Autonimia e Educação em Emmanuel Kant Paulo Freire

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EDIPUCRS, 2007 Capa: Vincius de Almeida Xavier Diagramao: Carolina Bueno Giacobo e Gabriela Viale Pereira Reviso: Daniela Origem Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)Z38a Zatti, Vicente Autonomia e educao em Immanuel Kant e Paulo Freire / Vicente Zatti. - Porto Alegre : EDIPUCRS, 2007. ISBN 978-85-7430-656-8 Publicao Eletrnica 1. Kant, Immanuel - Crtica e Interpretao. 2. Freire, Paulo - Crtica e Interpretao. 3. Educao - Filosofia. 4. Autonomia - Educao. I. Titulo. CDD 370.1

Ficha Catalogrfica elaborada pelo Setor de Processamento Tcnico da BC-PUCRS

Av. Ipiranga, 6681 - Prdio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre, RS - BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3523 E-mail: edipucrs@pucrs.br http://www.pucrs.br/edipucrs

Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilzio Teixeira Conselho Editorial: Ana Maria Tramunt Ibaos Antnio Hohlfeldt Dalcdio M. Cludio Delcia Enricone Draiton Gonzaga de Souza Elvo Clemente Jaderson Costa da Costa Jernimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) Juremir Machado da Silva Lauro Kopper Filho Lcia Maria Martins Giraffa Luiz Antonio de Assis Brasil Maria Helena Menna Barreto Abraho Marlia Gerhardt de Oliveira Ney Laert Vilar Calazans Ricardo Timm de Souza Urbano Zilles EDIPUCRS: Jernimo Carlos Santos Braga - Diretor Jorge Campos da Costa - Editor-chefe

Vicente Zatti, nascido em 19 de agosto de 1980 em Frederico Westphalen, Licenciado em Filosofia pela FAFIMC, Mestre em Educao na rea de Filosofia da Educao pela UFRGS, professor Substituto de Filosofia da Educao na UFRGS e professor de Histria na Rede Municipal de Novo Hamburgo.

AGRADECIMENTOS O presente trabalho parte de minha dissertao de mestrado defendida na Faculdade de Educao da UFRGS. Agradeo aos professores Dr. Laetus Mrio Veit, Dr. Balduino Andreola, Dr. Rosa M. F. Martini, Dr. Luiz Carlos Bombassaro e, tambm a Ana Maria Freire.

"Esclarecimento [Aufklrung] a sada do homem de sua menoridade, da qual ele prprio culpado. A menoridade a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direo de outro indivduo.(...) Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu prprio entendimento, tal o lema do esclarecimento [Aufklrung]". Immanuel Kant

Algum poderia dizer que cada um de ns modifica a si mesmo, se modifica at o ponto em que muda as relaes complexas das quais o eixo. Gramsci

INTRODUO CAPTULO I - A AUTONOMIA CAPTULO II - O CONTEXTO FILOSFICO DO ILUMINISMO E A CENTRALIDADE DA AUTONOMIA NA FILOSOFIA PRTICA DE KANT 2.1- O ILUMINISMO E SUA NOO DE AUTONOMIA 2.1.1 - Razo iluminista 2.1.2 - Antropologia iluminista 2.1.3 - O iluminismo radical 2.2 - ROUSSEAU E A AUTONOMIA 2.3 - KANT: HERANA E SUPERAO DA NOO DE AUTONOMIA ILUMINISTA 2.4 - KANT: RAZO PRTICA E AUTONOMIA 2.5 - A PEDAGOGIA KANTIANA E A AUTONOMIA CAPTULO III - A HETERONOMIA A QUE PAULO FREIRE SE OPE 3.1 - A OPRESSO 3.2 - MASSIFICAO E MEDO DA LIBERDADE 3.3 - COLONIALISMO E INVASO CULTURAL 3.4 - SECTARIZAO E IRRACIONALISMO 3.5 - AO ANTIDIALGICA 3.6 - CONCEPO BANCRIA DA EDUCAO E A OPOSIO PROFESSOR/ALUNO 3.7 - NEOLIBERALISMO E A TICA DE MERCADO 3.8 - ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE A HETERONOMIA HOJE CAPTULO IV - A EDUCAO PARA A AUTONOMIA EM PAULO FREIRE 4.1 - INCONCLUSO DO SER HUMANO E A AUTONOMIA 4.2 - EDUCAR FORMAR: IMPRESCINDIBILIDADE DA TICA E ESTTICA 4.3 - AUTORIDADE E LIBERDADE 4.4 - CURIOSIDADE, CRITICIDADE E A AUTONOMIA 4.5 - CONSCIENTIZAO E EDUCAO DIALGICA 4.6 - EDUCAR PARA TRANSFORMAR CAPTULO V - PENSAR A EDUCAO PARA A AUTONOMIA HOJE A PARTIR DAS CONFLUNCIAS E DISSONNCIAS ENTRE KANT E FREIRE 5.1 - IMMANUEL KANT E PAULO FREIRE: CONFLUNCIAS E DISSONNCIAS 5.2 - FORMAO POLTICA E A EDUCAO PARA A AUTONOMIA 5.3 - FORMAO TICA E A EDUCAO PARA A AUTONOMIA 5.4 - FORMAO ESTTICA E A EDUCAO PARA A AUTONOMIA CONCLUSO BIBLIOGRAFIA

INTRODUO O interesse em pesquisar o tema autonomia e educao tomando como referncia Immanuel Kant1 e Paulo Freire2 surgiu a partir da constatao de situaes do meio escolar e social atual que levam a ou se caracterizam como situaes de heteronomia. Destaco dentre essas situaes a forma como grande parte dos alunos desenvolvem uma capacidade de compreenso insuficiente, se mostram arredios leitura, seguem a moda irrefletidamente, apresentam dificuldade em pensar por conta prpria e discutir criticamente os assuntos que envolvem, inclusive, seu cotidiano. A nvel social destaco a estetizao do mundo da vida que leva ao individualismo, indiferena com o humano, irresponsabilidade, massificao e a conseqentes formas de pensar e agir homogeneizados, no autnticos e autnomos. Alm disso, a razo instrumental promove hoje a colonizao de diversas esferas do mundo da vida, gerando uma sociedade em muitos aspectos desumanizante e irracional, que prioriza o econmico em detrimento do humano. A realidade social permeada pela estetizao, pela racionalidade instrumental, e que se caracteriza como sociedade de massa, ecoa diretamente sobre a educao. Os modelos educacionais elaborados a partir de um pensamento tecnicista-instrumental no abordam a educao em sua totalidade formativa, se mostrando, portanto, insuficientes na formao do educando enquanto homem e cidado. Dessa forma, sociedade e escola acabam gerando um ser humano incapaz de formular juzos prprios e autnomos, incapaz de pensar certo3, como diz Paulo Freire, tanto no nvel de conhecimento como em nvel moral. Permanecem as pessoas, ento, dependentes e determinadas por pensamentos, normas de conduta, ideais, projetos que no so seus, normalmente "impostos" pelos meios de comunicao ou pelo senso comum vigente. E a determinao passiva do sujeito pelo que lhe externo heteronomia. A autonomia supe que o sujeito seja capaz de fazer uso de sua liberdade e determinarse4. Alm do acima exposto, as condies sociais desfavorveis como pobreza, misria, favelamento, em que grande parte da populao brasileira vive, so elementos que dificultam e at impossibilitam a autonomia. Em geral a pobreza econmica condiciona a uma situao de pobreza cultural, o que dificulta e limita o exerccio autnomo da cidadania, pois, privados de boa formao, no conseguem estabelecer-se como sujeitos no contexto social por no terem condies iguais de intercomunicao e no terem condies iguais para disputar as oportunidades, inclusive de emprego. As condies sociais desfavorveis limitam o poder ser autnomo, tendo em vista que a autonomia engloba tanto a liberdade de dar a si os prprios princpios, quanto a capacidade de realizar os prprios projetos. Por isso, pensamos que papel da escola promover uma educao que leve o educando a pensar livremente e, tambm, capacit-lo para realizar os projetos que estabelece para si. Mas por que estudar Kant e Paulo Freire para iluminar essa problemtica? Quem definiu o conceito de autonomia na modernidade e fez dele um conceito central em sua teoria foi Kant. Nesse ideal viu o fundamento da dignidade humana e do respeito, o que foi central para o desenvolvimento dos sistemas legais, dos sistemas

educacionais e da sociedade moderna como um todo. A concepo kantiana de liberdade como autodeterminao influenciou muito a educao e o modelo escolar criado a partir da modernidade. Mas para entendermos melhor a concepo de autonomia de Kant, veremos tambm a concepo de autonomia defendida pela filosofia de sua poca, o iluminismo. Paulo Freire traz uma contribuio extremamente importante para a educao, especialmente de pases em que situaes de opresso so caractersticas marcantes, como o caso do Brasil. Ele formulou uma proposta educacional que procura transformar o educando em sujeito, o que implica na promoo da autonomia. Seu mtodo prope uma alfabetizao, uma educao, que leve tomada de conscincia da prpria condio social. A conscientizao possibilitaria a transformao social, pela prxis que se faz na ao e reflexo. Teramos, ento, um sujeito emancipado de uma condio social opressora. Em Freire, a libertao das heteronomias, normalmente impostas pela ordem scio-economica-educacional injusta e/ou autoritria, condio necessria para a autonomia. As propostas de Kant e Freire possuem em comum uma aposta esperanosa na humanidade, no potencial humano de fazer-se melhor e construir um mundo melhor. A questo que se coloca nessa obra refletir sobre as possibilidades de as concepes de educao para a autonomia de Immanuel Kant e Paulo Freire iluminarem uma educao que vise formar para a autonomia hoje, uma educao capaz de formar para a superao das heteronomias do nosso tempo. No primeiro captulo, fao a definio do conceito de autonomia e uma exposio da compreenso de autonomia de alguns pensadores ao longo da histria. No segundo captulo, procuro demonstrar o contexto filosfico do iluminismo no qual o pensamento kantiano se desenvolveu, definir a concepo de autonomia dos iluministas e demonstrar contra quais heteronomias se colocam, demonstrar que a concepo de autonomia dos iluministas considerada heteronomia por Kant, demonstrar porque no pensamento de Kant h a centralidade dos conceitos de autonomia e razo prtica, identificar contra quais heteronomias Kant se coloca. Ainda no segundo captulo, analiso os aspectos da pedagogia kantiana relacionados com o problema da educao para a autonomia. O terceiro captulo procura analisar contra que heteronomias Paulo Freire se ope, o que ser feito partindo de temas como opresso, massificao, medo da liberdade, colonialismo, invaso cultural, prescrio, sectarizao, irracionalismo, ao antidialgica, concepo bancria de ensino, neoliberalismo, tica de mercado. Tambm coloco aspectos da atualidade da questo heteronomia. O quarto captulo se debrua sobre a concepo de educao para a autonomia em Paulo Freire procurando analisar como devem ser as relaes professor/aluno e as relaes sociais para a promoo da autonomia, analisar a concepo antropolgica e social freireana bem como suas implicaes em uma educao para a autonomia, demonstrar a conscientizao e a edu