Artefatos Da Fé

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Patrimônio e Cultura Material 393 ARTEFATOS DA FÉ SILVELI MARIA DE TOLEDO RUSSO* RESUMO O presente artigo visa apresentar uma análise da dinâmica de elementos iconográficos ligados a um conjunto de oratórios produzidos no Brasil, ao longo do século XVII e XVIII. Nessa análise, propõe-se instituir uma breve abordagem acerca da aplicação de imagens correspondentes quer a uma expressão mais voltada à religiosidade popular quer a outras manifestações que traduziriam visualmente os argumentos doutrinais da Igreja. PALAVRAS-CHAVE: História da Arte; Cultura Material Religiosa; Oratórios; Brasil Colonial. ABSTRACT This article presents an analysis of the dynamics of iconographic elements related to a number of oratories produced in Brazil during the 17 th and 18 th centuries. In this analysis, it is proposed to introduce a brief discussion about the images application corresponding to either focused on the popular religiosity or whether the other events that translate visually the Church's doctrinal arguments. KEYWORDS: Art History; Religious Material Culture; Oratorie; Colonial Brazil.
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Antropologia, cultura material

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  • Patrimnio e Cultura Material 393

    ARTEFATOS DA F

    SILVELI MARIA DE TOLEDO RUSSO*

    RESUMO O presente artigo visa apresentar uma anlise da dinmica de elementos iconogrficos ligados a um conjunto de oratrios produzidos no Brasil, ao longo do sculo XVII e XVIII. Nessa anlise, prope-se instituir uma breve abordagem acerca da aplicao de imagens correspondentes quer a uma expresso mais voltada religiosidade popular quer a outras manifestaes que traduziriam visualmente os argumentos doutrinais da Igreja. PALAVRAS-CHAVE: Histria da Arte; Cultura Material Religiosa; Oratrios; Brasil Colonial. ABSTRACT This article presents an analysis of the dynamics of iconographic elements related to a number of oratories produced in Brazil during the 17th and 18th centuries. In this analysis, it is proposed to introduce a brief discussion about the images application corresponding to either focused on the popular religiosity or whether the other events that translate visually the Church's doctrinal arguments. KEYWORDS: Art History; Religious Material Culture; Oratorie; Colonial Brazil.

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    Este artigo discorre acerca do tema cultura material religiosa como parte do fenmeno histrico, que se constitui de uma abordagem relacionada ampla temtica de valorizao do patrimnio cultural conferido ao bem mvel recorrentemente enaltecido no processo de produo do discurso historiogrfico. Nesta abordagem, contempla-se o artefato: oratrio e algumas de suas caractersticas formais , com nfase aos elementos iconogrficos ou imagens religiosas, que se articulam com a sua prpria estrutura.

    Para explorar esse panorama, considera-se relevante a perspectiva ensejada por Alphonse Dupront [1905-1990], em especial quelas concer-nentes s observaes entre histria e fenomenologia, inspiradoras das abordagens promovidas no mbito da experincia religiosa, coletiva e individual, perante os oratrios aqui observados e suas significativas imagens.

    Tendo em vista a aproximao entre histria religiosa e outras disciplinas, sobretudo a antropologia, Dupront, ao explorar o panorama das manifestaes religiosas, em Du Sacr. Croisades et plerinages. Images et Languages, evidencia a considervel presena da imagem e de sua ajuda espiritual e a define como um instrumento de passagem,1 estabelecido entre o consenso cultual e a recompensa sobrenatural, concebido sob uma forma humana ou com atributos humanos.

    Em termos antropolgicos, os postulados das verses produzidas em torno da cultura material, deixam intuir concepes diversas; e, precisa-mente essa discusso que faz suspeitar especificidades socioculturais nos debates de cultura material religiosa; so essas especificidades que interes-sam neste estudo, em especial para que haja compreenso das rotinas e dos rituais, perante os oratrios no contexto domstico.

    Sobre essas questes, o historiador norte americano David Morgan, em Visual Piety: A History and Theory of Popular Religious Images,2 ao abordar o tema das imagens religiosas, a partir do final da Idade Mdia at os dias atuais, analisa o que ele chama de piedade visual, ou a crena que

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    as imagens transmitem, tendo em vista enfatizar sua importncia na formao social e na manuteno da vida cotidiana.

    O autor posiciona-se de forma a corroborar o entendimento do significado social e religioso das imagens, visto que, a seu ver, e no obstante considerar as diferenas temporais e culturais como ponto de inflexo que cercam as representaes pictricas, olhar com devoo para imagens de Cristo ter uma experincia religiosa, no esttica.3 Ao invs de considerar cones religiosos populares como meramente ilustrativos das ideias teolgicas, examina como tais elementos estabelecem controle sobre as paixes humanas.

    Neste sentido, e sob um olhar interdisciplinar, a par das leituras estticas, polticas e teolgicas, Morgan resgata a ideia de uma leitura antropolgica, em que a familiaridade com tais imagens intensificada, oportunamente, ao coloc-las em ambientes domsticos, rodeado por apetrechos da vida cotidiana, onde as prticas devocionais e rituais, bem como as atitudes e propsitos que se articulam atravs da iconografia religiosa, adquirem um especial valor de apropriao e uso.

    Na sequncia de ideia, interessa destacar que os conjuntos de oratrios domsticos que hoje se encontram recolhidos s dependncias de museus brasileiros, pblicos e particulares, figuraram como protagonistas das prticas religiosas desenvolvidas no interior das habitaes brasileiras, rurais e urbanas, sobretudo nos tempos de colnia.

    Neste contexto, tais artefatos se apresentavam sob dois distintos universos funcionais, respectivamente: de cunho devocional, em que os mesmos se destinam comumente s prticas da orao; e de cunho litrgico, quando especialmente preparados para a orientao das celebraes oficiais da Igreja Catlica Apostlica Romana.

    Assim, descortina-se aqui a construo de uma breve abordagem pela observao direta de alguns oratrios domsticos resguardados em acervos do Brasil, em que se reconhece uma conformao especial na convocao de imagens religiosas em sua ornamentao: com destaque para a constituio

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    de cenas da Paixo de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos do hagiolgico cristo.

    As imagens religiosas configuradas nos oratrios domsticos e os desafios de sua interpretao

    Antes de observar as imagens religiosas estampadas no presente

    acervo, julga-se importante reconhecer a acepo da palavra imagem no presente contexto. L-se no respeitvel Diccionario Technico e Historico, de 1875, composto por Francisco de Assis Rodrigues, que imagens chamam-se as figuras do culto catholico [...] em vulto ou mesmo em estampa [...] tambm [...] bustos de retratos em cunhos vero effgie.4

    Vislumbra-se que a variao semntica da palavra sugere significados figurados, exclusivamente religiosos e de aplicao tica. Deste modo, os estudos acerca da imagem tm recebido uma crescente ateno no mbito das cincias sociais e humanas, em especial no campo da historiografia, percebidos em diversos eventos e publicaes nacionais e internacionais.5 As imagens, ou fontes visuais, tm sido observadas como uma importante evidncia histrica, e equiparadas em valor literatura e aos documentos arquivsticos.6

    Nesta linha, indaga-se: como contextualizar as pinturas de imagens religiosas que conformam os oratrios em anlise? Permite-se dizer que, em primeira instncia, descontenta-se em estabelecer somente uma escala de valores estticos s mesmas, tendo em vista observar seus resduos de carter antropolgico.7

    Portanto, entende-se que as imagens religiosas, como as aqui abordadas, em conjunto com os prprios oratrios que as suportam, foram elaboradas com um propsito, cuja funo e uso transcendem o meramente formal e esttico, configurando-se, na realidade, como artefatos inseparveis das crenas que projetam.

    Ideia que auxilia, afortunadamente, na apreenso dos parmetros do acervo religioso em discusso e que, com efeito, corrobora o entendimento dos artefatos, tal como refere Ulpiano Bezerra de Meneses, enquanto

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    produto e vetor das relaes que seus usurios estabelecem em sociedade.8 De tal sorte que seguir-se- com tal reflexo pela observncia direta de alguns oratrios pertencentes a acervos brasileiros, subsequente a um brevssimo discurso histrico representativo que ser feito nas prximas linhas. As representaes da hagiografia crist

    Da longa durao da cultura crist, interessa destacar que, relativamente ao seu papel e estatuto, as imagens motivaram controvrsia ante a veiculao da doutrina crist, estimulando sucessivos debates e querelas, entre a sua promoo e a opo por uma via iconoclasta 9 a sustentar a sua supresso da vivncia religiosa. Razo esta pela qual acabou por se constituir um dos principais argumentos de discusso em um dos mais importantes perodos da histria da Igreja de Roma, que contraps, ao longo do sculo XVI, protestantes e catlicos.

    A partir de suas normas, no difcil intuir acerca da atitude efetiva com que a Igreja vigia os dogmas das imagens nas perspectivas geogrficas da Pennsula Ibrica, visto os seus reflexos nos territrios coloniais. E mesmo que, em sua complexidade, permanecesse fora do alcance de grande parte dos fiis, inferimos dos ditames do Conclio em nossa conjuntura, particularmente no contexto domstico, alguns sinais de sua repercusso no envolvimento do cotidiano religioso dos devotos com a variedade de invocaes ligadas ao acervo de oratrios em anlise.

    Neste corpus, possvel encontrar um diversificado repertrio de imagens com temas correspondentes iconografia catlica, evidenciando a poltica de evangelizao portuguesa que causou uma relevante repercusso no Novo Mundo aps Trento. Vislumbra-se a Virgem, e o prprio Cristo, como as personagens sagradas mais invocadas, a suscitar, por certo, interpretaes vrias, geradas pelo contato dos fiis com as imagens devotas, estimulando, por certo, a criao de laos de identidade e confiana, e ainda,

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    rompendo barreiras e estimulando o dilogo em primeira pessoa com a divindade.

    Nota-se um forte vnculo protetor sob a invocao da Virgem, a instituir diversas devoes marianas, reflexo da prpria diversidade da sociedade colonial brasileira, em que ocorre, igualmente, o estabelecimento de irmandades poderosssimas, ajustadas tanto para a classe dos fazendeiros, comerciantes e mineradores quanto para aquela dos menos favorecidos, escravos e agregados.

    Denominadas por confrarias, as associaes religiosas em que se congregavam os leigos do catolicismo colonial eram constitudas por duas organizaes fundamentais: as supracitadas irmandades e as ordens terceiras,10 cujo objetivo precpuo era o de promover e perpetuar a devoo a um santo, e at mesmo, exercer a prtica assistencial, como no caso da Irmandade da Misericrdia.

    Por sua vez, as ordens terceiras, vinculavam-se a uma ordem religiosa em que os fiis se destinariam tambm aos exerccios de devoo. Ao longo do perodo colonial, diversas ordens religiosas estiveram em funcionamento no Brasil, entre as principais: a dos beneditinos, capuchinhos, carmelitas, franciscanos e jesutas. A Ordem Terceira Franciscana foi instaurada no sculo XVI; a Ordem Terceira Carmelita, no sculo XVII; e, ento, no sculo XVIII, estabeleceu-se a Ordem Terceira de So Domingos.11

    Todavia, foram os padres da Companhia de Jesus que deram incio vila de So Paulo, primeira colnia no interior e nica cidade no Brasil instaurada pelo interesse religioso e no pelo aspecto econmico. Nesta assertiva, lembra-se das palavras de Aracy Amaral sobre a vida nas aldeias da Companhia ao redor de So Paulo, em que os indgenas reduzidos, envoltos pela assistncia espiritual oferecida pelos Jesutas, direcionavam seus misteres ao redor do exerccio religioso.12

    Neste conjunto de condies, no obstante as conjecturas do intercmbio da regio de So Paulo no perodo do seiscentos com a Amrica Hispnica, nota-se, de todo modo, nas solues apresentadas pelo retbulo de oratrio seiscentista, proveniente de propriedade rural, hoje resguardado

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    no Museu de Arte Sacra dos Jesutas, MASJ, localizado na cidade de Embu, So Paulo, certas manifestaes em que se pode identificar motivos amplamente utilizados pelos espanhis e hispano-americanos, segundo Aracy Amaral.13

    Deste exemplar, eleva-se a pintura cuja sugesto ornamental passvel de proceder das portadas do Castillo de la Calahorra, na Provncia de Granada e da Igreja de Jerusalm, em Potosi, Bolvia. Fala-se dos detalhes decorativos inseridos nos vrtices dos ngulos laterais superiores, especificamente nos remates do arco do nicho, onde se encerra uma roseta

    ladeada de estilizaes vegetais, elementos que repercutiram significadamente nas criaes inacianas.

    Seja como for, o importante notar que os testemunhos materiais frutos da sensibilidade jesutica orientada pelos princpios catequticos cristos, fizeram-se presentes na concepo ornamental de oratrios resguardados neste acervo paulista, cujos traos remanescentes da tradio europeia se fazem presentes na imitao dos motivos vegetais, qui pelas mos do ndio que, em contato com os irmos artfices da reduo, aprenderam a empregar estes motivos.

    Tambm, resguardado no acervo jesutico supracitado, encontra-se outro exemplar seiscentista, por sua vez, vinculado diretamente a tal ordem religiosa, caracterizando-se como uma das manifestaes artsticas mais significativas aqui expostas, cujo repertrio de representaes figuradas se direciona aos prprios membros da respectiva ordem, tendo em vista, por certo, sinalizar a histria e o carisma distintivo da mesma.

    Alude-se ao oratrio de embutir inserido no interior do outrora convento dos Jesutas, hoje Museu de Arte Sacra dos Jesutas do Embu, j referido anteriormente. Alm das imagens de So Luis de Gonzaga [Castiglione delle Stivieri, Lombardia, 1568 - Roma, 1591], Santo Incio de Loyola [Loyola, Pas Basco, 1491 - Roma, 1556] e Santo Estanislau Kostka [Rostkovo, 1550 - Roma, 1568], este exemplar tem pintado na face externa de suas portas, a imagem de So Francisco de Borja [* - 1572], sustentando

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    nas mos uma caveira coroada, atributo iconogrfico originado pelo seu conhecido episdio legendrio.

    Episdio este invocado pela comoo ante o cadver da imperatriz de Portugal, D. Isabel, esposa de Carlos V, com a qual supostamente havia enamorado: Grande fue su conmocin al ver el hermoso rostro desfigurado por la muerte y en proceso de descomposicin, por lo que vuelto su corazn a Dios.14 Passagem novelesca que supostamente deu ensejo a sua clebre frase: Nunca ms he de servir a Seor que pueda morir, citado por Hctor Schenone.15

    A propsito, e como j discorrido anteriormente, reitera-se que a importncia dada cultura figurativa, no setecentos, era passvel de reportar-se ao Conclio de Trento, que manteve todas as formas tradicionais de piedade e confirmou, tambm, o culto s imagens. A Contra-Reforma e o Conclio deram nfase proliferao das imagens como multiplicadoras da prpria f. Elas se faziam presentes nos contextos particulares, nos conventos e moradias, sob diversas formas.

    importante frisar que as referncias ornamentais e de vestimentas utilizadas pelo clero ou pelos que professaram em algumas das ordens religiosas relacionam-se com as distintas funes ordenadas pela Igreja e com as diferentes classes de autoridades que a representam, sejam santos ou simples membros do clero que, ento, distinguem-se pelas vestimentas ou trajes usados nas diversas circunstncias em que devem atuar e de acordo com sua localizao dentro da hierarquia, como tambm pelos ornamentos litrgicos que o acompanham.

    Sabe-se que a indumentria, seja a litrgica, seja as prprias vestes dos distintos dignatrios, variaram no decorrer do tempo; no entanto, como os exemplares aqui retratados encontram-se definidos por limites temporais precisos, ou seja, sobretudo pelo perodo colonial, infere-se que as formas, o desenho e as cores que aparecem nas pinturas das imagens correspondem aos testemunhos contemporneos que chegavam Amrica entre os sculos XVII e XVIII: retratos literrios e estampas de gravuras.

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    Na sequncia de ideia, seguindo os comentrios sobre as sries conventuais, interessa expor que as mesmas constituram-se um importante instrumento na construo de uma identidade visual por parte das ordens religiosas, servindo-se de diversas linguagens artsticas, a exemplo do gnero de retrato que, adaptado especificidade do universo conventual, permite-se inferir que o mesmo foi um dos meios mais eficazes na formao da memria da prpria Igreja militante.

    Outro exemplar que expressa bem tal assero o oratrio que se encontra atualmente sob a guarda do Acervo do Museu de Arte Sacra de So Paulo, MAS, [Figura 1].

    Figura 1: Oratrio de pousar, sculo XVIII.

    Localizao: Museu de Arte Sacra de So Paulo, So Paulo. Fonte: Silveli Toledo Russo, 2006.

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    Artefato procedente, pelo que parece, de uma ordem religiosa, qui franciscana, ou de alguma autoridade eclesistica, visto o propsito de reabilitar em pleno sculo XVIII a memria dos quatro Doutores da Igreja Latina: o papa So Gregrio Magno [540604], os bispos Santo Ambrsio [Trveris, 340397] e Santo Agostinho de Hipona [354430] e So Jernimo [Stridn, 341 Roma, 420], bem como os franciscanos So Boaventura [12181274] e So Bernardo [13801444].

    Interessante perceber que o papa So Gregrio Magno, da mesma maneira que comumente surge nas representaes escultricas e pictricas coloniais, integrando-se com os quatro santos com o ttulo de doutores da Igreja Latina, revela-se neste exemplar com um dos seus atributos mais caractersticos: escrevendo sob a inspirao do Esprito Santo. Neste caso, eleva-se uma ressalva ao fato de o santo no aparecer ainda com sua caracterstica vestimenta de pontificial, com a cruz triple e a tiara papal.

    Por outro lado, os referidos bispos: Santo Ambrsio e Santo Agostinho de Hipona comparecem com os ornamentos prprios da ordem episcopal: a infaltvel beca que corresponde ao ttulo aludido, a esclavina e o bculo. Tambm, Santo Agostinho porta a estola e a mitra e Santo Ambrsio o bonete; enfim, representaes bastante difundidas por partes dos bispos.16 So Jernimo, por sua vez, aparece representado como um eremita semidespido em penitncia [seu atributo mais propagado].

    Vale expor uma citao em que o pintor espanhol Francisco Pacheco [15641644] se mostra discordante com respeito utilizao desta frmula iconogrfica de So Jernimo, advertindo que:

    los Santos amaron mucho la honestidad, y no es necesario para darse en el pecho, desnudarlo hasta de los zapatos, y aade que: cuando le sucedia esto [...] era mozo de treinta aos poco ms o menos, y se pinta viejo impropiamente, lo cual por estar tan recibido y usado no parece remediable. 17

    Quanto cena da pedra com a qual So Jernimo se fere no peito, a mesma procede, pelo que parece, de uma de suas Epstolas, dirigida ao seu discpulo Eustoquio: acurdome haber juntado el da con la noche, clamando y suspirando y hirindome sin cesar mis pechos.18 Verifica-se,

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    neste caso, entre outros tantos complementos iconogrficos utilizados nas suas representaes coloniais, a preferncia pelo aspecto asctico de sua vida ao invs de suas condies intelectuais.19

    Nesta pea destacam-se ainda o dispositivo cnico de montes e rochedos, a representar qui o monte Tabor, o Sinai, o altar do sacrifcio de Isaac, o Horeb, o monte das Oliveiras, a gruta da Natividade, o calvrio ou o sepulcro. Esse tipo de composio um trao que influenciou toda a Europa Central e a Amrica com vrias gravuras que, deste modo, opunham-se aos cenrios constitudos de inspirao positiva, como os elementos arquiteto-nicos de Templos ou de corte.

    Retornando ao discurso do hagiolgico, consideram-se, todavia, interessantes descries dos santos medievais, por meio, inclusive do serfico fundador da Ordem Terceira da Penitncia, So Francisco de Assis e do supracitado So Boaventura, duas figuras emblemticas da referida instituio religiosa, cujo desempenho, junto a outras ordens religiosas instaladas na Amrica, mostrou-se fulcral no desenvolvimento e na sedimentao do cristianismo, em especial aps o Conclio de Trento.

    De forma corrente, identifica-se nas peas inventarias a imagem de So Francisco de Assis [Assis, 1182 Siena, 1226], fazendo-se notar especialmente na cena em que recebe no Monte Alverne, os estigmas do Cristo na cruz. No entanto, o fenmeno mais curioso aparece no prximo exemplar, hoje resguardado no Acervo do Museu Abelardo Rodrigues, MAR, na cidade de Salvador [Figura 2], onde o santo aparece representado como um asceta, sustentando um crnio e uma cruz cena Piedosa e tambm estimulada pelos influxos da Contra-Reforma.20

    Neste prximo exemplar, alm da representao de So Francisco de Assis, com os atributos supracitados, atesta-se a figura do franciscano Santo Antnio [Lisboa, 1188 Pdua, 1231] e dos dominicanos So Domingos [Caleruega, 1170 *] e So Vicente Ferrer [Valencia, 1350 Vannes, 1419], representantes incontestveis das duas ordens mendicantes fundadas durante a Idade Mdia. Este ltimo, o mais eloquente dentre os pregadores, aparece como um Anjo do Apocalipse. visto, sobremodo nas peas

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    provenientes da regio das Minas Gerais, provido de grandes asas nas costas, simbolizando sua excelncia de enviado dos cus.21

    Figura 2: Oratrio de pousar, sculo XVIII.

    Localizao: Museu Abelardo Rodrigues da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimnio Artstico e Cultural da Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia, Salvador, BA.

    Fonte: Silveli Toledo Russo, 2008.

    Esta parcial maneira de elaborar sua iconografia desde o sculo XVII se apresenta realada por dois versculos apocalpticos que com frequncia o acompanham: Timete Deum el date illi honorem quia venit hora judici eius, (Temei a Deus e dai-lhe a honra porque se aproxima a hora do juzo Apc XIV); um segundo: Ego sum angelus Apocalipsis, (Eu sou o anjo do Apocalipse).22 Outro atributo bastante comum que o cerca o livro aberto com o versculo 37 do captulo 13 de So Marcos.

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    Agora, a respeito de So Domingos, o mesmo identificado com o tradicional hbito branco e manto negro, exibindo, como um dos atributos, um ramo de flores brancas na mo direita que, se presume, serem flor-de-lis, um dos seus principais smbolos. Esta representao se apresenta parcialmente incorreta na medida em que, de acordo com a sua hagiografia, figura de So Domingos se associa, alm dos lrios, a estrelas e a um co, em referncia ao pressgio que sua me havia tido antes do seu nascimento, no qual vislumbrou o seu filho com a testa marcada por uma estrela e acompanhado por um co preto e branco que levava na boca um archote aceso.23

    Trata-se de um modelo delineado como uma aluso ao papel que o prprio So Domingos viria a desempenhar, enquanto guardio da Igreja contra a heresia. J a representao de Santo Antnio com o hbito franciscano surge associada a um dos temas mais elogiveis de sua iconografia, falamos da Viso de Santo Antnio, alusiva apario do Menino no percurso de uma viagem do Santo pela Frana que determina um dos seus mais importantes atributos, o do Menino sobre o livro.24

    Dessa fidelidade iconogrfica, alm dos atributos a ele associados, o Santo apresenta em outras figuraes do acervo em estudo, a palma, sinnimo do martrio, a que este no foi sujeito. Interessa ressaltar tambm, como salienta Hctor Schenone, que

    a pesar de que fue obeso y de talla inferior a la normal, ha sido representado como un joven imberbe y delgado y slo los imagineros lusitanos respetaron los rasgos fsicos antes sealados, aunque idealizndolos.25

    Em geral, sobre a figurao temtica crist enunciada, denota-se no

    acervo em curso uma importante fidelidade ao programa iconogrfico tradicional, quer no que concerne aos atributos que as figuraes ostentam, quer nas caractersticas fisionmicas ou de adereos a que se associam. Alm dos protagonistas supracitados, subsistem, ainda, algumas peas com representaes de santos cujo reconhecimento no foi possvel efetivar, em virtude do mau estado de conservao do respectivo artefato ou da insuficincia de elementos que assegurassem a sua identificao.

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    De certa forma, a construo visual dos potenciais santos faz notar que a consecuo do objetivo era mostrar aos fiis catlicos a primazia das ordens na contribuio santoral, certamente definidas no Conclio de Trento como o verdadeiro sustento da Igreja militante. Todavia, da importncia desses ltimos para entender em sua totalidade o contexto espiritual de muitas imagens que conformam o presente acervo, introduz-se um segundo elemento no corrente discurso, em que o protagonismo no corresponde com exclusividade ao universo conventual, sobretudo masculino.

    Em outros exemplos, as impresses registradas pelas imagens utilizadas permitem formar uma ideia mais completa de que o funciona-mento de oratrios pertencia em grande parte a seculares, ocasio em que o marco social da imagem religiosa atravessa os muros dos conventos, alcanando o cenrio visual domstico por excelncia, como bem se confirmou nas prprias fontes literrias utilizadas, nos documentos eclesisticos, nos inventrios post mortem e, tambm, nos testamentos.

    Esta noo entre as imagens figuradas sugere que o clero tinha seu gosto e sua concepo da imagtica religiosa, como tambm indica que o processo de evangelizao dos segmentos populares estava assentado num

    projeto figurativo considerado apropriado leitura de mundo dos mesmos. No entanto, como se ver adiante, a receptividade da elaborao plstica das figuraes religiosas por tais devotos no passiva, opera-se nessa dinmica uma combinao de diversos elementos que refletem a intimidade com a imagem celestial.

    Tais assertivas, deste modo, direcionam o olhar para outro aspecto, em que, ao lado das representaes plsticas institucionalizadas (eclesisticas ou evangelizadoras), observam-se certas figuraes propriamente devocionais, diante das quais os fiis devotos dos segmentos populares exercitam suas veneraes segundo determinadas especialidades a tais figuraes atribudas, ou seja, por sua capacidade e poder de instrumentalizar, cada qual, um milagre divino.

    Criadas e enfatizadas pela matriz sensorial das prticas devocionais vale dizer que algumas imagens a ornamentar os oratrios domsticos

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    levavam meditao, enquanto outras, certamente, provocaram piedade nos fiis suscitada, por certo, diante das cenas de sofrimento de Cristo e da Virgem Maria, especialmente nos Passos da Paixo e nas lgrimas de Maria diante do sacrifcio de seu Filho, que, imitao de figuras teatrais, compunham o conjunto de oratrios, sobretudo setecentistas.

    Quanto s imagens de Maria, os oratrios domsticos acolheram de forma recorrente as representaes da Senhora da Conceio, particular-mente a Imaculada Conceio, de pele branca, idealizada pelos portugueses que, ser tambm reconhecida no Brasil, a partir do sculo XVIII, por Nossa Senhora da Conceio Aparecida. Esta nova imagem, acolhida nas profundezas de um rio paulista denominado Paraba, em 1717, remeter-se- pele negra por apresentar-se em madeira escura, no policromada.

    Na observao geral das invocaes, acentuam-se as seguintes segmentaes: a Virgem da Conceio, como padroeira dos fiis de origens diversas, e a do Rosrio, como padroeira dos escravos e tambm dos menos favorecidos, a corroborar, qui intolerantemente, no estabelecimento da expresso Purssima Conceio em relao Virgem do Rosrio.

    Lembre-se que a devoo a Nossa Senhora do Rosrio se encontra no mago da sociedade paulistana, em Irmandades e confrarias na So Paulo colonial, como afirma a historiadora Maria da Conceio dos Santos. A autora sustenta a ideia de que o surgimento da Irmandade do Rosrio, neste contexto, ocorre justamente para legitimar essa devoo, e que, inclusive, so os negros aqueles que a perpetuam em So Paulo de Piratininga, depois na cidade de So Paulo, at os dias atuais. 26

    Contudo, vislumbra-se durante o perodo colonial um vnculo sagrado e protetor dos escravos com Nossa Senhora, por certo favorvel ao estabelecimento de um elo poderoso, permanente e unssono entre os vrios segmentos da sociedade.27 Do mesmo modo como Nossa Senhora do Rosrio foi a protagonista do ncleo devocional mariano dos escravos, a invocao de Nossa Senhora da Conceio Aparecida torna-se difusa, aos poucos e cada vez mais, na sociedade colonial, sendo da entronizada como a Padroeira nacional.28

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    E assim, em meio a tradies diversas, a f na Amrica portuguesa reuniu condies para o programa de uma manufatura artstica cujas caractersticas, viria a revelar-se em manifestaes hbridas, tpicas da vida ao longo da empresa colonizadora. No entanto, e apesar disso, nota-se na ornamentao dos oratrios do presente acervo a ausncia da representao de Nossa Senhora da Conceio Aparecida, dos santos negros e de Nossa Senhora do Rosrio dos Pretos, em pintura ou estampa.

    J a representao de So Jos aparece com frequncia, a conformar especialmente os oratrios oitocentistas, onde se pode notar um maior nmero de figuraes pintadas; associadas Virgem e a Jesus, constituindo a Trindade Jesuta [Jesus, Maria e Jos] - momento, por certo, em que adquire elevada dignidade e atuao mais de acordo com sua santidade.

    Neste nterim, reitera-se que a devoo pela maioria das imagens catlicas na Amrica surgiu de tradio europeia, particularmente da Pennsula Ibrica. Via de regra, interessa notar que os atributos de tais imagens procedem da legenda do santo, tais como: a custdia de Santa Clara de Assis [Assis, **, 1243], a torre de Santa Brbara [**] [Figura 3] e o instrumento musical de Santa Ceclia [**]. Ou mesmo recordam o ofcio ou profisso que o santo exercia, a exemplo das ferramentas do carpinteiro So Jos e dos potes de farmcia de Cosme e Damio [Arbia, **]; h ainda aqueles que lembram o martrio, como a roda denteada de Santa Catarina de Alexandria [**]. Sem esquecer de citar os que derivam do antropnimo do santo.

    Durante os sculos XVIII e XIX, a sociedade brasileira tinha o religioso como predominncia, abrangendo todas as camadas raciais e sociais e tornando-se um fator importante inclusive para a hegemonia senhorial.29 Para ratificar o dito, acrescenta-se, de um universo mais amplo, as consideraes da historiadora mexicana Solange Alberro, a afirmar que as relaes que se estabelecem entre os seres humanos e seus protetores celestes:

    correspondem, por sua vez, a uma sociedade particular, em que os segmentos, setores e instituies, embora diferenciados e distantes, esto ligados por estreitas relaes clientelares de dependncia mtua:

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    o homem pede um favor e promete uma recompensa, o sobrenatural o outorga e recebe o prmio [traduo e interpretao minhas].30

    Infere-se desta ltima citao que no universo das trocas religiosas

    estabelecidas entre os fiis e os personagens da corte celeste, um dilogo familiar entre o santo e o devoto estabelecido, muitas vezes sem o objetivo precpuo da salvao e glria eterna, mas da busca pelo alvio de frustraes sociais e pessoais: soluo de problemas financeiros, familiares e afetivos, e at mesmo pela prpria subsistncia.

    Figura 3: Oratrio de embutir, sculo XVIII.

    Localizao: Acervo Artstico-Cultural dos Palcios do Governo do Estado de So Paulo, Campos do Jordo, So Paulo.

    Fonte: Silveli Toledo Russo, 2006.

    Tais consideraes motivadoras corroboram a dinmica de anlise do universo iconogrfico da religio catlica que conforma o acervo de oratrios elegido. Neste segmento, permite-se enunciar que, no quadro de

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    sua criao artstica, tais artefatos participam da cultura figurativa de seu tempo, assimilando e refletindo, por um lado, as questes suscitadas em redor da imagem e, de igual modo, a conjuntura em que sua produo se encontra inserida.

    E assim se contempla uma conformao especial na convocao de imagens, com destaque aos santos patronos e aos smbolos religiosos mais populares, representando relatos histricos ou de tradies religiosas associadas aos santos, como a constituio de cenas da vida de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos do hagiolgico cristo que exemplificam, entre outros, a caridade, a piedade, o sacrifcio, a f inabalvel e a misso evangelizadora.

    Verifica-se ainda que o recurso aos anjos, que gradualmente se convertem em putti, comum na representao mariana, sobretudo na cena em que a Virgem coroada. Em termos compositivos, verifica-se que as temticas introduzidas em alguns exemplares articulam-se com enquadra-mentos de diferentes caractersticas, designadamente, estruturas de ndole arquitetnica e paisagstica, que se manifestam independentemente de se associar a figuraes do hagiolgico ou da Virgem.

    Com caractersticas semelhantes, lembra-se da existncia de outras entidades devocionais, ligadas s imagens catlicas, que fomentaram certo afeto e venerao, talvez, mais particularizados. Alm do predomnio de uma tradio santoral e de imagens do prprio Cristo, ocorreram outras devoes muitas vezes afianadas pela estima e apreo que acolhiam de membros da nobreza, da famlia real e de autoridades eclesisticas que ocupavam altos cargos no corpo da Igreja.

    A respeito dos afetos e veneraes dos soberanos a diferentes santos ou entidades sagradas, a disposio para manifestar em ato pblico tais sentimentos podia at mesmo recair em alteraes na prpria hierarquia das celebraes do ciclo litrgico. Haja vista, por exemplo, como discorre Fortunato de Almeida, em Histria da Igreja em Portugal, as ddivas concedidas pelo decreto de 27 de fevereiro de 1781 da Congregao dos

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    Ritos, propondo a realizao em Portugal e conquistas do ofcio e missa prpria do Santssimo Sacramento a 24 de maro de cada ano.31

    De todo modo, tais ofcios religiosos revelam grande importncia na sedimentao da religiosidade na Amrica, seja na devoo ao Cristo Eucarstico, vinculada Igreja, seja na devoo a uma imagem autnoma,32 que surge em cada cidade ou vila como padroeira, ou em cada famlia entronizada no oratrio domstico e festejada por meio de novenas e ladainhas, realizando a imanncia entre os seres humanos e os sobrenaturais: Jesus Cristo, a Virgem Maria e os anjos e santos protegem, auxiliam e curam os devotos que imploram.

    Vislumbra-se, de tal modo, ao lado de um grande nmero de invocaes de Nossa Senhora e de Jesus Cristo, de origem europeia, que foram estimuladas devoes novas relacionadas apario de imagens e milagres. Como se falou at aqui, as congregaes missionrias jesutas, franciscanos e dominicanos introduziram o culto aos santos de devoo dos prprios fundadores, aos quais seriam posteriormente acrescidos santos nativos reconhecidos canonicamente pela hierarquia catlica.

    Aludiu-se tambm aos cultos oficializados pela Igreja, na Amrica Latina, que a hierarquia estimulou, ou ao menos tolerou, incorporando tradies pr-crists de natureza devocional. Contudo, como se pode notar em alguns oratrios, a quantidade de devoes e prticas admitidas no foi suficiente para satisfazer as necessidades espirituais das populaes, ocorrendo devoes no cannicas, isto , a consagrao como santos de pessoas no reconhecidas como tal segundo as regras de declarao do estado de santidade e autorizao para a realizao de culto pelas autoridades eclesisticas, segundo as normas do Direito Cannico.

    Contudo, sem pretender resumir a mirade de consideraes de cunho ornamental oferecidas pelos artefatos religiosos aqui apresentados, aproveita-se para evidenciar neste ponto outra tipologia que apresenta estilemas do vocabulrio decorativo de carter contra-reformista, a figurar nas suas estruturas composicionais. Neste intento, distingui-se o oratrio que

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    emerge da parede de uma das salas do Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, em So Paulo [Figura 4].

    Tal exemplar, posicionado particularmente na ala que abriga o Museu de Arte Sacra de So Paulo, MAS, e que se integra taipa da arquitetura edificada no sculo XVIII, funciona como um testemunho da excelncia de uma rstica tcnica construtiva, baseada na madeira e no barro, possivelmente acompanhando as tradies nas construes da poca em So Paulo, onde as ferragens so excepcionais.

    Este oratrio, datado do sculo XVIII, foi construdo possivelmente em fase anterior construo do referido convento e adaptado posteriormente como oratrio embutido. Graas espessura das paredes do convento, apresenta adequao formal em arcos concntricos de forma torsa em espiral, revelando a presena significativa de uma simbologia eucarstica na sua ornamentao o motivo simblico ornamental da videira.

    Desta forma, sob a linha quebrada das impostas, erguem-se as arquivoltas de extrema rusticidade e beleza, revestidas com motivos fitomorfos, com folhas de acanto em alto relevo, sendo algumas encrespadas e decoradas com smbolos eucarsticos, numa ornamentao que nos remete arte da talha dourada, encontrada nos retbulos portugueses do primeiro ciclo de sua evoluo.33

    Assim, inferi-se, oportunamente, que a difuso do imaginrio que se desdobra nos usos das imagens e dos ornamentos, estimulando laos de identidade e confiana.

    Ao lanar o olhar para a relao entre os devotos e suas invocaes na Amrica colonial, particularmente no Brasil, interessa expor que no fica claro que os cultos representados pelas imagens dos santos fossem tidos estritamente por gnero. Neste mbito, vislumbra-se, sobretudo por meio das fontes primrias pesquisadas que homens e mulheres chegavam a devotarem e congregavam tanto imagens de Cristo e de santos masculinos como de santos da esfera feminina. Entretanto, devido forte segregao daquele perodo, no surpresa que os santos de devoo fossem muitas vezes do mesmo gnero do devoto.

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    Aos santos se associa a recuperao e promoo do hbito romano de honrar os heris, particularmente consoante com os santos mrtires, ou confessores da f [ttulo dado aos canonizados], isto , aqueles que se sacrificaram no testemunho da palavra de Cristo.

    Figura 4: Oratrio de embutir, sculo XVIII.

    Localizao: Acervo do Museu de Arte Sacra de So Paulo, So Paulo. Fonte: Silveli Toledo Russo, 2006.

    No horizonte da observncia religiosa, os mrtires eram reputados

    como indivduos que no temeram a morte. Sobre o martrio de Cristo, por exemplo, acrescentam-se as palavras de Renato Cymbalista, quando o autor discorre, em sua tese de doutorado, que o martrio de Cristo significou um fator de identidade da religio crist, e o prprio Novo Testamento deu ao sofrimento de Cristo um sentido exemplar e pedaggico: por ter ele mesmo sofrido, ao ser posto prova, pde vir em auxlio daqueles que esto sendo postos prova [Hebreus 2, 18].34

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    Alguns atributos correspondem a grupos estabelecidos, segundo Schenone: os mrtires se distinguem pelo fato de levar consigo a palma; as autoridades, as coroas e os cetros e os doutores, o livro e a maquete da Igreja, enquanto que o lrio distingue os castos e as virgens. E assim, no horizonte de tal observncia surgem diversos atributos difceis de qualificar, em que ocorre uma tendncia do mesmo atributo ser o distintivo de um ou mais santos ou para cuja identificao no h regras precisas.

    Em outros exemplares, pode-se ver ainda Santa Rita de Cssia [**], da Ordem dos Agostinianos, trazendo um crucifixo e uma palma com trs coroas, alusivas a uma vida triplamente exemplar de donzela, de esposa e de monja. Como atributo caracterstico, tem a fronte estigmatizada, marca que lhe apareceu devido s suas intensas meditaes sobre a paixo de Cristo diante de um crucifixo.35

    Figura 5: Oratrio de pousar, sc. XVIII.

    Localizao: Acervo Artstico-Cultural dos Palcios do Governo do Estado de So Paulo, Campos do Jordo, So Paulo.

    Fonte: Silveli Toledo Russo, agosto de 2006.

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    No que implica a reconstituio de cenas do ciclo da Paixo de Cristo, associando o sacrifcio de Cristo ao de suas testemunhas, verifica-se que tal narrativa tornou-se o paradigma de uma morte santa. Entre o repertrio de temas, o episdio da Paixo aparece com frequncia, haja vista no exemplar apresentado a seguir, localizado nas dependncias do Acervo Artstico-Cultural dos Palcios do Governo do Estado de So Paulo, AACPG [Figura 5].

    Diante das consideraes oferecidas at aqui, acredita-se no ser demais aceder a visualizao do elemento decorativo do Oratrio proveniente da morada-sede da fazenda de nome Pirahy, em Itu, Estado de So Paulo, datado do sculo XVII, de colorido intenso aps o restauro atual, especificamente no ano de 2004. Trata-se de um importante representante da categoria, ora tambm recolhido s dependncias do Museu de Arte Sacra de So Paulo, mais especificamente ao corredor principal do Museu, desde 1971 [Figuras 6 e 7]. Como um componente do altar, sua estrutura ornamental parece ter sido construda de modo a emular os retbulos que costumavam adornar, na mesma poca, os altares das principais igrejas paulistas guarnecidos de talha dourada.36

    Afigura-se no plano esttico do seu tmido peso escultrico veiculao da doutrina crist, sob informaes de inspirao meramente floral e vegetal. Demarcador do espao destinado representao de um Santo orago ou de um mistrio cristolgico acredita-se tenha sido o Cristo em algumas de suas veneraes, visto na tbua posterior da pea o desenho de um rtilo sol, irrompendo de um fundo carmesim em rstico fingimento de lacas, que o cristianismo retomou da tradio pag, conferindo-lhe tambm uma conotao cristolgica.37

    Relativamente diante deste retbulo de oratrio elevado a altar, reconhece-se a adoo articulada da conjugao de duas componentes, designadamente, de uma, notadamente estrutural, definida pelos arcos concntricos que conferem efeitos arquitetnicos pea, como de outra pictrica, assegurada, sobretudo, pelos motivos de ndole vegetalista e floral que constituem a sua composio plstica, como as folhas de acanto

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    douradas ora em relevo ora vazadas, evidenciando ainda uma encenao organizada maneira dos retbulos.

    Figura 6: Oratrio da Fazenda Pirahy, Itu, So Paulo, sculo XVIII.

    Localizao: Acervo do Museu de Arte Sacra de So Paulo, So Paulo. Fonte: Silveli Toledo Russo, 2008

    Outros elementos interferem na sua decorao: na parte superior da

    pea, surge no eixo central, uma ilustrao dos mistrios da Doutrina Crist a pomba, smbolo da paz e da esperana, a partir do episdio de No [Gn

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    8, 10-11], em que regressa arca com o ramo que anuncia o fim do Dilvio. E ainda:

    Destaca-se na base da pea, sobretudo entre os dois singulares querubins, duas largas barras com floro esculpido em desenho de roscea ladeada por duas palmas horizontais; elemento decorativo que se aproxima do atributo martirolgico, ou seja, as palmas da entrada de Cristo em Jerusalm no Preldio da Paixo, e que, por extenso se associam aos confessores da f.38

    Figura 7: Oratrio da Fazenda Pirahy, Itu, So Paulo, sculo XVIII.

    Localizao: Acervo do Museu de Arte Sacra de So Paulo, So Paulo. Fonte: Silveli Toledo Russo, 2008.

    Na sequncia de consideraes, possvel inferir o tipo de discurso

    adotado sobre as gramticas decorativas utilizadas no corpus em anlise, que permitem identificar um panorama de manufatura caracterizado pela conjugao de contributos plsticos que denotam uma importante inteno

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    representao temtica crist, atento s observncias religiosas da poca; ou seja, ao programa iconogrfico tradicional, quer no que concerne aos atributos que as figuraes ostentam quer nos adereos a que se associam.

    NOTAS ** Arquiteta. Este texto decorre de tese de doutorado defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo em maio de 2010, intitulada: Espao Domstico, Devoo e Arte: A Construo Histrica do Acervo de Oratrios Brasileiro, Sculos XVIII e XIX. Esta pesquisa contou com o apoio financeiro da CAPES. E-mail : [email protected] 1 DUPRONT, Alphonse. Du Sacr. Croisades et plerinages. Images et Languages. Paris: ditions Gallimard, 1987, p. 460-461: Entre le consensus cultuel et llection surnaturalle reconnue, stablit le passage, cest--dire laller et retour dun monde lautre. Pour cette opration mentale naturelle aux simples, limage le plus souvent est la voie. Voie, non symbole, et voie en ce sens que lobjet sacr, toujours plus ou moins anthropomorphis [...]. Plus limage est matrielle, plus elle supporte la double opration o va squilibrer tout ensemble pit, recours et religiosit populaire: tout extrieure, limage, elle impose la distance, donc recul e vnration ; par ailleurs, accessible, elle soffre au contact, ce gest physique et sublimant dunit. 2 MORGAN David. Visual Piety: A History and Theory of Popular Religious Images. Berkeley; Los Angeles; London: University of California Press, 1998. 3 MORGAN David. Visual Piety, 1998, Op. cit., p. 33. 4 RODRIGUES, Francisco de Assis. Diccionario Technico e Histrico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura. Lisboa: Imprensa Nacional, 1875, p. 222. 5 Neste sentido, interessa expor que os mtodos utilizados para analis-las tm buscado conhecimentos deveras sistemticos e consistentes, levando em conta o lugar reservado a elas no funcionamento das sociedades - SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Bauru: Edusc, 2007, p. 26 -, auferindo uma importncia alm daquela ligada s suas qualidades estticas, visando sua capacidade de representar os imaginrios sociais e de evidenciar as mentalidades coletivas - CHARTIER, Roger. Imagens. In: BURGUIRE, Andr. Dicionrio das Cincias Histricas. Trad. Jayme Salomo. Rio de Janeiro: Imago, 1993, pp. 406-407. 6 BURKE, Peter. Testemunho das imagens. In: ________. Testemunho ocular. Histria e imagem. Bauru: Edusc, 2004, p.15. 7 Sobre a possibilidade de uma aproximao antropolgica cultura visual do passado: o que atualmente se prope, no obstante comentar sobre as imagens tendo em vista refletir sobre o cultual e o artstico, analisar a arte

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    em sua especificidade e em sua relao dinmica com a sociedade que a produziu, e ainda, compreender sua funo esttica como uma dimenso essencial de seu significado histrico. Cf. SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens, 2007, Op. cit., 2007, p. 33-54. 8 MENESES. Ulpiano Bezerra de. Memria e Cultura Material: documentos pessoais no espao pblico. In: Estudos Histricos, vol. 11, n. 21, 1998, p. 89-104. 9 O iconoclasmo, traduzido por Leloup como dio imagem, sob um ponto de vista teolgico, fundamenta-se sobre a proibio do livro do xodo: No fars para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe aos que existe l em cima nos cus, ou embaixo na terra, ou nas guas que esto debaixo da terra (Ex 20, 4). Acrescente-se que a proibio no se refere somente a Deus que, evidentemente, permanece inacessvel, inominvel, invisvel, irrepresentvel; Deus um deus escondido, como bem o lembra a liturgia de So Joo Crisstomo assim como os textos bblicos. LELOUP, Jean-Yves. O cone: uma escola do olhar. So Paulo: Unesp, 2006, p. 13. 10 Maria da Conceio eleva as palavras de Julita Scarano no trecho em que esta autora discorre que vinculadas tradio medieval das confrarias, as irmandades brasileiras davam maior importncia s categorias raciais e sociais, no se integrando em qualquer finalidade profissional. SCARANO, Julita. Devoo e escravido. So Paulo: Cia Editora Nacional, 1978, v. 357, p. 24 apud SANTOS, Maria da Conceio dos. Irmandades e confrarias na So Paulo colonial. In: VILHENA, Maria ngela; PASSOS, Joo Dcio (Orgs.). A Igreja de So Paulo: presena catlica na histria da cidade. So Paulo: Paulinas, 2005, p. 247. Sobre isso, Conceio acrescenta que como no Brasil o que imperava era o sistema escravista, as irmandades religiosas aparecem ligadas s confrarias medievais, de finalidade religiosa e caritativa. SANTOS, Maria da Conceio dos. Irmandades e confrarias na So Paulo colonial..., 2005, Op. cit., p. 247. 11 SANTOS, Maria Conceio. Irmandades e confrarias na So Paulo colonial..., 2005, Op. cit., p. 250. 12 AMARAL, Aracy A. A Hispanidade em So Paulo: da casa rural Capela de Santo Antonio. So Paulo: Nobel: Editora da Universidade de So Paulo, 1981, p. 72. 13 Idem p. 109, nota 79. 14 Grande foi sua comoo ao ver o lindo rosto desfigurado pela morte e em processo de decomposio, que voltou seu corao a Deus [Traduo e Interpretao minhas]. SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, 1992, Op. cit., vol. I, pp. 399-403. 15 SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, SCHENONE, Hector. Iconografia del Arte Colonial. Buenos Aires: Fundacin Tarea, 1992, vol. I, p. 399-403. Para perpetuar a memria dos santos foram produzidos vrios escritos de gnero literrio desde os primeiros tempos do cristianismo, designados comumente como Martirolgicos histricos e, posteriormente, como Vidas dos Santos, tendo em vista, segundo Schenone, apresentar tanto ao clero como aos fiis devotos informaes mais amplas a respeito dos

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    santos venerados, nos quais se agregaram esclarecimentos da vida dos mesmos ou dos respectivos martrios, assim como a localizao cronolgica dos feitos realizados. Assim, diversos foram os livros destinados a analisar criticamente as representaes dos temas religiosos, interessantes como fontes de consulta para os estudos iconogrficos, a facilitar inclusive a identificao dos santos, seus atributos, tipos fsicos e vestimenta. 16 Segundo Hector Scenone, as representaes mais difundidas dos romanos pontfices, sejam eles canonizados ou no, correspondem a dois tipos bem definidos: em um caso, aparecem revestidos com os paramentos litrgicos destinados s grandes cerimnias: em consistrios pblicos, canonizaes e bendies Urbi e Orbi. J em outro caso, aparecem em traje de audincia ou etiqueta. [traduo e interpretao minhas] de: las representaciones ms difundidas de los papas, sean ellos canonizados o no, son de dos tipos bien definidos: en unas aparecen revestidos con los paramentos litrgicos destinados a las grandes cerimonias, como ser: consistorios pblicos, canonizaciones, bendiciones Urbi et Orbi etc., mientras que otras los muestran en traje de audiencia o de etiqueta. SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, 1992, Op. cit., vol. I, p. 482. 17 os santos admiraram a honestidade, e no seria necessrio represent-lo ferindo a si prprio, despi-lo at os ps, e acrescente-se que: quando lhe sucedera isto [...] era um jovem de mais ou menos trinta anos, e no um velho [...] [traduo e interpretao parciais minhas]. PACHECO, Francisco. Arte de la Pintura. Su antiguedad y grandezas. Madrid, 1866 apud SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, 1992, Op. cit., vol. I, p. 482. 18 recordo-me haver unido o dia com a noite, clamando e suspirando e ferindo-me no peito sem cessar. [traduo e interpretao minhas]. SCHENONE, Hector. op. cit., vol. I, p. 482. 19 No entanto, seguindo as conceituaes de Schenone, nota-se que os atributos que efetivamente particularizam So Jernimo so: a trombeta do Juzo Final que se relaciona com seguinte frase a ele atribuda: Sea que coma, sea que beba, siempre me parece que resuena en mis odos la trompeta que dice: Levantaos, muertos y venid a Juicio!, ou seja, Seja o que coma, seja o que eu beba, sempre parece ressoar em meus ouvidos a trombeta que diz: Levante os mortos e os tragam ao Juzo! [traduo e interpretao minhas]. Acrescente-se tambm que sua atividade apologtica enfatizou a virgindade de Maria, a venerao aos mrtires e s relquias, e o estado monstico. SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, 1992, Op. cit., vol. I, p. 483. 20 SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, vol. I, 1992, Op. cit., p. 327-399. 21 SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, vol. II, 1992, Op. cit., p. 773-779. 22 Idem, p. 774. 23 SCHENONE, Hector. Op. Cit. , vol. I, p. 262-284. 24 Idem, p. 156-165.

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    25 Apesar de ter sido obeso e de altura inferior a normal, foi representado como um jovem imberbe e esguio, e somente os imagineiros lusitanos respeitaram os traos fsicos antes assinalados, ainda que idealizando-los [traduo e interpretao minhas]. SCHENONE, Hector. Iconografia Del Arte Colonial, vol. I, 1992, Op. cit., p. 158. 26 SANTOS, Maria da Conceio dos. Irmandades e confrarias na So Paulo colonial..., 2005, Op. cit., p. 259. 27 MOURA, Margarida. Devoes Marianas na roa e na vila. In: Cadernos CERU, n. 8, 1997, p. 126. 28 Especificamente no perodo da Repblica, aps sedimentar-se, de fato, no cerne das atenes polticas da sociedade brasileira. 29 Ver OLIVEIRA, Pedro. Religio e dominao de classe: gnese, estrutura e funo do catolicismo romanizado no Brasil. Petrpolis: Vozes, 1985. 30 las relaciones que establecen los seres humanos con sus protectores celestiales corresponden, a su vez, a una sociedad particular, donde los segmentos, sectores y estamentos, aunque diferenciados y distantes, estn ligados por estrechas relaciones clientelares de dependencia mutua: el hombre pide un favor y promete una recompensa, el sobrenatural lo ortoga y recibe el premio. ALBERRO, Solange. Retablos y religiosidad popular en el Mxico del siglo XIX. In: Retablos y exvotos. Coleccin, uso y estilo. Mxico: Museo Franz Mayer/ Artes de Mxico, 2000, pp. 28. 31 ALMEIDA, Fortunato de Almeida. Histria da Igreja em Portugal. Porto: Portucalense Editora, 4 v., v. 3, livro 4, 1967-1971, pp. 452-453. 32 PEREIRA, Jos Carlos. A Linguagem do Corpo na Devoo Popular do Catolicismo. In: Revista de Estudos da Religio, n. 3, 2003, pp. 67-98. 33 Ver ALVES, Natlia. A Arte da Talha no Porto na poca Barroca, vol. 1. Porto: Arquivo Histrico Cmara municipal do Porto, 1989; ______.Robert Smith e a talha do reino. In: Robert Smith A Investigao na Histria da Arte. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian, pp. 146-61; _____ . A Talha em Portugal. Lisboa: Ed. Livros Horizonte Ltda., 1962. 34 CYMBALISTA, Renato. Sangue, Ossos e Terras. Os mortos e a ocupao do territrio luso-brasileiro, sculos XVI e XVII. 2006. 428 p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de So Paulo, So Paulo, 2006, p. 36. 35 SEBASTIN, Santiago. Contrareforma y Barroco. Lecturas Iconogrficas e Iconolgicas. Madrid: Alianza, 1989, p. 674. 36 BONAZZI, Mozart Alberto Bonazzi. A Talha dourada na antiga Provncia de So Paulo: exemplos de ornamentao barroca e rococ. In: Percival Tirapeli (org.). Arte Sacra Colonial: barroco memria viva. So Paulo: Editora Unesp, Imprensa Oficial do Estado, 2001, p. 20. 37 LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. In: Catlogo da Exposio: Altares Paulistas. Resgate de um Barroco. So Paulo: Museu de Arte Sacra de So Paulo, 2004, pp. 14-16. 38 Associando o sacrifcio de Cristo ao das suas testemunhas, mrtires ou confessores da f (nome dado aos canonizados), isto , aqueles que se sacrificaram no testemunho da Sua palavra, o altar cristo, alm de refletir

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    aquelas tradies do mundo pago, cumpre a descrio que lhe feita no texto apocalptico: Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram (Ap 6, 9); Ver ROQUE, Maria Isabel Rocha. Altar Cristo. Evoluo at Reforma Catlica. Lisboa: Universidade Lusada, 2004, p. 27.