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  • Autor

    • Valter Hugo Lemos: Valter Hugo Mãe é nome artístico

    • 25-09-1971, Angola (ainda colônia portuguesa)

    • Ob. Angola conquista sua independência em 11-11-1975

    • Escritor, editor, artista plástico, cantor e apresentador de TV

    • Formado em Direito

    • Pós-graduado em Literatura Portuguesa Contemporânea

    • Transita por entre os gêneros: poesia, conto, romance, literatura

    infantil e canção

    Estética:

    • Linguagem modernista: antissintaxe

    • Ironia corrosiva e seca

    • Perspectiva crítica histórica: anacrônica e sincrônica

    • Quase português, quase angolano: cisão do homem

    contemporâneo e cosmopolita – crise de pertencimento

    • Sentimento lusitano

    • Prêmio Almeida Garrett, 1999; Prêmio Literário José Saramago,

    2007; Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura Melhor

    Romance do Ano, 2012.

  • Obra.

    Poesia

    Silencioso corpo de fuga, 1996.

    O sol pôs-se calmo sem me acordar, 1997.

    Entorno a casa sobre a cabeça, 1999.

    Egon schielle auto-retrato de dupla encarnação, 1999.

    Estou escondido na cor amarga do fim da tarde, 2000.

    Três minutos antes de a maré encher, 2000.

    A cobrição das filhas, 2001.

    Útero, 2003.

    O resto da minha alegria seguido de a remoção das

    almas, 2003.

    Livro de maldições, 2006.

    Pornografia erudita, 2007.

    Bruno, 2007.

    Folclore íntimo, 2008.

    Contabilidade, 2010.

    Publicação da mortalidade, 2018

    Romance

    O nosso reino, 2004

    O remorso de baltazar serapião, 2006.

    O apocalipse dos trabalhadores, 2008

    a máquina de fazer espanhóis, 2010

    O Filho de Mil Homens, 2011

    A Desumanização, 2013

    Homens Imprudentemente Poéticos, 2016

    Contos

    Contos de Cães e Maus Lobos, 2015

    Infantil

    A Verdadeira História dos Pássaros, 2009

    A História do Homem Calado, 2009.

    As mais belas coisas do mundo, 2010

    Quatro Tesouros, 2011

    O Paraíso são os Outros, 2014

  • Canção

    Disco de Cabeceira, Paulo Praça, Som Livre, Oeiras, 2007 (letrista);

    A Geração da Matilha, Mundo Cão, Cobra, Braga, 2009 (letrista);

    Propaganda Sentimental, Governo, Optimus, Lisboa, 2009 (letrista e intérprete);

    Mirror People, Rui Maia, Optimus, Lisboa, 2009 (letrista e intérprete);

    Animal, Osso Vaidoso, Optimus, Lisboa, 2012 (letrista);

    O Jogo do Mundo, Mundo Cão, Cobra Discos, Braga, 2013 (letrista).

    Desligado, Mundo Cão, Sony Music, Lisboa, 2018 (letrista).

    Ilustrações: Eduardo Berliner

  • MÃE, Valter Hugo. a máquina de

    fazer espanhóis. São Paulo:

    Biblioteca Azul, 2016.

    Capítulo por capítulo

    - Análise da obra -

  • • Publicada em 2011, pela COSACNAIFY• As ilustrações compõem a obra: sonhos do narrador antónio

    silva• Projeto modernista de narrativa: antissintaxe – verbarrogia;

    letras minúsculas, sem pontuações de interrogação,exclamação

    • As referências e epígrafes: Tabacaria, poema do heterônimoÁlvaro de Campos, de Fernando Pessoa e ao heterônimoAlberto Caeiro, Há metafísica bastante me não pensar emnada como ser ou desejar ser alguma coisa com tamanha

    opressão (salazarismo)• Narrativa em primeira pessoa: antónio jorge silva,

    personagem-narrador, 84 anos• Estruturada em vinte e dois capítulos: fragmentação da

    sociedade e da memória• Prefácio de Caetano Veloso: fábula de amor sincero e de

    melancolia histórica A verdade sobre a grandeza e responsabilidade de

    Portugal e do Brasil respectivamente – algo que nuncaaconteceu (p.17)

    • Catarina, criança de 5 anos: o sonho e a esperançasequestrados, torturados até mesmo de uma criança

    [...] faz o leitor brasileiro mergulhar na dimensãoportuguesa de sua vida, reencontrar origens de tantasdas suas fraquezas em face de um grande sonho – e detantos enternecimentos em face de sincerasmodéstias. Faz o leitor brasileiro enriquecer suasperguntas quanto à capacidade de grandeza, àrealidade de suas responsabilidades. O romance é umromance que se escolhe pequenino, como o Portugalpequenino do Jacinto de Thormes, que não se esquecedos pequeninos, para expressar valter hugo mãe agrandeza dos temas da vida e da morte, do amor, dodestino histórico de um povo. O Portugal oprimido soba ditadura de Salazar e o Portugal sob a batuta deausteridade da União Europeia são flagrados nosmomentos finais de vidas comuns, mas o homemcomum da Tabacaria de Álvaro de Campos, o Estevessem metafísica, está ali entre eles – e sobrecarregadode metafísica. A grande poesia, que reflete asinsuperáveis questões da existência (mas também asingularidade portuguesa do estar no mundo),empresta seu personagem à narrativa sobre velhos queo escritor moço inspirou-se em produzir. (p.17)

    Prefácio de Caetano Veloso.

  • Não sou nada.

    Nunca serei nada.

    Não posso querer ser nada.

    À parte isso, tenho em mim todos os

    sonhos do mundo.

    Álvaro de Campos, Tabacaria.

    Portugal: passado e presente

    Passado gloriosoPresente decadente

    Não há como ser grandeconvivendo com a opressão(salazarismo)

    Há metafísica bastante em não pensar em nada.

    O que penso eu do mundo?

    Sei lá o que penso do mundo!

    Se eu adoecesse pensaria nisso.

    Alberto Caeiro, Há metafísica bastante

    A ditadura oprimi a liberdade e os sentidos doexistir

    Muitos optaram por não enfrentar a opressãode Salazar para poder sobreviver

    O sonho de Portugal voltar a ser grande, europeu

    A sociedade pensava que Salazar e o fascismo realizariam este sonho

    Mamã, quando eu for grande, quero

    Trabalhar, viver sozinha e ser

    Mãe solteira de um povo.

    Catarina, cinco anos.

  • capítulo um

    o fascismo dos bons homens

    • A perspectiva do ser após a 3ª idade(p.25)

    • O que são as ideias em tempos derepressão/limitação (p.25)

    • A liberdade é nada: governo opressor –portugueses querem ser europeus

    • O narrador: antónio jorge da silva, 84 anos• Diálogo entre cristiano mendes da silva e

    antónio: consciência e crítica à opressão(p.27) – ironia sobra a educação alienadaportuguesa (formação)

    • A fala do médico é uma crítica àburocracia (p.29-30)

    • É preciso lidar de forma objetiva com amorte

    • A morte de laura (esposa de antónio):este será o grande trauma de antónio(p.33-34)

    • A necessidade do português sentir-se bom homem, mesmoapós a ditadura ou da terceira idade

    somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos,sem a robustez necessária, uma certa resistência para asdificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens eainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermosvistos, honestos e trabalhadores. (p.25)

    • As ideias não importam em tempos de repressão

    [...] as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. nãoimportam. as liberdades também fazem isso, uma nãoimportância do que se pensa, porque parece que já nem épreciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar naliberdade. (p.25)

  • • Crítica à educação alienada da sociedade portuguesa• Ser bom homem é obedecer sem questionar

    [...] depois não resisti a acrescentar, olhe que somosgente educada. e ele quase me repreendeu, mas aeducação tem sido apertada neste país, à paulada, ounão lhe parece. achei que aquele silva era um imbecildos grandes e que me estava a empatar as energias comretóricas a chegar a um ponto em que a irritação mefazia agir contra a vontade de estar quieto. (p.27)

    • Crítica do médico que cuidou de laura à burocracia delidar com a morte

    [...] estou mais farto destas tarefas. sou o rabo destamáquina, o cu da máquina, entende. a porcaria queninguém quer fazer, esta porcaria, vem toda aqui parar àminha mesa. e, enquanto olho por quem entra ou deveentrar, despacho a vida como se tivesse vontade de adespachar à pressa. eu sou daqueles a quem a vida doeue, mais cedo me possa estender a descansar, mais felizme ponho. (p29-30)

    • A morte de laura: o grande trauma de antónio – omaior abandono

    [...] não respondeu de imediato, não respondeu demodo algum, do corredor silencioso, por onde tantashoras antes me haviam levado a laura, veio umaenfermeira calma de morte, eu nem sequer ali deviaestar, mas que vantagem teria em passar a noite emalgum outro lugar, que vantagem existia, na verdade,em não ter morrido também. (p.33)

  • capítulo dois

    a brancura é um estágio para

    a desintegração final

    • A despedida de antónio para a esposa(p.35)

    • O que é envelhecer (p.36-37)• Abandonos: antónio fora abandonado

    pela família num lar de idosos (p.37)• O abandono da filha elisa (p.39)• O ateísmo/descrença de antónio (p.40-

    41)• O lar suportava 73 pessoas, mas

    sempre tinha 93: dividido em duas alas– esquerda (doença/morte) e direita(vivos) p.42

    • A coletividade da dor (p.43)• américo: funcionário do asilo, jovem e

    sensível (p44)

    • A morte é um trauma difícil de alaborar: despedida

    abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, asua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo,como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora equeremos confortar, vai ficar tudo bem, vai correr tudobem. O que era impossível, e o impossível não melhora,não se corrige, estávamos encostados à parede, sob ocortinado, como fazíamos na juventude para os beijos epara as partilhas tolas de enamorados, estávamosescondidos de todos, eu e a minha mulher morta quenão me diria mais nada, por mais insistente que fosse omeu desespero, a minha necessidade de respirar atravésdos seus olhos, a minha necessidade vital de respiraratravés do seu sorriso, eu e a minha mulher morta quese demitia de continuar a justificar-me a vida e que,abraçando--me como podia, entregava-me tudo de umasó vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez aocuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar. (p.35)

  • • O que é envelhecer

    [...] e só não nos tornamos perigosos porqueenvelhecer é tornarmo-nos vulneráveis enada valentes, pelo que enlouquecemos umbocado e somos só como feras muito grandessem ossos, metidas dentro de sacos de peleimprestáveis que já não servem para nosimpor verticalidade nem nas mais pequenasbatalhas. (p.36-37)

    • antónio foi abandonado num lar de idosos pela família

    a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com doissacos de roupa e um álbum de fotografias, foi o que fizeram,depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavamque ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder aminha mulher, depois, ainda nessa mesma tarde, trouxeram umaimagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com otempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia arezar e salvaria assim a minha alma. (p.37)

    • A filha elisa foi a quem coube hospedar o pai no lar feliz idade: ela sofria mais com a raiva do pai

    [...] a elisa ainda estaria no lar, talvez a reconfortar-se com o médico pela decisão difícil de deixar ali o pai, e eusabia que voltaria para se despedir, com um beijo em tudo traidor, e seguiria com a sua vida chorando na viagemde regresso a casa. eu tinha já toda a roupa pendurada num arrumo impecável quando ela entrou. houve umdescanso no seu medo ao ver-me sossegado como pude naquela brancura do quarto. entrou, beijou-me a face edisse-me que ali eu ficaria bem. vai gostar de aqui estar, com novos amigos, pessoas que lhe farão companhiatodo o dia. Eu quis que ela pensasse que assim seria tudo melhor, segundo o seu desejo, porque por uma filhanos falta o ódio como deve ser. aceitei o beijo e senti-a afastar-se metro a metro, como se entre o seu e o meucorpo existisse um cordão que rebentaria quando esticado de mais. (p.39)

  • • O ateísmo/descrença de antónio

    [...] olhei para a figura da nossa senhora de fátima e faleimudo, tenho pena de ti, metida à cabeceira dos tristesnos lugares mais tristes de todos e agora vens assistir-me, eu que nada tenho para te mostrar que valha oempenho de manteres incessantemente esses olhosazuis abertos, essas mãos postas no ar. talvez devessedespedaçar aquela estatueta. libertá-la da obrigação deestar ali com solenidades sagradas que, sem dúvida,cansariam o melhor dos espíritos. talvez devesse lembrá-los de que não sou um homem religioso e que a perdanão me fez acreditar em fantasias. (p.40-41)

    • A divisão do feliz idade

    o lar não suporta mais do que setenta e três pessoas,e, para que uma entre, outra tem de sair. a saída édolorosa mas rápida, rodam-se alguns velhos pelosquartos fora. eventualmente um que esteja acamadovai para a ala esquerda, já muito vizinho dos mortos,e outro entrará de novo no quarto vago com vistapara o jardim, é frequente que os que sobrevivemchorem diante das portas dos quartos, sabendo queno interior já não estão os anteriores inquilinos.(p.42)

  • capítulo três

    o amor é uma estupidez

    intermitente mas universal

    • A perspectiva do envelhecer (p.47)• antónio nega-se a receber a visita da

    filha (p.49) – elaboração do luto doabandono

    • Significado da morte (p.51)• Metáfora da tortura (p.52): o pesadelo

    com a ala esquerda• As ilusões/sonhos com pássaros negros

    que devoram o corpo de antónio

    • A perspectiva do envelhecer na condição de abandono

    um problema com o ser-se velho é o de julgarem que aindadevemos aprender coisas quando, na verdade, estamos adesaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nosafundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. ainconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já nãosão muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que acabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente àmorte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa poressa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertosquando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perdercapacidades. a esperança que se deposita na criança tem de serinversa à que se nos dirige. (p.47)

    • O significado da morte para antónio

    [...] não tenho convicções na transcendência, e não foi a imagem da nossa senhora de fátima que meconvenceu do contrário, como também não me convenceria de que morrendo iria parar aos braços dalaura outra vez. continuar eternamente a relação que tivemos durante quarenta e oito anos. morrerseria só a justiça de não me tornar uma imagem pálida do que fora. seria como corresponder a umpadrão de vida emocional que não era justo que perdesse. (p.51)

  • capítulo quatro

    um ataque de qualquer coisa

    • Insensibilidade e egoísmo de antónio (p.59): a raiva de perder lauratornou-se mágoa, condição para o alheamento sobre as dores dosoutros

    • O estado inerte de dona marta: a inércia do povo diante a ditadura – oque se podia fazer?

    • Um dos filhos (Ricardo) morava na Grécia havia três anos: nuncaretornou a Portugal, era professor universitário – não foi ao funeral damãe

    • senhor esteves sem metafísica (p.65): referência ao poema doheterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa Mas menciona o poema Tabacaria, do heterônimo Álvaro de

    Campos• Conceito de poesia/arte: teoria do fingimento de Nietzsche (p.66)• Perdão para a filha elisa (p.67)• O processo catártico da arte (p.69): a dor que se transforma em saudade• Incêndio criminoso no lar (p.70-71): doutro bernardo denuncia o crime

    que o próprio lar fazia para liberar espaço e se livras dos velhos que nãopagam – três mortos desta vez

    • antónio não se importava comas dores dos outros, somentecom a própria

    que me importariam as dores deuma velha tonta à espera de quemnão vem. olhei para ela edesprezei-a como prova de que nomundo alastrava a morte da laura,como uma infecção que, a umdado momento, teria o engenhode me abater e de abater todos,para minha glória, para minhagrande glória. (p.59)

  • • Esteves sem metafísica: sem sentido de vida

    [...] sabe quem é este esteves. torci os lábios com algumdesinteresse e confirmação de ignorância. e ele disse, é oesteves sem metafísica, sim, o do fernando pessoa, éuma coisa do caraças. está a ver. e eu abri a boca deespanto inteiro. o que diz você, perguntei. ó homem, éverdade, é o esteves sem metafísica da tabacaria doFernando pessoa. e eu respondi, não diga asneiras. temquase cem anos. (p.65)

    • Conceito de poesia/arte: Teoria do Fingimento deNietzsche

    [...] e eu voltei a ouvi-lo dizer, mas eu tenho muitametafísica, isto de os poetas nos roubarem a alma não écoisa decente, porque aquilo da poesia leva muitamentira, sorri, sorri verdadeiramente como nunca até alinaquele lar. e o senhor pereira olhou para mim radiantee afirmou num triunfo, isto sim, agora, é o lar da felizidade. (p.66)

    • O processo catártico da arte

    [...] o doutor bernardo riu-se e acenou que sim. temrazão. quem não daria uma fortuna para estar numverso do fernando pessoa. pus-me dali para fora eachei que o esteves sem metafísica, com os seusquase cem anos, era a melhor senhora de fátima dolar. isso aliviou-me um não sei quê de sentimento quee poderia derrotar naquela tarde. (p.69)

    [...] não viu como fizeram isto. já aqui há uns anos foia mesma coisa. é um crime. põem estes fumos nosquartos dos velhos. põem sim, que quando eucheguei já aqui alguém me contara que o faziam.devem ter quem dê mais para entrar. têm dedespachar estes velhos, tome tento no que lhe digo.eles têm de despachar estes velhos para meteremaqui outros com maior pagamento. muitos destesvelhos perdem as fortunas e ficam abandonados, nãovai ser por caridade que alguém lhes enfia os tubospara respirarem e lhes muda os lençóis. calámo-nos.(p.70-71) – os incêndios criminosos

  • Capítulo Cinco

    Teofilo Cubillas

    • Iniciais maiúsculas em todo ocapítulo

    • Teofilo Cubillas: peruano sorridente,jogador de futebol do Benfica em1972

    • dona Leopoldina: lembranças do dia08-03-1974 (p.77): em 25-04-1974aconteceu a Rev. Dos Cravos, o fim dosalazarismo Ela perdeu a virgindade com o

    jogador, por isso tem um pôsterdele

    Discurso de antónio quedenuncia a sociedadeportuguesa machista (p.78)

    • A morte – o silêncio – ainsignificância da vida (p.80)

    • O tempo passou para todos no lar: pôster do Cubillas jovem

    [...] Era terrivelmente a versão eternamente jovem do póster quetinha no gabinete a apodrecer a passos largos. Era a prova gritantede que um dia todos eles haviam sido jovens, magros, ágeis esobretudo esperançados num futuro melhor e, eventualmente,tinham estragado tudo. (p.76)

    • A visão de dona Leopoldina sobre a democracia e seu fomentomachista

    [...] Ela lembrava-se de lhe dizer que seria excelente a democracia,ainda que viesse só para os homens. Era uma ideia razoável dequem fora sempre mulher e nunca percebera o mundo longe dosdesígnios falocráticos de uma sociedade tão musculada. Perceberiaela depois, quando na televisão mostraram o rosto do homem, queele era um grande jogador. E que não podia ser um equívoco terestado na sua cama. Ele não lhe dissera o que fazia e inventaraoutro nome, Pablo. (p.78)

  • • A morte- o silêncio - ainsignificância da vida

    O chamuscado dasparedes ficara silente. Enfim, eratudo muito calado onde seesperava a morte, até o que sedizia perdia sentido e funcionavaapenas como uma reverberação dosilêncio, coisa nenhuma, coisarigorosamente nenhuma. Ospolícias assim o pensavam e todosse calavam a lembrar o que querque fosse sobre cada um dos trêsfalecidos, alguns já para aliesquecidos havia muito tempo semproferirem palavra ou vontade,eram só ocupações. Ocupavam, edepois não. (p.80)

    • Visão niilista de antónio sobre a vida (p.84)• A literatura e seu processo catártico (p.88)• américo: diálogo com antónio sobre o luto (p.91)

    capítulo seis

    beleza de nobre e fome de miserável

    • A literatura e seu processo catártico

    [...] e o esteves sem metafísica, atiçado de hilário pelo senhorpereira, virou-se para a dona leopoldina e disse-lhe, comechocolates. marmanjona, come chocolates, e a estúpida da mulhernão fazia ideia de onde aquilo vinha, nunca imaginaria o géniopoético que ali perpassava naquele instante como um milagre daliteratura, uma incrível epifania do que a literatura tinha de vidareal. a nossa impressionante vida real. (p.88)

  • • Américo, funcionário do asilo, ajuda no luto de antónio

    [...] não passa, américo, não passa. a morte dela não passa. o américo esperou uns segundospor que me acalmasse. procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesseescrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da suaesposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói umamemória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. um dia, senhor silva, asua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade, a felicidade deter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo àglória de o ter vivido, de o ter merecido. tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenhotrinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de umagrande paixão.

    esse era o segredo que só o tempo guardava, só o tempo revelaria tal milagre, o tempo,e a sensibilidade de quem via o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia.

    (p.91)

  • capítulo sete

    herdar portugal

    • 1950: ano do casamento de antónioe laura (p.93)

    • A ditadura e o futebol: Salazar e oBenfica (p.94) Franco e o Real Madrid na

    Espanha A ditadura militar brasileira e o

    Flamengo• Participar ativamente da vida

    religiosa era uma forma de seproteger (p.95)

    • A visão de antónio sobre a fé (p.96-97): o típico humor seco português

    • laura sofrera um aborto do primeirofilho

    • 1962: o segundi filho, Elisa, nasce –a necessidade de pertencimento ede resistência (p.98) Crítica ao franquismo na

    Espanha

    • O Sport Club Benfica foi utilizado pela salazarismo para alcançar popularidade

    [...] e todas as pessoas passaram a ser benfiquistas encurralados, o que significavaque eram benfiquistas porque a oposição já não era nenhuma e todos queriamadorar campeões, e era ver o entusiasmo do ditador com o futebol dosencarnados. um futebol do eusébio, todo nosso, maravilhosa pantera do caraças acorrer para o mérito dos portugueses. eu, que sempre fui portista, gostava doeusébio como era impossível não gostar. gostava dele em grande e estava, claroque pelo coração, do lado do paizinho e isso propunha atenuar consideravelmenteas minhas desconfianças, nem sempre lúcidas, acerca do regime. porque ficava oporto para uma paixão local, e o benfica para o esplendor nacional, comopareciam ser equilibradas e correctas assim as coisas. (p.94)

    • Para antónio, a fé era uma hipocrisia a serviço da sociedade e do fascismo

    aprendi tudo ao contrário depois. ser religioso é desenvolver uma mariquice noespírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bichopapão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é comoesperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaiaerótica tão desadequada à ingenuidade das crianças. o ser humano é só carne eosso e uma tremenda vontade de complicar as coisas. eu aprendi que aquelescrentes se esfolavam uns aos outros de tanto preconceito e estigmatização. eaprendi, no dia em que perdemos o nosso primeiro filho, que estávamos sozinhosno mundo. atirados para o fundo de um quarto sem qualquer ajuda. (p.96)

  • capítulo oito

    o silva da europa

    • antónio silva foiajudante de barbeiro(p.105)

    • Em 1963, tornou-sebarbeiro e dono deuma barbearia

    capítulo nove

    o tempo não é linear

    • O envelhecer e amorte (p.114)

    • O tempo não é linearpara quem sofre como abandono (p.118-119): o tempo deelaboração

    • O envelhecer e a morte

    [...] afeiçoamo-nos à morte. é como se fôssemoscortejando a confiança dessa desconhecida, paranos encantarmos, quem sabe. ou parapercebermos como lhe poderemos escaparainda. coisas diversas e complementares, porqueos nossos sentimentos vão oscilando entre anecessidade de ultrapassar o impasse do fim davida, e o trágico de que isso se reveste. (p.114)

    • O tempo não é linear para quem precisa lidar com o abandono da morte

    [...] preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. o tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas eque se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto departida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento,inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois osdidácticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos desuperar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono, e dentro disso, épreciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, amudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto. o regressode um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. (p.118)

  • capítulo dez

    os olhos pequenos demais para

    verem uma coisa tão grande

    • antónio e mais pesadelos(p.123-124)

    • anísio franco (p.128):diferença entre igreja e fé

    • Igreja era a base dosalazarismo

    • A saudade (p.129): osalazarismo convenceu opovo de que recuperaria aglória de Portugal – umsaudosismo que leva a umnovo desejo de expansão noséc. XX

    • O que é felicidade paraantónio (p.131)

    • Felicidade era resistir: contraditório para antónio

    éramos por igual todos cidadãos da mesma coisa. a andar para a frente comos instintos de sobrevivência a postos como antenas. eis a emissão certa, apropaganda que não podíamos dispensar, sobreviver, segurarmo-nos, e aosnossos, e abrir caminho até à morte dentro. essa é que era a essênciapossível da felicidade, aguentar enquanto desse. (p.131)

    • A diferença entre igreja e fé:

    o anísio franco não seria nunca pouco inteligente para dar uma respostarápida ou leviana. nada disso, começou por nos explicar que distinguiamuito bem entre a igreja e a fé. achava que a igreja era uma máfia deinteresses, o silva da europa interrompia-o e dizia, uns filhos da mãe, aigreja é uma instituição pançuda que se deixou confortavelmente sentadaao lado de salazar. como sempre, dizia anísio, sempre do lado dosopressores porque toda a lógica da igreja é opressora, não conhecem outralinguagem, e o senhor pereira dizia, também não é bem assim. dizia-oporque se envergonhava um pouco de acreditar e de ir à socapa a umasquantas missas. nós sabíamos disso. o senhor pereira atendia a umasmissas como se fosse pecar diante dos nossos olhos. que revolucionário.(p.128)

  • • A saudade: de um Portugal grande/império influencia o povo aacreditar em estados opressores

    sentir o que não existe é uma qualquer saudade de nós próprios.muita coisa é apenas uma saudade. muitos dos sentimentos. écomo lhe digo. sabe, até o suspirarmos por alguma acalmia quehavia antes da revolução. ó senhor cristiano, não vai falar outra vezdo regime. não é isso, é que é importante pensar nestas coisas,respondia ele. estamos para aqui todos fascistas, compensamentos de um fascismo indelével a achar que antigamente éque era bom. este é o fascismo remanescente que vem dassaudades. sabe, acharmos que salazar é que arranjaria isto, queele é que punha esta juventude toda na ordem, é natural, porquetemos medo destes novos tempos, não são os nossos tempos, eprecisamos de nos defendermos. quando dizemos queantigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremosna verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamoso mundo como nosso e não tínhamos dores de costas nemreumatismo. é uma saudade de nós próprios, e não exactamentedo regime e menos ainda de salazar. (p.129)

    • O Estado Novo foi o regime político autoritário,autocrata, fascista e corporativista de Estado quevigorou em Portugal durante 41 anosininterruptos, desde a aprovação da Constituiçãode 1933 até ao seu derrube pela Revolução de 25de Abril de 1974.

    • Também chamado salazarismo, em referência aAntónio de Oliveira Salazar, o seu fundador elíder. Salazar assumiu o cargo de Ministro dasFinanças em 1928 e tornou-se, nessa função,uma figura preponderante no governo daDitadura Militar, o que lhe valeu o epíteto de"Ditador das Finanças".

    • A Revolução de 25 de Abril, também conhecidacomo Revolução dos Cravos ou Revolução deAbril, refere-se a um evento da história dePortugal resultante do movimento político esocial, ocorrido a 25 de abril de 1974, que depôso regime ditatorial do Estado Novo, vigentedesde 1933.

  • capítulo onze

    o esteves a transbordar de metafísica

    • joão da silva esteves: ao ser isoladono andar do esquecimento, adquirimetafísica: ala esquerda/morte

    capítulo doze

    a promoção da beleza de se

    Ser pobrezinho

    • António esconde na barbearia um jovem de 21 anos que fugiada polícia (p.147): 05-09-1967

    • Salazarismo: lembrar para não esquecer (p.150): o jovem que seescondeu na barbearia

    • Salazarismo: lembrar para não esquecer e não repetir

    [...] ninguém teria cabeça para inventar tal porcaria, só sendo verdade mesmo, sabe, senhorsilva, é preciso que se suje o nome de salazar para todo o sempre, é preciso que o futuro lhereserve sempre a merda para seu significado, para que os povos se recordem como foi que umdia um só homem quis ser dono das liberdades humanas, para que nunca mais volte aacontecer que alguém se suponha pai de tanta gente, este tem de ser um nome de vergonha,o nome de um porco, para que ninguém, para a esquerda ou para a direita, volte a inventar acensura e persiga os homens que têm por natureza o direito de serem livres. (p.150)

  • capítulo treze

    a máquina de roubar metafísica

    a um homem

    • esteves falece (p155): pareceque a perda é muito sentidapelos idosos do lar,principalmente por antónio

    • A morte de laura é ressonantepara antónio (p.159): o maiorabandono

    • dr. Bernardo silva (p.160-161):a ditadura é a máquina deroubar metafísica dos homens

    • antónio a mérico escreviam ascartas para marta em nome domarido dela (p.161): essastraquinagens recuperavam ajovialidade deles e faziaantónio preocupar-se comalguém além dele

    • Quando se é abandonado tantas vezes, perde-se a metafísica de ser

    a morte do joão da silva esteves, glorioso esteves cheio de metafísica, foium duro golpe. o doutor bernardo disse que morreu feliz, encostara-se aconversar com ele no gabinete, muito descontraído a contar-lhe ossonhos palermas da noite anterior, e subitamente hesitou numa frase e jáestava morto. o doutor bernardo [...] ficara suspenso, como por umamagia qualquer. ficara incrivelmente suspenso, já sem respirar, morto.(p.155)

    • dr. bernardo silva: a ditadura é a máquina de roubar metafísica doshomens

    chegou-se mais perto e disse, sabe o que é que afinal foi mesmo umamáquina para roubar a metafísica aos homens, perguntou aquilo esuspendeu--se no nosso ar, expectante, à espera de esclarecimento. oestupor da ditadura. a ditadura é que nos quis pôr a todos rasos como astábuas, sem nada lá dentro, apenas o andamento quase mecânico decumprir uma função e bico calado, a ditadura, colega silva, a ditadura éque foi uma terrível máquina de roubar a metafísica aos homens, eu e aelisa rimo-nos. (p.160-161)

  • • A morte de laura é fator determinante na vida de antónio

    [...] olhei a minha filha e perguntei-lhe, como é que tu achas quese convence um velho como eu do valor da vida depois damorte da tua mãe. como achas que se justifica a vida paraalguém depois dos oitenta anos quando perde a mulher queamou e com quem partilhou tudo durante meio século,quarenta e oito anos. a elisa [...] não podia fazer mais do quepedir--me que me mantivesse vivo, por ela, pelos filhos dela.por um amor outro que existia e que não podia ser descurado,eu queria que a minha filha fosse feliz e não tivesse de suportarqualquer dor que eu lhe infligisse, eu queria que ela nãopudesse guardar do pai uma só mágoa por este a ter atraiçoado,abandonado ou simplesmente frustrado, eu queria muito que aminha velhice não tivesse de ser a sobrevivente do casal,porque a laura, com o seu modo de resistência, saberia implodirmelhor do que eu, mantendo intacta a estrutura exterior,atendendo sem falha aos apelos quotidianos dos nossos, euqueria ser o lado pragmático do casal, mas eu era o dos poemas,o lado mais burro e incompetente dos afectos, ainda que aqui eacolá dotado de tanta fantasia e beleza. (p.159)

  • capítulo catorze

    cidadãos não praticantes

    • Os portugueses não têmorgulho de seremportugueses (p.167)Frustração de ter

    vivido uma ditaduraPaís já sem glóriasPovo alienado, que

    não luta

    [...] somos um país de cidadãos não praticantes, ainda somos um país de gente quese abstém, como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que umcatólico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar, ó senhorsilva, dizia-me o silva da europa, anda para aí tudo ignorante destas coisas, aignorância é que nos pacifica, a paz está toda metida na ignorância, pronta para levaras pessoas à felicidade, e isto era a receita do regime, igualzinho, hoje podemos vermas não há quem queira ver. temos um povo que compra o jornal para ler asfutilidades, e compra mais ainda as revistas de alcovitei-rice, e nem sequerentenderia notícias diferentes, isto não mudou tanto assim, caros amigos, apenas afalta de vergonha, que antigamente havia vergonha, e agora devem estar a tirá-la dosdicionários, toda a gente lê a bola e o problema é que a bola nem sequer explicaporque é que o benfica não ganha quando não faz sentido que uma equipa daquelas,sustentada daquele modo, perca desavergonhadamente, a bola não explica nadapara a consciencialização dos seus leitores, que compram aquilo como propagandado clube e depois não podem reconhecer nos jogos a que assistem a glória anunciadano jornal, mas que glória, mas que glória, anda tudo assim um bocado desfasado doque é e parece ser. olhe, hoje é possível reviver o fascismo, quer saber, é possível naperfeição, basta ser-se trabalhador dependente, é o suficiente para perceber o que écomer e calar, e por vezes nem comer, só calar, vá espiar esses patrões por aí fora.(p.167)

  • capítulo quinze

    velhos da cabeça

    • dona marta falece (p.175)• américo (carteiro) devolveu as cartas que antónio escrevia para dona marta (p.179-

    180): ele as guardou para esquecer que o amor era possível• Personalidade de antónio (p.182): homem egoísta, individualista; nunca pensou nos

    outros, apenas na família• 25-09-1971 (p.185-186): antónio entregou o homem para a ditaduraO rapaz tornou-se cliente dele após ter sido ajudado a se esconder na barbearia

    nove anos antes, em 1962, quando tinha 21 anos

    • Para antónio, guardar as cartas era uma forma de esquecer que o amor era possível

    [...] entregou-me um pequeno maço de cartas, as minhas cartas. entregou-mas e disse-me que achava bem que fosse eu a guardá-las. hesitei, não seria uma loucura guardaraquele longo discurso de amor, perguntei-me. seria com certeza uma loucura mórbidaguardar aquele longo discurso de amor. para me magoar, e porque merecia ser magoado,tomei as cartas presas por um fio e escondi-as dentro da pequena mesa-de-cabeceira.escondi-as ali dentro sem intenção de alguma vez voltar à sua procura, eram coisa paraesquecer. para me esquecer de que o amor, mesmo que inventado, era possível, porqueo amor, para mim, mesmo que inventado, ainda vinha de algo terrível que nos queriaenganar para melhor nos abater. (p.179)

  • • antónio entregara um homem para a ditadura

    no dia vinte e cinco de setembro de mil novecentos e setenta eum, um sábado, os pides entraram na barbearia às onze horas damanhã e levaram o rapaz, que já era um homem nos seuspequenos trintas. levaram-no sem perguntas, sem confusão.rodearam-me sem me tocarem, não me disseram nada, não haviadúvidas nem explicações necessárias. o jovem homem levantou-se como se soubesse que um dia aquilo viria a acontecer. (p.185)

    no dia vinte e cinco de setembro de mil novecentos e setenta eum, quando entraram na minha barbearia os pides que levaram orapaz que, nove anos antes, eu ajudara a escapar, achei que faziao que tinha de fazer. e assim me senti como a saber e a arquivar oassunto como algo que ocorrera com outras pessoas,verdadeiramente como algo de que soubesse apenas a partir datelevisão. um homem preso pelo regime e outro acusando-o, e eunão era nem um nem outro, e a vida continuava como se nadafosse porque ao fim de cada dia encontrava a minha laura àespera de aquecer a sopa conversando sobre os filhos crescendoe sobre como era bom sermos prudentes e legais. (p.187)

    Cartaz de propaganda eleitoral presidencialde 1949 com os elementos principais dosalazarismo: família, ênfase na figurapaterna e a religião católica.

  • capítulo dezasseis

    a memória selectiva

    • antónio nãocontou a ninguém que entregara orapaz ao salazarismo

    • Consciência de que não foi um bom homemdurante o salazarismo (p.189)

    • antónio tem consciência de que não fora bom

    eu confiava ao doutor bernardo mais do que queria,muito mais. Preferiria manter a boca fechada, masalgum estranho efeito tinha em mim o tempo quepassava e criando uma dificuldade em me mantersozinho e desligado. não contara a ninguém ahistória do rapaz, nem a laura percebeu como mepus de bom pai de família entregando-o à polícia.ninguém soubera do quanto me amedrontei egoístanaquele tempo do regime. que cagão de homem fui,um burro sonso a remoer por dentro as agruras deaceitar e aceitar sempre calado. não prezei nada doque é a amizade. (p.189)

    Capítulo Dezassete

    A máquina de fazer espanhóis

    • Iniciais em maiúsculas em todo o capítulo• Ser português é diferente de ser europeu• A Europa não respeita Portugal• O espanhol enrique naturalizou-se português durante o

    franquismo

    • Franquismo: ditadura instaurada na Espanha após a GuerraCivil (1936 - 1939) e o fim da Segunda República.

    • O regime franquista não sobreviveu à morte do ditadorFrancisco Franco (falecido em 20 de novembro de 1975), atéa autodissolução das Cortes franquistas em 1977

  • capítulo dezoito

    deus é uma cobiça que temos

    dentro de nós

    • A visão cética de antónio sobre deus (p.203-204)• Ceticismo social (p.204)

    deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tãoabundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida.queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir, e também inventamos deus porque temos de nos policiaruns aos outros, é verdade. é tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo queatravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. é tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoacom a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiarpelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. e a comunidade respira mais de alívio por saber que assimestamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cadapasso, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar o nosso percurso com facilidade. eu sei que a humanidade inventa deus porquenão acredita nos homens e é fácil entender porquê. os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nosoutros. e quanto mais assim for, quanto menos acreditarmos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento, e se o policiamentodivino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado essepoliciamento. que medo o de voltarmos ao tempo de uma polícia para costumes e convicções. que medo se voltamos a temer osvizinhos e os vizinhos nos puderem entregar por ideias contrárias. que medo se nos entra outro filho-da-puta no poder, a censurartudo quanto se diga e a mandar que pensemos como pensa e que façamos como diz que faz. que medo de tudo se em tudo quanto oshomens fazem vai a vontade torpe de ultrapassar o outro, poder mais do que o outro, convencer o outro de que fica bem no andar debaixo e depois subir, subir o mais sozinho possível, porque ganhar acompanhado não satisfaz ninguém. estamos a fazer tudo erradoagora, sem valores, sem medo da igreja, sem um fascismo que nos regule o voluntarismo. estamos como que sozinhos da maneiraerrada. mais sozinhos do que nunca, a ver a coisa passar sem sabermos muito bem em quem confiar. e nisto, é verdade, pressupomosque todos são bons homens, mas a cabeça de alguns, senão a de todos, tem de estar a cozinhar muito do esquisito que para aíacontece e se sente. muito do esquisito que nos impede, mais e mais, de acreditar nos homens. (p.203-204)

  • capítulo dezanove

    somos um povo de caminhos salgados

    • O que é o povo português (p.214)• História e o presente lusos• Quantos eram no lar feliz idade,

    sempre 93 (p.221-222)

    • O povo português sofre para tersuas conquistas: aceita a dor para sesentir grande

    fomos sempre um povo de caminhossalgados. ainda somos um povo decaminhos salgados, isto é coisa paranos amargar o sangue e nunca maisnos permitir a leveza destas cenas. oanísio, que parara o riso como ummotor a falhar, estava em desacordo.(p.214)

    capítulo vinte

    o que couber aí é pequeno

    • O romance entre dona glória e anísio (p.226)• Uma forma de resistir, de seguir, recomeçar

    uma tarde, talvez um mês depois de me ter apercebido daqueleromance, finalmente o anísio convenceu a dona glória do linho asentar-se ao sol connosco, sentou-se primeiro ela, depois ele iguala um cavalheiro, e todos nós abanámos as cabeças como àsprincesas num sinal exagerado de cortesia e consideração, amulher ficou encarnada de corada e não proferiu palavra. (p.226)

  • capítulo vinte e um

    precisava deste resto de solidão

    para aprender sobre

    Este resto de companhia

    • O falecimento do senhorpereira, amigo de traquinagensde antónio (p.243-244)

    • antónio se abate fortemente,pois teve de aprender a ver avida além de laura

    • As amizades construídas ofazem sentir as perdas/os quemorrem no lar

    • antónio estava doente eisolado num quarto da alaesquerda (p.246): depressão etalvez prestes a morrer

    • Não morreu e voltou para a aladireita

    • antónio sente a perda dos amigos: aprendeu a não pensar apenas em si ou emlaura

    depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este restode companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, umaaberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca espereinada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo irobedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobreeste resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sidoela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis paranovas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente avida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos. esgotei tudodemasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz,não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério. diz isso ao doutorbernardo, que meta as suas psicologias e temores no lixo, eu vou ver o meu amigo ir àterra porque depois nunca mais hei-de voltar a ver o meu amigo. (p.243-244)

    passaram a deixar-me na penumbra porque achavam que a pouca luz me faria descansar, paraque dormisse sempre mais, como indo para a morte nesses momentos de estar desligado.mas não sabiam que desligado eu ia para o outro lado da cabeça, onde me sentava no cantoescuro do quarto protegendo-me com as mãos em sangue do ataque cada vez mais perto dapolícia dos costumes. acusavam-me de matar as pessoas, de entregá-las para a morte, de nãoquerer ser português, de suspirar pela morte para não ter de pagar pelos meus crimes.(p.246)

  • capítulo vinte e dois

    as melhoras da morte

    • A nova família deantónio (p.251): opertencimento a umgrupo/lugar

    • antónio foi transferidopara a alaesquerda/clínica (p.253)

    • O arrependimentoperante a morte (p.255-256): a metafísica eraacreditar em algo

    • A máquina de tirar ofascismo (p.256-257)

    • Enfim, antónio recuperaa sua metafísica (p.257)

    • A nova família de antónio: o lar feliz idade

    não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue,de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas,indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas. o silva da europa sorria eacenava que sim. dizia-me que não desesperasse, haviam de deixar-me muito tempo ainda nomeu quarto e, se o espanhol estava vivo e ruidoso, não iria para o quarto do esteves onde ossinistros cientistas faziam experiências perigosas com quem estava para morrer a mando dosenhor medeiros. (p.251)

    naquela altura eu tinha de gritar, precisava de dizer que me arrependia, que não queriaacabar sem metafísica, que me enterrassem com a metafísica e português. arrependia-me dofascismo e de ter sido cordeiro tão perto da consciência, sabendo tão bem o que era o melhorvalor, mas sempre o ignorando, preferindo a segurança das hipocrisias instaladas. eu precisavade gritar dizendo que queria morrer português, queria ser português, com a menoridade queisso tivesse de implicar, porque fui um filho-da-puta, e merecia ser punido, fiz do meu país umlugar de gente desconfiada, nenhum povo unido. eu precisava que me deixassem morrerinteiro, um monte de peles e carnes derrubadas, mas inteiro. com a vergonha de ter sidoconivente e o orgulho de ter percebido tudo. porque eu precisava de morrer consciente,recordando cada minuto do tempo com a minha laura, recordando como a vida se fizera emtorno dela e da família, como me terá parecido que assim devia de ser um homem, comoassim me havia bastado a cidadania, assente sobretudo no amor. não me tirem a consciênciado amor e da sua perda. (p.255-256)

  • • A máquina de tirar o fascismo de antónio

    eu explico-lhes que durante a noite o senhor medeirosordenava que eu morresse, e que gente sinistra entroupor aqui montando uma incrível máquina sobre mim. erauma máquina para me tirar o fascismo da cabeça. maseu já o havia tirado antes, explico eu. eu já o tinha feito afrio, sem ajuda das tecnologias, porque a consciênciaainda é dos químicos mais corrosivos, ou dos melhoresdetergentes, se quiserem. os meus amigos riem-se. e euinsisto, é verdade que o senhor medeiros se põe a dizercoisas, e acho até que se mexe. o américo chegou-se amim e refutou, senhor silva, isso é uma impressão, é jáum mito deste quarto. (p.256-257)

    • antónio recupera a sua metafísica: acreditar noshomens, na humanidade

    o anísio pergunta, isso não é o amigo silva aacreditar na transcendência, e eu respondo, sóacredito nos homens, finalmente, só acredito noshomens, e espero que um dia se arrependam.bastava-me isso, que um dia genuinamente searrependessem emudassem de conduta para quefosse possível acreditarem uns nos outros também.mais do que isso, sinto apenas angústia. aenfermeira entrou, aproximou-se de nós,perguntou, o que sente, senhor silva, e eu repeti,angústia, sinto angústia. (p.257)

  • Para não esquecer!!!

    antónio

    A amargura portuguesa de

    nunca ser

    laura (faleceu)

    Abandono da vida

    Ricardo (filho)

    Foi para Grécia e nunca mais retornou

    elisa (filha)

    Internou o pai no lar feliz idade

    abandonos

    A ditaduraSalazarismo

    Foi com se Portugal

    abandonasse seu povo

    A liberdade abandonada