A EMPRESA PRODUTIVA E A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO A EMPRESA PRODUTIVA E A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA A Teoria da Ação Comunicativa de Jürgen Habermas no Ambiente Organizacional Integrativo: De Mary Parker Follett a Collins e Porras Marcelo Lorence Fraga Porto Alegre (RS), outubro de 2000

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Transcript of A EMPRESA PRODUTIVA E A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

    ESCOLA DE ADMINISTRAO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ADMINISTRAO

    A EMPRESA PRODUTIVA E A

    RACIONALIDADE SUBSTANTIVA

    A Teoria da Ao Comunicativa de Jrgen Habermas

    no Ambiente Organizacional Integrativo:

    De Mary Parker Follett a Collins e Porras

    Marcelo Lorence Fraga

    Porto Alegre (RS), outubro de 2000

  • minha amada filha Jlia, que trouxe luz,alegria e estmulo.

    Que ela um dia compreenda e perdoe o papaipor passar tanto tempo "tudando nopomcadoi".

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

    ESCOLA DE ADMINISTRAO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ADMINISTRAO

    A EMPRESA PRODUTIVA E A

    RACIONALIDADE SUBSTANTIVA

    A Teoria da Ao Comunicativa de Jrgen Habermas

    no Ambiente Organizacional Integrativo:

    De Mary Parker Follett a Collins e Porras

    Dissertao de Mestrado apresentada junto aoPrograma de Ps-Graduao em Administrao daUniversidade Federal do Rio Grande do Sul comorequisito para obteno do ttulo de Mestre emAdministrao - Opo Curricular Organizaes.

    Prof. Orientador: Dr. Francisco de Araujo Santos

    Marcelo Lorence Fraga

    Porto Alegre (RS), outubro de 2000

  • RESUMO

    Este estudo trata da possibilidade de as empresas produtivas possurem elementoscaractersticos das organizaes substantivas, tendo como perspectiva geral a construo de umambiente organizacional integrativo, com base na teoria da ao comunicativa, de JrgenHabermas e na noo de racionalidade substantiva, de Guerreiro Ramos. Apresenta, a partir dostrabalhos de Mary Parker Follett e de Araujo Santos, o conceito de ambiente organizacionalintegrativo, que sustenta a identidade de interesses entre trabalhadores e empresa e valoriza aspectoscomo a auto-realizao, o autodesenvolvimento e a satisfao do ser humano, confrontando-o com arealidade do ambiente cultural brasileiro e sua influncia nas prticas administrativas. Tendo como pontode partida a pesquisa empreendida por Maurcio Serva sobre o fenmeno das organizaessubstantivas, empreende, atravs de estudo de caso, um exame no cotidiano organizacional de umaempresa produtiva brasileira do ramo industrial, de modo a investigar a existncia da ao racionalsubstantiva nas suas diversas dinmicas, processos e prticas administrativas, submetendo-a a umaavaliao com base em uma escala de intensidade da racionalidade substantiva e da racionalidadeinstrumental. Investiga ainda a possibilidade da existncia de integrao de interesses entretrabalhadores e empresa, caracterizando assim o ambiente organizacional integrativo.

    ABSTRACT

    This study deals with the possibility of productive enterprises to be endowed with thecharacteristics of the so called substantive organizations, whose general perspective is theconstruction of an organizational scenario of integrative dynamics, inspired in the theory ofcommunicative action of Jrgen Habermas, and on the notion of substantive rationality of GuerreiroRamos. It presents also, on the basis of the work of Mary Parker Follett and of Araujo Santos, the ideaof an organizational scenario of integrative dynamics, which maintains the identity of interestsbetween workers and managers, and gives pride of place to values like self-realization, self-development and human satisfaction in the context of the whole cultural scenario of the Brazilian society,and its impact in the organizational practices. Following the pioneering work of Maurcio Serva aboutthe substantive organizations, a case study is here presented, where the day-to-day life an engineeringfirm is analyzed, considering the several dynamics aspects of the substantive rational action in theseveral administrative procedures productive processes. The testimonials of the several peopleinterviewed were evaluated along a scale with the intention of measuring the intensity of both thesubstantive and instrumental rationality. It was also taken into account whether there is a consistentevidence for the existence of a convergence of interests between workers and management,characterizing a working scenario of an integrative organizational dynamics.

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  • SUMRIO

    Pgina

    INTRODUO............................................................................................................. 9

    1 TEMA................................................................................................................... 12

    1.1 Delimitao do Tema..................................................................................... 12

    1.2 Justificativa da Escolha do Tema.................................................................. 13

    2 REFERENCIAL TERICO................................................................................ 15

    2.1 A Racionalidade Instrumental...................................................................... 15

    2.2 A Teoria da Ao Comunicativa, de Jrgen Habermas.............................. 19

    2.3 A Racionalidade Substantiva, de Guerreiro Ramos.................................... 28

    2.4 A Complementaridade entre as Abordagens de Habermas e Guerreiro

    Ramos........................................................................................................... 33

    2.5 As Organizaes Substantivas...................................................................... 38

    2.6 As Organizaes como um Sistema Integrativo........................................... 42

    2.7 Cultura Organizacional no Ambiente Brasileiro......................................... 50

    3 FORMULAO DO PROBLEMA.................................................................... 56

    3.1 Apresentao da Situao Problemtica e do Problema de Pesquisa......... 56

    3.2 Questes......................................................................................................... 57

    4 OBJETIVOS DA PESQUISA.............................................................................. 58

    4.1 Objetivo Geral............................................................................................... 58

    4.2 Objetivos Especficos..................................................................................... 58

  • Pgina

    5 METODOLOGIA................................................................................................. 59

    5.1 Classificao da Pesquisa............................................................................... 59

    5.2 Procedimento................................................................................................. 59

    5.3 Tcnica de Coleta de Dados........................................................................... 60

    5.4 Coleta dos Dados............................................................................................ 62

    5.5 Anlise dos Dados........................................................................................... 64

    5.5.1 Apresentao do Quadro de Anlise............................................................. 65

    5.5.2 Apresentao do Continuum de Avaliao da Intensidade da Ao

    Racional Substantiva..................................................................................... 66

    6 APRESENTAO E ANLISE DO CASO................................................ 68

    6.1 Apresentao da Organizao Investigada Muri Linhas de Montagem 68

    6.2 O Processo de Anlise dos Dados.................................................................. 75

    6.2.1 Anlise das Categorias Iniciais...................................................................... 76

    6.2.2 Anlise das Categorias Intermedirias.......................................................... 142

    6.2.3 Anlise das Categorias Finais....................................................................... 180

    CONCLUSES............................................................................................................. 183

    BIBLIOGRAFIA............................................................................................................ 192

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  • AGRADECIMENTOS

    Gostaria de agradecer a diversas pessoas que, de uma forma ou outra, contriburam

    para a elaborao deste trabalho.

    Ao Professor Araujo Santos, que em um momento extremamente difcil, ofereceu

    seu auxlio e apoio. Sua extraordinria capacidade, como pensador e como professor, serviu como

    forte estmulo no apenas para a realizao do Mestrado, mas tambm em outras instncias onde

    busco atuar no processo de ensino-aprendizagem.

    Ao Professor Cludio Mazzilli, que penso talvez tenha sido o primeiro a acreditar

    em mim, pelas aulas ricas, estimulantes e democrticas.

    Professora Geni Valenti, pela confirmao de que o caminho poderia ser

    fecundo e por buscar sempre nos fazer "cair na realidade".

    Ao Professor Luiz Roque Klering, pela sua lucidez, interesse e compreenso.

    Ao Professor Paulo Zawislak, que me ensinou, atravs da montagem de uma

    matriz matemtica, como ponderar sobre a possibilidade de continuar o Curso.

    Professora Valmiria, pelo nvel de exigncia, pelos calorosos debates que

    permite em sala de aula e por fazer ver ao aluno que ele tem que estar preparado.

    Professora Zil Mesquita, que sempre esteve disposta a ajudar.

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    eterna Mestra e, mais do que isto, uma referncia, Professora Neusa

    Cavedon.

  • minha amiga, e por que no "anjo da guarda", Janete, que desde o incio do

    Mestrado, mostrou, empiricamente, que existe a ao comunicativa de que fala Habermas: a busca do

    entendimento sem pretenso de fazer valer objetivos individuais no explcitos.

    Jackeline, a Jack, que num dia nublado, em um bate-papo no caf, disse-me:

    "Tem que ter cuidado com a Escola de Frankfurt! complicado o negcio". E, a partir disso,

    mostrou-me que era preciso aprofundar a anlise da construo terica daquela corrente de

    pensamento.

    Aos amigos Z Carlos, Janete (de novo) e seu marido Humberto, e Paulo

    Ricardo, que estiveram em Santo Antnio da Patrulha (RS), numa bela tarde de sbado, para

    conhecer a Jlia.

    Aos amigos Andr Teixeira, Jorge e Ana, Juan, Denise e famlia, que foram ao

    aniversrio da Jlia (a Edimara no foi mas est perdoada, pois a conheceu num outro dia, durante um

    almoo). Edimara e Denise, guardo com carinho alguns bate-papos que tivemos.

    A todos os colegas do Mestrado e Doutorado, Artur, Jordana, Luciana Hoppe ,

    Luciana Vieira, Sibila, verson, Doriana, Maria, Gabriela, Jlia, Aline , Ronei e Andr

    Arajo, Cristiane , Patrcia, Letcia Alves, Lenice, Letcia Martins , Ednlson, Dcio, Delia,

    Divane e Simone , Egdio, Maria Ceci, Maria Ivete e Mariza. Lamento no ter tido mais tempo

    para participar dos encontros da Turma.

    Ao pessoal da Secretaria do PPGA: Luiz Carlos, Gabriela, Francele, Nanci e

    todos os demais.

    Ao colega de trabalho Andr Alvarenga, que ajudou a corrigir os "deslizes" para

    com o Vernculo. Os erros que eventualmente tenham restado so de exclusiva responsabilidade do

    autor.

    Um agradecimento especial ao pessoal da Muri, que permitiu a realizao deste

    trabalho e sempre esteve disposio para colaborar com a pesquisa. Espero que o presente estudo

    possa, mesmo que de modo muito modesto, oferecer contribuies Empresa.

  • "A verdadeira filosofia reaprender a ver o mundo."

    Maurice Merleau-Ponty

    "Se o homem no tem oportunidade de desenvolver eenriquecer a linguagem, torna-se incapaz no s decompreender o mundo que o cerca, mas tambm de agirsobre ele (...) se a palavra, que distingue o homem detodos os seres vivos, se encontra enfraquecida na suapossibilidade de expresso, o prprio homem que sedesumaniza."

    Maria Lcia de Arruda Aranha

    "Condenados, para podermos viver, a inventar, aprojetar constantemente o futuro, estamos condenados ainventar, a criar nossa vida, o que equivale a estarmoscondenados a viver."

    Jean-Paul Sartre

    "Em vez de desacreditar, como hoje moda, os ideais dosculo XVIII, isto , os ideais da Revoluo Francesa,deveramos tratar de buscar realiz-los, permanecendoconscientes, isto sim, de que ao Iluminismo inerenteuma dialtica que, sem dvida, comporta seus riscos(...)"

    Jrgen Habermas

    "O resto de utopia que consegui manter simplesmentea idia de que a democracia e a disputa livre por suasmelhores formas capaz de cortar o n grdio dosproblemas simplesmente insolveis. Eu no pretendoafirmar que iremos ser bem-sucedidos nesseempreendimento (...) devemos ao menos tentar (...)"

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    Jrgen Habermas

  • INTRODUO

    Este estudo tem sua origem em uma inquietao acerca de algumas caractersticas

    que ainda do forma s prticas organizacionais brasileiras, s portas do novo milnio. Caractersticas

    como a hierarquizao, a concentrao de poder, o paternalismo, o formalismo, as relaes baseadas

    no uso da autoridade e na submisso persistem nas organizaes brasileiras, conforme se observa em

    trabalhos como os de Barros e Prates (1996), Motta e Caldas (1997) e Motta e Alcadipani (1999),

    Caldas e Wood Jr. (1999).

    Estas caractersticas do ambiente organizacional brasileiro parecem incompatveis

    com os avanos notveis observados nas ltimas dcadas nas cincias e na tecnologia, j que o

    progresso nestes ramos do conhecimento deveria trazer consigo uma maior possibilidade de o ser

    humano buscar sua satisfao e emancipao, seja no mundo do trabalho, seja em na sua vida em

    geral. Contudo, o que se verifica no mbito das organizaes brasileiras que a racionalizao dos

    processos administrativos no proporcionou um incremento da autonomia e da capacidade de auto-

    realizao do ser humano no trabalho.

    Ao contrrio, as empresas parecem estar ainda presas s estruturas tradicionais de

    formao da sociedade brasileira, onde a presena de caractersticas como a concentrao de poder, o

    aristocracismo, o atendimento dos interesses das camadas mais favorecidas da sociedade, em

    detrimento das aspiraes das classes desfavorecidas, provocam at hoje no Pas profundas

    dicotomias e constante contradio.

    Este estudo parte da premissa de que a Teoria Organizacional, notadamente no

    mbito brasileiro, precisa empreender uma anlise crtica desta situao, debatendo suas origens e

    conseqncias. Mas, acima de tudo, deve oferecer alternativas viveis para a construo de um

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    ambiente organizacional que permita efetivar os anseios de auto-realizao, satisfao e autonomia,

    inerentes a todo ser humano, ainda que l estejam, em sua subjetividade, latentes e potenciais.

    exatamente nesta direo que este trabalho pretende oferecer mais uma

    contribuio, ainda que modesta. O presente estudo parte do pressuposto de que uma empresa

    produtiva necessita incorporar elementos que caracterizam as organizaes do tipo substantivas, se

    quiser construir um ambiente organizacional que consiga conciliar satisfatoriamente tanto os interesses e

    objetivos da empresa, quanto os dos trabalhadores, isto , um ambiente organizacional integrativo.

    Para tanto, analisa-se neste estudo o que so organizaes substantivas e quais os

    elementos que as caracterizam. Buscar-se tambm demonstrar porque se pode considerar que estas

    possuem um ambiente organizacional integrativo, em que as aspiraes dos participantes e da prpria

    organizao so atendidas mutuamente.

    A evidncia emprica foi buscada mediante um estudo de caso, em que investiga-se

    de que forma as empresas produtivas podem incorporar os elementos caractersticos das organizaes

    substantivas, e como isto exercer influncia em aspectos como a auto-realizao, o

    autodesenvolvimento e a satisfao dos seus integrantes.

    O suporte terico para a anlise dado pela teoria da ao comunicativa,

    desenvolvida pelo filsofo alemo Jrgen Habermas (1987 [a] e [b])1, pelas construes de Alberto

    Guerreiro Ramos (1989), sobre a racionalidade substantiva, e pelas contribuies de Maurcio Serva

    (1996), no que se refere s organizaes substantivas e seus elementos de constituio. Importante

    apoio terico buscado tambm nos trabalhos de Mary Parker Follett (in Graham, 1997), Araujo

    Santos (1992 e 1997 [c]) e Collins e Porras (1998).

    Permeando a discusso destes conceitos, esteve presente a anlise do ambiente

    cultural brasileiro e sua inter-relao com a cultura organizacional, sob amparo das obras de Barros e

    Prates (1996), Motta e Caldas (1997), Motta e Alcadipani (1999), Caldas e Wood Jr. (1999), entre

    1 Umberto Eco (1989) defende o ponto de vista de que no se deva fazer um trabalho sobre um autor estrangeiro seno for possvel ler suas obras no original. Neste estudo, foram utilizadas, basicamente, obras do filsofo alemotraduzidas para o espanhol e para o portugus. Seria pertinente expor algumas razes para que aqui no se tenhacumprido risca a orientao de Umberto Eco: a) este estudo no sobre Jrgen Habermas, embora encontre na suaobra fundamental amparo; b) as principais obras do autor, para efeito do que aqui se pretende, foram traduzidas para

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    outras. A anlise destes assuntos foi conduzida de modo interdisciplinar, com o auxlio principalmente

    dos conhecimentos atuais da Filosofia, Sociologia, Antropologia Social e da prpria Teoria

    Administrativa.

    Este estudo pretendeu, portanto, empreender uma investigao, sob a forma de

    estudo de caso, que permitisse o uso dos conceitos aqui explorados e que possibilitasse ainda uma

    contribuio, mesmo que modesta, para o avano e refinamento dos temas abordados. Mais

    especificamente, esta investigao analisou em que medida uma empresa produtiva brasileira, atuante

    no ramo industrial, pode contar com elementos que possam caracteriz-la como uma organizao

    substantiva, em que a ao comunicativa e a racionalidade substantiva so componentes

    fundamentais, como se pretende demonstrar com o apoio do referencial terico utilizado.

    A pesquisa empreendida e aqui apresentada de carter exploratrio e faz uso

    exclusivamente de dados qualitativos.

    Finalmente, importante registrar que, tendo em vista a complexidade e riqueza do

    assunto proposto, este estudo, embora aspire contribuir para seu desenvolvimento em futuras

    pesquisas, no pretende esgotar o debate em torno de seus desdobramentos.

    o espanhol e portugus; c) outros trabalhos acadmicos brasileiros que se valeram da obra do filsofo no utilizaramtextos em alemo: Valenti (1995) e Serva (1996) teses de doutoramento.

  • 1 TEMA

    1.1 Delimitao do Tema

    A temtica principal tratada nesta pesquisa foi a anlise da ao racional no interior

    de uma organizao produtiva2 brasileira e a possibilidade de caracteriz-la como uma organizao

    substantiva3, dentro do conceito elaborado por Maurcio Serva (1993 e 1996), com base nos estudos

    de Guerreiro Ramos (1989).

    O estudo do tema proposto foi levado adiante com o amparo fundamental da teoria

    da ao comunicativa, proposio do filsofo alemo Jrgen Habermas (1987[a] e [b]). Mais do que

    isto, este estudo partiu do pressuposto de que a forma de ao social descrita por Habermas a ao

    comunicativa e a forma de racionalidade caracterizada por Guerreiro Ramos racionalidade

    substantiva so requisitos para a construo de um ambiente organizacional integrativo, como

    constitudo o ambiente das organizaes substantivas, onde a identidade de interesses dos

    participantes e da organizao permite, efetivamente, a auto-realizao, a satisfao e autonomia do ser

    humano.

    No desenvolvimento de sua construo terica, Habermas procura descrever as

    diversas formas de ao social que o ser humano utiliza em suas interaes com os demais indivduos e

    estabelece a fundamentao de uma orientao tica centrada na busca processual do consenso e em

    2 No enfoque deste trabalho, adotar-se- o conceito de organizao produtiva como se referindo s organizaes dosegundo setor (setor privado). importante registrar, contudo, que no h nisto qualquer espcie de conotaopejorativa em relao s organizaes do primeiro setor (setor pblico) e terceiro setor (setor alternativo, novinculado diretamente ao Estado ou s organizaes privadas). Como organizao produtiva aqui se entende asorganizaes que produzem bens ou servios para consumo das pessoas e com fins lucrativos.3 O conceito e a caracterizao das organizaes substantivas so apresentados no captulo destinado ao ReferencialTerico. Preliminarmente, pode-se dizer que as organizaes substantivas (ou alternativas, ou coletivistas) soaquelas em que indivduos se unem espontaneamente e por sua livre iniciativa para atingirem objetivos geralmentesem fim lucrativo, sem estarem regidas por procedimentos que as caracterizem como organizaes burocratizadas ouhierarquizadas e sem estarem ligadas diretamente ao Estado ou ao setor privado.

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    relaes intersubjetivas livres de coao. Esta nova orientao tica denominada por Jrgen

    Habermas tica do Discurso (1998 e 1999).

    fundamental ressaltar que permeia toda a anlise do assunto aqui em foco a

    caracterizao do ambiente cultural da sociedade brasileira e sua interpenetrao com o ambiente

    cultural das organizaes do Pas. Esta caracterizao foi levada a termo com base nos trabalhos de

    Barros e Prates (1996), Motta e Caldas (1997), Motta e Alcadipani (1999) e Caldas e Wood Jr.

    (1999).

    Um outro importante aporte terico para esta pesquisa, tanto no que se refere ao

    ambiente cultural das organizaes brasileiras quanto no que tange ao conceito de racionalidade

    substantiva, foi oriundo dos trabalhos de Alberto Guerreiro Ramos (1989), socilogo e terico da

    Administrao.

    A discusso dos temas acima referidos foi conduzida sob o modo interdisciplinar e

    contou principalmente com o auxlio dos conhecimentos atuais da Filosofia, Sociologia, Antropologia

    Social, alm, claro, da Teoria Administrativa.

    1.2 Justificativa da Escolha do Tema

    Em trabalhos como aquele levado a efeito por Maurcio Serva (1996), j se

    demonstrou a possibilidade de considerar-se as organizaes produtivas como equivalendo s

    organizaes substantivas. Contudo, as organizaes investigadas por Serva eram pertencentes ao

    setor de prestao de servios e desenvolviam um tipo de atividade bastante semelhante quele

    empreendido pelas organizaes substantivas (assistncia social, aconselhamento e acompanhamento

    psicolgico, entre outras atividades correlatas).

    Esta pesquisa pretende reproduzir, com pequenas adaptaes, o modelo de

    investigao desenvolvido por Serva (1996) para demonstrar a utilizao dos conceitos de ao

    comunicativa e de racionalidade substantiva na prtica administrativa de uma empresa produtiva

    brasileira do setor industrial, mais especificamente, pertencente ao segmento de produo de bens de

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    capital. Almejou ainda investigar a possibilidade de localizar-se ali elementos caractersticos das

    organizaes substantivas, avaliando sua intensidade.

    O estudo de Maurcio Serva, no captulo destinado s concluses, levanta, com o

    propsito de orientar novas pesquisas, a seguinte questo: "Como decorre a prxis administrativa

    numa organizao substantiva do setor industrial?" (1996, p. 602). Comenta ainda o seguinte:

    "Uma vez que as empresas aqui pesquisadas atuam no setor de servios, valeria pena

    realizar estudos em empresas do setor de transformao, onde as relaes entre homem e

    mquina, ritmo/tempo de trabalho e processo tecnolgico, dentre outras, poderiam talvez

    colocar novos desafios razo substantiva na prxis administrativa." (1996, p. 602).

    O presente estudo, portanto, justifica-se por esses novos desafios: a necessidade de

    se aprofundar o debate sobre a ao comunicativa e a racionalidade substantiva no mbito de uma

    empresa produtiva brasileira do setor industrial e pela possibilidade de se construir, com base nesses

    elementos, um ambiente organizacional integrativo, que permita o autodesenvolvimento, a auto-

    realizao e a satisfao do ser humano no trabalho.

  • 2 REFERENCIAL TERICO

    Para que se possa discutir a possibilidade de que as empresas produtivas

    apresentem elementos que caracterizam as organizaes substantivas, faz-se necessrio, primeiramente,

    analisar alguns conceitos como: teoria da ao social, teoria da ao comunicativa, ao

    instrumental, racionalidade instrumental, racionalidade substantiva, sistemas integrativos,

    cultura nacional e cultura organizacional. com este propsito que se revisa o referencial terico a

    seguir descrito.

    Contudo, considerando o escopo deste trabalho, no se espera esgotar temas de tal

    densidade e complexidade. Pretende-se, apenas, oferecer mais uma contribuio para a sua anlise.

    2.1 A Racionalidade Instrumental

    O sentido da razo humana na era moderna e a construo de uma Teoria Crtica da

    sociedade moderna foram duas preocupaes centrais da Escola de Frankfurt4. Horkheimer e

    Adorno dois de seus principais representantes , na obra Dialtica do Esclarecimento (1997),

    afirmam que a razo na sociedade moderna encontra-se regida por uma forma de razo denominada

    racionalidade instrumental.

    A racionalidade instrumental refere-se ao exerccio de uma racionalidade

    cientfica, tpica do positivismo, que visa dominao da natureza para fins lucrativos, submetendo a

    4 O Instituto de Pesquisas Sociais foi criado em 3 de fevereiro de 1923. Com sede na cidade universitria de Frankfurt,o instituto tinha o objetivo de lanar a noo de um marxismo no-ortodoxo, "verdadeiro" ou "puro", e seu nomequase chegou a ser Instituto para o Marxismo. O projeto do Instituto modificou-se em relao quele originrio,avanando em direo ao estudo de fenmenos sociais, sob a denominao de uma filosofia social, a partir de umareorganizao promovida por Max Horkheimer em 1931. A preocupao central do Instituto passou a ser a produode uma Teoria Crtica sobre a sociedade e a razo modernas. A corrente de pensamento que a se formou passou a

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    cincia, a tcnica e a prpria produo cultural ao capital. Os autores da Escola de Frankfurt, partindo

    do pensamento, principalmente de Nietzsche, Freud e Heidegger, argumentam que no se pode analisar

    a razo de modo ingnuo, pois a razo por si s no garante ao ser humano autonomia e liberdade

    (Adorno e Horkheimer, 1997; Matos, 1995).

    Os pensadores da Escola procuraram estabelecer uma abordagem que se afastasse

    do cientificismo materialista, que postulava a cincia e a tcnica como condies de emancipao

    social. Ao contrrio, para os frankfurtianos, o progresso da decorrente recompensado com o

    enfraquecimento do sujeito autnomo, provocado pela estratgia uniformizante da indstria cultural ou

    da sociedade unidimensional (Matos, 1995).

    Os representantes da Escola de Frankfurt, portanto, analisaram a crise da razo

    contempornea, que denominaram "a eclipse da razo", e buscaram desenvolver um trabalho de

    recuperao de uma forma de racionalidade no repressora, capaz de autocrtica e que pudesse

    pretender a emancipao humana.

    A Teoria Crtica da Escola de Frankfurt5 buscou contrapor-se ao carter

    instrumental da razo, isto , a sua reduo a um mero instrumento. Os autores frankfurtianos

    pretenderam restabelecer o papel da razo como uma categoria tica e como elemento de referncia

    para uma teoria crtica da sociedade (Assoun, 1991).

    Conforme se v, a anlise da razo humana foi uma das preocupaes centrais da

    Escola de Frankfurt e, a partir dela, pode-se inferir que, na sociedade moderna, a racionalidade tenha

    transformado-se, em muitas situaes, em um instrumento, por vezes de carter subliminar, de

    perpetuao da represso social, em vez de um meio por onde se buscar as condio para a

    emancipao e auto-realizao do ser humano.

    Por seu turno, Eugne Enriquez (1996) afirma que a racionalidade instrumental

    a forma de razo que prevaleceu no mundo ocidental aps o surgimento do capitalismo. Para o autor,

    ser conhecida como a Escola de Frankfurt. Seus principais representantes foram Max Horkheimer, Theodor Adorno,Herbert Marcuse, Walter Benjamin e Erich Fromm (Assoun, 1991).5 importante registrar que a Teoria Crtica da Escola de Frankfurt, como passou a ser conhecida aquela corrente depensamento, no significou exatamente a mesma coisa para todos os seus integrantes, isto , que tenha havidoidentidade de concepo entre os componentes do Instituto de Pesquisas Sociais (Valenti, 1995).

  • 17

    esta forma de racionalidade fez prevalecer a questo como sobre a questo por qu, em um ambiente

    macrossocial onde a economia tomou o posto de comando da sociedade, disseminando a noo de

    que todos deviam trabalhar e contribuir para o aumento das riquezas, e onde tudo passvel de

    racionalizao, de quantificao, de matematismo.

    A razo, deste modo, ficou preponderantemente subordinada tcnica, ao clculo

    da relao custo e benefcio, isto , baseada em elementos mensurveis ou quantificveis. Os valores

    democrticos e subjetivos tornaram-se de segunda ordem e, em conseqncia disso, no so

    consideradas variveis humanas e sociais, tais como a tica e a valorao, que no so passveis de

    serem simplesmente processadas atravs de um sistema de equaes e inequaes (Enriquez, 1996).

    J no mbito da Teoria Administrativa, os trabalhos de Herbert Simon (1965 e

    1972) sobre racionalidade nas organizaes so at hoje um importante referencial terico. Para

    Simon, a racionalidade na conduta ou nas decises humanas no uma questo de contedo qualitativo

    intrnseco, mas sim uma questo de alcance ou no dos objetivos ou fins. Contudo, questes como o

    que bom para o homem ou para a sociedade no tm espao na anlise de racionalidade

    empreendida por Simon. Na viso do autor, o homem racional no se preocupa com a natureza tica

    dos fins per se, ele um ser que calcula, decidido apenas a encontrar meios adequados para atingir

    suas metas, indiferente ao seu contedo de valor (Guerreiro Ramos, 1989).

    Guerreiro Ramos (1989) chama a ateno para o fato de que este aspecto da

    racionalidade o homem como ser que calcula foi incrementado com a emergncia da sociedade

    centrada no mercado. Antes desta caracterstica da sociedade, este tipo de racionalidade, interessada

    apenas em meios de atingir metas determinadas, fora apenas um aspecto limitado de um conceito mais

    amplo de racionalidade. Para o autor, a construo terica de Herbert Simon feita como se os

    critrios da sociedade centrada no mercado fossem os nicos critrios de racionalidade ou como se

    envolvesse tudo que se pode supor sobre racionalidade.

    No mbito das organizaes, a partir do uso extremado da racionalidade

    instrumental, o ambiente organizacional, distanciado de uma noo tico-valorativa, poder tornar-se

    propcio ao abuso de poder, dominao, dissimulao de intenes. Isto pode acabar conduzindo

    os participantes da organizao a travarem uma permanente competio, que resultar em um ambiente

  • 18

    produtor de ansiedades e, at mesmo, de patologias psquicas, redundando em insegurana

    psicolgica, em degradao da qualidade de vida, produzindo uma atmosfera incapaz de prover a

    satisfao e a realizao humana (Serva, 1996).

    Uma situao como esta acima descrita pode tornar a organizao esquizofrnica,

    passando a existir um ambiente falso, quando, por fora do autoritarismo do sistema de relaes de

    trabalho, instigada a superconformidade dos participantes, encobrindo, desse modo, os

    descontentamentos com o sistema. Uma estrutura assim autoritria nas organizaes pode provocar o

    que Guerreiro Ramos denomina de uma "revoluo silenciosa" dos subordinados, onde estes "em

    conflito com os dirigentes, filtram, distorcem, sonegam e ocultam informaes

    deliberadamente, uma vez que no se sentem identificados com a organizao." (Guerreiro

    Ramos, 1983, p. 66).

    Feita esta anlise da racionalidade instrumental, para efeito do que se pretende

    neste estudo, utiliza-se o conceito de ao racional instrumental6 desenvolvido por Maurcio Serva,

    com base nos trabalhos de Habermas e Guerreiro Ramos: "Ao baseada no clculo, orientada

    para o alcance de metas tcnicas ou de finalidades ligadas a interesses econmicos ou de

    poder social, atravs da maximizao dos recursos disponveis".(1996, p. 342).

    Os elementos que caracterizam a ao racional instrumental no mbito da

    organizao, de acordo com Serva (1996, pp. 342-343), so os seguintes:

    a) Clculo: projeo utilitria das conseqncias dos atos humanos;

    b) Fins: preocupao com metas de natureza tcnica, econmica ou poltica

    (aumento do poder);

    c) Maximizao de recursos: busca da eficincia e da eficcia mximas, no

    tratamento de recursos disponveis: humanos, materiais, financeiros, tcnicos, energticos ou de tempo;

    6 importante ressaltar que o conceito de ao racional instrumental e seus elementos compem o quadro deanlise desta pesquisa, juntamente com o conceito de ao racional substantiva e seus elementos, cujaapresentao feita posteriormente.

  • 19

    d) xito e resultados: preocupao com o alcance em si mesmo de padres,

    nveis, estgios, situaes, considerados como vencedores em processos competitivos em uma

    sociedade centrada no mercado e no lucro;

    e) Desempenho: valorizao de performances individuais elevadas na realizao de

    atividades, com nfase em projees utilitrias;

    f) Utilidade: considerao de que o carter utilitrio deva ser a base das interaes

    entre os indivduos ou grupos;

    g) Rentabilidade: medida de retorno econmico dos xitos e resultados

    pretendidos;

    h) Estratgia interpessoal: influncia planejada de um indivduo sobre outro

    indivduo ou grupo, a fim de atingir resultados previamente estabelecidos, com base na antecipao de

    reaes ou sentimentos frente a estmulos e aes planejadas.

    Analisada a noo de racionalidade instrumental e apresentado o conceito de

    ao racional instrumental, bem como seus elementos caractersticos, passa-se anlise da Teoria

    da Ao Comunicativa, desenvolvida pelo filsofo alemo Jrgen Habermas7, para depois

    comentar-se a racionalidade substantiva e o conceito de ao racional substantiva.

    2.2 A Teoria da Ao Comunicativa, de Jrgen Habermas8

    Buscando avanar em relao Teoria Crtica elaborada pela Escola de Frankfurt,

    Jrgen Habermas desenvolve, em sua obra Teoria da Ao Comunicativa9 (1987 [a] e [b]), uma

    construo terica que visa servir de apoio a uma nova teoria crtica da sociedade.

    7 Jrgen Habermas, filsofo e socilogo alemo, nasceu em 1929, em Dsseldorf (algumas fontes registramGummersbach). Doutorou-se em Filosofia em 1954. Foi convidado a trabalhar no Instituto de Pesquisas Sociais Escola de Frankfurt , onde foi assistente de Adorno de 1956 at 1959. A partir da, comeou a esboar uma TeoriaCrtica com caractersticas prprias. Foi professor de Filosofia em Heidelberg e depois de Filosofia e Sociologia emFrankfurt. Foi diretor do Instituto Max Planck, de Starnberg (Baviera).8 Evidentemente, no pretenso deste estudo, nem seu escopo, abordar amplamente toda a construo e osdesdobramentos da teoria habermasiana, cuja complexidade pode ser comprovada pela quantidade e pelo renome dosautores que sobre ela se debruam Anthony Giddens, Martin Jay, Richard Rorty, Thomas McCarthy e DavidIngram, somente para citar alguns , sejam estas abordagens crticas ou complementares.

  • 20

    Para Habermas, a Teoria Crtica da Escola de Frankfurt ganhou uma conotao

    resignada e contemplativa e de feio pessimista e negativa. Denunciava o carter instrumental da razo

    sem, contudo, oferecer uma alternativa de ao. Segundo o autor, no entanto, h como se evitar o

    pessimismo caracterstico dos ltimos trabalhos dos frankfurtianos notadamente de Adorno e

    Horkheimer. Para isto, Habermas considera fundamental abandonar o paradigma da filosofia da

    conscincia, que tem foco principal na relao epistemolgica do sujeito para com o objeto (McCarthy,

    1995).

    Em Habermas, a razo no est centrada no sujeito epistmico, ou seja, no sujeito

    autonomamente capaz de apreenso da realidade, em que a cognio vista como uma relao entre

    um sujeito isolado e o objeto, que uma viso tipicamente kantiana. A razo, na perspectiva de

    Habermas, desloca-se para a linguagem e a possibilidade de intersubjetividade que ela proporciona.

    Assim, a teoria comunicativa de Habermas tem como pilares fundamentais a concepo dialgica da

    razo e o carter processual da verdade, atravs da busca do consenso (Valenti, 1995).

    Habermas, ao realizar a substituio do paradigma da conscincia pelo paradigma

    da linguagem, ressalta que a linguagem no deve ser vista apenas enquanto categoria sinttica ou

    semntica, mas fundamentalmente como forma de expresso e entendimento. Diz o autor: "Se

    partimos do pressuposto de que a espcie humana subsiste atravs de atividades socialmente

    coordenadas de seus integrantes e de que esta coordenao estabelece-se por meio da

    comunicao, e fundamentalmente por meio de uma comunicao tendente para um acordo,

    ento a reproduo da espcie exige tambm o cumprimento das condies de racionalidade

    imanentes ao comunicativa."10 (1987[a], p. 506).

    Para Habermas, grande parte do pensamento moderno est centrado na filosofia da

    conscincia relao sujeito-objeto , onde o sujeito se depara com um mundo de objetos com os

    quais estabelece duas relaes bsicas: representao e ao. A forma de racionalidade

    correspondente a este modelo a racionalidade do tipo cognitivo-instrumental, ou seja, o sujeito

    capaz de obter conhecimento sobre uma determinada situao e, a partir da, agir com base no

    conhecimento adquirido para vencer ou contornar as contingncias decorrentes desta situao

    (McCarthy, 1995).

    9 Traduo livre para o idioma portugus do ttulo da edio espanhola.10 Traduo livre para o portugus, realizada a partir da verso espanhola.

  • 21

    O filsofo alemo, contudo, chama a ateno para o fato de que as aes dos

    diferentes indivduos, em que estes tratam de atingir seus propsitos ao teleolgica, ou destinada

    aos fins , acontecem em um contexto socialmente preordenado, enquadrando-se a ao em estruturas

    de interaes ou de relaes sociais (Habermas, 1987 [a]).

    Geni Valenti (1995, p. 14) assim explica o processo de estabelecimento das

    verdades atravs da busca do consenso, no enfoque de Habermas: "Razo e verdade, antes

    conceitos fundamentais e valores absolutos, agora passam a ser procedimentos ou

    simplesmente regras do jogo, estabelecidas em funo do consenso. Esta inverso ocorre

    porque seu idealizador segue a teoria da descentrao de Piaget, segundo a qual, a razo e a

    verdade s podem resultar na organizao social dos indivduos, com a interao da vida

    interior e entre as pessoas.".

    O modelo comunicativo de ao de Habermas distingue ao de comunicao. A

    linguagem, ressalta o autor, um meio de comunicao que serve ao entendimento, ainda que os

    atores, ao buscar este entendimento para coordenar suas aes, persigam cada um seus prprios fins

    (Ingram, 1994). Deste modo, os conceitos de ao social distinguem-se pela forma como especificam a

    coordenao das aes teleolgicas destinadas aos fins dos distintos participantes em uma

    interao:

    a) como um entrelaamento de clculos egostas de utilidade;

    b) como um acordo socialmente integrador acerca de valores e normas, regulado

    pela tradio cultural e pela socializao;

    c) como um entendimento no sentido de um processo cooperativo de interpretao.

    As operaes em que se baseiam os processos cooperativos de interpretao constituem-se em um

    mecanismo de coordenao da ao (Habermas 1987 [a]).

    Assim, no intuito de construir seu conceito de ao comunicativa, Habermas realiza

    uma profunda anlise da teoria da ao e de seu fundamento racional, alm de analisar a capacidade

  • 22

    comunicativa da linguagem, visando ampliar o conceito de racionalidade weberiano, posicionando-se

    criticamente em relao construo levada a efeito por Max Weber.

    Weber, em Economia e Sociedade (in Castro e Dias, 1992), caracterizou quatro

    tipos de ao social:

    1. Ao racional conforme fins determinados: determinada por uma expectativa

    no comportamento de objetos e de outros homens, e utilizando essas experincias como condies ou

    meios para conseguir fins prprios, racionalmente avaliados e perseguidos;

    2. Ao racional conforme valores: determinada pela crena consciente em

    valores ticos, estticos, religiosos, ou outros, prprios de uma determinada conduta, sem relao

    alguma com o resultado, ou seja, puramente motivada por estes valores;

    3. Ao efetiva: determinada por emoes ou estados sentimentais;

    4. Ao tradicional: determinada por costumes arraigados, tradicionais.

    Habermas ir concentrar sua crtica proposio de Weber especialmente em dois

    pontos. O primeiro no que tange ao sentido da ao pois, para Habermas, Weber considera em seu

    constructo no uma teorizao em torno do significado da ao, mas sim em relao inteno do

    sujeito da ao, e isto o impede de atingir um conceito consistente de ao social, isto , considera o

    sujeito como se estivesse encapsulado ou isolado do conjunto da sociedade ao desempenhar seu ato,

    no caracterizando, assim, propriamente uma ao social.

    O segundo ponto da crtica que faz Habermas ao conceito de ao social de Weber

    que este parece mais interessado em distinguir graus de racionalizao na ao, do que em alcanar

    uma teoria da ao abrangente. Ou seja, o que centraliza a preocupao de Max Weber a relao

    meios e fins, em um agir tipicamente teleolgico, cabendo julgar apenas a eficcia da ao e a

    organizao racional, pelo sujeito, dos meios utilizados.

  • 23

    Guerreiro Ramos refora esta posio ao afirmar que a anlise da racionalidade

    inerente sociedade moderna empreendida por Max Weber suspendeu o exame da valorao tica

    contida na ao.

    Guerreiro Ramos (1989, p. 6) diz que:

    "O julgamento que Max Weber fez do capitalismo e da moderna sociedade demassa foi essencialmente crtico, apesar de parecer laudatrio. Chocava-se ante a maneirapela qual tal sociedade fazia a reavaliao do significado tradicional da racionalidade,processo que intimamente lamentava, embora tenha deixado de diretamente confront-lo(...) a distino que fez, entre Zweckrationalitt e Wertrationalitt e que, verdade,algumas vezes minimiza constitui, possivelmente uma manifestao do conflito moralem que se sentia com as tendncias dominantes da moderna sociedade de massa (...) elesalientou que a racionalidade formal e instrumental (Zweckrationalitt) determinada poruma expectativa de resultados, ou "fins calculados" (...) a racionalidade substantiva, ou devalor (Wertrationalitt), determinada 'independentemente de suas expectativas desucesso' e no caracteriza nenhuma inteno humana interessada na 'consecuo' de umresultado ulterior a ela (...) na verdade, ele foi incapaz de resolver essa tensoempreendendo uma anlise social do ponto de vista da racionalidade substantiva. De fatoa Wertrationalitt apenas, por assim dizer, uma nota de rodap em sua obra; nodesempenha papel sistemtico em seus estudos. Se o fizesse, a pesquisa de Weber teriatomado um rumo completamente diferente. Escolheu ele a resignao (isto , aneutralidade em face dos valores, no a confrontao) como posio metodolgica, em seuestudo da vida social".

    Habermas (1987 [a]) tambm argumenta que Weber vislumbrou um conceito mais

    amplo de racionalidade, mas lamenta que este conceito esteja localizado apenas como pano de fundo

    na anlise weberiana, quando deveria merecer uma identificao emprica semelhante ao subsistema de

    ao racional conforme fins determinados.

    O filsofo alemo tambm considera insuficiente o esquema conceitual da ao de

    Talcott Parsons, embora reconhea-lhe o mrito de ter construdo um conceito mais abrangente de

    ao social. Para o socilogo norte-americano, a ao social consiste em:

    "Estruturas e processos atravs dos quais os seres humanos formam intenessignificativas e, com maior ou menor xito, as executam em situaes concretas. A palavra'significativa' supe o nvel simblico ou cultural de representao ou referncia.Consideradas em conjunto, as intenes e a implementao implicam uma disposio dosistema de ao individual ou coletivo para modificar sua relao com sua situao e

  • 24

    ambiente numa direo desejada (...) a ao humana 'cultural' medida que sentidos eintenes relativas aos atos so formados em termos de sistemas simblicos (onde seincluem os cdigos atravs dos quais operam em padres) que quase sempre secentralizam no aspecto universal das sociedades humanas, isto , na linguagem." (Parsonsin Castro e Dias, 1992, p. 218).

    Buscando ampliar as abordagens de Weber e Parsons, Habermas afirma que uma

    ao social a cooperao entre pelo menos dois agentes que dirigem e coordenam suas aes

    instrumentais para a execuo de um plano de ao comum (Ingram, 1994).

    A partir desta viso, em sua anlise da ao social, Habermas ir reforar a funo

    da linguagem na relao sujeito-objeto, e procura, ento, transcender o esquema da filosofia da

    conscincia relao sujeito-objeto que privilegia o subjetivismo , utilizando-se da perspectiva

    trazida pela filosofia da linguagem, onde a relao sujeito e objeto entendida como sendo mediada

    por outros tantos elementos como: a interao com o meio, a cultura, o universo simblico, valorizando

    assim a fundamental importncia do carter intersubjetivo e relacional para a apreenso do objeto.

    Segundo Habermas, a racionalidade de uma ao funo da extenso em que

    pode ser justificada. As aes, implcita ou explicitamente, tem pretenses verdade, correo

    moral, propriedade, sinceridade e compreensibilidade e estas pretenses referem-se a crenas

    que podem ser articuladas em linguagem. O ser humano ao se expressar refere-se a itens de sua

    experincia fatos, normas, intenes que constituem exatamente o universo em que ao se

    desenvolve. Sem um acordo acerca deste universo, a ao social no seria possvel.

    Assim, para o filsofo alemo, a ao possui um significado inerente a ela justamente

    por exprimir a inteno do agente em relao realidade. Sem considerar esta relao de

    intencionalidade para com a realidade objetiva, social e subjetiva, a ao perde seu contedo cognitivo,

    normativo e expressivo e, portanto, no mais poder ser avaliada criticamente.

    Habermas (1987[a]) distingue quatro categorias de ao, que so apresentadas a

    seguir.

    a) Ao teleolgica: aquela em que a ao realizada por uma s pessoa em

    busca de um certo objetivo. Ela ser estratgica na medida em que as decises e o comportamento de

    pelo menos uma outra pessoa forem includas no clculo correspondente aos meios e fins a serem

  • 25

    utilizados. Esta forma de ao racional em funo do clculo feito pelo agente sobre o meio mais

    eficaz para o alcance do fim desejado. No modo estratgico de ao, os agentes se relacionam como

    meios objetificveis ou como obstculos para a realizao dos seus fins e, por causa disto, o agir

    estratgico pode ser interpretado como utilitarista j que se supe que o ator v eleger seus meios e fins

    sob o ponto de vista da maximizao de sua expectativa de utilidade.

    b) Ao normativa: caracteriza-se como sendo aquela em que a inteno primria

    atender a expectativas de carter recproco, mediante o ajuste da conduta a normas e valores

    compartilhados. Deste modo, a busca por objetivos pessoais poder ser neutralizada pelos deveres

    sociais dos agentes ou mesmo pelos padres estticos. Os que se empenham em aes normativas

    tambm necessitam calcular as conseqncias objetivas de seu agir em relao aos demais agentes. A

    ao ser racional na medida em que seja adequada aos padres de comportamento socialmente

    aceitos em dada comunidade cultural e que atenda ao interesse geral das pessoas afetadas.

    c) Ao dramatrgica ou expressiva: este tipo de ao social tem por objetivo a

    projeo de uma imagem pblica. Ela constituda pela representao das intenes do ator atravs de

    seus atos de forma a permitir que o outro compreenda sua legitimidade e justificativa. Alm disso,

    busca obter uma determinada resposta de uma certa audincia e, por isto, implicitamente estratgica.

    Contudo, para que seja racional no sentido no-estratgico , a ao dramatrgica necessita ser

    sincera e possuir autnticas intenes declaradas, ou seja, os demais atores envolvidos no devem ser

    enganados.

    d) Ao comunicativa: esta forma de ao acontece quando dois ou mais atores

    sociais buscam chegar a um acordo voluntrio e cooperativo sobre determinado aspecto. A ao

    comunicativa envolve um esforo explcito de alcanar um acordo sobre a totalidade das reivindicaes

    de validade. Embora os atores possam usar as outras formas de ao para comunicarem-se e

    coordenarem seus esforos, no necessariamente o faro visando atingir um livre acordo. Podero agir

    estrategicamente, forando os demais atores a contribuir com seus objetivos, utilizando-se de artifcios

    como ordens, ameaas, mentiras e proposies manipulativas, o que descaracterizaria a ao

    comunicativa em torno de consenso e entendimento mtuo.

  • 26

    Destas quatro categorias de ao resultam trs tipos de ao (Habermas, 1987

    [a]):

    1) Ao instrumental: ao orientada para o xito, e cujo grau de eficcia da

    interveno que esta ao representa pode ser avaliado atravs da observncia de regras de ao

    tcnicas. A este tipo de ao pode estar associada uma interao social, mas no necessariamente, j

    que pode representar apenas um ato individual;

    2) Ao estratgica: aquela em que a ao orientada ao xito instrumental

    considera, racionalmente, as decises e o comportamento de pelo menos uma outra pessoa, de modo a

    realizar o clculo egocntrico correspondente aos meios mais eficazes a serem utilizados para atingir os

    fins predeterminados. A ao estratgica representa, em si mesma, uma ao social.

    3) Ao comunicativa: quando os planos de ao dos atores esto orientados no

    pelo clculo egocntrico de resultados, mas por atos de entendimento. Os fins individuais so

    perseguidos, mas sob a condio de que os respectivos planos de ao possam harmonizar-se entre si

    sobre uma base compartilhada de interesses, buscando-se um acordo racional livre de presses ou

    imposies, estabelecido atravs de convices comuns. Evidentemente que a ao comunicativa

    tambm representa, em si mesma, uma ao social.

    Para Habermas, o conceito de ao estratgica por si s no subsidia um conceito

    de ao social adequado. Se o ator social baseia suas orientaes de ao em termos de busca por

    dinheiro ou por poder, estabelece suas relaes exclusivamente por dominao. Esta ordenao

    puramente econmica denominada por Habermas como instrumental, j que surge de relaes em

    que os participantes das interaes sociais instrumentalizam uns aos outros como meios para a

    consecuo de seus prprios fins, ou seja, os outros agentes so simplesmente meios ou restries para

    a realizao de um plano de ao (Ingram, 1994). A atitude de orientao para o entendimento ao

    comunicativa , por outro lado, torna os participantes da interao dependentes uns dos outros. So

    dependentes das atitudes de afirmao ou negao de seus destinatrios, porque somente podem

    chegar a um consenso constitudo sobre uma base de reconhecimento intersubjetivo das pretenses de

    validez.

  • 27

    Deste modo, os participantes de uma interao que tratam de coordenar em comum

    acordo seus respectivos planos de ao, somente os executam sob a condio de consenso sobre qual

    a melhor maneira de execut-los, que ser obtida atravs de uma postura relativizadora (que tenta

    compreender a viso de mundo do outro colocando-se em seu lugar) entre os interlocutores.

    Entretanto, para o filsofo alemo, na sociedade industrial, a pesquisa, a cincia, a tecnologia e a

    utilizao industrial fundiram-se em um s sistema, atingindo uma forma repressiva de estrutura

    institucional, onde as normas de entendimento mtuo dos indivduos esto absorvidas por um sistema

    comportamental de ao racional de propsito determinado.

    Portanto, o significado foi subordinado ao imperativo do controle tcnico da

    natureza e da acumulao de capital. Uma conseqncia disto que, atravs do domnio da

    racionalidade instrumental sobre as sociedades modernas, a comunicao entre as pessoas tornou-

    se sistematicamente distorcida e isto passou a ser considerado normal na sociedade contempornea,

    disfarando assim o carter repressivo das relaes sociais. Este fenmeno da comunicao distorcida

    tornou-se preocupao fundamental da obra de Habermas, que prope uma distino entre ao

    racional com propsito, ou ao instrumental, e a ao de comunicao, ou de interao simblica.

    Para Habermas, nas modernas sociedades, as antigas bases de interao simblica

    foram dissimuladas pelos sistemas de conduta de ao racional com propsito, ou ao instrumental,

    e a interao simblica ao de comunicao somente permitida em enclaves bastante residuais

    ou marginais. Na sociedade moderna, a lgica da racionalidade instrumental, que tem por fim

    ampliar o controle da natureza e o desenvolvimento das foras produtoras, acabou tornando-se a lgica

    da vida humana em geral, aprisionando a prpria subjetividade do indivduo (Ingram, 1994).

    Assim, nas sociedades de capitalismo avanado, a comunicao entre os atores

    sociais tornou-se distorcida e massificada, passando a adquirir o carter de ao estratgica, voltada

    apenas ao prprio xito, condicionada pelo interesse monetrio e pelo exerccio do poder, impedindo

    assim a ao comunicativa, voltada para o entendimento O desenvolvimento capitalista imps limites

    livre e autntica comunicao entre os homens. Por isto, Habermas afirma que a premissa de Marx, de

    que a liberdade e a racionalidade seriam inevitavelmente atingidas, atravs do desenvolvimento das

    foras de produo, mostrou-se insustentvel (Ingram, 1994).

  • 28

    Desta forma, Jrgen Habermas, na construo de sua teoria crtica da sociedade,

    entende necessrio aprofundar o exame da racionalidade e desenvolve a Teoria da Ao

    Comunicativa como elemento de compreenso para a fundamentao de sua tica do Discurso, que

    uma teoria da moral que recorre razo para sua fundamentao. O autor parte do conceito de

    razo reflexiva de Kant para desenvolver o conceito de razo comunicativa. Enquanto na razo

    kantiana o juzo categrico est fundado no sujeito e supe uma razo monolgica, a razo

    comunicativa est centrada no dilogo, na interao entre os indivduos do grupo, mediada pela

    linguagem e pelo discurso (Habermas, 1998).

    A razo comunicativa enriquecida por ser processual, construda pela interao

    entre os sujeitos enquanto seres que se posicionam criticamente frente s normas. A validade das

    normas, portanto, no deriva de uma razo abstrata e universal, tampouco depende da subjetividade de

    cada um, mas do consenso encontrado a partir do grupo, do conjunto dos indivduos e, assim, a

    subjetividade se transforma em intersubjetividade.

    Contudo, do ponto de vista da razo comunicativa, a interao entre os sujeitos

    precisa ser estabelecida sem as presses tpicas dos sistemas econmico e poltico da sociedade

    moderna, que se fundam na fora do dinheiro e no exerccio do poder. A ao comunicativa supe o

    entendimento entre os indivduos que buscam, pelo uso de argumentos racionais, convencer o outro a

    respeito da validade da norma, permitindo um avano para uma sociedade baseada na espontaneidade,

    na solidariedade e na cooperao (Habermas, 1998).

    Demonstrada a Teoria da Ao Comunicativa de Jrgen Habermas, j se pode

    ento, com base em Guerreiro Ramos (1989), explicitar a noo de Racionalidade Substantiva, e

    ainda, com o auxlio de Maurcio Serva (1996), expor o conceito de ao racional substantiva, bem

    como seus elementos constituintes, o que se examina a seguir.

    2.3 A Racionalidade Substantiva, de Guerreiro Ramos

    O socilogo e terico da Administrao Alberto Guerreiro Ramos, em seu livro A

    Nova Cincia das Organizaes uma reconceituao da riqueza das naes, lanado

  • 29

    originalmente em 1981, props que se analisassem as organizaes sob o enfoque da racionalidade, em

    uma abordagem que denominou "teoria substantiva da vida humana associada" (1989, p. 26).

    Na viso de Guerreiro Ramos, a razo constitui-se em um conceito bsico para a

    anlise de qualquer cincia da sociedade e das organizaes, pois em bases racionais que so

    estabelecidos os preceitos de como deve ser ordenada a vida humana em geral.

    Em seu exame da racionalidade, Guerreiro Ramos (1989) parte da distino que

    Max Weber fez entre os conceitos de Wertrationalitt (racionalidade substantiva, ou de valor) e

    Zweckrationalitt (racionalidade formal, ou funcional). Entretanto, diferentemente do socilogo

    alemo, que pautou seus trabalhos pela adoo da razo funcional como categoria de anlise,

    Guerreiro Ramos utiliza a racionalidade substantiva, como categoria de anlise bsica da teoria da

    vida humana associada, tendo a tica como disciplina orientadora.

    A racionalidade substantiva , para Guerreiro Ramos, um atributo natural do ser

    humano, visto que reside na psique humana (isto o aproxima fortemente da teoria da ao

    comunicativa de Jrgen Habermas, pois em ambos os desenvolvimentos tericos o sujeito, o ser

    humano, ocupa lugar central), e a partir dela que os indivduos podem buscar conduzir sua vida

    pessoal na direo da auto-realizao e do autodesenvolvimento, engajando-se de forma mais

    expressiva no processo de desenvolvimento social e, no mbito da teoria administrativa, no processo

    de desenvolvimento da prpria organizao.

    Guerreiro Ramos (1989) adverte que a sociedade moderna adotou a racionalidade

    funcional e a centralizao no mercado como sendo as bases orientadoras das cincias sociais e da

    vida humana em geral, em detrimento da razo substantiva, trazendo assim limitaes ao bem-estar e

    satisfao do ser humano.

    Pois exatamente a racionalidade substantiva, na perspectiva de Guerreiro

    Ramos, que permite ao indivduo ordenar sua vida em bases ticas, atravs do debate racional,

    buscando encontrar um equilbrio dinmico entre a satisfao pessoal e a satisfao social,

    potencializando o anseio e a capacidade humana de auto-realizao, autodesenvolvimento e

    emancipao.

  • 30

    Para Guerreiro Ramos, no mbito da Teoria Organizacional, a abordagem da

    racionalidade substantiva deve ter por objetivo a busca sistemtica da eliminao de compulses

    desnecessrias, agindo sobre as atividades humanas nas organizaes econmicas, de forma a tornar

    pleno o desenvolvimento das potencialidades do ser humano. A racionalidade substantiva no interior

    das organizaes , portanto, a oposio orientao organizacional fornecida pela razo

    instrumental, que pautada pela busca do sucesso individual, primando pelo utilitarismo e

    pragmatismo (Guerreiro Ramos, 1989).

    Como mostra Maurcio Serva (1996, pp. 118-119), cinco pontos so fundamentais

    na abordagem substantiva das organizao, de Guerreiro Ramos:

    1) As necessidades humanas so variadas e atendidas por mltiplos cenrios sociais.

    possvel, portanto, categorizar e formular as condies operacionais particulares a cada cenrio

    social;

    2) Somente algumas necessidades humanas so atendidas pelo sistema de mercado,

    que determina um cenrio social especfico, fortemente influenciado pela comunicao operacional e

    por critrios instrumentais. Assim, o comportamento administrativo constitui-se como uma forma de

    conduta humana condicionada por imperativos econmicos;

    3) Os diferentes cenrios organizacionais esto correlacionados a diferentes

    categorias de tempo e espao. A categoria de tempo e espao dos cenrios econmicos mostra-se

    como uma situao particular entre outras tantas;

    4) Diferentes cenrios organizacionais possuem diferentes sistemas cognitivos. Deste

    modo, as regras cognitivas referentes ao comportamento administrativo tambm mostram-se como um

    conjunto particular de normas em face a uma epistemologia multidisciplinar dos diversos cenrios

    organizacionais;

    5) Diferentes cenrios sociais tm como requisito diferentes enclaves territrios

    dentro do tecido social, embora possuam vnculos entre si.

  • 31

    Infelizmente, no foi possvel ao socilogo brasileiro dar andamento s suas

    pesquisas sobre a abordagem substantiva das organizaes11, uma vez que pretendia, a partir da

    construo e apresentao dos conceitos bsicos de seu arcabouo terico, investigar e comprovar

    empiricamente suas teses. No prefcio da edio brasileira de The New Science of Organizations,

    lanado em 1981 nos Estados Unidos, o autor indica que pretendia, aps a construo da base terica

    da Racionalidade Substantiva, empreender estudos empricos no sentido de demonstr-la

    operacionalmente. Contudo, o projeto foi interrompido em 1982, com a morte do autor.

    Maurcio Serva (1993, 1996 e 1997) buscou, em seus trabalhos acerca do assunto,

    dar continuidade proposta de Guerreiro Ramos, transformando o arcabouo terico do socilogo

    brasileiro em esquema conceitual de carter operacional, prprio portanto para a aplicao em

    pesquisas empricas. Serva agrega nesta construo importantes contribuies da obra de Jrgen

    Habermas, como est referido no artigo A Racionalidade Substantiva demonstrada na prtica

    administrativa (Serva, 1997).

    Desse modo, com base em Maurcio Serva (1996, p.340), assim define-se a ao

    racional substantiva12: "Ao orientada para duas dimenses: na dimenso individual, que se

    refere auto-realizao, compreendida como concretizao de potencialidades e satisfao;

    na dimenso grupal, que se refere ao entendimento, na direo da responsabilidade e

    satisfao sociais".

    Os elementos constitutivos da ao racional substantiva no interior da organizao

    so (Serva, 1996, pp.340-341):

    a) Auto-realizao: pode ser descrita como um conjunto de processos de

    concretizao do potencial inato do ser humano, que se complementa pelo alcance da satisfao

    individual;

    11 Alberto Guerreiro Ramos morreu em 1982, aos 67 anos, apenas um ano aps o lanamento de A Nova Cincia dasOrganizaes .12 Novamente importante ressaltar que o conceito de ao racional substantiva, bem como seus elementos compeo quadro de anlise desta pesquisa, juntamente com o conceito de ao racional instrumental e seus elementos, japresentados.

  • 32

    b) Entendimento: forma pela qual os indivduos estabelecem acordos e consensos

    racionais, sempre mediados por processos de comunicao livre, de onde decorrem atividades comuns

    coordenadas, ao amparo de sentimentos de responsabilidade e satisfao social;

    c) Julgamento tico: processos decisrios baseados em emisso de juzos de valor

    do tipo bom, mau, verdadeiro, falso, certo, errado, que se do atravs do estabelecimento de um

    debate racional sobre as pretenses de validez emitidas pelos indivduos em suas interaes com os

    demais membros do grupo;

    d) Autenticidade: so interaes e relacionamentos interpessoais estruturados em

    torno de sentimentos como integridade, honestidade e franqueza dos indivduos;

    e) Valores emancipatrios: preocupao e observncia de valores que levem ao

    aperfeioamento do grupo, na direo do bem-estar coletivo, da solidariedade, do respeito s

    individualidades, da liberdade, do comprometimento e da integrao com o ambiente interno e externo,

    presentes tanto nos indivduos que compem o grupo, quanto no prprio contexto normativo do grupo;

    f) Autonomia: a condio plena dos indivduos para poderem agir e expressarem-

    se livremente nas interaes, sem que estejam condicionados por coaes ou presses exercidas por

    outros indivduos;

    Convm salientar que as organizaes econmicas que registrem as duas formas de

    racionalidade j descritas instrumental e substantiva , em quaisquer que sejam suas propores,

    podem ser produtivas e rentveis. Contudo, a nfase demasiada no uso da razo instrumental em uma

    empresa pode determinar seu insucesso a longo prazo, em face da deteriorao das relaes humanas,

    que podero ficar desprovidas de uma dimenso tica e valorativa.

    De outro lado, uma organizao com predominncia da ao racional substantiva,

    com alto grau de autonomia e auto-organizao, com processos interativos baseados em julgamentos

    ticos e em debates racionais e democrticos, proporcionaria uma atmosfera favorvel auto-

    realizao e satisfao pessoal dos indivduos, o que resultaria em uma maior harmonia e dinamismo

  • 33

    internos, permitindo organizao responder s novas demandas externas com agilidade, flexibilidade e

    criatividade, mesmo em um horizonte de longo prazo.

    Assim, analisada a Teoria da Ao Comunicativa, examinadas a racionalidade

    instrumental e a racionalidade substantiva, e apresentados os conceitos e elementos da ao

    racional instrumental e da ao racional instrumental, convm agora explicitar a relao de

    complementaridade existente entre as construes tericas do filsofo alemo Jrgen Habermas e do

    socilogo brasileiro Guerreiro Ramos, de modo a justificar a reunio e a utilizao das duas abordagens

    neste estudo.

    2.4 A Complementaridade entre as Abordagens de Habermas e Guerreiro Ramos

    Esta seo busca demonstrar o carter complementar existente entre a Teoria da

    Ao Comunicativa, de Jrgen Habermas (1987 [a] e [b]), e o desenvolvimento terico da Razo

    Substantiva, levado a efeito por Alberto Guerreiro Ramos (1989). Pretende-se com isto justificar a

    reunio e a utilizao destes dois autores como pilares fundamentais deste estudo.

    Torna-se importante analisar um pouco mais detidamente esta relao de

    complementaridade, uma vez que talvez o prprio Guerreiro Ramos no a tenha percebido em toda a

    sua extenso. Isto deve-se, provavelmente, ao fato de que a principal obra do socilogo brasileiro, no

    que tange Racionalidade Substantiva, foi lanada em 1981, nos Estados Unidos, praticamente ao

    mesmo tempo em que o filsofo alemo lanava seu mais completo livro sobre a Teoria da Ao

    Comunicativa, na Alemanha, tambm em 1981 (Theorie des kommunikativen Handels). nesta

    obra13 que Jrgen Habermas rene todos os elementos de justificao de sua construo terica sobre

    a ao comunicativa e clarifica vrios aspectos de sua abordagem, at ento, de certo modo,

    deficitrios em seus trabalhos anteriores. Um dos principais analistas do trabalho de Habermas, Thomas

    13 Neste estudo, utilizou-se a verso espanhola Teora de la accin comunicativa, de 1987.

  • 34

    McCarthy (1995), j chamou a ateno para isto, referindo-se ao livro como a mais importante obra

    sistemtica do filsofo alemo14.

    Guerreiro Ramos, portanto, ao elaborar seu principal trabalho sobre a

    racionalidade substantiva, no teve acesso mais importante obra de Habermas sobre a ao

    comunicativa, e valeu-se de textos anteriores do pensador alemo, onde determinados aspectos

    conceituais ainda careciam de maior refinamento terico15.

    Feitos estes comentrios, pode-se tratar mais especificamente de cada ponto de

    convergncia entre os autores. Antes de mais nada, fundamental referir que os dois estudos utilizados

    partem de uma mesma premissa: a necessidade de buscar-se o caminho da emancipao do ser

    humano diante das limitaes e dos constrangimentos oferecidos sua auto-realizao na sociedade

    ps-industrial.

    Relao entre Sujeitos Capazes e Autnomos e Atributo da Psique do Sujeito

    O primeiro ponto de contato entre os dois pensadores, portanto, o destaque que

    ambas as construes tericas do ao ser humano, ao sujeito.

    Para Guerreiro Ramos, a razo atributo natural do ser humano e est localizada em

    sua psique como recurso potencial. Para Habermas, o potencial da racionalidade se concretizar

    atravs da ao comunicativa, onde o sujeito capaz de orientar sua ao com base em pretenses de

    validez intersubjetivamente conhecidas da comunidade com quem se relaciona, tendo como requisitos

    a plena capacidade de comunicao, a autonomia para agir e a responsabilidade.

    Relao entre Mundo da Vida Cotidiano e Busca de Entendimento e Senso Comum

    14 Ver prlogo e eplogo da edio espanhola do livro The Critical Theory of Jrgen Habermas, lanadooriginalmente por Thomas McCarthy em 1978 nos Estados Unidos (La Teora Crtica de Jrgen Habermas, 1995).15 Guerreiro Ramos em The New Science of Organizations, de 1981, utilizou-se fundamentalmente dos seguintestextos de Habermas: Toward a rational society, de 1970, Knowledge and human interests, de 1971, e Toward atheory of communicative competence, de 1970. Thomas McCarthy (1995) afirma que muitas das construes atento apresentadas por Habermas foram reformuladas e clarificadas em Theorie des kommunikativen Handels.

  • 35

    O segundo ponto onde se tangenciam na idia de senso comum, ou busca do

    entendimento e mundo da vida cotidiano.

    Segundo Guerreiro Ramos, o que vai atribuir significado razo o senso comum,

    atravs da comunicao, do debate, de modo que a regulao da vida humana associada seja

    harmonizada em torno das questes ticas e polticas. Nas palavras do autor: "(...) o debate racional,

    no sentido substantivo, que constitui a essncia da forma poltica de vida, tambm o requisito

    essencial para o suporte de qualquer bem regulada vida humana associada" (1989, p. 27).

    Habermas, por sua vez, desenvolve a teoria da ao comunicativa orientando-a

    na busca processual do entendimento e da posterior coordenao das atividades dos sujeitos capazes,

    autnomos e responsveis. Esta ao, ou interao, ocorre no plano social, na instncia que Habermas

    denomina de mundo da vida (1987 [b]). Para o autor, o mundo da vida o espao das relaes

    sociais onde os participantes tm sua disposio um conjunto de cdigos de referncia, valores,

    normas, que lhes permitem elaborar as interpretaes voltadas ao consenso. Este consenso

    pretendido pela necessidade de que o entendimento seja alcanado em face de uma determinada

    situao. O mundo da vida possui como elementos bsicos: a personalidade, a cultura e a sociedade.

    Afirma Habermas: "A partir da perspectiva dos participantes da ao social

    envolvidos em determinada situao, o mundo da vida surge como o contexto formador do

    horizonte dos processos de entendimento e que delimita a situao da ao empreendida

    (...)"16 (1997 [b], p. 494).

    Conforme mostra Maurcio Serva (1996), o destaque dado por Guerreiro Ramos ao

    senso comum dentro da sua Teoria da Vida Humana Associada exige que seja ressaltada a

    possibilidade de debate racional e, conseqentemente, da atividade comunicativa, que tem como pano

    de fundo, segundo Habermas, o mundo da vida, que nada mais do que o contexto normativo e

    valorativo no qual os participantes se movimentam e interagem, mediados pela cultura, visando ao

    entendimento.

    16 Traduo livre.

  • 36

    Relao entre Ao Comunicativa Baseada em Pretenses de Validez Sujeita Crtica e

    Debate Racional e Superordenao tica

    Um outro ponto de contato entre os dois autores que merece destaque a noo de

    debate racional e superordenao tica, de Guerreiro Ramos e de pretenses de validez sujeitas

    critica, de Habermas.

    Guerreiro Ramos defende a idia de que a racionalidade substantiva est centrada

    em uma viso de sociedade onde o debate racional o elemento fundamental da vida comunitria e

    poltica. Na viso do socilogo brasileiro, o debate racional somente ser ensejado se estiver

    associado ao princpio da superordenao tica da teoria poltica em relao s demais reas que

    orientem a vida humana associada. Deste modo, um ideal de sociedade estar sempre regido por juzos

    de valores, onde a tica e a poltica so imprescindveis para a boa regulao das interaes entre os

    indivduos, numa viso tipicamente aristotlica.

    Habermas estabelece o julgamento tico como sendo um elemento fundamental para

    a ao comunicativa, j que nesta forma de ao social os interesses do outro so sempre levados

    em considerao. Uma das condies bsicas para a ao comunicativa exatamente a

    responsabilidade do sujeito, que est em sua capacidade de orientar a ao atravs de pretenses de

    validez (pretenses de validade).

    Estas pretenses de validade estaro, no agir comunicativo, sujeitas crtica

    valorativa do interlocutor, transformando-se, assim, em um elemento fundamental do debate racional.

    importante salientar que, para Habermas, existe na linguagem um ncleo universal,

    isto , estruturas bsicas que todos os sujeitos, num determinado momento passam a dominar. Esta

    competncia comunicativa, contudo, no pode estar reduzida produo de falas gramaticalmente

    corretas, mas est relacionada a trs mundos aos quais correspondem trs pretenses de validade

    requeridas pelos atores. Tais pretenses de validade permitem o entendimento entre os atores e

    possuem carter universal, alm de estarem diretamente associadas racionalidade.

    Conforme Nadja Hermann (1999), assim a relao entre pretenses de validade

    e os trs mundos descritos por Habermas:

  • 37

    a) O mundo objetivo: corresponde pretenso de que o enunciado seja

    verdadeiro. As afirmaes sobre fatos e acontecimentos referem-se a pretenses de verdade;

    b) O mundo social (ou das normas legitimamente reguladas): a que se vinculam as

    pretenses de que o ato de fala seja correto em relao ao contexto normativo vigente. Trata-se da

    pretenso de justia;

    c) O mundo subjetivo: onde vinculam-se as pretenses de veracidade. As

    intenes, opinies e desejos expressos pelo falante coincidem efetivamente com aquilo que pensa.

    Relao entre Ao Orientada ao Entendimento e Boa Regulao da Vida Humana

    Associada

    Um outro ponto de correlao entre a construo terica de Guerreiro Ramos e de

    Habermas est justamente na sua finalidade. Para o socilogo brasileiro, a noo de racionalidade

    substantiva tem por fim ajudar a promover a boa regulao da vida humana associada, ou seja,

    auxiliar na integrao e entendimento dos atores sociais em sua convivncia em sociedade.

    Por sua vez, a Teoria da Ao Comunicativa do filsofo alemo tem, entre seus

    principais objetivos, realizar uma crtica da sociedade moderna, reduzindo suas deficincias e

    patologias, e sugerindo novas vias para a reconstruo do projeto de recuperao da razo. E, acima

    de tudo, uma racionalidade voltada ao entendimento, isto , uma busca de acordo entre sujeitos com

    competncia lingstica e interativa.

    Para Habermas, os processos de entendimento tm como objetivo acordos que

    estejam apoiados em contedos racionalmente motivados, sem imposies ou estratgias previamente

    calculadas, que dissimulem intenes camufladas. Assim, o acordo, estabelecido com base na ao

    comunicativa, deve estar apoiado em convices comuns (Habermas, 1987 [a]).

    Relao entre Contexto Normativo do Mundo da Vida Baseado na Interpretao e Valores na

    Interpretao dos Fatos

  • 38

    Guerreiro Ramos e Habermas tambm aproximam-se ao buscarem,

    fundamentalmente, um ponto de apoio para suas teorias em aspectos valorativos e princpios ticos que

    regulam a conduta humana.

    No trabalho do socilogo brasileiro, a valorao da conduta humana est fortemente

    presente, desde a construo do conceito de racionalidade substantiva, passando pela teorizao

    da vida humana associada, at chegar na Abordagem Substantiva das Organizaes. Os

    constructos tericos todos de Guerreiro Ramos, em sua abordagem da racionalidade substantiva,

    possuem carter normativo, de modo a caracterizar, acentuadamente, que a interpretao dos fatos

    sociais e organizacionais deve estar orientada por valores, e valores que estejam comprometidos com a

    boa regulao da vida humana associada.

    Em Habermas, pode-se notar que a interpretao da realidade e das interaes

    comunicativas acontece sempre situada em um contexto normativo do mundo da vida cotidiano. Para

    Habermas, como afirma Maurcio Serva: "(...) os valores fornecem a medida da interpretao da

    validade das pretenses dos agentes, condicionam o consenso, delimitando as possibilidades

    de entendimento." (1996, p. 337).

    Convm salientar que existem outros tantos pontos de contato entre a abordagem da

    racionalidade substantiva, de Guerreiro Ramos (1989), e a teoria da ao comunicativa17, de

    Jrgen Habermas (1987, [a] e [b]). Contudo, para efeito do que se pretende neste estudo, e tendo em

    vista o escopo desta pesquisa, os aspectos convergentes apresentados revelam-se suficientes.

    A esta altura do desenvolvimento terico deste estudo, fundamental descrever o

    que so Organizaes Substantivas e quais as caractersticas das

    2.5 As Organizaes Substantivas

    17 Para uma comprovao deste fato, ver a detalhada anlise empreendida por Serva (1996).

  • 39

    Para que bem se possa chegar caracterizao das organizaes substantivas,

    preciso antes analisar aquilo que Guerreiro Ramos (1989) denominou como isonomias. Na viso do

    autor, isonomia significa um contexto social onde todos os seus membros e participantes so

    considerados iguais, como o caso da noo de polis, concebida por Aristteles em sua obra Poltica

    (1997).

    Dentro deste enfoque, as principais caractersticas de uma isonomia podem ser

    assim descritas (Guerreiro Ramos, 1989, pp. 150-151):

    a) O principal objetivo desta forma de organizao permitir a auto-realizao e a

    emancipao de seus membros, sob um conjunto mnimo de prescries, que so estabelecidas por

    consenso;

    b) A atuao dos indivduos livremente associados em uma isonomia

    compensadora em si mesma, com um relacionamento baseado na generosidade social e na

    autogratificao;

    c) As atividades desenvolvidas pelos indivduos so impulsionadas por aspirao

    vocacional e no por interesses econmicos. Dentro do escopo de interesses fundamentais do indivduo

    no est a maximizao da utilidade;

    d) A isonomia concebida como uma comunidade, e no h dicotomias entre

    grupos, ou distino entre liderana ou gerncia e subordinados. A autoridade atribuda por

    deliberao de todos os membros e passa continuamente de indivduo para indivduo, de acordo com a

    natureza dos problemas, em funo da habilidade dos indivduos em lidar com eles;

    e) A eficcia de uma isonomia envolve a determinao de um tamanho timo. Um

    aumento deste tamanho pode transform-la em oligarquia, ou burocracia, ou mesmo democracia, j

    que poder exigir formas de relacionamento secundrios ou categricos, com a proliferao de

    diferentes papis sociais entre os integrantes.

    Guerreiro Ramos (1989) descreve e caracteriza as isonomias como uma espcie de

    tipo ideal weberiano, e alerta que o faz para que possa expor ou materializar o conceito. Contudo,

  • 40

    embora entenda que uma perfeita isonomia possa ser de difcil localizao na prtica, descreve o autor

    o crescimento de ambientes organizacionais que se aproximam do tipo isonmico (notadamente nos

    Estados Unidos, onde o autor vinha realizando suas pesquisas). o caso das associaes de pais e

    professores, associaes de estudantes, associaes de minorias sociais, associaes artsticas e

    religiosas, entidades comunitrias, entre outras (Guerreiro Ramos, 1989).

    fundamental destacar que, para Guerreiro Ramos, a forma de racionalidade

    predominante neste tipo de organizao a racionalidade substantiva. A partir disso, um Grupo de

    Pesquisas sediado na Escola de Administrao da Universidade Federal da Bahia, e coordenado por

    Maurcio Serva, em uma pesquisa sobre organizaes coletivistas ou alternativas, empreendida em

    Salvador, na Bahia, decidiu denomin-las de Organizaes Substantivas (Serva, 1993)18.

    As organizaes substantivas so aquelas em que indivduos unem-se

    espontaneamente e por sua livre iniciativa para atingirem objetivos geralmente sem fim lucrativo, sem

    estarem regidas por procedimentos que as caracterizem como organizaes burocratizadas e que, em

    geral, destinam-se a atividades como prestao de assistncia a comunidades menos favorecidas,

    preservao do meio ambiente, preservao de aspectos culturais de dado grupamento social,

    atividades de carter filantrpico, associaes, fundaes, etc. Nestas organizaes, segundo Serva

    (1993), existe uma forte preocupao com o efetivo resgate da condio humana, sendo que suas

    atividades so marcadas por valores como autenticidade, respeito individualidade, dignidade,

    solidariedade e afetividade.

    Por sua vez, Fernando Tenrio (1998) descreve as organizaes do Terceiro

    Setor19 de modo muito semelhante s organizaes substantivas: so entidades estruturadas em torno

    de uma efetiva coordenao entre meios e fins, onde o bem comum o propsito principal, e o modo

    18 Maurcio Serva (1993) demonstra que a expanso das organizaes substantivas um fenmeno de proporesmundiais. Na Alemanha Ocidental, por exemplo, no incio dos anos 80, estimava-se a existncia de aproximadamente11.500 delas, envolvendo 80.000 pessoas, atuando em vrios campos como agricultura, informao, tecnologiasapropriadas. J nos Estados Unidos, estimativas de 1976 indicavam a existncia de mais de 5.000 organizaes, e acriao de aproximadamente 1.000 delas a cada ano. No Brasil, no se dispe de qualquer tentativa rigorosa demapeamento quantitativo.19 O Primeiro Setor, ou Setor Pblico, formado pelo conjunto das organizaes e propriedades pertencentes aoEstado. J o Segundo Setor, ou Setor Privado, constitudo pelo conjunto das empresas particulares e propriedadespertencentes a pessoas fsicas ou jurdicas, fora do controle do Estado. Por sua vez, o Terceiro Setor, constitudopor organizaes estruturadas e localizadas fora do aparato formal do Estado e que no se destinam a distribuir oslucros auferidos entre seus diretores ou acionistas. So entidades autogovernadas e que envolvem indivduos em umesforo voluntrio para produzir bens ou servios de uso coletivo (Tenrio, 1998).

  • 41

    de se buscar alcanar os objetivos estabelecido por relaes intersubjetivas em que o ser humano

    elemento fundamental e central. Percebe-se, portanto, que o conceito de organizaes do terceiro setor

    apresentado por Fernando Tenrio (1998) guarda uma estreita relao com a noo de organizaes

    substantivas, de Maurcio Serva (1993).

    Em seu artigo, Fernando Tenrio (1998) demonstra preocupao com o fato de que

    as organizaes do terceiro setor, em sua nsia por sobrevivncia, possam comear a se valer dos

    mesmos modelos e ferramentas gerenciais utilizados pelo setor privado, contagiando-se assim com a

    racionalidade do tipo instrumental e retirando-lhes sua principal caracterstica, ou seja, a de estarem

    fundamentalmente baseadas em uma racionalidade do tipo substantiva. O autor argumenta em sua

    crtica que no se trata de desprezar ou menosprezar os modelos gerenciais do primeiro e segundo

    setores quanto formao de polticas ou quanto produtividade. Trata-se, sim, da necessidade de se

    buscar conduzir a racionalidade de mercado, de carter instrumental, em direo a uma forma de razo

    livre e intersubjetiva, que promova o potencial de auto-realizao do ser humano na sociedade,

    consubstanciado em sua cidadania.

    apoiado neste argumento de Fernando Tenrio, que esta pesquisa ir empreender

    uma investigao para avaliar em que grau pode-se caracterizar uma organizao produtiva do setor

    industrial como uma organizao substantiva.

    Para efeito do que se pretende nesta pesquisa, adota-se, aproveitando a

    contribuio de Maurcio Serva (1996, p. 276), o seguinte conceito de organizao substantiva:

    "Organizaes Substantivas so organizaes produtivas onde seja predominante, em seus

    processos administrativos e organizacionais, a racionalidade substantiva, e que contenha o

    ideal da emancipao do ser humano no mbito do trabalho entre seus objetivos e prticas

    administrativas".

    J, como conceito de organizao produtiva, este estudo considera que: aquela

    que produz bens ou servios com a finalidade de coloc-los disposio de um mercado

    consumidor em potencial, contando com a participao de trabalhadores profissionais

    remunerados por sua prestao de servios , que possua sua finalidade exposta ou revelada

  • 42

    para o ambiente social em que interage, que possua personalidade jurdica oficial e que

    desenvolva atividades legais.

    Neste ponto, reside uma diferena fundamental desta pesquisa em relao quela

    levada a efeito por Serva (1996). Em seu estudo, o pesquisador no excluiu a possibilidade de

    investigar organizaes que, mesmo sendo consideradas como produtivas, no buscassem lucro, ou

    retorno financeiro, atravs de sua atividade. De fato, nem todas as unidades pesquisadas por Serva

    tinham o lucro como sua finalidade, uma delas, inclusive, sendo uma fundao de direito privado. Neste

    estudo, diferentemente, empreendeu-se uma investigao em uma organizao produtiva do ramo

    industrial que tem entre suas finalidades a busca por retorno financeiro, ou seja, o lucro.

    O fato de se pesquisar uma organizao produtiva que atue no ramo industrial

    (uma indstria, portanto) outra diferena marcante em relao ao estudo de Maurcio Serva. As

    organizaes por ele investigadas (Serva, 1996, pp. 371-387) eram todas unidades prestadoras de

    servio, em atividades como produo de arte, escola infantil, psicoterapia individual e de grupo,

    psicopedagogia, escola de msica e teatro, medicina naturista e homeoptica, ajustamento corporal,

    tar de autoconhecimento, organizao de experincias de vida comunitria e agricultura natural,

    xamanismo, lazer organizado excurses ecolgicas