A LITERATURA NA BAHIA | 1 - Linguagens ·  · 2018-04-19nou lugar comum a concepção de Ezra...

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  • A LITERATURANA BAHIA

    Tradio e modernidade

    Cid Seixas

    e-book.brEDITORA UNIVERSITRIA

    DO L IVRO DIGITAL

    A LITERATURA

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    NA BAHIA(Livro 1)

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  • A LITERATURANA BAHIA

    Com o subttulo Impas-ses e confrontos de umavertente regional, esta cole-o planejada pelo autor pre-tende reunir diversos textosescritos sobre o tema, ao lon-go das suas atividades jorna-lsticas e acadmicas.

    Inicialmente, o plano com-preende as primeiras mani-festaes do modernismo naBahia e seu desdobramentoimediato propiciado pelosacontecimentos dos anostrinta do sculo passado.

    Deste modo, os primeirose-books da coleo, conco-mitantemente lanados so:Tradio e modernidade;1928: Modernismo e matu-ridade; e Trs temas dosanos trinta.

    Outros e-books sero dis-ponibilizados na net aindaao longo deste ano, permi-tindo acesso a qualquer lei-tor a informaes sobre avida cultural baiana.

  • A LITERATURA NA BAHIA | 1

  • Tipologia: Garamond, corpo 12.Formato: 12 x 18.

    Nmero de pginas: 100.

    Endereo deste e-book:https://issuu.com/ebook.br/docs/tradicaomodernidadehttps://issuu.com/cidseixas/docs/tradicaomodernidade

    http://www.e-book.uefs.brhttp://www.linguagens.ufba.br

  • A LITERATURANA BAHIA

    Tradio e modernidade

    e-book.brEDITORA UNIVERSITRIA

    DO L IVRO DIGITAL

    Cid Seixas

    (Livro 1)

  • CONSELHO EDITORIAL:Adriano Eysen

    Cid SeixasItana Nogueira NunesFlvia Aninger Rocha

    Francisco Ferreira de Lima

    EDITORA UNIVERSITRIA DO LIVRO DIGITALColeo Literatura na Bahia, vol. 1

    2016

    A LITERATURA NA BAHIAImpasses e confrontos de uma vertente regional

    1 |Tradio e modernidade2 | 1928: Modernismo e maturidade

    3 | Trs temas dos anos trinta4 |Final do sculo XX

    5 | No tabuleito da baiana (a sair)

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    SUMRIO

    GodofredoFilho,pioneiro do modernismo na Bahia ..................... 9

    Um poeta modernistanas relaes luso-brasileiras ................................ 43

    Modernismo e tradicionismo na Bahia ............ 59

    Quando a poesia era uma festa ......................... 77

    A poesia do Decano ........................................... 87

    Livros do Autor ........................................... 93

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    A Literatura na Bahia | 1

    Os poetas Godofredo Filho, Eurico Alves e CarvalhoFilho, na fazenda Fonte Nova, em So Jos das Itapo-rorocas, Feira de Santana.

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    GODOFREDO FILHO,PIONEIRO DO MODERNISMO

    NA BAHIA

    O texto deste artigo teve origem por ocasiodas comemoraes dos cinquenta anos de presenaliterria do poeta Godofredo Filho. Na edio dodia 23 de maio de 1975 da Tribuna da Bahia publi-camos um artigo intitulado Godofredo Filho, 50anos de presena literria e do modernismo naBahia, ilustrado com fotografias do acervo dopoeta.

    Nascido na Feira de Santa, no dia 26 de abrilde 1904, Godofredo morreu em Salvador, no dia22 de agosto de 1992, aos 88 anos de idade. Ten-do passado a residir na capital do Estado, ondefez sua carreira de intelectual, o poeta costumavaretornar com frequncia sua fazenda na cidadenatal.

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    A Literatura na Bahia | 1

    A ligao telrica de Godofredo Filho teste-munhada por Consuelo Pond, ex-aluna do mes-tre na antiga Faculdade de Filosofia , Cincias eLetras:

    Mas, aqui e agora, estou a relembrar o feirenseapaixonado por sua terra que, nos ARQUIVOS IM-PLACVEIS, de Joo Cond, publicados em O Cru-zeiro, muitos anos atrs, declarou categrico quehaveria de sepultar-se em Feira de Santana, no Ce-mitrio da Piedade. (Pond, 2013)

    Nas constantes idas Feira de Santana, Godo-fredo mantinha contato com outro escritor feiren-se da mesma gerao, Eurico Alves (27 de junhode 1909 / 04 de julho de 1974), cujo papel de des-taque no modernismo baiano se deu em revistasda dcada de 20 como A Luva e, especialmente,Arco & Flexa, da qual foi um dos fundadores, se-gundo testemunho de Hlio Simes em depoimen-to a via Alves (1978).

    Segundo depoimento de Godofredo em nos-sas conversas para recolher dados, seu trisavmanteve na fazenda, na Feira de Santana, uma or-questra formada por escravos e forros, tipo de re-

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    Tradio e Modernidade

    quinte pouco conhecido no serto baiano e sobreo qual no existem registros conhecidos. Bem ver-dade que Eurico Alves (1989), no estudo intituladoFidalgos e Vaqueiros, sugere, j a partir do ttulo, oesprito de requinte contrastante com a imagemque se tem do agreste feirense.

    Em 2015, transcorreram, sem comemoraes,os 90 anos da poesia moderna na Bahia. Em ja-neiro de 1925, Godofredo Filho publicou seusprimeiros poemas de feio moderna na pginaliterria do jornal A Tarde, acompanhados do arti-go Poesia Nova, de Carlos Chiacchio.

    Dois anos depois, no Rio de Janeiro, O Jornal(1927) tambm publicava uma entrevista com opoeta feirense, abrindo espao na Capital do Paspara o lanamento de Samba verde, previsto parao ano seguinte.

    Na Bahia, nos anos de 1974 e 1975, uma sriede eventos, promovidos pelo poeta Carlos Cunhae por ns, marcaram os cinquenta anos do mo-dernismo, com nfase na figura de GodofredoFilho. Foram publicadas as plaquetes Solilquio(contendo sete poemas da maturidade e a repro-duo do manuscrito do soneto que d ttulo ao

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    volume) e Sete cantares de amigo, com poemas deCarlos Cunha, Carvalho Filho, Cid Seixas,Florisvaldo Matos, Humberto Fialho Guedes,Ildsio Tavares e Myriam Fraga, dedicados ao au-tor de Solilquio. A contracapa dos Sete cantares deamigo, assinada pelo crtico modernista AlceuAmoroso Lima, destacava a extraordinria origi-nalidade da sua poesia. (Lima, 1975)

    UM DESBRAVADORDE IDIAS

    Enquanto, em So Paulo, a dcada de vintemarcava o rompimento brusco e panfletrio dainteligncia mais atuante com os postulados est-ticos do sculo XIX, na Bahia, parnasianos cau-dais e simbolistas de vo rasteiro fossilizavam oprestgio de um decadentismo cultural que pode-mos chamar de belle poque epignica dos becos ebotecos da antiga metrpole colonial.

    Para melhor compreenso da vida literriabaiana dessa poca, convm no perder de vista oalvorecer do sculo, quando Afrnio Peixoto eXavier Marques esboaram um procedimento es-

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    Tradio e Modernidade

    ttico que se tornou matriz para poetas, prosado-res e publicistas do primeiro quartel do sculo XX,na velha Cidade do So Salvador e adjacncias.

    Lembre-se que a posio desses dois escrito-res nas letras nacionais j representava umacontemporizao do romantismo, aliada s pli-das tintas de um naturalismo meterico. Por isso,a belle poque baiana pouco acrescentou ao seu pas-sado, limitando-se a um pastiche dos seus doispredecessores imediatos.

    A rigor, aps o romantismo, poucos consegui-ram permanecer a cavaleiro nesse bailecastroalvino de vivas condoreiras, que era o gran-de sarau literrio da chorosa Bahia de Cecu. En-tre estes, destacam-se uns poucos heris: os bra-vos rapazes das revistas Nova Cruzada e Os Annaes,que desempenharam o papel de disseminadoresdo simbolismo, no primeiro decnio do sculo.Mas os nomes de Pethion de Villar, Pedro Kilkerry,Durval de Moraes e Arthur de Salles no poderi-am transpor os limites do simbolismo visto daprovncia e anunciar a instaurao do pensamen-to moderno. Embora inslitos com relao aogosto literrio do fim do sculo XIX, as prprias

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    A Literatura na Bahia | 1

    condies do ambiente cultural baiano criavamentraves para o grande salto que representaria umanova revoluo na sua formao esttica.

    Bem verdade que em outros estados nordesti-nos, poetas de inspirao parnasiana e simbolistaevoluram para o modernismo, conforme o signi-ficativo exemplo de Jorge de Lima que come-ou como sonetista neoparnasiano, autor doantolgico Acendedor de Lampies, um dosXIV Alexandrinos, e chegou a ostentar o ttulo dePrncipe dos Poetas das Alagoas, conforme regis-trou Alfredo Bosi (1974). Jorge de Lima conse-guiu dar o salto e j com O Mundo do Menino Impos-svel adere ao modernismo, como ressalta ManuelBandeira (1967). Como epgrafe dos Novos Poemasse l: E o menino impossvel quebrou todos osbrinquedos que os vovs lhe deram.

    J entre os baianos, os brinquedos doados pe-los avs eram guardados e transformados em uten-slios poticos pelos netos adultos, venerveis an-cies a brincar com pelourinhos de papel doura-do. At mesmo o fenmeno Kilkerry, sistema dealarma premonitrio da arte potica moderna,teve sua voz abafada pelo som bombstico dos

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    Tradio e Modernidade

    atabaques retricos. Marshall McLuhan (1974) tor-nou lugar comum a concepo de Ezra Pound,no seu Abc da Literatura, do artista como antenasda raa ou como antecipador de ocorrncias etendncias sociais. Surpreendentes, mas em per-feito e tcito acordo com tais concepes, so al-guns trechos do poeta Pedro Kilkerry no JornalModerno, em 1913, sob o pseudnimo de Petrus:

    Olhos novos para o novo! Tudo outro outende para outro!

    O metro livre: vivamo-lo. O mais impor-tante, porm, de tudo, dessa complexidade, de todaessa demncia raciocinante que as harmonias in-dividuais, os caracteres no podem ser velhos comoos senadores de Roma ou os sete sbios quecofiaram longas barbas na velha Grcia. No searrastam passos, braos no tremem; na existnciado sculo no se titubeia.

    Ao tempo em que escrevo estas linhas, j aest a urgncia suarenta do tipgrafo a espi-la eouo a trepidao ansiosa do maquinismo impres-sor, a que estou associando a nsia dos leitores nonosso rgo, que o do seu momento social, dahora que soa. (Kilkerry , 1913)

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    Apesar da sonora proposta vanguardista Olhosnovos para o novo! a provncia desconheceu ou noquis entender a contribuio de Kilkerry, cujo pen-samento foi encontrar paralelo anos mais tarde,no mais na Bahia, mas em So Paulo, pelo intr-pido voyer Oswald de Andrade Ver com olhoslivres (1972) , conforme notou e anotou atentoAugusto de Campos (1970).

    Por uma desconfiada indiferena ao novo quese costuma afirmar que o movimento modernistas chegou velha Provncia da Bahia vinte ou trintaanos depois. Na verdade, h um injusto exagero,porque em 1925, ou seja, trs anos aps da Sema-na de 22, um jovem poeta baiano, ento desco-nhecido, publicava seus primeiros trabalhos nosuplemento literrio do jornal A Tarde, causandoestranheza e tumulto. Era Godofredo Filho, omesmo iniciante que mereceu da Pongetti a edi-o do livro Samba verde, em 1928, ano em que omodernismo tupiniquim saltou da sua fasedemolidora para um profundo encontro com aidentidade do Brasil. Anos mais tarde, a revistaOcidente, de Lisboa, abriria algumas vezes as suaspginas ao poeta baiano, como em 1971, atravs

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    Tradio e Modernidade

    do ensaio de Jerusa Pires Ferreira, que afirma comnfase: ainda na alquimia que Godofredo Fi-lho se mostra o grande preparador, o grande alici-ador e codificador de mistrios, um dos maisinjustiados poetas brasileiros. preciso conhec-lo para avaliar a sua altitude transfiguradora, a suagrandeza de destruidor/construtor (princpiomecnico que rege a arte e a conscincia de umaModernidade).

    E diz mais:

    Em Godofredo Filho h uma depurao ouexaltao alqumica do macabro, a organizao dodesconcerto buscando um Caos salvador, uma ligade que se conhecem e arrumam os elementos e emque se manipulam vocbulos raros como se pode-ria manipular o simbolismo das cores operacionais.Canto cruel o caminho cada vez mais intensode um poeta que no chega a ser tragado pelo mal-dito, porque nos d e retira, ele prprio, a possibi-lidade de entrever longnquos mundos, perdidasperfeies distantes, de se salvar ou nos salvar porum ciclone de cristal, no vale misterioso que a msica sus-pende. (Ferreira, 1971)

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    A Literatura na Bahia | 1

    Eugnio Gomes (apontado por muitos comoo autor do primeiro livro modernista publicadona antiga metrpole colonial), ao discutir a pre-sena da arte moderna na Bahia, afirma que quemquiser captar as suas primeiras manifestaes terque comear pelo poeta Godofredo Filho. Estefino lrico atraiu para si a pior empreitada, atiran-do-se inicialmente sozinho jaula dos lees dareao local, no comeo da dcada de 1920, quan-do o eruditismo intolerante ainda predominava demaneira hostil. (Gomes, 1954)

    Vejamos ento o acontecimento tomado comomarco inicial da conscincia modernista na Bahia:a estria literria de GF, que se deu h noventaanos, quando, sob o ttulo de Poesia Nova, o crticoCarlos Chiacchio publicava a seguinte nota:

    Godofredo Filho, vinte anos em flor, o poe-ta que hoje o suplemento literrio da A Tarde vaerevelar ao mundo das letras. A sua obra, s conhe-cida dos ntimos, j numerosa e rica em prova detalento, de tamanho prestgio lyrico, nas suas pro-messas calorosas, que se lhe pode classificar, noconceito justo de um dos nossos homens de letras,como a maior expresso da poesia nova da Bahia.

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    Tradio e Modernidade

    E prossegue em texto que no vinha assinado,mas como figurava na seo mantida no jornal ATarde pelo conceituado crtico, a autoria no ofe-rece dvida.

    perfeitamente dispensvel adeantar juizoscrticos sobre as produces que a seguir publica-mos, valendo apenas, por alegria de reconhecervalores legtimos na nossa fecunda terra tradicio-nal da poesia e do talento, chamar a atteno dosleitores para este poeta moo, vibrante de rythimossadios e idias novas, to empolgantes pela frescu-ra matinal das tintas, como impressivas pela preco-cidade extraordinria dos seu estro. (Chiacchio,1925)

    Alm desta apresentao, inegavelmente hon-rosa para um jovem de apenas vinte e um anos(pois lhe abria as portas de uma roda fechadssima,girando em torno dos nomes que reverenciavama figura de Chiacchio), eram publicados cinco po-emas de Godofredo: Ironia, Melancolia doArrabalde, Onde o silncio dorme, Esta sau-dade do adolescente lyrico e Poa dgua.

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    A Literatura na Bahia | 1

    Logo depois viria a projeo do seu nome nosmeios modernistas do sul do Pas, quando o poe-ta Manuel Bandeira reuniu um grupo de intelectu-ais numa das clebres noitadas da sua casa de San-ta Tereza. Eugnia e lvaro Moreyra, os ento jo-vens Mrio de Andrade, Jayme Ovalle, Prudentede Moraes Neto, Augusto Frederico Schmidt eRodrigo M. F. de Andrade ouviram pela primeiravez os versos de Godofredo. Assim o seu nomepassou a ter livre trnsito, tanto pelas entrevistassobre arte moderna concedidas a O Jornal (1927) ea O Globo (1928) quanto pelo respeito que mere-cera dos iniciadores do modernismo brasileiro.

    A ateno com que os modernistas do primei-ro momento acompanharam Godofredo Filhopode ser testemunhada tanto pelas aluses crti-cas ao seu trabalho quanto por episdios particu-lares, registrados em correspondncias, hoje trans-formadas em documentos valiosos para o estudode um momento privilegiado da inteligncia bra-sileira. Entre estes papis est um bilhete, de 1927,escrito por Mrio de Andrade a Couto de Barros,numa folha amarrotada:

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    Tradio e Modernidade

    Eu gosto muito de Godofredo Filho e queropedir para voc fazer as honras da nossa terra praele. Escrevo nisso porque cad carto? Carto estna mala grande l no hotel e eu nesta Cabaa gran-de comendo uma peixada moda da casa com vi-nho Granj e quase desistindo de falar brasileirodiante destas tradies gostosas. Mostre coisas bembonitas, heim! Arquiteturas, Tarsila, So Bento,Guilherme com Baby, voc, prudencial e cmicoetc. (Andrade, 1927)

    Veja-se o fac-smile do referido Bilhete de M-rio de Andrade a Couto de Barros publicado emnmero especial do Jornal de Cultura, suplementoliterrio do Dirio de Notcias, dedicado ao poeta,nas comemoraes dos seus setenta anos. (Seixas,1974)

    Convm lembrar ainda o artigo de Manuel Ban-deira que testemunha a luta de GF e torna incon-testvel a posio, que lhe de direito, de inicia-dor do modernismo na Bahia:

    A apresentao vale a pena. Godofredo Filho um admirvel poeta. Tem 23 anos e nunca saiuda Bahia. Sensibilidade ardente e pronta, tcnica

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    precisa, ao par dos ltimos achados da vanguar-da. (Bandeira, 1927)

    Enquanto, no Rio de Janeiro ou em So Paulo,Godofredo Filho assumia o papel de reverberadordas ressonncias modernistas ocorridas em terrasbaianas, aqui na Provncia, o movimento ia aospoucos se estabelecendo. Numa poca em que osjovens congregados em torno de Ansio Teixeira passavam das letras s disputas filosficas e sjustas polticas, Godofredo Filho e Jernimo Sodrfundavam a Liga de Ao da Mocidade. Era um mis-to de sociedade literria e cientfica, de partidopoltico e falange revolucionria, cuja organizaoimpossvel e estatutos chegamos a esboar.(Godofredo Filho, 1952)

    Nestor Duarte, Jayme Junqueira Ayres, FelixPoncet, os dois Faria Gois, Hebert Fortes, Lus deSena, Hermes Lima e Lus Viana Filho eram osnomes de prestgio jovem. Somente depois, comoassegura GF em depoimento de 1952, que sur-giria o grupo Arco e Flexa, com aqueles irrequie-tos rapazes, que hoje so os queridos e serenssi-mos Rafael Barbosa, Hlio Simes, Pinto de

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    Tradio e Modernidade

    Aguiar, Eurico Alves, sem falar nos que por a voesquecidos.(Godofredo Filho, 1952)

    Desse modo, Carvalho Filho, Eugnio Gomes,Hlio Simes e Afrnio Coutinho foram expres-ses das mais significativas, no mbito da criaoou da reflexo crtica, de uma conscincia demodernidade que se esboava, mas cujos primei-ros embates tm como cavaleiro a figura deGodofredo Filho.

    O prprio Eugnio Gomes afirmou que o au-tor de Solilquio o legtimo precursor do mo-dernismo na Bahia e um dos melhores poetas bra-sileiros de sua gerao. Esclarece ainda que arigor, no pertenceu ao grupo de Chiacchio; ti-nha-se antecipado de alguns anos em escandalizaras tranquilas conscincias literrias de nossa terra,com experincias surrealistas que, se fizeram rir amuitos, deixaram outros apreensivos, pois, tam-bm havia certa ordem nessa loucura (Gomes,1954)

    Assentada a importncia do papel desempenha-do por GF na renovao das nossas letras, resta-nos um problema estritamente ligado a esta dis-cutida e discutvel renovao. Sabemos que em

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    A Literatura na Bahia | 1

    1928 a Pongetti imprimiu Samba Verde, com poe-mas nitidamente modernistas de Godofredo Fi-lho (1928), como o onomatopaico Fiau, espraian-do-se confortavelmente pela folha em branco:

    Zum! Fiau!

    A vaia do vento,pela boca entreaberta da janela,

    esguincha,pincha

    e raiva, fria,uma ironia

    braviaque assovia...

    Fiau!Bulindo, tinindo, rindo

    dessa tranquilidade ingnuaos interiores,

    em brusca troa, brava, boa,rechinaestoura,espoucaa vaia

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    Tradio e Modernidade

    que azagaia,do vento

    agora bronco, meio broco,enrouquecido,apalermadoo vento... Fiau!

    Nesse mesmo ano de 1928, antes do esperadolanamento de Samba verde, Godofredo recolheu aedio do seu livro, argumentando que este nomais representava a deriva, ou o caminho, da suapesquisa esttica. Teriam os tambores antigos atin-gido os ouvidos cosmopolitas do modernistabaiano, abatendo o pssaro em vo pleno? Ou ojovem poeta percebeu no calor da hora a silencio-sa guinada modernista que traou uma divisriaentre 1922 e 1928?

    A tradio fala forte na primeira capital da co-lnia, onde a vanguarda tradicionista. Em 1928, omesmo ano da des/publicao de Samba verde,quando os jovens Pinto de Aguiar, Hlio Simes,Eurico Alves e Carvalho Filho lanaram a revistaArco & flexa, o movimento renovador baiano j

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    A Literatura na Bahia | 1

    vinha atenuado pela designao da sua propostade um tradicionismo dinmico.

    Da as controvrsias e a afirmao que o mo-dernismo no chegou a subir as ladeiras da velhaBahia. Muito se aventou que nem Godofredo Fi-lho nem os poetas que vieram a seguir, como Car-valho Filho, Hlio Simes e outros chegaram a sedefinir pelo modernismo, uma vez que atenuaramas primeiras posies de vanguarda. Mas EugnioGomes, que integrou essa gerao, luta pela inclu-so da Cidade da Bahia na geografia modernistados primeiros combates; e afirma que uma ex-cluso incompreensvel, sabendo-se que a terra deGregrio de Matos to bravo em suas rebeldias! no esteve, de modo algum, alheia e este movi-mento, embora fosse, por sua condio de cidadetradicionalmente acadmica, o mais obstinado re-duto contra a revoluo esttica. (Gomes, 1954)

    A propsito, o poeta Manuel Bandeira, comsua viso crtica aliada s antenas do artista, umano antes da anunciada publicao de Samba Ver-de, mostrou a ambivalncia da condio poticade Godofredo Filho e a sua nsia de domar ant-teses. Estas contradies aparentes, Alceu Amo-

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    Tradio e Modernidade

    roso Lima percebeu depois, ao estudar a ataraxiado poeta, que uma mscara de violentos confli-tos entre a nsia carnal e a angstia metafsica.Usando esta expresso, que na perspectiva dosesticos remete a um estado de alma marcado peloequilbrio na escolha dos prazeres sensveis e es-pirituais, o crtico modernista proclama:

    Nenhum poeta brasileiro soube, como voc,imobilizar o tempo e a paixo, sem retirar, nem aum, nem a outra, a sua infinita mobilidade. isso,creio eu, que faz a extraordinria originalidade desua poesia, to aparentemente sofisticada e fria, eno fundo to dramaticamente sensual, culinria,falrnica, numa coincidncia de contrastes que amarca do seu vinho das videiras do seu stio nti-mo, do seu jardim fechado, e no entanto aberto atodos os furaces do mundo e da carne. (Lima,1975)

    Mas deixemos para outro momento a discus-so do embate entre deuses conflitantes na almado poeta e insistamos, mais um pouco, no planoformal, onde Godofredo Filho faz refletir a mes-ma dialtica de embates. por isso que, ao saudar

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    com entusiasmo a vinculao do poeta baiano aosltimos achados da vanguarda, Manuel Bandei-ra sublinhou o seu respeito pela tradio:

    E, o que inestimvel, a ausncia de precon-ceitos modernistas. Sem dvida que detestapassadistas, mas no um dos tais que desejariambotar a baixo a S Velha para abrir avenidas amplase arejadas. namorado de todas as casas velhas daBahia, que ele conhece palmo a palmo. Sabe a horapropcia em se olhar tal fachada, tal prtico, tal sa-guo, tal janela. E confia-nos ao ouvido, como serevelasse intimidades de amigo, os detalhes hist-ricos daquelas pedras venerveis.

    Aqui, nesta Capela, Vieira pregou o famososermo contra as armas holandesas...

    E o perfume que lhe vem da terra natal no cheiro de velharia, mas odor virente de mocidadeque exalta: No silncio da tarde americana... / ( cheirobom de mulher moa!) / Perfume da minha terra!

    A poesia de Godofredo Filho to bemeducada como a de Ronald ou de Guilherme. Po-rm, debaixo daquela sobriedade elegante de cita-dino h assombraes desatinadas de jaguno, hdends chiando no fogaru vermelho e rumoresinquietantes de arapus danados... (Bandeira, 1927)

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    Tradio e Modernidade

    De acordo com o testemunho da poca,Godofredo Filho perdeu, ao deliberadamente re-jeitar o livro Samba Verde, a oportunidade de sefazer um dos modernistas brasileiros mais atuan-tes, publicado, discutido e pioneiro, enquanto aBahia se retirava furtivamente dos primeiros mo-mentos de produo / recepo da arte moderna noBrasil. Mas, ao mesmo tempo, pode-se argumen-tar que a atitude de GF contrapunha uma vanta-gem sobre os moos da Klaxon, pois j via almdos embates iniciais do modernismo, sem os pre-conceitos aludidos por Bandeira e sem a carnavalada(ttulo de um dos poemas de Samba Verde) destrui-dora, contra a qual o prprio Mrio de Andrade,somente duas dcadas mais tarde, se levantou, ad-mitindo os gestos vazios de 22.

    Ao criticar A esttica do modernismo, publicada naParaba por Ascendino Leite, o autor de Pauliciadesvairada fala da mesma felicidade abundante esatisfeita de si, com que os modernistas de h vin-te anos atrs afirmavam que Alberto de Oliveiraera um trouxa e Cames uma besta. Depois, veri-ficou-se de novo que nem Cames era besta nemAlberto Oliveira um trouxa, e as afirmaes gro-

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    tescamente ofensivas e sem nenhum valor crticoficaram apenas como cacoetes de alguns retarda-trios. (Andrade, 1972)

    Mrio de Andrade distinguia perfeitamente afase inicial, demolidora, de 22, da fase de realiza-o plena, aps a derrubada das barreiras criao.Esse mesmo artigo de 7 de janeiro de 1940, intituladosingularmente de Modernismo finalizado comuma lcida afirmao, tpica do autor:

    O Modernismo foi um toque de alarme. To-dos acordaram e viram perfeitamente a aurora noar. A aurora continha em si todas as promessas dodia, s que ainda no era o dia. Mas uma satisfa-o ver que o dia est cumprindo com grandeza emaior fecundidade, as promessas da aurora. Ficarnas eternas aurorices da infncia, no sade, doena. E a literatura brasileira a est, bastante s.Adulta j? Quase adulta... (Andrade, 1972)

    Se no tivemos na Provncia da Bahia as cle-bres batalhas travadas nas praas, teatros e salesde So Paulo, o papel da inteligncia local no foio da indiferena absoluta, porque alguns dos seushomens de letras tentaram amadurecer os frutos

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    Tradio e Modernidade

    novos. E, neste sentido, tambm os poemas deCarvalho Filho, Hlio Simes e Eurico Alves ali-am modernidade e maturidade, inscrevendo seusautores num lugar privilegiado.

    claro que, com a morosidade dos meios decomunicao da poca, a Bahia, estando geografi-camente distante de So Paulo, s poderia receberintempestivamente o entusiasmo diante das no-vas idias. Esta uma das razes pelas quais a ter-ra de Castro Alves no aderiu francamente ao blo-co destruidor do modernismo; aliada a tantas ou-tras que tornaram a reao similar dos outrosestados.

    Carlos Drummond de Andrade (1992), sadodas Minas Gerais para o epicentro dos aconteci-mentos, homenageou o poeta baiano com os quar-tetos seguintes:

    Enlaam-se por um segundoque milagre da poesiao verso de Godofredoe o fascnio da Bahia.

    Com o fervor de quem ama,essa pauta melodiosa

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    sobre Ouro Preto derramao rseo encanto da rosa.

    Assim, poeta, iluminaspor tua quente poesiagraas maduras de Minase a volpia da Bahia.

    Para Agripino Grieco (1934),

    Godofredo um mstico que ainda no achoua sua mstica. Saudoso, compe umas arietas senti-mentais, tramas areos de versos quase incorpreos,que recita com voz sufocada, de quem est sendoestrangulado pelo garroteador da tela de Goya. Navirtuosidade do abstrato, Godofredo converte tudoem viso arcaica. um alucinado dos sculos essepobre menino perdido num mundo sem alma, nummundo de bichos de ferro. Doido pelo acaraj etambm pelas vendedoras de acaraj, sabe toda aBahia de cor, trecho a trecho, bequinho a bequinho.Conhece a cor do tempo, a cor dos olhos de todasas criaturas. Romntico cantor de Ouro Preto e dasua Feira de linhas retas, adormecida de planura,como a bela do conto de Perrault.

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    Grieco volta assim questo do embate entreforas conflitantes na poesia e no esprito do po-eta Godofredo Filho. O mesmo conflito percebi-do por outros crticos da sua obra: o requinte dopensamento racional, por um lado, e, por outro, asensualidade apimentada de dends chiando nofogaru vermelho e rumores inquietantes dearapus danados.

    Como j afirmou Eugnio Gomes, no se deveignorar a presena do modernismo na Bahia. Oque no ocorreu foi um movimento agressivo epleno (como o Sturm und Drang dos romnticosalemes), mas no se podem negar as adeses snovas conquistas estticas nem a importncia dacontribuio pioneira de um poeta atento aos no-vos rumos da arte e capaz de assumir, no calor dahora, a reflexo em torno de um movimento queainda se processava.

    Mas um recuo fatal para a recepo da sua po-esia, e para a literatura baiana, excluiu GodofredoFilho do pantheon dos poetas nacionais: privar opblico do conhecimento do seu trabalho, umavez que a livre circulao de Samba Verde repre-sentaria a continuidade do estabelecimento do seu

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    A Literatura na Bahia | 1

    nome, que comeava a se fazer com as entrevistassobre arte moderna e as primeiras leituras dos seusversos. A ausncia do poeta dos meios literriosdo Sul e as pequenas edies (de cinquenta e atmesmo quinze exemplares) que avaramente im-punha sua obra, impediram a Bahia de ter hoje,no mbito nacional, um poeta de reconhecidaqualidade.

    O depoimento do poeta e editor AugustoFrederico Schmidt, publicado nas pginas do GaloBranco, anos depois da desaventura modernista dopoeta baiano, servem para avaliar a posio do jo-vem autor de Samba verde, na fase efervescente daarte moderna:

    Mestre Godofredo Filho move-se com lenti-do e dignidade. Vozes o sadam de janelas anti-gas (...). Lembro quando chegou o Mestre ao Rioem mil novecentos e vinte muitos, pageado porMrio de Andrade. Moo em flor, mas j macio,civilizado, correto. Agora um maduro como eumas continua o mesmo homem fiel s preocupa-es de sempre, aos temas baianos bem amados.Acontece apenas que Godofredo Filho j se mis-turou para sempre atmosfera, ao esprito, aos azei-

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    Tradio e Modernidade

    tes baianos. um baiano que, fora de o ser,universalizou-se. To baiano que um grande dacultura, de toda parte. (Schmidt, 1957)

    Numa louvao epistolar, Alceu Amoroso Limacompleta o retrato do poeta falando do prazerautenticamente requintado que a leitura dos seussonetos, dignos de Horcio e Gngora, me pro-porcionou, acrescentando:

    Como o nosso Albano, dos tempos simbolis-tas, Voc se manteve fiel sua mais pura inspira-o clssica, no neocls-sica, nos campos do moder-nismo. Como um Guilherme de Almeida, ou comoum Abgar Renault ou um Odylo Costa Filho, Vocpertence grey (ponho um ipsilon de propsito)que paira acima das controvrsias. que escreveuma lngua to pura e to alta que nos transportapara l do tempo e do lugar. (Lima, 1971)

    Se Godofredo Filho se recusou o papel de Pau-lo de Tarso do modernismo na Bahia, no conse-guiu, no entanto, com o pudor do seu recolhimen-to, ou com ambivalncia trazida pela fora da tra-dio, fugir condio de um pioneiro. Ou, mais

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    ainda, de um Poeta pleno e fulgurante. De umpoeta federal, no dizer de Drummond. E aisso que louvamos com entusiasmo, na esperanade demover o alquimista do silncio, para que umdia, que no est longe, o pblico leitor possa teruma amostragem da trajetria potica de GF. Umaedio retrospectiva que publique desde os poe-mas de Samba Verde at a sua recndita e velada-mente citada Balada da dor de corno

    Na praia da Conceioafoguei meu corao.Vinha o Nordeste montadonum potro de crinas dgua

    despindo, por inteiro, este poeta que se debateentre dois metais ardentes: o pecado e a virtude, asensualidade da carne e a f do esprito, o mo-mento mais que imperfeito do homem e a pro-messa de uma cidade solar do Apocalipse, parausarmos a expresso cunhada por D. TimteoAmoroso Anastcio (1972).

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    Tradio e Modernidade

    REFERNCIAS E BIBLIOGRAFIA

    1. ALVES, via. Arco & Flexa. Contribuio para o estudo domodernismo. Salvador, Fundao Cultural do Estado daBahia, 1978.

    2. ANASTCIO, D. Timteo Amoroso. Apresentaodo lbum Breve Romanceiro do Natal, Salvador, Beneditina,1972.

    3. ANDRADE, Carlos Drummond de. A Godofredo Fi-lho. In: SEIXAS, Cid. Godofredo Filho, irmo poesia. Cida-de da Bahia, Oficina do Livro, 1992, contracapa 4.

    4. ANDRADE, Mrio de. Bilhete de apresentao deGodofredo Filho a Couto de Barros. Jornal de cultura, n12 (Suplemento do Dirio de Notcias). Nmero especi-al dedicado a Godofredo Filho. Org. Cid Seixas. Salva-dor, 5 mai. 1974.

    5. ANDRADE, Mrio de. Modernismo. O empalhador depassarinho. So Paulo, Martins; Braslia, INL/MEC, 1972,p. 185 e 185.

    6. ANDRADE, Oswald de. Manifesto da Poesia Pau Bra-sil. Obras Completas, vol. VI, Rio de Janeiro, CivilizaoBrasileira, 1972.

    7. BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e vaqueiros. Sal-vador, UFBA / Centro Editorial e Didtico, 1989.

    8. BOAVENTURA, Eurico Alves. Poesia. Org. e notas deMaria Eugnia Boaventura. Salvador, Fundao dasArtes / EGBA, 1990.

    9. BOSI, Alfredo Bosi. Histria concisa da literatura brasileira,2 ed., So Paulo, Cultrix, 1974.

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    A Literatura na Bahia | 1

    10. BANDEIRA, Manuel Bandeira. Apresentao da poesiabrasileira, Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1967.

    11. BANDEIRA, Manuel Bandeira. Godofredo Filho OJornal, Rio de Janeiro, 1927.

    12. CAMPOS, Augusto de. Re-viso de Kilkerry, So Paulo,Fundo Estadual de Cultura, 1970.

    13. CHIACCHIO, Carlos. Poesia Nova. A Tarde, Salvador,10 jan. 1925.

    14. DREA, Juraci. Eurico Alves, poeta baiano. Feira deSantana: Casa do Serto/ Lions Clube de Feira deSantana, 1978.

    15. CUNHA, Carlos; SEIXAS, Cid. Sete cantares de amigo aoPoeta Godofredo Filho. Salvador, Edies Arpoador, 1975.

    16. FERREIRA, Jerusa Pires. A alquimia generativa do bruxoGodofredo Filho, Separata da Revista Ocidente vol. LXXXI,Lisboa, 1971.

    17. GODOFREDO FILHO. O artista poder servir-se dacausa, mas, esta, jamais, do artista. Dirio de Notcias,Salvador, 2 nov. 1952. Entrevista concedida a CladioTavares.

    18. GODOFREDO FILHO. Irm poesia. Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro; Salvador, Secretaria de Estado daEducao e Cultura da Bahia, 1986.

    19. GODOFREDO FILHO. Poemas e textos inditos. Jor-nal de Cultura, n 12. (Suplemento do Dirio de Notcias).Nmero especial dedicado a Godofredo Filho. Org. CidSeixas. Salvador, 5 mai. 1974, p. 5, n 12.

    20. GODOFREDO FILHO. Poema da Feira de SantAna.Ilustraes de Caryb. Coleo Ilha de Mar. Salvador,1977. Folhas soltas em pasta ou carpeta de cartolina.

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    Tradio e Modernidade

    21. GODOFREDO FILHO. Samba Verde, Rio de Janeiro,Pongetti, 1928.

    22. GODOFREDO FILHO. Solilquio, Org. Carlos Cunhae Cid Seixas, Salvador, Edies Arpoador, 1975.

    23. GOMES, Eugnio. Cinquentenrio de um poeta. Le-tras e Artes, Rio de Janeiro, Empresa A Noite, 6 abr.1954.

    24. GRIECO, Agripino. Godofredo Filho. O Jornal. Rio, 18nov. 1934.

    25. KILKERRY, Pedro. Quotidianas. Jornal Moderno, Bahia,4 mar. 1913, p. 3.

    26. LIMA, Alceu Amoroso. Carta a Godofredo Filho. Riode Janeiro, 18 set. 1971. Jornal de Cultura, Salvador, 5mai. 1974, p. 2.

    27. LIMA, Alceu Amoroso. Carta a Godofredo Filho. SeteCantares de Amigo. Cidade da Bahia, Edies Arpoador,Fundao Cultural do Estado, 1975. (Coleo Jogral)

    28. MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicao como ex-tenses do homem, 4 ed., So Paulo, Cultrix, 1974.

    29. O JORNAL. Rio de Janeiro, 29 mai. 1927.30. O GLOBO. Rio de Janeiro, 20 ago. 1928.31. POND, Consuelo. Godofredo Filho, uma doce e pe-

    rene lembrana. Salvador, Tribuna da Bahia, 2013.

    32. POUND, Ezra. Abc da literatura, So Paulo, Cultrix, 1970.33. SCHMIDT, Augusto Frederico. Crtica. Revista da sema-

    na, n 14. Rio de Janeiro, 1957.34. SEIXAS, Cid. God, o Velho Bruxo. Godofredo Filho,

    irmo poesia. Cidade da Bahia, Oficina do Livro, 1992.

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    35. SEIXAS, Cid. Iararana, um documento dos anos 30.In: Cyro de Mattos; Aleilton Fonseca. (Org.). O triunfode Sosgenes Costa. Ilhus: Editus, 2005, v. 1, p. 143-156.

    36. SEIXAS, Cid. Modernismo e diversidade: impasses econfrontos de uma vertente regional. Lgua & Meia,Feira de Santana, v. 3, n.2, p. 52-61, 2004.

    37 SEIXAS, Cid. Modernismo e tradicionismo na Bahia.Jornada, v. 2, n 2, 2010.

    38 SEIXAS, Cid. Trs temas dos anos trinta. Textos de crticaliterria. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feirade Santana, 2003.

    39 SEIXAS, Cid. Triste Bahia / Oh quo dessemelhante! Notassobre a literatura na Bahia. Salvador, Secretaria da Cultu-ra, coleo As Letras da Bahia, 1996.

    O poema God, o Velho Bruxo, incluido na pgina aseguir, figura na plaquete Sete Cantares de Amigo ao PoetaGodofredo Filho. Salvador, Edies Arpoador, 1975.

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    No campo dos pentagramassete fonemas sonorosproclamam em consonnciaa convocao da palavra.

    Sobre a clareza da folha,cada som tem um sentido;aqui o verso tem vidana pauta do seu dizer.

    a transmutao dos metaisem verbo cortante e precisoque o Velho Bruxo enlevano condo da sua pena.

    As vinhas esto florindopor entre os dedos do mgicoque retira do chapuos prazeres do sentido.

    GOD, O VELHO BRUXO

    Cid Seixas

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    Acima, Eurico Alves e Hlio Simes. Abaixo, ManuelBandeira, que nos versos finais de Escusa, publica-do no livro Meus poemas preferidos, declina do convi-te de Eurico desculpando-se: No sou mais digno derespirar o ar puro dos currais da roa.

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    Hlio Simes, alm de ter exercido um papelde destacado protagonismo nas relaes culturaisluso-brasileiras na Bahia, participou do ncleo cri-ador da revista Arco & Flexa (sic), uma das publi-caes baianas responsveis pela introduo da artemoderna no Brasil. O fato de estados com a Bahiae Pernambuco, de relevante passado colonial, te-rem desempenhado importantes papis na cons-truo da identidade brasileira, acentuou o pro-cesso de defesa das tradies nacionais contra aimportao de modelos estrangeiros. Tal resistn-cia ainda considerada como uma forma deimpermeabilidade esttica da modernidade. A

    UM POETA MODERNISTANAS RELAES

    LUSO-BRASILEIRAS

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    A Literatura na Bahia | 1

    paradoxal conexo do modernismo com o tradi-cionismo dinmico que caracterizou a esttica de Arco& Flexa foi um modo inteligente de CarlosChiacchio tentar abrandar a reao dos conserva-dores aos escritores postos sob sua orientao.

    Antes de desenvolver o tema, agradeo orga-nizao do XXII Congresso de Literatura Portu-guesa o convite para integrar esta mesa plenriasobre a Memria do Ensino e da Pesquisa da Lite-ratura Portuguesa no Brasil. Para minha surpresae honrosa alegria, aqui esto presentes, como ex-positores, dois grandes mestres da atualidade quedo forma e relevo memria mais viva dos estu-dos literrios em nosso pas: os professores Cleo-nice Berardinelli e Massaud Moiss.

    Peo licena a ambos para iniciar a apresenta-o do assunto que me foi proposto e que podeser resumido no ttulo Hlio Simes: do poetamodernista ao fomentador das relaes luso-bra-sileiras. Os dois mestres aqui presentes conhece-ram muito de perto o homenageado neste texto.Os trs viveram tanto os momentos de fundaodos estudos portugueses em nosso pas quanto odesdobramento da Semana de Arte Moderna.

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    Permitam-me ento repetir, professora Cleo-nice, professor Massaud, coisas que ambos conhe-cem h muito tempo e bem melhor do que eu.

    Para o mundo literrio, Hlio Simes despontanos ltimos anos da dcada de vinte, quando naCidade do Salvador se travava o embate entre, deum lado, a iconoclastia modernista da Semana de22 e, do outro lado, a articulao das propostas demodernidade com as tradies histrico-antropo-lgicas de uma cidade economicamenteempobrecida mas ainda depositria de rica mem-ria cultural. Ao lado de Pinto de Aguiar, CarvalhoFilho e Eurico Alves, Hlio Simes foi um dosfundadores da revista que serviu de marco aomodernismo na Bahia, Arco & Flexa (flecha escri-ta com x, o que a tornava mais pitoresca e prxi-ma dos primores de Pindorama).

    Sobre a sua atuao na revista fundadora doModernismo na Bahia, em entrevista concedidah mais de trinta anos ao poeta e pintor JuraciDrea (posteriormente publicada no livro EuricoAlves: poeta baiano), o escritor Hlio Simes traduzcom modstia e limitao o papel destes jovenspioneiros. So suas palavras:

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    O grupo Arco & Flexa no era estruturalmen-te homogneo. Ligava-o a juventude e um certoaf renovador que a liderana de Chiacchio procu-rou dar unidade na tendncia explcita de umtradicionismo dinmico que constituiu o nossomanifesto. Creio que o nosso grande papel, na es-teira do que vinha fazendo Eugnio Gomes e so-bretudo Godofredo Filho, foi procurar integrar aBahia na agitao cultural, particularmente liter-ria, que j se manifestara em outros quadrantes dopas. (DREA, 1978, p. 87)

    Ora, o papel principal do grupo integrado porHlio Simes no foi apenas este, foi tambm ode inaugurar uma modernidade literria menoscomprometida com a vanguarda demolidora e maiscomprometida com os resultados de um processocultural longamente destilado. A nova e vertigino-samente rica cidade de So Paulo buscava, no afindustrial e na velocidade das mquinas, o meca-nismo de corte com um passado depauperado.Estados Brasileiros detentores de antigo e ricoacervo intelectual, como a Bahia e Pernambuco,por exemplo, no podiam abrir mo de bens pre-ciosos e acumulados a custa de grandezas e mis-

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    Tradio e Modernidade

    rias em troca de quinquilharias importadas. porisso que Gilberto Freire e o grupo do Recife tam-bm tiveram um lugar diferenciado no quadro doModernismo Brasileiro.

    Convm registrar que tanto o grupo de Arco& Flexa quanto outros grupos baianos surgidosnos anos vinte no tiveram uma postura moder-nista similar do grupo paulista. O modernismono conheceu, entre ns, uma fase demolidora;ao contrrio, chegou a se opor radicalmente a al-gumas aes histrinicas desencadeadas pela Se-mana de Arte Moderna de 22. Os integrantes daAcademia dos Rebeldes, do qual participaram oetnlogo Edison Carneiro e o romancista JorgeAmado, para citar apenas dois nomes nuclearesna moderna construo de uma identidade mesti-a, no persegu iam os mesmos traos demodernidade que caracterizaram o modernismoda semana de 22.

    Hlio Simes, autor do livro O Mar e OutrosPoemas, no reduziu sua atuao pblica revistaArco & Flexa e ao Jornal da Ala. Considerem-setambm o seu trabalho como diretor da revista ARenascena, ao lado de Afonso Rui; a sua seo

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    Crnica de arte, no Dirio da Bahia, em 1929; acoluna Idias e Fatos na Era Nova; mais tarde, aseo Poetas e Sonetos no jornal Imparcial; almda coluna livros escrita entre os anos sessenta esetenta, no jornal A Tarde.

    A vida acadmica do poeta ganha definio em1932, quando aos 22 anos, diplomado pela Fa-culdade de Medicina da Bahia, a mesma escola deum outro seu colega e companheiro de gerao,que tambm trocou a medicina pela literatura,Afrnio Coutinho.

    Mdico formado, o Dr. Hlio, como era cha-mado por ns, submeteu-se ao concurso de LivreDocente e assumiu as funes de Assistente Efe-tivo e Chefe de Clnica.

    Em 1942 foi criada a Faculdade de Filosofia daBahia. No existiam ainda os cursos de Letras, deCincias Humanas ou de Filosofia; e a Faculdadede Medicina era o grande centro catalisador dohumanismo. Ali no se aprendia apenas a curar osmales do corpo. No convvio dirio com profes-sores e colegas se aprendia sobretudo a bem for-mar o esprito. Vem do sculo XIX a tradio quea Bahia formava escritores-mdicos e o Recife

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    formava escritores-juristas. E essa tradio afor-tunada, permitam-me desvirtuar o sentido da ter-minologia crtica de Afrnio Coutinho, continuapelas primeiras dcadas do sculo XX.

    Com a criao da Universidade da Bahia, nodia 2 de julho de 1946, o poeta Hlio Simes, queocupava interinamente a ctedra de Neurologia,abandona o exerccio da clnica na rea da sademental e transfere-se para a Faculdade de Filoso-fia recm incorporada Universidade. A esta altu-ra, como homem de sensibilidade artstica e estu-dioso das cincias da cultura, era tambm profes-sor da Escola de Belas Artes. O novo percurso dojovem mdico estava definido.

    Assumindo a cadeira de Literatura Portuguesa,Hlio Simes procurou completar sua nova for-mao acadmica em viagens de estudos a Portu-gal, Frana e a outros pases. Entre os portugue-ses, relacionou-se ou, em alguns casos, privou daamizade de intelectuais como Teixeira de Pascoaes,Hernani Cidade, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nem-sio e quase uma centena de outros escritores.

    Foi atravs desses contatos que ele propiciou avinda para a Universidade da Bahia de Adolfo

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    Casais Monteiro e de Eduardo Loureno, o pri-meiro para o curso de Letras, o segundo para o deFilosofia. Com humildade, Hlio Simes justifi-cava a sua constante busca de intelectuais portu-gueses para atuarem na Bahia por uma motivaopessoal, ou como uma forma de aprender com osseus convidados. Assim que propiciou a HernaniCidade trabalhar com a defesa do Padre AntonioVieira perante a Santa e demonaca Inquisio; epossibilitou a intelectuais da Gerao de Presenaa divulgao no Brasil do ainda pouco conhecidoFernando Pessoa. Nessa esteira de intercmbio,Vitorino Nemsio aqui publicou o livro Conheci-mento de Poesia. Eduardo Loureno, ento profes-sor de filosofia da Universidade, iniciou a frutfe-ra ponte ligando sua investigao literatura.

    O papel singular desempenhado por HlioSimes tanto foi reconhecido pelos portugueses,na forma da amizade e da admirao, quanto nasdistines concedidas. Oficial da Ordem Militarde Cristo e, posteriormente, Grande Oficial daOrdem do Infante D. Henrique. Ainda em terraslusitanas, tornou-se membro da Academia de Ci-ncias de Lisboa, do Instituto de Coimbra, do Insti-

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    tuto de Geografia de Lisboa e da Academia Inter-nacional de Cultura Portuguesa.

    No nosso pas, a Academia Brasileira de Letrasconcedeu-lhe a Medalha Machado de Assis, maisalta homenagem dessa confraria, por indicao doescritor Jorge Amado, seu antigo rival nos movi-mentos literrios baianos dos fins da dcada de20. Uma slida relao uniu Jorge Amado a HlioSimes: inicialmente, a cordial rivalidade entre osgrupos modernos a que pertenceram e depois, oestreitamento do contato, quando o neurologistaHlio Simes cuidou de Matilde, a primeira espo-sa do romancista. No livro Bahia de todos os santos,Amado registra com ternura e com admirao:

    Hlio Simes o poeta ilustre, o mdico, oprofessor, o fomentador de estudos literrios, ohomem da universidade, do intercmbio culturalluso-brasileiro, com tantos e tamanhos serviosprestados Bahia, ao Brasil e cultura.

    E prossegue Jorge Amado, na caracterizaodesse mestre que, sem deixar de ser um atento in-trprete da cultura local, foi tambm um admira-

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    dor e um difusor da civilizao portuguesa. Volte-mos s palavras do romancista:

    Mas eu sei quanto lhe agradar esse ttulo norpido e certamente incompleto perfil que aqui ten-to traar de um homem feito de delicadeza, de in-teresse humano, de amizade, um poeta no s nosversos com que assinalou original presena na po-esia brasileira, mas tambm na maneira de ser, deviver; na maneira de dar-se aos interesses vitais dacomunidade e da cultura; um trabalhador intelec-tual aparentemente limitado aos gabinetes de estu-do, mas, de fato, ligado vida popular, rua. Eu ovi no enterro da Me Senhora ao lado de outrobaiano to autntico, Thales de Azevedo e per-cebi que a mo mstica da ialorix estava posta so-bre a cabea do poeta. (AMADO, 1977)

    Sou testemunha do apreo de Jorge Amado aHlio Simes. Nos anos 80, o romancista deu-mea incumbncia de preparar uma edio da poesiade Hlio Simes, para a qual tomou todas as pro-vidncias junto a sua editora, a Record, e ao Insti-tuto Nacional do Livro. Passados alguns meses,sem que o trabalho tenha ficado pronto, o escri-

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    tor Herberto Sales, presidente do Instituto, solici-tou o encaminhamento do livro que nunca foi or-ganizado, por modstia ou desambio do pr-prio autor. Quando insistamos com doutor Hliopara que ele franqueasse as cpias dos novos tex-tos que seriam reunidos ao livro dos anos 20, Omar e outros poemas, ele invariavelmente prome-tia para um dia qualquer, desde que mais adiante.

    Entre os novos poemas de Hlio Simes, re-cordo de um que se destaca pela sintaxe, pela eco-nomia verbal, pelo acento de uma linguagem eru-dita e moderna, conquistada com o passar dos anose a chegada da maturidade. H a uma ressonnciade dilogo com formas parnasianas que FernandoPessoa teria buscado em Olavo Bilac. Em 1960,com a inaugurao da nova capital do Pas, o poe-ta encontra motivo para um confronto desigual eharmnico entre a secular cidade de Guimares ea nossa Braslia:

    Sculos caminharam sobre a pedra.O muro enegreceu.Branca a cidade medraentre o cerrado e o cu.

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    Guimares a pia batismale o castelo roqueiro.Aqui nasceu Afonso, o prncipe, Primeiroe ao desgnio de Deus que tudo impelenasceu com elePortugal.

    Sculos caminharam sobre a pedra.O muro enegreceu...

    Braslia o crisma. Novoanseio de f ardendo no planalto,confirmao de um povodo seu destino alto.

    Branca a cidade medraentre o cerrado e o cu.

    (SIMES, 1989)

    Assim era o antigo professor de neurologia quese fez um dos pioneiros dos estudos portuguesesno Brasil. Mais de uma vez ele redarguia que osseus textos, quer fossem de criao ou de anlise,no tinham especial importncia.

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    Ainda recordo de uma conferncia lida por ele,no Gabinete Portugus de Leitura, coisa rara, umavez que suas intervenes eram quase sempre oraise sustentadas no mais brilhante improviso. Supo-nho que essa conferncia foi escrita, porque se tra-tava de um dilogo com as tendncias ou os m-todos da poca. Em pleno desvario estruturalista,Hlio Simes valeu-se de Roland Barthes e de al-guns outros autores postos em frentica evidn-cia, para fazer uma leitura mais prxima da tradi-o interpretativa francesa, sem excluir as propos-tas mais inovadoras do novo mtodo estrutural.Este empenho conciliador foi uma caractersticaque Hlio Simes trouxe dos seus tempos de ju-ventude e que marcou a sua participao no mo-vimento modernista baiano, como veremos atra-vs das suas palavras ao longo deste artigo.

    Dias depois da conferncia, escrita numa lin-guagem fulgurante e fundada em uma leitura deimpressionante atualidade, pedimos o texto parapublicao e ele simplesmente respondeu: Vocslevam estas coisas muito a srio. E o texto nuncafoi publicado.

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    Voltando formao acadmica de HlioSimes e sua posterior opo pela literatura Por-tuguesa, surge ento uma pergunta: com que cre-denciais o ento mdico, professor livre docentee catedrtico interino de clnica neurolgica assu-miu a primeira ctedra de Literatura Portuguesada Universidade da Bahia e uma das primeiras doBrasil?

    Com as credenciais de poeta modernista dagerao Arco & Flexa, brilhante gerao reunidaem torno da revista do mesmo nome. E com ascredenciais adquiridas em muitas outras publica-es surgidas a partir da, com as quais colaborou.As credenciais da sensibilidade e do mistrio dapoesia.

    REFERNCIAS E BIBLIOGRAFIA

    ALVES, Eurico. Poesia. Seleo, organizao e notas deMaria Eugnia Boaventura.

    ALVES, Ivia. Arco & Flexa. Contribuio para o estudo domodernismo. Salvador, Fundao Cultural do Estado daBahia, 1978.

    AMADO, Jorge: Bahia de todos os santos. Guia de ruas e mistrios.Rio de Janeiro, Record, 1977.

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    Tradio e Modernidade

    AMADO, Jorge: Navegao de cabotagem; apontamentos para umlivro de memrias que jamais escreverei. Rio de Janeiro, Record,1992.

    ARCO & FLEXA. Edio fac-similar. Revista literria,1928/1929, Salvador, Fundao Cultural do Estado daBahia, 1978. (n 1, 66 p.; n 2/3, 70 p.; n 4/5, 90 p.)

    BANDEIRA, Manuel: Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro,Ediouro, 2005, p. 85.

    CHIACCHIO, Carlos: Poesia Nova. A Tarde, Salvador, 10jan. 1925. A nota no vinha assinada, mas como figuravana seo mantida nesse jornal pelo conceituado crtico,a autoria no oferece dvida.

    CHIACCHIO, Carlos: O nosso primeiro livro modernista.A Luva, 5 out. 1928, n. 82.

    CHIACCHIO, Carlos: Tradicionismo dinmico. Arco &Flexa. Mensrio de cultura moderna, n. 1, Salvador, nov. 1928.

    CHIACCHIO, Carlos: Modernistas e ultra-modernistas. [II]Gabriel Alomar, o criador do verdadeiro futurismo. ATarde, Salvador, 14 fev. 1928.

    DREA, Juraci: Dilogo entre Eurico Alves e ManuelBandeira. In Lgua & meia. Revista de literatura e diversidadecultural. Feira de Santana, UEFS, 2009.

    DREA, Juraci, Eurico Alves, poeta baiano. Feira de Santana:Casa do Serto/ Lions Clube de Feira de Santana, 1978.

    DIMAS, Antonio: Um manifesto guloso. In Lgua & meia.Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana,UEFS, 2004.

    FERREIRA, Monalisa Valente: Os dedos de Eurico Alvesvestem A Luva (A revista, o modernismo baiano e o

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    A Literatura na Bahia | 1

    poeta dissonante). In BOAVENTURA, Eurico Alves:Cips verdes. Feira de Santana, UEFS, 2009, p. 171-195.

    SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismoportugus: subsdios para o seu estudo e para a histria das suasrelaes. 3 vols. Porto, s/ed., 1986.

    SEIXAS, Cid. Godofredo Filho: 50 anos de presenaliterria e do modernismo na Bahia. Salvador, Tribunada Bahia, 23 mai. 1975, p. 11.

    SEIXAS, Cid: Triste Bahia, oh! Quo dessemelhante. Notas sobrea literatura na Bahia. Salvador, EGBA / Secretaria daCultura e Turismo, 1996. (Coleo As Letras da Bahia)

    SEIXAS, Cid: Sosgenes Costa: Epopia cabocla domodernismo na Bahia. In PLVORA, Hlio (org.): ASosgenes, com afeto. Salvador, Edies Cidade da Bahia,2001, p. 75-84.

    SIMES, Hlio. Duas cidades. Qvinto Imprio: Revista de culturae literaturas de lngua portuguesa. Salvador, n 2, primeirosemestre de 1989, contracapa 4.

    VILLALONGA, Gabriel Alomar. Futurismo. In OLEA,Hctor. O futurismo catalo antes do futurismo. So Paulo,Edusp / Giordano, 1993.

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    Em 1928, dois grupos ou duas revistas detendncias modernas e dessemelhantes escandali-zaram o conservadorismo baiano de formaoparnasiano-simbolista e retardatria ressurreioromntica. Eram: o grupo de Arco & Flexa, inici-almente formado por Hlio Simes, Pinto deAguiar, Carvalho Filho e Eurico Alves, sob a lide-rana do tambm mdico e crtico literrio CarlosChiacchio; e, do outro lado, a Academia dos Re-beldes, integrada por Jorge Amado, dison Car-neiro, Alves Ribeiro, Joo Cordeiro, Dias da Cos-ta, Clvis Amorim, Sosgenes Costa, Aydano do

    MODERNISMOE TRADICIONISMO

    NA BAHIA

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    A Literatura na Bahia | 1

    Couto Ferraz, Walter da Silveira e outros. Estesescritores tiveram como trincheira a revista Sam-ba, sob a liderana de Pinheiro Viegas, mentor tan-to da revista quanto da chamada Academia.

    Observe-se que os dois grupos que se propu-nham a construir a modernidade literria forambuscar orientao em dois velhos intelectuais, deformao finissecular j consolidada, o que podeser visto como uma conseqncia da natureza es-teticamente prudente dos componentes de ambos.Todos eram jovens, modernos, e... bastante caute-losos. E assim a Bahia se inscreveu, de forma am-bgua e, talvez por isso mesmo, pouco estudada,no panorama modernista brasileiro. Para ahistoriografia literria, a topada que o modernis-mo levou pesou mais do que os aspectos peculia-res da modernidade resultantes dos conflitos econtradies locais e regionais. Isso conferiu umanatureza mais complexa e mais consequente aosseus escritores, resultando em qualidade, noobstante a perda de mpeto renovador.

    Justificando a importncia dos seus pares paraa moderna literatura brasileira, Jorge Amado pro-clama:

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    Tradio e Modernidade

    Fao o balano dos livros publicados pelos Re-beldes, por cada um de ns. A Obra Potica e Iararana,de Sosgenes Costa: sua poesia, nossa glria e nos-so orgulho; a obra monumental de dison Carnei-ro, pioneiro dos estudos sobre o negro e o folclo-re, etnlogo eminente, crtico literrio, o grandedison; os Sonetos do Malquerer e os Sonetos do Bem-querer, de Alves Ribeiro, jovem guru que traounossos caminhos; os dois livros de contos de Diasda Costa, Cano do Beco, Mirante dos Aflitos; os doisromances de Clvis Amorim, O Alambique eMassap; o romance de Joo Cordeiro devia cha-mar-se Boca suja, o editor Calvino Filho mudou-lheo ttulo para Corja; as coletneas de poemas deAydano do Couto Ferraz; a de sonetos de Da Cos-ta Andrade; os volumes de Walter da Silveira sobrecinema some-se com meus livros, tire-se os novefora, o saldo, creio, positivo. (AMADO, 1992, p. 85)

    Ora, na territrio da poesia, tanto a obra sim-bolista de Sosgenes Costa, marcada pelos exube-rantes sonetos pavnicos, quanto os sonetos deAlves Ribeiro e de Da Costa Andrade so compu-tados por Amado como saldo credor desse grupomoderno.

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    Convm lembrar, ento, um velho poltico danossa terra, o governador Otvio Mangabeira, quecostumava dizer: Pense em um absurdo. E logocompletava: Na Bahia j aconteceu.

    Deixando a blague de lado, sem perder o acha-que do riso; assim, tambm, foi o nosso moder-nismo. Intimamente conectado s conquistas es-tticas finisseculares, sem delas desdenhar, masconstruindo a modernidade a partir de um pro-cesso de soma, e nunca de excluso.

    Mas no apenas a Bahia foi cenrio de mani-festaes ambivalentes. Em Pernambuco, desde oincio dos anos vinte, com os olhares voltados parao modernismo e outras expresses de vanguarda,se anunciava um livro do paraibano Jos Amricode Almeida, soprado pelos ventos da inovao.Ancorado em uma temtica e em muitos aspectosj explorados por Franklin Tvora em O Cabeleira,de 1876, e por outros autores do chamado ciclodo cangao, o romance A Bagaceira iniciava, em1928, o segundo momento do modernismo e, aomesmo tempo, antecipava o Regionalismo doNordeste. Jorge de Lima, que iniciou seus estudosna Faculdade de Medicina da Bahia, no abdicou

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    Tradio e Modernidade

    de todo da sua formao simbolista exemplarmen-te manifestada na condio de Prncipe dos Poe-tas das Alagoas, ttulo conferido pela crtica daprovncia. Mesmo sua obra maior, Inveno de Orfeu,escrita na maturidade, constituda por sonetosintercalados a outros formas igualmente clssicas.

    A propsito da Academia dos Rebeldes, HlioSimes, em entrevista pesquisadora via Alves,afirmou com propriedade: Ao mesmo tempo emque se publicava Arco & Flexa, saa tambm a re-vista Samba. Pode ser considerada uma revista re-acionria do ponto de vista literrio, ainda publi-cando sonetos. No entanto, o grupo tinha umalinha poltica. (ALVES, 1978, p. 23)

    Diferentes entre si, como se v nas palavras deum dos seus formadores, os dois grupos moder-nistas baianos tinham um ponto em comum: adiscordncia com o modernismo paulista. Ambosos grupos baianos estavam mais prximos do quese fazia em Pernambuco, em sincronia silente como trabalho de Gilberto Freyre. Sobre o CongressoRegionalista do Recife, Hlio Simes afirmou que,apesar de ter conhecimento das suas propostas,no leu o manifesto de Freyre. Como no poderia

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    ter lido, porque hoje sabemos que o ManifestoRegionalista no foi redigido, na forma por fim co-nhecida, durante a organizao do Livro do Nordes-te, em 1925; mas somente quando da sua publica-o, nos anos 50. O texto publicado retoma idiaspresentes nas intervenes performticas de Gil-berto Freyre, motivadas pelo citado CongressoRegionalista. (Cf. DIMAS, 2004)

    Os poetas de Arco & Flexa tinham contato como grupo do Recife que editava a revista Cidade. Eainda com os grupos de Festa, no Rio de Janeiro, ede Verde, em Cataguases. Outras afinidades eletivasforam: Jorge de Lima (com Hlio Simes, tam-bm mdico), que, j formado no Rio e tendoretornado a Macei, freqentemente viajava Bahia a servio do Lloyd; e, no Cear, o grupobaiano mantinha contato com a jovem Rachel deQueiroz. Jorge de Lima era leitor dos textos crti-cos de Chiacchio, conforme pode ser visto na suacorrespondncia com Eurico Alves.

    Enquanto o modernismo da Semana de 22colocava o pas em sintonia com a modernidadeeuropia, o Nordeste passava por uma busca delibertao dos modelos europeus, em favor de uma

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    Tradio e Modernidade

    identidade telrica. Como o conceito de regionalse confundia com o pensamento poltico conser-vador, alguns intelectuais tentavam contornar estainconvenincia, sustentando sua proposta demodernidade com a de pertencimento ou de iden-tidade. Gilberto Freyre, na contramo do iderionazista que dominaria a Europa, deslocava o focoda questo racial para a cultural. Convm lembrarque essa busca de identidade, distante da eugeniaracial e sustentada em culturas plurais era uma ten-dncia dos anos 20 em outros pases da AmricaLatina. A vertente moderna a partir do regionals ganhou dimenses nacionais com o regionalis-mo de 30, nascido no contexto modernista dePernambuco, da Bahia, do Cear e de outros esta-dos do Nordeste. O mesmo Jorge Amado, querejeitava as propostas de importao europia e asextravagantes estripulias da Semana de 22, che-gou a uma forma de modernidade, capaz de tra-duzir o seu contexto cultural, com o romanceregionalista de 30.

    A idia de modernidade artstica comprometi-da com as novas invenes industriais, o fervilhare a velocidade ferica das grandes cidades, era uma

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    idia que seduzia o esprito industrial paulista, masno era uma constante no pensamento baiano edo nordeste. Poetas modernos, balizados pela forada terra, viram alguns cones dos novos tempos que lhes pareceram papagaiadas propagandsticas como forma de empobrecimento cultural; oucomo aniquilamento de uma viso do paraso.

    Eurico Alves, do grupo Arco & Flexa, na Ele-gia a Manuel Bandeira, convida o poeta pernam-bucano a ir a Feira de Santana, onde:

    Os bois escavam o cho para sentir o aromada terra. (ALVES, 1990, p. 84)

    Bandeira responde com outro poema, dizendo:

    No sou mais digno de respirar o ar puro doscurrais da roa. (BANDEIRA, 2005, p. 85)

    Nos anos 30, um episdio chamou a atenopara o nome de Eurico Alves: o famoso dilogopotico com Manuel Bandeira, conforme obser-va Juraci Drea. Sem o seu conhecimento, Car-valho Filho datilografou os versos e enviou para

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    Tradio e Modernidade

    Bandeira, que respondeu com outro poema. Euestava operado no hospital, quando apareceramCarvalho e Godofredo Filho com a Escusa, re-gistrou Eurico Alves, em carta para sua filha Ma-ria Eugenia Boaventura, datada de 1 de janeirode 1969. (DREA, 2009, p. 129)

    Estudando a produo de Eurico Alves na re-vista quinzenal A Luva, publicada em Salvador, de1925 a 1932, Monalisa Ferreira toca na questo daconvivncia harmoniosa entre conservadores evanguardistas nas pginas enluvadas:

    Percebemos um contraponto: de um lado, tra-os de escritas com mudanas apenas aparentes,como Moema, de Eugnio Gomes, que, emborafosse considerada pelas crticas baiana e cariocacomo a primeira obra modernista publicada noEstado da Bahia, no apresentava inovaes; deoutro lado, textos de criao com uma esttica vi-sivelmente inventiva, como os poemas e contos deEurico Alves. (FERREIRA, 2009, p. 172-173)

    Mesmo no endossando a viso da estudiosa,quando privilegia a escrita de Eurico Alves, de

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    modo viesado em favor do escritor por ela estu-dado, no se pode deixar de considerar a diversi-dade de tendncias apontada no seu bem funda-mentado artigo.

    Mas o que parece um abismo entre o moder-nismo da Bahia e o de So Paulo pode se restrin-gir ao impacto causado pelas idias da Semana de22. Como o progresso de So Paulo trouxe, pri-meiro, a inquietao, l o modernismo logo co-nheceu o deslumbramento pelas novidades vin-das de fora; depois trocadas pelo mergulho dosseus escritores nas razes nacionais, especialmen-te a partir de 1928. Pode-se dizer que no inciodos anos 30 no h mais oposio entre as pers-pectivas do sul e do norte. Mrio de Andrade es-creve Macunama, Raul Bopp trabalha o seu CobraNorato.

    Voltando Bahia, o crtico Eugnio Gomes,praticante de poemas de amor surgidos na revistaArco & Flexa, e considerado como autor do pri-meiro livro modernista editado em Salvador,(CHIACC HIO, 1928) transfere esta primazia aGodofredo Filho. Com efeito, em 1925, CarlosChiacchio escreveu na sua coluna Homens e

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    Tradio e Modernidade

    Obras um comentrio saudando a apario dospoemas modernos de Godofredo Filho (CHIA-CCHIO, 1925); e em 1928, mesmo ano da publica-o na Bahia do livro Moema, de Eugnio Gomes,Godofredo Filho anunciava no Rio de Janeiro, pelaeditora Pongetti, o volume Samba Verde. (SEIXAS,1975, p. 11)

    Embora saudado e recebido calorosamente,tanto em So Paulo quanto no Rio, por Mrio deAndrade, Manuel Bandeira, Jayme Ovalle, AugustoFrederico Schmidt, lvaro Moreyra e outros,Godofredo Filho, inexplicavelmente, recolheu oseu livro.

    Na Bahia, o modernismo era caracterizado pelogrupo Arco & Flexa como tradicionismo din-mico, movimento que se propunha a inovar apartir do respeito tradio. Sobre esta expressoque vai aparecer e dar ttulo ao artigo que serve demanifesto revista, assinado por Carlos Chiacchio,Hlio Simes esclarece:

    Na Bahia, ns tnhamos fundamentos que nopodamos abandonar de todo. Da o TradicionismoDinmico, porque ns queramos ir para adiante,

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    A Literatura na Bahia | 1

    mas sem renegar o passado. E no era fazendotbula rasa como a revista Antropofagia, de Oswaldde Andrade, porque, na verdade, nesse primeiromomento Oswald que tem maior realce, Mriode Andrade apareceu posteriormente.

    E prossegue Hlio Simes:

    Eles queriam fazer tbula rasa de tudo. Entoinventamos esta expresso de tradicionismo din-mico que era tradio, sim, porque respeitvamosas tradies baianas, mas no ficvamos presos aelas, queramos sob a base dessa tradio construiro futuro, uma coisa nova, porque tambm tnha-mos a nossa idia nacionalista. (Apud ALVES, 1978,p. 119-120)

    Como se ver, adiante, o termo tradicionismodinmico no foi inventado pelo o grupo, mastomado de emprstimo ao poeta catalo GabrielAlomar.

    Nesse artigo de abertura da revista Arco & Flexa,Chiacchio esclarece, em tom de manifesto, quetoda cultura se vale da tradio para encontrar

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    Tradio e Modernidade

    novos caminhos, se vale do regional para chegarao universal sem perder o contato com a ter-ra. (CHIACCHIO, 1928, p. 4) Ao afirmar que a cul-tura universalista refina a sensibilidade local, elerejeita o apego ao que chama de tradies estti-cas, propondo: Tradies dinmicas, as tendnciasmodernistas, as nicas dignas de f. (Ibidem, p. 6)

    Quanto ao livro de poemas Moema, de Eug-nio Gomes, considerado ainda atado aos modelostradicionais, Hlio Simes sublinha o fato de tersido Eugnio quem conseguiu dar a forma idealdo tradicionismo dinmico. Foi seu livro que im-pulsionou o grupo para a produo e publicaode uma revista dentro das idias de um tradicionis-mo dinmico. (Apud ALVES, 1978, p. 123)

    Na verdade, o pensamento desses jovens con-ciliadores encontrava eco nas propostas de CarlosChiacchio, influenciadas pelo poeta e ensastacatalo Gabriel Alomar Villalonga (1873-1941).Em palestra proferida em 1904, com ttulo Futu-rismo, Alomar dizia que as sociedades registramdois elementos ou duas manifestaes capitais na

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    aparncia, de conciliao impossvel e paradoxal.Eis estes dois mundos, que com a sua convivnciatecem eternamente a Histria: um deles, com oolhar para trs, alimenta-se da tradio. (VILLA-LONGA, 1993, p. 13)

    Este elo entre tradio e ruptura no passariadesapercebido a Chiacchio que na srie de artigosintitulados Modernistas e ultra-modernistas,publicados no jornal A Tarde, de janeiro a marode 1928, e depois reunidos em livro, intitulou umdos textos: Gabriel Alomar, o criador do verda-deiro futurismo, em evidente referncia aMarinetti que, na sua visita Bahia, deixou comoherana a designao dos nibus que comeavama chegar cidade, por coincidncia, quando osjornais repercutiam as suas idias. Se o futurismode Marinetti no encontrou adeptos entre os mo-dernos escritores baianos, em contrapartida, osnibus de frente alongada, novidade chegada quan-do da visita do italiano, receberam seu nome. Atos anos 70 no era comum os baianos viajarem denibus. A gente viajava mesmo era de marinete.

    Segundo Hlio Simes, o grupo de Arco &Flexa, ao procurar Chiacchio, discutiu o objetivo

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    Tradio e Modernidade

    de conciliar a tradio com a inovao, o que,mesmo assim, no evitou que os seus participan-tes fossem vistos como loucos ou inconsequentes.

    Assim, convm relembrar Gregrio de Matos:

    Isto sois, minha Bahia,Isto passa em vosso burgo.

    REFERNCIAS E BIBLIOGRAFIA

    ALVES, Eurico. Poesia. Seleo, organizao e notas deMaria Eugnia Boaventura.

    ALVES, Ivia. Arco & Flexa. Contribuio para o estudo domodernismo. Salvador, Fundao Cultural do Estado daBahia, 1978.

    AMADO, Jorge: Bahia de todos os santos. Guia de ruas e mistrios.Rio de Janeiro, Record, 1977.

    AMADO, Jorge: Navegao de cabotagem; apontamentos para umlivro de memrias que jamais escreverei. Rio de Janeiro, Record,1992.

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    A Literatura na Bahia | 1

    ARCO & FLEXA. Edio fac-similar. Revista literria,1928/1929, Salvador, Fundao Cultural do Estado daBahia, 1978. (n 1, 66 p.; n 2/3, 70 p.; n 4/5, 90 p.)

    BANDEIRA, Manuel: Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro,Ediouro, 2005, p. 85.

    CHIACCHIO, Carlos: Poesia Nova. A Tarde, Salvador, 10jan. 1925. A nota no vinha assinada, mas como figuravana seo mantida nesse jornal pelo conceituado crtico,a autoria no oferece dvida.

    CHIACCHIO, Carlos: O nosso primeiro livro modernista.A Luva, 5 out. 1928, n. 82.

    CHIACCHIO, Carlos: Tradicionismo dinmico. Arco &Flexa. Mensrio de cultura moderna, n. 1, Salvador, nov. 1928.

    CHIACCHIO, Carlos: Modernistas e ultra-modernistas. [II]Gabriel Alomar, o criador do verdadeiro futurismo. ATarde, Salvador, 14 fev. 1928.

    DREA, Juraci: Dilogo entre Eurico Alves e ManuelBandeira. In Lgua & meia. Revista de literatura e diversidadecultural. Feira de Santana, UEFS, 2009.

    DREA, Juraci, Eurico Alves, poeta baiano. Feira de Santana:Casa do Serto/ Lions Clube de Feira de Santana, 1978.

    DIMAS, Antonio: Um manifesto guloso. In Lgua & meia.Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana,UEFS, 2004.

    FERREIRA, Monalisa Valente: Os dedos de Eurico Alvesvestem A Luva (A revista, o modernismo baiano e opoeta dissonante). In BOAVENTURA, Eurico Alves:Cips verdes. Feira de Santana, UEFS, 2009, p. 171-195.

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    Tradio e Modernidade

    SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismoportugus: subsdios para o seu estudo e para a histria das suasrelaes. 3 vols. Porto, s/ed., 1986.

    SEIXAS, Cid. Godofredo Filho: 50 anos de presenaliterria e do modernismo na Bahia. Salvador, Tribunada Bahia, 23 mai. 1975, p. 11.

    SEIXAS, Cid: Triste Bahia, oh! Quo dessemelhante. Notas sobrea literatura na Bahia. Salvador, EGBA / Secretaria daCultura e Turismo, 1996. (Coleo As Letras da Bahia)

    SEIXAS, Cid: Sosgenes Costa: Epopia cabocla domodernismo na Bahia. In PLVORA, Hlio (org.): ASosgenes, com afeto. Salvador, Edies Cidade da Bahia,2001, p. 75-84.

    SIMES, Hlio. Duas cidades. Qvinto Imprio: Revista de culturae literaturas de lngua portuguesa. Salvador, n 2, primeirosemestre de 1989, contracapa 4.

    VILLALONGA, Gabriel Alomar. Futurismo. In OLEA,Hctor. O futurismo catalo antes do futurismo. So Paulo,Edusp / Giordano, 1993.

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    A cidade do Salvador no incio do sculo XX, onde sev a tradicional Rua da Preguia, com seus sobradoscentenrios e seus barcos.

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    QUANDO A POESIAERA UMA FESTA

    O livro de Nonato Marques A poesia era umafesta , antes de tudo, uma fonte de estudo indis-pensvel para a compreenso do panorama liter-rio baiano da primeira metade do sculo. O autor um dos protagonistas do chamado Grupo daBaixinha, reunio informal de escritores que fre-quentavam o Caf Progresso, no perodo aproxi-mado de 1925 a 1929. A designao, difundida porNonato Marques, deve-se ao local onde se situavao Caf que serviu de palco para as discusses eprojetos do grupo: a rua que liga a parte baixa dopelourinho Baixa dos Sapateiros.

    A primeira parte do livro, intitulada Os poe-tas da Baixinha, sem dvida a mais importante,

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    A Literatura na Bahia | 1

    por ser constituda por um estudo-depoimento doautor. Ele e Brulio de Abreu so os ltimos so-breviventes desta aventura humana e artstica. Aslembranas e os dados oriundos de pesquisa reu-nidos por Nonato Marques servem de fonte dasmais importantes para o conhecimento de um gru-po de poetas praticamente ignorado pela inteli-gncia baiana da poca.

    * * *

    Carlos Chiacchio, o importante crtico do jor-nal A Tarde, e os jovens Godofredo Filho, Eug-nio Gomes, Afrnio Coutinho, Hlio Simes, Car-valho Filho, Pinto de Aguiar e outros desfrutaramdo prestgio devido aos intelectuais mais destaca-dos da Velha Capital. Estes escritores mantinham-se distantes dos poetas da Baixinha, e como re-presentam, sem dvida, o ncleo central da inteli-gncia baiana da dcada vinte, apenas os movi-mentos e acontecimentos que os envolveram pas-saram histria fragmentria da literatura na Bahia.

    Eugnio Gomes, que surgiu nas letras comopoeta modernista, tornou-se crtico e ensasta de

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    Tradio e Modernidade

    repercusso nacional, especialmente pelos seusestudos de literatura comparada e de temasmachadianos. Afrnio Coutinho o responsvelpelo fim da crtica jornalstica no Brasil e pela pr-tica da crtica acadmica. Pinto de Aguiar foi ogrande editor que a Bahia teve.

    Para eles, portanto, o nico movimento dignode nota foi Arco & Flexa, assim escrito o nome darevista e do grupo afinado com ela.

    * * *

    Nonato Marques atribui a indiferena dos es-critores oriundos da elite baiana para com os po-etas da Baixinha ao fato da reunio em torno dasmesas do Caf Progresso congregar pessoas decondio social menos privilegiada. O lder dogrupo da Baixinha era Samuel de Brito Filho, oGuarda Civil 85, assim conhecido por ser policial.Ao contrrio dos homens de Arco & Flexa, o Guar-da 85 era um autodidata. Homem do povo quegostava de ler e conversar sobre literatura. As suaslongas conversas, enquanto saboreava um caf,representaram o incio do grupo. Muitos jovens

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    passaram a fazer ponto no Caf Progresso paratrocar idias, ler e ouvir poemas. E fazer planos.

    Outra queixa dos integrantes desse grupo, as-sinalada por Nonato Marques no seu livro, ofato de nenhum deles ter entrado para a Acade-mia de Letras da Bahia. Segundo seu depoimento,ingressar um dia na Academia era um sonho aca-lentado por alguns, porm, jamais atingido porqualquer dos nossos companheiros do ncleo for-mador da Baixinha. No que faltasse valor a mui-tos [...]. Mas, que a Academia, at hoje, no per-deu os seus pendores elitistas e os poetas da Bai-xinha eram modestos demais para aspirar toinsigne convvio, alfineta o autor com sincerahumildade.

    Mas a razo principal da distncia mantida pelogrupo dos poetas Eurico Alves, Carvalho Filho eHlio Simes era sem dvida a formao intelec-tual de um e outro grupo. Bem verdade que istono tem nada a ver com a questo do acesso Academia, onde o prestgio social do postulante,seja ele escritor ou agente do governo, de fatomais importante que o valor literrio ou cultural.Enquanto os poetas da Baixinha, como reconhe-

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    Tradio e Modernidade

    ce o prprio Nonato Marques, faziam coro com aesttica do fim do sculo XIX, os rapazes de Arco& Flexa pensavam estar renovando a literatura.Universitrios brilhantes e inteligentes, associavama slida formao acadmica ao desejo de aproxi-mar a Bahia das idias modernas que agitavam osul do pas.

    O autor de A poesia era uma festa assinala asnovidades dos anos vinte, desde a Semana de ArteModerna, de So Paulo, at a ruidosa visita deFelippo Marinetti nossa terra, onde o poeta fu-turista se tornou sinnimo de um meio de trans-porte trazido para a Bahia na mesma poca, oomnibus, ou buzu da Bahia negra e mestia, entoconhecido como marinete.

    Na Baixinha o rebolio foi grande. Ningum,todavia, se dispunha a seguir as pegadas do futu-rismo de imediato escreve Nonato Marques, eacrescenta ainda: A nossa formao era toda elaorientada no sentido da prosa e da poesia tradici-onais.

    * * *

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    H muito o que se ler e discutir no livro deNonato, embora haja algumas imprecises facil-mente notadas pelo leitor, naquilo que se refere afatos literrios que transpem os limites da Baixi-nha. J a antologia dos poetas do grupo pareceimportante to somente enquanto documento,faltando a muitos o talento capaz de assegurar apermanncia.

    por isso que as observaes de Nonato Mar-ques, especialmente as da primeira parte, consti-tuem o material mais rico do volume. O seu esfor-o, para sistematizar e incluir os seus companhei-ros na histria da literatura na Bahia, digno damaior ateno. O seu livro nasce como obra deconsulta obrigatria para os estudiosos.

    Curioso observar como o grupo da Baixinha que se desfez aps algum tempo de convivnciacom Pinheiro Viegas, seu mais novo lder semantm distante do modernismo, mesmo com oentusiasmo dos fundadores da revista Samba, ttu-lo bem afinado com o pensamento verde-amare-lo. Se em Samba a Baixinha ainda no haviapongado na marinete moderna, com os jornaishumorsticos nascidos e redigidos nas mesas do

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    Caf Progresso que o grupo mais se aproxima daiconoclastia demolidora de 22. O grupo da Baixi-nha publicou dois semanrios malucos pelos 200ris. Primeiro surgiu O Periquito, depois promo-vido a Gavio, classificados como rgo de ata-ques de riso.

    Nem mesmo o conceituado Carlos Chiacchio,estimado pelas palavras de incentivo dadas aosjovens escritores e neste ponto, como em ou-tros, diametralmente oposto ao mordaz PinheiroViegas escapou lira maldizente e epigramticadestes bem humorados jornalecos:

    Macarro e azeite de dend,culos, bigode, pana:eis o Dr. C. C.Ironia!Com todos estes C. C.,o crtico melhor o piorPoet Astro da Bahia!

    Outras figuras de destaque das nossas letrasforam ridicularizadas com graa e cruel talento,

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    inclusive o poeta Arthur de Salles. Por causa deuma composio, intitulada A msica dos bilros,o respeitado escritor simbolista foi debochadamen-te apelidado de Arthur dos Bilros, como vemosneste epigrama escrito a ttulo de epitfio ao autorde Sangue mau (1928):

    Aqui jaz Arthur dos BilrosPoeta de casca e pau...Os vermes no o comeramPor estar de Sangue Mau.

    A poesia era uma festa, alm das ricas infor-maes, traz um outro mrito: mostrar, graas aottulo bem achado (por entre as reminiscncias deErnst Hemingway, em A Moveable Feast), que, nadcada de vinte, ler era a forma maior de prazersocial. A literatura desfrutava de grande prestgio,no apenas como forma de conhecimento, mastambm como meio de diverso e descontrao.Tudo isso porque, como bem nos ensina NonatoMarques, a poesia era uma festa.

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    Tradio e Modernidade

    REFERNCIAS E BIBLIOGRAFIA

    ABREU, Brulio de. Alma profana. Salvador, Fundao JooFernandes da Cunha, 1996, 192 p.

    MARQUES, Nonato. A poesia era uma festa; estudo e anto-logia. Salvador, GraphCo, 1994, 138 p.

    MARQUES, Nonato. Tempo de poesia. Salvador, Travessia,1990, 160 p.

    SEIXAS, Cid. Quando a poesia era uma festa. Coluna Lei-tura Crtica do jornal A Tarde, Salvador, 27 mar. 95, p.7.

    SEIXAS, Cid. A poesia do decano. Coluna Leitura Crti-ca do jornal A Tarde, Salvador, 11 nov. 96, p. 7.

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    A tela registra o cotidiano da Rua Padre Antonio Vieira,na poca em que a mesma terminava s portas da an-tiga Igreja da S, demolida para a modernizao e aurbanizao da Cidade do So Salvador da Bahia deTodos os Santos, em 1933.

    A tela registra o cotidiano da Rua Padre Antonio Vieira,na poca em que a mesma terminava s portas da an-tiga Igreja da S, demolida para a modernizao e aurbanizao da Cidade do So Salvador da Bahia deTodos os Santos, em 1933.

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    A POESIA DO DECANO

    Brulio de Abreu, aos noventa e trs anos deidade, o decano dos poetas baianos. Como nostempos de antanho se dizia que antiguidade pos-to, o decanato da poesia a lurea deste velho re-manescente de um dos muitos movimentos e gru-pos literrios que enriqueceram a inquieta Bahiano incio do sculo.

    Brulio de Abreu e Nonato Marques so os doisltimos sobreviventes do grupo responsvel pelapublicao da revista Samba, surgida em 1928.Declaradamente modernista, mas essencialmenteconservadora, com traos parnasianos, a revistatrazia no seu primeiro nmero um editorial deAlves Ribeiro fazendo apologia do modernismo.

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    A Literatura na Bahia | 1

    Como, mesmo assim, o esprito moderno no bai-xasse nos colaboradores de Samba, o terceiro n-mero, datado de fevereiro de 1929, trazia a proibi-o de receber poemas em forma de soneto. (!)

    Como uma escola literria no se caracterizaapenas atravs das frmas, mas, principalmente, apartir da substncia das suas idias, apesar do ttu-lo da revista estar em consonncia com os vriosmodernismos regionais surgidos nos fins da d-cada de vinte, o grupo idealizador de Samba conti-nuou embebido nas convices parnasianas e or-namentais da literatura palavrosa ento em voga.

    sintomtico o fato de um dos seus destaca-dos integrantes, Nonato Marques, ter abandona-do a designao natural que identificava o grupocom a revista, para sugerir a expresso os poetasda Baixinha. Assim, aquele que se tornou o res-ponsvel pela divulgao e pela fixao histricada contribuio dos seus companheiros, preferiuuma designao menos comprometida com a in-quietao modernista da poca.

    Era em torno das mesas do Caf Progresso,na Baixa dos Sapateiros, que se reunia o grupoformado por Elpdio Bastos, Deocleciano Martins,

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    Tradio e Modernidade

    Nonato Marques, Oto Bittencourt Sobrinho, Sou-za Aguiar, Brulio de Abreu, Alves Ribeiro,Clodoaldo Milton, Antonio Donatti, Pereira ReisJr., Egberto Ribeiro, Anfilfio Brito, QueirozJnior, Zaluar de Carvalho, Raimundo Penafort,ngelo Gomes da Costa, Anbal Rocha e Samuelde Brito Silva (o Guarda 85). Quando o poeta sa-trico Pinheiro Viegas passou a integrar a confra-ria, a convite de Nonato Marques, o centroconstelar do grupo deslocou-se da figura do Guar-da 85 para o irreverente Viegas. Segundo CidMascarenhas, em palestra proferida no InstitutoGeogrfico e Histrico da Bahia, Pinheiro Viegascom seus epigramas venenosos e comentrioschistosos, verdadeiras verrinas, foi afastando oscomponentes da ento coesa turma.

    Na mesma poca, um outro grupo formava achamada elite intelectual da cidade. Os jovens Pintode Aguiar, Hlio Simes, Carvalho Filho e EuricoAlves, com o apoio do crtico Carlos Chiacchio,fundaram a revista Arco & Flexa. Por vinculaessociais e intelectuais, os integrantes deste peque-no ncleo mantinham laos de amizade comGodofredo Filho, Afrnio Coutinho, Eugnio

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    A Literatura na Bahia | 1

    Gomes, Jorge Amado e outros jovens baianos deento.

    Os poetas da Baixinha continuaram mar-gem destes bem sucedidos jovens. Como consta-ta Nonato Marques, nenhum deles entrou para aAcademia, instituio que funciona como umaespcie de termmetro da elite intelectual.

    Brulio de Abreu s foi notado ocasionalmen-te. Primeiro, por Arthur de Salles, que, segundo oj citado Cid Mascarenhas, teria lhe dito, aps ou-vir a declamao de alguns poemas: A sua obraest altura da minha.

    Mas foi somente em 1980, quando AntonioLoureiro de Souza, no seu discurso de recepoao acadmico Clvis Lima, leu um soneto deBrulio de Abreu, que o mundo acadmico tomouconhecimento da poesia deste velho alfaiate. Re-nato Berbert de Castro convidou-o para uma dasclebres tertlias da sua casa. L, Brulio leu sone-tos para o anfitrio e seus convidados HlioSimes, Jorge Calmon, Jayme de S Menezes, JosSilveira, Erthos Albino de Souza, Thales de Aze-vedo, Carlos Eduardo da Rocha, Luis HenriqueDias Tavares, Jos Calasans e Loureiro de Souza.

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    Tradio e Modernidade

    Com a aprovao dos presentes, Berbert deCastro encarregou o professor Loureiro de reuniros poemas de Brulio de Abreu num livro a serpublicado pelo Conselho Estadual de Cultura.Antonio Loureiro no s organizou o livro comoescreveu uma longa introduo. Dezesseis anosdepois o trabalho continuava indito, tendo agoraa Fundao Joo Fernandes da Cunha propiciadoa sua publicao.

    Alma profana portanto o livro de estria desteveterano da poesia baiana, que somente aos 93anos de idade chega ao pblico. Bem verdade queele no indito. Aparece em jornais e revistas,em estudos literrios e principalmente em antolo-gias como Apstolos do sonho, onde doze sonetistascomo Clvis Lima, Ivan Americano, Joo Muniz,Carlos Benjamin Viveiros e Nathan Coutinhocomparecem com doze peas cada um; Coletneade poetas baianos, organizada por Alusio de Carva-lho Filho; Os mais belos sonetos brasileiros etc.

    Neste livro, Alma profana, de Brulio de Abreuest reunida uma parte substancial da sua produ-o, onde o soneto de inspirao parnasiana dei-xa, s vezes, escorrer da frma o sentimento do

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    A Literatura na Bahia | 1

    mundo manifestado pelo decano dos poetasbaianos. precisamente nos instantes em que aversificao sobrepujada por um halo de vidaque a poesia se deixa plasmar em raios de luz.

    REFERNCIAS E BIBLIOGRAFIA

    ABREU, Brulio de. Alma profana. Salvador, FundaoJoo Fernandes da Cunha, 1996, 192 p.

    MARQUES, Nonato. A poesia era uma festa; estudo eantologia. Salvador, GraphCo, 1994, 138 p.

    MARQUES, Nonato. Tempo de poesia. Salvador, Travessia,1990, 160 p.

    MASCARENHAS, Cid. Conferncia. Salvador, InstitutoGeogrfico e Histrico, 1975

    SEIXAS, Cid. Quando a poesia era uma festa. ColunaLeitura Crtica do jornal A Tarde, Salvador, 27 mar.95, p. 7.

    SEIXAS, Cid. A poesia do decano. Coluna Leitura Crti-ca do jornal A Tarde, Salvador, 11 nov. 96, p. 7.

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    POESIA

    Temporrio; poesia. Salvador, Cimape, 1971 (Coleo Auto-res Baianos, 3).

    Paralelo entre homem e rio: Fluvirio; poesia. Salvador, Impren-sa Oficial da Bahia, 1972.

    O signo selvagem; metapoema. Salvador, Margem / Departa-mento de Assuntos Culturais da Secretaria Municipalde Educao e Cultura, 1978.

    Fonte das pedras; poesia. Rio de Janeiro, Civilizao Brasilei-ra; Braslia, Instituto Nacional do Livro, 1979.

    Fragmentos do dirio de naufrgio; poesia. Salvador, Oficina doLivro, 1992.

    O espelho infiel; poesia. Rio de Janeiro, Diadorim, 1996.

    ENSAIO E CRTICA

    O espelho de Narciso. Livro I: Linguagem, cultura e ideologia noidealismo e no marxismo; ensaio. Rio de Janeiro, Civiliza-o Brasileira; Braslia, Instituto Nacional do Livro, 1981.

    LIVROS DO AUTOR

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    A Literatura na Bahia | 1

    A potica pessoana: uma prtica sem teoria; ensaio. Salvador,CEDAP; Centro de Editorao e Apoio Pesquisa, 1992.

    Godofredo Filho, irmo poesia; ensaio. Salvador, Oficina doLivro, 1992. (Tiragem fora do comrcio.)

    Poetas, meninos e malucos; ensaio. Salvador, Universidade Fe-deral da Bahia, 1993. (Cadernos Literatura, 1.)

    Jorge Amado: Da guerra dos santos demolio do eurocentrismo;ensaio crtico. Salvador, CEDAP, 1993.

    Literatura e intertextualidade; ensaio. Salvador, CEDAP, 1994.Herberto Sales. Ensaios sobre o escritor. Salvador, Oficina do

    Livro, 1995.O viajante de papel. Perspectiva crtica da literatura portugue-

    sa. Salvador, Oficina do Livro, 1996.Triste Bahia, oh! quo dessemelhante. Notas sobre a literatura

    na Bahia. Salvador, Egba; Secretaria da Cultura, 1996.O lugar da linguagem na teoria freudiana; ensaio. Salvador, Fun-

    dao Casa de Jorge Amado, 1997. (Col. Casa de Pala-vras)

    O silncio do Orfeu Rebelde e outros escritos sobre Miguel Torga;ensaios. Salvador, Oficina do Livro, 1999.

    O trovadorismo galaico-portugus; ensaio crtico e antologia. Feirade Santana, UE