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  • A CHEIA DO MAINSTREAMCOMENTRIO SOBRE OS RUMOS DA

    CINCIA ECONMICA

    Mario PossasProfessor-titular do Instituto de Economia

    Universidade Federal do Rio de Janeiro

    Seguindo a imagem fluvial, so dois os efeitos tpicos de uma cheia: o au-

    mento da correnteza e a inundao das margens. O mainstream da cin-

    cia econmica tem mostrado fortemente ambos os efeitos na ltima dcada

    e meia, aproximadamente.

    De um lado, a corrente tornou-se mais caudalosa arrastando uma

    proporo crescente e inusitada de economistas profissionais e acadmi-

    cos e mais rpida abrindo sua agenda, fechando questes pendentes

    e uniformizando o discurso, cada vez mais formalizado, num ritmo sem

    precedentes, indicativo de grande vitalidade. De outro, vrios temas rele-

    vantes considerados marginais ou intratveis, e por isso relegados hete-

    rodoxia (ou ao limbo), passaram a ser incorporados, ganhando o status de

    objetos cientificamente srios. O que, alm de possvel sinal adicional de vi-

    talidade, obriga os poucos economistas no-neoclssicos remanescentes (ou

    simplesmente no familiarizados com as ltimas modas do mainstream)

    a reverem radicalmente suas referncias, para no parecerem desatualiza-

    dos em assuntos nos quais no so eles os nefitos; com o nus de atra-

    sar sua prpria agenda quando no so simplesmente convertidos no

    processo.

    S como exemplos: o economista industrial precisa estudar teoria dos

    jogos exaustivamente, mesmo sabendo que as estratgias empresariais do

    mundo real so em geral formuladas em condies bem mais complexas; o

    macroeconomista adepto de Keynes precisa voltar a explicar por que no

    faz sentido uma curva de oferta de trabalho e por que o desemprego no

    13

  • 14 ECONOMIA CONTEMPORNEA N 1 JAN. JUN. DE 1997

    uma market failure devida rigidez dos salrios nominais; e, quando

    constri um modelo de investimento ou de preos, precisa justificar-se por

    no assumir expectativas racionais quais, ento, os seus microfunda-

    mentos? , alm de insistir pela ensima vez na diferena entre incerteza

    e risco e no pressuposto crucial que deveria ser compulsrio para uma

    cincia econmica digna desse status, que ela tanto almeja de que o mun-

    do econmico no-ergdico e no-estacionrio; o economista que traba-

    lha com crescimento e dinmica precisa justificar-se de no pressupor oti-

    mizao e equilbrio a longo prazo, ou ainda equilbrio geral competitivo,

    como nos modelos modernos de crescimento com progresso tcnico en-

    dgeno e rendimentos crescentes; quem no pressupe equilbrio perma-

    nente como norma tanto dos mercados como dos agentes racionais precisa

    de muita argumentao para no ser sumariamente desqualificado; e o po-

    bre economista institucionalista precisa justificar-se exaustivamente, quan-

    do no se desculpar, por no fazer modelos (s vezes at faz) e ainda assim

    pretender o reconhecimento dos colegas mais cientficos.

    O presente texto prope uma breve, informal e no-exaustiva reviso

    crtica dessas tendncias recentes do mainstream da cincia econmica, des-

    tacando a ampliao das fronteiras do seu objeto, com concomitante e pa-

    radoxal estreitamento dos critrios de cientificidade aceitos pelos seus pra-

    ticantes, e os efeitos restritivos deste duplo movimento sobre a agenda de

    pesquisa acadmica, as questes consideradas relevantes pelos economistas

    e o ensino de economia, especialmente em ps-graduao.

    A AMPLIAO DAS FRONTEIRAS DA CINCIA ECONMICA:

    NOVOS TEMAS E VELHOS TEMAS RECICLADOS

    inegvel que o mainstream da cincia econmica alargou bastante, nos l-

    timos anos, o espectro de assuntos considerados intrinsecamente tratveis

    pelo mtodo neoclssico e respectivos instrumentos de anlise, crescente-

    mente intensivos em formalizao matemtica e economtrica. Antes que

    algum leitor ctico quanto ao qualificativo neoclssico os economistas

    neoclssicos, inclusive os enrustidos, sempre o so comece a se impa-

    cientar, gostaria de delimitar de maneira precisa a definio aqui adotada

    para o mtodo tipicamente neoclssico, como aquele que assume, necessa-

  • 15MARIO POSSAS A CHEIA DO MAINSTREAM

    riamente, a racionalidade substantiva (na expresso de Simon) maximiza-

    dora, como norma de deciso dos agentes econmicos, e o equilbrio como

    norma de atuao dos agentes ou, pelo menos, de operao dos mercados

    individualmente, em conjunto (equilbrio geral) ou ainda no agregado (na

    tradio macroeconmica neoclssica).

    Assim, todo objeto de carter mais ou menos econmico a longa

    tradio que vai de L. Robbins escola de Chicago mais recente tornou

    especialmente fluidos esses limites que seja enquadrvel nos dois pi-

    lares metodolgicos acima , em princpio, passvel de tratamento rigo-

    roso pelo mainstream. Levando essa simples constatao lgica que

    obviamente nunca feita de forma explcita s muitas conseqncias

    possveis, o mainstream vem se tornando mais caudaloso e invadindo as

    margens, s vezes envolvendo na enxurrada temas outrora marginais e

    economistas ex-heterodoxos. Sem que haja nesse processo qualquer co-

    notao poltica ou ideolgica, bom que se diga, a julgar pelo nmero

    de jovens (ou nem tanto) economistas de esquerda que se orgulham

    do seu treinamento acadmico rigoroso e atualizado e seu estilo anal-

    tico inteiramente convencional e neoclssico existe outro?, surpreen-

    dem-se eles.

    Segue-se um apanhado necessariamente superficial e parcial desse mo-

    vimento extensivo que, em seu conjunto, apresenta muitas ambigida-

    des, convm frisar. H tanto aspectos negativos (que decerto prevalecem),

    geralmente ligados a algum vis neoclssico prejudicial amplitude do te-

    ma e/ou do mtodo, quanto positivos, geralmente relacionados busca de

    maior rigor formal e novos desafios analticos que as referncias impostas

    pelo mainstream induzem no se quer aqui cometer injustias em nome

    do esprito crtico.

    A nova Microeconomia: organizao industrial,

    estratgias e contratos

    A retomada de microfundamentos da Macroeconomia, desencadeada pe-

    lo fundamentalismo novo-clssico de R. Lucas, T. Sargent e outros nos

    anos 70, teve um subproduto interessante na reviso terica detalhada das

    relaes entre racionalidade (substantiva, sempre) e decises dos agentes,

    no bojo da qual ressurge do anterior estado letrgico a teoria dos jogos no-

  • 16 ECONOMIA CONTEMPORNEA N 1 JAN. JUN. DE 1997

    cooperativos e a preocupao com processos de deciso estratgicos, isto ,

    que envolvem tempo. E, com ele, contratos no-spot ; interao estratgica

    em horizontes de tempo no-imediatos; informao incompleta e imper-

    feies de mercado; problemas de coordenao e de welfare; reaes oli-

    gopolsticas; e, finalmente, estruturas de mercado resultantes do jogo oligo-

    polstico.

    A combinao das inmeras imperfeies de deciso e de coorde-

    nao (mercado), envolvidas nessa retomada com o aprofundamento da

    anlise estratgica, submetida a maiores exigncias de rigor formal, abre um

    espao notvel para maior realismo na teoria microeconmica, abrangendo

    agora as teorias das organizaes (firmas) e da organizao industrial. No

    entanto, o fato de ser um movimento essencialmente neoclssico cobra o seu

    preo: a extenso e a diversidade do objeto e dos enfoques so aceitas, desde

    que apoiadas naqueles dois pilares metodolgicos incontornveis a ma-

    ximizao e o equilbrio. Como? Evitando que incerteza na acepo forte

    (irredutvel a risco, conforme Knight e Keynes) e complexidade (aduzida

    por Simon) sejam introduzidas com plenas conseqncias a saber, a im-

    possibilidade de reduzir racionalidade a comportamento maximizador, e de

    pressupor coordenao espontnea, menos ainda equilbrio, como resulta-

    do necessrio da interao estratgica sob incerteza forte. No mximo, so

    admitidas marginalmente (apndice, post-scriptum, etc.) e/ou atenuadas a

    um grau irreconhecvel e inconseqente.

    Assim, tipicamente, a incerteza enfraquecida pela identificao explci-

    ta e sistemtica com informao incompleta. Na teoria microeconmica,

    isso permite incorporar funes-objetivo estocsticas de deciso dos agen-

    tes (utilidade, pay-off, etc.), sem jamais questionar que elas possam ser ma-

    ximizadas, que as prprias probabilidades envolvidas sejam calculveis e

    que o resultado seja fatalmente algum equilbrio. Nas aplicaes econmi-

    cas de teoria dos jogos no-cooperativos nesse caso, com informao

    incompleta, que reconhecidamente o mais relevante a operao de re-

    duo ao clculo de otimizao feita por etapas: primeiro, supe-se que a

    variedade estratgica dos agentes se limite a tipos de comportamento bem

    definidos e conhecidos mutuamente; a seguir, admite-se que os agentes

    aprendem sobre seus respectivos tipos de comportamento estratgico ao

    longo de uma interao repetida no tempo, e se atribuem a cada passo pro-

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    babilidades contingentes a cada tipo estratgico. Conhecida a matriz de

    pay-offs, o eventual equilbrio Bayesiano que se obtm uma extenso do

    conhecido equilbrio de Nash, usado nos jogos com informao completa.

    Os dois pilares foram preservados.

    Quanto ao equilbrio, a interao estratgica proposta pela teoria dos

    jogos uma ameaa evidente, mas nem assim gera efeitos relevantes. ver-

    dade que problemas surgem e so reconhecidos pelos textos aplicados

    Economia: a insuficincia e o carter expost do conceito de equilbrio de

    Nash; a necessidade, mas insuficincia, dos refinamentos desse