A cultura nômade dos pixadores de Fortaleza · 2 JULIANA ALMEIDA CHAGAS IMAGENS E NARRATIVAS: A...

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Transcript of A cultura nômade dos pixadores de Fortaleza · 2 JULIANA ALMEIDA CHAGAS IMAGENS E NARRATIVAS: A...

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEAR

CENTRO DE HUMANIDADES

DEPARTAMENTO DE CINCIAS SOCIAIS

JULIANA ALMEIDA CHAGAS

IMAGENS E NARRATIVAS: A CULTURA NMADE DOS PIXADORES DE

FORTALEZA.

FORTALEZA

2012

2

JULIANA ALMEIDA CHAGAS

IMAGENS E NARRATIVAS: A CULTURA NMADE DOS PIXADORES DE

FORTALEZA.

Monografia apresentada ao curso de

graduao em Cincias Sociais do

Departamento de Cincias Sociais da

Universidade Federal do Cear, como

parte dos requisitos para a obteno do

ttulo de Bacharel em Cincias Sociais.

Orientadora: Prof. Dr. Glria Digenes

FORTALEZA

2012

3

AGRADECIMENTOS

Agradeo em primeiro lugar a Deus que permitiu mais essa conquista na minha

vida, que me deu foras pra escrever cada captulo desta pesquisa.

Agradeo minha famlia que sempre apoiou meus gostos e decises.

Agradeo ao meu namorado Hermes pela pacincia, amor e ajuda prestada.

Agradeo minha orientadora Glria Digenes que uma excelente professora e

pesquisadora; que abraa os alunos que desejam pesquisar sujeitos inusitados; que

uma mulher jovem e motivadora das juventudes.

Agradeo aos pixadores de Fortaleza das dcadas de 80, 90, 2000 e 2010, aqui

misturados, em suas contribuies e aparies nessa pesquisa: Fuga RM, Snow TB,

Seco GDR, Pango SA, Sask DNG, Zarco PNG, Tira GU, Gordo GDR, Strayck RAP,

Doido VS, Muleka EF, Rato PCX, Mala VS, Tefinha VS, Bafu GDR, Liso GDR,

Scorpion SR, Mutreta , Pato GT, Master AC, Cancao RPM, Raposo FG, Cupim RM,

Kakinho GUP, Falco GDR, Taz SF, Rato MP, Pastor FG, Kite FG, Grud FG, Sombra

FG, Tatoo FG, Guga FG, Osso LSD.

Agradecimento em especial ao pixador Fuga RM que est produzindo um

trabalho incrvel de catalogar e entrevistar os primeiros pixadores de Fortaleza,

disponibilizando esses vdeos livremente na internet pelo site Youtube.

Agradeo, tambm, aos pixadores de So Paulo e do Rio de Janeiro que em suas

falas muito contriburam para essa pesquisa: Caroline Pivetta, Cripta Djan, Nuno DV.

4

OrAo DoS PiXaDoReS 1

LaTa NoSsA QuE EsTaIs Na MoChIlA

BeM SaTiSfAtOrIo SeJa O SeU LiQuIdO

VeM A NS A SuA TiNtA

SeJa FeItA A NoSsA GrIfF2...

AsSiM No MuRo CoMo Nu PoRtO

O SpRaY De CaDa DiA NoS DI Hj

PeRdOe NoSsOs ErRiNhOs

AsSiM CoMo NoS PeRdOaMoS Os BaFoS

tOdo NoSsO!

NO NoS DeIxE CaIr NaS MO DoS GaMb!

MaS LiVrAi-NoS Do DiStRiTo!!!

--------------------------------------------

1 : Visualizada no blog de um pixador. Disponvel em: http://robsoninfor.blogspot.com.br/2008/09/orao-

dos-pixadores.html Acesso em 14/05/12, s 21h55.

2

: As palavras em itlico nesta pesquisa tero seus significados explicados no Glossrio presente na

pgina 78.

http://robsoninfor.blogspot.com.br/2008/09/orao-dos-pixadores.html%20Acesso%20em%2014/05/12,%20s%2021h55http://robsoninfor.blogspot.com.br/2008/09/orao-dos-pixadores.html%20Acesso%20em%2014/05/12,%20s%2021h55

5

RESUMO

Essa pesquisa designa a estudar a categoria social do pixadores na cidade de Fortaleza

investigando suas prticas urbanas pela cidade atravs de um processo investigativo das

imagens e narrativas construdas pelos pixadores nas redes sociais da internet. Os

pixadores interferem na paisagem urbana atravs da pixao, a pixao um

movimento juvenil comumente encontrado nas metrpoles brasileiras, suas inscries

atestam uma comunicao simblica atravs dos muros e espaos fsicos da cidade. O

xarpi a marca representativa do pixador que numa rede de interao promove

sociabilidades e conflitos na cultura da pixao. O xarpi faz com que o pixador exista na

cidade multiplicadas vezes atravs desse nome de guerra, uma presena simblica

demarcada em inmeros territrios ao mesmo tempo.

A pesquisa identificou dois momentos na cultura da pixao de Fortaleza, o primeiro

trata-se da gerao da dcada de 80 e 90, o segundo dos anos 2000 a atualidade da

presente investigao. Entre semelhanas e diferenas constatadas conclumos que a

pixao um movimento em constante crescimento e inovaes de carga semntica e

simblica.

Palavras-chave: pixao, pixadores, juventude, territrio, rede social, sociabilidade,

conflito, Fortaleza.

6

LISTA DE ILUSTRAES

IMAGEM 01: Anos 89/90, galera da F.G. ...................................................................18

IMAGEM 02: Estilo grfico de pixao no Rio de Janeiro. .........................................19

IMAGEM 03: Estilo grfico de pixao de So Paulo. ................................................19

IMAGEM 04: Pixao em altura. .................................................................................24

IMAGEM 05: Pixadores simbolizam as iniciais da sigla com as mos VS. .............27

IMAGEM 06, 07, 08: Trs exemplos de pixao. .........................................................30

IMAGEM 09: Homenagem a um pixador. ....................................................................32

IMAGEM 10: Os xarpis. ...............................................................................................34

IMAGEM 11: A lenda vive. ......................................................................................37

IMAGEM 12: Dedicatria de TEFINHA V.S. para CURU, de corao. .................38

IMAGEM 13: Xarpi com a simbologia do n 1. ...........................................................40

IMAGEM 14: Grfico enqute Qual melhor visual pra colocar um xarpi?. .............41

IMAGEM 15: Esquadro da Zona Rebelde + Liberdade Vigiada. ..............................42

IMAGEM 16: Convite virtual para reunio de pixadores. ...........................................44

IMAGEM 17: Fachada do Cameldromo. ...................................................................47

IMAGEM 18: O me desculpa eu?. ..........................................................................50

IMAGEM 19: Rodar faz parte. .................................................................................55

IMAGEM 20 e 21: Smbolos de violncia e poder. ......................................................56

IMAGEM 22: Simbologia de poder. .............................................................................57

IMAGEM 23: Para os L.V. de rocha. ........................................................................58

IMAGEM 24: Cad o Bicho?. .................................................................................61

IMAGEM 25: 19/03/ ? O REI!!!!! TANGO ER. .....................................................65

IMAGEM 26: Por do Sol: a firma forte. A lei do mais alto. ..................................67

IMAGEM 27 : Pixaes em outdoor. ...........................................................................68

IMAGEM 28: Homem Aranha. ...............................................................................69

IMAGEM 29: Vem na trilha. ...................................................................................70

IMAGEM 30: Vem na trilha. (Detalhe). .................................................................. 70

IMAGEM 31: Pixao em pedra. .............................................................................72

IMAGEM 32: Pra no perder a noite. .......................................................................73

IMAGEM 33: TB PREVCON 20 ANDARES. VAI VENDO!. ...............................74

IMAGEM 34: As gatas me ama. ...............................................................................75

IMAGEM 35: Raposo F.G. (1990). ........................................................................77

7

SUMRIO

1. INTRODUO .........................................................................................................08

2. HISTRIA DA PIXAO EM FORTALEZA ........................................................15

3. AS CONVENES DO XARPI ...............................................................................29

3.1 A SOCIABILIDADE ENTRE OS PIXADORES ...................................................34

3.2 O CONFLITO ENTRE OS PIXADORES ..............................................................45

3.3 VIOLNCIA E ILEGALIDADE ...........................................................................49

4. A CIDADE COMO LUGAR DE ESCRITA .............................................................62

4.1 A IMAGEM COMO REPRESENTAO DO PIXADOR ....................................64

5. CONCLUSO ...........................................................................................................79

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ...........................................................................82

GLOSSRIO .................................................................................................................84

LISTA DE ENTREVISTAS ...........................................................................................85

8

1. INTRODUO

A primeira lembrana que tenho sobre pixao3 vem do meu olhar curioso por

sobre o muro da minha casa que dava para o quarto do meu vizinho, no incio da dcada

de 90. Eu tinha uns 8 anos e esse vizinho mais contemporneo dos meus irmos devia

ter uns 13 anos. Eu nunca soube o porqu do quarto dele ter todas as paredes de cima

abaixo pixadas. Os anos se passaram e eu sem pedir explicao fiquei apenas com

aquela imagem na memria, que me volta tona com a mesma curiosidade de antes.

Alguns anos mais a frente, reformamos nossa casa e o muro que dava para a casa

daquele vizinho ficou alto e no podamos mais sentar nele e trocar de casa pulando-o.

Da mesma forma o muro da fachada de nossa casa perdeu a tradicional tinta caiada

branca e combogs para as feias, frias e econmicas cermicas que compem vrios

muros nos dias de hoje. Perdi, ento, a imagem mais curiosa que permeava minha

infncia, e o assunto pixao surgia, vez por outra, nas rodas de conversa dos meninos,

que confessavam ser o muro da nossa casa imprprio para pixar, alm disso, que muro

de amigo de pixador no era riscado.

Passou a dcada de 80, a dcada de 90, e ainda nos anos 2000 a pixao continua

a ser um movimento em constante crescimento apesar da Lei de Crimes Ambientais

(9.605 / 98); artigo 65 onde diz que pixar ou grafitar edificao ou monumento urbano

tem como pena deteno de trs meses a um ano, e pagamento de multa. Essa ao

delituosa urbana resiste mesmo com o surgimento do grafite4 e de aes de polticas

pblicas que tentam ensinar a arte do grafite para os pixadores, numa perspectiva de

mudana. As oficinas de grafite, assim, viabilizariam um crescimento pessoal do

pixador e a oportunidade de desenvolver uma nova tcnica de apreo, pois somente o

grafite tem atributos de uma apreciao nas ruas e ser considerado como Arte.

No Brasil costume distinguir-se o grafite propriamente dito das pichaes, que

consistem em certo tipo de grafemas mediante os quais os jovens, em especial os

menores, provavelmente entre doze e quinze anos, escrevem seus nomes e os

enfeitam com formas estilizadas. O ponto de risco desses grafemas no est tanto no

--------------------------------------------

3 : a palavra pichao bem como suas derivaes (pixar, pixo, pixador e etc) sero grafadas com x

porque desta forma que a fala dos nativos informam que as utilizam.

4

: o grafite (grafia abrasileirada) faz parte da cultura Hip Hop, nascida nos Estados Unidos na dcada de

70, que tem como conjunto a msica rap, o break dance e a expresso plstica do graffiti. (PAIS, 2000,

p.175)

9 que dizem, pois afinal no passam de letras de um nome ou de um sobrenome, mas

no local em que so inscritos: a fachada do ltimo andar de um edifcio, o cimo de

uma ponte. (SILVA, 2001, p.5)

Pesquisar a pixao faz descobrir que para esses jovens pixar no apenas

deixar um risco no muro numa atitude isolada, simples e despretensiosa os quais julgam

os poderes pblicos. A sociedade, tambm, compartilha da opinio de tratar-se de

vandalismo, pois para ela, de modo geral, esses riscos so destitudos de esttica e

somente enfeiam a cidade. Porm, se equivoca quem a julga simplria como aparenta

ser, na recente palestra que o professor doutor em antropologia da USP, Jos Guilherme

Magnani, proferiu no departamento de Cincias Sociais da UFC. Esse especialista em

antropologia urbana afirmou que os pixadores constroem seus trajetos pela cidade e

inventam suas regras de convivncia, tornando essa prtica densa e organizada,

alimentando a cidade e sendo por ela alimentada. O palestrante refletindo sobre a

pesquisa realizada por seu orientando, Alexandre Pereira, informou que apesar do

grafite e a pixao serem duas prticas sociais urbanas diferentes, em So Paulo, muitos

grafiteiros so pixadores ou j foram um dia. A prefeitura de So Paulo promoveu, em

certa data, um projeto social que gratuitamente fornecia material e ensinava a tcnica de

grafite para os pixadores. Percebeu-se que estes freqentavam o curso e noite

continuavam a rabiscar a cidade com os sprays ganhos.

A pixao por ser uma atividade ilegal de grupos de jovens que ousam arriscar

seus corpos nessa prtica urbana, adquire julgamentos pr-estabelecidos na sociedade.

Alguns os enxergam como jovens marginais que esto ociosos nessa fase da juventude e

que pertencem teia da criminalidade no que tange ao uso de armas e drogas. Pautado

nesse discurso social do senso comum, comum diferenciar grafite de pixao como

contrrios, como exemplos: o bom e o mau, o belo e o feio. Marcada essa diferenciao

comum vermos estratgias de rgos pblicos em prticas de aes sociais objetivadas

em transformar pixadores em grafiteiros, como atesta o depoimento abaixo:

No decorrer do tempo essas expresses [pixao e grafite] foram se distanciando,

tornando-se antagnicas. A mdia, pesquisadores e opinio pblica no fazem a

mesma confuso de outrora no uso da mesma nomenclatura. Hoje, o grafite

reinvidicado, considerado e cristalizado como arte, h tempos invadiu galerias e

museus. visto muitas vezes, com o discurso do poder pblico e de ONGs, como

sendo inclusive uma possvel alternativa no combate a pichao, numa tentativa de

converter saberes, criatividade e agilidades dos pichadores para uma expresso na

esfera da arte, possibilitando, assim, tirar os jovens da criminalidade e das

gangues. (SANTIAGO, 2011, p.50)

10

No entanto veremos mais adiante que a caricatura social empregada na pixao

faz com que ela adquira interpretaes dentro do campo das prticas de violncia. Nesse

sentido h uma diferenciao sentida pelos antigos pixadores, gerao anos 80 e 90, em

relao pixao em prtica nos dias de hoje, essa assunto ser melhor esclarecido no

sub-captulo Violncia e ilegalidade.

Em Fortaleza, pensa estrategicamente aquele morador que tem a atitude de

demarcar no muro um espao reservado para pixadores, pedido quase nunca atendido

ou satirizado quando as pixaes preenchem o muro, deixando livre apenas a rea

reservada. A pixao segundo Santiago (2011, p.18) possui uma dinmica que constri

saberes que tem o drible, a astcia, a velocidade, o destemor e a criatividade como

elementos essenciais de sua constituio. pertinente saber que a ao da pixao

nasce determinada a burlar regras, a ir contra a corrente da vida cotidiana. Essa ao

justificada pela adrenalina e ousadia, assim, um muro que prope um espao delimitado

para a pixao no ser atendido, ser ironizado tal qual o pixador faz nas andanas

pelas ruas despistando os vigias, desafiando alturas e disputando atravs da velocidade o

tempo marcado no relgio.

Em Enigmas do medo juventude, afetos e violncia atenta-se que o processo

de metropolizao das cidades brasileiras na dcada de 1970 fez com que

geograficamente a cidade em que vivemos apresentasse uma estratificao de seus

indivduos de acordo com o respectivo poder econmico. Tentativas de zoneamento

pretendiam definir usos e ocupaes do espao e acabavam produzindo cidades partidas

e desiguais, compondo o mesmo cenrio (DIGENES, 2011, p.211). Observa-se que

na dinmica da vida social, as aes de opresso emitidas por classes sociais detentoras

de poderes so sentidas pelas classes sociais mais pobres e produzem reaes. A classe

pobre que parecia estar acomodada vida difcil, reage com fora de revolta, ansiando

mudanas em busca da igualdade, no direito de ser reconhecida como cidad, o direito a

trafegar pela cidade e em seu uso pblico, direito moradia e nas necessidades de

primeira instncia como alimentao, sade e emprego.

A era dos direitos, deflagrada com as greves do ABC paulista no final dos anos

1970 e que eclode atravs da mobilizao de mltiplos sujeitos, movimenta, d

visibilidade e esmaece as fronteiras da segregao urbana. Os outros se diversificam

e assumem lugares e modos diversos de expresso. Rompem-se as barreiras e os

denominados pobres proclamam em voz alta suas demandas, desfilam suas desvalias

e exibem suas revoltas em praa pblica. (DIGENES, 2011, p.211)

11

Assim a dinmica dos territrios fixos e dos fluxos dos sujeitos, usando os

conceitos de Lucrecia Ferraro, se desestabilizam, e os indivduos segregados

geograficamente lutam contra essa opresso fsica tomando a cidade como suporte para

suas diferentes manifestaes.

A imagem da cidade de Fortaleza, em seu surgimento, destoante, assim como

aconteceu em outras capitais brasileiras. Nos arredores do centro comercial surgem as

ruas e praas urbanizadas com casas e sobrados, compondo o lar da burguesia. Nos

lugares perifricos surgem sem planejamento os conglomerados habitacionais sem

infra-estrutura bsica, e esse contrastante cenrio propicia insurreies, manifestaes

diversas de problemas sociais.

Como podemos observar nas marginais do Rio Pinheiros em So Paulo ou em outras

grandes artrias que so teatro do deslocamento motorizado, exibem-se, de um lado,

as torres construdas em concreto, ao e panos de vidro e, de outro, mal se esconde o

contraste da precariedade habitacional e estrutural das favelas, dos loteamentos

clandestinos e das reas invadidas. Esse contraste marca os fixos da metrpole e

contamina seus fluxos, hibridizando-os. (FERRARO, p.130, 2009)

Em face desse contraste urbano pulsa a vida cotidiana da periferia que

transborda a rigidez dos espaos fixos. Os pixadores trafegando por entre as zonas

proibidas (reas da cidade construda para as famlias das classes altas) vivem a seu

modo, interferindo na paisagem desses lugares de forma ousada. O espao urbano

moderno transcende os limites geogrficos e se funda essencialmente atravs da

percepo de cada um de seus habitantes. As relaes vo alm do espao pblico

cosmopolita, ou melhor, recria-se o domnio pblico, mas, agora, sem limites

geogrficos ou sociais. Portanto, a dinmica dos fluxos dos lugares cosmopolitas ou da

metrpole re-escreve-se em dinmica fluida e flexvel. (FERRARO, p.135, 2009)

Devemos reconhecer que a histria da vida urbana no orquestrada numa

ordem social objetiva em que o Estado rege as regras da vida social e por assim os

sujeitos se disciplinam, por mais comum que isto possa parecer. Existe um microcosmo

de vida nas zonas de periferia das cidades como nos aponta Michel de Certeau (2008),

ao dar importncia sociolgica ao homem ordinrio que constri com astcia o seu

modo de vida e sua mobilidade dentro da cidade. Alguns desses sujeitos ordinrios so

os jovens de classe baixa, moradores da periferia que utilizam a cidade como lugar de

expresso, de visibilidade para uma juventude annima. Signos da violncia, prticas

do espao e estratgias de expresso e visibilidade pblica tornam-se argamassas

12

centrais e ambivalentes na construo e ampliao de prticas de insero social.

(DIGENES, 2011, p.211)

Uma manifestao da expresso juvenil presente de forma latente em vrias

cidades brasileiras a pixao. Trata-se de um signo visual encontrado no corpo fsico

da cidade e executado pela figura do pixador. Este ser social, urbano e jovem de

periferia afetado pela cidade que o segrega, que na dinmica da vida social das classes

e instituies produzem imposies morais que tentam definir os papis sociais na

cidade. O jovem ultrapassa a condio de passividade para a atividade, afetando,

tambm, esta mesma cidade por meio da tentativa de projetar as suas marcas

incansveis. Eles so fiis s suas assinaturas ou xarpis5, tendo que para execut-las

burlar as regras de convivncia e convenes morais.

Partindo do pressuposto de que os jovens se projetam como termmetro e vitrine

que parece tornar pblicas e visveis as tenses sociais, so eles os primeiros a tentar

romper ou simplesmente se rebelar contra uma ordem que fala atravs deles e,

concomitantemente, os exclui. (DIGENES, 2011, p.211)

Os pixadores, motivados pelo desejo de ascender socialmente perante a rede de

jovens e de serem lembrados mesmo quando pararem com essa atividade urbana,

investem suas horas e momentos livres nessa ao marginal, fazendo da pixao, mais

que um lazer, motivo principal que norteia o seu cotidiano. Essa pesquisa surge a partir

da indagao: como e quando surgiu a pixao em Fortaleza? Quais os usos da cidade

para o pixador, e em que sentido? Qual o imaginrio urbano construdo pelo pixador em

suas prticas na cidade? Quais caractersticas norteiam a cultura da pixao?

Partindo da observao das prticas sociais em torno da pixao desses jovens

na cidade e de suas comunicaes sejam elas de natureza simblica, literal ou virtual

procuraremos tentar compreender na medida do possvel o universo da pixao, suas

primeiras aparies e histrias, suas simbologias, as pretenses dos que praticam a

pixao, as imagens da cidade de Fortaleza produzidas pelas prticas dos pixadores e

seus discursos de experincias na cidade.

A metodologia dessa pesquisa acontecer por intermdio de entrevistas pessoais

e virtuais (utilizao de programas na internet, ligaes telefnicas) juntamente com a

insero do pesquisador nas redes sociais, assim pretende-se investigar e deixar emergir

--------------------------------------------

5 : o plural de xarpi, palavra criada atravs da inverso das slabas da palavra pixar. Xarpi ou

foneticamente xarp significa a atividade da pixacho, tambm denomina a marca pessoal do pixador,

exemplos de xarpis: Mutreta, Pango, Snow.

13

as narrativas dos pixadores e as imagens de suas pixaes para elaborar linhas

interpretativas, buscando um esclarecimento para essa ao urbana.

Essa pesquisa iniciou-se em 2010 com trabalhos de campo em disciplinas na

faculdade, tendo uma maior produo no final de 2011 at maio de 2012. Ao longo

desses meses em pesquisa foram feitas vrias entrevistas pessoalmente e aconteceram

corriqueiras conversas na internet utilizando programas de bate-papo. Dessa troca de

experincias, utilizei para este trabalho sete entrevistas principais, feitas pessoalmente

em idas a campo e na minha participao em duas reunies de pixadores.

Os principais interlocutores presentes nessa pesquisa foram Snow TB, jovem de

21 anos que pratica a pixao desde os 16 anos; Sask DNG; Boy LDP 16 anos, pixa

desde os 8 anos; Pango AS, pixador de 37 anos, muito considerado em Fortaleza,

iniciou com 14 anos em 1989 sendo um dos poucos da gerao 80/90 que ainda pixa no

presente ; Seco GDR, pai de famlia de 32 anos que pertence a gerao anos 90 da

pixao em Fortaleza; Fuga RM, pai de famlia de 35 anos que tambm pertence a

gerao anos 90 e que promove um trabalho de reconstituio da histria da pixao em

Fortaleza atravs de entrevistas pessoais divulgadas no youtube e por reunies de

integrao entre os pixadores da dcada de 80 e 90.

Outros pixadores, tambm, contriburam com informaes e imagens para essa

pesquisa, alguns destes de forma impessoal quando me utilizei dos seus relatos

provenientes de vdeos no youtube. E tambm me utilizei de imagens de pixaes e

comentrios divulgados publicamente nas redes sociais, Orkut e blogs.

comum os pixadores utilizarem as redes sociais como orkut, youtube e blogs

para postarem imagens das suas andanas e aes pela cidade de Fortaleza. A internet

uma nova ferramenta para que eles divulguem seus pixos, marquem encontros e

construam uma rede de informao para a promoo pessoal, da sigla6 e do movimento

da pixao.

Noticiar a produo de pixos atravs de imagens e comentrios nas redes sociais

uma prtica extra atrelada atividade de pixar. O pixo no muro comunica

simbolicamente a um grupo de pessoas que traduzem aqueles significados, alm da

marca no muro o pixador registra aquela imagem e a divulga em sites na internet

--------------------------------------------

6 : a forma abreviada do nome do grupo ou da famlia a qual pertence o pixador, exemplo de sigla: TB

Terroristas dos Bairros.

14

promovendo inmeras outras comunicaes e aparies de seu pixo. O uso da

internet faz com que o pixador exista na cidade multiplicadas vezes atravs da sua

marca, uma presena simblica demarcada em inmeros territrios ao mesmo tempo.

A pixao aprendeu com a publicidade a se tornar massiva, a estar em maior

nmero pela cidade como os cartazes de outdoor, banners, placas e outras tantas

ferramentas de comunicao visual impregnadas no visual urbano. O lema comercial

quem no visto no lembrado praticamente est no subconsciente dos pixadores,

tanto mais inserido na teia comunicativa da pixao mais este pixador pertencer ao

grupo de pixadores. Portanto, no basta para eles inscrever-se na cidade tambm

prescindvel que ele participe da rede social gerada nos meios reais e virtuais da

internet.

Sair sozinho s ruas noite, riscar alguns muros no anonimato usando um

pseudnimo, voltar para casa mantendo o sigilo dessa ao para qualquer pessoa, essa

descrio de cena possui vrias caractersticas de uma atividade de pixao, mas no a

pixao caracterizada a qual estamos discutindo nessa pesquisa. A prtica individual e

isolada de riscar o muro e manter-se completamente annimo para os outros no possui

sentido para os jovens os quais estamos tratando. A pixao existe porque plural e

ramificada, porque faz parte de uma teia de comunicao e dialoga com muitos outros

jovens sobre suas vivncias e experincias. E nessa troca constante de energia a

pixao, o pixador e o pixo ganham cada vez mais argumentos para existirem,

fortalecem a partir da construo de uma comunicao conjunta que se energiza e

revitaliza culminando em uma produo constante cotidiana e em um assunto novo de

uma temtica que j existe h quase trinta anos7.

--------------------------------------------

7 : segundo a pesquisa de Santiago (2011) a pixao na cidade de Fortaleza surgiu por volta do ano de

1986.

15

2. HISTRIA DA PIXAO EM FORTALEZA

Segundo Digenes (1998), a histria de formao das cidades quase sempre

recortada pela ao de grupos que se colocam como outsiders8, agentes

desestabilizadores do ideal de ordenao. O grafite e a pixao so meios pelos quais os

jovens de periferia encontraram de visitar e invadir de forma simblica o centro da

cidade, ou seja, uma maneira de contestao e inscrio no espao destinado apenas

riqueza.

Tanto o graffiti como a pichao usam o mesmo suporte a cidade e o mesmo

material (tintas). Assim como o graffiti, a pichao interfere no espao, subverte

valores, espontnea, gratuita e efmera. Uma das diferenas entre o graffiti e a

pichao que o primeiro advm das artes plsticas e o segundo da escrita, ou seja,

o graffiti privilegia a imagem; a pichao, a palavra e/ou a letra. (GITAHY, 1999,

p.19)

No programa Sem Fronteiras: Plural pela Paz da rdio Universitria FM 107,9

da Universidade Federal do Cear participei9 juntamente com os artistas urbanos

Narclio Grud10

e Robzio Marques11

da discusso sobre o tema Arte Urbana em

Fortaleza. Diante de conversas e apresentao dos trabalhos realizados por cada um dos

convidados, o apresentador e produtor Henrique Beltro pergunta sobre o que diferencia

grafite de pixao. Narclio Grud que foi integrante mascote do grupo de pixadores F.G.

Feras dos Grafiteiros discorre que ambas so prticas de interveno urbana que esto

alocadas nas ruas, mas que ns brasileiros tivemos a sorte de possuir um outro termo,

pixao, para diferenciar essas duas prticas.

--------------------------------------------

8 : categoria do socilogo Norbert Elias (2000) que no livro Os estabelecidos e os outsiders fala que os

outsiders numa comunidade estudada era um grupo de pessoas recm-chegadas que no eram aceitos

coletivamente pelos estabelecidos, grupos de morados mais antigos. Pois os estabelecidos sentiam seu

poder de domnio sobre o bairro ameaado pelos novos integrantes.

9 : o programa ao vivo foi transmitido dia 17 de maio de 2012, das 14 s 15hs. A autora desta pesquisa

participa do grupo coletivo de interveno urbana Selo Coletivo, composto pelas artistas plsticas Bruna

Beserra, Ceclia Shiki, Juliana Chagas e Tereza Cristina.

10

: artista urbano e inventor, cria novas tecnologias para suas pinturas e intervenes sonoras.

http://www.flickr.com/photos/narceliogrud

11

: artista plstico integrante do grupo Acidum de intervenes urbanas. O grupo Acidum surgiu na

cidade de Fortaleza em 2008. O Grupo Acidum um grupo que agrega em si vrias linguagens, com

aes que vo de oficinas grafitagens coletivas, passando por exposies em museus e galerias, virais

na internet e a publicao de um livro, que na verdade um histrico onrico-catico dos seus cinco anos

de existncia. < http://grupoacidum.blogspot.com.br/>

http://www.flickr.com/photos/narceliogrudhttp://grupoacidum.blogspot.com.br/

16

Para melhor esclarecermos o que significa a pixao, vamos diferenciar os

termos graffiti e pixao.

A nomenclatura graffiti12

,em sua origem, se refere s primeiras inscries

surgidas, por exemplo, como as encontradas nas paredes de Pompia, cidade vitimada

pela erupo do vulco Vesvio e por isso preservada (GITAHY, 1999), tambm como

as inscries Taki 183 espalhadas pelas paredes da cidade de Nova Iorque (PAIS, 2000).

Porm a cultura graffiti desenvolveu novas tcnicas de inscrio uma das quais, por

exemplo, a utilizao de muitas cores e figuras (os personagens), essa a forma

comum do graffiti no Brasil.

O termo graffiti na Europa e Estados Unidos o mesmo termo ora para designar

uma atividade subversiva dos writers13

ora para um mural com imagens elaboradas que

cativam o pblico. O uso da mesma nomenclatura no estrangeiro ainda, por vezes,

dificulta a aceitao do graffiti segundo a pesquisa de Pais, 2000. O depoimento abaixo

do fotgrafo-pesquisador da galeria Choque Cultural14

confirma esse assunto em torno

da ilegalidade das prticas do grafitti e pixao no panorama europeu e brasileiro.

A pichao e o grafitti so vandalismo e arte tambm. Crime e Arte ao mesmo

tempo. O grafitti tem essa aura de pintura autorizada, mas no . ilegal tambm.

Mas tem apelo esttico maior. colorido, harmnico, tem personagens bonitinhos.

A sociedade absorveu o grafitti a partir de 1995, e agora, desde o ano 2000 est

bombando. O grafitti no resto do mundo tratado como crime. super combatido.

Nos Estados Unidos e Europa tem uma unidade de polcia especfica, assim como

Homicdios, que se chama Vandal Squad. L o grafiteiro pega cadeia e paga multa.

Um cara recentemente pegou seis anos de priso em cadeia de segurana mxima,

pegaram ele pra Cristo, para assustar mesmo, porque eles do prejuzo. O grafitti em

Nova York morreu, no existe mais como antes.

O cenrio aqui (Brasil) diferente, o grafitti virou um instrumento para combater a

pichao. Os caras financiam grafiteiros famosos, contratam para fazer mural e

combater a pichao. Mas os pichadores se ligaram disso e j esto atropelando

esses trabalhos. (Fotgrafo da galeria Choque Cultural) Disponvel

em:http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-

pichacao-na-bienal/ Acesso em 05/05/12 s 18hs.

--------------------------------------------

12 : Efectivamente, o graffiti original do mundo hip hop subdividi-se numa srie de tipos de interveno

distintos: a realizao avulsa de assinaturas estilizadas, a realizao de um nome com letras a cheio,

carcterizado por interveno rpida e utilizao de poucas cores, ou a produo de um nome colocado

sobre um fundo elaborado e envolvido numa srie de elementos esteticamente enriquecedores, onde

habitualmente se emprega grande quantidade de cores. (PAIS, 2000, p.176)

13

: Quanto aos contedos que constituem as pinturas destes artistas de rua, eles so extremamente

variados, mas, a representao de letras assume um lugar de destaque nesta actividade, o que leva, por

vezes, os seus protagonistas a designar a sua arte como writing em vez de graffiti. Como conseqncia, os

prprios praticantes auto-denominam-se graffiters ou writers. (PAIS, 2000, P.176)

14

: Situada em So Paulo, a galeria voltada principalmente para linguagens cotidianas, como street art.

(www.choquecultural.com.br)

http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-pichacao-na-bienal/http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-pichacao-na-bienal/

17

Afora esse panorama europeu, no Brasil o grafite (termo abrasileirado) surge de

forma mais legitimada, pois ganhamos o termo pixao para diferenciar esses duas

prticas urbanas. Na entrevista abaixo o pixador paulista Cripta Djan que foi convidado

para intervir numa galeria em Paris em 2009, discorre sobre o termo pixao:

Os reprteres de toda Europa que me entrevistaram, no sabiam o que era a pixao,

eles perguntavam se era uma espcie de graffiti ou tag15

, e expliquei a todos que a

palavra pixao e pixador, no tinha traduo e que era um movimento nico do

Brasil, que no teve influencia de nenhum outro pais. Agora sim o mundo vai

comear a descobrir o que realmente a pixao. (Cripta Djan16

)

Cripta Djan enfatiza o termo pixao como movimento original da cultura

brasileira. Surgida nas capitais paulista e carioca, na dcada de 80, a pixao se irradiou

para outras cidades brasileiras.

Neste trabalho discutiremos a pixao na cidade de Fortaleza que surgiu por

volta do ano de 1986, de acordo com a pesquisa de Santiago (2011), e que continua em

expresso no cenrio fortalezense. Caracterizada como uma inscrio urbana nos muros,

marquises, prdios ou qualquer outro espao urbano, feita por jovens de classe baixa e

classe mdia, a pixao fortalezense ganhou corriqueiras notcias em jornais impressos

locais nos anos de 1990 1992. Porm sem entender esses rabiscos que surgiam na

metrpole de Fortaleza as notcias por ora escreviam os termos pixao e grafite ou

pixadores e grafiteiros para falar do mesmo grupo noticiado.

Ao final da dcada de 1980 e incio de 1990 as expresses pichao e grafite

comeavam a ter maior visualizao e divulgao em Fortaleza, perodo que se

estruturam e comeam atuar as primeiras gangues de pichadores fortalezenses. A

mdia, nesse perodo, fazia uma misturada e mesmo uso em relao s duas

terminologias, comeavam um texto com o nome de pichao utilizando tambm

grafiteiros para falar da ao de pichadores, que eram constantemente pautas de

reportagens e denncias. (SANTIAGO, 2011, p.43)

Mas esse movimento subversivo que surgia nas avenidas de Fortaleza tratava-se

da pixao em sua forma mais tradicional de produo com o uso do spray, na

--------------------------------------------

15: Tag o mesmo que assinatura. Pode ser assinatura do autor do grafite, como tambm a assinatura solta

pelos muros. (Apostila de Arte Urbana feita por Robzio Marques e utilizada pelo grupo Acidum)

16

: Cripta Djan um famoso pixador de So Paulo. Esse depoimento faz parte do vdeo Pichao busca

reconhecimento e discutida por acadmico. Disponvel em :

http://www.youtube.com/watch?v=UzuCPnDFa4w Acesso em 11/05/12 s 23hs.

http://www.youtube.com/watch?v=UzuCPnDFa4w

18

monocromia do trao, em uma grafia estilizada que deixava exposto o pseudnimo e a

famlia17

de pertencimento do pixador.

Pixar a cidade possibilitava a um grupo deixar vestgios, suas marcas. Os

primeiros grupos de Fortaleza eram denominados de Rebeldes da Madrugada (R.M.),

Feras dos Grafiteiros (F.G.) e Domnio das Ruas (D.R.) (DIGENES, 1998).

Numa aluso a essa prtica subversiva e coletivamente praticada por jovens os

termos rebeldes, madrugada, feras, domnio e ruas so palavras-chaves que em sua

semntica caracterizam a atividade da pixao.

IMAGEM 01: Reportagem para o Dirio do Nordeste. Av. Pontes Vieira. Anos 89/90, galera da F.G.

Feras dos Grafiteiros. Segundo Narclio Grud da esquerda p/ direita: Tatoo e Guga, Sombra, Narclio

Grud, Kite acima, garoto agachado no identificado e Pastor.

FONTE: Arquivo virtual de Davi Viana disponvel em seu perfil social do Facebook.

A pixao surgida na cidade de Fortaleza foi inspirada nos moldes da pixao

carioca, a pichao carioca difere da de outras cidades, principalmente, pelos traos

curvos (em So Paulo, predomina o reto) (COSTA, 2009). H uma ntida semelhana

--------------------------------------------

17: Famlia no uso nativo do termo significa o grupo de amigos pixadores, de jovens com semelhantes

afinidades, congregados em uma mesma sigla, no h, necessariamente, o envolvimento por relaes de

parentesco.

19

da pixao carioca e a fortalezense, o xarpi curvo ou embolado, com letras

sobrepostas, a dinmica de execuo semelhante tambm, um trao contnuo do

comeo da primeira letra do xarpi letra final. Em contraposio, a pixao paulista

detentora de uma caligrafia nica, seu xarpi executado letra por letra, h um estilo de

linhas e ngulos retos.

IMAGEM 02: Estilo grfico de pixao no Rio de Janeiro.

FONTE: Arquivo presente no blog do pixador Nuno, disponvel em

www.nunodv.blogspot.com.br. Acesso em 06/05/12 s 20hs.

IMAGEM 03: Estilo grfico de pixao de So Paulo.

FONTE: Arquivo disponvel em http://www.descolex.com/2010/03/alfabeto-pixacao-simbolos/

Acesso em 11/05/12 s 21:30hs.

http://www.nunodv.blogspot.com.br/http://www.descolex.com/2010/03/alfabeto-pixacao-simbolos/

20

As entrevistas feitas com os primeiros pixadores de Fortaleza atestam a figura

de Rape, jovem carioca, como difusor do xarpi carioca entre jovens fortalezenses, no

ano de 1989. De acordo com relato do pixador Pango presente na pesquisa Santiago,

2011, abaixo:

O meu primeiro nome era Vavo da V.M. (Vndalos da Madrugada), era uma

gangue a, e o lder era o Pavo. Vavo era meio que chupao de Pavo, parecia

com o dele. Ento ns encontramos o Carlin e pedimos para ele bolar uma letra

bem legal, pois ele sabia umas letras do Rio de Janeiro, isso por volta de 1989. ()

Foi o Carlin que bolou o Pango pra mim, o Rape no dava muita bola pra gente

no, com aquele jeito de quando ele metia nome, o cara era considerado, era

como um Deus, todo mundo queria ver e conhecer. (2011, p.28)

Afora essas pixaes, existiram tambm as pichaes polticas nos muros de

universidades pblicas nos anos de ditadura em Fortaleza. Essa diferenciao

ortogrfica utilizada nesta pesquisa refere-se ao fato de que a pichao com ch a

pichao tradicional histrica, encontrada nas literaturas e dicionrios. Trata-se de um

movimento de pichao pertencente aos anos de governos totalitrios em diferentes

pases. Os sujeitos dessas pichaes eram outros atores sociais e possuam outros

propsitos.

Advindos, em sua maioria, da classe mdia, eram estudantes, professores

universitrios e sindicalistas influenciados nos estopins dos movimentos sociais e

polticos dos anos de ditadura gritando e transcrevendo em muros suas indignaes

polticas. certo que, pelo menos antes do AI-5, as mobilizaes contra a ditadura

foram sucessivas e tiveram como grande marco, os movimentos de 68: como a passeata

dos 100 mil, por exemplo. (VASCONCELOS, 1993, p.88)

Segundo Vasconcelos, o governo brasileiro dos anos 50 e final dos anos 60

preconizava um regime totalitarista que anulava dos cidados seus direitos civis. A

sociedade se mobilizava em manifestaes pblicas no intuito de reforar a conscincia

poltica com denncias e aclamar a sociedade para a luta a favor da democracia. Porm

os anos mais tenebrosos estavam por vir, tendo como marco inicial o ato institucional

n5, no ano de 1968, a partir desse perodo os conflitos tornaram-se frgeis e dispersos,

muitos indivduos passaram de manifestantes presos polticos.

De acordo com a pesquisa de Vasconcelos (1993, p.101-102) os processos de

acusaes do regime militar em sua maioria (70%) referiam-se militantes de

organizaes partidrias clandestinas, seguido de participaes violentas (20%),

identificao ideolgica com o governo deposto (7%), manifestao de idias por meios

21

legais (2,1%) e manifestao de idias por meio artstico (0,3%). A pichao poltica

era instrumento de insurreio e publicizao das idias democrticas.

Diferentemente, a pixao com x a forma como os jovens nativos

(interlocutores deste trabalho) escrevem e descrevem suas prticas urbanas. A pixao

a arte que nunca vai ser domesticada, ela a arte de rua, ela vem dos princpios de

quebrar as regras, ela no veio pra agradar, ela no pra agradar a sociedade,

entendeu? (Cripta Djan). O piXador18

o sujeito que no possui limites, que sente a

pixao como algo que se apodera do seu corpo e cabea, a pixao para ele a ao

viciosa que palpita no seu sangue, algo necessrio, visceral.

Alm dessa carga semntica de contra e de proibido, o X assume outros

concentrados de sentido: escrevendo x-s, por exemplo, um pblico avisado

compreende que se encontra diante de algo excessivo (ex-cess). E a publicidade de

um perfume utilizou s essas consoantes ambguas atmosferas perfumadas. Em

suma, o X, pouco a pouco, tornou-se uma espcie de ideograma que, em virtude da

fontica inglesa (X = ecs), acabou por incorporar o timbre sonoro do irregular. A

medida extra extra large como incapaz de conter, a msica hardcore como

impossvel de ouvir, as imagens-grafite como insuportveis, o porn XXX como

invisvel. Muitas formas da comunicao juvenil de oposio assumem o X como

cdigo (lema) que explode os limites e fica contra os limites. E nisso se encontram

e no pela primeira vez prximos, demasiado prximos, aos lxicos dos

publicitrios, seriais, websites. E o jogo lingstico se torna duro. Alis, X-treme.

(CANEVACCI, 2005, p.44)

A pixao uma cultura eXtrema no conceito eXtremo que discute Canevacci,

ela excessiva, surge mesmo para incomodar, como fala Cripta Djan.

interminvel, no cessa, um crculo viciante, ao que ressoa, ecoa. Ela

comunica atravs do xarpi, ela descomunica quando desordena placas de trnsito, ela

se extrapola na paisagem urbana. Ela quer estar na cidade, se impregnar, explodir os

limites, ficar contra os limites. A pixao intensidade, interminvel,

ilegalidade, intromisso, incmodo. Ela o tiro de guerra do pixador, ela para

impactar, para errar, para questionar, para afirmar, para desconfiar, para

ficar no corpo da cidade, para eternizar19

.

Os movimentos de ps-ditadura possivelmente influenciaram essa gerao de

jovens no final dos anos 80. Quando se denominam rebeldes , na perspectiva imaginria

destes jovens, esto adquirindo um carter agressor contra a classe burguesa da poca.

--------------------------------------------

18: enfatizado aqui pela grafia do X maisculo, fazendo referncia aos estudos de (CANEVACCI,

2005), as culturas eXtremas so aes interminveis que suscitam outros sujeitos, elas no so passveis

de compreenso, no se movimentam na lgica, no se determinam por conceitos fechados.

19

: com a licensa do leitor de me utilizar da liberdade potica, de uma chuva de idias na tentativa de

transpor para o papel de uma s vez os significados da piXao.

22

A cultura musical vigente em suas letras de rap ou rock tambm eram

motivaes para que a juventude expressasse suas idias de rebeldia.

O fato que esta pixao a qual estamos pesquisando por ora nos parece mais

uma manifestao social de um grupo de jovens determinados a deixar marcas nesse

territrio de impessoalidade que a cidade, do que explicitamente uma manifestao

poltica contra uma ordem social vigente. Essa semelhana compartilhada com a

pesquisa sobre graffiti nos anos 80 em Lisboa feita por Machado Pais, como o autor nos

relata abaixo:

Os dados recolhidos so contraditrios, no s entre diferentes writers, como

tambm em diferentes momentos do discurso de um nico jovem. Por um lado,

rejeitado qualquer uso do graffiti com fins polticos, evocando que, desde a sua

origem, o elemento central de qualquer pintura, muito ou pouco elaborada, o nome

artstico do autor, o seu tag. (PAIS, 2000, p.202)

Em depoimentos colhidos entre pixadores que se denominam pertencentes a

dcada de ouro do xarpi cearense, dcadas de 80 e 90, encontro com freqncia o uso

do termo rebelde20

denominando as participaes juvenis, e uso do termo burguesia21

marcando uma diferenciao entre as classes.

Porque os polticos s pensavam no burgus e esquecia da populao, das favelas.

E a gente se revoltava, se reunia, trocava as idias. T certo que no justifica pixar

a casa dos outros, muro, porto, prdio; mas era um modo de dizer que no era pra

fazer as coisas que eles determinavam fazer, era uma rebeldia. Prioridade total

eram os muros pblicos pra demonstrar pro governo que a gente no devia fazer

aquilo que eles determinava. Eles tinham que mudar n? Tinham que olhar pro

pobre e olhar pro rico. (Pango S.A. Sujando e Anarquizando, 37 anos, comeou

na pichao em 1989).

A justificativa expressa em palavras no a mesma que verificamos nos muros.

Seus riscos simbolizam a inscrio pessoal de um codinome, diferente das pichaes de

protesto nos anos de ditadura. No se trata aqui de discutir qual pichao ou pixao

mais politizada ou tem maior relevncia para uma sociologia urbana. Apenas

verificamos uma diferenciao marcante entre essas duas prticas em perodos

diferenciados.

--------------------------------------------

20 : Rebelde, segundo os pixadores, no sentido de perceber no jogo da vida social que existem classes

abastardas de dinheiro e poder que determinam ordens a serem seguidas na sociedade, fazendo com que

assim exista uma desigualdade social pautada na dicotomia entre rico e pobre, forte e fraco, lder e

subordinado, como exemplos.

21 : parafraseando (FREITAS, 2003, p. 40) no imaginrio dos jovens desta pesquisa a burguesia a classe

social que possui dinheiro, privilgios em instituies, moram em bairros chiques, que so donos da

cidade e que no enfrentam as dificuldades que eles e suas famlias enfrentam.

23

Cabe frisar que a grafia da pixao com x utilizada por pixadores para

tambm sublinhar que o pixador aquele que carrega a pixao como um vcio. Ela

parece um estado de potncia pulsante em suas veias. Constitu-se em seus discursos de

algo embrenhado no ser do sujeito pixador, fazendo com que ele no consiga se

desvincular dessa prtica.

Para estes, o pixador de verdade o que est nas ruas se expondo e se arriscando

com ousadia na tentativa de preservar um status, como expressa o relato seguinte:

Cada "pixador"! No pichador! Sabe do valor da parada! Caras que gastaram

milhares com tinta e tempo e que esto h ANOS fazendo! S eles sabem do valor da

parada! (Depoimento annimo presente no blog Repique22

)

A pixao em So Paulo (grafada aqui com x para diferenci-la, como fazem seus

praticantes, da pichao poltica tambm presente na cidade) uma manifestao

visual que traz, embutida nas prticas e imagens criadas sobre muros e edifcios,

uma viso de mundo que no cabe nos acordos que regem e limitam a vida

urbana. Texto proveniente do cartaz da 29 Bienal de Arte de So Paulo, 2010.

Disponvel em http://www.flickr.com/photos/choquephotos/6286917861/in/set-

72157625969699332/ Acesso em 05/05/12 s 18hs.

Semelhantes no critrio de ousadia, porm diferentes nas marcas deixadas na

cidade. O pixador com x est interessado em sair do anonimato, aparecer nos muros,

publicizar marcas ocultadas nos espaos invisveis das periferias e com isso pertencer

a galera, ser considerado.

Da ousadia faz tambm parte uma espcie de gozo , que

proporcionado pela sensao de perigo vivida por aqueles que, conscientemente,

ultrapassam o que admitido pelas autoridades, habilitadas a sancionar o acto de

pintar qualquer superfcie alheia. (PAIS, 2000, p.180)

Estas prticas revelam um forte investimento na afirmao pblica de uma cultura

em que, ao risco de prejuzo de uma eventual deteno, se opem os lucros da

visibilidade de uma cultura, face ao impacto visual de quem a produz, e tambm

face ao elevado nmero de indivduos exteriores a essa mesma cultura, que podem

observar e avaliar cada pintura realizada. (PAIS, 2000, p.181)

A busca pela considerao ou afirmao pblica como expressa Pais

norteadora das aes do pixadores, mesmo que para isso tenha que enfrentar prejuzos

com os inmeros inimigos reais: a polcia, o dono da residncia, o carro que passa e o

persegue; e os inimigos abstratos, como o prprio medo, a altura e o tempo de ao.

--------------------------------------------

22: Disponvel em:http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-pichacao-na-

bienal/ Acesso em 05/05/12 s 18hs.

http://www.flickr.com/photos/choquephotos/6286917861/in/set-72157625969699332/http://www.flickr.com/photos/choquephotos/6286917861/in/set-72157625969699332/http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-pichacao-na-bienal/http://repique.blog.terra.com.br/2008/10/27/fotografo-conta-detalhes-da-pichacao-na-bienal/

24

IMAGEM 04: Pixao em altura no Rio de Janeiro.

FONTE: Arquivo presente no blog do pixador Nuno, disponvel em

www.nunodv.blogspot.com.br. Acesso em 06/05/12 s 20hs.

Muitos pixadores declaram que o que os faz correr os riscos so as sensaes de

adrenalina, muitos declaram que a prtica se tornou um vcio, tornando a pixao o item

motivacional em seus cotidianos.

E queria pichar23

, como os pichadores considerados, no s no entorno do bairro

onde morava, tinha que conhecer mais cdigos e regras, andar nos locais de

encontro dos pichadores, me socializar, arriscar, enfrentar, me tornar realmente um

pichador destacado, conhecido e conhecedor desse universo dos grupos

organizados de pichadores fortalezenses. Se quisesse permanecer na gangue, tinha a

tarefa de pichar muito e em diversas regies da cidade, teria que fazer uma

revoluo em minha vida para poder sair nas madrugadas para pichar, dizia, muitas

vezes para meus pais que iria dormir na casa de amigos da escola e na realidade

freqentava baladas e bailes funk na cidade, muitas vezes dormia o comeo da noite

em cima de marquises de paradas de nibus ou em prdios abandonados da cidade

no intuito de nos horrios sair andando por ruas e avenidas pichando, ou melhor

detonando meu charpi e o nome de minha gangue. (SANTIAGO, 2011, p.29)

Os depoimentos coletados nesta pesquisa atestam para dois momentos da

histria da pixao em Fortaleza. De um lado h o discurso dos mais velhos que

viveram as dcadas de 80 e 90 do xarpi, noutro os jovens pertencentes s dcadas de

2000 e 2010 (at o atual ano).

--------------------------------------------

23: Santiago (2011) utiliza os termos pichao, pichar, pichadores, charpi com grafia do CH.

http://www.nunodv.blogspot.com.br/

25

A primeira diferenciao que podemos exprimir a ausncia dos atuais jovens

em refletir sobre o ato de pixar. Eles no utilizam o termo rebelde, nem falam de

burguesia ou outras classes sociais. O pouco discurso poltico que encontramos nos

depoimentos dos primeiros a compor a cultura da pixao, no identificado nos

discursos dos mais jovens e participantes das geraes 2000 e 2010 do xarpi. Estes no

justificam suas atuaes como uma prtica contra uma ordem vigente, no est claro em

seus discursos que o ato de pixar um poder marginal potencializado objetivado a

fragilizar instituies e o poderio de um Estado.

Na contramo de um discurso crtico, suas palavras traduzem a prtica da

pixao como forma prioritria de adquirir prestgio e poder nas galeras do movimento

da pixao. Parte da entrevista abaixo representa os motivos do pixador Scorpion S.R.

(Suicidas de Rua):

O que voc quer ganhar sendo pixador?

Amigos e ser conhecido sabe, ter o respeito dos outro manos da outra galeras.

Existe outro jeito de ganhar fama alm da pixao?

Tem, mais eu s fao isso porque pixar muito irado, o corao batendo

acelerado, adrenalina a mil.

Em semelhante ponto de vista Snow T.B. (Terrorista dos Bairros) deixa claro

seus propsitos com a pixao:

Gastar dinheiro, talvez ser linchado pela polcia, se arriscar num prdio... tudo isso

pode acontecer por causa da pixao. Pixar vale a pena? Porqu?

Adrenalina, prazer e gostinho de ter seu nome l em cima onde ningum pegou , o

gosto que voc tem quando voc vai l e supera um cara de uma galera rival

inexplicavel , a adrenalina de subir em um galpo por um poste inexplicvel. S

que pixa sabe como , tenho amigos que j pararam mais que quando perguntados

porque pixavam, eles falam : porque gostvamos.

Afora seus significados, o fato que a pixao uma cultura juvenil fortemente

presente na paisagem urbana das cidades brasileiras, e seu crescimento constante. Em

Fortaleza, a pixao que surgia na metade dos anos 80 rapidamente desencadeou para a

dcada de 90 uma quantidade significativa de pixadores e de siglas, cuja preciso em

nmeros no se pode afirmar.

Em entrevista feita por Fuga R.M. ao ex-pixador24

Canco R.P.M. este ao final

l um texto de sua autoria que figuram numa tentativa de nomear todas as siglas

26

existentes na dcada de 80 e 90, mas desculpa-se antecipadamente por esta parecer

ser uma tarefa difcil, haja visto as inmeras existentes.

Cheguei a conhecer e ouvir falar de vrias pessoas que fizeram parte daquela

histria, alguns j morreram, mas nunca sero esquecidos, a maioria vive. Aqui vai

uma relao de pessoas que fizeram uma histria de muita amizade e adrenalina,

em primeiro lugar eu mando lembranas aqueles que fizeram parte da RPM, FX ,

DN, DE , GU, FG, GE, RM, TAN, RDP, PCM, GDR, AN, EDT, PM, PDM, FDP,

RDM, ER. Canco R.P.M. Rebeldes Protestantes da Madrugada Disponvel em

, visualizada

em 30/04/12 s 18hs.

Nas palavras de Canco podemos enumerar pelo menos dezenove siglas

existentes na dcadas de ouro do xarpi cearense. Tomemos a proporo quantitativa

da cultura da pixao: se cada sigla rene dezenas de pixadores, se a quantidade de

siglas nas primeiras dcadas de seu surgimento possua, na contagem de um s relato,

19 siglas, imaginamos, assim, as centenas de jovens em ao pela cidade. Qui esse

clculo na atualidade dos anos 2012 porque nessa trajetria de quase trinta anos a

pixao ganhou muitas siglas e adeptos pixao.

A cultura da pixao est em constante rotatividade, os pixadores da dcada de

80 e 90 vo parando a atividade de meter nome por uma justificativa biolgica de sair da

fase de juventude e entrar na fase adulta, com mudana de responsabilidade, e de

conscincia, as atribuies com famlia e com o emprego so questes que se

tornaram mais importantes. O ciclo da pixao assim vai se renovando, pelo fato de que

vo surgindo novos pixadores que assumem as galeras criadas naquela poca ou que

criam sua prpria galera.

Mas alm do aumento do efetivo de membros da pixao, essa cultura adquiriu

novos smbolos, bem como novos conceitos, que sero exemplificados no captulo As

convenes do xarpi.

--------------------------------------------

24: no foi identificado na pesquisa a utilizao do termo ex-pixador. Aqui a estamos utilizando de modo a

deixar mais claro para o leitor que o depoimento trata de um pixador antigo, pertencente a dcada de 80

ou 90 que no est mais na ativa.

http://www.youtube.com/watch?v=pokRBK086DE&feature=relmfu

27

IMAGEM 05: Pixadores simbolizam as iniciais da sigla V.S. com as mos. (Vagabundo Safado).

Fortaleza CE.

FONTE: Orkut.

Pixao para os antigos pixadores algo rememorvel a qual eles falam com

nostalgia e orgulho nos encontros promovidos entre eles. Esses encontros (diferentes

das reunies dos atuais pixadores) tm o carter particular, sua participao restrita

aos membros daquelas dcadas e suas famlias. Nos moldes de um encontro familiar

eles alugam um espao e se confraternizam com churrasco e bebida, havendo o

momento memorvel de pixar mais uma vez (um espao pr-acordado para isso com

direito a novos registros). Nesses encontros relatam suas memrias, por vezes, pelo

intermdio de suas agendas ou fotografias. Relembram picos, rols, furos, rodadas,

festas, namoros, e assuntos atuais como suas profisses e famlias.

Minha profisso hoje cartazista em supermercado e eu adquiri a profisso por

intermdio da pichao, o dom, o talento da letra. Fazer placa, fazer letreiro, tanto

em placa como em parede. A sociedade muitas vezes recrimina porque ela no

entende o significado da pichao. Mas a maioria que eu conheo da minha poca

tem uma profisso por intermdio da pichao, tem outros que tem serigrafia, ateli

de grafite, outros que tatuam. (Seco G.D.R. Garotos de Rua, 32 anos, gerao 90)

28

As siglas da poca dos anos 80s e 90s tinham como influncia de ttulo a

cultura em voga naquele perodo. As bandas de rock nacional como RPM, Legio

Urbana, Ultraje a Rigor traziam como vocabulrio para esses jovens palavras de

contraveno utilizadas nos nomes das gangues dos pixadores. As palavras noite e a

rebeldia e seus sinnimos eram comumente expressos nos ttulos das siglas, como

exemplo temos: R.P.M. (Rebeldes Protestantes da Madrugada), G.U. (Gerao Urbana),

E.D.T. (Esprito das Trevas), F.X. (Feras do Xarpi), G.D.R. (Garotos de Rua), E.R.

(Esquadro Rebelde), F.G. (Feras do Grafite), D.R. (Domnio das Ruas), G.P. (Garotos

Podres), R.M. (Rebeldes da Madrugada).

Segundo Digenes (1998), a pixao tornou-se uma atividade perigosa

aparecendo uma segunda gerao que j se nomeavam como psicopata algo mais,

parasita do medo, tendncia suicida, dentre outros, e estes eram alvos de represses

violentas da polcia.

As siglas surgidas nos anos 2000 e 2010 apresentam palavras de um glossrio

cujo contedo inclina-se para uma simbologia da violncia. Atestasse a presena de

termos semnticos pertencentes a um teor de fria, podemos examinar essa idia nos

seguintes exemplos: V.S. (Vagabundo Safado), L.D.P. (Loucos, Delinqentes,

Psicopatas), A.C. (Arte Condenada), M.C. (Mente Criminal), T.D.B. (Terroristas dos

Bairros), P.C.X. (Primeiro Comando do Xarpi), V.L. (Vida Bandida). Os pixadores ao

criarem uma sigla, utilizam-se da estratgia de batiz-las com palavras que denotem

fora, fria, transgresso e outros conceitos, dessa forma esto sendo identificados pelo

poder semntico das palavras. Essa demonstrao de poder por vezes est duplamente

explicitada no uso de imagens de dinheiro, armas e drogas formando as letras da sigla

de um grupo (vide Imagens 20 e 21 na pgina 55). Esse assunto ser examinado com

maior ateno no captulo A imagem como representao do pixador.

29

3. AS CONVENES DO XARPI

O xarpi, na linguagem da pixao, significa o codinome ou apelido do pixador,

a marca identitria que o jovem escolheu e que provavelmente atravs dela ele est

construindo sua valorao entre seus semelhantes.

A primeira prtica criativa adotada na pixao a escolha do apelido. Escolhido

o codinome, o jovem vai buscar produzir a esttica que melhor lhe apraz na grafia da

sua identidade no mundo da pixao. O depoimento abaixo revela a iniciao de jovem

no movimento da pixao:

Levado nos revelou algumas regras e cdigos, entre elas, a de que tnhamos que criar

um codinome, um apelido, um charpi, teramos que criar um alfabeto com uma letra

estilizada, exclusiva, nem o codinome nem as letras poderiam ser semelhantes com

outras que j existiam. (...) Foi quando me ocorreu um codinome que segundo

Levado no existia: Mutreta. Iria pichar com esse codinome, nascia ento o Mutreta.

Nascia o outro que estava em mim e queria sair, ser nmade, errante, aventureiro,

numa vida mltipla, vivida em um mesmo corpo. (SANTIAGO, 2011, p.26)

importante adotar um estilo para ficar condizente com o seu apelido, essa a

primeira preocupao do pixador ao adquirir sua marca, no entanto esta independente

do nome ou do estilo que tenha s ser uma boa marca se for incansavelmente

divulgada.

A gente nunca muda o estilo que pra poder ser conhecido pelo seu estilo, porque

quando voc fica mudando voc nunca vai ser conhecido. Se cada canto que voc

meter o seu nome voc ficar mudando o estilo, as pessoas no vo conseguir

identificar a sua pixao. Ela tem que ter um padro s, o que acontece que

quanto mais voc pixa, mais voc vai aperfeioando a sua letra. (Seco G.D.R.

Garotos de Rua)

As pixaes na cidade de Fortaleza podem ser divididas em trs tipos estticos

os quais o pixador deve adotar somente um como sua marca identitria, pois como

afirmou Seco GDR, deve-se adotar um nico estilo de pixao para que a comunidade

de pixadores reconhea o sujeito da ao. Os trs tipos mais comuns de pixao so:

Xarpi: o codinome do pixador criado numa esttica prpria com letras

estilizadas e sobrepostas, a esttica da marca depende da imaginao do pixador.

Um sujeito fora do fenmeno da pixao no distingui as letras, muito menos

executa a leitura do apelido;

Boneco: ou Desenho. A assinatura no se traduz numa palavra, mas num

desenho simples executado somente por linhas;

Letreiro: ou Nome. legvel, conseguimos identificar as letras e possvel a

30

leitura do apelido.

IMAGEM 06, 07, 08: Arquivo pessoal. Trs exemplos de pichao, respectivamente, xarpi

(Seco GDR Garotos de Rua), boneco (Rato PCX + OH Primeiro Comando do Xarpi, Os

Humildes) e letreiro (Muleka 3E + EF Envolvidos na Erva Efeituosa, Eternamente Feras).

FONTE: Arquivo pessoal.

O que importa (no xarpi) no o formato, se ele vai juntar as letras demais, ou se a

letra vai ser fcil de ler, o que importa ele (pixador) divulgar o nome dele em todo

canto, isso vai fazer ele ser conhecido e respeitado. (Seco G.D.R. Garotos de Rua)

A palavra xarpi se sobressai diante das outras, pois uma derivao da palavra

pixao, pixar; a inverso das slabas era utilizada como cdigo para despistar a polcia

e a sociedade quando se falava dessa atividade ilegal. Assim como cialipo significava

policial, jousu significava sujou, eram criadas palavras com slabas invertidas e grias

que viabilizassem uma comunicao segura entre eles.

A pixao em sua forma mais simples caracterizada pela presena do xarpi e

da sigla. A sigla so letras abreviadas, que simbolizam a qual gangue, galera ou famlia

o pixador pertence. Pertencer a uma sigla considerada proporciona aos seus integrantes

um status coletivo, ou seja, o histrico daquela sigla na cultura da pixao a conveciona

na moralidade coletiva presente no imaginrio desses jovens. Numa organicidade

coletiva esses jovens pertencentes a uma mesma galera possuem a mesma funo de

31

divulgar sua sigla numa fora de estmulo coletivo.

Porm essa aparente fidelidade sigla se desconstri quando eles permutam para

uma outra sigla de maior visibilidade, demonstrando para ns que a atividade da

pixao coletiva, no entanto h o predomnio de interesses individuais, pois a

mudana de sigla uma estratgia na busca da considerao. Assim, damos conta da

existncia de uma mobilidade de pixadores dentro das siglas, ora eles so convidados

para tacar outra sigla, e trocam-na se a nova proposta lhes prover mais ibope, sendo

a sigla de convite mais considerada que a atual.

A pixao em moldes mais complexos pode apresentar alm do xarpi e da sigla,

uma subsigla, um oferecimento, uma dedicatria, frases competitivas, xingamentos ou

frases que expressem rixa com outro pixador e vrios smbolos com significados

especficos que sero analisados afrente.

A subsigla assemelhasse com a sigla, pois na maioria das vezes apresenta-se

tambm de forma abreviada. Ela significa uma mensagem, servindo para dar nfase a

um lema que desempenha de guia ou de motivao ao pixador. Por vezes so

caracterizadas na repetio de uma letra, como uma rima na trade de palavras com a

mesma consoante. Alguns exemplos como: 3C Caminhando com Cristo; 3S S o

Senhor Salva; HG Humildes Grafiteiros; 3T Tinta Todo Tempo; 3F Envolvidos

na Erva Efeituosa; OH Os Humildes; entre tantas outras subsiglas que surgem, por

vezes, na espontaneidade do momento de pixar.

O xarpi mxima representao do pixador, atravs desse smbolo grfico o

pixador identificado. A inscrio representa e traduz o sujeito cujo smbolo atesta uma

presena que permanece para alm da durao da tinta no muro, permanece nas

memrias dos integrantes. Acontece que h uma fuso entre imaginrio e o real, como

aponta Armando Silva: o imaginrio afeta os modos de simbolizar o que conhecemos

como realidade, e essa atividade adere a todas as instncias da nossa vida social (2001,

p.47).

comum entre os companheiros de pixadores que j faleceram riscar o xarpi

daquele pixador, reproduzindo a mesma esttica de outrora, transfigurando o desejo de

reascender aquela memria, de ver novamente viva aquele spray como a aluso da

energia daquele que se foi, a forma que os pixadores no seu imaginrio simblico

imortalizam um companheiro. Essa dedicatria aparece no muro atravs de frases como

o eterno, na memria e na simbologia da cruz invertida.

32

IMAGEM 09: Homenagem a um pixador. Fortaleza-CE

FONTE: Arquivo pessoal do pixador Seco G.D.R. disponvel na rede social Orkut.

No movimento da pixao o xarpi deve ter a potncia visual significativa para

representar o pixador. Convencionou-se que o risco no muro produo de algum que

transitou por ali, este deixou um rastro de sua passagem, e tantas vezes mais feito isso,

mais a marca traduzia-se na figura de certo algum. A passagem da abstrao do risco

no muro para a simbologia real do pixador, uma coerente analogia amalgamada no

imaginrio urbano do jovem pertencente teia comunicativa da pixao.

O xarpi uma espcie de mercadoria construda pelo seu pixador que possui

um corpo cheio de smbolos e sinais, um fetiche. No algo esttico que

permanece imvel diante do sujeito que observa, mas que se transformou, por sua vez,

em sujeito. (CANEVACCI, 2001) O xarpi configura-se em mercadoria, pois na sua

construo simblica ele adquire um valor cultural agregado a essa assinatura pela

competio simblica figurada nos muros da cidade. Os xarpis so colecionados em

33

agendas ou pastas podendo ser negociados em trocas ou vendas.

O fetiche de que nos fala Canevacci o status agregado culturalmente ao objeto

pela comunicao em sua comercializao. A mercadoria deixa de ser coisa para tornar-

se sujeito pela agregao de cdigos semiticos passa a ter corpo e alma(p.21).

Analogicamente podemos falar que o xarpi desenvolve um processo cognitivo que o

transforma de mero risco no muro, como abstrao, para uma mudana significativa que

penetra sua prpria natureza simblica. Os pixadores ao resignificarem o xarpi,

conferem um fetichismo dentro da cultura da pixao. A assinatura um signo de

valorao simblica que norteia as prticas cotidianas desses jovens, de coletar

assinaturas nas reunies, e na busca incansvel de fazer seu xarpi se destacar nos muros,

nas redes sociais e na memria dos companheiros.

Nas galeras de pixao o xarpi confere ao pixador uma nova identidade. Na sua

teia comunicativa os assuntos giram em torno desse eu-xarpi na cultura da pixao. O

pseudnimo assim confere uma outra biografia ao sujeito que se sobressai a identidade

de batismo. Pode acontecer de os prprios companheiros de roles nas ruas no saibam

informaes pessoais dos companheiros, pois a importncia se concentra aos assuntos

dentro do xarpi.

A construo simblica daquele corpo no sistema da pixao, faz com que as

relaes de troca e comunho sejam embasadas pelas atividades na pixao e no nos

momentos em que o pixador est caracterizado como sujeito comum. Eles comunicam

suas andanas na cidade, seus ambientes preferidos para tacar suas marcas, suas

rodadas25

com os gambs26

e tantas outras histrias que melhor do sentido a quem

pertence ao xarpi.

A imagem abaixo pertencente ao perfil virtual de um pixador interlocutor dessa

pesquisa demonstra a relevncia do xarpi sobreposta imagem do pixador, no se

contentando apenas em escrever os apelidos dos companheiros na legenda da foto, ele

reproduziu o xarpi de todos e os sobreps na imagem original.

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25: significa ser descoberto pela polcia, ou por algum na sociedade no momento da pixao. Ter o corpo

violentado como repreenso. 26

: polcia.

34

IMAGEM 10: Os xarpis. Os rostos receberam uma tarja para preservar suas respectivas

identidades.

FONTE: Arquivo pessoal do pixador Snow T.B. (Terroristas dos Bairros).

3.1 A sociabilidade entre os pixadores

A pixao possui uma srie de regras internas e motivaes que alimentam essa

disputa pelos muros e pelos espaos de divulgao. Ela poderia ser ilustrada como uma

moeda de suas duas faces, de um lado as regras ordenam construo da sociabilidade

entre esses jovens, porm, na outra face, essas mesmas regras so capazes de

potencializar os conflitos.

Na pixao as relaes sociais giram em torno do xarpi. Essa imagem simblica

nos muros atesta a existncia de um ser social em comunicao com outros pixadores na

cidade. O pixador produz uma marca no ambiente fsico da cidade que o revela naquele

espao urbano, atestando sua existncia, e elevando a auto-estima do sujeito. A marca

registro de uma presena que permite no tempo uma constante comunicao na cidade.

Dessa forma, a pixao promove o incio de um processo de sociabilidade juvenil,

corporificado em dedicatrias, reunies, pegar assinaturas, tirar fotografias e

principalmente ocupar um lugar no hall da fama.

35 Isso me impressiona, a fama que eu tenho e de ser conhecido na cidade todinha,

nesse tempo no tinha internet, hoje mais fcil, mas naquele tempo pra pessoa se

divulgar era osso, eu tive esse privilgio de ter sido divulgado antes da internet.

Conheo muita gente, muita gente vem aqui me ver, para eu assinar agendas, gente

de todo canto de Fortaleza, gente como o Falco que eu tenho maior carinho.

(Pango, entrevista em 14 de maro de 2010) (SANTIAGO, 2011, p.30)

Os pixadores esto ligados por uma rede intensa de energia, de significao, de

resignificao, de valorao na busca em comum por afirmao em seu pedao,

(MAGNANI, 2005). Eles movem-se na tentativa de sair do anonimato e pertencer

tambm cidade que, historicamente, ergueu enclaves de segregao.

Esse nomadismo juvenil na cidade, essa necessidade de alardear sua presena, de

chocar, de atemorizar, pe em xeque os escudos dos corpos, deflagra as fragilidades

dos limites do corpo individual. nesse sentido que os afetos possibilitam uma

ocupao extensiva dos corpos das galeras no espao homogneo das cidades.

(DIGENES, 2011, p.224)

Nos discursos de quem viveu a pixao nas dcadas de 80 e 90 fica clara a idia

dessa movimentao juvenil como uma unio entre semelhantes de mesma faixa etria,

que esto correndo riscos, mas que os ultrapassam pelo ao ato de pixar e usufruir do

convvio social entre amigos. A pixao tambm uma forma de se reunir para ir a

festas, tomar caipirinha na pracinha da avenida Treze de Maio, namorar as meninas que

se encantam pelos garotos do xarpi e outras experincias nicas vividas e nas

oportunidades mltiplas em que se descortinam os momentos do ser jovem.

(...) Abrao para a Galera da Fome G.F., final da dcada de 80, aquela rapaziada

que arrebentava no Iguatemi, na avenida 13 de maio, enfim, quero deixar um

abrao aqui para toda rapaziada dos anos 80/90 aquela gerao de ouro da

pixao, foi onde tudo comeou, onde a gente fazia muita amizade, onde a gente

agarrava as melhores gatinhas e tal. E onde a gente se divertia, era como o rapaz

acabou de falar ai, no tinha muito negcio de confuso, drogas, a gente tomava

nossa caipirinha e sabia brincar, sabia se divertir, ento essa mensagem que eu

deixo pra galera que sempre, realmente, preservem as amizades, e que usem a

pixao pra aprender as coisas boas, que o trabalho em equipe, o poder de

superao e tudo mais. Que o sucesso que eu tenho hoje profissional e pessoal

tambm eu aprendi na pixao. (Crazy GF)27

Georg Simmel (1983) ao discorrer sobre o conceito de sociabilidade fala que os

homens unidos por um instinto comum criam interaes que formam uma unidade, uma

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27: Depoimento que aparece no vdeo Fuga RM & AMIGOS.mpg Disponvel em:

Visualizado em: 05/05/12 s 13hs.

http://www.youtube.com/watch?v=0EO-TfUFlgs

36

sociedade. Esses instintos ou interesses so motivadores de nos relacionarmos uns

com os outros. Em si mesmos, essas matrias com as quais a vida preenchida, as

motivaes que a impulsionam, no so sociais. (SIMMEL, 1983, p.166). Simmel est

interessado em discutir a forma como esses encontros acontecem diferentemente do

contedo, pois o contedo isolado no social, mas na medida em que um sujeito

associa-se a outro por meio de um contedo em comum, ento foi gerada uma relao

social. Sociao a forma de se associar, de interagir com sujeitos em semelhante

interesse.

Aqui, sociedade propriamente dita o estar com o outro, para um outro, contra um

outro que, atravs do veculo dos impulsos ou dos propsitos, forma e desenvolve os

contedos e os interesses materiais ou individuais. As formas nas quais resulta esse

processo ganham vida prpria. So liberadas de todos os laos com os contedos;

existem por si mesmas e pelo fascnio que difundem pela prpria liberao destes

laos. isto precisamente o fenmeno a que chamamos sociabilidade. (SIMMEL,

1983, p.168)

As relaes de sociabilidade podem acontecer por meio da interao entre redes

e grupos. Em algumas prevalece a sociabilidade dada por suas prticas, como um grupo

de pessoas reunidas por um esporte, noutras o foco da sociao o contexto, pessoas

com vnculos afetivos, como exemplo. Outras relaes de sociabilidade prevalecem os

smbolos, como os praticantes de uma crena, congregados por smbolos religiosos que

transparecem suas ideologias. Por ltimo h sociabilidades pautadas nos significados ou

na objetivao de algo, a forma costumeira de nos relacionarmos com variadas

pessoas pela necessidade de alcance de um fim.

Na pixao ocorre duplamente uma sociabilidade, os jovens reunidos pela

mesma prtica de demarcao na cidade se socializam. E os diversos smbolos na

cultura da pixao tambm acarretam uma sociabilidade explicitada nos muros.

O xarpi um smbolo que no apenas significa o codinome do pixador, mas que

sugere a sua presena, isso porque h uma significativa aproximao entre xarpi e o

pixador. O xarpi no muro torna imortal a presena de um pixador, segundo as

convenes imaginrias dos jovens incutidos nesta cultura. De acordo com Santiago

(2011) nos encontros dos pixadores da gerao 80 e 90, em um determinado momento

eles riscam muros pr-permitidos numa ao de rememorar suas antigas prticas, vide

imagem 11 abaixo. Bem como contam suas histrias e relembram companheiros que j

37

faleceram. Assim o expressa no muro ao pixar, como exemplo: Slayer, o eterno,

um ato simblico de dedicatria a um dos mais famosos e antigos pixadores de

Fortaleza.

IMAGEM 11: A lenda vive. Pixador Seco GDR rememorando sua prtica em um dos

encontros da gerao 80/90. Fortaleza CE.

FONTE: Orkut

No imaginrio coletivo dos pixadores a dedicatria uma simbologia que

imortaliza companheiros na memria de cada um e na histria dessa cultura urbana em

Fortaleza. O risco de spray nos murais da cidade um ato efmero que sofre a

degradao de sua tinta ao longo dos anos ou de forma mais rpida com uma nova

pintura. Porm o que os pixadores objetivam alcanar na dedicatria ps-morte que

aquele companheiro continue simbolicamente vivo pela sua trajetria que teve na

cultura do xarpi.

Eles alimentam a histria dessa prtica de vrias maneiras seja por dedicatrias,

por fotografias de xarpis, da participao virtual em blogs e redes sociais que tratam da

pixao, dos encontros quase que quizenais em reunies, na prtica de colher e dar

38

assinaturas, e nas triviais sadas nas ruas e avenidas para tacar seus xarpis e marcar

os territrios da cidade.

Existe ainda a prtica de registrar dedicatrias do xarpi para outros pixadores e

para as meninas que, geralmente, no fazem parte da pixao, mas so admiradoras dos

pixadores, so paqueras, namoradas, rolos e etc.

A dedicatria para outro pixador o oferecimento para: simbolizado em sua

forma abreviada. s meninas a dedicatria do para: vem acompanhada do smbolo do

corao.

IMAGEM 12: Dedicatria de TEFINHA V.S. para CURU, de corao. Av. Francisco S. Fortaleza-

CE. (2012)

FONTE: Arquivo pessoal.

A interao entre os pixadores ocorre por meio da competio simblica. Essa

competio simblica em torno do xarpi gera um ranking entre eles. Os melhores

ganham o ttulo de considerado, de fera, de sujeito que se garante. Em outras palavras

estes se tornam os mais afamados perante os outros, ganham o poder de comando em

39

sua galera. Desse modo passam a ser identificados como um lder ou cabea, e

passam a utilizar uma simbologia que evoca sua posio de poder.

Os considerados so os pixadores com fama de serem os melhores perante um

ranking classificatrio de pixaes. Ao se tornar considerado dentro da sua sigla, o

pixador, por vezes, adota o nmero um (1) ou (2) sobrescrito ao seu xarpi.

Sask D.N.G. assina colocando o nmero 2 junto ao seu xarpi. Segundo ele, em

cada sigla h sempre o primeiro e o segundo, que so respectivamente os fundadores e

os mais considerados. Essa simbologia hierrquica confirmada com outros pixadores,

mas sofrem algumas modificaes, Snow T.B., por exemplo, narra que existem trs

conceitos de lderes. Existem os lderes de cada sigla e sempre so divididos em trs

casos: primeiro os que tm mais nome na cidade, segundo os fundadores da sigla e em

terceiro os por considerao. (Snow T.B.)

Conquistar prestgio entre os outros pixadores significa ter uma socializao em

maior nmero, muitos vo lhe conhecer sem nunca ter estado presente com o famoso

pixador, as notcias de fama circulam pelas conversas, pelas fotografias e vdeos

circulantes nos meios da pixao. Ao ganhar o ttulo de nmero 1 o pixador obtm

privilgios nos grupos os quais faz parte, Santiago (2011) cita diversos privilgios

alcanados pela fama, as mais citadas so a facilidade de viabilizar namoros, amizades,

convites para sair na aba28

, festas, viagens, entre outras oportunidades de vivncias e

experincias intensas pelos bairros fortalezenses. (p.30)

O privilgio que eu sou da favela e nunca imaginei ficar com filha de

papaizinho, de ir para um apartamento abandonado e me d de bem l, cheirosa, s

usava perfume da Natura, essa uma vantagem na pichao, eu da favela, ganho

spray das gatas pra botar uma dedicatria com o nome delas. Arrumei muita

namorada! Hoje sou um cara casado, com responsabilidade, ela a que me pedi

mais para parar, me d conselho. (Pango, entrevista em 20 de agosto de 2010)

(SANTIAGO, 2011, p.31)

Todos almejam chegar ao topo desse ranking, a competio que promove o

estmulo para pixar, o que os excita, essa valorao de poder motiva esses jovens a ir

ao extremo perigo da experincia, excitao de um corpo capaz de arriscar a prpria

vida.

Pra ser famoso em Fortaleza tem que ralar muito, tem que levar bala, pra levar

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28: gria que significa sair na companhia de pessoas que patrocinam seu ingresso, bebida e etc.

40 pinote dos homi, vigia quebrando o cara (pixador) de pau, sendo preso. Pra

pegar fama em Fortaleza tem que passar por isso mesmo, tem pra onde correr no.

(Pango S.A. Sujando e Anarquizando) Entrevista pessoal feita em 04/03/12.

A simbologia do pdio representa o lugar de destaque para os melhores. Essa

plataforma geralmente de trs nveis territorializa o local dos vencedores. Pdio uma

palavra que em sua semntica representa poder. Esse poder de conquista simbolizado

em destaque ao nmero 1, ocorre tambm na cultura da pixao quando o pixador

considerado representa seu desempenho nas ruas com a simbologia do nmero 1.

IMAGEM 13: Xarpi com a simbologia do n 1. Av. Francisco S.

FONTE: Arquivo Pessoal.

Os xarpis conquistam reconhecimento de fama quando se classificam numa

dessas trs categorias de sucesso: maior nmero de xarpi espalhados na cidade, ou,

xarpis feitos em alturas, como em prdios, ou, xarpi em muros permanentes, como

muros de pedra ou chalpiscado.

Por exemplo, o Bafo da G.D.R. (Garotos de Rua) o dos mais considerados, ele s

pega nas alturas, a maior sigla da cidade; o Doido V.S. (Vagabundo Safado), o

dono da av. Francisco S, o Baro W.S. (Wild Street) o rei dos muros

permanentes. (SASK D.N.G. Detonando no Grafite)

41

Cada pixador tem seu modo de atuar na cidade, sua preferncia por muros ou

prdios. A estratgia vai depender de cada um. O jogo aqui de quem tem mais pixos,

estes reunidos numa s categoria se tornam muitos, a pixao tem disso, o pixador

centraliza uma avenida especfica pra se tornar conhecido (Seco G.D.R.), essa uma

das muitas estratgias utilizadas.

Na rede social, Orkut, existem diversas comunidades sobre pixao, nessas os

pixadores criam tpicos de discusso, enquetes, e apresentam fotografias. Na

comunidade Pixadores de Fortaleza Oficial existe um tpico criado em 26/03/11 que

perguntava: Qual melhor visual pra colocar um xarpi? Foram 122 votos at ento,

27/03/12, que exibia o seguinte grfico:

IMAGEM 14: Reproduo do Grfico enqute Qual melhor visual pra colocar um xarpi?.

(Consultado dia 27/03/12 s 16hs).

FONTE: Orkut, Comunidade Pixadores de Fortaleza Oficial.

A preferncia da maioria dos pixadores (42%) sinalizada nesse grfico por

pixaes em prdios. O desafio da altura o fator que mais motiva o pixador, os picos

so os lugares dos feras na pixao, provocam adrenalina, sugerem maiores

dificuldades. Esse desafio cobra dos pixadores caractersticas como esperteza e ousadia,

necessrio se utilizar de artimanhas para conseguir alcanar aquela altura de destaque.

O xarpi expresso no alto na cidade, numa escala de vrios metros acima do nvel

do cho, determina que os sujeitos devero erguer suas cabeas para enxergar a pixao,

na idia de que o olhar de quem trafega pela cidade um olhar inferior na medida em

42

que o xarpi l no alto olha para esse mesmo sujeito, numa posio simblica de

superioridade.

Outro sujeito na pixao que tambm apresenta valoroso destaque o lder ou

cabea da sigla. Este, geralmente, um pixador veterano que criou a sigla, ou que a

herdou, dando continuidade em sua divulgao.

A estes pixadores conferido o poder de determinar quem entra ou sai da sigla,

promoo de reunies, at mesmo de opinar em assuntos de rixa entre membros da

pixao.

Essas sociabilidades estimulam os pixadores a tacar ou atacar (com permisso

do trocadilho) a cidade em maior quantidade possvel. Quanto mais se risca a cidade,

mais se gera comunicao nas galeras de pixao, tornando maior a possibilidade de

convites para mudar de sigla ou assinar em conjunto. A simbologia do + na pixao tem

idia de agregao tal qual a matemtica, ela bastante utilizada quando os pixadores

saem juntos para riscar. Cada qual pe seu xarpi no muro lado a lado unidos pela

simbologia do + entre estas inscries.

IMAGEM 15: