A Garagem na Habitação Colectiva

of 120 /120
a garagem no edifício de habitação colectiva inês vieira da costa pires dissertação de mestrado integrado em arquitectura, faup 2009/2010 docente acompanhante: arquitecto luis soares carneiro

Embed Size (px)

description

Tese de Mestrado Integrado

Transcript of A Garagem na Habitação Colectiva

  • a garagemno edifcio de habitao colectiva

    ins vieira da costa pires

    dissertao de mestrado integrado em arquitectura, faup 2009/2010docente acompanhante: arquitecto luis soares carneiro

    a garagemno edifcio de habitao colectiva

    ins vieira da costa piresdissertao de mestrado integrado em arquitectura, faup 2009/2010docente acompanhante: arquitecto luis soares carneiro

  • agradecimentos

    ao meu pai pela dedicao e ajuda a tempo inteiro, minha me, minha irm e ao Joo pela pacincia,

    Cato por acreditar no meu tema,ao Kiko pelos inesquecveis dias na biblioteca,

    Cassandra e ao Mi pelas conversas, Ins, Kikas e Vera pela ajuda no inicio e no fim,

    Tatas, Leo e Renata pela leitura final,

    ao Professor Luis Soares Carneiro por todo o percurso.

    3

  • ndiceresumo 7

    abstract 9

    introduo 11

    cap.1 acessos diferenciados 151.1 aparecimento do automvel 171.2 garagem como anexo 19

    cap.2 duplicao da entrada 292.1 automvel acessivel a todos 312.2 garagem como entrada 332.2 garagem colectiva 43

    cap.3 garagem elevada 593.1 habitao e garagem em pisos separados 613.2 habitao e garagem no mesmo piso 73

    cap.4 garagem integrada 794.1 perda do carcter colectivo 814.2 garagem como extenso da habitao 85

    cap.5 garagem como entrada principal 955.1 entrada sem trio 975.2 entrada com trio 103

    consideraes finais 109

    bibliografia 113

    crditos de imagem 117

    5

  • 6

  • resumo

    A garagem um espao criado para o automvel. Associada habitao, ganha uma nova dimenso, capaz de ultrapassar a mera funo de armazenamento.

    No inicio do sculo XX, com o automvel conduzido essencialmente por um chauffeur, a garagem foi introduzida no edifcio de habitao colectiva como um espao de servio. Com o progressivo aumento da utilizao deste meio de transporte, transformou-se numa entrada e num espao comum aos moradores. o lugar onde samos do nosso automvel, deixando para trs a confuso da cidade, iniciando o percurso at privacidade no nosso apartamento.

    Se na habitao unifamiliar, muitas vezes, a garagem adquire valor como mais um compartimento da casa, no edifcio de habitao colectiva raramente perde o carcter de rea de servio. No imaginrio da maioria das pessoas adquire pouco valor e importncia, sem no entanto se aperceberem que, muitas vezes, o espao comum mais utilizado dentro do edifcio.

    Em Portugal, a arquitectura remete constantemente a garagem para um piso subterrneo, sem ponderar a importncia que assume enquanto entrada e espao colectivo e, principalmente como um espao que, alm dos automveis, vive tambm das pessoas que o utilizam.

    Deixando para trs o conceito de garagem subterrnea, esta dissertao parte (re)descoberta de outros modos de projectar este espao. Elevada nos primeiros pisos ou na cobertura, aberta ou encerrada, dentro ou fora do espao privado de cada habitao, a garagem pode assumir vrias caractersticas que, nesta dissertao, so analisadas de forma a perceber os efeitos que produzem no edifcio, ao nvel da sua organizao interna assim como da expresso para o exterior, procurando sempre entender as diferentes relaes que so criadas entre a garagem e a habitao e os restantes espaos comuns, tais como a entrada pedonal, os acessos, verticais ou horizontais, e os logradouros.

    So tambm analisados os parmetros que levam a definir a garagem de uma forma diferente, desde os mais pragmticos, essencialmente de cariz econmico, at aos mais tericos, em que o automvel assumido como uma obra de arte.

    Importa ento, abrir caminho para um diferente entendimento da garagem, reavaliando a sua posio dentro do edifcio de habitao colectiva.

    7

  • 8

  • abstract

    The garage is a space created for the car. Associated with housing, it gains a new dimension, capable of overcoming the mere function of storage.

    At the beginning of the twentieth century, with the car driven primarily by a chauffeur, the garage was introduced in the building of collective housing as a service space. With the increasing use of this vehicle, it became an entry and a common space for residents. It is the place where we get out of our car, leaving behind the confusion of the city, beginning the journey to the privacy of our apartment.

    If in the single-family house, the garage often becomes more valuable as an additional room, in the collective housing it rarely loses the nature of a service area. In the imagination of most people it gets little value and importance, without realizing that often it is the common space more used inside the building.

    In Portugal, the architecture constantly sends the garage to an underground floor, without considering its importance as an entry and a collective space, and mainly as a space that, in addition to the car, also lives of the people who use it.

    Leaving behind the concept of underground parking, this dissertation starts the (re)discovery of other ways of designing this space. High on the first floor or in the roof, open or closed, inside or outside of the private space of each dwelling, the garage can take many features that are analyzed in this work, in order to understand the effects they produce in the building, concerning its internal organization and expression to the outside, trying to understand the different relationships that are created between the garage and the houses and the other common spaces such as pedestrian entrances, accesses, vertical or horizontal, or the courtyard.

    It is also analyzed the parameters that led to the garage been set in a different way, from the more pragmatic, essentially economic, to the more theoretical, on which the vehicle is assumed as a work of art.

    It matters then, to give way to a different understanding of the garage, re-evaluating its position in the building of collective housing.

    9

  • 10

  • 11

    introduo

    A escolha do tema surge da minha experincia pessoal diria.

    A minha infncia foi passada numa moradia, com um espao de logradouro onde se desenrolavam variadas aces. Este espao representava, alm do acesso s garagens, um espao de brincadeira e convvio, e acima de tudo um espao de entrada pedonal dirio. Apesar da casa ter uma entrada principal virada para a rua, esta era apenas utilizada para receber as visitas.

    A mudana para um apartamento, num edifcio de habitao colectiva, veio alterar a minha percepo do modo de entrada em casa. Enquanto utilizadora activa e dependente do automvel, diariamente entro no edifcio pelo espao da garagem, seguindo de elevador directamente para o apartamento. Este momento de entrada em casa revela-se bastante desagradvel. A garagem um espao onde nunca me sinto confortvel. Pacientemente aguardo que o porto se encerre, na esperana de que no entre ningum no convidado. Depois de estacionar o carro, tento sair o mais rapidamente possvel deste espao que, apesar de ser bastante amplo e encerrado e mesmo sabendo que a zona da cidade onde vivo no se trata de uma zona muito perigosa, me transmite tanta insegurana.

    Pelo contrrio, quando entro a p, pelo trio, o que acontece raramente, tenho uma sensao de tranquilidade. Encontrar os meus vizinhos no trio, transforma-se num momento agradvel e de pausa para conversar, mas na garagem parece que estamos sempre com demasiada pressa para algo mais do que um simples bom dia.

    Sem espao de logradouro privado, algumas crianas que vivem no edifcio, aproveitam o espao da garagem para brincar. A garagem torna-se ento um espao de convvio e recreao, sem que esteja minimamente adaptada para estas funes. um espao encerrado, desenvolvido em dois pisos subterrneos, sem qualquer iluminao ou ventilao natural, sem espaos adequados aos pees, principalmente quando se tratam de crianas que, a qualquer momento se podem cruzar com os automveis em movimento.

    Efectivamente comprovo que esta a realidade do nosso pas. As garagens parecem estar destinadas a ser um espao pouco valorizado que transmite insegurana e desconforto. Mas apesar disto, na ausncia de espaos prprios, muitas vezes usado pelos moradores como espao de lazer e convvio.

  • 12

    fig.1

  • 13

    Surgiu assim uma vontade de explorar este tema da garagem como entrada e como espao de convvio dentro do edifcio de habitao colectiva. Numa fase inicial procurei projectos que abordassem este tema de uma forma diferente, mas a pesquisa revelou-se um pouco mais difcil do que eu poderia supr. Depressa verifiquei que a arquitectura no d muita importncia a este espao. Em apresentaes de projectos de habitao colectiva, raramente referido e nem as plantas costumam ser mostradas.

    Assim, esta dissertao, prope uma anlise da evoluo da garagem dentro do edifcio de habitao colectiva, bem como uma anlise de edifcios que introduzam solues alternativas ao modelo de garagem subterrnea habitualmente existente em Portugal.

    mtodo e objectivo

    Inicia-se esta dissertao com uma breve contextualizao do automvel, de modo a entender a influncia que representa na nossa sociedade. Segue-se uma anlise evoluo do espao da garagem, desde o seu aparecimento at introduo no edifcio de habitao colectiva. Neste capitulo so referidos exemplos em que a garagem est associada conduo do automvel pelo chauffeur.

    No capitulo seguinte efectua-se uma caracterizao do espao da garagem, num contexto em que passa a ser utilizada pelo prprio morador. Analisa-se tambm a importncia dos espaos colectivos dentro do edifcio e do trio enquanto espao de entrada, de forma a perceber a importncia destas funes associadas ao espao da garagem.

    O terceiro e quarto capitulo assumem-se como um estudo de modelos alternativos garagem subterrnea, procurando perceber as relaes estabelecidas entre a garagem e a habitao, enquanto espao de entrada e espao colectivo.

    Por fim, no ltimo capitulo so analisados casos em que o trio posto em causa enquanto espao de entrada e a garagem assume totalmente esta funo.

    Cada capitulo, com excepo do primeiro, inicia-se com a anlise das variantes que o espao da garagem pode assumir, introduzindo de seguida os casos que serviram como base de estudo para cada tema.

    Como objectivo pretende-se perceber de que forma a garagem pode ento ser devidamente adequada s funes de espao de entrada e espao colectivo, evitando o tal sentimento de desconforto.

  • acessos diferenciadoscaP.1

  • 16 cap.1 acessos diferenciados

    fig.1

  • cap.1 acessos diferenciados 17

    1.1 aParecimento do automvel

    Inventado no final do sculo XIX, o automvel foi introduzido na sociedade como um objecto de luxo da classe mais elevada, a nica com poder de compra para assumir este novo meio de transporte. Contudo, estava dado o primeiro passo para uma grande revoluo nas cidades.

    Nos EUA, no inicio do sculo XX, e na Europa, principalmente depois da 2 Guerra Mundial, a progressiva diminuio de custos permitiu que o automvel se tornasse no principal meio de transporte, cada vez acessvel a mais pessoas.

    Efectivamente, com a massificao do automvel, o modo de vida urbano sofreu uma enorme alterao. A maior velocidade deste meio de transporte permitia uma rpida deslocao entre os locais. As cidades transformaram-se, expandiram cada vez mais os seus limites, tiveram de ser adaptadas ao novo meio de transporte que, apesar de todas as vantagens em relao s carroas e carruagens, tambm representava um maior grau de exigncia em relao s ruas onde circulava. Tornou-se necessrio repensar a malha urbana para permitir uma melhor circulao do automvel assim como foi necessrio ter em conta a segurana do peo.

    A imagem da cidade foi sendo alterada, nomeadamente com a introduo de elementos como sinais de trnsito, semforos, passadeiras, etc., assim como com o aparecimento de equipamentos de apoio ao automvel, como as bombas de gasolina. Passou a ser necessrio pensar tambm em espaos para guardar o automvel, surgindo assim as primeiras garagens pblicas. Progressivamente, tambm a habitao comeou a incorporar o espao de garagem.

    Ao longo do sculo XX e XXI, automvel foi alvo de fortes criticas enquanto destruidor de cidades, mas apesar de tudo, continua a ser considerado o melhor meio de transporte para a maioria das pessoas. Torna-se ento necessrio pensar na melhor integrao possvel no planeamento urbano e na construo de novos edifcios.

    Resta tambm aos arquitectos-urbanistas e aos responsveis das obras urbanas admitirem que o automvel no uma desgraa que tenha acontecido cidade, nem to-pouco um inimigo, mas sim um fenmeno durvel ao qual est ligado o destino das urbes; que, mesmo que as cidade europeias conservem fortes especificidades em relao s americanas, usando esse meio de transporte que a maior parte das vezes os citadinos as frequentam; e que, em consequncia, a qualidade dos espaos urbanos deve tambm ter em conta o ponto de vista dos automobilistas e dos seus passageiros. Ora, a arquitectura dos espaos do automvel (auto-estradas, ns, parques de estacionamento, etc.), tal como a da cidade vista desse mesmo automvel, esto ainda consideravelmente esquecidas, talvez com algumas excepes 1

    1 Franois Ascher em Metapolis: acerca do futuro da cidade. Celta, Oeiras:1996. (traduo lvaro Domingues) Pg. 171

  • 18 cap.1 acessos diferenciados

    fig.2 Planta do piso trreofig.3 Fachada anterior

    Edifcio no Quai Voltaire

    fig.3

    fig.2

  • cap.1 acessos diferenciados 19

    1.2 garagem como anexo

    Le dveloppement de lautomobile individuelle aux lendemains de la Premire Guerre mondiale non seulement a contribu aux transformations de la ville et plus gnralement du territoire, mais aussi aux transformations de limmeuble dhabitation.2

    Numa fase inicial, tal como acontecia com as carruagens, o automvel era conduzido por um chauffeur que tinha tambm a responsabilidade de guarda e manuteno. Assim, todas as reas de apoio ao automvel, tais como o espao de estacionamento, manuteno e dependncias do chauffeur, comearam a surgir associadas s restantes reas de servio.

    Nos edifcios de habitao unifamiliar, o automvel comeou por ser guardado, junto com as carruagens, nas cocheiras construdas nos logradouros e, como refere John Brinckerhoff Jackson, escritor francs (1909-1996), architects were even engaged by the well-to-do to design combination stables, carriage houses, and garages; in 1911 Frank Lloyd Wright produced a monumental example on a suburban Chicago estate. Nevertheless the solution proved impractical.3

    Cedo se verificou que a convivncia dos dois meios no era compatvel pois, se por um lado, os fumos do automvel eram prejudiciais aos cavalos, por outro, os cheiros e cidos dos estbulos danificavam a pintura do automvel, o que, naturalmente, no era adequado imagem de objecto de luxo. Surgiu assim, a necessidade de criar uma rea de servio prpria e independente para o automvel, a spit-and-polish repair shop for the vehicle, often with a chauffeur-cum-mechanic living above and even a gas pump out front.4

    Do mesmo modo, nos edifcios de habitao colectiva, caractersticos dos aglomerados urbanos de maior dimenso e genericamente agrupados em quarteires, o automvel passou a ser estacionado junto s cocheiras, normalmente localizadas no interior dos ptios e, tal como nas habitaes unifamiliares, associados a zonas de servio. Nos edifcios com apenas uma frente de rua que eram construdos geminados de forma a encerrar o quarteiro, a ligao com os logradouros era feita pela chamada porte cochre. Esta consistia numa passagem vazada em cada edifcio, com um porto face da rua, como podemos ver num edifcio em Paris, no Quai Voltaire. (fig.2 e 3)

    Ocupando por norma, o piso trreo com comrcio virado para a rua, o trio que dava acesso aos pisos superiores de habitao era virado para a passagem vazada. Esta soluo permitia ao chauffeur parar a carruagem e depois tambm o automvel, numa zona coberta para deixar sair os moradores, seguindo para o logradouro. Desta forma, tanto o acesso pedonal (nobre e de servio) como o virio, eram feitos pela mesma entrada.

    2 Patrick Cleste em LImmeuble, Les cahiers de la recherche architecturale, n 22. Editions Parenthses, 1988. Pg.123 John Brinckerhoff Jackson em Necessity for ruins and other topics. University of Massachussetts Press, 1980. Pg.105: The domestication of the garage.Consultado em: www.books.google.pt4 Jane Holtz Kay em A Brief History of Parking: The Life and After-life of Paving the Planet.Consultado em: http://www.janeholtzkay.com/articles/parking.html

  • 20 cap.1 acessos diferenciados

    fig.4 Planta do piso tipofig.5 Planta do piso trreofig.6 Fotografia na poca da construofig.7 Fotografia actual

    Edifcio na Rue GuynemerMichel Roux-Spitz, 1925-28

    fig.4

    fig.5

    fig.6 fig.7

  • cap.1 acessos diferenciados 21

    Na dcada de 1920, comearam a surgir as primeiras experincias de introduo da garagem no edifcio de habitao colectiva. Muitas vezes de rea reduzida, devido diviso do quarteiro em lotes de pequena largura, deixava de ter espao suficiente de logradouro para o armazenamento dos automveis, como se pode observar no Edifcio na Rue Guynemer (Paris, 1925-28), do arquitecto parisiense Michel Roux-Spitz (1888-1957). (fig.4 a 7)

    Como refere Patrick Celste, arquitecto francs, Michel Roux-Spitz foi um dos primeiros a pr em causa a porte cochre como entrada nica para pees e automveis. Como o edifcio, implantado no interior de um quarteiro, tinha apenas uma frente de rua, os acessos, pedonal e virio, foram colocados na mesma fachada, mas de forma separada. Com uma disposio simtrica, so distinguidos apenas pela diferente linguagem da porta (acesso pedonal) e do porto (acesso virio).

    Como a garagem se localiza na parte posterior do edifcio e o trio na zona central junto s escadas e elevador, os dois acessos traduzem-se em duas longas passagens que fazem a transio entre a rua e estes espaos. A passagem pedonal, que Michel Roux-Spitz denomiou de vestibule, sem a presena do ptio que permitia iluminar o trio, perdeu la possibilit dy prendre un clairage naturel comme celle de donner un sens vident la squence dentre; Roux-Spitz rsout aisment ce problme en recourant lclairage lectrique (dissimul dans les corniches lumineuses), et en donnant un but cette squence par la prsence dune statue. La statue se substitue celles qui, dans les niches, scandaient les parois du passage, ou qui de la cour fermaient la perspective de lentre.5

    De modo a permitir a vigilncia da entrada pedonal, a portaria no se encontra associada ao trio. Colocada na zona anterior do edifcio, a separar as duas passagens, aberta para o vestibule, junto sua entrada. A passagem de automveis pontuada pelos acessos s zonas de servio, nomeadamente a entrada do apartamento do porteiro, anexo portaria, e a entrada de servio com uma caixa de escadas e elevador independentes, de acesso directo zona da cozinha de cada apartamento. A introduo de um porto no final deste percurso, permitia separar esta zona de acessos de servio do espao da garagem.

    Como refere ainda Patrick Celste, conscient de transformer un des lments canoniques de limmeuble, Roux-Spitz conserve cependant les dispositifs gnraux du passage porte cochre qui nest pas un couloir, mais une nef condensant un discours sur la monumentalit, non plus plat comme sur la faade, mais en trois dimensions.6

    Localizada junto fachada posterior, a garagem obtm iluminao e ventilao natural. um espao de rea reduzida, apenas com seis lugares de estacionamento. Uma placa giratria introduzida no centro facilitava as manobras de estacionamento e servia tambm para o chauffeur fazer a limpeza e manuteno dos automveis.

    5 Patrick Cleste em LImmeuble, Les cahiers de la recherche architecturale, n 22. Editions Parenthses, 1988. Pg.156 idem

  • 22 cap.1 acessos diferenciados

    fig.8 Planta do piso tipo (pisos com nmero par)fig.9 Planta do piso trreofig.10 Fachada posteriorfig.11 Entrada das garagens na fachada posteriorfig.12 Fachada anteriorfig.13 Corte aa

    Immeuble Clart, Le Corbusier, 1930-32

    a

    a

    a

    a

    fig.8

    fig.9

    fig.10

    fig.11 fig.12

    fig.13

  • cap.1 acessos diferenciados 23

    Foi criado um acesso directo da garagem para a escadaria principal, atravs de uma pequena porta que, permitia, quando necessrio, deixar sair os moradores numa zona interior. Esta a nica ligao, no piso trreo, entre as zonas de servio e as zonas nobres.

    Na dcada de 1930, tambm Le Corbusier comeou a projectar edifcios de habitao com uma notria preocupao pela integrao do automvel e do respectivo espao de armazenamento. O Immeuble Clart (Genebra, 1930-32), a sua primeira obra construda com um programa de habitao colectiva, est le produit de longues tudes prparatoires, amorces en 1928 dj, et destines fournir les plans dimmeubles locatifs type7 (fig. 8 a 13)

    O edifcio, implantado como um bloco autnomo de forma rectangular e com orientao nordeste-sudoeste, apresentava trs frentes de rua, o que permitiu a separao entre as entradas pedonais, na fachada nordeste, e as entradas para as garagens, na fachada oposta.

    O acesso pedonal foi dividido em duas grandes entradas de cariz nobre, marcadas no exterior por uma caixa saliente com p direito duplo. Este espao alm de criar um momento de transio coberto entre a rua e o trio e permitir ao porteiro uma melhor vigilncia atravs de uma janela na portaria, dava tambm acesso a uma garagem de bicicletas que, com ligao interna ao trio, poderia tambm funcionar como entrada de servio.

    Sem rea de logradouro, o espao de estacionamento foi introduzido no interior do edifcio, sob a forma de garagens individuais colocadas no piso trreo, entre os pilares que suportam a estrutura. Esta opo traduziu-se numa poupana de espao de manobras no interior do edifcio, implicando uma expresso mais forte na fachada j que, em vez de uma, existiam quinze entradas de garagem.

    O edifcio rematado, na fachada lateral direita, por espaos de comrcio e restaurao que, mais avanados em relao ao volume dos pisos superiores, seguem a curvatura da rua. A restante rea do piso trreo era destinada a servios comuns, nomeadamente lavandarias, arrumos, espaos tcnicos, portarias e apartamentos dos porteiros. Os trios, desenvolvidos no sentido transversal, permitiam o acesso s escadas, viradas para a entrada, ao elevador colocado no sentido oposto, e aos corredores de distribuio para as garagens e reas de servio.

    Neste edifcio, a iluminao representa um tema bastante importante. As fachadas, anterior e posterior, assumem-se como dois planos de vidro, quebrados apenas pela introduo de varandas com guardas em planos opacos. As escadas so rematadas por clarabias introduzidas na cobertura que, conjuntamente com a utilizao de tijolo de vidro nos degraus e nas lajes, permitem uma grande permeabilidade de luz zenital at ao piso trreo. Este material foi tambm utilizado nas paredes das garagens que se encontram viradas para o trio.

    7 Retirado de: Fundao Le Corbusier, http://www.fondationlecorbusier.fr/

  • 24 cap.1 acessos diferenciados

    fig.14 Planta do piso tipofig.15 Planta do piso trreofig.16 Planta do piso da garagemfig.17 Corte aa

    Immeuble Porte Molitor, Le Corbusier, 1931-34

    aa

    bb

    aa

    bb

    aa

    bb

    fig.14

    fig.15

    fig.16

    fig.17

  • cap.1 acessos diferenciados 25

    Um ano mais tarde, Le Corbusier comeou a projectar aquele que seria o seu primeiro edifcio de habitao colectiva com a garagem localizada num piso subterrneo, o Immeuble Porte Molitor (Paris, 1931-1934). Apesar de construdo contemporaneamente com edifcios da mesma rua, incluindo um de Michel Roux-Spitz, de 1931, implantado do seu lado direito, a obra de Le Corbusier contrastava com todos eles, principalmente, pela abertura de grandes vos nas fachadas. (fig. 14 a 22)

    Le Corbusier juntou todas as zonas de servio, nomeadamente os quartos de empregados e lavandarias, no piso trreo, evitando a habitual colocao destes espaos nos stos, permitindo tambm libertar a cobertura para o seu prprio apartamento, desenvolvido em dois pisos. Implantado num pequeno lote com limitaes de crceas e com o piso trreo ocupado pelas zonas de servio, tornou-se necessrio criar um piso subterrneo onde, alm de colocar mais quartos de empregados, projectou tambm uma pequena garagem.

    Nos pisos superiores existem dois apartamentos por piso, cada um associado a uma fachada diferente, resultando numa composio exterior muito semelhante. A diferenciao entre as fachadas feita, como no Immeuble Clart, ao nvel do piso trreo. Do mesmo modo, as duas frentes de rua permitiram separar os acessos pedonal e virio, introduzindo diferentes linguagens em cada fachada.

    A introduo da entrada nobre na fachada nascente, permite identific-la como principal, enquanto que a fachada poente, com a entrada para a garagem, se assume como secundria. A associao da garagem a esta fachada, assim como a sua localizao junto aos quartos de empregados e espaos tcnicos, esclarecem o seu carcter de zona de servio. fachada principal foi adicionada uma entrada de servio, juntando os dois acessos pedonais, em detrimento de aliar a entrada de servio entrada da garagem.

    A duplicao do ptio permite iluminar e ventilar de forma independente as zonas nobres e as zonas de servio de todos os pisos. O ptio principal, que surge apenas no primeiro piso, est associado entrada de cada apartamento e s reas de distribuio para os quartos e instalaes sanitrias. Atravs de clarabias permite tambm iluminar o trio nobre. O ptio secundrio alm de iluminar e ventilar as reas de servio dos pisos de habitao, tem tambm, no piso trreo, a funo de distribuio entre os quartos de empregados e respectiva entrada e acessos verticais.

    Neste edifcio, as escadas perdem o seu carcter nobre. Aparecem associadas entrada de servio, apesar de poderem ser acedidas pelo trio comum atravs de uma porta. Assim, o trio desenvolvido apenas com a presena do elevador, como principal modo de distribuio vertical.

    A estrutura, apoiada em paredes de beto e pilares, caracterstica da arquitectura moderna, permite a criao de um plano livre e flexvel, capaz de se adaptar s necessidades do morador. Os pilares surgem alinhados no centro, no sentido longitudinal, e foram sendo adaptados aos diferentes espaos, no interior do edifico. Nos pisos de habitao, um dos pilares que surge em frente porta de entrada do apartamento com maior rea, deslocado de forma a obter um trio mais amplo, resultando numa curvatura da parede do ptio.

  • 26 cap.1 acessos diferenciados

    fig.18 Fachada anterior, fotografia na poca de construofig.19 Axonometria, com corte bbfig.20 Fachada posterior, fotografia actualfig.21 Corredor de servio nos pisos superioresfig.22 trio

    Immeuble Porte Molitor, Le Corbusier, 1931-34

    fig.18

    fig.22

    fig.21

    fig.20

    fig.19

  • cap.1 acessos diferenciados 27

    Tambm no piso trreo, estes pilares foram adaptados ao percurso que vai desde a entrada, desviada para o lado esquerdo, at ao trio, colocado numa posio central. Como refere Deborah Gans, arquitecta americana e autora do livro Le Corbusier Guide, the controlled rationality of the structural pattern and imaginary centreline is countered by the lobbys curved walls, tilted floor plane, and diffuse skylight, all of which convey a sensual force.8

    A garagem, com lugar para cinco automveis e pouco espao para manobras, foi resolvida com a introduo de uma plataforma que, depois de receber o automvel, no final da rampa, se desloca transversalmente, fazendo a respectiva distribuio para trs ou para a frente.

    Em todos estes exemplos, a garagem assumida como uma rea de servio, utilizada apenas pelo chauffeur, uma vez que o morador, saindo sempre do automvel junto entrada nobre, no tem qualquer contacto com este novo espao introduzido no edifcio de habitao colectiva.

    8 Deborah Gans em The Le Corbusier guide, Princeton Architectural Press: 2006, 3 edio. Pg.27consultado em: www.amazon.com

  • duPlicao da entradacaP.2

  • 30 cap.2 duplicao da entrada

    fig.23 Planta de implantaofig.24 Edifcio, vista do jardimfig.25 Vista do acesso virio e garagensfig.26 Galeria exteriorfig.27 Corte transversal

    Robin Hood GardensAlison and Peter Smithson, 1960-72

    fig.23

    fig.24

    fig.25 fig.26

    fig.27

  • cap.2 duplicao da entrada 31

    2.1 automvel acessivel a todos

    Depois de algumas experincias no inicio do sculo XX, o tema da garagem, integrada no edifcio de habitao colectiva, s comeou a ser posto em prtica com maior frequncia, na segunda metade do sculo XX. Efectivamente, com uma maior estabilidade econmica e a progressiva diminuio dos custos do automvel, este novo meio de transporte passou a ser acessvel a todas as classes sociais.

    Uma das consequncias imediatas foi a sobre-ocupao das ruas com estacionamento, pelo que se tornou necessrio dotar os edifcios com garagens privadas, no s no caso de habitao colectiva para as classes mais elevadas, como tambm para as classes mais desfavorecidas. Veja-se o exemplo do conjunto habitacional Robin Hood Gardens, de Alison e Peter Smithson (Londres, 1960-72). (fig. 23 a 27)

    Este conjunto, destinado a um grupo social de baixo rendimento, formado por dois edifcios. Colocados numa posio paralela, rematam um amplo jardim, numa tentativa de criar um espao colectivo, isolado das ruas envolventes. To encourage sentiments of belonging and neighbourliness9, o acesso aos apartamentos feito por galerias que, com uma dimenso bastante larga, proporcionam um espao de convvio e encontro entre os moradores.

    O piso trreo desenvolvido com programa de habitao e surge um pouco recuado em relao ao plano da fachada virada para o jardim. O estacionamento, no nvel inferior ao da rua, feito em garagens individuais, intercaladas com as paredes estruturais que apoiam o edifcio. O volume da caixa de escadas, destacado do corpo central, surge nos topos de cada edifcio, e estabelece a ligao entre as garagens, os apartamentos e as entradas pedonais, localizadas no piso trreo.

    Assim, em edifcios de habitao de classe mdia ou baixa, em que a figura do chauffeur no existia, a garagem comeou a ser utilizada pelos prprios moradores, tornando-se necessrio pensar este espao no como uma rea de servio, mas sim como uma segunda entrada que passou a representar.

    9 Retirado de: Harvard University Library Smithson Archive,http://oasis.lib.harvard.edu/oasis/deliver/deepLink?_collection=oasis&uniqueId=des00015

  • 32 cap.2 duplicao da entrada

    fig.28 trio nobrefig.29 trio de serviofig.30 Fachada lateralfig.31 Fachada anterior, entrada para os dois trios

    Torre na Pasteleira

    fig.28

    fig.29 fig.30

    fig.31

  • cap.2 duplicao da entrada 33

    2.2 garagem como entrada

    imPortncia da entrada

    The systems of access and circulation structure a residence and thus shape quite fundamentally how residents live together. Access is also the thread that links the building to the networks of the city. The systems of circulation are therefore one of the essential qualities of residential architecture.10

    A entrada comum, assim como os respectivos espaos de distribuio, permite ao edifcio ser, mais do que uma aglomerao de parcelas de habitao, um conjunto unificado.

    O trio, enquanto nica entrada, o primeiro ponto de contacto com o interior do edifcio. Se, por um lado, o encerramento feito atravs de uma porta de entrada torna este espao privado, por outro, alguns elementos, tais como as caixas de correio e as campainhas, associados ao mundo exterior, assim como a franca relao visual obtida pela introduo de planos de vidro, conferem-lhe um carcter de extenso da rua. Estabelecendo uma ligao directa com os apartamentos, o trio assume-se como um espao de transio entre o mundo pblico da cidade e a privacidade de cada habitao.

    Como refere Monique Eleb, psicloga e sociloga francesa, especializada em arquitectura domstica, de la rue au logement, on traverse ainsi successivement trois lieux distincts: le hall dentre, lescalier et le palier. Les halls dentre sont traits avec soin particulier, expliqu par une volont doffrir des espaces collectifs dont la richesse de traitement donne fait de rentrer chez soi le caractre dune aventure la fois spatiale et plastique.11

    A introduo no edifcio de acessos secundrios, tais como as entradas de servio, as ligaes aos logradouros ou mesmo a prpria garagem, puseram em causa a unicidade da entrada pelo trio, que passou a ser diferenciada apenas pelo seu carcter mais nobre.

    Como exemplo, podemos observar um conjunto de Torres na zona residencial da Pasteleira, no Porto12 (fig. 28 a 31), em que a entrada de servio apresenta um acesso mais prtico ao interior do edifcio, resultando numa constante utilizao pelos moradores. Nestes edifcios, a elevao do piso trreo, permite criar um piso semi-subterrneo onde so introduzidas espaos de servio. As duas entradas pedonais so feitas na mesma fachada e, apesar da entrada de servio no ter a mesma expresso, colocada sob a entrada nobre, numa composio idntica.

    10 Peter Ebner em Typology + : innovative residential architecture. Basel : Birkhuser, 2010. Pg.1611 Monique Eleb em Urbanit, sociabilit et intimit: des logements daujourdhui. Paris: Ed. de lpure, 1997. Pg.6312 Foi contactado o Arquitecto Pedro Ramalho, o Arquitecto Rui Ramos e alguns moradores e foi consultado o Arquivo Geral do Porto, contudo, no foi possivel descobrir o autor e data de construo, sabe-se apenas que as trs torres foram construdas na dcada de 1960, inseridas no plano de pormenor para o Sector a Nascente do Bairro Rainha D. Leonor, desenvolvido pelo Arquitecto Rogrio Barroca.

  • 34 cap.2 duplicao da entrada

    Associado entrada de servio, surge um trio secundrio que, com dois espaos laterais desenvolvidos em p direito duplo, comunica com o trio nobre, por sua vez em mezzanine. Desta forma, possvel fazer a vigilncia, atravs da portaria situada no piso inferior, dos dois espaos simultaneamente. A ligao com as habitaes feita, nos dois casos, atravs dos acessos verticais, escadas e dois elevadores, desenvolvidos na zona posterior do edifcio que, separados dos trios por duas portas laterais, se assumem como espaos independentes.

    Alm do interior do trio nobre se destacar, principalmente pela introduo de um painel decorativo do pintor Jlio Resende sobre as caixas de correio, no exterior que as duas entradas so mais diferenciadas. A entrada nobre, inserida numa pesada moldura de pedra, acedida por uma escadaria avanada em relao ao plano da fachada, enquanto que a ligao entrada de servio feita por duas rampas que se diluem no passeio. Foi esta diferena de acesso, por rampa, que transformou o trio secundrio numa entrada utilizada, actualmente, com igual frequncia ao trio nobre, principalmente devido maior ocupao por pessoas de escalo etrio mais elevado.

    Variando ao longo do tempo e entre diferentes culturas, o trio representa um reflexo das diferentes necessidades da populao a que se destina. Independentemente do seu tamanho ou organizao espacial, este espao um elemento de permanncia no edifcio de habitao colectiva, representando sempre a sua entrada principal. Apesar disto, as funes que lhe esto associadas foram sendo adaptadas evoluo tecnolgica e aos novos modos de vida, transformando-se num espao cada vez mais vazio.

    fig.32 Entrada pedonalfig.33 Vista do trio

    Edifcio na Rua S da BandeiraArmnio Losa e Cassiano Barbosa, Porto 1946

    fig.32 fig.33

  • cap.2 duplicao da entrada 35

    A escadaria principal que at ao sculo XX representava o nico modo de acesso vertical e que se assumia como uma pea escultrica (fig. 33), aumentando a imponncia do trio, foi posta em causa com a introduo do elevador.

    Inventado por Elisha Otis e, apresentado na 1 Feira Mundial de Nova Iorque em 1853, o elevador veio revolucionar a mobilidade vertical, proporcionando a construo de edifcios cada vez mais altos. Na habitao colectiva, alm da possibilidade de construir mais fogos, optimizando a rea de implantao, o elevador representou tambm uma subverso da importncia de cada andar. Os ltimos pisos, at a considerados menos apetecveis devido quantidade de escadas que era necessrio subir, tornaram-se os melhores pisos de cada edifcio, pelas vantagens que representam, tais como uma maior exposio de luz e sol, maior isolamento sonoro e melhores vistas para a paisagem envolvente. Como refere Rem Koolhaas, el ascensor es la ltima profeca que trae consigo su propio cumplimento: cuanto ms sube, ms indeseables son las circunstancias que deja atrs.13

    O elevador reduziu a caixa de escadas a uma questo de segurana. Utilizadas com cada vez menos frequncia, servem apenas em situaes pontuais, de emergncia, de avaria do elevador, ou para quem viva nos primeiros andares e prefira este modo de acesso. Deixa de ser um local de convvio e encontro entre os moradores, e tambm a sua localizao passa a ser remetida para segundo plano em funo de um acesso mais directo ao elevador.

    Com a introduo de sistemas de segurana contra incndios, o edifcio tornou-se cada vez mais encerrado, com compartimentos corta-fogo que quebram a continuidade espacial no seu interior.

    Actualmente, em muitos pases, como o caso de Portugal, obrigatrio o encerramento da caixa de escadas que, deste modo, se tornaram num ponto de poupana de custos. Cada vez mais desvalorizadas, as escadas perderam todo o seu carcter escultrico e, da mesma forma, o trio acabou por perder um dos seus elementos mais fortes.

    Alm destes, outros factores contriburam para a diminuio das funes associadas ao trio, nomeadamente o desaparecimento do chauffeur, dos empregados de cada habitao e do porteiro, aos quais estavam associadas entradas de servio e respectivos quartos. A introduo de intercomunicadores associados s campainhas, primeiro apenas com controlo de voz e mais tarde com imagem, substitui o controlo de segurana efectuado pelo porteiro, evitando a entrada no edifcio de pessoas indesejveis. Os servios domicilirios, tais como o padeiro, o leiteiro ou o mdico de famlia, so cada vez menos frequentes e mesmo o carteiro j no transpe os limites do interior do edifcio, resultado da colocao das caixas de correio no lado exterior da entrada, subtraindo tambm este espao ao trio.

    Com cada vez menos funes, o trio, assim como as escadas, torna-se, em muitos casos, num ponto de reduo de custos, limitando a sua rea ao mnimo indispensvel.

    13 Rem Koolhaas em Delirio de Nueva York. Barcelona: Gustavo Gili 2004. (1 edio 1978) Pg.82

  • 36 cap.2 duplicao da entrada

    fig.34 Vista do gavetofig.35 Interior do triofig.36 Interior do trio fig.37 Passagem para a entrada para o trio

    Edifcio Parnaso, Jos Loureiro, 1954-56

    fig.34

    fig.35 fig.36

    fig.37

  • cap.2 duplicao da entrada 37

    Exemplo desta situao o Edifcio Parnaso de Jos Loureiro (Porto, 1954-1956). (fig. 34 a 37) Este edifcio caracteriza-se por um conjunto de programas variados, desde habitao at comrcio e servios, desenvolvidos em volumes articulados por uma caixa de escadas totalmente envidraada. A entrada para o volume de habitao, com maior altura e de implantao rectangular, feita pelo corpo da caixa de escadas que faz a ligao com os apartamentos atravs de uma distribuio em galerias, cujas dimenses e caracterizao lhes determinam meras funes de percurso.14

    Tambm o trio se apresenta como um espao de rea reduzida ao mnimo necessrio para o acesso s escadas e ao elevador, perdendo nas duas situaes a oportunidade de criar um espao de convvio entre os moradores. A respectiva transio entre a rua e trio contudo efectuada atravs de uma passagem em ponte, coberta por uma pala que, apesar de ser um espao exterior e pblico, acaba por assumir ento a funo do trio.

    Em resumo, a reduo do espao de trio, apresenta basicamente vantagens de nvel econmico, contribuindo para a diminuio da importncia da entrada.

    Nestas matrias de caracterizao dos espaos comuns h que tratar muito bem a zona de recepo e entrada, conciliando o interesse de uma centralizao de servios e de uma eventual presena de servios de recepo e gesto com um mximo de privatizao e autonomia das entradas/sadas na unidade residencial, com excelentes condies de dignidade e agradabilidade e com a disponibilidade de opes conviviais expressivamente facultativas.15

    da garagem como anexo garagem como entrada

    Como foi referido anteriormente, quando a garagem, introduzida no edifcio de habitao colectiva, deixa de estar associada ao chauffeur, passa a ser estabelecida uma ligao directa entre a garagem e os pisos de habitao, transformando este espao numa forma de entrada.

    Assim, o desenvolvimento desta ligao, permite caracterizar o espao da garagem de forma idntica ao trio, repetindo at o mesmo discurso:

    O trio [a garagem], enquanto nica entrada, o primeiro ponto de contacto com o interior do edifcio. Se por um lado, o encerramento, feito atravs de uma porta [porto] de entrada, torna este espao privado, por outro, alguns elementos, tais como as caixas de correio e as campainhas, associados ao mundo exterior, assim como a franca relao visual obtida pela introduo de planos de vidro, [o armazenamento dos automveis] conferem-lhe um carcter de extenso da rua. Estabelecendo uma ligao directa com os apartamentos, o trio [a garagem] assume-se como um espao de transio entre o mundo pblico da cidade e a privacidade de cada habitao.

    14 Srgio Fernandez em Percurso: arquitectura portuguesa: 1930-1974. 2ed. Porto: Faup Publicaes, 1988. Pg.10515 Antnio Baptista Coelho em Novas formas de habitar (II): Unidades residenciais. 2008 Consultado em: http://infohabitar.blogspot.com/2008/06/novas-formas-de-habitar-ii-unidades.html

  • 38 cap.2 duplicao da entrada

    fig.38 Planta de implantao do sectorfig.39 Fotografia area da zona

    Blocos residenciais da Pasteleira, Pedro Ramalho e Srgio Fernandez, 1963-71

    E

    fig.38

    fig.39

  • cap.2 duplicao da entrada 39

    Comparando as duas entradas, vemos que cada uma se encontra adaptada forma de mobilidade com a qual se associa. Assim, enquanto que associado a uma mobilidade pedonal, o trio se caracteriza por uma rea mais reduzida, escala humana, a garagem adequa-se escala automvel, aumentando a sua rea, introduzindo um porto de entrada maior e criando percursos de circulao automvel no seu interior.

    Zona residencial da Pasteleira, bloco epedro ramalho e srgio fernandezporto, portugal 1963-1967

    A zona residencial da Pasteleira (fig.38 e 39) foi desenvolvida atravs de um estudo coordenado pelo Arquitecto Alberto Rosmaninho que, como refere o arquitecto Rui Ramos, prope a sua diviso em diferentes sectores de urbanizao, interligados por um anel virio de sentido nico, pensado para a optimizao da circulao automvel.16 O projecto de Pedro Ramalho e Srgio Fernandez, da qual fazem parte cinco edifcios, encontra-se inserido no Sector a Nascente do Bairro Rainha D. Leonor. O Bloco E localiza-se na zona Sul deste sector.

    O piso trreo foi ligeiramente rebaixado de modo a permitir fazer o acesso pedonal ao nvel da rua. Uma vez que o estacionamento automvel feito em garagens individuais, e de forma a evitar a escavao de mais um piso e consequente introduo de acessos verticais virios, as garagens localizam-se no piso trreo, juntamente com a entrada pedonal. Assim, as garagens, desenvolvidas nas fachadas Norte e Sul, so acedidas respectivamente, pela rua principal e por uma rua secundria criada para o efeito.

    Nas zonas do edifcio onde no se efectua nenhum acesso, nomeadamente nas fachadas laterais, podemos observar a cota do terreno existente, mantido sob a forma de jardim.

    A entrada pedonal feita pela fachada Norte, numa posio central, sendo marcada por um percurso desde a rua, separado do acesso virio atravs de dois jardins. Este percurso termina num espao coberto que d acesso aos dois trios.

    Como afirma o arquitecto Pedro Ramalho, a preocupao em definir zonas de transio entre o interior e o deserto exterior, como espaos de relao, conduziram ao traado de um prtico entre as duas caixas de acessos verticais. um local de permanncia, convvio e recreio, realmente utilizado pelos moradores17 Assim, os trios foram introduzidos no prtico, como dois volumes de vidro, com as portas de entrada viradas uma para a outra. As caixas de correio foram colocadas no plano de vidro, viradas para a rua, permitindo a utilizao pelo carteiro e pelo morador, respectivamente no exterior e no interior do trio.

    16 Rui Ramos em Pasteleira em Porto 1901-2001, Guia de arquitectura moderna, Ordem dos Arquitectos SRN, Civilizao, Porto, 200117 Pedro Ramalho em Itinerrio. Faup Publicaes, Porto: 1989, 2 edio. Pg.42

  • 40 cap.2 duplicao da entrada

    fig.40 Planta do piso tipofig.41 Planta do piso trreofig.42 Fachada posteriorfig.43 triofig.44 Fachada anteriorfig.45 Corte aa

    Blocos residenciais da Pasteleira, Pedro Ramalho e Srgio Fernandez, 1963-71Bloco E

    a

    a

    a

    a

    fig.40

    fig.41

    fig.42

    fig.43 fig.44

    fig.45

  • cap.2 duplicao da entrada 41

    No prtico foram ainda colocadas duas entradas de servio que do acesso directo ao espao da caixa de escadas. Aqui surge uma alterao planta cedida pelo Arquivo Geral do porto. (fig. 40 e 41) A planta sugere a localizao das entradas de servio junto das caixas de correio, viradas para a rua, enquanto que no projecto construdo, estas entradas so colocadas numa parede transversal, de modo a ficarem escondidas na composio da fachada. Tambm o espao do prtico ligeiramente alterado, nomeadamente com o aumento da rea do trio e a introduo de umas escadas que, no projecto inicial, eram localizadas no interior.

    O trio d acesso directo apenas ao elevador, sendo necessrio passar por um corredor de servio para chegar s escadas. Neste piso, o elevador apresenta-se aberto para dois lados: o espao do trio e o espao da caixa de escadas, de forma a permitir o contacto entre os dois tipos de acesso e as portas de cada habitao, nos pisos superiores.

    No interior do edifcio, cada garagem tem passagem para um corredor longitudinal que, estabelece a ligao entre o apartamento do porteiro, o ponto de acessos verticais e o trio. Esta organizao do piso trreo relembra o Immeuble Clart, contudo a diferena reside na possibilidade de entrar em casa pela garagem, sem passar no espao do trio, uma vez que este se encontra encerrado, atravs de uma porta, em relao ao corredor que distribui para as garagens. A garagem assume-se ento como uma forma de entrada independente do trio.

  • 42 cap.2 duplicao da entrada

  • cap.2 duplicao da entrada 43

    2.2 garagem colectiva

    imPortncia dos esPaos colectivos

    A cidade moderna por excelncia um espao individualista e annimo. A colectividade introduzida com o aumento do nmero de pessoas, ao contrrio do que seria de esperar, contribuiu para o sentimento de um entre muitos que, infelizmente, resulta numa crescente individualizao. As relaes criadas na cidade so cada vez mais superficiais, rpidas e annimas, j que todos os dias nos cruzarmos com milhares de pessoas, mas apenas de passagem.

    O avano tecnolgico foi um dos factores que mais contribuiu para esta individualizao social. O desenvolvimento de transportes pessoais promoveu a maior liberdade individual assim como diminuiu as distncias entre os vrios locais, pondo em causa o sistema de transportes pblicos que, no s permitia um maior contacto entre as pessoas, como tambm com a prpria cidade. O transporte feito de automvel mais encerrado e a velocidade to elevada que a relao com a cidade praticamente inexistente durante a viagem.

    Tambm o desenvolvimento dos diferentes meios de comunicao, tais como o telemvel e a internet, veio pr em causa as relaes pessoais. A globalizao atingida por estes meios, assim como pelo automvel, permitiu uma menor distncia entre os locais, ainda que esta no seja uma relao fsica. Tambm o computador que consegue concentrar praticamente todas as aces quotidianas, desde uma ferramenta de trabalho, at um objecto de diverso e servios do dia-a-dia, como por exemplo compras online, veio contribuir para a diminuio do contacto pessoal.

    O edifcio de habitao colectiva caracterizado pela aglomerao de unidades habitacionais, organizadas e distribudas pelo mesmo sistema de acessos. Contudo, da mesma forma que acontece dentro da cidade, tambm dentro do edifcio se sente este individualismo. Como refere Hellmuth Sting, por paradjico que parezca, cuantas ms personas viven bajo a un mismo techo, mayor es el grado de aislamiento entre ellas.18

    Se certo que as hipteses de encontro entre os moradores so proporcionais ao nmero de habitaes de um edifcio, tambm certo que esses encontros se traduzem em relaes ocasionais e efmeras.

    Como refere Peter Ebner, arquitecto austraco, Sociologists recognized this problem early on and as early as the 1960s - Jane Jacobs, for example - recommended spaces of access and circulation that could serve as a space for social interaction.19

    18 Hellmuth Sting em Atlas de Plantas: Viviendas. Gustavo Gili, Barcelona: 1997. Pg.XX19 Peter Ebner em Typology + : innovative residential architecture. Basel: Birkhuser, 2010. Pg.20

  • 44 cap.2 duplicao da entrada

    Da mesma forma, o arquitecto Antnio Baptista Coelho20, reala este problema, referindo que numa cidade contempornea em que quase desapareceram os pequenos mundos intermedirios das famlias alargadas e das comunidades de vizinhos, onde se fica tantas vezes isolado no refgio domstico, torna-se urgente o desenvolvimento de prticas de re-humanizao da cidade e o desenvolvimento de solues residenciais e urbanas sensveis a esta problemtica.21

    Assim, torna-se necessrio projectar espaos comuns associados ao edifcio, que proporcionem momentos de pausa e convvio de forma colectiva, como por exemplo, os logradouros. Mas, mais importantes do que estas reas de utilizao ocasional, so os espaos que esto associados a utilizaes mais frequentes, tais como os acessos, entradas ou garagens. Se estiverem dotados das condies necessrias, so capazes de proporcionar, de uma forma mais eficaz, a interaco social entre os moradores, transformando estes espaos de passagem tambm em momentos de pausa.

    No que tem a ver com o desenvolvimento dos espaos comuns, chama-se a ateno para a importncia da agradabilidade ambiental e de reduo, ao mximo, de quaisquer aspectos de constrangimento entre vizinhos. Nestas matrias a disponibilizao de luz natural e de adequada ventilao, a equilibrada espaciosidade e a possibilidade de uma relativa apropriao ou marcao das zonas contguas s portas privadas, so aspectos a salientar.22

    da garagem individual garagem colectiva

    A localizao da garagem, no interior do edifcio de habitao colectiva, est relacionada com diferentes parmetros. Quando localizada no piso trreo, assume a posio mais pragmtica, evitando a introduo de um acesso virio de mobilidade vertical que estabelea a ligao entre a rua e o interior deste espao.

    Contudo, principalmente por questes de rentabilidade, esta soluo acaba por no ser a mais utilizada, uma vez que o piso trreo pode ser aproveitado para outros usos, tais como comrcio, servios, restaurao, ou mesmo habitao. Assim, tendo em considerao que se trata de um espao que no necessita de iluminao e ventilao natural, apesar de poder ser colocada num nvel superior, o controlo de crceas como factor preponderante, e tambm por razes econmicas, remetem a garagem para um nvel subterrneo.

    Podem-se apontar como principais excepes, casos como os de implantao em terrenos com um elevado nvel fretico, em projectos de reabilitao, ou em situaes em que as condies de topografia e modelao do terreno assim o justifiquem, onde, representando um custo mais reduzido, a garagem acaba por ocupar o piso ao nvel da rua ou superior.

    20 Arquitecto e Presidente da Comisso Instaladora do Grupo Habitar21 Antnio Baptista Coelho em Opsculo 18, Entre a casa e a cidade, a humanizao do habitar. Dafne Editora, Porto 2009. Consultado em: http://www.dafne.com.pt/pdf_upload/opusculo_18.pdf22 Antnio Baptista Coelho em Novas formas de habitar (II): Unidades residenciais. 2008. Consultado em: http://infohabitar.blogspot.com/2008/06/novas-formas-de-habitar-ii-unidades.html

  • cap.2 duplicao da entrada 45

    Quando o espao destinado ao estacionamento localizado num piso subterrneo, completamente encerrado, a soluo de garagens individuais, utilizada nos Blocos Residenciais da Pasteleira, torna-se pouco prtica, na medida em que seria necessrio multiplicar o acesso vertical virio desde a rua. Assim, todos os espaos de estacionamento passam a estar agregados numa rea comum, transformando a garagem num espao colectivo.

    Esta evoluo espacial permitiu criar uma entrada nica, reduzindo a expresso conferida s fachadas pelas garagens individuais, mas implicando tambm o aumento da rea interior para a circulao e manobras de estacionamento.

    Ocupando, normalmente, toda a rea de implantao do edifcio, a garagem desenvolve-se como um espao aberto, onde os lugares de estacionamento vo sendo criados entre os elementos estruturais (pilares ou paredes), tornando-se necessrio, como refere Eduardo Souto Moura, projectar de forma conjunta o espao da garagem e a organizao da habitao nos restantes pisos: Por exemplo, vocs vo fazer um prdio de habitao com garagem, com andares por cima, e no vo fazer uma modulao de oito metros. Claro, se chegar um milionrio - quero fazer o prdio mais caro do mundo. Mas o cliente mdio, aquele que entra no vosso escritrio, diz: comprei este terreno, pedi um emprstimo ao banco, tenho este dinheiro, quero fazer um prdio. E propem-se uma modulao em que se sabe que os pilares no podem ficar em cima do capot do carro, tm que ficar ao lado. Por isso tem que conjugar o espaamento dos carros, por exemplo, com os quartos em cima. E por ai diante.23

    O aumento do nmero de habitaes dentro do edifcio, assim como de automveis por agregado familiar, traduz-se, consequentemente, na necessidade de um acrscimo do nmero de lugares de estacionamento, implicando a programao de uma maior rea de garagem. No podendo implantar-se para alm do limite do terreno, a garagem tem necessariamente de ser desenvolvida em mais do que um piso. Esta expanso vertical introduz um novo elemento de distribuio vertical que pode ser feito em continuidade com o acesso desde a rua, ou de forma independente.

    J previamente colocao deste problema no edifcio de habitao, esta problemtica fora abordada a propsito da garagem pblica, utilizada para o estacionamento ocasional. Assim, constituda habitualmente por mais do que um piso, permitiu pr em prtica as mais diversas solues de ligao viria entre os nveis de estacionamento. No ano de 1919, o engenheiro Fernand DHumy inventou o sistema de meios pisos que permitia uma circulao mais orgnica e contnua dos automveis. (fig. 46) A partir desse momento, foram surgindo diferentes solues que, em 1965, Dietrich Klose24 identificava como sendo nove. (fig. 47) Apesar da variedade de solues, as garagens destinadas habitao desenvolvem-se, normalmente, com sistemas mais simples, tanto por questes econmicas como prticas. Com lugares de estacionamento previamente marcados, o percurso efectuado dentro da garagem privada tende ser o mais rpido possvel e o mais directo rua. Pelo contrrio, na garagem pblica, mais prtico uma soluo que facilite, simultaneamente, a ligao entre pisos e a procura de lugar.

    23 Eduardo Souto Moura em Souto Moura, a transparncia dos gestos. Entrevista dada Revista NU. Coimbra: Abril 2002, Pg.1624 Autor do livro Multi-storey car parks and garages de 1965

    fig.46 Garagem pblica, Fernand DHumy, 1919

    fig.47 Classificao de parques de estacionamento em rampa, Dietrich Klose, 1965

  • 46 cap.2 duplicao da entrada

    a

    a

    a

    a

    fig.48 Planta piso trreofig.49 Planta do piso da garagemfig.50 corte aafig.51 imagem da maquete, vista da fachada anterior

    Maison Locative Ponsik, Le Corbusier, 1933

    fig.52 Planta piso trreofig.53 Corte aa

    Urban Forest, Gabinete S333, 2000

    fig.54 Spokane, USA, 1950Parque de estacionamento Pigeon Hole

    a

    a

    fig.48 fig.49 fig.50

    fig.51

    fig.52 fig.53

    fig.54

  • cap.2 duplicao da entrada 47

    O elevador de automveis constitui uma alternativa ao acesso por rampa que, apesar do aumento de custos, de investimento inicial e essencialmente de manuteno, ao qual se encontra associado, representa uma significativa reduo de rea necessria. Apesar de ser uma soluo mais utilizada actualmente, as primeiras experincias surgiram no inicio do sculo XX, como podemos observar num projecto no construdo de Le Corbusier, a Maison Locative Ponsik (Algiers, projecto 1933). (fig. 48 a 51)

    De forma a libertar o piso trreo, para permitir uma relao visual entre a rua e o mar, Le Corbusier remete a garagem para um nvel inferior que, face reduzida rea de implantao, no apresenta dimenso suficiente para o acesso por rampa, introduzindo ento o elevador de carros. A falta de espao, verificada tambm no interior da garagem, solucionada com um mecanismo que, atravs de uma plataforma distribui os automveis para os respectivos lugares de estacionamento, idntico ao utilizado no Immeuble Porte Molitor, construdo contemporaneamente a este projecto.

    Estas solues de estacionamento mecanizado foram sendo utilizadas ao longo do sculo XX, principalmente em garagens pblicas, como os Pigeon Hole Parking (fig. 54), construdos a partir da dcada de 1950. Optimizavam no s a rea da garagem, como tambm a velocidade com que os automveis eram estacionados e devolvidos aos respectivos proprietrios. Este sistema tambm muito aplicado em garagens pblicas de cidades como Nova York, onde vrias pessoas estacionam o seu automvel durante longos perodos de tempo, sendo utilizado apenas para deslocaes para fora da cidade, uma vez que, a mobilidade citadina se restringe na maioria dos casos ao uso de txis e transportes pblicos.

    No edifcio de habitao colectiva, estes mecanismos surgem numa poca mais recente, como resposta ao aumento do nmero de automveis. Quando introduzidos posteriori, o espao da garagem no alterado, apenas permite a duplicao em altura de cada lugar de estacionamento. Contudo, actualmente vemos surgir alguns edifcios em que esta soluo pensada j na fase de projecto como soluo para o espao da garagem, em alternativa multiplicao do nmero de pisos. Aqui, o sistema introduzido de uma forma mais complexa. A organizao espacial da garagem completamente alterada. Deixa de ser um espao de utilizao dos moradores, para ser um espao onde so introduzidos os automveis de forma mecnica, empilhados e distribudos por plataformas automticas. Representa a introduo de um parque de estacionamento, semelhante ao Pigeon Hole, no interior do edifcio de habitao colectiva. Assim, a garagem perde nestes casos o seu carcter de espao colectivo.

    Como exemplo, podemos observar no edifcio Urban Forest do gabinete S333 (Grenoble, projecto 2000) em que, a introduo do estacionamento mecanizado, permite optimizar cada dois pisos de garagem, em trs nveis de estacionamento. Como referem os arquitectos autores do projecto, debido al nivel fretico, el aparcamiento no es una opcin, por lo que se incorpora al bloque dentro de un sistema de almacenaje mecnicamente controlado. De esta forma, se consigue liberar un valioso espacio de terreno para aumentar la variedad del jardn, ampliar los vestbulos y permitir una colonizacin de pequea escala25 (fig. 52 e 53)

    25 Retirado de Vivir arriba: la torre. Revista Density I. a+t: 2002. Pg.118

  • 48 cap.2 duplicao da entrada

    entrada da garagem - relao com a cidade

    A introduo da garagem no interior do edifcio, implicando uma ligao com a rua, teve tambm um forte impacto na sua relao com o tecido urbano. Se o interior da garagem capaz de influenciar a experincia de chegada habitao, tambm as reas de transio so muito importantes, tornando-se num factor preponderante no posicionamento da sua entrada.

    Podemos distinguir a localizao da entrada da garagem numa rua principal ou numa rua secundria, obtendo diferentes formas de apropriao da cidade em geral, e da rua e passeio em particular. Numa rua principal, onde, habitualmente, existe maior circulao automvel e pedonal, levanta problemas no s de trnsito, mas tambm de confronto entre os pees e os automveis que constantemente necessitam de atravessar o passeio. Assim, muitas vezes so criadas ruas secundrias, permitindo o acesso automvel em zonas menos congestionadas e como tal menos conflituosas. Em muitos casos, estas ruas so pensadas de forma a servirem mais do que um edifcio, originando zonas mais calmas no interior do tecido urbano que, apesar de pblicas, acabam por ser apropriadas pelos moradores, como espaos colectivos de apoio aos edifcios envolventes. Tem ainda a funo de resolver o problema das traseiras, muitas vezes votadas ao abandono, em nada dignificando o conjunto.

    Contudo, esta diferenciao de acessos, origina alguns problemas de segregao de diferentes usos e horrios. As ruas principais, associadas a programas mais pblicos, tais como comrcio e servios variados, e portanto mais movimentadas durante o dia, contrastam com as secundrias, mais utilizadas nas horas de ponta, ao princpio da manh e ao fim da tarde/noite, quando se do, respectivamente, os movimentos de sada e chegada a casa.

    Assim, as zonas associadas s ruas secundrias, tendo uma utilizao mais pontual, podem transmitir uma certa insegurana, perdendo a sua capacidade de funcionar como espao de convvio.

    Os modernistas, tentaram, (...), separar as funes desempenhadas pela rua, com o fim de optimiz-las individualmente, separando as vias rpidas de circulao automvel (trnsito) das de circulao de proximidade, das de acesso, dos espaos de estacionamento, das passagens pedonais, dos lugares de exposio comercial, etc., mas o resultado globalmente insatisfatrio quer do ponto de vista de uma parte das funcionalidades, quer em termos da qualidade urbana de conjunto. As auto-estradas urbanas interceptam as cidades, constituindo barreiras dificilmente transponveis, as vias de circulao de proximidade tornam-se perigosas e os espaos pedonais resultam montonos e dificilmente geriveis. Por outro lado, os parques de estacionamento, geralmente ignorados pelos arquitectos, constituem, superfcie, um no mans land e, no subsolo, volumes lgubres, tal como as montras das ruas interiores dos centros comerciais perdem a sua funo de animao.26

    26 Franois Ascher em Metapolis: acerca do futuro da cidade. Celta, Oeiras:1996. (traduo lvaro Domingues) Pg. 170

  • cap.2 duplicao da entrada 49

    De forma a garantir a privacidade da garagem, a sua entrada , normalmente, encerrada por um porto que, dependendo da sua localizao, influencia de forma diferente a linguagem das fachadas do edifcio. O mesmo pode ser introduzido face da rua ou no fim da passagem que d acesso ao seu interior, originando, na primeira hiptese, um espao semi-pblico de transio entre o exterior e o interior. Quando colocado numa posio anterior passagem, implica uma maior apropriao do passeio pelo automvel, durante o tempo de abertura e fecho do porto.

    entrada da garagem - exPresso

    Em edifcios sem garagem, a entrada pedonal pelo trio formal, o elemento que permite diferenciar as fachadas, identificando, habitualmente, a principal. Com a introduo da entrada para a garagem, esta identidade pode ser posta em causa como acontece no edifcio Keck and Keck Apartments de George e William Keck (Chicago, 1937) em que a importncia da entrada pedonal secundarizada ao ser colocada na fachada lateral, acedida por um pequeno percurso desde a rua. (fig. 55) Enquanto na fachada virada para a rua, que neste caso se assume como a principal, so colocadas as entradas para trs garagens individuais. (fig. 56) Especially disconcerting to the neighbours, there was no front door. Instead, three garage doors extended across the first floor, allowing each tenant to drive into the building from the street. For anyone approaching on foot, there was a common entrance to the living quarters on the buildings side.27

    Contudo, a entrada da garagem , sempre que possvel, remetida para outra fachada, posterior ou lateral, permitindo ao trio manter o seu carcter de entrada principal.

    27 Gary Ossewaarde em Historic Preservation, Hyde Park-Kenwood History and Architecture. Consultado em: www.hydepark.org/historicpres/historypres.htm

    fig.55 Imagem do edifcio, vista da entrada pedonalfig.56 Fachada anterior, entradas para as garagens

    Keck and Keck ApartmentsGeorge e William Keck, 1937

    fig.55 fig.56

  • 50 cap.2 duplicao da entrada

    fig.57 Planta do piso trreofig.58 Planta do piso subterrneofig.59 Fachada posteriorfig.60 Fachada lateral, entrada para a garagemfig.61 Fachada anterior, entrada para o triofig.62 Corte aa

    Bloco de Costa Cabral, Viana de Lima, 1953

    a

    a

    a

    a

    fig.57

    fig.58

    fig.59

    fig.60 fig.61

    fig.62

  • cap.2 duplicao da entrada 51

    Quando o edifcio apresenta espao de logradouro, tambm bastante comum introduzir um acesso semi-pblico desde a rua principal at entrada da garagem, de forma a evitar a criao de ruas secundria referidas anteriormente. Nestes casos pode, inclusive, ser combinado com o acesso vertical, quando aquela se localiza num piso inferior ao trreo, como acontece no Bloco de Costa Cabral de Viana de Lima (Porto, 1953). (fig. 57 a 62)

    Esta obra, introduzida dentro de um quarteiro, constitudo por edifcios de habitao com uma mdia de trs pisos de altura, surge destacada no s pela linguagem moderna que assume como tambm pela implantao em forma de bloco autnomo e pela altura de seis pisos.

    A fachada principal est virada para a rua e marcada por um trio, que se apresenta caracterizado por uma caixa de vidro mais avanada em relao ao volume do edifcio, permitindo desta forma aumentar a sua rea. Apresenta tambm uma expressiva pala que, por sua vez, est mais avanada em relao ao trio. O piso trreo ocupado por habitao e, ainda que com igual nmero de apartamentos, no apresenta a mesma organizao espacial dos pisos superiores. Uma ligeira sobre elevao permite a iluminao natural da garagem que se localiza no piso subterrneo.

    A entrada para a garagem feita a partir das fachadas laterais. Esta duplicao do acesso surge como resposta separao da garagem que se assume como dois espaos distintos, intercalados por um trio de servio. Este trio permite a distribuio entre os espaos da garagem e os acessos verticais, assim como a ligao com o logradouro na parte posterior do terreno.

    garagem subterrnea como modelo mais comum

    For reasons of cost savings, the paths to apartments in a residential building are kept as short as possible, until nothing is left but a functional remnant that compels users to get through this space as quickly as possible. But hasnt the elimination of everything that goes beyond the purely physical overcoming of a difference in height led to us experiencing a continuous impoverishment of these communicative spaces?28

    Da mesma forma que os acessos e espaos de circulao foram ao longo do tempo perdendo o seu valor dentro do edifcio de habitao colectiva, tambm a garagem se reduz ao mnimo indispensvel.

    O modelo mais comum o de garagem subterrnea, sem relao visual com o resto do edifcio, resultando na maioria das vezes num ponto de diminuio de custos e um espao completamente desvalorizado que nunca deixou de estar associado a uma zona de servio. um espao sem escala humana: inspito, sem bons acabamentos e com todos os sistemas infra-estruturais visveis, ainda que em certos casos o sistema infra-estrutural possa ser pensado como parte da expresso do edifcio. Muitas vezes no se encontra devidamente adequada mobilidade pedonal que comea quando o condutor estaciona o automvel e se transforma em peo. Estas caractersticas introduzem assim um sentimento

    28 Peter Ebner em Typology + : innovative residential architecture. Basel : Birkhuser, 2010. Pg.20

  • 52 cap.2 duplicao da entrada

    de insegurana e desconforto no espao da garagem que, como referia Peter Ebner, compele os moradores a passar por ele o mais rapidamente possvel.

    Esta desvalorizao da garagem deve-se tambm conotao algo negativa a que o automvel est associado actualmente. Como foi referido anteriormente, apesar de todas as vantagens de mobilidade, o automvel, no mbito social, introduz um individualismo e um encerramento em relao ao espao exterior que contrasta com a potica deambulao pedonal pela cidade. Como tal, a garagem, enquanto espao que armazena este meio de transporte to criticado, tambm ela conotada como um mal necessrio.

    No se pretende afirmar que a garagem deveria substituir o trio, nem tampouco que tenha a mesma carga simblica que a entrada formal. Trata-se de entender que, ao contrrio da entrada de servio, destinada aos empregados, a garagem to, ou mais, utilizada pelos prprios moradores como forma de entrada. A nica diferena de utilizao reside no facto de a entrada formal ser tambm um espao de recepo para as visitas, mas ser esta diferena razo suficiente para a garagem no ser to valorizada?

    Torna-se essencial dotar o espao da garagem de certas caractersticas, que permitam ao morador que a utiliza ter uma agradvel experincia, espacial e sensorial, de entrada em casa, no sendo prejudicado pela escolha que faz em se movimentar de automvel.

    Os casos de estudo apresentados de seguida, ao contrrio da generalidade das situaes, so exemplos em que a garagem, tambm implantada numa posio subterrnea, valorizada por fora da introduo de singulares elementos, que a tornam muito mais agradvel e socivel.

    importante entender que a localizao da garagem num piso subterrneo no condio obrigatria para o seu encerramento e consequente falta de relao com o edifcio. Assim, quando a garagem assumida, o edifcio construido como um todo e no como uma associao de partes isoladas e encerradas entre si.

    viviendas en carabanchelgabinete dosmasunomadrid, espanha 2003-07

    Este edifcio, de mbito social, est inserido num plano de expanso habitacional da cidade de Madrid para a zona de Carabanchel, que se caracteriza por edifcios de habitao colectiva, construdos de forma independente, quer ao nvel de implantao, quer ao nvel de expresso e linguagem de cada um.

    Assim, constituindo um bloco autnomo, num terreno com quatro frentes de rua, o volume, em forma de L, encostado s duas ruas principais, viradas para uma vasta rea verde e para um espao pblico com campos de jogos. Esta implantao proporciona a abertura um espao de logradouro, mais introvertido, virado para as ruas secundrias.

  • cap.2 duplicao da entrada 53

    O edifcio colocado sobre uma base que limita o quarteiro e eleva o logradouro encerrado, permitindo a criao de uma garagem semi-subterrnea. A entrada pedonal para o logradouro divide-se em quatro pontos permitindo o acesso por todas as ruas, excepto a avenida principal. No lado norte surgem trs entradas secundrias, duas com acesso em escadas e a uma com acesso em rampa. A quarta entrada localiza-se na parte em que o edifcio faz gaveto e nesta que surgem as campainhas, conferindo-lhe o carcter de entrada formal. A marcao de cada entrada feita pelo acesso vertical e pelo encerramento atravs de um porto com grades, permitindo uma permeabilidade visual para o logradouro.

    A partir do logradouro temos acesso directo aos fogos colocados neste piso. A ligao com os pisos superiores feita atravs de vrios pontos de acesso vertical cada qual antecedido por um trio colocado no logradouro e marcado por um volume avanado em relao ao plano da fachada, o que permite aumentar a sua rea.

    Nos pisos superiores tambm a introduo de volumes de diferentes tamanhos permite aumentar a rea de cada habitao em mais um ou dois quartos. As galerias exteriores que do acesso a cada apartamento, colocadas tambm nesta fachada, so fragmentadas pelos volumes, resultando numa variao de comprimento entre cada uma. Esta fragmentao da galeria traduz-se tambm num aumento do nmero de acessos verticais em relao ao normalmente verificado neste tipo de distribuio.

    Esta singular composio do edifcio, confere a estas fachadas, viradas para o logradouro, um carcter dinmico que contrasta com a modulao rigorosa das fachadas viradas para as ruas. Nestas ltimas, orientadas a Sul e Sudoeste, a introduo de um plano em chapa de ao permite obter sombreamento assim como conferir maior privacidade ao interior das habitaes.

    fig.63 Vista das fachadas posteriores e do logradouro

    Viviendas en CarabanchelGabinete Dosmasuno, 2003-07

  • 54 cap.2 duplicao da entrada

    Pgina seguinte:

    fig.64 Planta do piso trreofig.65 Planta do piso da garagemfig.66 Garagem vista do logradouro fig.67 Entrada da garagemfig.68 Entrada pedonal principal

    Viviendas en CarabanchelGabinete Dosmasuno, 2003-07Nesta pgina:

    fig.69 Corte aa

    a

    a

    a

    a

    fig.64

    fig.65

    fig.66

    fig.67 fig.68

  • cap.2 duplicao da entrada 55

    A garagem ocupa praticamente todo o terreno, excepto a rea de implantao do edifcio que d lugar a espaos de arrumos. O desenvolvimento da garagem apenas sob a rea do logradouro, facilita a organizao dos lugares de estacionamento, evitando uma eventual conformao aos elementos estruturais de suporte ao edifcio. Os lugares encontram-se ento distribudos em quatro filas, em que uma delas aparece intercalada e alinhada pelos acessos verticais que fazem a ligao s habitaes, numa limpeza espacial, conformando a garagem num espao de rea rectangular.

    Esta garagem, apesar de colocada num piso subterrneo, no escondida, mas, pelo contrrio, assume uma franca relao espacial com o resto do edifcio num jogo de aberturas na laje do logradouro que permitem no s iluminar e ventilar a garagem de forma natural, como tambm colocar pequenos jardins intercalados com os lugares de estacionamento. Nestes espaos so tambm implantadas algumas rvores de pequeno porte permitindo ao logradouro usufruir destes espaos verdes. Esta permeabilidade visual tambm assumida na entrada da garagem atravs de um porto com grades, colocado no final da rampa que lhe d acesso.

    A introduo de um pequeno parque infantil, e de vrios recantos intercalados com as aberturas para a garagem, permitem aumentar o carcter de espao de convvio do logradouro. Deste modo, este zcalo se convierte en elemento activo y activado. Activado por la propia edificacin, que barre con su sombra una zona dura y define en su recorrido la frontera de una superficie con vegetacin. Activo, pues adems de convertirse en lugar de encuentro y juego, concentra el acceso a los diferentes portales y se relaciona con el garaje que se abre a l29

    Apesar da existncia dos vrios trios, o logradouro assume-se como um espao de recepo e distribuio. Contudo, a multiplicao da entrada parece resultar numa individualizao exagerada, contrastando com o conceito inerente ao tipo de acesso em galeria, assim como vontade existente de criar um espao comum de encontro e convvio no logradouro.

    29 Retirado de:www.urbanity.es/2008/102-viviendas-en-carabanchel-madrid-dosmasuno-arquitectos/

    fig.69

  • 56 cap.2 duplicao da entrada

    fig.70 Planta piso trreofig.71 Planta do piso das garagensfig.72 Corte aafig.73 Fachada anteriorfig.74 Vista do conjunto

    Edifcio ApolloRoberto Meyer e Jeroen van Schooten, 1997-2001

    aa aa

    fig.70

    fig.71

    fig.72

    fig.73 fig.74

  • cap.2 duplicao da entrada 57

    edifcio aPolloroberto meyer e Jeroen van schootenarnhem, holanda 1997-2001

    Na sequncia da relocalizao do estdio de futebol da cidade de Arnhem (Vitesse football club), surgiu uma nova rea residencial na qual a dupla de arquitectos integra dois projectos de habitao colectiva: Minerva, na zona mais baixa e Apollo, na zona mais alta. O conjunto Apollo (fig.70 a 74) formado por trs edifcios independentes, implantados paralelamente e com uma orientao Nordeste-Sudoeste. Com apenas uma frente de rua, os trs edifcios encontram-se envolvidos por uma vasta rea verde qual os espaos de logradouro do continuidade atravs de jardins.

    Cada edifcio composto por dois volumes iguais, desviados um em relao ao outro e articulados por uma caixa de escadas e elevador totalmente transparente. Cada volume, com um apartamento por piso, dividido por uma parede estrutural que se traduz numa fachada bipartida por um plano mais avanado e um plano mais recuado, atravs da introduo de varandas, dando a iluso de se tratar de dois apartamentos distintos.

    Assim, todo o projecto assume um jogo de avanos e recuos criando uma certa dinmica, no s a nvel individual, como tambm na implantao do conjunto em que, da mesma forma, os edifcios so desviados uns em relao aos outros.

    A entrada pedonal, que liga directamente caixa de escadas, feita atravs de uma passagem em forma de ponte sobre o jardim que modela o terreno entre a cota do piso trreo e a cota do piso inferior onde se localizam as garagens. Entre a passagem e o interior do trio existe um espao coberto por uma pala que permite abrigar a entrada e ao mesmo tempo aceder directamente a um dos apartamentos colocados no piso trreo. Neste espao so colocadas tambm as caixas de correio, viradas para o exterior. O trio, tambm encerrado por planos de vidro, insere-se no volume da caixa de escadas e elevador com a mesma organizao e rea em todos os pisos.

    O espao de logradouro, aberto no piso inferior ao nvel da rua, permite o acesso s garagens que se dividem entre quatro garagens individuais colocadas debaixo do terreno, mais uma garagem colectiva sob o edifcio, com espao para outros quatro automveis. Deste modo permite que cada apartamento tenha um lugar de estacionamento. Contudo, a garagem colectiva desenvolvida apenas sob um dos volumes, quando teria sido possvel continu-la para o outro volume e eliminar assim as garagens individuais. A ligao a partir da garagem para os pisos de habitao estabelecida apenas por meio de elevador, uma vez que as escadas se iniciam a partir do piso trreo.

    A modulao do jardim envolvente permite que o nvel das garagens no seja subterrneo, obtendo assim iluminao e ventilao natural, atravs de um plano encerrado por uma grelha que permite uma transparncia para o exterior. interessante a integrao da garagem na composio da fachada acompanhando a abertura de vos das habitaes nos pisos superiores, parecendo tratar-se de mais dois apartamentos.

  • garagem elevadacaP.3

  • 60 cap.3 garagem elevada

    fig.75

    fig.76

    fig.77

    fig.78

    fig.57

    fig.79 fig.80

    fig.75 Corte longitudinal

    Edifcio RokadeFloor Arons e Arnoud Gelauff, 2007

    fig.78 Fachada lateral

    fig.76 Corte longitudinal

    Edifcio KamaleonNL architects, 2006 - em construo

    fig.79 Render da entrada

    fig.77 Corte longitudinal

    Edifcio Hoge HerenWiel Arets, 2001

    fig.80 Fachada anterior

  • cap.3 garagem elevada 61

    3.1 habitao e garagem em Pisos seParados

    Se em Portugal o modelo mais utilizado o de garagem subterrnea, em alguns pases como a Holanda, em que o nvel fretico muito elevado, encontramos uma variedade de solues alternativas a este modelo uma vez que a soluo de garagem subterrnea revela-se com custos mais elevados, como referido anteriormente. Alguns exemplos, tais como o edifcio Hoge Heren (fig.77 e 80) do gabinete Wiel Arets architects (Roterdo, 2001), o edifcio Rokade (fig.75 e 78) dos arquitectos holandeses Floor Arons e Arnoud Gelauff (Groningen, 2007) ou o edifico Kamaleon (fig.76 e 79) dos NL architects (Amesterdo, 2006 - em construo), expressam bem essa realidade.

    O edifcio Hoge Heren, constitudo por duas torres de habitao assentes numa base comum de seis pisos, que funciona como volume de ligao entre as duas. O piso trreo composto por dois trios e dois pontos de acesso vertical, permitindo o acesso independente a cada torre. ainda ocupado por um espao de restaurao e uma garagem com entrada na fachada posterior, que continuada nos quatro pisos seguintes fazendo a ligao entre eles atravs de uma rampa. No sexto piso so introduzidas reas de lazer comuns, tais como uma piscina e um jardim. A garagem iluminada por vos horizontais que, ao serem colocados numa posio elevada, no permitem transparecer a funo deste espao.

    No edifcio Rokade, o acesso vertical virio feito por elevador e a garagem desenvolvida apenas no primeiro e segundo piso. O piso trreo , deste modo, completamente libertado para espaos comerciais e para o trio. Tambm neste caso a volumetria composta por uma torre assente sobre a base da garagem mas, apesar de no ser perceptvel pelo exterior, a garagem desenvolve-se apenas na rea da base que no est sob a torre, libertando este espao para escritrios. Como no caso anterior, a iluminao, que neste caso feita por vos circulares, no permite a identificao do espao da garagem pelo exterior.

    Por fim, o edifico Kamaleon destaca-se pela relao que a garagem assume com a cidade, uma vez que a fachada que a encerra, composta por planos verticais que variam de tamanho, permite uma ligeira permeabilidade visual desde a rua. Como no edifcio Rokade, o piso trreo libertado para comrcio e, a garagem desenvolve-se apenas no primeiro piso. Com a mesma composio volumtrica, a torre surge apenas no stimo piso, introduzindo j programa habitacional desde o terceiro ao sexto piso que se desenvolvem com a mesma rea do piso trreo e do piso da garagem. Contudo, no primeiro piso de habitao surge um jardim que permite criar uma rea de logradouro, colocando os apartamentos na zona mais exterior do edifcio.

    Assim, estes trs projectos assumem-se muito semelhantes a nvel de organizao interior e composio volumtrica. A garagem localiza-se nos primeiros pisos, mantendo a mesma separao com a habitao verificada numa garagem subterrnea. Existe uma ligao directa aos acessos verticais que fazem a distribuio para os apartamentos nos vrios pisos, evitando a passagem pelo trio comum. Apesar de no existir em nenhum dos trs edifcios uma total transparncia da garagem em relao rua, este espao

  • 62 cap.3 garagem elevada

    no apresenta a mesma composio dos pisos de habitao, assumindo uma diferente volumetria e linguagem formal.

    Quando a garagem adquire um carcter aberto, a separao com os pisos de habitao muito mais assumida e expressiva, relacionando os automveis com a cidade.

    No inicio do sculo XX, o edifcio de garagem pblica assumia sempre um carcter encerrado, principalmente para proteger o automvel. Com a evoluo tcnolgica deste meio de transporte, a garagem ganhou a possibilidade de poder ser desenvolvida como um espao aberto para o exterior. Technological advances saw the emergence of enamel as an automobile paint finish. No longer did vehicles have to be parked indoors to protect their finish. (...) Vehicle battery technology had developed significantly, eliminating the need for enclosed garages to ensure that vehicles would start readily in cold weather. (...) And one benefit of eliminating walls was natural ventilation. Thus, the concept of the open parking structure was born.30

    Simon Heley refere que o primeiro edifcio aberto de garagem pblica, composto apenas pela sua estrutura, foi construdo em 1948, num projecto de Robert Law Weed, na cidade de Miami. (...) architect Robert Law Weed stripped the parking structure of its pretensions and broke the mould by exposing it quite literally for what it was31 (fig.81)

    A remoo das fachadas permitiu uma reduo dos custos do projecto e,criou uma maior relao entre o edifcio e a cidade. Deste modo, o edifcio de garagem pblica adquire um carcter mais urbano, como extenso da prpria rua. A partir deste momento comearam a surgir as mais variadas solues para este equipamento.

    Da mesma forma, se aceitarmos a relao visual com as garagens no edifcio de habitao colectiva, torna-se bastante vantajoso a construo deste espao aberto que, pode assim obter luz e ventilao natural assim como um ambiente mais agradvel. Esta abertura pode variar desde simples vos rasgados numa garagem semi-subterrnea ou elevada, criando uma relao subtil com o exterior, como podemos observar no edifcio Kamaleon, at garagens totalmente abertas em pisos elevados, apenas com a estrutura e os automveis vista numa relao muito mais franca com a cidade, como acontece nos casos de estudo apresentados de seguida.

    30 James E. Staif em The Dimension of Parking. Urban Land Institute; Washington: 2000. Pg.2 Consultado em: www.amazon.com31 Simon Henley em Architecture of Parking. United Kingdom: Thames & Hudson, 2007. Pg.12

    fig.81 Car Park, Miami, Robert Law Weed, 1948

  • cap.3 garagem elevada 63

    marina citybertrand goldbergchicago, eua 1959-64

    O projecto Marina City constitudo por um conjunto de edifcios junto ao rio de Chicago com programas variados tais como habitao, escritrios, teatro, auditrio, comrcio, restaurante e outros servios. The complex was advertised as a city within a city, a place for 24-hour urban living both clearly commentaries on the suburbs, in which commuters spent only their nights.32

    Surgem assim, quatro volumes implantados num quarteiro, organizado no nvel da rua por uma praa que, como refere Bertrand Goldberg, marks the disappearance of the corridor street. The plaza becomes the open platform on which automobiles and people, alternately passengers and pedestrians can wander as they choose.33

    As duas torres residenciais, de planta circular, contrastam com o edifcio de escritrios desenvolvido num bloco de forma rectangular que surge como pea de remate ao espao aberto da praa. Entre os dois, numa posio central, introduzido o Marina City Theatre que, de menor dimenso, has a degree of intimacy which none of the other structures at Marina City has34, permitindo reduzir a escala monumental do conjunto a uma escala mais humanizada na zona onde feita a principal entrada pedonal de acesso ao piso inferior.

    A praa ligeiramente elevada e destacada das ruas envolventes, de forma a permitir a iluminao natural do volume que se encontra no nvel inferior, aberto tambm para o rio, e que faz a ligao interna entre todos os edifcios. neste nvel, complementado por espaos comerciais e de servios, que se encontram os trios de entrada para as duas torres de habitao.

    32 Wim De Wit em AIA Guide to Chicago, editado por Alice Sinkevitch. Harcourt Books. 2004.Consultado em: http://aplust.net/permalink.php?atajo=bertrand_goldberg_marina_city_chicago0 33 Bertrand Goldberg em Architectural Aspects of Edmonton Civic Centre Plan. Edmonton, 1959. Consultado em: www.architechgallery.com/arch_info/bodies_of_work/goldberg_marina_city.html34 idem

    fig.82 Vista das duas torres residenciaisfig.83 Vista dos pisos da garagem e do edifcio de escritrios

    Marina City, Bertrand Goldberg, 1959-64

    fig.82 fig.83

  • 64 cap.3 garagem elevada

    fig.84 Planta do piso tipo de apartamentosfig.85 Planta do piso tipo de garagemfig.86 Vista da marinafig.87 Corte aafig.88 Vista dos primeiros pisos da garagem

    Marina City, Bretrand Goldberg, 1959-64

    aa

    aa

    fig.84

    fig.85

    fig.86 fig.88

    fig.87

  • cap.3 garagem elevada 65

    A forma de cilindro que as duas torres apresentam, deriva da forma helicoidal da garagem que se assume como um plano contnuo desde a rua at ao 17 andar, conformando no mesmo espao a rampa e os respectivos lugares de estacionamento. O ltimo piso da garagem, desenvolvido em p direito duplo, juntamente com o 18 andar, de rea mais reduzida e constitudo por zonas de servio (lavandarias e arrumos); faz a quebra necessria para separar formalmente os dezasseis pisos de estacionamento e os quarenta e cinco pisos seguintes de habitao.

    Esta separao enfatizada pela diferente planta entre os dois programas que confere diferentes expresses no exterior. Enquanto que a garagem apresenta uma planta circular, os pisos das habitaes so desenvolvidos em forma de ptalas permitindo dividir cada piso em dezasseis mdulos de igual dimenso que vo sendo combinados de modo a obter apartamentos do tipo T0, T1 ou T2.

    O espao interior de cada torre organizado volta de um ncleo central, que integra os acessos verticais e que distribui os apartamentos por um corredor circular. No apartment door faces into any other apartment door, but rather each apartment door is connected to its trunk - to the core of the building. We feel on a subjective level that this produces a feeling of immediacy and a feel