A TEOLOGIA COMO “MEMÓRIA NARRATIVA” · PDF filegorias da memória e...

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  • A TEOLOGIA COMO MEMRIA NARRATIVA

    UMA RELEITURA DA PROPOSTA TEOLGICO-FUNDAMENTAL DE

    JOHANN BAPTIST METZ

  • COLECCIN

    KAIRS. TEOLOGA Y CIENCIAS DE LA RELIGIN

    SERIE TEOLOGA

    DIRECCIN COORDINACIN EDITOR-IN-CHIEF

    Jos P. Anglico (Universidade Catlica Portuguesa Porto)

    COMIT ACADMICO ASESOR ACADEMIC ADVISORY BOARD

    Isabel Varanda (Universidade Catlica Portuguesa - Braga)

    Paolo Gamberini (University of San Francisco, California)

    Paula Garca (Pontificia Universidad Javeriana, Colombia)

    Patricio Merino Beas (Universidad Catlica de la Santsima Concepcin,

    Chile)

    Bernardo Prez Andreo (Instituto Teolgico de Murcia OFM, Pontificia

    Universit Antonianum)

    Jos Ramn Matito Fernndez (Universidad Pontificia de Salamanca)

  • LUS MANUEL DA CRUZ LEAL

    A TEOLOGIA COMOMEMRIA NARRATIVA

    UMA RELEITURA DA PROPOSTA

    TEOLGICO-FUNDAMENTALDE JOHANN BAPTIST METZ

  • 1 edicin, 2017

    Lus Manuel da Cruz Leal

    2017, editorial Sindresis

    Gran Va, 6 28013 Madrid, Espaa

    Rua Diogo Botelho, 1327 4169-004 Porto, Portugal

    [email protected]

    www.editorialsinderesis.com

    ISBN: 978-84-16262-27-4

    Depsito legal: M-11133-2017 Produce: scar Alba Ramos

    Impreso en Espaa / Printed in Spain

    Reservado todos los derechos. De acuerdo con lo dispuesto en el cdigo Penal,

    podrn ser castigados con penas de multa y privacin de libertad quienes, sin la

    preceptiva autorizacin, reproduzcan o plagien, en todo o en parte, una obra

    literaria, artstica o cientfica, fijada en cualquier tipo de soporte.

  • Aos que tornaram possvel fazer deste to desejado futuro um consumado presente, e que, pela narrao de toda esta histria, na minha memria permanecero (e)ternamente

    "A memria a conscincia inserida no tempo." Fernando Pessoa

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    PREFCIO

    O pensamento do telogo alemo Johann Baptist Metz , sem dvida, um dos mais originais em toda a produo teolgica do ltimo sculo. No sendo autor de uma obra muito vasta pelo menos em comparao com outros seus conterrneos os seus escritos esto recheados de intuies teolgicas que permitem e prometem grandes e profundos desenvolvimentos.

    De um modo geral, a sua fonte de inspirao a tradio ju-daica. No tanto a partir diretamente dos textos dessa tradio, mas por mediao da influncia que ela deixou em alguns pensa-dores da denominada Escola de Frankfurt, nomeadamente Ernst Bloch e Walter Benjamin.

    Enquadra-se nesta linha o modo como Metz trabalha as cate-gorias da memria e da narrativa, como categorias maiores do pensamento judaico ou melhor, do modo bblico de interpretar a realidade. no interior dessas categorias que se desenvolve uma hermenutica do real verdadeiramente histrica, que evita qualquer reduo idealstico-transcendental dos acontecimentos vividos.

    Pela memria somos conduzidos a uma relao com o mundo assente na sintonia com os viventes passados, sobretudo com as vtimas, como fonte de presente e de futuro, nomeadamente atravs da esperana. A histria concreta, vivida por humanos concretos e insubstituveis, torna-se o cerne de qualquer compreenso do real em chave antropolgica ou ontolgica. Evita-se, assim, qualquer construo ontolgica a priori, para

  • LUS MANUEL DA CRUZ LEAL

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    aplicao posterior ao acontecer histrico; o acontecimento que origina ontologia, na medida em que pensado, e no o contrrio.

    Por essa via, as pessoas que realmente constituram, consti-tuem e constituiro o tecido da histria continuaro vivas, com promessa de eternidade, porque so assumidas como fim em si mesmas e no como meio para a realizao de um plano supra-histrico ou de um esquema metafsico previamente traado. Essa a raiz fundamental do personalismo bblico, profunda-mente mergulhado no acontecer temporal daquilo que somos e vamos sendo.

    A razo anamntica contraposta razo lgico-abstracta ou absoluta dos idealismos modernos, com mais ou menos efeitos sociopolticos assim a configurao do que poder deno-minar-se racionalidade bblica. Metz enuncia, como ningum, as qualidades dessa racionalidade, deixando muito claro o seu perfil, por contraposio a outros perfis de racionalidade.

    Vivendo esta racionalidade da temporalidade que nos consti-tuiu e na qual acontece o sentido que podemos experimentar pela memria, abre-se o caminho para a compreenso do modo como essa viso se torna linguagem o que, para a teologia, enquanto logos humano, essencial. A partir do impulso dado por Walter Benjamin mesmo sem grande recurso ao enorme contributo de Paul Ricoeur, para quem a narrativa a melhor articulao da histria e da temporalidade com a linguagem Metz lana a as razes de uma teologia narrativa, ou seja, de uma teologia para quem a narrativa constitui forma lingustica fundamental.

    A f crist com a correspondente antropologia e com a correspondente teologia vive desta racionalidade anamntica e desta linguagem narrativa, para corresponder ao princpio da pessoa e, ao mesmo tempo, ao princpio histrico-salvfico articulado como esperana escatolgica. Se para Metz a alterna-tiva em debate foi sobretudo a razo idealista e transcendental,

  • UMA RELEITURA DA PROPOSTA TEOLGICO-FUNDAMENTAL DE JOHANN BAPTIST METZ

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    hoje poderamos pensar numa racionalidade e numa espiritua-lidade holsticas, de matriz oriental, que de novo prometem uma salvao como dissoluo do sujeito particular e histrico num processo totalizante e annimo. Nesse sentido, a intuio de Metz ganha uma envergadura cultural que vai muito alm da discusso acadmica sobre modelos de racionalidade e permite discernir certos modelos subtis de totalitarismo espiritual e cultural.

    A presente obra de Lus Leal permite ao leitor de lngua portuguesa um contacto profundo e inteligente com os elementos fundamentais deste pensamento teolgico, constituindo ocasio para aprofundar a compreenso daquilo que essencial viso bblica do mundo e do humano, num momento em que a variedade e mesmo o conflito das interpretaes se adensa. Qualquer cristo mesmo que respire o cristianismo cultu-ralmente, sem o professar explicitamente deveria ler este texto, para refletir sobre as suas opes fundamentais, na compreenso do nosso modo de ser humanos.

    Joo Manuel Duque

    Professor Catedrtico na Universidade Catlica Portuguesa

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    LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS UTILIZADAS

    Para as Obras de J. B. Metz:

    - AC - METZ, Johann Baptist Antropocentrismo cristiano, Salamanca 1972.

    - CT - METZ, Johann Baptist El clamor de la tierra, Stella 1996.

    - CultM - METZ, Johann Baptist Por una cultura de la memoria, Barcelona 1999.

    - DyCiu - METZ, Johann Baptist - Dios y la ciudad. Nuevos planteamientos en Teologa Poltica, Madrid 1975.

    - DyT - METZ, Johann Baptist Dios y tiempo. Nueva teologa poltica. Madrid 2002.

    - Esp - METZ, Johann Baptist; WIESEL, ELIE Esperar a pesar de todo, Madrid 1996.

    - FyEM - METZ, Johann Baptist (org.) Fe y entendimento del mundo, Madrid 1970.

    - FHS - METZ, Johann Baptist La fe, en la historia y la sociedad, Madrid 1992.

    - ITt - METZ, Johann Baptist Ilustracin y teora teolgica, Salamanca 1973.

    - PdD - METZ, Johann Baptist; PETERS, Tiemo Rainer Pasin de Dios. La existencia de las rdenes religiosas hoy, Barcelona 1992.

  • LUS MANUEL DA CRUZ LEAL

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    - RelBu - METZ, Johann Baptist Ms all de la religin burguesa, Salamanca 1982.

    - MemPas - METZ, Johann Baptist, J. REIKERSTORFER, Memoria Passionis. Una evocacin provocadora en una sociedad pluralista, Santander 2007.

    - TdM METZ, Johann Baptist, Teologia do Mundo, Lisboa-Rio de Janeiro 1969.

    Outras siglas e abreviaturas

    - DTF R. LATOURELLE, R. FISICHELLA, S. PI-NINOT (Dir.), Diccionario de Teologa Fundamental, Madrid 1992.

    - DV CONCLIO VATICANO II, Constituio Dogmtica Dei Verbum.

    - GS - CONCLIO VATICANO II, Constituio Pastoral Gaudium et Spes.

    - NA - CONCLIO VATICANO II, Declarao Nostra Aetate.

    - TcCMP - Bruno FORTE, La Teologa como compaa, memoria y profeca. Introduccin al sentido y al mtodo de la teologa como historia, Salamanca 1990.

    - cf. confert

    - col. - coluna

    - tr. traduo de/traduzido por.

    No que respeita s citaes bblicas, estas referem-se B-BLIA SAGRADA editada pela Difusora Bblica (Franciscanos Capuchinhos), Lisboa-Ftima, 2002 (excetuando-se, as que surgem dentro de citaes de outros autores, a quem cor-responder a responsabilidade pelas mesmas).

  • I. INTRODUO

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    1.1 - Propsito e razo de ser do presente trabalho

    Este trabalho de investigao teve a sua gnese num conjunto variado de factores/condicionalismos que s adquirem signi-ficao plena se forem confrontados e tidos em conta no seu conjunto e em interligao dinmica.

    O primeiro deles foi de ordem acadmica: propondo-se desenvolver, em perspectiva teolgico-fundamental, a temtica da memria narrativa no quadro do pensamento de Johann Baptist Metz, serviu, no seu resultado final, como elemento de avaliao do seu autor para a obteno do grau de Licenciatura Cannica em Teologia no mbito do Binio em Teologia Fundamental do Instituto Teolgico Compostelano.

    A escolha de tal temtica e autor obedece, por sua vez, a alguns factores que so, simultaneamente, de teor acadmico-reflexivo e biogrfico-existencial do autor, dado que sendo esta uma anlise teolgico-fundamental, ter que ter em considerao a realidade concreta em que se insere: con la teologia fona-mental, ms que altres disciplines teolgiques, s relativa a una situaci determinada i, per consegent, que cada nova aproxi-maci daquesta disciplina s un reflex de diferents situacions histriques i so