A Licao - Eugene Ionesco

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  • 8/7/2019 A Licao - Eugene Ionesco

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    Desvendando Teatro (www.desvendandoteatro.com)

    A Lio(ugene Ionesco)

    Personagens

    O Professor, 50 a 60 anosA jovem aluna, 18 anosA criada, 45 a 50 anos

    (No comeo, o palco est vazio, permanecendo assim por um longo perodo de tempo.Depois, ouve-se a campainha e, em seguida...)

    CRIADA (nas coxias) Sim, j estou indo. S um momento! (A campainha continua asoar. Aps descer correndo as escadas, aparece em cena. Depois de ouvir-se o segundotoque da campainha, a criada abre a porta. Aparece a aluna.) Bom dia, senhorita!

    ALUNA - Bom dia! O professor est?

    CRIADA - Vens para a lio?

    ALUNA - Sim.

    CRIADA - O professor a aguarda. Sente-se um instante enquanto irei cham-lo.

    ALUNA - Obrigada. (Ela senta-se prxima mesa, de frente para o pblico; sua

    esquerda, a porta de entrada; ela est de costas para a outra porta, onde a criadachama o professor).

    CRIADA - Senhor, desa por favor. Sua aluna chegou.

    PROFESSOR(nas coxias) Obrigado, deso em dois minutos!

    (A criada sai. A aluna aguarda, olhando para os mveis e tambm para o teto; depois,tira de sua bolsa um caderno; folheia este e, aps algum tempo, analisademoradamente uma pgina, como se estivesse repetindo uma lio, como se desse umaltima olhada em suas tarefas. Ela tem ares de jovem bem educada, culta, alegre,

    dinmica, um sorriso jovial nos lbios. No decorrer do drama, ela diminuirprogressivamente o ritmo de seus movimentos, de seu andar. Muito agitada no incio,

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    tornar-se- cada vez mais cansada, sonolenta. At o fim do drama, seu semblantedever exprimir claramente uma depresso nervosa. Sua maneira de falar tornar-se-

    pausada, com as palavras sendo dificilmente extradas de sua memria e saindodificilmente de sua boca. Ela ter o ar vagamente paralisado, como em um princpio deafasia; inicialmente cheia de vontade, chegando a parecer quase agressiva, ela far-se-

    cada vez mais passiva, at que no seja mais que um objeto lnguido e inerte, parecendo inanimado, nas mos do professor; tanto que quando chega-se consumao do gesto final, a aluna no reagir mais, insensibilizada, ela no ter maisreflexos; somente os olhos, em sua figura imvel, iro exprimir um espanto e um pavorindizveis. A passagem de um comportamento a outro deve se fazer de maneira quaseimperceptvel. O professor entra. um velho com um barbicha branca, culos, umalonga blusa preta de professor, calas e sapatos pretos, colarinho postio branco,

    gravata preta. Excessivamente educado, muito tmido, voz enfraquecida pela timidez,muito correto, muito professor. Ele esfrega as mos continuamente; de vez emquando, percebe-se uma luminosidade lbrica em seu olhar, que rapidamentereprimido. No decorrer do drama, sua timidez desaparecer progressivamente. O

    brilho lascivo de seus olhos acabar por transformar-se em uma chama devoradora,ininterrupta; de aparncia inofensiva no incio da ao, o professor tornar-se- segurode si, nervoso, agressivo, dominador, at que venha a fazer com que a aluna torne-se,em suas mos, uma pobre coisa. Obviamente, a voz do professor, balbuciante a

    princpio, dever tornar-se cada vez mais forte, at que, por fim, seja extremamente poderosa, estrepitosa, um claro sonoro, enquanto a voz da aluna vir a ser quaseinaudvel, ao contrrio da clareza e fora que tinha no comeo do drama. Talvez, nas

    primeiras cenas, o professor gaguejar, muito ligeiramente).

    PROFESSOR- Bom dia, senhorita... voc a nova aluna?

    ALUNA (volta-se com vivacidade, semblante airoso, adolescente com o mundo a seus ps; ela se levanta, dirige-se at o professor, estendendo-lhe a mo) - Sim professor,bom dia. Como podes ver, cheguei no horrio. No quis atrasar-me.

    PROFESSOR- Est bem, senhorita, obrigado. Mas no era necessrio apressar-se. Nosei como me desculpar por hav-la feito esperar... Estava justamente acabando de...Desculpe-me... Voc h de desculpar-me.

    ALUNA - No necessrio desculpar-se! No h problema algum, senhor.

    PROFESSOR - As minhas desculpas... Tiveste dificuldades para encontrar minhacasa?

    ALUNA - Nenhuma, nenhuma mesmo... Alm do mais, eu pedi informaes. Todomundo o conhece por aqui.

    PROFESSOR- Faz trinta anos que moro nesta cidade. E voc, mora aqui h muitotempo? O que acha da cidade?

    ALUNA - Ela no me aborrece nem um pouquinho! uma linda cidade, muitoagradvel, com um belo parque, um pensionato, um bispo, belas lojas, ruas, avenidas...

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    PROFESSOR- verdade. No entanto, eu gostaria de viver em outro lugar. Em Paris,ou pelo menos em Bordeaux.

    ALUNA - O senhor gosta de Bordeaux?

    PROFESSOR- No sei, eu no conheo.

    ALUNA - Ento o senhor conhece Paris?

    PROFESSOR- Tambm no, senhorita, mas se me permite, poderias me dizer, Paris a capital da...

    ALUNA (Hesita por um instante. Depois, orgulhosa por saber) - Paris a capital da...Da Frana?

    PROFESSOR - Isso mesmo, bravo, muito bem, perfeito. Minhas congratulaes! A

    senhorita conhece a geografia nacional como a palma da mo! As capitais...

    ALUNA - Ora, eu no conheo todas ainda, senhor, no to fcil assim, tenhodificuldades em aprender.

    PROFESSOR- Com o tempo isso se resolve... Coragem, senhorita... Desculpe-me...Pacincia... A senhorita ver... Conseguir aprender... Faz um belo dia hoje, no?Talvez, nem tanto...o principal que no faz mal tempo... No chove e nem to pouconeva.

    ALUNA - Isso seria de se espantar, porque estamos no Vero!

    PROFESSOR - Perdo, senhorita, eu ia lhe dizer justamente isso... Mas a senhoritasabe que podemos esperar de tudo.

    ALUNA - claro, professor.

    PROFESSOR- Ns no podemos estar seguros de nada neste mundo, senhorita.

    ALUNA - A neve cai no inverno. O inverno uma das quatro estaes. As outras trsso... ... A pri...

    PROFESSOR- Sim?

    ALUNA - ... Mavera, e depois o vero, e... Anh...

    PROFESSOR- esta comea como as palavras outorgar, otorrinolaringologista...

    ALUNA - Ah, sim, o outono.

    PROFESSOR - Isso mesmo, senhorita, muito bem respondido, perfeito! Eu estouconvencido de que voc ser uma excelente aluna, de que far muitos progressos, pois a

    senhorita inteligente, parece ser muito instruda, ter boa memria.

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    ALUNA - Eu conheo as estaes, no professor?

    PROFESSOR- Sim... Ou quase... Mas aprender! De qualquer maneira, a senhorita vaiindo muito bem. Chegar a conhecer todas as estaes de olhos fechados, como eu!

    ALUNA - Mas to difcil, professor!

    PROFESSOR- Oh, no. Basta esforar-se, ter um pouco de boa vontade. A senhoritair aprender, estou certo disso.

    ALUNA - Ah, eu queria tanto, professor. Tenho tanta sede de conhecimento. Meus paistambm desejam que eu aprofunde meus conhecimentos. Eles querem que eu meespecialize. Eles pensam que uma simples cultura geral, mesmo que slida, no suficiente em nossa poca.

    PROFESSOR- Seus pais tm absoluta razo. Se permites que eu lhe diga, isso uma

    coisa extremamente necessria. A senhorita deve prosseguir com seus estudos. A vidacontempornea tornou-se muito complexa.

    ALUNA - E to complicada! Meus pais so muito ricos, tenho muita sorte. Isso mepossibilita fazer estudos muitos superiores.

    PROFESSOR- E a senhorita pretende apresentar-se para as provas...

    ALUNA - O mais breve possvel, no primeiro concurso de Doutorado. em trssemanas.

    PROFESSOR- J possuis o bacharelado, se posso lhe perguntar?

    ALUNA - Sim, professor. Bacharelei-me em Cincias e em Letras.

    PROFESSOR - Mas voc muito adiantada, mesmo muito adiantada para a suaidade! E qual Doutorado voc pretende fazer? Cincias Materiais ou Filosofia Normal?

    ALUNA - Meus pais querem, se o senhor acredita que seja possvel em to poucotempo, eles querem que eu faa o Doutorado Total.

    PROFESSOR- O Doutorado Total? A senhorita tem muita coragem, eu a parabenizosinceramente. Nos esforaremos, senhorita, faremos o nosso melhor. Alm disso, smuito culta, apesar de to jovem!

    ALUNA - Ora, professor!

    PROFESSOR- Ento, ao trabalho! No temos tempo a perder.

    ALUNA - Certamente, professor! o que eu quero, o que eu lhe peo.

    PROFESSOR - Ento, se a senhorita no vir nisso nenhum inconveniente, poderia

    sentar-me ao seu lado.

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    ALUNA - Mas claro, professor. Eu lhe peo!

    PROFESSOR - Grato, senhorita. (Ele se senta em frente aluna) Vejamos. Asenhorita trouxe seus livros, cadernos?

    ALUNA - Sim, trouxe tudo o que necessrio.

    PROFESSOR- Perfeito, senhorita. Ento, podemos comear?

    ALUNA - Sim, professor, eu estou sua disposio!

    PROFESSOR - minha disposio? (Brilho em seus olhos, que rapidamente seextingue) Oh, senhorita, eu que estou a sua disposio, no sou mais que seu criado.

    ALUNA - Oh, professor...

    PROFESSOR- Se a senhorita deseja... Ento... Ns... Ns... Eu... Comearei fazendoum exame sumrio de seus conhecimentos passados e presentes, para que possamos

    preparar o caminho para o futuro... Bem, como est a sua percepo da pluralidade?

    ALUNA - Ela muito vaga... Confusa.

    PROFESSOR- Bem, ns veremos isso.

    (Ele esfrega as mos. A criada entra, o que ir irrit-lo; ela se dirige at o guarda-loua e procura algo, demorando-se).

    PROFESSOR - Vejamos, senhorita. Tentemos um pouco de aritmtica, se isso lheagrada...

    ALUNA - Sim, professor. o que eu desejo.

    PROFESSOR- uma cincia muito nova, uma cincia moderna; na verdade, trata-semais de um mtodo do que de uma cincia... tam