ANDRELLO, Geraldo - Rotas de Criacao e Transformacao

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ANDRELLO, Geraldo - Rotas de Criacao e Transformacao

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  • ROTAS DE CRIAO E TRANSFORMAO

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  • ROTAS DE CRIAOE TRANSFORMAONarrativas de origem dos povos indgenas do rio Negro

    ORGANIZAO GERALDO ANDRELLO

    Rotas de criao e transformao. Narrativas de origem dos povos indgenas do rio Negro

    FOIRN & ISA

    Organizao: Geraldo AndrelloEdio de fotos: Beto RicardoPesquisa e tratamento de imagens: Claudio TavaresMapas (geral e do capitulo 1): Renata A. Alves (Laboratrio de Geoprocessamento do ISA)

    Projeto grfico e capa: Sylvia MonteiroEditorao e produo grfica: Signorini Produo Grfica

    Reviso tcnica: Aline Scolfaro

    Impresso e acabamento: IpsisTiragem: dois mil exemplares

    Apoio

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Rotas de criao e transformao : narrativas de origem dos povos indgenas do Rio Negro / organizao Geraldo Andrello. -- So Paulo : Instituto Socioambiental ; So Gabriel da Cachoeira, AM : FOIRN - Federao das Organizaes Indgenas do Rio Negro, 2012.

    Bibliografia.

    1. Antropologia 2. Etnologia 3. ndios da Amrica do Sul - Amaznia - Alto Rio Negro - Arqueologia 4. ndios da Amrica do Sul - Amaznia - Alto Rio Negro - Histria 5. Povos indgenas - Amaznia - Alto Rio Negro I. Andrello, Geraldo.

    12-10104 CDD-306.0899811

    ndices para catlogo sistemtico:1. Alto Rio Negro : Amaznia : Histria indgena : Antropologia : Sociologia 306.08998112. Alto Rio Negro : Amaznia : Indigenismo : Antropologia : Sociologia 306.0899811

    Este livro inclui iniciativas transfronterias de cooperao com organizaes colombianas: Acaipi, Aatizot,

    AGOSTO DE 2012

    CONHECIMENTOS INDGENAS PESQUISA INTERCULTURAL

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  • Comunidade de S. Jorge, na boca do Curicuriari, afluente de margem direita do alto rio Negro. A cadeia de montanhas, denominada regionalmente Bela Adormecida, o carto postal da cidade de S. Gabriel da Cachoeira. Nas narrativas de origem dos povos indgenas do rio Negro o lugar de moradia de Warir, personagem relacionada a origem das plantas cultivadas.

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    1

    PARA PRODUO:

    TRATAMENTO: 278DPI INTERPOLAR?

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    PARTE II CONHECIMENTO E LUGARES: ANLISES ETNOGRFICAS 137

    ESCRITA NA PEDRA, ESCRITA NO PAPEL 138 Stephen Hugh-Jones

    LUGARES SAGRADOS Y CAMINOS DE CURACIN Apuntes para el estudio comparativo del conocimiento geogr!co de los Tukano Oriental 168 Luis Cayn

    A ESCRITA DE APERIKOLI Ensaio sobre os petroglifos do Iana 195 Caco Xavier

    NOS CAMINHOS DOS YUHUPDEH Travessias e conhecimento no igarap Castanha 211 Pedro Lolli

    A HISTRIA DOS TARIANO VISTA PELA ORALIDADE E PELA ARQUEOLOGIA 223 Eduardo Ges Neves

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 246

    AUTORES 260

    SUMRIO

    INTRODUO 8

    PARTE I EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO 17

    MAPEANDO LUGARES SAGRADOS Patrimnio imaterial, cartogra!a e narrativas em Iauaret 18 Geraldo Andrello, Andr Martini, Renata A. Alves e Ana Gita de Oliveira

    NO CAMINHO DA COBRA DE PEDRA Narrativa de transformao e lugares importantes para os Tuyuka do alto Tiqui 42 Poani Higino Pimentel Tenrio e Aloisio Cabalzar

    TRAS LAS HUELLAS DE NUESTRO TERRITORIO La recuperacin y ordenamiento del Conocimiento que nos fue entregado por nuestros ancestros para cuidar el territorio y la vida 54 Nelson Ortiz, Guillermo Rodrguez, Roberto Marin e Ernesto Avila

    PROJETO PODALI: VALORIZAO DA MSICA BANIWA E A MALOCA CASA DO CONHECIMENTO Narrativa de um processo de transformao dos lugares do mundo 72 Moiss Luiz da Silva, Deise Lucy Oliveira Montardo e Adeilson Lopes da Silva

    EXPERINCIAS, EVENTOS E LUGARES NO MUNDO BANIWA Pesquisa-ao no mdio Iana, Alto Rio Negro 90 Luiza Garnelo, Laise Diniz e Sully Sampaio

    ARQUEOLOGIA RUPESTRE NO BAIXO RIO NEGRO Dilogo com as Perspectivas Indgenas do Alto Negro - Amaznia Ocidental Brasileira 102 Raoni Valle

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    INTRODUO POR QUE ROTAS DE CRIAO E TRANSFORMAO?

    Geraldo Andrello1

    Esta publicao d sequncia srie iniciada com Manejo do Mun-do. Conhecimentos e prticas dos povos indgenas do rio Negro, volume organizado pelo antroplogo Aloisio Cabalzar e publicado em 2010. Tal como aquele, o presente volume rene em sua primeira parte as con-tribuies apresentadas em um dos seminrios organizados a partir de 2009, em So Gabriel da Cachoeira, com a !nalidade de discutir e ela-borar as bases de um programa regional de formao indgena de nvel superior para a regio do mdio e alto rio Negro (municpios de Barcelos, Santa Izabel e So Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas).

    Para usar uma linguagem muito comum no rio Negro, este livro segue os passos de seu irmo mais velho, dedicando-se a um tema de enorme relevncia na vida dos povos indgenas da regio: a inscrio de suas histrias de origem na paisagem natural. Para ser mais exato, os trabalhos aqui reunidos mostram em seu conjunto uma associao fun-damental da histria, tal como concebida localmente, geogra!a, uma memria social guardada ao longo do curso dos rios, nas cachoeiras, pe-drais, praias, estires, remansos, parans e assim por diante, com os quais nos deparamos ao navegar por esses percursos. Nesse sentido, as viagens de hoje refazem os movimentos primordiais e evocam as diferenciaes internas da humanidade que veio a povoar o curso do rio Negro e de seus formadores, todos eles registrados nos elementos das paisagens e em sua toponmia. Em resumo, se podemos apontar facilmente os motivos pelos quais as pessoas se deslocam pela rea visitar parentes, planejar pescarias, obter dinheiro e mercadorias nas cidades, busca por escolas e tratamento de sade etc , menos evidente que nessas mesmas via-gens, bem como naquilo que acontece em seu transcurso, tambm viaja--se pelo tempo; e, assim, tanto se adquire como se produz conhecimento.

    1 Agradeo a Stephen Hugh-Jones pelas conversas que tivemos em maro de 2012. Esta introduo reflete alguns dos pontos que discutimos nessa ocasio. Agradeo tambm a Flora Cabalzar pelos acrscimos, correes e sugestes ao texto. A responsabilidade , evidentemente, toda minha.

    Tal como o tema do Manejo do Mundo, esse que aqui chamamos de Rotas de Criao e Transformao vem sendo, ainda que em menor medida, objeto de uma srie de pesquisas e iniciativas envolvendo an-troplogos e intelectuais indgenas, com o intuito de promover registros do conhecimento embutido nas paisagens em novos meios. Por esse motivo, este tema orientou um dos seminrios de uma srie, destinada a pensar como deveria funcionar um programa de formao regional de nvel superior. O consenso inicial foi o de que, alm de um carter multi-disciplinar, tal programa deveria necessariamente assentar suas bases em uma perspectiva de dilogo intercultural. Como faz-lo? As contribuies aqui reunidas no pretendem resolver a questo em de!nitivo, mas, an-tes, prestam-se sobretudo para diagnosticar dilemas, bem como sugerir com exemplos modos possveis de super-los. Este programa, especi!ca-mente voltado para oferecer uma alternativa de formao aos estudantes indgenas egressos do ensino mdio na regio, comeou a ser idealizado em um momento em que a parceria entre a Federao das Organizaes Indgenas do Alto Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA) alcanava, por assim dizer, uma fase de maturidade. Cabe aqui, portanto, um pequeno retrospecto sobre a atuao dessas duas organizaes junto aos povos do rio Negro nas ltimas dcadas.

    J em 1993, equipes de assessores-pesquisadores do ISA come-aram a trabalhar com lideranas comunitrias e de associaes locais no sentido de promover um extenso mapeamento das comunidades da regio, bem como assessorar a FOIRN na montagem de uma rede de comunicao e!caz entre as mais de 500 comunidades que representa, pertencentes a mais de 20 povos indgenas, distribudas pelas enormes extenses dos rios que conformam a bacia do alto rio Negro. Esta primei-ra fase de trabalho foi coroada com a conquista da homologao de cinco Terras Indgenas na regio, somando mais de 10 milhes de hectares, em 1998. Para tanto, a consolidao poltica e institucional da FOIRN, bem como a base de dados acumulada at ento, desempenharam papel fun-damental, garantindo a implementao bem sucedida de um processo participativo de demarcao fsica dessas reas.

    Desde ento, um conjunto diversi!cado de projetos locais veio sendo posto em prtica. Destaque deve ser reconhecido implantao de escolas indgenas diferenciadas nos rios Tiqui, Iana e Uaups, entre os Tuyuka, Baniwa, Tukano e Wanano. Esses ncleos constituram experi-mentos sistemticos para reverter uma tendncia histrica que envolveu a introduo da educao escolar no rio Negro: a concentrao de estu-dantes em idade escolar nos grandes internatos salesianos de So Gabriel,

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    Taracu, Iauaret e Pari-Cachoeira desde o incio do sculo XX, e cujo des-monte veio a se concluir somente nos anos de 1980. Pode-se dizer que a experincia dos internatos forneceu uma referncia em negativo para im-plantao dessas novas escolas. Se l, as lnguas indgenas eram proibidas, nessas experincias recentes tudo passava a acontecer nas lnguas nati-vas, da alfabetizao elaborao de pesquisas e monogra!as; se no in-ternato os padres ensinavam a lngua, a matemtica e os ofcios dos bran-cos, tratava-se agora de montar currculos e materiais didticos baseados em contedos culturais locais. A metodologia de base o desenvolvimen-to de pesquisas sobre a prpria cultura indgena, para o que tcnicas e conhecimentos ocidentais podem e devem ser empregados. A aposta, em suma, a de que assim procedendo possvel, ao mesmo tempo, absorver novos conhecimentos e valorizar os conhecimentos tradicionais.

    No obstante o extenso conjunto de esforos necessrios para via-bilizar tal programa (acompanhamento pedaggico constante, formao de professores indgenas, o!cinas com diferentes tipos de especialistas indgenas e no indgenas, produo e publicao de material didtico e literatura em diferentes lnguas), o modelo da escola diferenciada veio a ser incorporado pela Prefeitura de So Gabriel da Cachoeira em 2007, ao menos no discurso. Esse movimento institucional ocorreu no mbito de um processo de ampliao da rede de escolas de ensino fundamental completo e do programa de magistrio indgena, este ltimo promovido pela Secretaria Municipal de Educao a partir do !nal dos anos 1990.

    Essas escolas valeram-se, e de certo modo orientaram, o incio de outros projetos paralelos, em particular aqueles voltados ao manejo de recursos pesqueiros e agro"orestais. Junto s escolas foi projetada a im-plantao de estaes de piscicultura, nas quais foram desenvolvidos m-todos adaptados s condies logsticas e ecolgicas locais. A criao de espcies nativas de peixes foi introduzida na regio com assessoria tcni-ca, e viveiros domsticos, cujo planejamento inclua um sistema agro"o-restal em seu entorno para garantir alimentao dos peixes, comearam a surgir em algumas comunidades mais prximas s escolas. O que se fazia nas estaes retro-alimentava as atividades escolares, de modo que boa parte das pesquisas ali desenvolvidas passou a concentrar-se nos co-nhecimentos relativos a plantas e animais e seus ciclos reprodutivos que, associados a eventos sociopolticos e rituais, resultava nos chamados ca-lendrios ecolgico-culturais. Paralelamente, foram iniciados programas de monitoramento da pesca, tanto em termos da produo pesqueira quanto do uso de diferentes apetrechos, entre tradicionais e introduzi-dos, envolvendo uma avaliao da extenso do uso de malhadeiras. A

    disseminao deste instrumento , via de regra, considerada o principal fator da escassez de peixe to propalada pela regio.

    Para alm de uma avaliao dos sucessos e fracassos desse conjunto de atividades podem tanto existir como inexistir a depender dos critrios e das escalas que se adota , o fato importante a ressaltar que esses n-cleos de educao-pesquisa tornaram-se o centro da comunidade ou de conjuntos de comunidades em que se inserem. Forneceram a base sobre a qual novas associaes se ergueram, criando novos espaos de discusso e debates, estabelecendo novas conexes para fora, com agncias de coo-perao, programas de fomento a projetos comunitrios governamentais e no governamentais, instituies de pesquisa e at artistas. Alm disso, se reconectaram, por assim dizer, aos parentes da Colmbia, como ates-tam as visitas de intercmbio dos Tuyuka aos Barasana, Yeba-Masa, Tatuyo e outros povos do rio Pir-Paran, onde boa parte da vida ritual j aban-donada em lado brasileiro ainda vigora. Atravs dessas relaes, puderam entrever novas possibilidades de viver nas comunidades, agregando-lhes novas rotinas e estimulando rapazes e moas, sempre muito sensveis aos sinais que vem da cidade e do mundo dos brancos, a continuar ali. Obvia-mente, esse processo envolve a apropriao de novas tecnologias e equi-pamentos pelos quais se acessa e disponibiliza informaes nem pre-ciso falar do poder da internet nesses contextos, muito embora o acesso rede seja ainda muito limitado em reas remotas da Amaznia. Em suma, tornaram-se um espao a partir do qual emana um novo nimo coletivo, o que envolve uma re"exo permanente acerca das opes e impasses que agora se delineiam. Um deles, muito sintomtico desse novo estado de coisas, expresso por Higino Tuyuka: seremos s pesquisadores ou real-mente viveremos essa cultura que estamos redescobrindo? Ou como diz Andr Baniwa, idealizador da Escola Pamali do rio Iana: precisamos pen-sar bem no tipo de formao que precisa o novo homem baniwa.

    De certa forma, esse o contexto em que se passou a pensar em um programa de formao avanada indgena. Impulsionada pela ne-cessidade de multiplicar tais experincias, isto , disponibilizar os meios e recursos para tanto a um nmero mais expressivo de comunidades e associaes, bem como completar o ciclo de formao dos vrios gru-pos de pesquisadores indgenas que emergiram das escolas e atividades correlatas, a ideia de criar um programa de formao de quadros para atuar nessa nova fase soava quase bvia. O modo de faz-lo, no entanto, suscita muitas questes, em especial acerca de como montar um currcu-lo apropriado a necessidades que ainda esto sendo identi!cadas. Ponto particularmente complexo diz respeito ao balano que se vai operar nes-

    INTRODUO

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    te processo, entre o conhecimento dos brancos e o conhecimento indge-na. Nas experincias at ento desenvolvidas nas escolas diferenciadas, pode-se dizer que o conhecimento indgena converteu-se em objeto de pesquisas, isto , um tipo de conhecimento se tornou objeto de outro tipo de conhecimento ali praticado. Difcil dizer, mas possvel que, nesse processo, certos esquemas conceituais indgenas tenham sido objetiva-dos nos produtos gerados por essas pesquisas, como se fosse possvel separar seus contedos da forma que assumem, ou da forma pela qual so produzidos. A questo na verdade no nova, pois boa parte das dis-cusses em torno da proteo dos conhecimentos tradicionais unni-me em apontar que sua preservao , antes de mais nada, a preservao das condies pelas quais so continuamente produzidos. Escolas, mes-mo que diferenciadas, di!cilmente podero reproduzir tais condies. Em um outro sentido, foi !cando claro aos diretamente envolvidos que tais processos dinamizam notavelmente a circulao do conhecimento, de tal forma que os registros escritos, ou os seminrios de pesquisa realizados no ambiente escolar, no so capazes de lhe fazer jus. Se a esse nvel j nos deparamos com questes de tamanha complexidade, o que dizer quando se passa a pensar no estgio seguinte?

    Mas talvez aqui resida uma especi!cidade importante do rio Negro. Especulemos: as condies de produo de conhecimento certamente variaram signi!cativamente ao longo da histria recente. Mais que isso, os esforos sistemticos dos missionrios salesianos em destruir as malocas e expropriar as riquezas tradicionais dos grupos da regio ("autas e orna-mentos cerimoniais imprescindveis aos rituais que ocorriam nas antigas malocas) constituiu, de acordo com uma avaliao corrente na regio, um golpe quase insupervel ao que seria a integridade de um corpus can-nico de conhecimentos oriundos do passado mtico, na medida em que cantos e encantaes que forneciam a base dos ciclos rituais foram sendo abandonados. Conta-se que muitos dos antigos especialistas nesse tipo de conhecimento esotrico (os bayaroa e os kumua, mestres de cantos e encantaes respectivamente) morreram de tristeza, e os velhos que a gerao de hoje conheceu j so os !lhos desses: ainda que tenham nascido nas malocas, cresceram em um ambiente no qual o abandono ou a perda da sabedoria dos antigos era como que um fato consumado. Os rituais de iniciao cederam lugar ao perodo em que se passou a fre-quentar os bancos escolares dos internatos, e os antigos kumua tiveram seu prestgio ainda mais abalado com o surgimento de novos lderes ri-tuais, como os ex-alunos que retornavam s comunidades para ocupar o cargo de catequistas e o!ciar os servios dominicais nas pequenas cape-las erguidas sob orientao dos padres.

    O ambiente no qual os velhos de hoje cresceram , de certa for-ma, conhecido de seus !lhos e netos. Suas evocaes tristeza dos anti-gos, os cantos melancolicamente entoados que ainda chegaram a ouvir, e, sobretudo, certas encantaes que, por essenciais, jamais puderam abandonar (proteger os !lhos de doena potenciais, neutralizar o car-ter mal!co de certos alimentos, proteger as mulheres e as crianas dos perigos que envolvem a menstruao e o parto, organizar um dabucuri para os cunhados com quem se troca irms, entre outras possveis), so indcios muito palpveis de que conhecimentos intrnsecos a certas pr-ticas cotidianas atuais conectam-se, certamente de modo complexo, a um sistema intelectual mais amplo, cuja expresso completa encontra-va-se na vida ritual observada nas antigas malocas e no modo de vida mais austero que se levava ali. Qual a consequncia disso? Muitos di-zem que os antigos eram mais fortes e saudveis, menos preguiosos e mais inteligentes, que os jovens de hoje. E o que se perdeu exatamente nesse processo? Esta uma questo que no parece passvel de res-posta precisa. Por outro lado, comum ouvirmos que, se de um lado, muito se perdeu, por outro, muito se adquiriu, e que em certa medida os ndios de hoje j se parecem com os brancos em muitos aspectos. Os brancos, porm, no possuem etnias, no possuem cultura, e, em certo sentido, no correm os mesmos riscos que ndios correm, porque seu corpo e sua comida so diferentes.

    Ou seja, ainda que as condies de produo, reproduo ou transmisso de conhecimento tenham sido fortemente tensionadas no curso da histria, no parece correto a!rmar que tenham se alterado de maneira absoluta. frequente, por exemplo, que no contexto das inter-locues sobre o assunto entre antroplogos e intelectuais ou pesqui-sadores indgenas, dentro ou fora das novas escolas, venha a impresso de que estamos todos olhando para a ponta do iceberg. Ou seja, ain-da que o chamado conhecimento que nossos avs possuram parea em geral encontrar-se alm do alcance de nossa viso, vislumbramos seus lampejos aqui e ali, por entre rios e localidades mais ou menos distantes ainda nos dias de hoje. Tais percepes em comum fazem com que esses parceiros de pesquisa, ndios e antroplogos, se reconheam mutuamente em muitos casos e processos de hoje como colaborado-res efetivos. E ainda que os interesses de uns e de outros nem sempre convirjam, uma base de motivaes em comum, ainda que no isenta de equvocos, parece atualmente engendrar uma situao em que toda pesquisa feita na rea pesquisa com, e no pesquisa sobre os gru-pos locais. Nesse ponto, convm voltar contribuio que pretendemos com o presente volume.

    INTRODUO

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    Como foi dito no comeo, as rotas de criao e transformao que do ttulo ao livro referem-se a um movimento primordial ao longo do curso dos rio da regio, atravs do qual a humanidade se transformou no que , deixando atrs de si o mundo subaqutico no qual paulatinamente ganhou fora e forma a referncia implcita aqui a histria da viagem mtica da cobra-canoa ancestral, contada pelos povos de lngua tukano do rio Uaups, que conduziu os avs longnquos dos grupos indgenas a seus territrios atuais. Quem conhece a regio, e j experimentou viajar com os ndios subindo e descendo os rios ao longo de dias ou semanas para alcanar comunidades distantes situadas nas cabeceiras, e, em senti-do contrrio, visitar parentes que j vivem nas cidades, pode ter uma ideia do quanto essa experincia de deslocamento prolongado, que envolve uma contemplao quadro a quadro da paisagem que vai se descorti-nando aos poucos, proporciona em termos de pensamento e re"exo. Horas e horas em observao constante dos elementos da paisagem, entrecortada pelo aparecimento sbito de comunidades e, sobretudo, de corredeiras perigosas, de pedras em formas espetaculares, de bancos e ilhas de areia, de variao nos padres da vegetao das margens, e da busca atenta pelo canal correto a seguir, constituem-se como um es-crutnio permanente daquilo que j foi visto e interpretado em viagens anteriores. No limite, cada viagem pode ser considerada como uma ve-ri!cao daquilo que se passou, ou no passou, na primeira viagem de todas, a da prpria anaconda ancestral. Viajar no espao , por isso, viajar no tempo, e ler na paisagem os eventos dos tempos passados. So esses eventos que atriburam qualidades ao mundo e seus habitantes, e por esse motivo encontram-se precipitados nas falas e cantos rituais de car-ter esotrico, o conhecimento especializado por excelncia.

    Isso nos leva a conjecturar em que medida aquele conhecimento dos avs de que falamos acima, tido s vezes como perdido, ou perdido em parte, no se encontraria ainda l, por assim dizer. L, seno integralmente alojado no pensamento, possivelmente distribudo ao longo dessas rotas de transformao. Entre o que se guarda em pensamento e o que se adqui-re pela observao ao longo de sucessivas viagens, talvez se situe o modo peculiar pelo qual, no rio Negro, o conhecimento gerado e, mais que isso, disputado. E eis que ndios e antroplogos, cada vez mais, passam a viajar juntos pelos rios da regio. A meu ver, essa a questo geral em torno da qual, de certa maneira, todos os trabalhos reunidos neste livro se articulam. Vou me abster de resumi-los, deixando que o leitor estabelea sua prpria rota entre eles que, de maneira alguma, precisam ser lidos na sequncia em que aparecem. Reservo apenas, para concluir esta introduo, uma pa-lavra !nal sobre a estrutura geral do volume.

    Duas partes formam o livro: Experincias de mapeamento parti-cipativo e Conhecimento e lugares: anlises etnogr!cas. A primeira delas constitu-se em um painel de experincias recentes, envolvendo ndios e pesquisadores, referentes produo de mapas e outros tipos de registros das narrativas de origem das quais derivam. Quase todos os captulos so de autoria compartilhada, alguns assinados por inte-lectuais indgenas. Essas experincias se deram no contexto do desen-volvimento de projetos variados, envolvendo escolas e organizaes indgenas, ONGs, universidades e rgos o!ciais de patrimnio cultural. Em certa medida, sua !nalidade a de divulgar essas experincias tanto na regio como fora dela. A segunda parte traz escritos de antroplogos com muito tempo de experincia de pesquisa na regio. Quase todos correspondem a novas verses de trabalhos que apareceram anterior-mente, em alguns casos em outras lnguas, em publicaes acadmicas. Nesse caso, uma das !nalidades fazer circular na prpria regio uma parte dos trabalhos que resultam de pesquisas etnogr!cas sobre a re-lao entre conhecimentos e lugares, ali realizadas. Nesse sentido, bus-ca atender ao interesse de muitas pessoas do rio Negro em conhecer o resultado das pesquisas antropolgicas feitas em suas comunidades desde vrias dcadas.

    A duas partes encerram-se com captulos sobre a arqueologia da regio. Na primeira, encontramos um relato sobre pesquisas recentes re-alizadas na rea do mdio rio Negro focalizando seus petroglifos, e a su-gesto de que sua elucidao passa pelo estabelecimento de um dilogo com os povos localizados na parte alta da bacia e com suas narrativas. Na segunda, so apresentados os resultados de uma pesquisa pioneira reali-zada nos anos 1990 no rio Uaups. Valendo-se de narrativas orais tariano para a localizao de stios arqueolgicos, este trabalho veio a propor o nico modelo disponvel at o momento referente antiguidade do sis-tema social regional.

    Em seu conjunto, porm, este livro pretende estimular a refle-xo que vem sendo empreendida no contexto dos mltiplos dilogos entre pesquisadores brancos e indgenas acerca de como fazer pes-quisa, do que e como registrar, de como tratar das histrias contadas pelos mais velhos e de como estimular os mais jovens a se envolver nesse tipo de atividade. Mais uma vez, vale mencionar que a pesquisa etnogrfica no rio Negro deixou h um bom tempo de ser prerrogati-va dos antroplogos, que h muita gente na regio envolvida nesses processos de inscrio, e que colaborao parece ser realmente a nova palavra de ordem.

    INTRODUO

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    PARTE I

    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO

    Stio Sagrado Hida Tatuyo

    PARA PRODUO:

    TRATAMENTO: INTERPOLAR / DEIXAR PARECIDO

    COM A REFERENCIA REFORAR COR/DEIXAR

    FUNDO TRANSPARENTE/LIMPAR FUNDO

    AGUARDANDO CREDITO

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    MAPEANDO LUGARES SAGRADOSPATRIMNIO IMATERIAL, CARTOGRAFIA E NARRATIVAS EM IAUARET

    Geraldo Andrello, UFSCar Andr Martini, ISA

    Renata A. Alves, ISAAna Gita de Oliveira, IPHAN

    Este captulo descreve um conjunto de atividades e discusses tra-vadas sobre a identi!cao de stios sagrados existentes na localidade de Iauaret, situada na Terra Indgena Alto Rio Negro s margens do mdio rio Uaups, entre 2004 e 2011. As atividades de identi!cao desses stios iniciaram-se com a aproximao do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional (Iphan) regio em 2004 e parceria estabelecida pelo rgo com a Federao das Organizaes Indgenas do Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA). O intuito desta ao era o desenvolvi-mento de uma experincia piloto de envolvimento de grupos indgenas na nova poltica de patrimnio cultural intangvel, qual o Iphan vinha direcionando esforos desde 2000. A experincia produziu vrios efeitos, entre os quais o reconhecimento da Cachoeira de Iauaret como patrim-nio imaterial. No plano local, este evento inseriu-se em um outro conjunto de aes e discusses em curso, nas quais temas como narrativas mticas, cartogra!a participativa e manejo de recursos pesqueiros possuem des-taque. O captulo busca construir o cenrio geral dessas conexes. Todos os autores participaram em diferentes etapas do processo. Vrias pessoas de Iauaret participaram igualmente, entre as quais cabe mencionar os tariano Adriano de Jesus, Pedro de Jesus, Miguel de Jesus e Luis Aguiar e os tukano Guilherme Maia, Laureano Maia, Moiss Maia e Arlindo Maia. Boa parte do que se segue tambm de sua autoria.

    PATRIMNIO IMATERIAL

    As discusses acerca da construo do Decreto n. 3.551, promul-gado em 2000, instituindo o Registro do Patrimnio Cultural Imaterial e criando o Programa Nacional do Patrimnio Imaterial, basearam-se no extenso acervo de experincias do Instituto do Patrimnio Histrico e Ar-tstico Nacional (Iphan), de suas aes de preservao e proteo ao patri-

    mnio cultural no Brasil. A perspectiva aberta pela ampliao do campo de atuao patrimonial para contextos muito diferenciados em relao outros j consagrados se apresentava como um grande desa!o se consi-deradas apenas as questes abrangidas pelo Decreto Lei n. 25/1937, que instituiu o tombamento de bens materiais1.

    A partir do ano de 2004, a regio do alto rio Negro passou efeti-vamente a constituir um desses contextos. Do ponto de vista do Iphan, o alto rio Negro representava um caso desa!ante, quase paradigmtico. Em primeiro lugar, tratava-se de concretizar as diretrizes estabelecidas no mbito do Departamento do Patrimnio Imaterial orientando suas aes para o levantamento das referncias culturais dos povos indgenas e ampliao da atuao institucional regies situadas, historicamente, margem (ou mesmo fora) do contexto das aes de preservao. Em segundo lugar, tratava-se de enfrentar problemas de fundo, como, por exemplo, a prpria transposio da noo de patrimnio cultural, tal como entendida pela instituio, para contextos culturais diferenciados.

    Outras questes relacionadas construo do objeto a ser patri-monializado se colocavam da seguinte forma: como abordar o comple-xo sistema ritual de trocas j documentados em tantos e extensos textos etnogr!cos? Quais os domnios da vida social imediatamente identi!-cveis para !ns patrimoniais? Qual a melhor abordagem: trabalhar com uma das 22 etnias existentes na regio ou fazer uma aproximao ao con-junto dos bens culturais compartilhados, da mesma forma, fartamente documentados nas etnogra!as? Qual a con!gurao do stio histrico (conceito caro ao patrimnio) a ser identi!cado e delimitado visando a implementao das aes de salvaguarda? Ou ainda, quais as referncias culturais marcadoras daquele contexto cultural? E, por ltimo, mas mui-to importante, como enfrentar os problemas de logstica a quem queira adentrar as bacias e rios da regio? No decorrer do trabalho, algumas des-tas questes foram se clareando ou se desdobrando em outras tantas.

    A parceria estabelecida entre o Iphan, a Federao das Organiza-es Indgenas do Rio Negro (FOIRN), o Instituto Socioambiental (ISA) e associaes indgenas locais foi fundamental para que a proposta se tornasse exequvel nos seus diferentes aspectos e desa!os. Assim que entre maio de 2004, quando o projeto se inicia, e agosto de 2006, quando a Cachoeira de Iauaret declarada patrimnio cultural brasileiro pelo Conselho Consultivo do Patrimnio Cultural, vrias aes de apoio aos processos locais de revitalizao cultural foram implementadas. Entre es-

    1 Trata-se das experincias realizadas no Centro Nacional de Referncias Culturais (CNRC) e na Fundao Nacional Pr-Memria, no perodo compreendido entre o final da dcada de 70 at meados da dcada de 1980. Ambas as instituies dirigidas por Alosio Magalhes.

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    tas podemos destacar o apoio reconstruo de malocas; a identi!cao de ornamentos sagrados depositados no Museu do ndio em Manaus; a elaborao de um Termo de Repatriao destes ornamentos pelo Iphan com a colaborao de advogados do ISA e a participao das lideranas indgenas da FOIRN; a documentao audiovisual do processo de traba-lho por Vincent Carelli, do Vdeo nas Aldeias. Vale mencionar ainda a im-plementao de um Ponto de Cultura na FOIRN em 2008, a partir do qual diversi!cou-se o leque de aes locais voltadas ao patrimnio cultural, ensejando mais recentemente a idealizao de um programa espec!co para o rio Negro no mbito do Ministrio da Cultura. Tal programa, ainda em fase de detalhamento, dever envolver comunidades indgenas situa-das no lado colombiano da regio.

    O marco inicial do processo aqui descrito foi a reunio solicitada pelo Iphan e organizada pela FOIRN em maio de 2004 na maloca exis-tente em sua sede na cidade de So Gabriel da Cachoeira (AM). O alto rio Negro foi escolhido por vrios motivos, dentre eles, a prpria existncia da FOIRN, talvez a organizao indgena de maior destaque na Amaznia, e de sua parceria consolidada h mais de quinze anos com o Instituto Socioambiental (ISA). Por se tratar de uma reunio sobre cultura, foram convocados certos grupos que vm se dedicando implantao de esco-las indgenas diferenciadas, como os Tukano e os Tuyuka do rio Tiqui e os Baniwa do alto rio Iana. Mas alm desses, vieram tambm os Tariano de Iauaret, que, embora no participem de um projeto formal de educao indgena, vinham manifestando vivo interesse em registrar suas histrias de origem, levantar uma maloca e retomar antigas prticas rituais.

    A reunio consistiu basicamente em uma apresentao da poltica de registro dos chamados bens culturais de carter imaterial para este !m classi!cados em saberes, celebraes, formas de expresso e luga-res. Embora o assunto apresentasse alguns aspectos jurdicos estranhos plateia, os grupos presentes demonstraram grande interesse pelo tema. De modo geral, a sensibilidade proposta trazida pelo Iphan re"ete um am-plo interesse por parte dos grupos indgenas dos rios Uaups e Iana em registrar a cultura dos antigos para as novas geraes, que lhes parecem cada vez mais voltadas para as coisas da cidade e dos brancos. E de fato, algumas experincias que a FOIRN vem apoiando buscam responder a esse dilema, especialmente a publicao da Coleo Narradores Indgenas do Rio Negro (j com oito volumes publicados de mitologia Desana, Taria-no, Baniwa e Tukano). Esse material se soma s inmeras cartilhas e livros didticos que vm sendo publicados. Pode-se dizer que essas experincias forneceram uma chave de leitura exposio apresentada por funcionrios do Iphan audincia indgena ento reunida na maloca da FOIRN. Como resumiram os Tariano, agora o governo tambm est querendo apoiar o

    trabalho que j estamos fazendo, demonstrando grande interesse pela proposta do Iphan e a interpretando como uma iniciativa o!cial que vem respaldar e fortalecer suas prprias iniciativas. Mas a forma pela qual o Iphan exps sua metodologia de trabalho lhes sugeriu novas ideias, pois logo em seguida reunio passaram a conjecturar a possibilidade de pro-ceder ao registro de seus lugares sagrados como patrimnio cultural a ser reconhecido pelo governo. No que se segue, buscaremos elucidar as moti-vaes iniciais e as consequncias de tal opo.

    O REGISTRO DA CACHOEIRA DE IAUARET

    Os Tariano, embora participem do sistema de exogamia lingustica que liga os diferentes povos do rio Uaups entre si, ocupam a uma po-sio peculiar. Diferentemente dos demais, eles so originrios da bacia do Iana, ao norte, tendo se !xado no Uaups ainda em perodo pr-co-lonial. Vieram ento a ocupar uma extensa rea no territrio dos grupos tukano, dos quais passaram no apenas a obter esposas na troca de ir-ms, mas tambm progressivamente a adotar a lngua. O centro da rea dos Tariano no Uaups Iauaret-cachoeira, localidade que faz parte das histrias de origem dos vrios grupos que ali residem atualmente. Nessas extensas narrativas, o surgimento e crescimento dos diferentes grupos do Uaups so tematizados na forma de sucessivos deslocamentos espao--temporais de seus ancestrais, processo que de!ne tambm seus respec-tivos territrios.

    Segundo os Tariano, Iauaret o lugar onde se !xaram seus ances-trais, que se deslocaram do alto Aiari, a"uente do rio Iana, onde tiveram origem junto a outros grupos de lngua arawak. Em Iauaret, a popula-o tariano hoje de cerca de 850 pessoas. O restante da populao do povoado, cerca de duas mil pessoas, composta por representantes dos grupos de lngua tukano do Uaups Tukano, Desana, Pira-Tapuia, Wana-no, Tuyuka e outros. Para estes, a cachoeira de Iauaret mais um entre os vrios pontos de parada da cobra-canoa, que em seu bojo trouxe ao Uaups seus ancestrais.

    Iauaret hoje quase uma cidade, com colgios, hospital, energia eltrica, correios, televiso, pista de pouso, peloto do Exrcito e um ativo comrcio indgena. At meados dos anos 1980, eram quatro as comuni-dades tariano em torno da misso salesiana, ali fundada em 1930. Hoje so dez bairros ou vilas. Considera-se, em geral, que o !m do internato que os salesianos mantiveram ali por dcadas tenha sido a principal cau-sa dessa concentrao demogr!ca. Sem os meios usuais para manter as crianas frequentando os bancos escolares, muitas famlias passaram a !xar residncia permanente em Iauaret. Inicialmente, cresceram as an-

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    tigas comunidades dos Tariano, que se viram obrigadas a ceder espao de moradia, como tambm para a abertura de roados, a seus cunhados Tukano, Pira-Tapuia, Wanano e assim por diante. Em seguida, os padres passaram a ceder as reas por eles ocupadas com pastos e roas no pas-sado para a formao de novas comunidades. Nesse contexto, a gesto dos assuntos comunitrios crescentemente envolta em novas di!cul-dades. As famlias de uma mesma comunidade de origem encontram-se, via de regra, dispersas em diferentes bairros, o que re"ete a circunstncia espec!ca da chegada de cada uma delas ao povoado. As crianas e os jovens passam grande parte do tempo no colgio e desfrutam de uma convivncia bem menos intensa com pais e avs. Boa parte do dia gasta em frente TV. E assim, o comentrio mais frequente em torno das di!-culdades enfrentadas em Iauaret diz respeito a um certo descontrole da juventude, que se traduz concretamente em muitos casos de briga por ocasio de festas e de gravidez precoce.

    Mas uma outra linha de tenso que se pode perceber no cotidiano de Iauaret relaciona-se, precisamente, a um debate nem sempre expl-cito referente s prerrogativas reivindicadas pelos Tariano e pelos demais grupos de lngua tukano quanto a quem so os moradores legtimos do lugar. O debate refere-se diretamente situao de urbanizao e con-vivncia incontornvel que a nova situao imps a esses grupos. O fato inegvel que Iauaret uma localidade do rio Uaups onde as trajet-rias de dois dos principais grupos indgenas da regio, Tariano e Tukano, se cruzam. Alm de sua posio geogr!ca estratgica, trata-se de um lugar cujas prerrogativas para o estabelecimento de novas comunida-des so disputadas pelos Tukano e pelos Tariano, que contrapem inter-pretaes acerca de suas respectivas narrativas mito-histricas. Embora seja difcil avaliar, possvel aventar que a concentrao demogr!ca e, assim, o processo de urbanizao em curso, tambm resulte dessa ca-racterstica particular: para alm das facilidades em termos de educao, sade e renda, muita gente parece julgar-se no mais pleno direito de viver e criar seus !lhos ali. Por tudo isso, Iauaret uma localidade nica no contexto regional.

    Essa foi mais uma circunstncia que permitia aos Tariano presen-tes na reunio da maloca da FOIRN apreender a poltica de patrimnio imaterial proposta pelo Iphan. No quadro legal institudo pelo Decreto n. 3.551, lugares tambm podem ser patrimnio cultural. Para os Taria-no, Tukano e demais grupos do alto rio Negro isso certamente no ne-nhuma novidade. S que o decreto falava de mercados, feiras, santurios, praas. J os Tariano estavam pensando em sua prpria casa. Pois, como tentaram demonstrar nos meses seguintes: nossa histria est escrita nas pedras da cachoeira de Iauaret. Esses eram os lugares sagrados que

    eles pretendiam registrar. E o Iphan, em princpio, acatou sua proposta. Lembremos que, por ocasio da demarcao das Terras Indgenas na regio, entre 1997 e 1998, vrias lideranas j diziam que nossa rea j marcada, a demarcao mais uma con!rmao. Referiam-se ento vasta gama de signi!cados mticos atribudos s pedras das inmeras corredeiras dos rios da rea, muitas delas apresentando petroglifos (ver a respeito, Ricardo, 2001).

    Com um mapa detalhado do povoado, visitamos Iauaret muito ra-pidamente em novembro de 2004. Nessa ocasio, assinalamos com eles um conjunto de mais de vinte pontos, que deveriam ser visitados em feve-reiro ou maro do ano seguinte, quando as guas do Uaups estivessem em seu nvel mais baixo (Mapa abaixo). Eles insistiram para que visse-mos munidos de instrumentos que permitissem um registro daquilo que iramos ver: paralelamente narrativa que se faria in loco, era preciso foto-grafar e, se possvel, !lmar aquelas pedras junto com os prprios Tariano

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    contando o que cada qual signi!cava. Pois se tratava de um testemunho visvel das prerrogativas que reivindicam sobre o lugar. J em fevereiro de 2005, estvamos em Iauaret novamente (Geraldo Andrello pelo ISA, Ana Gita de Oliveira pelo Iphan e Vincent Carelli, vdeo-documentarista do V-deo nas Aldeias). Durante dez dias, os Tariano do cl Koivathe colocaram--se inteiramente disposio para realizar o trabalho. Ao longo desses dias, realizaram um esforo notvel, debatendo entre si e recitando de maneira formal e solene uma histria que se passou em Iauaret muito tempo antes do surgimento da atual humanidade (Tariano, Tukano, de-mais grupos e brancos). Utilizando GPS, localizamos sobre uma base car-togr!ca previamente preparada os lugares que diziam respeito antiga histria de seu ancestral mtico, que dera origem, em sucessivas transfor-maes, a algumas das pedras da Cachoeira de Iauaret. A narrativa dizia respeito ao tempo primordial da pr-humanidade, um mundo povoado por divindades criadoras que buscavam fazer surgir rios, animais, plantas e verdadeiros seres humanos.

    Essa histria se passa em um mundo em formao, e por meio dela que os Tariano explicam como a cachoeira de Iauaret veio a se constituir. A palavra Iauaret, cachoeira de ona, um topnimo que faz aluso a uma gente-ona, que no passado remoto habitou o lugar. a partir dessa narrativa mtica que os Tariano fundamentam suas reivindi-caes como moradores legtimos de Iauaret, pois ali se conta a origem de vrias das lages, pedrais, ilhas e parans dessa cachoeira na forma de sucessivas transformaes de um demiurgo chamado Ohkomi. Segundo contam, a gente-ona j sabia que Ohkomi viria a dar origem a um grupo numeroso que iria dominar o rio Uaups os Tariano. Por esse motivo, ele foi capturado em sua prpria casa (situada no que hoje uma eleva-o onde se localiza o bairro de Cruzeiro), sacri!cado, morto e devorado pelas onas. Com as onas em seu encalo, Ohkomi buscava despist-las transformando-se em animais e plantas. Todas as formas que assumiu at ser morto tornaram-se pedras da cachoeira que hoje se prestam coloca-o de armadilhas de pesca. So esses os lugares sagrados que os Taria-no nos levaram a conhecer e queriam registrar com o apoio do Iphan. tambm a partir de trs pequenos ossos que restaram da mo direita de Ohkomi que iro se originar os ancestrais tariano, a quem coube dar !m gente-ona e tornar o rio Uaups um lugar apropriado para a !xao e crescimento de uma verdadeira humanidade. Desse modo, do ponto de vista tariano a localidade de Iauaret constitui em si mesma um registro de sua histria, cujo conhecimento fornece ainda um mapa detalhado acerca dos pontos ideais para a colocao de armadilhas de pesca e, as-sim, para a obteno dos recursos alimentares essenciais no tempo pro-priamente humano.

    Segundo a!rmam, foi graas ao extermnio da gente-ona por seus ancestrais que a cobra-canoa dos ancestrais tukano pde subir o rio Uau-ps e povo-lo. E de fato, os Tukano e demais grupos no tardaram a se envolver no processo de registro da cachoeira de Iauaret, argumentan-do, no entanto, que suas histrias esto igualmente marcadas em outras de suas pedras. O ponto central de seu argumento referia-se a uma reen-trncia existente em grande laje situada logo abaixo do trecho mais aci-dentado da cachoeira. Segundo eles, este elemento era o sinal inequvo-co de que a grande cobra-canoa de seus antepassados aportara naquele local, de onde ainda seguiria abrindo um canal por entre as pedras da cachoeira para submergir para sempre nas guas do rio Uaups acima. Ou seja, se do ponto de vista tariano havia um grande conjunto de pedras dispersas pelo local que testemunhavam a histria do sacrifcio de seu av Ohkomi, para os Tukano havia pelo menos uma pedra a evidenciar e fundamentar seus pleitos, e, ainda, a prpria existncia do canal que at os dias de hoje permite o trnsito de canoas e outras embarcaes pelo Uaups, a montante e jusante de Iauaret. Alem disso, muitas pessoas questionavam o monoplio pretendido pelos Tariano quanto histria da gente-ona. Para estes, os episdios que levaram a seu extermnio se encaixam em diversas outras verses das narrativas que tematizam a fase pr-humana do universo (para esses outros detalhes, ver Andrello, 2012, no prelo).

    Ao !nal, resultou que o pedido de registro da cachoeira no livro dos lugares, assinado por lideranas tariano e tukano, teve de ser en-caminhado em nome de todas as etnias que hoje vivem em Iauaret. O Conselho Consultivo do Iphan se posicionou favoravelmente a este pleito, aprovando-o em 4 de agosto de 2006. A democratizao do pe-dido de registro e de sua efetuao incidiu diretamente no formato das aes de salvaguarda empreendidas pelo Iphan aps o registro, espe-ci!camente na forma de uma ampliao dos mapeamentos referentes aos lugares mticos da regio do mdio Uaups e Papuri a partir de Iaua-ret. O processo que se seguiu envolveu a realizao de o!cinas de car-togra!a, das quais participaram no apenas os Tariano do cl Koivtahe, mas vrios outros grupos.

    A CARTOGRAFIA DOS LUGARES SAGRADOS

    O uso de cartas-imagem e mapas base (com hidrogra!a e topon-mia das comunidades e stios atuais e antigos) nos levantamentos iniciais da Cachoeira de Iauaret e nas o!cinas subsequentes representou, por um lado, a introduo de novas tcnicas, e por outro a ampliao progressiva da rede social envolvida no desdobramento das atividades, que inclua a

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    localizao de outros lugares sagrados nos rios Uaups e Papuri. Coorde-nadas por Renata Alves, ecloga do Laboratrio de Geoprocessamento do ISA, as duas o!cinas realizadas em 2007 e 2008 mostraram o potencial, em termos de contedo narrativo, que cada um desses lugares nomeados sus-cita, baseados na observao informada dos elementos das paisagens.

    Durante cinco dias, em maio de 2007, uma primeira o!cina de car-togra!a dos lugares sagrados foi realizada em Iauaret. Aproximadamen-te, cem pessoas participaram, de estudantes a ancies, pertencentes a cinco cls tariano (Koivathe, Pukurana, Wamialikune, Malyeda e Kumada Kurubi), dois cls tukano (Oy e Kimro Por), alm de pessoas desana e arapasso. A iniciativa dos Koivathe em registrar a toponmia referente

    Cachoeira de Iauaret em mapas j era um fato bem conhecido, o que estimulou a participao desses outros grupos. Para a ocasio, cada um deles se concentrou em sua regio de origem, buscando identi!car os lugares sagrados existentes em cada uma delas. O material de apoio para essa o!cina foi anteriormente elaborado no Laboratrio de Geoproces-samento do ISA em So Paulo, e consistiu basicamente na preparao de mapas-base (com informaes detalhadas sobre o curso dos rios e a lo-calizao das comunidades em suas margens) e cartas-imagens (do sat-lite Landsat) do povoado de Iauaret e da regio do alto Uaups e Papuri como um todo. Todo esse material foi impresso no formato 100 x 70 cm, permitindo assim a plotagem direta pelos grupos dos stios identi!cados. O trabalho de plotagem foi precedido de uma discusso interna a cada grupo na qual arrolou-se os pontos a serem marcados sobre os mapas, isto , o que realmente gostariam e poderiam tornar pblico.

    A maioria dos grupos decidiu, paralelamente ao trabalho de plota-gem, registrar por escrito fragmentos das narrativas relacionadas a cada ponto. Em alguns casos, utilizaram legendas numricas correlacionando pontos nos mapas a esses escritos, j que, exceo das cartas de Iaua-ret, a escala utilizada di!cultava uma plotagem precisa. De fato, a escala dos mapas disponveis mostrou-se um fator limitante para grande parte do trabalho realizado. Evidncia disso o que foi possvel registrar para Iauaret, localidade para a qual se contava com uma imagem do satlite Ikonos de alta de!nio, e assim com uma carta na escala de 1 : 3 mil, e o que foi obtido com as demais cartas, todas elas na escala 1 : 100 mil. O primeiro mapeamento da Cachoeira de Iauaret com o grupo do cl Koiwathe em 2005 apontou 20 pontos mencionados nas narrativas mti-cas, j em 2008, como resultado de duas o!cinas, foram 75 pontos. Nessa segunda etapa, participaram vinte pessoas de dois cls tariano. Essa to-ponmia mais extensa diz respeito a um conjunto mais diversi!cado de narrativas mticas, vrias delas ainda a registrar. J os outros cinco grupos (trs de cls tariano, um tukano e um desana), que trabalharam com car-tas de vrias partes do Uaups e Papuri identi!caram no total duzentos e trinta lugares, mencionados em diversas narrativas mticas.

    O mapa da pgina anterior e os mapas abaixo representam a fase atual de um processo no qual os Tariano e os Tukano relembram seus lu-gares e histrias, tentando junto com assessores tcnicos consolid-los cartogra!camente.

    O conjunto de pontos assinalados nos mapas referem-se a diversos tipos de acidentes, como ilhas, igaps, boca de igaraps, pontas, lajes, pe-dras e serras, bem como a stios de antigas malocas e as assim chamadas casas de transformao, pontos de paradas da viagem da grande ana-conda que trouxe ao Uaups os ancestrais dos grupos atuais. Todos eles

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    foram identi!cados com base em narrativas referentes a episdios ocor-ridos no tempo mtico, envolvendo diversas personagens, e das quais derivam muitos de uma srie de cuidados relacionados ao manejo atual de recursos naturais e sade das pessoas. Os dados dos oito mapas pro-duzidos durante a primeira o!cina formaram um Sistema de Informaes Geogr!cas, que permitiu a confeco de novos mapas de trabalho para revises continuadas. Em 2008 foi feita uma nova e pequena o!cina de cinco dias, com aproximadamente trinta pessoas, para reviso dos luga-res mapeados na primeira, inclusive com vrias discusses sobre o uso da lngua tukano pelos Tariano e seu esforo para encontrar o nome de vrios lugares em sua prpria lngua. Nessa ocasio, foram feitas visitas a alguns ancies e a alguns lugares cuja identi!cao no era possvel na escala dos mapas disponveis, nos quais foram tomados pontos de GPS e registro fotogr!co. O mapa geral da regio do Uaups e Papuri apresen-tado acima um resultado provisrio do esforo inicial empreendido por ocasio dessas o!cinas.

    A lio fornecida pelas duas o!cinas a de que os mapas vo ga-nhando paulatinamente elementos novos, de acordo com detalhes nar-rativos que surgem a cada ocasio. A impresso resultante a de que o processo de elaborao desses mapas virtualmente in!nito, especial-mente se a cada etapa pudssemos ampliar sua escala, bem como com-binar este exerccio com mais tempo para as visitas no local. Com efeito, a variao em termos de detalhes que se veri!ca entre o mapa do povoado de Iauaret (escala 1 : 3 mil) e o mapa mais geral da regio (1 : 100.000) notvel. Alm disso, a possibilidade de visitar os pontos mencionados nas narrativas referentes Cachoeira de Iauaret e suas imediaes garante ao mapeamento dessa sub-regio um grau de detalhamento impensvel para as demais partes da rea. O mapa abaixo talvez seja o melhor exem-plo at o momento do que possvel registrar atravs dos procedimentos adotados. Ou seja, por se tratar da rea circundante ao prprio local de realizao das o!cinas por onde vrios dos participantes circulam em suas atividades cotidianas , abria-se neste caso a possibilidade de se in-terpretar ou elucidar in situ alguns dos contedos referentes paisagem local presentes nas narrativas que iam sendo rememoradas.

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    Como disseram os Tariano Koivathe no comeo do processo, nossa histria est escrita nessas pedras. Passa-se, no entanto, que, no contexto do Distrito de Iauaret, este cl demonstra, como vimos mais acima, uma trajetria muito particular. Talvez seja um dos poucos cujos membros re-conhecem na prpria cachoeira onde se !xaram h muitas geraes as marcas do tempo pr-humano relacionadas a seu surgimento e seus atri-butos atuais. Alm disso, tal como outros cls tariano estabelecidos em torno da Cachoeira de Iauaret, eles cuidaram de apontar os limites de um territrio tariano triangular, cujas pontas situam-se em Campo Alto (rio Uaups a jusante de Iuaret), Miriti (rio Uaups a montante de Iaua-ret) e Aracap (entrando pelo rio Papuri), e que, do ponto de vista de outros grupos, considerado um enclave arawak no corao do territrio tukano. certo, portanto, que se os cls tukano presentes nas o!cinas dis-pusessem de condies semelhantes na produo de mapas, o resultado cartogr!co que se chegou ao !nal seria bem outro.

    Ou seja, certo que a Cachoeira de Iauaret um lugar impor-tante tanto para os Tariano como para os Tukano, Desana, Arapasso e outros, porm em medidas desiguais. Pois as transformaes mticas ali registradas seriam, para os Tariano, equivalentes quilo que a narra-tiva tukano distribui ao longo de praticamente toda a trajetria de sua anaconda ancestral. Eis, portanto, um problema metodolgico que as oficinas de cartografia em Iauaret evidenciaram: como proceder confeco de mapas locais se as narrativas das quais derivam referem--se, em grande medida, a movimentos e paradas sucessivas? Como efetuar o registro desses elementos em cartogramas sem empreender tais movimentos uma vez mais? Foram os prprios Tariano Koivathe que cuidaram, alis, de pleitear recursos para refazer o trajeto de seus antepassados do rio Iana em direo ao Uaups. Esta seria mais uma das aes de salvaguarda da Cachoeira de Iauaret, pois se eles eram capazes de demonstrar sua ligao ancestral quela paisagem, faltava mapear o caminho anteriormente percorrido que os levou at l.

    A questo interessante que toda a experincia levanta , portan-to, a da prpria conexo entre paisagem e narrativa. No parece fortuito que, antes de se por a fazer plotagens, os grupos presentes nas o!cinas tenham se dedicado de antemo a escrever trechos de narrativas. Es-tas so as fontes que proporcionam os detalhes daquilo que foi visto e experimentado em viagens passadas, sua enunciao ela prpria um mapeamento repetidamente efetuado, assim como as constantes des-cidas e subidas pelos rios nos dias de hoje no deixam de ser viagens de re"exo sobre acontecimentos do passado mais ou menos distante. A !xao dos elementos da paisagem nas cartas geogr!cas fornecidas por ocasio das o!cinas no pde, assim, prescindir desse trabalho da

    memria. A (im)possibilidade de refazer alguns caminhos determinou o maior ou menor detalhamento dos mapas gerados, de maneira que a densidade do mapa parcial da pgina 29, que situa em seu centro a Cachoeira de Iauaret e registra a extensa toponmia de suas zonas ad-jacentes, sugere que idealmente esse exerccio deveria ser feito, ele pr-prio, em movimento. Caso contrrio, o risco que se corre aquele que o antroplogo Tim Ingold (2000b: 234) chamou de iluso cartogr!ca: a presuno de que a estrutura do mundo representada nos mapas !xa-da independentemente dos movimentos de seus habitantes. Um mapa preenchido por uma toponmia indgena , dessa maneira, apenas uma plida e codi!cada imagem da paisagem intensamente projetada pelas narrativas de deslocamento.

    As narrativas de origem elaboradas pelos povos do Uaups so unnimes em apontar que o prprio curso do rio Negro e seus afluen-tes, e de modo geral o de todos os rios da bacia amaznica, ganharam existncia graas ao movimento de subida da anaconda ancestral des-de a porta das guas, situada na foz do Amazonas. No se tratou, po-rm, de um movimento aleatrio, pois a estrutura arborescente desses rios se deve, precisamente, derrubada da grande rvore ali encontra-da pelos ancestrais. Aps o grande dilvio que se seguiu, os viajantes seguiram caminho no sentido leste-oeste, correspondente ao tronco dessa rvore e seus galhos, isto , subindo o Amazonas e entrando por seus afluentes e sub-afluentes at encontrar o centro do universo. Ponto importante a ressaltar que essa viagem-gestao da humani-dade realizada pelos ancestrais de todos os grupos atuais. As pes-soas costumam apontar que se trata de uma mesma histria, porm contada de diferentes pontos de vista. possvel com isso, e de modo ainda mais problemtico para a cartografia, que um mesmo ponto de parada ou episdio seja situado em lugares diferentes de acordo com a posio atual do grupo do narrador no contexto regional.

    Assim, em se tratando de elaborar cartogramas baseados na car-tografia cartesiana convencional, outros problemas inevitavelmente iro surgir. Pois cada narrativa um exerccio particular de mapea-mento, de modo que o esforo continuado em condensar vrias delas em um mesmo processo de construo de mapas2 pode redundar em dilemas insuperveis. Eis um problema que faz pensar, afinal de con-tas, que tipo de mapa poderia fazer jus a esta dinmica. Em certo sen-tido, esse tipo de questo influenciou o conjunto de atividades que passaram a ser realizadas no ano seguinte.

    2 Neste ponto, a distino entre mapeamento e construo de mapas seria equivalente quela entre o oral e o escrito (ver novamente Tim Ingold, 2000, cap 13)

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    ENSAIO DE METODOLOGIA

    Em 2009, foi criado o Conselho Gestor de Projetos de Iauaret, que rene representantes de cinco organizaes indgenas e instituies (Coi-di, Cerci, Cepi, Escola So Miguel, Estao de Piscicultura de Iauaret e, mais recentemente, o Ceremak) que possuem projetos no povoado e seu entorno. Sua composio heterognea, que inclui desde conhecedores tradicionais, passando por tcnicos indgenas em piscicultura, professo-res e jovens pesquisadores, vem permitindo no apenas a formulao de novas propostas de mapeamento de lugares sagrados, mas tambm ajus-tes em sua metodologia, alcance e nfase, nos ltimos anos.

    A avaliao por este conselho das atividades at ento realizadas sugeriu que a continuidade do trabalho no deveria restringir-se a bus-car pela toponmia presente nas narrativas de origem para registr-la em mapas pr-elaborados ou semi-elaborados. Optou-se pela busca de mecanismos que explicitassem a relao entre as narrativas e as prti-cas referentes aos lugares que vinham sendo identi!cados, prticas que se constituem como elementos centrais no processo de transmisso do conhecimento. Desse modo, um procedimento metodolgico sugerido deveria envolver a presena de velhos conhecedores junto a jovens pes-quisadores indgenas, bem como expedies a esses lugares, nas quais se pudesse experimentar a conduta adequada e coletar as histrias a eles relacionadas. O !o condutor dos trabalhos passou a ser o conjunto de cuidados que cercam os lugares sagrados, a que eles se devem e quais as consequncias de sua no observncia. Dessa forma, a transmisso oral direta e a vivncia prtica seriam exploradas de maneira mais intensa, a despeito da continuidade da plotagem dos lugares, que poderiam e de-veriam continuar sendo visualizados em mapas.

    Nesse ponto, o projeto que deu origem em 2008 ao Cepi (Centro de Estudos e Pesquisas Indgenas de Iauaret), !nanciado com recursos oriundos da Fundao Moore e canalizados pelo ISA, encontrou ressonn-cia com outro projeto desenvolvido h mais tempo, Manejo Pesqueiro em Iauaret, !nanciado pelo PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indge-nas, Ministrio do Meio Ambiente), cujo proponente a FOIRN e os exe-cutores diretos so os tcnicos indgenas da estao de piscicultura local. Dentre outras linhas de ao, como criao arti!cial de peixes, o!cinas de conhecimentos de manejo tcnico e de conhecimentos tradicionais, este projeto envolve o mapeamento dos pontos de piracema, que, via de regra, acontecem justamente em trechos dos rios especi!camente nomeados. A proposta desse projeto justamente mapear os lugares de piracema, quais as regras de pesca que eram observadas no passado e como os pescadores esto exercendo a atividade hoje, com novas tcnicas e novas !nalidades

    comerciais, bem como o impacto que esto provocando em termos de es-cassez de peixes. Aponta-se em geral que o uso de artefatos dos brancos na pesca e o desrespeito s regras de conduta antigamente observadas nos lugares sagrados so os principais fatores do atual escasseamento do pes-cado e do surgimento de doenas na regio. Ou seja, esses lugares tambm esto relacionados com o que convencionamos chamar de manejo. Nesse sentido, vale destacar alguns princpios que passaram a nortear os traba-lhos: a) a convivncia entre narradores e pesquisadores indgenas e visita conjunta aos lugares; b) o registro das informaes usando novas tecno-logias; c) uma poltica de organizao e gesto do material recolhido. Mas tambm nesse novo contexto foi reiterada pelo Conselho a importncia da confeco de mapas com informaes dos lugares sagrados.

    Em uma primeira etapa, foram visitados cerca de 60 pontos entre os rios Uaups e Papuri no ano de 2009, atravs de trs viagens em que se percorreu os trechos dos rios Uaups e Papuri mais prximos a Iauaret. Es-ses pontos foram marcados com GPS, fotografados e !lmados. Entretanto, os pesquisadores indgenas tiveram di!culdades em abordar os velhos co-nhecedores, principalmente em comunidades fora de Iauaret, bem como com a organizao do material colhido. Muitos pontos no foram nomea-dos no aparelho de GPS e, meses depois, durante o processamento dos da-dos, tiveram di!culdades em articular as narrativas, as imagens fotogr!cas e de vdeo com os pontos colhidos. Alm disso, para confeco de mapas, os projetos continuaram a depender quase que completamente do labora-trio de geoprocessamento do ISA, que, alm de !car em So Paulo, possui capacidade limitada para prestar o tipo de apoio necessrio.

    De fato, a elaborao local dos mapas deveria vir acompanhada de formao conceitual e tecnolgica. Porm, devido a di!culdades de agenda e planejamento de atividades de campo, acabou sendo adiada para a etapa seguinte.

    Essa primeira etapa no foi de grande aproveitamento em termos de produtos cartogr!cos !nalizados, mas foi importante para a calibra-gem da iniciativa. Em primeiro lugar, !cou claro que seria preciso criar um banco de dados para que os registros no se pulverizassem em informa-es desconectadas. Tambm !cou evidente a necessidade de um trei-namento mais aprofundado em cartogra!a e operao do equipamento GPS. Era preciso, pois, de!nir uma metodologia que permitisse o estabe-lecimento de protocolos mnimos e uni!cados para gerir os dados a se-rem obtidos no contexto da interlocuo entre os jovens pesquisadores e os velhos conhecedores, bem como uma poltica de gesto e circulao do contedo registrado. O experimento consistia, em suma, em uma ten-tativa de combinar o uso de tcnicas modernas de construo de mapas ao registro de narrativas e de seu modo peculiar de mapeamento.

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    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO MAPEANDO LUGARES SAGRADOS

    Para tanto, seria evidentemente necessrio garantir o maior grau possvel de autonomia aos pesquisadores indgenas em termos tcnicos. Para tentar resolver essa di!culdade, em julho de 2010 o ISA ofereceu uma nova o!cina de cartogra!a voltada para a formao do ento recm--criado grupo de pesquisadores indgenas de Iauaret (Cepi). Dessa vez, a o!cina foi preparada com a !nalidade de apresentar conhecimentos ins-trumentais de software e GPS, bem como de fundamentos conceituais bsicos da cartogra!a: a histria dos mapas; noo de escala, latitude e longitude; leitura de mapas impressos e clculos de rea e distncia. Tam-bm foi aprofundado o conhecimento instrumental do uso do GPS, des-de sua con!gurao at o uso de outras ferramentas, como rotas, bssola, calibragem, dentre outros.

    A dependncia do laboratrio de geoprocessamento do ISA tam-bm foi contemplada. Discutiu-se uma metodologia que visava o desen-volvimento de um processo informatizado, acessvel aos pesquisadores e demais participantes indgenas. Para garantir autonomia progressiva, a su-gesto dos tcnicos do Laboratrio de Geoprocessamento do ISA foi o uso de um software muito simples (GPS trackmaker), atravs do qual pontos de GPS coletados poderiam ser exportados para o computador; seus smbolos e legendas poderiam ser editados e, posteriormente, inseridos diretamente no Google Earth. Nesse programa, os pesquisadores indgenas poderiam modi!car os smbolos dos pontos, adicionar informaes bsicas, visualizar o mapa editado na tela do computador e gerar verses sucessivas.

    A o!cina contemplou ainda a necessidade de construo conjunta de um banco de dados uni!cado para o levantamento dos lugares. Este banco baseia-se em ferramentas simples, tendo como principal referncia uma planilha de excel, que relaciona o ponto de GPS com a narrativa dos conhecedores, fotos e !lmes feitos durante a pesquisa. Todo o material pas-saria a ser armazenado nas pastas de um diretrio, sendo o nome do ponto a referncia para busc-lo dentre os arquivos. Idealizava-se, assim, uma so-luo para o problema de pulverizao do material de pesquisa. Para facili-tar a aproximao dos jovens pesquisadores indgenas na abordagem dos conhecedores tradicionais, foi construdo um protocolo de perguntas-guia para interpretao das narrativas colhidas em funo dos temas trabalha-dos nas pesquisas. Esse protocolo envolve a informao prvia3 de que se tratava de uma pesquisa intercultural, com a !nalidade de registrar e circu-lar, principalmente entre jovens alunos da escola, os conhecimentos relati-vos aos lugares sagrados. As narrativas passariam a ser coletadas na lngua

    3 A criao do Cepi, seus objetivos e mtodos de trabalho, foram submetido a ampla consulta s lideranas indgenas de Iauaret, bem como Federao das Organizaes Indgenas do Rio Negro (FOIRN) (para um relato detalhado desse processo, ver Martini et al, 2010).

    tukano, com um resumo em portugus a ser elaborado pelos prprios pes-quisadores indgenas. Este resumo seria sempre datado, levando o nome do pesquisador/entrevistador e o nome do narrador (ou narradores). A narrativa completa deveria ser !lmada ou gravada, sempre com anuncia prvia do narrador, e os lugares fotografados e !lmados.

    CAMPOS DA TABELA ORIENTADORA DO BANCO DE DADOS DOS LUGARES SAGRADOS

    1. Nmero de Registro: nmero sequencial que o local sagrado recebe ao ser cadastrado no banco de dados.

    2. Nome do Ponto: a nomeao do ponto, tal qual foi feita no mo-mento da coleta atravs dos aparelhos de GPS

    3. Nome em Portugus: glosa do nome do lugar sagrado4. Nome em tukano: nome do lugar sagrado no idioma escolhido

    para pesquisa, por ser a lngua franca da regio.5. Rio/Igap/Lago: em caso de pontos que se localizam em am-

    bientes aquticos, qual o nome do Rio, ou Igap ou Lago onde se encontram.

    6. Trecho: Trata-se de uma orientao geogr!ca local, tendo o povoado de Iauaret como referncia. Uaups acima, quando o lugar sagrado !ca acima do povoado; Uaups abaixo; e mdio Uaups, quando se encontra na rea de Iauaret. Em caso de pontos em outros rios, o rio ser dividido em baixo, mdio e alto, seguindo a mesma referncia.

    7. Localidade: o nome do lugar habitado mais prximo ao lugar sagrado registrado (pode ser um stio, uma comunidade ou o prprio povoado de Iauaret)

    8. Local: Se o lugar sagrado (ou mais lugares) se encontrar em um conjunto paisagstico ou social que nomeado por seu conjunto (exemplo: Cachoeira de Iauaret; Vila Cruzeiro, etc)

    9. Tipo de local: a interpretao da paisagem na qual se insere o ponto (cachoeira, lajem de pedra, estiro, terra !rme, igap, igarap, etc)

    10. Armadilha Tradicional: se o local usado pela populao para a instalao de armadilhas tradicionais de pesca e quais so ali usadas.

    11. Petrecho 1, 2 e 3: Quais petrechos de pesca (incluindo os de origem no indgena, como malhadeiras ou redes) so usados pelos pescadores no local, em ordem de importncia.

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    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO MAPEANDO LUGARES SAGRADOS

    Em 2011, essa estratgia metodolgica comeou a ser posta em prtica. Efetivamente, foram produzidos quatro !lmes sobre o tema em Iauaret, cuja divulgao ainda se limita ao mbito local, em particular entre os mais de mil estudantes do Colgio So Miguel, das mais varia-

    das origens geogr!cas e tnicas da regio. As diferenas entre os grupos locais foi, com efeito, um tema que mereceu ateno do Conselho Ges-tor de Projetos, tendo em vista os debates suscitados j por ocasio dos trabalhos de documentao para o registro da Cahoeira de Iauaret (cf. acima). Os conhecimentos a serem compilados e/ou produzidos devero ser geridos de maneira a garantir o respeito diversidade tnica, s es-pecialidades rituais, bem como s relaes entre os grupos indgenas e destes com os brancos.

    Evidentemente, cada pesquisador, cada tcnico, assessor e narra-dor indgena conecta-se a uma ou mais redes tradicionais de produo/troca de conhecimentos. Cada participante deste processo trs consigo, portanto, um ponto de vista espec!co sobre as narrativas de origem e as rotas de transformao, em geral aquele apreendido atravs de sua rede de parentesco. H, entretanto, um pano de fundo comum s diferentes verses, bem como uma convico crescente, por parte dos conhecedo-res tradicionais, do movimento indgena e dos participantes diretos dos projetos de que preciso fazer com que, na medida certa, os jovens e mesmo os no-indgenas as conheam e respeitem, cada qual a sua ma-neira. Tambm impossvel negar que, com o adensamento das relaes entre os grupos que convivem em Iauaret e na regio como um todo, resultado da introduo crescente de facilidades de transporte (motores de popa), comunicao (rdio, telefones, internet) e o encontro frequente entre grupos na cidade de So Gabriel da Cachoeira, haja cada vez mais curiosidade quanto maneira pela qual os conhecedores de diferentes etnias contam suas verses das narrativas de origem. Nesse sentido, po-demos considerar Iauaret um locus privilegiado de observao e expe-rimentao o povoado rene atualmente cerca de 2.750 pessoas de 13 grupos tnicos distintos.

    O dilogo entre verses diferentes das narrativas, dos ciclos ecol-gicos, astronmicos e econmicos e dos conhecimentos relacionados aos lugares sagrados praticado cotidianamente, entre parentes, vizinhos e, em algumas ocasies, at mesmo entre grupos que mantm certa dis-tncia. Mas nem sempre essa troca de conhecimentos feita de maneira amigvel, e podemos a!rmar que existe certa disputa entre alguns grupos no sentido de se estabelecer uma verdadeira narrativa. Entretanto, ma-nifesta-se crescentemente o seguinte princpio: esta a forma como eles contam. Assim, algum espao comea a se abrir para novas formas de di-logo. Da mesma maneira, percebe-se o aparecimento de uma motivao entre as pessoas no sentido de aprofundar os conhecimentos prprios ao seu grupo, junto aos pais e avs, para conhecer a forma como contamos. Em meio a esse cenrio, o Conselho Gestor de Projetos cuidou de formular uma srie de princpios bsicos para pesquisas dos lugares sagrados.

    12. Sazonalidade: quando a atividade de pesca acontece, seguindo as quatro macrocategorias que relacionam os ciclos dos rios, clima, passagem das constelaes (que marcam o tempo cclico) e a migrao de animais: Seca/Vero; Cheia/Inverno; Vazante e poca das Piracemas.

    13. Piracema: se acontece ou no piracema no local marcado.14. Timb: se pescadores usam ou no o veneno de pesca no local

    marcado.15. Peixe 1, 2, 3 e 4: quais as espcies de peixe mais capturadas no

    local marcado, por ordem de grandeza.16. Histria: nome do diretrio e arquivo onde se encontra o resu-

    mo em portugus da histria do lugar sagrado colhida junto ao (s) narrador (es) indgena (s).

    17. Direito de uso: qual etnia/sib possui o direito de uso do lugar. Caso no houver, o direito considerado comunitrio.

    18. Regra 1, 2, 3 e 4: regras de comportamento que so (ou deve-riam ser) observadas no lugar sagrado marcado.

    19. Data da Coleta: data em que o lugar foi marcado com GPS.20. Coletor: pesquisador que marcou o ponto de GPS21. Foto: nome do diretrio ou arquivo onde se encontram as ima-

    gens do lugar sagrado.22. Video: nome do diretrio ou arquivo onde se encontra a !lma-

    gem do lugar sagrado e da narrativa do conhecedor.23. Observaes: campo livre para anotaes em geral.

    PERGUNTAS ORIENTADORAS PARA INTERPRETAR AS NARRATIVAS CONTADAS PELOS VELHOS CONHECEDORES.

    24. Como surgiu este lugar sagrado?25. Quais os acontecimentos relevantes que ali aconteceram?26. O que foi achado/criado para a futura humanidade ali, tanto de

    bom quanto de ruim?27. Quais as regras de comportamento que deveramos observar

    nesse lugar?28. Quais os perigos que o lugar apresenta se as regras de compor-

    tamento no forem cumpridas?

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    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO MAPEANDO LUGARES SAGRADOS

    DESAFIOS PERSISTENTES EM TORNO DOS LUGARES SAGRADOS

    Uma das di!culdades que vem sendo enfrentada, tanto pela equi-pe da Estao de Piscicultura quanto pelos pesquisadores do Cepi a mu-dana dos ciclos dos rios, e a interao dessa temporalidade cclica com

    o tempo das exigncias burocrticas dos projetos, cujos !nanciamentos provm de fundos pblicos. possvel fazer expedies somente durante a seca, que, idealmente, se estende do !nal de outubro a incio de fe-vereiro de cada ano. No entanto, o regime de cheias e vazantes dos rios da regio tm se mostrado imprevisveis nos ltimos anos e, muitas ve-zes, quando as condies ambientais so propcias para a atividade, no existem recursos disponveis, seja pelo calendrio j apresentado para os projetos, ou por atrasos de repasse. Tais atrasos so causados tanto por di!culdades locais em sua administrao e prestao de contas quanto pela di!culdade persistente dos rgos pblicos em receber, processar e aprovar as prestaes de conta ou pedidos de remanejamento em tempo hbil para no prejudicar as atividades planejadas.

    Apesar dos obstculos e di!culdades desse gnero, o interesse nas pesquisas sobre lugares sagrados continua, abrindo novas perspectivas polticas e intelectuais para os povos indgenas do rio Negro e seus in-terlocutores. Em julho de 2011, no entanto, um dos mais entusiasmados desses interlocutores saiu repentinamente de cena. A morte precoce do antroplogo Andr Martini aos 31 anos de idade, em So Gabriel da Ca-choeira, representou certamente o mais duro e talvez insupervel de to-dos os desa!os enfrentados nessa ltima fase do processo aqui descrito. O ensaio de metodologia , em enorme medida, resultado de suas inquie-taes, de sua intensa convivncia com as pessoas de Iauaret, tudo isso aliado a uma marcante passagem pela equipe do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental, onde adentrou nos meandros do mundo dos projetos e no mundo tcnico do Laboratrio de Geoprocessamento.

    Por isso, no h como terminar apresentando um balano !nal dos resultados alcanados. O que foi exposto at aqui se refere a um processo cujo desenvolvimento esteve permanentemente aberto a correes de curso, determinadas pelos sempre imprevisveis efeitos gerados a cada passo. No comeo de 2012, algumas lideranas de Iauaret estavam em So Gabriel da Cachoeira participando de reunies com a FOIRN, ISA e tcnicos do PDPI de Braslia em visita ao alto rio Negro. De modo geral, a preocupao reinante nessas conversas era a de dar seguimento aos experimentos de mapeamento dos lugares sagrados. Como retomar as atividades? Como integrar o que foi feito at aqui com a proposta nas-cente de realizar um mapeamento ainda mais extenso e bi-nacional, en-globando toda a bacia do rio Negro e partes do territrio colombiano?4 Nessas duas frentes, a presena de Andr Martini era fundamental. Sua

    4 Projeto Criando condies para o registro binacional (Brasil-Colmbia) da rota de transformao dos povos indgenas do noroeste amaznico, o chamado Projeto Mapeo, aprovado pelo Ministrio da Cultura do Brasil e a ser implementado por meio de um convnio entre o Iphan e o ISA.

    PRINCPIOS BSICOS PARA OS LEVANTAMENTOS DE LUGARES SAGRADOS NA REGIO DE IAUARET

    - Todos os conhecimentos narrados so verses importantes da realidade dos povos indgenas do rio Negro, e, como tal, devem ser valorizados. A instncia coletiva de pesquisa e registro desses conhecimentos, bem como a re"exo que eles motivam, estimulam as pessoas a buscarem o aprofundamento dos conhecimentos que lhes so prprios, dentro das redes tradicionais de transmisso.

    - fundamental reconhecer a importncia dos conhecedores indge-nas na realidade social atual. Tambm importante con!ar em sua capacidade de narrar os conhecimentos sabendo que se trata de um grupo de pesquisa intercultural e heterogneo, em frente cmeras e gravadores. A performance do conhecedor, que leva em conta a audincia e as suas !nalidades, fundamental e constitui, em si mesma, uma prtica ativa de gesto de conhecimentos.

    - Buscar, na medida do tempo social local, a ampliao das redes de narradores para grupos tnicos e sibs que inicialmente estavam me-nos envolvidos com os trabalhos de registro e valorizao cultural. preciso tambm valorizar os conhecedores que habitam a regio onde as expedies acontecem.

    - O resultado do processo de pesquisa e os dados registrados so resguardados pela barreira lngustica (idioma tukano), bem como pela participao ativa e continuada de conhecedores, lderes indgenas e assessores especializados na formulao de produtos culturais para divulgao, seja ela regional ou mesmo para os no--indgenas.

    - A divulgao de contedos das pesquisas passam sempre pela deliberao do Conselho Gestor de Projetos de Iauaret e, em casos extremos (como divulgao fora do ambiente social do rio Negro) pela FOIRN.

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    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO MAPEANDO LUGARES SAGRADOS

    disposio de trabalho e fascnio com esses temas permanecem na lem-brana de seus companheiros, e certamente o principal estmulo para seguir experimentando.

    Para terminar, vale recordar uma de suas principais inquietaes. Certa vez, ele comentou: muito difcil explicar o que uma casa de transformao.... Essa complexidade era, segundo ele, reduzida atravs de uma expresso que aparece ao longo deste captulo, e que reapa-recer insistentemente ao longo de todo este livro: lugar sagrado, de que, por certo, lanamos mo pela inexistncia de melhor expresso em portugus.

    Mas, como apontou o antroplogo Fernando Santos-Granero (2004) tratando dos povos arawak sub-andinos da Amaznia peruana, este termo tampouco encontra traduo nas lnguas indgenas daquela regio. Creio que tambm no exista nas lnguas faladas no alto rio Ne-gro. Santos-Granero, no entanto, no descarta seu emprego, apontando antes que nossos esforos tm sido insu!cientes para precisar seus sig-ni!cados nesses contextos. Prossegue dizendo que, entre outras razes, a paisagem pode ser considerada sagrada no sentido de que plantas, animais, objetos e fenmenos naturais so, do ponto de vista indgena, dotados de uma essncia espiritual, assim como certos stios so habita-dos por espritos. Mas a principal razo para atribuir o status de sagrado a muitos desses lugares refere-se, sobretudo, s atitudes demonstradas pelos ndios com relao a eles, e que se expressa em um extenso conjun-to de prticas rituais cotidianas. A agricultura, a caa, a pesca, as viagens por regies pouco conhecidas, o mal estar de uma pessoa que retorna da mata, tudo isso requer precaues, requer proteo ritual, pois coloca as pessoas em relao com perigosas e potentes essncias espirituais. Muitas dessas precaues implicam em moderao no aproveitamento dos recursos naturais. O sagrado neste caso no est, porm, relaciona-do a um estado de permanente temor com relao a essas perigosas e invisveis subjetividades. No se trata de algo envolvido com a mesma reverncia e solenidade prprias dos rituais religiosos cristos. Refere--se, de fato, a formas internalizadas da experincia, praticadas rotineira e cotidianamente, de maneira muitas vezes no premeditada ou re"etida (Santos-Granero, 2004:104).

    No alto rio Negro, as casas de transformao situam-se, principal-mente, nos locais de piracema, quando os peixes, ao danar e cantar, fa-zem aumentar seus cardumes. Avalia-se que o emprego pelos ndios de malhadeiras e outros apetrechos de pesca introduzidos nesses locais o principal fator que vem levando escassez de peixe. Vrias medidas vm sendo testadas na regio com vistas a aliviar o problema, desde a in-troduo da piscicultura idealizao de regimes de manejo em trechos

    dos rios e lagos5. No mbito do Conselho Gestor de Projetos de Iauaret, do qual Andr Martini era um dos principais articuladores e animadores, o tema vinha sendo permanentemente debatido. Mas paralelamente s questes tcnicas, buscava-se uma re"exo coletiva sobre a natureza desses lugares sagrados, bem como sobre as relaes ideais e atuais com eles. Ou seja, da mesma forma que as o!cinas de cartogra!a visaram ar-ticular o mapeamento das narrativas s tcnicas de confeco de mapas, todo o trabalho de construo metodolgica para a pesquisa dos lugares sagrados teve como horizonte articular os novos planos de manejo a uma re"exo acerca dos cuidados dos moradores de Iauaret com a chamada gente-peixe.

    Entre conhec-los e contar com as condies efetivas para pratic--los, constitua-se um espao de conversao entre antroplogos-asses-sores e grupos indgenas. Espao constitudo, sobretudo, de tradues e adaptaes mais ou menos (im)precisas. Como dizia Andr naquelas ex-pedies com seus amigos de Iauaret Aduana colombiana: Adelante!

    5 Ver exemplos em Cabalzar (org), 2010.

    Leitura da paisagem ribeirinha do Uaups, feita pelos Tariana. A cachoeira de Iauaret foi reconhecida pelo Iphan, em 2006, como patrimnio imaterial do Brasil

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    NO CAMINHO DA COBRA DE PEDRANARRATIVA DE TRANSFORMAO E LUGARES IMPORTANTES PARA OS TUYUKA DO ALTO TIQUI1

    Poani Higino Pimentel Tenrio, Escola Utapinopona-Tuyuka2 Aloisio Cabalzar, ISA

    CONTEXTO: JOVENS E VELHOS REVISITANDO CONHECIMENTOS E LUGARES

    Os Tuyuka embarcaram numa viagem para ver de perto seus lu-gares de origem, situados ao longo dos rios Negro e Uaups. Parte de um amplo esforo para fortalecer as vias de transmisso de seus conhe-cimentos, essa iniciativa gerou interesse nas comunidades por onde pas-sou e perspectivas e desa!os em relao aos seus prximos passos.

    As paisagens do rio Negro, especialmente as ribeirinhas, esto repletas de sinais dos tempos da formao do mundo e de seus ha-bitantes. So pedras no leito do rio ou em terra, corredeiras, serras ou montanhas rochosas isoladas, parans, estires... em todos esses locais h marcas da Gente da Transformao - os precursores da atual humanidade - onde deixaram sinais de seus toques, onde se sentaram, deitaram, pisaram.

    Depois de um sculo de desarticulao das prticas rituais e expres-ses culturais, de um modo geral, promovidos pelo contato permanente, catequese e escolarizao nos internatos salesianos, nas duas ltimas d-cadas vem ocorrendo uma distenso desse tipo de interferncias e um certo ressurgimento dos conhecimentos indgenas. Ao mesmo tempo, diante de uma situao de envolvimento crescente com as sociedades nacionais (brasileira e colombiana) e a sensao de perda cultural, como herana do sculo passado, surgem iniciativas dos povos indgenas dessa

    1 Esse texto um dos resultados da viagem que os Tuyuka fizeram a trecho do rio Negro e Uaups em maro de 2008, com apoio de projeto PDPI e AEITU (Gesto dos conhecimentos para o futuro do povo Tuyuka), do ISA e da Funai/SGC - ver detalhes sobre essa viagem em www.socioambiental.org/nsa/detalhes?id=2643. Em outubro de 2010, os autores ouviram parte do registro em udio captado durante essa viagem, transcreveram e traduziram partes, conversaram a respeito da viagem e discutiram seus prin-cipais aspectos, gerando esse texto. Informaes sobre a trajetria de transformao dos Filhos da Cobra de Pedra j haviam sido publicadas em AEITU, 2005 e Cabalzar, 2009.2 Poani o nome de benzimento (basere wame), Higino o nome de batismo; ele tuyuka Opaya de So Pedro (Mopoea), no alto Tiqui.

    regio de buscar reverter os prejuzos e falhas na transmisso dos conhe-cimentos/prticas tradicionais.

    Atividades desenvolvidas recentemente visam buscar uma reapro-ximao com os conhecedores mais velhos a partir de pesquisas dos jo-vens na Escola Tuyuka, do incentivo s prticas rituais, valorizao dos instrumentos musicais, cantos e danas, realizao de o!cinas de registro de narrativas e explicaes sobre procedimentos cerimoniais, e assim por diante. Uma dessas atividades foi a viagem a trecho do rio Negro - entre a ilha de Duraka, na frente do porto de Camanaus, e a foz do Uaups - e entrando nesse rio at alcanar Iauaret, cerca de duzentos quilmetros a montante.

    Esse interesse tem sido incrementado com os processos de reco-nhecimento de lugares e sistemas de conhecimento como patrimnio imaterial, tanto do lado brasileiro como do colombiano. o caso do re-gistro da Cachoeira de Iauaret, no mdio rio Uaups, em 2007, no Livro de Lugares do Iphan; e do complexo sociocultural de Yurupar dos gru-pos indgenas do ro Pir-Paran como Patrimonio Cultural Inmaterial de Colombia.

    A VIAGEM

    Os Tuyuka saram de suas comunidades no alto Tiqui e viajaram at a cidade de So Gabriel da Cachoeira, para da subir rio Negro e Uau-ps adentro. Viajaram trs conhecedores mais velhos (Henrique, Joanico e Sabino) com seus !lhos, outros trs que so tio e sobrinhos (Mandu com Gire e Higino), outros interessados ainda (Joaquim, Antnio Rezende e Antnio Meira) e cinco alunos (Bosco, Marcos, Odilon, Batista e Mauro). Em So Gabriel juntou-se a eles o antroplogo Aloisio Cabalzar (ISA).

    Os alunos do ensino mdio e o antroplogo registraram a viagem, !lmando e gravando as falas dos velhos, desenhando mapas de trechos mais importantes do rio e a localizao dos pontos mencionados - muitos deles plotados com o uso de aparelho de GPS. A viagem entre So Gabriel da Cachoeira e Ipanor foi feita em barco. Dali para cima, em dois botes de alumnio. A viagem se encerrou em Iauaret, com uma festa na maloca dos tukano Oiepra.

    Em cada comunidade, parava-se e buscava-se um morador mais velho, que pudesse mostrar os lugares e seus nomes no entorno da co-munidade. Sempre encontraram colaborao. Os cinco conhecedores tuyuka contavam, a partir dessas referncias iniciais, o que sabiam da-quele local, o que ali se passou nos tempos da origem, como e quando se referem a estes lugares nas entoaes cerimoniais e nos benzimentos de proteo e cura, frmulas narrativas que refazem e revivem estas trajet-

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    EXPERINCIAS DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO NO CAMINHO DA COBRA DE PEDRA

    rias originais. Alguns dos velhos nunca tinham visto estes lugares, mas j os conheciam atravs do que transmitiram seus pais e avs3.

    OBJETIVO

    Antigamente os velhos narravam as casas sem saber a localizao geogr!ca, sem conhecer bem esses lugares, no caso dos velhos que nunca viajaram para longe. Para ns era como se fosse algo pouco real. Para fortalecer e aprofundar os conhecimentos sobre as origens, alguns velhos tinham interesse em visitar esses lugares, mas nunca puderam ir por di!culdades em fazer tal viagem, s se fosse a remo. Com o projeto tornou-se vivel. Ser que cada um desses lugares existe mesmo? Como eles so? Conhec-los d uma certa segurana... depois de ter ouvido tan-to os pais e avs contando, ao ver isso, sente aquela correspondncia...4

    Assim, o objetivo inicial foi ver ou rever esses lugares, conhec-los pessoalmente, falar com os moradores e conversar em tuyuka sobre esses lugares. Mais do que isso, mapear os lugares importantes (niro makawi)5 na trajetria de transformao dos Filhos da Cobra de Pedra. Foram visi-tadas doze casas de transformao (pamuri wiseri) que constituem essa trajetria, alm de inmeros outros locais que fazem parte de narrativas secundrias ou de outros grupos de descendncia, que os Tuyuka no consideram como prprias. o caso da narrativa dos Diroa, por exemplo, que prevalece entre Urubuquara e Iauaret, origem dos tariano, mas que no est diretamente relacionada transformao dos Tuyuka. Essas ou-tras narrativas possibilitam entender a origem de doenas e como podem ser curadas; de artefatos, de certos tipos de festas, fenmenos e assim por diante. Todos esses episdios so repletos de referncias espaciais.

    A preocupao nessa viagem foi construir fatos lineares, a ideia da viagem era essa, mapeamento das casas sagradas e suas histrias. Mas isso no conseguimos alcanar, devido a uma srie de di!culdades... Tal