abrosabe que a decepcionou.

    Deus havia prometido a Abro uma terra repleta de leite e mel, assim comodescendentes to numerosos quanto as estrelas do rmamento. A f de Abro nuncase abala. Ele faz imediatamente tudo o que Deus ordena. Acredita Nele e em Suas

  • promessas do fundo do corao. Porm, est frustrado com o cronograma deDeus. Sua barba j est quase toda grisalha. Quando Sarai lhe dar um lhohomem? Ou mesmo uma lha? Apesar da idade, Sarai ainda conserva uma belezaincomparvel uma verdadeira princesa. As constantes tentativas de terem um lhofazem do estilo de vida nmade uma aventura ainda maior, mas a ideia de queAbro ser de fato o pai de muitas naes parece impossvel.

    Sozinho na noite fria do deserto, Abro ergue os olhos para o cu. Umafogueira arde at as ltimas brasas. O vento chacoalha a tenda atrs dele, onde Saraitreme enquanto dorme. Ele pensa nos homens mortos em batalha durante o resgatede L e na inutilidade de suas mortes.

    Abro sussurra Sarai, ainda trmula ao surgir de dentro da tenda. A luzdo fogo ilumina seu rosto. Ela est envolvida em uma manta feita de um tecidogrosso, que a protege do vento. Porm, mesmo coberta desse jeito, sua beleza deixaAbro sem flego. Entre diz ela com carinho, segurando a aba da tenda aberta.

    Abro tambm est tremendo. Ele v o interior da tenda, a cama deles, toquente e segura. Mas, em vez de aceitar o convite, d as costas para a esposa.Tornando a erguer os olhos para o cu, reete sobre a enormidade do Universoacima de si, com seus milhes de estrelas, como se compreendesse pela primeira veza imensido da criao de Deus.

    Ento ele cai. Abro! grita Sarai, correndo at ele. Quando olha dentro dos seus olhos, v

    apenas sua profunda crena nas promessas divinas. Todas essas estrelas Conte-as! Conte-as! exclama ele.Sarai segura a cabea de Abro, temendo que seu amado marido esteja

    enlouquecendo. Ela acaricia sua barba tentando acalm-lo. Nosso Criador, que fez as estrelas, nos dar essa quantidade imensa de

    descendentes! diz ele com f inabalvel, lembrando a si mesmo e a Sarai do queDeus lhe prometera. A chama nos olhos de Abro ca mais forte medida que suarevelao se desdobra. Para povoar a nossa terra! Para ns! E para nossos filhos!

    Agora a vez de Sarai parecer abatida. H quanto tempo oramos por filhos?Ele no responde.Ela olha bem fundo nos olhos de Abro e diz trs palavras muito duras: Eu. Sou. Infrtil. Mas Ele prometeu! Voc ter um filho! Ter, sim!Ela balana a cabea. No posso. E no terei. No h a menor chance de eu conceber uma criana.Eles se encaram por alguns instantes. O silncio ensurdecedor. Por m, Sarai

    fala devagar, com brandura e ponderao. tarde demais para mim, mas voc homem. Para voc, ainda h uma

    chance. Sarai morde o lbio. Ela puxa o marido para mais perto de si. Os

  • planos de Deus so muitos e Ele sempre cumpre as promessas que faz mas Suamaneira. Quem somos ns para dizer como os planos Dele se concretizaro?

    Do que est falando? Estou falando que Deus lhe prometeu que voc seria pai. No que eu seria a

    mulher que carregaria seus filhos.Sarai meneia a cabea em direo a tenda de Hagar, a bela serva egpcia. A

    luz de uma vela tremula l dentro. V at ela, Abro fala Sarai. Voc tem minha permisso.Abro olha para sua esposa, incrdulo. No diz ele com firmeza. No. No. No.Sarai assente, com uma expresso resignada no rosto. Sim diz ela, beijando-o com ternura. o que deve fazer.Abro se sente dividido. Sempre fora el a Sarai, acreditando ser o desejo de

    Deus que ele no se deitasse com nenhuma outra mulher. J havia notado a beleza deHagar, mas nunca se imaginara dormindo com ela.

    Sarai no consegue olhar para o marido enquanto o empurra com delicadezaem direo tenda.

    Voc precisa de um herdeiro diz ela baixinho. Deus lhe prometeu umfilho. Agora v.

    Abro puxa o rosto de Sarai para si, beija-a na boca e cola o corpo dela aoseu para que ela tenha certeza de que seu verdadeiro amor. Ento se levantadevagar e se encaminha para a tenda de Hagar. A tenda pequena, emconformidade com seu status social, a lona no to lustrosa ou resistente quanto adeles. Ela vem de uma terra diferente, com deuses diferentes. Abro no conhece oscaminhos de Deus. Talvez Ele queira que Abro se una a outras naes ao geraruma criana mestia e cujos descendentes representaro a mistura de duas tradiesreligiosas diferentes. Ele afasta a aba da tenda de Hagar e entra.

    A bela e estril Sarai se senta diante do fogo. Uma lgrima rola devagar peloseu rosto enquanto ela observa as chamas.

    Quando Abro sai da tenda de Hagar, Sarai consegue ver pela aba aberta que ajovem est dormindo. Sarai continua sentada diante do fogo, balanando-selentamente para frente e para trs. Seu olhar se cruza com o de Abro. Os olhos delaesto inchados e as lgrimas ainda escorrem pelo seu rosto. Ambos sabem que algose perdeu, sentem um peso estranho no corao. Mesmo com a melhor das intenes,eles talvez tenham se precipitado, no confiando em Deus.

    Abro percebe as lgrimas de cimes e arrependimento da esposa. Ela no

  • est feliz por t-lo dividido com outra mulher. Se ele tiver colocado um lho nabarriga de Hagar, Sarai jamais ter Abro s para si novamente. Todas as vezesque olhar para a criana, ela se lembrar daquela noite, da dolorosa sensao devazio dentro do seu peito. Sarai daria qualquer coisa para voltar atrs.

    Abro est atormentado. O que est feito, est feito, diz a si mesmo, noentanto. Por ora, ele afasta da mente a dura verdade de que forou a promessa deDeus a acontecer em seu prprio tempo, em vez de conar nos planos Dele. Ento,ajeita sua tnica e se encaminha para a tenda que divide com Sarai, que continua afitar as chamas.

    Os poucos momentos que passou com Hagar naquela noite lmpida no desertoiro mudar o mundo para sempre.

    Quatorze anos se passam.Ismael, o lho de Abro e Hagar, agora tem 13 anos de idade. O rapaz tudo

    o que um pai poderia esperar de um lho: compassivo, amoroso, engraado, forte ebonito. Sarai nem sempre compartilha da alegria de Abro. Sempre que olha paraIsmael ela se lembra daquela noite, no muito tempo atrs, em que ela e Abrodemonstraram sua falta de f ao agir por conta prpria, sem esperar que a promessade Deus se concretizasse no tempo que Ele determinasse. Um pensamento noabandona a mente de Sarai desde aquela noite: Deus tudo pode. Isso signica que Elepode fazer com que uma mulher infrtil engravide, seja qual for sua idade. Ela sabiadisso desde o incio. Devia ter confiado na promessa de Deus. Devia ter esperado.

    Abro agora tem 99 anos. Sarai tem 90. Eles vivem em um osis prximo deum lugar chamado Mamre entre palmeiras, cedros, gueiras e gua correntelmpida , ainda nas tendas que h tanto tempo chamavam de lar. No o paraso;tampouco a terra que Abro imaginou quando ele e seus seguidores partiram emsua jornada anos atrs. H muita discrdia entre o grupo, a comear por Sarai eHagar. Sempre que Sarai v Hagar e Ismael, ela sente uma pontada lancinante nocorao. Tornou-se uma mulher amargurada.

    Numa tarde de calor, enquanto Abro est sentado diante da sua tenda, oSenhor surge para ele.

    Eu sou Deus Todo-Poderoso diz para Abro, que se curva e leva a cabeaao cho, em louvor. Conrmarei a aliana entre ns. E aumentarei em muito osseus nmeros.

    Deus ordena que Abro mude seu nome para Abrao, que signica pai demuitas naes. Deste momento em diante, Sarai dever ser chamada de Sara, quesignica princesa. Deus tambm ordena que todos os homens da sua tribo,

  • chamados por alguns de hebreus, sejam circuncidados. A circunciso um sinal daaliana entre Deus e homem, e um lembrete fsico cotidiano da presena de Deus emsuas vidas. At Abrao, apesar de idoso, deve ter seu prepcio cortado.

    ento que Deus faz uma promessa chocante para Abrao: Sara dar luzum filho.

    Ela ser a me de naes. Reis sairo de seu ventre.A ideia faz Abrao rir. Ele no acredita que Sara possa dar luz. Mas Deus

    insiste, dizendo que uma longa linhagem de reis ter incio a partir destadescendncia.

    As palavras calaram fundo no corao de Abrao, enchendo-o de umaalegria que ele nunca havia sentido. Mal podia esperar para contar a Sara. E,embora lhe parecesse completamente impossvel que um homem da sua idade aindapudesse conceber um lho, Abro tambm lembrou a si mesmo que Deus tudo pode at trazer essa criana ao mundo.

    Abrao se volta para Deus para Lhe agradecer, mas Ele j haviadesaparecido.

    Um dia, no muito depois do ocorrido, Abrao est praticando arco e echacom seu filho. Ismael um bom atirador e no tem dificuldade em acertar o alvo.

    Muito bem, meu lho diz Abrao com orgulho. Ele se vira para a esposa: Voc viu isso, Sara? Viu o meu filho?

    Meu lho. No nosso lho sussurra ela com desdm. A velha voltapisando rme para dentro da tenda. Abrao suspira. J est habituado tensoconstante.

    Continue, Ismael diz ele para o rapaz.Hagar est por perto, observando a cena com orgulho materno. Sente-se feliz

    por seu lho ser o herdeiro de Abrao e pouco se importa com a tenso entre ela eSara.

    Quando Abrao vai apanhar as echas, v trs homens fortes e misteriosos aolonge, vindo na direo do seu acampamento. Vestem tnicas feitas de um tecidorenado. possvel ver o volume das armas debaixo das roupas de dois deles,embora o grupo no parea ameaador. Pelo contrrio, sua presena emana asutileza dos homens sagrados. Abrao sente uma anidade instantnea com eles e,como de hbito, desempenha com prazer o papel de bom antrio. Mas aqueleshomens parecem diferentes, de modo que os trata com mais respeito. Viajantes, emsua maioria andarilhos e vagabundos, passam frequentemente pelo acampamentode Abrao e recebem apenas gua e a hospitalidade bsica.

    Sua intuio est correta. Dois dos homens so anjos. O terceiro Deusdisfarado de mortal. Embora j tivesse ouvido a voz do Senhor, ele no Oreconhece.

    Sejam bem-vindos diz Abrao. Por favor, sentem-se.Ele indica um canto em que o grupo pode descansar sombra.

  • Esto com fome? pergunta. Sem esperar por uma resposta, Abraoordena que uma serva traga comida.

    Vocs vm de longe? prossegue Abrao. Sim, de muito longe responde um dos anjos. Um longo silncio se segue. Onde est sua esposa? pergunta o outro anjo.Abrao aponta para a tenda que divide com Sara.Por trs das paredes de lona, Sara ouve vozes estranhas, mas est cansada e

    sem disposio para entreter viajantes.O Senhor ento fala e faz uma previso audaciosa. Garanto-lhe que retornarei por volta desta poca no ano que vem e sua

    esposa, Sara, ter um filho.Sara ri em pensamento ao entreouvir essas palavras. Sem dvida esse

    homem, seja quem for, no sabe que a esposa de Abrao muito idosa e estril. Por que est rindo? diz o Senhor para ela.Sara quase morre de susto. Ela se vira para ver quem est falando, mas no

    h ningum na tenda. Eu no ri, pensa ela. Riu, sim responde o Senhor, com a voz gentil. Sara torna a se virar

    depressa para ver quem lhe est pregando aquela pea. Mas est sozinha.Deus prossegue: Para que nunca se esquea de como duvidou de Mim, quando seu lho

    nascer, voc lhe dar o nome de Isaque, que significa risada.Sara sente o poder de Deus e se enche de esperana. Lgrimas escorrem pelo

    seu rosto. Ela corre at onde seus dolos de fertilidade esto escondidos, apertando umdeles em suas mos at reduzi-lo a p. Enquanto os gros de argila escorrem pelosseus dedos, ela cai de joelhos e agradece a Deus.

    chegada a hora de os trs estranhos partirem. Abrao os havia tratado comextrema gentileza e deferncia. Trouxe gua para limpar-lhes a poeira da estrada dosps. Preparou-lhes um bezerro gordo e lhes serviu uma refeio suntuosa, comdireito a coalhada, leite e nas fatias de po. Aqueles estranhos imponentes emisteriosos eram especiais, e Abrao se deleitara com a honra de receb-los.Chamou a si mesmo de servo, chegando at a se afastar enquanto eles comiam,esperando at ser convocado. Os homens mantiveram seu ar distante, poucodisseram aps sua audaz previso e aproveitaram a comida e a sombra fresca.

    Quando o sol da tarde fica mais fraco, eles se levantam para ir embora. Para onde vo? pergunta Abrao com cautela, ainda sem se dar conta de

    quem eram seus hspedes.

  • Um dos anjos olha para Deus pedindo permisso para responder.Deus assente com a cabea. Estamos aqui para decidir o destino de Sodoma responde o anjo

    solenemente, puxando para trs o capuz que lhe cobre a cabea.O outro anjo faz o mesmo e os dois vo embora, deixando Deus sozinho com

    Abrao. Ele est preocupado, pois seu sobrinho L ainda vive em Sodoma.Deus caminha com Abrao at o topo de uma colina, de onde possvel ver

    Sodoma ao longe. Devo esconder de voc o que estou prestes a fazer? pergunta-se o Senhor em

    voz alta. Voc se tornar uma nao grande e poderosa, e todos os povos da Terrasero abenoados atravs de voc. Pois Eu o escolhi para que ordenasse aos seuslhos e sua famlia a se conservar no caminho do Senhor e a fazer o que certo ejusto, para que Eu possa cumprir a promessa que lhe fiz.

    Abrao ca pasmo ao perceber que est diante de Deus. Quem mais poderiaser? Esta a maneira como Deus tantas vezes lhe falara: com sinceridade, como umamigo ou servo de conana. E Abrao ca igualmente pasmo ao se dar conta deque a destruio de Sodoma signicar a morte de L. Apesar de suas diferenas,Abrao o ama como a um filho e teme pela sua segurana.

    Abrao rene coragem e pergunta para Deus: Mas o Senhor exterminar tanto os mpios quanto os justos? Se encontrar 50 homens justos em Sodoma, Eu pouparei toda a cidade por

    amor a eles responde Deus.Abro reete sobre a questo por alguns instantes. Ele conhece Sodoma, sabe

    que a regio mais vil que existe. Duvida que haja real possibilidade de se encontrarsequer 10 homens justos ali, quanto mais 50. Ento, respira fundo e torna a falar:

    Agora que j tive a ousadia de me dirigir ao Senhor, embora eu prprio nopasse de p e cinzas e se o nmero de homens justos for 50 menos cinco?

    O Senhor ama Abrao, e a aliana entre eles um vnculo poderoso. Emnome desse amor, Deus responde:

    Se eu encontrar 45 homens justos, no destruirei Sodoma.Abrao se enche de coragem, querendo desesperadamente salvar L. E se encontrar apenas 40 homens justos? Ento pouparei a cidade por amor a eles. Rogo ao Senhor que no se irrite, mas deixe-me falar prossegue Abrao,

    apreensivo. E se forem apenas 30? No destruirei a cidade se nela encontrar 30 homens justos.E assim continua, Abrao barganhando em prol do povo de Sodoma

    enquanto o Senhor gentilmente faz concesses, at que o nmero de homens justoschega a 10. Ento, Deus vai embora. Abrao ca sozinho na estrada, receoso porSodoma e por seu sobrinho. Ele sabe, assim como o prprio Senhor, que sua ousadanegociao foi em vo. Em toda Sodoma, no h 10 homens justos.

  • Na verdade, h apenas um.Deus, naturalmente, sabe disso. Ele negociou com Abrao apenas para

    rearmar a aliana entre os dois. O medo que Abrao sente de ver Sodomadestruda demonstra quo profunda sua compaixo, e Deus quis honr-la. Agora,est nas mos daquele nico homem justo salvar a si mesmo e sua famlia.

    L est sozinho diante do porto de entrada de Sodoma. J noite. O deserto almdas muralhas agradvel e perfumado, em ntido contraste com as ruas da cidade,que cheiram a urina e vmito. L adora respirar o ar noturno do lado de fora dacidade. A brisa est fresca depois de um dia longo e quente e ele se delicia com a pazdaquele local. Ele e sua esposa agora tm duas lindas lhas. A cidade famosa porseus vcios e depravaes; um lugar de idolatria que no s virou as costas paraDeus, mas que se vangloria desse fato. A esposa de L gosta muito dali e recusouseus vrios pedidos para que fossem embora. Ele tem a sensao de que a vida muito curta para estar to distante de Deus. L teme pelas suas lhas, receoso de que,depois de crescidas, elas se tornem to libidinosas e incrdulas quanto as mulheres deSodoma. Corta seu corao imaginar suas belas meninas levando uma vida definidapela luxria, e no pelo amor; pelo medo, e no pela f.

    L suspira. No h nada que possa fazer a respeito. O que ser, ser. At o diaem que sua esposa decida ir embora de Sodoma um dia que ainda acredita estarpor vir , L simplesmente suporta sua vida, em vez de viv-la em sua plenitude.

    Sozinho diante dos portes da cidade, tando a vastido do deserto, Lconsegue ouvir msica e gargalhadas estridentes transbordando das tavernas. Ouveos gemidos de homens e mulheres fazendo sexo em becos escuros e sujos. Caso sevirasse naquele exato instante, poderia ver um jovem casal quase despido seapalpando, prostitutas praticamente nuas oferecendo o prprio corpo, um grupo depercursionistas entretendo um bando de bbados e um co raivoso amarrado a umposte, rosnando alto para todos os que passavam e louco para abocanhar carnehumana. No era exatamente um bom lugar para se criar uma famlia. L umhomem honrado, o que o torna um cidado raro. A perversidade de Sodoma lhecausa grande perturbao. por isso que ele sai para fitar o deserto.

    Dois homens encapuzados atravessam a passos rmes o porto da cidade.So corpulentos e possuem a expresso serena de guerreiros que no temem homemalgum. Caminham com determinao, como se estivessem ali a negcios. Os doisestranhos parecem deslocados naquelas ruas. O corao de L acelera no peito. Pelaprimeira vez em um bom tempo, tem a sensao de que no o nico homem justopor ali. Ele se levanta depressa e corre para alcan-los.

  • Senhores exclama L , sejam bem-vindos a Sodoma. Convido-os apassarem a noite na minha casa. L podero lavar seus ps e jantar.

    No responde um deles. Passaremos a noite na praa.L est determinado a no aceitar um no como resposta. Assim, pouco

    tempo depois aqueles guerreiros espirituais entram em sua casa, onde seu antriolhes oferece uma refeio simples e lhes mostra onde iro dormir.

    Dentro da casa de L, uma lamparina fraca est acesa, iluminando os rostosde L, de sua esposa, de suas duas lhas adolescentes e daqueles estranhosmisteriosos.

    Ouve-se uma grande confuso do lado de fora e, de repente, punhos esmurrama porta. A mulher de L e as meninas se abraam, apavoradas.

    Abram! Expulsem os estranhos! grita uma voz. Ou queimaremos estacasa!

    Eles no lhe fizeram mal e so meus convidados. Deixe-os em paz grita Lde volta, por trs da grossa porta de madeira.

    Onde esto os homens que chegaram cidade mais cedo? grita a voz,mais alto e com mais insistncia do que antes. Entregue-os para ns!

    L busca uma grande coragem dentro de si. Ele sai para enfrentar o povo deSodoma, jovens e velhos reunidos numa turba, um homem contra muitos. Tentaargumentar com eles, mas o grupo ca ainda mais agressivo. L dentro, osestranhos permanecem em silncio, ouvindo cada palavra e admirando a bravura deL. Sua esposa se agarra s lhas, desejando nunca ter encontrado aquelesforasteiros. Sua vida tinha sido virada de ponta-cabea mais uma vez.

    L percebe que suas tentativas de negociar se mostraram inteis e comea arecuar para dentro de casa, mas ento a turba ataca. O grupo passa por ele com oobjetivo de arrombar a porta. L tenta afast-los com um cajado, manejando-o comhabilidade. como se ele fosse um novo homem, repleto de esprito guerreiro.Quando o lder da multido agarra o cajado e o puxa para si, com uma expressosdica no rosto, L se recusa a solt-lo, mas sua coragem no preo para a forado homem.

    Fique fora disso diz o lder do grupo, cuspindo no rosto de L. Afaste-se ordena um dos anjos. Ele d um passo frente e fecha os olhos,

    como se orasse. O segundo anjo se junta a ele. Uma rajada repentina de vento soprapela casa e desloca-se na direo das ruas, acompanhada pelo ribombar de umtrovo. A hostilidade do lder da turba substituda pelo medo. L d um passo paratrs, sem entender o que est acontecendo. O homem coa os olhos, esfregando-oscom fora, at lgrimas de sangue escorrerem pelo seu rosto.

    Estou cego grita. Estou cego!Mas ele no o nico. Um a um, os demais membros da turba gritam de

    horror ao perceber que tambm esto cegos. Os que ainda conseguem ver camainda mais enfurecidos e se lanam para frente em busca de vingana. Porm, antes

  • que possam dar o primeiro passo, os dois anjos despem suas tnicas, revelandoarmaduras incrveis, forjadas com maestria, mais resistentes do que qualquer lanaque se possa atirar contra elas.

    Um anjo saca duas espadas curtas e se pe a brandi-las como um exmioespadachim. O outro no v necessidade de perder tempo com sutilezas. Umaenorme espada de lmina larga pende da sua cintura. Com um nico movimentorpido, ele a saca e faz um dos adversrios de L pagar pelo seu comportamento. Ohomem cai ao cho.

    Precisamos sair daqui! diz o anjo para a famlia de L. Apressem-se.L e sua famlia hesitam; no entanto, eles no tm escolha. Os anjos os

    arrancam fora de dentro da casa, empurrando-os pelos ombros atravs damultido, sem lhes dar a chance de voltar atrs ou desacelerar o passo.

    No parem de correr! grita o primeiro anjo. Por nenhuma razo.Enquanto um dos anjos os conduz pelas ruas, o outro protege a retaguarda.

    Eles brandem suas espadas contra a multido, derrubando um homem atrs dooutro em sua misso de levar a famlia de L para um lugar seguro. Eles sabem,como Deus sabia quando barganhou com Abrao, que os nicos cidados justos deSodoma so os da famlia de L. Deus est prestes a destruir a cidade. Todos ali irosofrer uma morte terrvel, e o local desaparecer sem deixar vestgios. A no ser queL e sua famlia fujam imediatamente, sofrero o mesmo destino.

    Sem nenhum aviso, fogo comea a cair dos cus. Uma bola amejante seprecipita em direo s ruas com um sibilo e um estrondo repentinos. A esposa de Lca quase paralisada de pavor e sente o calor daquela exploso, mas o segundo anjoa obriga a seguir em frente aos tropeos.

    A turba continua a segui-los ao mesmo tempo que mais uma bola de fogoatinge Sodoma. E depois outra. O segundo anjo para de correr e usa a ponta aadada sua espada para desenhar um crculo ao redor de si no cho de terra batida.Enquanto L e sua famlia continuam sua fuga desesperada rumo liberdade, eleenfrenta todos os que se aproximam, ceifando-os como se no passassem degravetos.

    Enquanto isso, na encosta da colina que d vista para Sodoma, Abrao testemunhahorrorizado as chamas se erguerem medida que as construes da cidadecomeam a queimar. Bolas de fogo continuam a cair do cu, acompanhadas derelmpagos e do perturbador ribombar dos troves.

    Ele teme por L e sua famlia enquanto observa a cena pavorosa e ora paraque seu sobrinho saia de l vivo.

  • Deus est atrs dele, mas Abrao no pode v-Lo.

    Em Sodoma, construes de pedra comeam a desmoronar. O fogo consome amadeira e a palha dos telhados. Vigas desabadas prendem muitas famlias em suasprprias casas, e os gritos dos que sofrem a agonia de ter suas peles queimadas pelaschamas rasgam a noite.

    Depois de nalmente derrotar todos os seus oponentes, o segundo anjovingador alcana a famlia de L.

    Ao nos salvar, vocs salvaram a si mesmos diz o primeiro anjo. Suadeciso de nos ajudar foi um teste divino da sua retido. Fujam da cidade e noparem de correr. Mas lembrem-se: no olhem para trs. Acontea o que acontecer.

    Os anjos desaparecem diante dos olhos maravilhados de L e sua famlia. Elesento se veem envoltos pela escurido, exceto pela luz do luar e pelo fogo distante queconsome Sodoma.

    Sigam em frente grita L , e no olhem para trs.Eles correm sem parar, seus ps chutando a areia do deserto medida que

    fogem rumo a uma nova vida. Um relmpago monumental ilumina de repente ocu, caindo com estrondo sobre as runas de Sodoma. Ento, com uma ltimaexploso brilhante, a cidade desaparece. L ouve sua esposa arquejar. Ele a ama detodo o corao, mas sabe muito bem quanto ela teimosa e orgulhosa. Antes que amulher cometesse o erro contra o qual haviam sido alertados pelos anjos, ele lhepede:

    No olhe para trs!Mas ela no consegue conter sua curiosidade. Simplesmente precisa ver com

    seus prprios olhos o que est acontecendo cidade que passou mais de uma dcadachamando de lar.

    A ltima coisa que v uma exploso de luz. Seus olhos cam cegos, seucorpo paralisado e ela se transforma em uma coluna de sal.

    Uma ventania sopra. L se limita a olhar, incrdulo, para aquilo que antes erasua esposa. Ele observa com uma agonia esmagadora as rajadas de ventocastigarem a escultura de sal. Logo, pedaos dela comeam a se soltar e desaparecemna noite escura. O vendaval no para at toda a coluna ter sido reduzida a p e sersoprada para longe.

    Temendo sofrer o mesmo destino, L e suas lhas fogem para salvar suasvidas. No ousam olhar para trs. Como se os perseguissem, os gritos incessantesdos habitantes de Sodoma se propagam pelo deserto. A alvorada rompe nohorizonte enquanto eles correm. o comeo de um novo dia, de uma nova vida para

  • L e suas lhas. Eles correm sem parar, atravessando o deserto e subindo rumo segurana das colinas, onde vivero pelo resto de seus dias.

    O tempo passa: do acampamento de Abrao, vem o urro angustiado de umamulher sofrendo as dores do parto. Sara est agachada dentro de sua tenda,acompanhada por uma parteira. L fora, Abrao anda de um lado para o outro,nervoso. Est extasiado pelo fato de sua esposa estar lhe dando um filho.

    Os gritos de Sara cessam, substitudos pelo som de um beb recm-nascidosorvendo o ar pela primeira vez, para em seguida berrar to alto que seu choro podeser ouvido por todo o vale.

    Quando Abrao d um passo frente para entrar na tenda, seu olhar se cruzacom os de Hagar e Ismael. O rapaz, agora um adolescente, robusto e bonito, almde muito parecido com os pais. Se o beb for menina, Ismael continua sendo oprimeiro na linha de sucesso. Se for menino, ele perder o direito herana, deacordo com a tradio hebraica.

    Abrao afasta a aba de entrada da tenda. Sara segura o beb diante do seio,cheia de alegria. O marido se inclina sobre ela, que, sem dizer uma s palavra, lheentrega a criana. Lgrimas se acumulam nos cantos dos olhos dele ao segur-la.

    Um menino sussurra Sara, radiante. Exatamente como Deus prometeu diz Abrao, maravilhado. Somente o

    Todo-Poderoso pode fazer o impossvel.Abrao ergue o beb no ar. Seu nome ser Isaque.Ele e Sara comeam a gargalhar de felicidade.Do lado de fora da tenda, Hagar e Ismael ouvem a comoo e, sem que

    ningum precise lhes dizer, sabem que o beb um menino. Hagar passa o brao emvolta da cintura do filho, na esperana de consol-lo.

    Um ano se passa. A tenso no acampamento de Abrao aumenta dia a dia. Aguerra silenciosa pelo afeto de Abrao se d entre Sara e Hagar, que se ressentem decada instante que ele passa com a rival. Abrao precisa se desdobrar para tentarmanter a paz entre as duas mulheres, mas no nada fcil. A tenda de Abrao eSara sempre armada perto da de Hagar e Ismael, de modo que o rapaz queprximo ao pai. Cada palavra e gesto de Abrao rigorosamente examinado pelas

  • duas mulheres.Sentada na sombra diante da sua tenda, Sara est feliz e cantarola baixinho

    uma cano de ninar para o pequeno Isaque. O ar cheira a lenha da fogueira e apoeira do deserto. Isaque j sabe andar e est comeando a formar palavras, masnesse instante est dormindo em seu bero. Para Sara, que no consegue desgrudaros olhos do beb, ele a criatura mais perfeita do mundo. Ento ela v Abraochegar ao acampamento e abraar Ismael, que veio correndo lhe mostrar seu novoarco e echa. Abrao gira o arco nas mos, analisando-o em busca de imperfeies.No vendo nenhuma, o pai despenteia os cabelos de Ismael com ternura.

    Bom diz ele para o filho , muito bom.Hagar est sentada em uma almofada de frente para Ismael, olhando para o

    lho com a mesma expresso amorosa que Sara dedica a Isaque. Ela seria capaz dequalquer coisa por ele.

    Sara! chama Abrao, encaminhando-se a passos largos em direo suatenda. Ele no percebe a expresso de mgoa no rosto de Ismael quando o paitransfere abruptamente sua ateno para a esposa.

    Abrao se agacha para entrar na tenda. Sara est sentada em uma almofadagrossa, agora com o pequeno Isaque nos braos. Seu humor de repente coupssimo, como Abrao rapidamente percebe.

    Qual o problema? pergunta ele, embora saiba muito bem o que estincomodando Sara.

    Aquela mulher acha que o lho dela vai herdar o que pertence a Isaque pordireito sibila ela.

    Abrao se faz de desentendido, como se a questo da herana nunca tivesse lhepassado pela cabea.

    Do que voc est falando? Quem ser o primeiro de toda a nossa tribo, Abrao? A primeira estrela

    dentre todas as demais no firmamento?Abrao se aproxima at estar a poucos centmetros de sua esposa, para que

    suas palavras fiquem somente entre eles. No precisamos discutir isso agora. Ah, precisamos sim. Vai ser o nosso filho? Ou o dela?Abrao tem dificuldade em responder pergunta. Sara, eu Decida! Agora mesmo! Fui clara?Isaque balbucia M-m como se estivesse louco para entrar na conversa.Sara olha para o marido. Eles j passaram por muita coisa juntos, mas

    como se o visse pela primeira vez. Ou voc decide diz ela com uma voz rme, porm furiosa , ou deixe Deus

    decidir. Ela sai como um furaco da tenda, carregando Isaque no colo.Abrao, sentindo o peso da noite que havia passado com Hagar tanto tempo

  • atrs, senta-se e reete sobre o destino de seus dois meninos. Ele ora a Deus pororientao e a recebe. Embora a ideia o encha de tristeza, ele sabe que deve seguir asinstrues que o Senhor deposita em seu corao naquele instante. Deus diz a Abraoque d ouvidos a Sara. Isaque quem deve receber a herana. Essa a Sua deciso.Isso signica que no h mais lugar para Hagar e Ismael no acampamento, mas oSenhor o tranquiliza, assegurando-lhe que ir cuidar deles e que os lhos de Ismaeltambm iro se tornar uma grande nao.

    Abrao est arrasado ao dar a notcia de que Ismael ter que se lanar ao mundo ebuscar sua prpria sorte, mas nada se compara maneira como se sente enquantoHagar e seu lho se prepararam para partir rumo ao deserto. manh. Po zimo virado sobre um fogo baixo. Hagar guarda dois pedaos ainda quentes em umsaco pequeno. Ismael vem ajud-la. Ele est calado e triste, mas isso no abala suadevoo me. Para a viagem, usa apenas sandlias, um leno na cabea e umatnica que lhe vai at os joelhos. Hagar est vestida praticamente da mesma forma,exceto por uma tnica com capuz para proteg-la da brisa fria do deserto.

    Abrao os espera nos limites do acampamento, segurando um odre nasmos. Coloca a ala sobre o ombro de Ismael e deixa que sua mo se detenha comternura no filho por alguns instantes.

    Adeus balbucia ele, tomado pela tristeza. Ele olha Ismael nos olhos. Meumenino, Deus um dia ir abeno-lo com muitos lhos. Seus prprios olhos seenchem de lgrimas.

    Ismael permanece calado, mas seus olhos analisam os traos de Abrao,memorizando a aparncia do pai. O rapaz se mantm impassvel. Sara caafastada. Isso tudo est acontecendo por causa dela, que sabe muito bem que essaexigncia pode levar morte de Hagar e Ismael. Sabe tambm que foi ela quemcriou o problema ao insistir que Abrao se deitasse com Hagar. E essa a suasoluo. Sara ca surpresa ao notar que no sente prazer em expulsar Hagar eIsmael dali. Por mais que seja uma atitude cruel, ela no uma mulher cruel. Noentanto, tem certeza de que o que precisa ser feito. Se no zesse isso, elesenfrentariam graves problemas quando os dois lhos de Abrao se tornassemadultos.

    Abrao e Sara cam observando Hagar e Ismael comearem sua jornada.Num instante, eles no passam de pontinhos ao longe; no momento seguinte,desaparecem.

    Seja forte diz Hagar para Ismael, embora tambm o esteja dizendo para simesma. Os dois vagaro sozinhos pelo deserto, porm ela cona que Deus ir

  • proteg-los. Hagar ora a Deus por ajuda, e Deus a oferece. Em menos de umasemana, eles caro sem gua e Hagar temer por suas prprias vidas. Nessemomento, um anjo do Senhor surgir, prometendo a Ismael que um dia ele sertornar o lder de uma grande nao. Depois que o anjo for embora, um poo cheiodgua aparecer de repente para Hagar e Ismael, salvando-os da morte.

    Mais dez anos se passam.Isaque sai da tenda da sua famlia, cuja entrada ornada com borlas e seu

    tecido listrado. Ele boceja e se espreguia enquanto passa pelo curral das cabras esegue at o fogo, onde Sara est moendo gros para fazer farinha para o pomatinal.

    Abrao j est acordado h horas. Sua idade avanada comea a pesar e,embora tenha dormindo a noite inteira, est exausto. A vida no tem sido a mesmadesde que expulsou Hagar e Ismael. Abrao v sua vida escapar-lhe pelos dedos.No se sente o lder que Deus queria que ele fosse. No se sente digno de Deus, daTerra Prometida ou da perspectiva de ter tantos descendentes quanto as estrelas dormamento. Sua f no foi abalada e ele no se afastou dos planos do Senhor desdeaquela noite em que sua falta de conana o levou tenda de Hagar. Envelhecendo acada dia que passa, Abrao questiona seu propsito na Terra.

    O vento ca mais forte e sopra os gros para dentro do fogo. Abrao olha aoredor e percebe que est completamente sozinho. Todos no acampamento, incluindoSara e Isaque, desapareceram.

    H muito tempo que o Senhor no falava com Abrao, mas ele ainda conheceSua voz.

    Um sacrifcio? sussurra para Deus.Abrao est habituado a oferecer sacrifcios para o Senhor. Em um abate

    ritualstico, o pescoo do animal cortado e ele ento oferecido como sinal deagradecimento. Em seguida, o animal queimado em uma fogueira a cu aberto.

    Deus continua a lhe dar os detalhes de Seu pedido.A princpio, Abrao no entende o que est ouvindo. Ento, ao se dar conta do

    que Deus est dizendo, fica horrorizado. No sussurra ele. Por favor, no. J no Lhe demonstrei f o suciente?

    Querido Deus, farei qualquer sacrifcio que me pedir. Qualquer coisa agora, elemal consegue falar , qualquer coisa, menos Isaque.

  • Essa a vontade de Deus. Com o corao pesado, Abrao vai at a tenda e apanhaa melhor de suas facas. Ele e seu povo esto acampados aos ps de uma grandemontanha do deserto, o monte Mori. Enquanto o sol se ergue cada vez mais alto nocu, Abrao sai em busca de Isaque, a faca presa com rmeza bainha em suacintura.

    Ele o encontra comendo po com Sara. Coma mais incentiva ela. Como vai crescer se no se alimentar?Quando v Abrao se aproximando, contudo, ela para de falar. Sara nota a

    perturbao no olhar do marido, mas ele parece determinado. No lhe restamdvidas de que algo est prestes acontecer.

    Abrao? diz ela com cautela. Deus deseja um sacrifcio fala Abrao, estendendo a mo ao lho. Ele

    estremece quando o menino coloca a palma da mo em seu punho musculoso. Venha comigo.

    Sim, senhor responde Isaque com animao, ento sai correndo paraapanhar sua bolsa para a longa e rdua escalada.

    Abrao conduz o lho pelo monte Mori, deixando Sara confusa, masacreditando que o marido ir levar um dos carneiros do curral para oferecer comosacrifcio.

    Nuvens carregadas comeam a surgir no cu e Abrao e Isaque ouvem o leveribombar de um trovo que se aproxima. Os dois juntam lenha para uma fogueira,e a cada graveto e galho que Isaque entrega ao pai, Abrao se sente maisatormentado pelo que est prestes a fazer. Isaque, o lho leal e obediente que eleacreditava que um dia daria incio a uma dinastia, deve ser morto. Isaque, o lhopelo qual ele e Sara tanto oraram, deve ser morto. Isaque, o jovem belo e corajosoque o orgulho de Abrao, deve ser morto. Deus exigira que aquele menino inocentefosse entregue em sacrifcio.

    Pai? comea Isaque, entregando-lhe um novo punhado de gravetos.Abrao pega a lenha das mos do filho. Obrigado diz ele. Vamos apanhar mais um pouco.Logo o feixe est to grosso que Abrao o amarra com uma corda e o prende

    s costas de Isaque para que ele possa carreg-lo com mais facilidade. Em seguidaAbrao faz outro feixe, que ento apoia no ombro para a escalada at o cume.

    Agora j chega de lenha diz ele para Isaque. Vamos subir. Mas por que estamos indo direto para o topo? pergunta Isaque. Temos a

    lenha para o sacrifcio, mas ainda precisamos descer para apanhar o carneiro.Abrao suspira. Seu corao est pesado. Deus prover o sacrifcio, meu filho.No acampamento, Sara ca to angustiada que vai ao curral para contar o

    rebanho. Todos os animais esto l. Para seu horror, percebe que Abrao no levounenhum carneiro consigo. Ela cai de joelhos. Ser possvel que o sacrifcio seja, na

  • verdade, do seu adorado Isaque? Ser Isaque o Cordeiro de Deus? Ela se levantapara ir atrs dos dois.

    No topo da montanha, a tempestade ca mais violenta. Por estranho queparea, o cu est completamente claro, mas em seguida ca negro. O vento sopraem turbilho. As nuvens parecem to grossas e baixas que como se eles pudessemtoc-las. Abrao sabe que no h maior sacrifcio do que um pai oferecer seuprprio filho. Este o mais duro teste de f que ele j teve de enfrentar. Abrao ama aDeus, mas no est certo de que conseguir fazer o que Ele lhe pediu.

    Com as mos trmulas, Abrao larga a madeira e comea a erguer um altarde pedra. Usando as rochas espalhadas pelo topo da montanha, ele monta comcuidado uma estrutura na qual deitar sua oferenda. Pedra por pedra, Abraoconstri o altar. J fez isso inmeras vezes no passado, de modo que trabalhadepressa.

    Ento, Isaque torna a perguntar: Pai, onde est o sacrifcio? Vai ser um cordeiro ou um carneiro adulto?

    Isaque est intrigado, pois eles no trouxeram nenhum animal consigo e no vnenhum outro no topo da montanha.

    Jehovah-jireh responde Abrao com esperana, invocando uma frasecomum que significa o Senhor prover.

    Quando chega a hora de fazer o que deve, Abrao segura com fora as mosdo lho e comea a amarr-las com uma corda. Isaque se debate, mas apenas porum instante. Abrao xa no menino um olhar que o congela no ato, deixando-oassustado demais para desobedecer.

    Voc precisa conar em Deus fala Abrao, engasgando de angstia aodizer essas palavras.

    Isaque, apesar de muito confuso, assente. Abrao continua a amarrar-lhe asmos. Em seguida, ergue o lho e o deita sobre o altar. Uma ventania feroz fustigaAbrao. Isaque olha para a faca na mo do pai, aterrorizado. Abrao olha para ocu, sem saber ao certo por que precisa fazer aquilo. Ele levanta a faca com as duasmos, erguendo-a bem acima da cabea. Detm-se nessa posio, sabendo que eminstantes enfiar a lmina bem fundo no pescoo do prprio filho.

    Isaque olha para cima, com a respirao curta e acelerada. Seus olhos estoarregalados de pavor.

    Abrao sente as mos se apertarem em volta do cabo da faca. Ele quer acabarcom aquilo de forma rpida e indolor. Isaque no deve sofrer.

    Ele respira fundo e lana a faca para baixo. Abrao! exclama uma voz.Ele para no meio do golpe, a faca suspensa a poucos centmetros de Isaque.A voz pertence a um anjo, que Abrao v parado em um dos lados do altar,

    perto de um arbusto. No machuque seu lho diz o anjo. Voc j provou sua f em Deus. O

  • Senhor ir abeno-lo com descendentes to numerosos quanto as estrelas dofirmamento.

    Abrao d as costas ao anjo e olha para Isaque. Pai e lho esto s lgrimasenquanto ele desamarra as cordas. Isaque olha para o local em que o anjo estava,mas ele no se encontra mais ali. Em vez disso, ambos veem, incrdulos, umpequeno cordeiro branco preso entre os galhos do arbusto.

    Deus havia providenciado o cordeiro para o sacrifcio.

    Enquanto isso, Sara est subindo a montanha s pressas para tentar impedirAbrao antes que seja tarde demais. Mas ela velha, de modo que no consegueandar muito rpido. Em seu corao, ela teme que a tragdia seja inevitvel e quenunca mais tornar a ver seu amado Isaque. Seu lho adorado, pelo qual elaesperou 100 longos anos, talvez esteja morto. Mesmo assim, ela segue adiante, semparar para descansar. Com a respirao pesada, ora pela vida de seu lho. Por m,d um ltimo passo e chega ao topo.

    Uma vez ali, Sara v a cabea, os olhos e o belo e radiante sorriso do seuIsaque. Ele est vivo. Isaque corre em direo me, seguido por Abrao. Saraenvolve seu menino nos braos, soluando e gritando palavras de louvor a Deus.

    Abrao se junta ao abrao. Sua f em Deus havia sido testada, mas ele semdvida passara no teste.

    Anos aps sua morte, os bisnetos de Abrao fundaro as 12 tribos de Israel, quesero assim batizadas porque seu pai, Jac (lho de Isaque), tambm chamado deIsrael. Isso, no entanto, no garante que a harmonia se espalhe pela regio, oumesmo o surgimento de um reino poderoso, pois h grande rivalidade entre osirmos. Essa inveja intrafamiliar em grande parte direcionada a Jos, o dcimoprimeiro lho. Jac no escondia que o rapaz de 17 anos era o seu favorito. Osdemais irmos tramam s escondidas uma maneira de se livrar dele.

    Um dos smbolos do amor de Jac por Jos uma deslumbrante e suntuosatnica multicolorida. Jac no possui o bom senso de tratar todos os seus lhos comigualdade. Como Abrao havia descoberto no passado, qualquer grupo seja elegrande ou pequeno precisa de uma liderana sbia, e isso que falta a Jac. Dadaa Jos como um presente, a tnica passou a simbolizar tudo o que os irmosdesprezam a seu respeito. O mais sensato seria no us-la, mas o rapaz no

  • consegue evitar, o que s serve para deixar os outros ainda mais furiosos.Um dia, nos campos que se estendem para alm da propriedade da famlia, os

    irmos encurralam Jos. Eles o derrubam no cho e se juntam ao redor dele.Simeo, um dos irmos mais velhos, puxa com raiva a tnica vistosa.

    D isso para ns exige ele. No retruca Jos, desafiador.Em seguida, ouve-se o som de tecido se rasgando. Os irmos riem e puxam

    vigorosamente a tnica, enquanto Jos grita de agonia. Empurram sua cabeacontra o cho e chutam terra em seu rosto. A situao rapidamente foge ao controle elogo fica bvio que os rapazes pretendem fazer muito mal a Jos.

    Vou mat-lo promete Simeo. No diz Rben. No devemos derramar o sangue do nosso irmo.Ningum sabe o que fazer, mas eles tambm tm conscincia de que no

    podem parar o que comearam. Jos arrastado pelos braos atravs do chopedregoso, engasgando em poeira e temendo pelo pior.

    Olhem! diz Jud.Jos logo compreende qual ser o seu destino. Ao olhar para onde seu irmo

    aponta, v uma leira de animais de carga e uma la indiana de homens atados unsaos outros. Trata-se de uma caravana de escravos que atravessa Israel a caminhodo Egito com um novo lote de homens para ser vendido.

    Pouco tempo depois, Jos observa, incrdulo, um saco de moedas ser passadopara as mos de Simeo. Os mercadores de escravos o agarram e passam umacorda pelos seus punhos e pescoo. Vestido agora apenas com uma tangaesfarrapada, ele tropea na areia. Mas, no mesmo instante, um puxo da corda emvolta do seu pescoo o obriga a seguir em frente.

    Os irmos de Jos no sentem nenhuma tristeza enquanto o observam serconduzido para uma vida de escravido. O que est feito, est feito. Agora, elesdevem encontrar uma maneira de ocultar do pai seu gesto desprezvel.

    A tnica de Jos jaz em frangalhos na terra rachada. Simeo e os outros irmosderramam sangue de um bode morto sobre o tecido at ele estar encharcado. Ento,assumindo as expresses mais solenes e inconsolveis de que so capazes, eles seaproximam do pai para lhe dar a terrvel notcia.

    Simeo puxa a aba de entrada da tenda de Jac e mostra a tnica ao pai. No diz Jac, o sorriso desaparecendo do seu rosto. Ele passa a mo

    por um dos buracos no tecido. Um animal selvagem fez isso?Simeo encolhe os ombros, impotente.

  • S pode ter sido. No vimos o que aconteceu. Por qu? brada Jac para os cus. , Senhor, por qu?Ele enterra o rosto na tnica. Benjamim, que aos 10 anos o mais jovem de

    seus lhos, observa a cena, desamparado. Ele jurou manter silncio e sabe muitobem que no deve trair seus irmos. O rosto de Jac, agora sujo de sangue, logo manchado pelas lgrimas. Seu filho est morto. Nunca mais voltar a v-lo.

    Jos vendido para uma famlia egpcia rica e parece ter garantido para si mesmouma vida de tranquilidade. Porm, quando resiste s investidas romnticas daesposa de seu dono, ela mente e diz ao marido que foi Jos quem agiu de formaimprpria e no ela. De repente, sua vida parece estar indo de mal a pior. Ele expulso da casa e atirado na priso. O tempo passa e Jos ca esqueltico e imundopor conta dos meses passados em condies precrias e desumanas.

    Porm, ele um homem otimista e conserva um bom corao, mesmo nosmomentos mais difceis. Logo faz amizade com seus companheiros de cela, ambosex-funcionrios do palcio real um deles copeiro e o outro, padeiro. Jos tem odom de ouvir a Deus com reverncia e ateno. Isso faz com que ele consigainterpretar o signicado dos sonhos. Durante seu tempo na cadeia, no tem medo dedividir esse dom com seus dois companheiros e decifrar seus sonhos.

    E o que signica meu sonho? pergunta o padeiro certa manh. Os trshomens se sentam no cho sujo da cela, suas correntes retinindo sempre que elestentam se mover. O dos pssaros e dos cestos.

    Jos fecha os olhos para se concentrar. Voc estava carregando trs cestos de po? Sim! E ento os pssaros me atacaram e comeram o po!Jos se concentra mais. Daqui a trs dias Ele levanta a cabea e encara o padeiro. Voc ser

    executado diz Jos, solenemente. Vira-se para o copeiro: E voc ser libertado.A execuo ocorre, como Jos havia previsto. Logo em seguida, o copeiro

    libertado da priso, deixando Jos sozinho na cela. Ele passa seus dias ajoelhado,orando, na esperana de adivinhar o plano de Deus para sua vida. O relacionamentodos homens com Deus parece incompreensvel, mas Jos tem a sensao de que oSenhor est olhando por ele.

    Certo dia, a luz invade a cela de Jos quando um carcereiro entra para limpara sujeira do seu corpo. Jos sente um aperto no corao, pois sabe que ser banhados pode signicar uma coisa: um encontro com o fara que, obviamente, tambmsignifica execuo.

  • Logo as mos de Jos esto atadas atrs das costas. Ele tirado da cela econduzido at o salo do trono. Por ser um forasteiro, um prisioneiro e um escravo,Jos sabe que sua vida no tem o menor valor para o soberano. No obstante, elemantm a cabea erguida, depositando sua f em Deus.

    O fara entra no salo e se senta no trono. Ele meneia a cabea e Jos ouve orudo de uma espada sendo desembainhada. Porm, em vez de sentir a presso daponta aada em suas costas, Jos percebe, pasmo, que as cordas de seus punhosesto sendo cortadas. A parte chata da lmina encosta nas pernas dele, forando-o ase ajoelhar no cho.

    O copeiro que Jos conheceu na priso d um passo frente e oferece umabebida ao fara. O soberano a aceita, bebericando lenta e pensativamente da taa deouro antes de limpar a garganta para falar.

    Venho tendo sonhos estranhos diz ele a Jos. Meus magos no socapazes de decifr-los. Mas fui informado de que voc seria.

    No fala Jos, seu rosto colado ao cho. Deus capaz de decifr-los.Atravs de mim.

    O deus de quem? pergunta o fara, sua voz cheia de desdm. O seuDeus?

    Jos ousa erguer os olhos. O que sonhou? arrisca-se a perguntar. A espada toca sua nuca, obrigando-

    o a baixar os olhos novamente. assim que ele ca enquanto ouve o fara descreverseu sonho.

    Eu estava s margens do Nilo comea a falar o fara , quando de repentesaem do rio sete vacas, gordas e saudveis. Ento outras sete vacas, magras e feias,devoram as primeiras sete por inteiro. Depois, tive um sonho diferente. Sete espigascheias de trigo brilham sob o sol, para em seguida serem devoradas rapidamentepor sete espigas podres, mirradas e castigadas pelo vento. Ele torna a beber,pensativo. O seu Deus consegue explicar isso?

    Jos ca em silncio, imerso em oraes. Ele espera pacientemente pela voz deDeus. No instante em que o fara est prestes a perder a pacincia, Jos se pronuncia,seu olhar ainda voltado para o cho de pedra.

    As vacas e os gros so a mesma coisa diz ele. O que quer dizer? Haver sete anos de fartura. Mas eles sero seguidos por sete anos de fome.

    O senhor precisa armazenar comida para se preparar para esse tempo. No haver fome diz o fara com altivez. O Nilo sempre irriga nossas

    plantaes. Todos os anos, sem falta. O senhor no entende: haver fome. Jos se detm de repente, quase

    engasgando. Em um piscar de olhos, a ponta da espada est debaixo do seu queixo.Ela o fora a levantar a cabea e encarar o fara, que a essa altura est furioso.

    Voc ousa contradizer o fara?

  • Jos escolhe suas prximas palavras com cautela, pois sabe que podem sersuas ltimas.

    O senhor mesmo que est contradizendo o seu sonho. Prossiga. Faam estoque de trigo. Armazenem parte da colheita quando ela for boa. Se

    no fizerem isso, o povo passar fome. Esse o significado do seu sonho.O fara se levanta e desce do trono. Estou impressionado com sua convico. Considere-se livre, mas com uma

    condio. Qual ela, fara? Voc ter a responsabilidade de dizer s pessoas que elas devem fazer estoque

    de suas colheitas.

    A profecia de Jos se prova verdadeira. Graas ao poder que o fara lhe concedeu, eleconsegue obrigar os lavradores de todo Egito a estocar suas colheitas. Isso impedeque a nao passe fome quando chegam os tempos difceis.

    Para Jos, a providncia divina responsvel por essa reviravolta em suasorte. Este ser, para o resto de sua vida, um lembrete de que sempre h esperana,mesmo nos momentos mais sombrios. Seu sucesso faz com que seja incorporado sociedade egpcia. Um anel com sinete colocado em seu dedo. Seus olhos sopintados com delineador, para que os fortes raios de sol no os queimem. Ele usauma peruca negra e lisa e seu queixo est sempre muito bem barbeado.

    Jos logo se torna um dos homens mais populares do Egito, seu prestgiosuperado apenas pelo do fara. Ele chega at a assumir o nome egpcio de Zafenate-Paneia. Graas a Jos, a riqueza do fara aumenta imensamente embora custade muitos egpcios, que so obrigados a vender suas terras para sobreviverem fome.

    E no s o Egito que sofre com os sete anos de seca. Os povos de naesvizinhas padecem medida que suas plantaes murcham e morrem. Milhares emilhares de estrangeiros chegam ao Egito, que se tornou lendrio por seus celeirosabastecidos. Dentre eles, esto os irmos de Jos, enviados at ali por Jac paracomprar trigo. Se no zessem isso, sua linhagem chegaria ao m, pois todosmorreriam de fome em Israel.

    Um dia, Jos v seus irmos no meio da multido enquanto passa por umamovimentada rua da cidade em sua carruagem. Na mesma hora, ordena que elessejam levados para sua residncia no palcio. Jos nunca falara a ningum sobre amaneira dolorosa como seus irmos haviam mudado sua vida, mas tampouco

  • jamais se esquecera daquilo. Agora, ele tinha o poder de mudar a vida de seusirmos para bem ou para o mal , assim como eles fizeram com a sua.

    Os irmos de Jos so levados por guardas armados at uma sala de visitasformal. A parte chata da lmina de uma espada atinge a parte de trs das pernas deSimeo, como um lembrete de que ele deve se ajoelhar. Jos entra na sala com toda agraa majestosa com que aprendeu a se portar durante sua longa ascenso ao poder.Graas peruca e ao delineador nos olhos, seus irmos no conseguem reconhec-lo.

    Eles se encolhem enquanto Jos analisa seus rostos. Pode fazer tudo o quequiser com eles: aprision-los, escraviz-los, at conden-los morte. Contudo, ospensamentos de Jos esto sempre voltados para Deus. Ele mostra aos irmos omesmo amor e misericrdia que o Senhor sempre lhe mostrara, especialmentequando os tempos eram to duros que mal havia uma centelha de esperana em suaalma.

    Alimente-os ordena Jos.Seus irmos no acreditam nos prprios ouvidos. Jamais poderiam sonhar

    com tamanha bondade. Assim que so liberados, saem da sala de visitas e veem queseus burros esto sendo carregados com vrias sacas de trigo para que as levem devolta para Israel. Em nenhum momento suspeitam que Jos seja o irmo deles.

    Mas Jos ainda no acabou. Sua bondade tem um preo, pois ele quer saber seseus irmos se emendaram e aprenderam a ter compaixo pelo prximo. Paratanto, ele bolou um plano: escondida dentro de uma das sacas de trigo, h uma taade prata. Os guardas foram instrudos a cortar a saca em questo, revelando a taa,e acusar seus irmos de ro