BATALHONE, Vitor (Vim, Vi, Escrevi)

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BATALHONE, Vitor (Vim, Vi, Escrevi)

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  • Aedos, n15, v.6, Jul./Dez. 2014

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    VIM, VI, ESCREVI: a experincia euclidiana dos sertes. Vitor Batalhone Jr.1

    Resumo: O presente artigo prope analisar como a alteridade radical do serto experimentada por Euclides da Cunha ao longo de sua participao na campanha de Canudos modulou de forma singular sua apreenso da realidade sertaneja. Educado na Escola Militar da Praia Vermelha segundo as teorias cientficas em voga poca, o autor percebeu continuamente que a relao entre seus pressupostos cientficos e a realidade do serto era por demais fugidia. Para dar conta do conflito oriundo de suas intenes originais de escrever uma histria de Canudos ao mesmo tempo em que um estudo cientfico sobre o serto, restou ao autor apenas a liberdade camuflada de suas descries literrias e o lastro de seu testemunho. Palavras-chave: Os sertes; historiografia; alteridade.

    Abstract: The following article seeks to analyze how the radical otherness of Brazilian backlands experienced by Euclides da Cunha during his role at Canudos war had singularly modulated his apprehension of the inner land reality. Educated according to fashioned scientific theories of the day at the Military School of Praia Vermelha, the author had steady realized that the relation between his own scientific assumptions and the backland reality was too much fugitive. In order to solve the conflict between his very first intentions of writing Canudos history and also a scientific study on the backland has just left him the camouflaged freedom of his literary descriptions and the warrant of his witness. Keywords: Os sertes; historiography; otherness.

    1. A formao positivista e a ocular cientfica

    Euclides da Cunha nasceu no dia 24 de novembro de 1866 em uma fazenda em Santa

    Rita do Rio Negro no interior fluminense, filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, um

    guarda livros dos cafeicultores do vale do Paraba do Sul, e de Eudxia Moreira, herdeira de

    pequenas propriedades. Ficou rfo logo aos trs anos de idade quando sua me morrera de

    tuberculose, sendo ento criado por suas tias. Em Terespolis, na casa de sua tia Rosinda, o

    jovem Euclides passou parte de sua vida a qual lembraria fotograficamente em

    contraposio ao perodo que passou em So Joaquim, na casa de outra tia, Laura. Sua

    experincia em engenhos fluminenses e fazendas cafeeiras paulistas marcaram Euclides com a

    memria de um Brasil bastante diferente daquele que conheceria em breve (RABELLO, 1946,

    p.9-14; NEVES, 2003, p.16).

    Durante a adolescncia, foi morar na Corte para realizar seus estudos. Esse perodo de

    sua vida foi marcado pela ebulio do movimento republicano (1870). Quando estudou no

    Colgio Aquino teve aulas de matemtica com Benjamin Constant, professor entusiasta do

    positivismo de Auguste Comte com quem aprendeu os primeiros ensinamentos de tal

    doutrina. Em 1884, ingressou na Escola Politcnica, para logo depois, em 1886, se transferir 1 Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Formado em Histria pela UFRGS (Bolsista PROPESQ/UFRGS-CNPQ 2007-2008). Mestre e doutorando pelo Programa de Ps-Graduao em Histria da UFRGS (Bolsista Fulbright-CAPES). Visiting Student Research Collaborator na Princeton University. Pesquisa sobre teoria da histria e histria da historiografia.

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    Escola Militar da Praia Vermelha, na qual se graduou em Engenharia. Apesar dos talentos

    literrios que demonstrou desde a juventude, a frgil situao econmica de sua famlia o

    direcionou para a carreira de Engenheiro, destino comum aos menos abastados da poca

    (RABELLO, 1946, p.18, 22, 24; CASTRO, 1995, p.30-31, 51).

    A Escola Militar, a academia dentro de um quartel ou, o Tabernculo da Cincia,

    formou Euclides segundo as doutrinas cientificistas ento em voga. Concomitantemente aos

    revezes polticos e militares que ocorriam no pas, a partir de 1850 difundiam-se no Brasil tais

    doutrinas que poderamos reunir sob a rubrica de cientificistas. Tais ideias eram bastante

    populares entre os jovens, mais especificamente o evolucionismo e o positivismo atravs de

    autores como Comte, Spencer e Huxley. Desta forma, a Escola Militar se constituiu em

    terreno frtil para a difuso de ideias que possibilitaram o surgimento de um culto cincia.

    Estar em compasso com o progresso era o que regulava as aes e os pensamentos destes

    jovens. Constantes, porm, eram os surgimentos de apropriaes difusas de cientificismo,

    evolucionismo e positivismo com o objetivo de harmoniz-las realidade sociocultural

    brasileira. Este emaranhado terico culminava, no raramente, na identificao de tal iderio

    com a figura de Comte, considerado o pai fundador do culto cincia.

    O mais importante para os jovens cientficos no eram filigranas doutrinrias, e sim o esprito geral dessas doutrinas. Se havia diferenas entre os autores, estas eram minimizadas por aquilo que afirmavam em comum: a f no progresso e na posio de destaque devida cincia (RABELLO, 1946, p.37; CASTRO, 1995, p.43, 73).

    Esse conjunto difuso de noes que chamaremos de cientificismo possibilitou que os

    alunos entendessem seus autores prediletos sob a lgica de um ncleo de ideias comuns e no

    segundo as especificidades de cada autor. Assim, fosse o positivismo de Comte, o

    evolucionismo social de Spencer ou o evolucionismo biolgico de Darwin, os cadetes-filsofos retinham antes os argumentos tericos e polticos que estivessem relacionados s ideias de progresso e cincia aplicveis ao seu contexto poltico-social do que uma

    apropriao complexa de tais teorias enquanto um todo sistematizado. Todavia, no devemos

    esquecer que os alunos da Escola Militar no viviam flutuando sobre tais teorias. Eles

    estavam situados no somente segundo coordenadas ideais, mas tambm segundo

    coordenadas materiais. Estes indivduos viviam cotidianamente a experincia de um mundo

    em rpida transmutao. Se numa noite saam de casa sob as luzes de lamparinas a leo, na

    noite seguinte se maravilhavam com a iluminao eletricidade:

    Vertigem e acelerao do tempo. Esta seria, sem dvida, a sensao mais forte experimentada pelos homens e mulheres que viviam ou circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro na virada do sculo XIX para o sculo XX. [. . .] Tudo parecia

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    mudar em ritmo alucinante. A poltica e a vida cotidiana; as ideias e as prticas sociais; a vida dentro das casas e o que se via nas ruas (NEVES, 2003, p.15).

    Estes sujeitos estavam experimentando o pice de um novo regime temporal e

    histrico. O sculo XIX foi, acima de tudo, o sculo da histria global e da ideologia do

    progresso. A experimentao do tempo para um indivduo que morasse em uma cidade moderna em qualquer lugar do planeta durante o perodo referido havia mudado radicalmente

    se comparado aos perodos anteriores. As inovaes tecnolgicas crescentes, ditadas por um

    ritmo de acelerao em progresso geomtrica, cada vez mais diminuam o tempo de

    assimilao de novas experincias alterando a experincia do tempo dos indivduos

    (KOSELLECK, 2004, p.104; HARTOG, 2003, p.28, 116, 137-138).

    O passado progressivamente perdia relevncia frente ao futuro, uma vez que no mais

    era possvel retirar lies exemplares diretamente aplicveis ao presente e que os sentidos

    implicados s instituies e experincias compartilhados por uma sociedade qualquer se

    tornavam progressivamente estranhos prpria sociedade. O evento pretrito exemplar perdia

    seu sentido frente fora de uma histria singular e progressista, pois se a histria progredia,

    o que seria possvel apreender com um passado em constante defasagem? A partir daquele

    momento, existiria ento a histria, e no mais histrias. Isso porque a partir da modernidade,

    a experincia do tempo comeou a ser pautada por uma espcie de roteiro linear, processual e

    progressivo no qual a civilizao ocidental de matriz europeia surgia como parmetro

    fundamental. A partir do sculo XVIII, as filosofias da histria modernas separaram ainda a

    histria, entendida como histria das aes humanas, da histria natural, e disto surgiu uma nova concepo temporal segundo a qual, o tempo no mais era regido pelos dados

    astronmicos ou sucesses dinsticas. A temporalidade da natureza sobrepunha-se o tempo acelerado do progresso e as naes tornaram-se, desde as primeiras dcadas do sculo XIX, as personagens principais desse drama universal (KOSELLECK, 2004, p.28-47;

    DALLONNES, 2008, p.13-14, 76-80).

    Era esse o choque cotidianamente experimentado pelos cadetes da Escola Militar,

    principalmente por aqueles que vinham do interior do pas para realizar seus estudos no Rio

    de Janeiro. Se na capital o progresso havia chegado de surpresa e se instalado de maneira

    perene ao mesmo tempo em que uma Repblica havia sido proclamada quase que de

    improviso com a ajuda destes mesmos cadetes, no interior a vida seguia regulada pelo tempo

    da natureza; que o tempo natural no reconhece os limites do calendrio humano. Dois

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    cenrios antagnicos conviviam desde ento sobre um mesmo espao poltico (NEVES, 2003,

    p.16).

    Euclides da Cunha no fugiu regra. Sua forma de enxergar o mundo era fortemente

    condicionada pelas teorias e filosofias que apreendera nesta poca de estudos. Os sertes esto repletos de referncias a esses autores especialmente caros a Euclides, por exemplo,

    Gumplowicz, Henry Buckle ou Taine. As teorias cientificistas que formaram o arcabouo

    terico de nosso autor moldaram no apenas sua forma de enxergar a realidade, mas tambm

    de construir seus objetos de observao e estudo. Sua percepo de um mundo regulado por

    uma temporalidade acelerada rumo ao progresso da civilizao lhe era confirmada

    cotidianamente, embora no sem conflitos.

    Em maro de 1897, aps a terceira expedio do Exrcito republicano, Euclides

    publicou A Nossa Vendeia, seu primeiro artigo sobre a guerra. Tal artigo associava diretamente Canudos ao movimento antirrepublicano francs de 1793, mostrando a viso

    negativa que seu autor possua do arraial e seus habitantes. Construdo sobre relatos de

    viajantes e naturalistas que tentaram descrever o serto, alm de atribuir motivaes

    restauradoras aos insurgentes, o artigo registra ainda a forma como os sertanejos foram

    depreciados por meio de um vocabulrio e uma ideologia cientificista. Para Euclides, o

    sertanejo fantico era um retrgrado, uma pessoa atrasada e sem instruo, com crenas

    diferentes das suas e que no comungava os louros da civilizao coroada pela cincia de sua

    poca. Segundo sua experincia, o serto era ainda regido pelo tempo quase imutvel da

    natureza, e seus habitantes conheciam poucas necessidades alm daquelas da sobrevivncia. O

    sertanejo, no momento da publicao do artigo, para o autor acima de tudo um brbaro, um

    selvagem, um outro alheio ao mundo que considerava melhor e mais verdadeiro. Dicotomia que se acentuou quando o autor foi enviado ao serto baiano para cobrir jornalisticamente a

    guerra de Canudos (RABELLO, 1946, p.88).2

    Ao aportar em Salvador, comparou a capital baiana a Bizncio em relao ao grau de

    opulncia. Descreveu ainda a reunio das tropas republicanas, ressaltando a multiplicidade

    racial, as origens raciais da populao brasileira, num refluxo prodigioso da nossa

    histria. Mais uma vez, a lente objetiva cientfica de nosso autor insistia em enquadrar

    2 A Nossa Vendeia foi publicado em dois artigos distintos no peridico O Estado de So Paulo, o primeiro em 14/03/1897, e o segundo em 17/07/1897. O primeiro artigo tratava da geografia do serto, o segundo das tticas militares do Exrcito nacional e dos jagunos, tecendo uma avaliao sobre essas e admoestando as tropas quanto aos erros que haviam cometido e as medidas a serem adotadas para suprimi-los. Resumidamente, o primeiro artigo esboava A Terra, e o segundo, O Homem e A Luta. CUNHA, Euclides da. Dirio de uma expedio. Organizado por Walnice Nogueira Galvo. So Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.11-13, 43-61.

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    de forma hierrquica e qualitativamente negativa o outro que no compartilhasse de suas

    crenas ou no pertencesse ao seu mundo, mas dessa vez os objetos de seu olhar reprovador

    foram os mestios proteiformes que formavam as fileiras do Exrcito brasileiro e lutavam a

    seu lado. As teorias cientificistas que formavam o arcabouo epistemolgico de Euclides

    moldaram sua forma de enxergar a realidade e de construir seus objetos de observao e

    estudo (CUNHA, 2000, p.111; RABELLO, 1946, p.91-92).

    O primeiro choque de Euclides com a alteridade do cenrio da guerra e de suas

    personagens: um lugar, o qual parado no tempo da natureza, no acompanhou a evoluo, o progresso da civilizao e que pode ser comparado Idade Mdia opulenta de Bizncio contra a moderao e a sobriedade dos tempos modernos; um homem, que fantico e ingnuo, ainda no havia aprendido as lies que a civilizao e a cincia tinham a oferecer a seus

    devotos. O serto para nosso autor, acima de tudo, runa. Runas de um passado colonial de

    traos ibricos que ao mesmo tempo pareciam irromper no presente, no pertencendo de todo

    ao passado e desorientando os projetos de futuro modernizadores (DECCA, 2001, p.153).

    Euclides embarcou no vaso militar Esprito Santo no dia 3 de agosto. Essa foi sua primeira viagem por mar e, ao longo dela, passou muito mal, chegando a escrever que foram

    quatro longos dias de verdadeira tortura. Chegando a Salvador, Bizncio retrgrada,

    passou vinte e quatro dias visitando arquivos, observando a cidade, os comboios que iam e

    vinham de Canudos, escutando rumores da guerra que corriam entre a populao tais como as

    ameaas de restaurao monrquica atribudas aos jagunos que os meios de comunicao da

    poca faziam circular como verdades absolutas. Recolheu informaes de militares, visitou

    hospitais, entrevistou testemunhas fossem elas soldados ou jagunos, conferindo grande

    credibilidade a essas fontes (CUNHA, 200, p.63; RABELLO, 1946, p.92-98, 100-104, 140).

    Era a oportunidade que Euclides teve para observar num mesmo local, brasileiros de

    diversas regies e situaes socioeconmicas, desde os netos dos antigos bandeirantes e dos

    farrapos, que queriam repetir nos sertes as faanhas dos avs, at os sertanejos nativos dos estados do Norte e Nordeste brasileiros. Disso resultou sua percepo de que o serto

    representava a persistncia substancial de parte de uma temporalidade pretrita existente ainda

    no seu prprio presente. Para o autor, o serto parecia se manifestar conforme a experincia

    de uma temporalidade radicalmente diversa daquela ordenada pela civilizao: o serto era

    uma ilha de passado em meio correnteza do progresso. Esse descompasso temporal o

    incomodava. Segundo suas concepes, o sertanejo retrgrado e o serto impregnado de ethos colonial impediam o timo desenvolvimento da nao. Entretanto, sua experincia de uma

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    temporalidade diferente daquela de seu prprio tempo, apesar de indesejada, no era

    descabida. Segundo sua teoria para a histria do Brasil o antagonismo entre Litoral e Serto,

    e entre Norte e Sul um descompasso de cenrios dividia o pas, e dessa forma, Euclides viu

    toda essa gente como uma numerosa prole que h muitos sculos tivesse abandonado o

    regao materno para voltar agora num refluxo prodigioso de nossa histria (RABELLO,

    1946, p.92). O descompasso temporal sentido pelo autor to marcante que ele descreveu,

    por exemplo, as estradas que levavam zona do conflito como anlogas romanas: Quem, ainda hoje, observa essas monumentais estradas romanas, largas e slidas, inacessveis ao do tempo, lembrando ainda a poca gloriosa em que sobre elas ressoava a marcha das legies invencveis, irradiando pelos quatro pontos do horizonte, para a Glia, para a Ibria, para a Germnia, compreende a ttica fulminante de Csar... (CUNHA, 2000, p.61)

    A percepo de que havia um descompasso de temporalidades entre o interior do pas

    e seu litoral era recorrente entre os brasileiros letrados do sculo XIX, marcando

    profundamente Euclides da Cunha, o qual criou analogias e comparaes entre o Brasil que

    observara e a Antiguidade sobre a qual lera. As metforas envolvendo a Antiguidade no

    cessaram em seu artigo A Nossa Vendeia, mas antes, espalharam-se ao longo das centenas de pginas dOs sertes.3 Conforme Leopoldo Bernucci, a expresso euclidiana Tria de taipa referente a Canudos era uma:

    Metfora usada para aludir a Tria, situada na regio onde hoje a Turquia, e que resistiu durante toda uma dcada contra a tomada dos gregos. Homero, de forma pica, narra na Ilada os acontecimentos que levaram por fim a cidade a ser invadida pelos guerreiros gregos. A metfora em Euclides complexa, pois se por um lado enobrece a resistncia de Canudos e a coragem e persistncia dos jagunos, ao evocar as famosas faanhas cantadas por Homero, por outro compromete estas mesmas qualidades, atravs do uso do epteto de taipa, designando as construes do arraial versus as de pedra dos antigos troianos (CUNHA, 2002, p.192).4

    No dia 30 de agosto, Euclides partiu rumo a Canudos a bordo de um trem. Quando

    chegou a Queimadas, um pequeno e atrasado arraial obscuro, em 1 de setembro, um

    novo universo se abriu ao autor, ao mesmo tempo em que o limite do dizvel se fez sentir com

    toda intensidade: a partir daquele ponto, Euclides nunca havia estado (RABELLO, 1946,

    p.105; CUNHA, 2000, p.132).

    3 Vicente Dobroruka analisou como Euclides da Cunha usou autores antigos para realizar comparaes e analogias entre esses e os sertanejos de Canudos, como forma de criar uma imagem negativa dos ltimos. DOBRORUKA, Vicente. Histria e Milenarismo, Ensaios sobre tempo, histria e o milnio. Braslia: Editora UNB, 2004, p.19-75. Sobre a recepo da antiguidade clssica em Euclides da Cunha, ver: KUNST, Rafael Vicente. Os usos da antiguidade clssica na elaborao dos conceitos de barbrie e civilizao na obra Os Sertes. Dissertao de Mestrado. Orientador: Prof. Dr. Anderson Zalewski Vargas. Porto Alegre: UFRGS, IFCH - Departamento de Histria, Programa de Ps-Graduao em Histria, 2012. 4 Texto referente nota nmero 31.

    Vitor Batalhone Jr

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    Mais abaixo, caindo para a direita, uma vereda estreita e sinistra a estrada para Monte Santo. Percorri-a, hoje, pela manh, at certa distncia, a cavalo, e entrei pela primeira vez nas caatingas, satisfazendo uma curiosidade ardente, longamente alimentada. Um quadro absolutamente novo; uma flora inteiramente estranha e impressionadora capaz de assombrar ao mais experimentado botnico. De um sei eu que ante ela faria prodgios. [. . .] nunca lamentei tanto a ausncia de uma educao prtica e slida e nunca reconheci tanto a inutilidade das maravalhas [sic] tericas com as quais nos iludimos nos tempos acadmicos (CUNHA, 2000, p.134).

    Sua formao de engenheiro pouco o havia ajudado a entender aquela paisagem.

    Realidade e teorias no se encaixavam perante o juzo da experimentao direta do serto.

    Euclides aproveitou seus dias recolhendo testemunhos, estudando a flora e o solo da regio.

    Queimadas tornava-se assim a porta para outro mundo cuja separao social completa

    dilatava a distancia geogrfica (RABELLO, 1946, p.106).

    No dia 4 de setembro ele partiu para Monte Santo. Aos 16, a comitiva chegou a

    Canudos. No dia 25, usando binculos, o autor assistiu ao fechamento do cerco que havia

    comeado no dia anterior da sede da comisso de engenharia. Seriam as piores cenas que

    veria em sua vida, desejando ele, que aquilo tudo logo acabasse. Durante os dias que

    permaneceu em Canudos, Euclides recolheu mais material para seu livro, anotando mais

    modismos sertanejos, observando mais fatos, estudando mais flora e fauna, alm do solo e da

    geografia da regio, sua temperatura, presso e altitudes de vrios pontos, todas elas,

    preocupaes do correspondente que planejava j o livro que no fosse um simples relato da

    campanha, mas um amplo estudo sobre a natureza e o homem dos sertes nordestinos.

    Tambm possua Euclides vrios croquis de Canudos e das suas trincheiras, feitos a lpis:

    um panorama apanhado do alto da Favela, a garganta de Cocorob, o casario do arraial, as

    runas das igrejas. Na manh do dia 28, acompanhando oficiais do Estado-Maior, Euclides

    entrou no arraial e comparou-o a uma necrpole antiga cheia de mortos. Agravou-se, nesse

    momento, o sentimento de repulsa e cumplicidade pela barbrie republicana com a qual at

    ento havia compactuado. Canudos havia se tornado um marco na vida de Euclides. No dia 17

    de outubro, iniciou sua jornada de volta civilizao. Ao retornar, apressou-se em iniciar o

    que seria seu grande projeto, seu Livro Vingador, como forma de no perder seu testemunho sobre a Guerra de Canudos nas colunas escritas apressadamente para o Estado de So Paulo (CUNHA, 2000; RABELLO, 1946, p.108-110, 121-140).5

    Escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante, este livro, que a princpio se resumia histria da Campanha de Canudos, perdeu toda a atualidade, remorada a sua publicao em virtude de causas que temos por escusado apontar.

    5 Estas colunas foram publicadas posteriormente sob o nome de Dirio de uma Expedio.

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    Demos-lhe, por isto, outra feio, tornando apenas variante de assunto geral o tema, a princpio dominante, que o sugeriu (CUNHA, 2002, p.65).

    Assim, Euclides pediu licena de seu emprego para se recuperar do desgaste e foi para

    a fazenda Trindade de seu pai em Belm do Descalvado, onde permaneceu por

    aproximadamente trs meses para dar prosseguimento escrita de seu planejado livro,

    reunindo mais material e organizando os existentes. Tal livro deveria constituir uma histria

    da campanha de Canudos ao mesmo tempo em que uma geografia dos sertes. Ao longo desse

    perodo, contou com a colaborao fundamental de seu amigo Teodoro Sampaio, o mais

    valioso colaborador de Euclides, nessa fase preparatria de seu livro. Sampaio abriu a ele sua

    biblioteca, leu esboos, criticou, forneceu materiais e ideias, alm de testemunhos. Francisco

    Escobar, outro importante colaborador, amigo e confidente, abriu-lhe tambm sua biblioteca,

    ajudou-o em pesquisas bibliogrficas e em tradues do latim, o qual Euclides nunca

    aprendeu. Foste o meu melhor colaborador de Os Sertes, neste ermo de So Jos do Rio Pardo, diria Euclides sobre seu inestimvel amigo (RABELLO, 1946, p.138-147, 158).6

    Todavia, foi apenas em 1898, quando Euclides da Cunha foi trabalhar como supervisor

    nas obras de uma ponte em So Jos do Rio Pardo, que o autor conseguiu trabalhar

    exclusivamente em seu livro ao longo de trs anos e finaliz-lo em 1901. Apesar das

    dificuldades e da relutncia, a livraria Laemmert o publicou no ano seguinte. Os sertes marcariam profundamente aqueles que se aventurassem a atravess-lo. Ao lado do autor, os

    leitores percorreriam o seu longo e abrasivo texto, construdo sobre as noes cientficas

    apropriadas por Euclides e em trabalho com documentos e fontes coletados no prprio cenrio

    da guerra ou nas bibliotecas de amigos (RABELLO, 1946, p.148-161).

    Mas apesar da vontade manifestada pelo autor de ter escrito este livro, que a princpio

    se resumia histria da Campanha de Canudos, a obra passou a tratar tambm de um esboo

    dos traos atuais mais expressivos das sub-raas sertanejas do Brasil. Essas seriam

    analisadas segundo a matriz intelectual de origem europeia apropriada difusamente pelo autor

    em seus tempos de cadete. Surgiram ento certos problemas para o autor: havia impasses

    cognitivos em suas anlises do homem e do serto brasileiros que ele no soube resolver de

    forma plena (CUNHA, 2002, p.65).

    6 Sampaio, Teodoro Fernandes (1855-1937) engenheiro, historiador e etnlogo baiano. Foi um dos fundadores da Escola Politcnica de S. Paulo e do Instituto Histrico da mesma cidade. Participou da Comisso Minor Roberts, criada em 1879 com o propsito de estudar os portos e a navegao fluvial do pas. Com Orville Derby, entre outros, fez o levantamento da regio do rio S. Francisco e da Chapada Diamantina. Amigo de Euclides, embora monarquista, prestou-lhe imensos auxlios, sobretudo acerca da geologia, cartografia e geografia do pas. Publicou O Tupi na Geografia Nacional (1901) e O Rio So Francisco e a Chapada Diamantina (1905). CUNHA, Euclides da, op. cit., 2002, p.784, 844.

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    2. A alteridade do objeto e a ficcionalidade da narrativa Assim como seus contemporneos do litoral brasileiro, Euclides da Cunha no

    conhecia a fundo o interior do pas. O serto era outra realidade para estes homens, alteridade

    em estado bruto. O espao entre serto e litoral apresentava no apenas dimenses fsicas,

    mas tambm temporais e culturais. Para esses homens, o litoral vivia a temporalidade fugidia

    regida pelo progresso da civilizao de matriz cultural europeia. Em contraposio, o serto

    ainda era regido pelo tempo da natureza e pelas necessidades advindas da subsistncia

    humana. Para um homem do litoral, ultrapassar estes limites era adentrar um mundo

    desconhecido, e ignorar a fronteira to insensato quanto querer escapar ao destino

    (HARTOG, 1999, p.105).

    Euclides realizou tal travessia de maneira ainda mais radical, assim como fizeram

    aqueles que adentraram o serto para salvar a Repblica da ameaa sertaneja. Esses

    homens enfrentaram no apenas a alteridade intrnseca de um pas que desconheciam, mas

    tambm os terrores da guerra. Era preciso dar voz s vtimas de Canudos, mostrar essas

    pessoas esquecidas pelo tempo da civilizao e os terrores cometidos na guerra. Chocado

    com tais acontecimentos, Euclides se incumbiu dessa tarefa atravs dOs sertes. Mas ocorreu que sua obra originalmente destinada a ser apenas uma histria da

    Campanha de Canudos, se desdobrou em uma srie de estudos e especulaes do autor sobre

    os traos atuais mais expressivos das sub-raas sertanejas do Brasil, incluindo um estudo

    sobre o meio que forjara o sertanejo, uma vez que o autor comungava concepes tericas

    oriundas do determinismo geogrfico e mesolgico (CUNHA, 2002, p.65).

    Da todas as idiossincrasias de uma fisiologia excepcional: o pulmo que se reduz, pela deficincia da funo, e substitudo, na eliminao obrigatria do carbono, pelo fgado, sobre o qual desce pesadamente a sobrecarga da vida: organizaes combalidas pela alternativa persistente de exaltaes impulsivas e apatias enervadoras, sem a vibratilidade, sem o tnus muscular enrgico dos temperamentos robustos e sanguneos. A seleo natural, em tal meio, opera-se custa de compromissos graves com as funes centrais, do crebro, numa progresso inversa prejudicialssima entre o desenvolvimento intelectual e o fsico, firmando inexoravelmente a vitria das expanses instintivas e visando o ideal de uma adaptao que tem, como consequncias nicas, a mxima energia orgnica, a mnima fortaleza moral. A aclimatao traduz uma evoluo regressiva. O tipo deperece num esvaecimento contnuo, que se lhe transmite descendncia at a extino total (CUNHA, 2002, p.166-167).

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    Euclides, sem citar as fontes em que baseia sua argumentao, expe sua crena no

    modelo normativo de cultura e civilizao europeias vigente no sculo XIX. Entretanto, o autor apresenta certa indefinio cognitiva apreensvel na oscilao entre o compartilhamento

    de ideias negativas sobre a natureza tropical propagada por letrados do sculo XVIII tal

    como fizera o Conde de Buffon ou mesmo Montesquieu em O Esprito das Leis , e os postulados do evolucionismo do sculo XIX. Segundo a vertente terica do sculo XVIII, o

    meio tropical debilitava incontestavelmente o homem, levando-o degenerao numa relao

    de justa medida entre o homem e o meio que o conforma. Se o ambiente era caracterizado

    como negativo, como tais autores acreditavam serem as regies de clima tropical, seus

    homens e instituies consequentemente seriam marcados por caractersticas negativas, alm

    de tambm serem incapazes de transcender tais condies. Mas a fonte de tal degenerescncia

    era sempre o meio, nunca uma condio gentica potencialmente transfervel prole de tais

    indivduos (CAIZARES-ESGUERRA, 2006; VENTURA, 2000, p.17-43).

    J o evolucionismo do sculo XIX, notadamente o de Charles Darwin e seu Origin of species (1859), tem como princpio bsico a concepo de que as espcies buscam sempre se adaptar a determinado meio numa luta constante para evitar sua extino reproduzindo a

    espcie, selecionado os indivduos mais aptos sobrevivncia num processo ininterrupto de

    seleo natural. Segundo esta linha terica, por mais que um meio possa ser agressivo e contrrio a uma predeterminada condio de vida, se os seres que nele habitam conseguem

    sobreviver e perpetuar a espcie, isto ocorreu porque estes eram os mais aptos e afeitos

    sobrevivncia. A evoluo que seleciona os mais fortes tambm propicia que o diferencial

    gentico da espcie seja mantido e herdado pelos seus descendentes atravs da reproduo

    destes indivduos que mantm a carga gentica coerente com o meio seletor.

    Portanto, a afirmao de Euclides de que a aclimatao traduz uma evoluo

    regressiva. O tipo deperece num esvaecimento contnuo, que se lhe transmite descendncia

    at a extino total, ndice de uma atitude recorrente do autor em Os sertes. Ele agregou sem questionamentos, mas no sem o surgimento de problemas tericos, dois postulados

    antagnicos. Como poderia o meio exercer ao negativa direta sobre os indivduos, e ainda

    assim, essa ao do meio ser transmitida hereditariamente por seleo natural descendncia da espcie, sem propiciar nenhuma evoluo positiva, mas sim uma evoluo regressiva

    tendente extino? Se para nosso autor o meio influenciava diretamente sobre a compleio

    fsica dos indivduos num processo de seleo natural, visando o ideal de uma adaptao que tem, como consequncias nicas, a mxima energia orgnica, como poderia uma

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    espcie, dentro desta lgica, tender extino, se biologicamente ela se torna mais forte? Pois

    se a espcie se situa dentro da lgica de seleo natural, por mais que se creia que as alteraes do meio sobre a espcie sejam transmitidas geneticamente prole, como o pensou

    Lamarck, mesmo assim, a espcie no pode tender extino em funo de uma progresso

    inversa prejudicialssima entre o desenvolvimento intelectual e o fsico, firmando

    inexoravelmente a vitria das expanses instintivas que conduzem uma espcie no caso o

    sertanejo mnima fortaleza moral. Euclides, mesclando as ideias dos filsofos

    naturalistas do sculo XVIII ao evolucionismo do sculo XIX, condicionou o sertanejo que

    descreveu a um processo evolutivo conturbado, segundo o qual, o determinismo geogrfico

    influenciaria no somente as instituies e a moral do sertanejo, mas tambm sua estrutura

    fsica, de maneira que ambas as caractersticas se tornariam geneticamente hereditrias,

    determinando negativamente o fado do homem do serto: sua inexorvel extino total, j

    em parte atestada, na Nota Preliminar (CUNHA, 2002, 166-167).

    Intentamos esboar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traos atuais mais expressivos das sub-raas sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexo de fatores mltiplos e diversamente combinados, aliada s vicissitudes histricas de deplorvel situao mental em que jazem, as tornam talvez efmeras, destinadas a prximo desaparecimento ante as exigncias crescentes da civilizao e a concorrncia material intensiva das correntes migratrias que comeam a invadir profundamente a nossa terra. O Jaguno destemeroso [sic.], o tabaru ingnuo e o caipira simplrio, sero em breve tipos relegados s tradies evanescentes, ou extintas. (CUNHA, 2002, p.65-66).

    O autor pouco adentrou a reflexo sobre os impasses tericos presentes em Os sertes, denegando-os de forma que sua exposio continuou ao longo de inmeras pginas, somando

    impasses sobre impasses. Logo adiante, ele nos narrou as caractersticas de uma nova variante

    do determinismo geogrfico. Agora no mais a ao direta do clima sobre a constituio fsica

    e a moral dos homens, mas confusamente, um determinismo onde a histria foi somada s

    variantes geogrficas do territrio brasileiro, para somente assim, surgirem os efeitos sobre os

    indivduos:

    Apertados entre os canaviais da costa e o serto, entre o mar e o deserto, num bloqueio engravecido [sic.] pela ao do clima, [os sertanejos] perderam todo o aprumo e este esprito de revolta, eloquentssimo, que ruge em todas as pginas da histria do Sul. Tal contraste no se baseia, por certo, em causas tnicas primordiais. Delineada, deste modo, a influncia mesolgica em nosso movimento histrico, deduz-se a que exerceu sobre a nossa formao tnica (CUNHA, 2002, p.174).

    Se seguirmos os argumentos de Euclides, chegaremos concluso de que as leis

    naturais da mestiagem prestam certa obedincia s determinantes histricas. Para o autor, se

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    o bandeirante se fez forte e corajoso o bastante para desenvolver aventuras serto adentro, isso

    ocorreu antes em funo de suas habitaes estarem em local protegido das invases

    estrangeiras pelas serras prximas, as quais funcionariam como muralhas protetoras, do que

    pela superioridade tnica do paulista (CUNHA, 2002, p.168-182). J os colonos do Norte no

    tiveram a mesma fortuna:

    que o filho do norte no tinha um meio fsico que o blindasse de igual soma de energias. Se tal acontecesse, as bandeiras irromperiam tambm do oriente e do norte e, esmagado num movimento convergente, o elemento indgena desapareceria sem traos remanescentes. Mas o colono nortista, nas entradas para oeste ou para o sul, batia logo de encontro natureza adversa. Reflua prestes ao litoral sem o atrevimento dos dominadores, dos que se sentem vontade sobre uma terra amiga, sem as ousadias oriundas da prpria atrao das paragens opulentas e acessveis (CUNHA, 2002, p.173-174).

    Desta forma, um argumento histrico concorre no desenvolvimento das ideias de

    Euclides com seus argumentos baseados nos determinismos geogrfico e biolgico. O que

    importa aqui, sobretudo, o processo histrico que determinaria as condies geogrficas s

    quais estaro subordinadas as raas. Se o bandeirante constituiu uma raa forte capaz de

    dominar outras, teria sido acima de tudo pela sua histria que lhe proporcionou um meio

    favorvel e no por uma suposta superioridade tnica. A confuso havia sido criada: se num

    primeiro momento nosso autor construiu sua argumentao sobre um fundamento de

    determinismo geogrfico de ao direta sobre os indivduos, mesclando, apesar de todos os

    antagonismos, a tradio filosfica naturalista do sculo XVIII cientificista do sculo XIX,

    posteriormente ele agregou argumentao central de sua obra um determinismo geogrfico

    irredutivelmente amalgamado ao processo histrico. Em certas passagens do livro quase

    impossvel determinar a qual tipo de determinismo Euclides se refere.

    Alm disso, aconteceu que a pregada extino dos sertanejos pela mestiagem a

    fora motriz da Histria extrada das leituras que o autor realizou de Ludwig

    Gumplowicz, no estava de pleno acordo com as ideias originais deste ltimo. Se para

    Euclides da Cunha so inviolveis as leis do desenvolvimento das espcies anteriormente

    esboadas, e a mestiagem algo irredutivelmente negativo, para o socilogo polons

    possivelmente no era assim (CUNHA, 2002, p.201).

    Poligenista, Gumplowicz acreditava que a espcie humana era formada por diversas

    raas, de forma que em seu A luta das raas (1893), ele escreveu que cada tipo de raa humana havia se constitudo por fuses semelhantes de raas diferentes. O que diferenciava

    determinada raa de outra no eram suas caractersticas tnico-raciais, mas sim a forma como

    estas conjugavam suas relaes de poder e subordinao entre seus prprios membros e entre

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    grupos raciais distintos. Uma raa era antes definida em funo de suas disputas poltico-

    sociais consolidadas ao longo de um processo histrico, do que por determinismos

    geogrficos ou biolgicos, como acreditava Euclides. Segundo Luiz Costa Lima, para o autor

    polons: A mistura de sangue no produz modificaes sensveis no esprito [. . .] [e] o sangue estrangeiro mergulha na circulao intelectual [. . .] isso equivaleria a dizer: o sangue, embora estrangeiro, deixa de s-lo quando se integra na mesma circulao intelectual, i.e., quando se amolda aos mesmos valores e interesses. Biologicamente, pois, as raas so sempre mestias, porque, na terminologia do autor, constitudas por raas heterogneas (COSTA LIMA, 1997, p.28-30).7

    Desta forma, uma leitura bastante singular de Gumplowicz por parte de Euclides o

    levou a considerar a extino dos sertanejos inevitvel frente ao peso cultural da

    civilizao, pois segundo nosso autor, enquanto mestios, os jagunos no estavam aptos a

    absorver tal cultura ou a sobreviver ao que a civilizao tinha para oferecer; sua moral,

    assim como seus organismos e suas capacidades intelectuais sofriam influncia negativa

    direta do meio e da mestiagem racial. A influncia da civilizao, longe de ter contribudo

    para a formao e a evoluo das raas, as quais so sempre mestias, teria atrapalhado

    irredutivelmente a mestiagem no serto. Isto no se pode inferir obrigatoriamente da leitura

    do autor polons, visto que este pautou a luta entre as raas como funo de disputas sociais e

    polticas maiores do que o simples determinismo biolgico ou geogrfico. Para Gumplowicz,

    a disputa entre as raas possua profunda raiz nas tenses poltico-sociais oriundas da diviso

    social do trabalho. Isto no tornava inevitveis a Guerra de Canudos ou to pouco a

    eliminao dos sertanejos pela mestiagem, as quais foram amplamente pregadas por Euclides

    em sua Nota Preliminar. Mas acontece que, se o autor houvesse aplicado literalmente as

    teorias propostas por Gumplowicz um de seus autores prediletos , o argumento central

    dOs sertes de narrar os acontecimentos da Guerra de Canudos numa relao com a formao das sub-raas sertanejas pelo modelo negativo de mestiagem entraria em

    colapso. Para seguir adiante, Euclides se apropriou apenas do que era fundamental (CUNHA,

    2002, p.202-203; COSTA LIMA, 1997, p.29-31).

    possvel que tais impasses no tenham sido causados ou sustentados

    intencionalmente pelo autor, mas o fato que ele tambm pouco tratou de resolv-los.

    Euclides tentou conjugar certas teorias europeias a determinados objetos o sertanejo e o

    serto que no lhe correspondiam necessariamente. Muito provavelmente no haveria uma

    7 A primeira edio da obra foi publicada em 1883 em alemo, sob o ttulo de Der Rassenkampf. Segundo Luiz Costa Lima, Euclides provavelmente leu sua traduo francesa, La lutte des races, de 1893.

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    adequao estrita nem mesmo entre os objetos propcios ao referente real europeu e tais

    teorias. Mas relacionar objetos to carregados de alteridade, oriundos de uma realidade quase

    desconhecida, a teorias formuladas para outros contextos, no poderia ocorrer sem problemas.

    A questo que nosso autor sobrecarregou sua obra com tais denegaes tericas, no se

    importando muito em resolv-las. Segundo Costa Lima, quando as dificuldades surgiram,

    Euclides recorreu s descries fictcias mas no necessariamente literrias sobre seus

    objetos, descries que conformaram seu texto em um corpo central pretensamente

    cientfico e outro adjacente como uma borda de aspecto literrio e ornamental que

    ressurgiria sempre que Euclides no conseguisse resolver seus impasses cognitivos. Diante de

    tais impasses, no existindo uma relao direta de ajuste entre teorias explicativas, realidade

    observada e discurso sobre o real, a construo textual de Os sertes ficou marcada por uma ficcionalidade intrnseca ao texto sem a qual o livro no poderia ser composto. Portanto, sua

    ficcionalidade no poderia se restringir aos impressionantes ornamentos literrios que o autor

    construiu para comover seus leitores, pois tal ficcionalidade rege inclusive o ncleo

    pretensamente cientfico da obra (COSTA LIMA, 1997, p.133,157-212). Apesar disso, a

    insupervel alteridade do serto exerceu suas impresses indelveis sobre a experincia do

    autor:

    A campanha de Canudos tem por isto a significao inegvel de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o temo-la realizado ns, filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradies nacionais uniformes, vivendo parasitariamente beira do Atlntico dos princpios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indstria alem tivemos na ao um papel singular de mercenrios inconscientes. Alm disso, mal unidos queles extraordinrios patrcios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histrica o tempo (CUNHA, 2002, p.66).

    Em seguida, escreveu que as disposies naturais [do serto] se baralham, em

    confuso pasmosa e que os breves apontamentos indicados resultam que os caracteres

    geolgicos e topogrficos, a par dos demais agentes fsicos, mutuam naqueles lugares as

    influncias caractersticas de modo a no se poder afirmar qual o preponderante. O serto

    to estranho ao narrador, que ele no se torna passvel de apreenso por quem o observa.

    Desta forma, teria sido por isso que ainda no havia surgido um pioneiro capaz de definir tal

    objeto austero, aparentemente indecifrvel, pois mesmo a cincia to adorada por Euclides,

    com seus mtodos e instrumentos objetivos, no fora capaz de domar a alteridade selvagem

    do serto e suas crias, os sertanejos. Nosso autor sabia que sem leis ainda definidas, a

    realidade, assim como os dados objetivos sobre o serto, eram fugidios e desordenados.

    Talvez nem mesmo os ilustres Hegel e Humboldt, com todos os seus mritos e capacidades

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    cognitivas, teriam conseguido delimitar as caractersticas daquele objeto, pois, conforme

    Euclides, a morfologia da Terra viola as leis gerais dos climas, assim como o clima viola

    as leis gerais que o regulam (CUNHA, 2002, p.97, 101-105, 112, 133-137, 158). A respeito

    da hipottica gnese do tipo nacional brasileiro escreveu: Conhecemos, deste modo, os trs elementos essenciais [o africano, o ndio e o portugus], e, imperfeitamente embora, o meio fsico diferenciador e ainda, sob todas as formas, as condies histricas adversas ou favorveis que sobre eles reagiram. No considerar, porm, todas as alternativas e todas as fases intermedirias desse entrelaamento de tipos antropolgicos de graus dspares nos atributos fsicos e psquicos, sob os influxos de um meio varivel, capaz de diversos climas, tendo discordantes aspectos e opostas condies de vida, pode afirmar-se que pouco nos temos avantajado. Escrevemos todas as variveis de uma frmula intrincada, traduzindo srio problema; mas no desvendamos todas as incgnitas (CUNHA, 2002, p.153).

    O autor demonstra ter noo da difcil e complexa tarefa que havia se proposto,

    todavia, desvendar cientificamente aquela realidade to espantosamente carregada de

    alteridade era um srio problema cheio de incgnitas. Apesar das constantes denegaes

    cognitivas, Euclides registrou inmeros indcios de que a alteridade de seus objetos havia se

    contraposto a uma anlise pretensamente cientfica dos mesmos. Caso avanasse na resoluo

    de tais impasses, o eixo argumentativo de Os sertes perderia no necessariamente seu sentido, mas sua sustentao emprica em relao s especulaes tericas do autor, para alm

    da qual restaria a narrao do conflito nA Luta. De grande obra interpretativa sobre a Guerra

    de Canudos, assim como da formao tnico-histrica do Brasil, restaria o relato sobre o

    massacre cujo o oblvio pressagiara o prprio autor. Era preciso conservar esse relato intacto.

    A estratgia utilizada foi legitimar sua narrativa atravs de seu prprio testemunho, como que

    afirmando: se pelas leis que enunciei, ainda no crvel o que estou a narrar, que o seja pelo

    fato de que eu vi, de que eu presenciei tais fatos.

    3. A autpsia euclidiana

    A ficcionalidade presente em Os sertes no pode ser compreendida no sentido da fico literria. A relao entre as teorias e preconcepes de Euclides sobre seus objetos

    serto e sertanejo no encontravam adequao, fazendo com que apesar das mesmas

    prefigurarem sua percepo do real, caminhos cognitivos sem sada ressurgiam amide. Os

    estudos realizados pelo autor, antes de seu contato direto com o objeto, assim como a coleta

    de fontes realizada por ele, foram orientadas por seus pressupostos tericos. Buscou-se como

    dado do real aquilo que se estava preparado para perceber. Tal conjunto preconcebido de

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    teorias no resistiu quando foi confrontado com as experincias do serto e da guerra.

    Incoerncias camufladas, difusamente conjugadas sob as dimenses literria e cientfica do

    texto. Assim, a questo seria como diante dos impasses surgidos pelo confronto das

    preconcepes do autor frente experincia da realidade do serto, a parte ficcional de Os sertes foi construda e legitimada pelo testemunho euclidiano, o qual funciona no texto como garantia de veracidade do que foi narrado por um eu que viu e que atesta aquilo que narrado.

    Segundo Franois Hartog, o olho do viajante autoriza o narrador a descrever aquilo

    que testemunhou ou que ouviu de um terceiro que viu atravs do procedimento que ele denomina autpsia. O narrador garante assim a narrativa, pois trata-se do olho como marca de enunciao, de um eu vi como interveno do narrador em sua narrativa para provar

    algo. A hiptese que Euclides da Cunha, apesar de todo o investimento terico e erudito

    que realizara, ao se chocar com a realidade sertaneja apenas conseguiu fundamentar sua

    narrativa ao lastre-la no contedo de verdade implicitamente autntico de seu testemunho

    enquanto um eu que viu e experimentou os eventos narrados, mesmo que suas concepes sobre tal realidade e eventos fossem ficcionais conforme previamente argumentado

    (HARTOG, 1999, p.263, 273).

    No incio do livro o autor comea o trabalho de associao de narrativas descritivas do

    meio a um olhar sobre a paisagem narrada. Esta descrio tem como objeto a geografia do

    planalto central brasileiro, qual se seguir a do serto sob os mesmos parmetros. Euclides

    escreveu que o olhar, livre dos anteparos de serras que at l o repulsam e abreviam, se

    dilatam em cheio para o ocidente, mergulhando no mago da terra amplssima lentamente

    emergindo num ondear longnquo de chapadas...; e logo adiante continuou a descrever,

    afirmando que v-se, de fato, que trs formaes geognsticas [sic.] dspares, de idades mal

    determinadas, a se substituem, ou se entrelaam, em estratificaes discordantes, formando o

    predomnio exclusivo de umas, ou a combinao de todas, os traos variveis da fisionomia

    da terra (CUNHA, 2002, p.72).

    Por que descrever tal paisagem usando expresses como o olhar e v-se em lugar

    de citar fontes de referncia, se Euclides realizou um considervel trabalho com mapas e

    outros documentos acerca da geografia e da geologia descrita em Os sertes? Os dados retirados da observao direta do meio foram possivelmente poucos, uma vez que, na poca

    da expedio a Canudos, o autor no havia viajado por toda a extensa regio descrita, a qual

    engloba desde os litorais do Sul, em escarpas inteirias, altas e abruptas, at os mesmos

    contornos alpestres e perturbados que se estendem de Minas Gerais Bahia. Euclides no se

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    importou em extrapolar suas interpretaes e concluses cientficas com base em uma

    amostragem de dados limitada: o serto de Canudos um ndice sumariando a fisiografia dos

    sertes do Norte. Resume-os, enfeixa os seus aspectos predominantes numa escala reduzida.

    -lhes de algum modo uma zona central comum (CUNHA, 2002, p.71-78, 109).

    Euclides nunca havia estado no serto at o dia 1 de setembro de 1897, quando

    chegou a Queimadas. A questo que para a tima realizao da estratgia desenvolvida ao

    longo de toda a obra, era de suma importncia j no incio do texto, usar expresses que

    conotassem a noo do olhar legitimador da narrativa. Euclides no se absteve to pouco do

    recurso primeira pessoa em suas descries. Seria de se supor que isso contrariaria seus

    pressupostos oriundos dos anos de estudos na Escola Militar, segundo os quais a objetividade

    era essencial para o bom desenvolvimento de toda e qualquer atividade cientfica, como ele

    mesmo demonstrou ao procurar dados fixos e positivos sobre os ciclos das secas no

    Nordeste ou quando afirmou a gnese do jaguno sertanejo sobre uma demonstrao [que]

    positiva. Segundo tal perspectiva, o autor deveria se retirar, se distanciar do seu objeto para

    no contaminar seus estudos com o fantasma da subjetividade. Apesar disso, escreveu que

    as camadas [geolgicas] anteriores, vimos superpostas s rochas granticas, as mesmas rochas que vimos se substiturem em alongado roteiro pela superfcie (CUNHA, 2002, p.75-76, 111, 183). 8

    Em seguida, o autor traou uma estratgia narrativa ainda mais interessante ao associar

    a descrio e o olhar busca de experincias imagticas na memria dos leitores, como

    quando escreveu que os menires colossais, recordando na disposio dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos [sic.] de ciclpicos coliseus em runas, achados que

    lembram monumentos de uma sociedade obscura. Desta forma, Euclides criou no apenas um efeito de familiaridade entre o leitor esperado e a alteridade do objeto descrito, como

    tambm fez ver um saber. Ele possibilitou aos leitores verem uma forma de paisagem atravs da imaginao estimulada pelo seu texto. Para que estes pudessem imaginar tal viso de menires colossais e a imagem contida no texto euclidiano era necessrio que existisse um

    saber compartilhado que pudesse servir de substrato para a traduo realizada pelo autor em sua ao de narrar e descrever a alteridade do objeto. Somente ento uma paisagem sertaneja

    ainda pouco familiar ao autor poderia ser apreendida de alguma forma pelos leitores que,

    assim como Euclides, tambm no estavam familiarizados com este outro em questo (HARTOG, 1999, p.50, 77-85).

    8 Grifos meus.

    Vitor Batalhone Jr

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    A partir de ento, Euclides deixa cada vez mais claro que est seguindo junto com o

    leitor neste olhar pela paisagem brasileira: atravessemo-la, conclama o autor. E o

    observador que seguindo este itinerrio deixa as paragens em que se revezam, em contraste belssimo, a amplitude dos gerais e o fastgio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca

    surpreendido perante a alteridade excepcional e selvagem daquela entrada para o serto

    onde v-se o trao de um outro rio, o Vaza-Barris alm do qual entra-se afinal, em cheio, no serto adusto... uma paisagem impressionadora (CUNHA, 2002, p.78-87).

    A alternncia entre primeira pessoa do plural e terceira pessoa do singular no ocorreu

    sem tenses, visto que num primeiro momento a cientificidade de seu texto depende da

    supresso da subjetividade do autor. Entretanto, parece ter sido impossvel a Euclides se

    isentar do prprio texto, levando-lhe a utilizar a terceira pessoa em suas descries. O choque

    frente realidade da paisagem era demasiado, criando uma instabilidade na manuteno da

    terceira pessoa verbal enquanto ndice de objetividade cientfica. Isso dificultava que Euclides

    validasse sua narrativa com base em seus pressupostos tericos e consequente trabalho de

    fontes. A alternativa foi recorrer ao poder do eu vi, da autpsia como forma de validao de seus enunciados.

    Da a impresso dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho de serto [. . .] Do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a regio, estendia em torno num raio de quinze lguas, nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformao orogrfica. E v-se que as cordas de serras, ao invs de se alongarem para o nascente, medianas aos traados do Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes [sic.] o divortium aquarum, progridem para o norte. [. . .] Vimos como a natureza, em roda, lhe imita o regime brutal calcando-o em terreno agro, sem os cenrios opulentos das serras e dos tabuleiros ou dos sem-fins das chapadas mas feito um misto em que tais disposies naturais se baralham, em confuso pasmosa: plancies que revelam sries de cmoros, retalhados de algares; morros que o contraste das vrzeas faz de grande altura e esto poucas dezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros que em sendo percorridos mostram a acidentao [sic.] catica de boqueires escancelados e brutos. Nada mais dos belos efeitos das desnudaes lentas, no remodelar os pendores, no desapertar os horizontes e no desatar amplssimos os gerais pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza de perspectivas em que o cu e a terra se fundem em difuso longnqua e surpreendedora de cores... (CUNHA, 2002, p.95-98)9

    A palavra vimos inicia o pargrafo que atua como concluso das descries

    precedentes e logo a seguir Euclides passou da descrio da geologia do serto e dos planaltos

    para a descrio da flora sertaneja. Ou seja, o incio da concluso de suas descries

    geolgicas pretensamente cientficas ficou marcado por uma expresso verbal em primeira

    pessoa do plural que alm de indicar relativa subjetividade na construo da narrativa denotou

    9 Grifos meus.

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    significado referente ao sentido da viso, e respectivas implicaes, como uma espcie de

    convite ao leitor para seguir olhando as descries junto ao narrador atravs do texto. As

    descries cientficas que Euclides fez do meio, baseadas em estudos prvios entrada no

    serto, so afianadas e fundamentadas no testemunho do autor sobre aquilo que ele prprio

    alegou ter experimentado. O autor ainda fez referncia complexidade surpreendedora de

    seu objeto, ao escrever que tais disposies naturais se baralham, em confuso pasmosa. A

    cincia limitada perante a alteridade do serto. A garantia da estrutura narrativa e sua

    pretenso cientificidade justamente a alegao da experincia sensria da paisagem

    descrita. Euclides chega mesmo a reconhecer parte dos limites de suas intenes cientficas:

    Nenhum pioneiro da cincia suportou ainda as agruras daquele rinco sertanejo, em prazo suficiente para o definir. [. . .] De sorte que, sempre evitado, aquele serto, at hoje desconhecido, ainda o ser por muito tempo. O que se segue so vagas conjeturas. Atravessemo-lo no preldio de um estio ardente e, vendo-o apenas nessa quadra, vimo-lo sob o pior aspecto. O que escrevemos tem o trao defeituoso dessa impresso isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto serenidade do pensamento, tolhido pelas emoes da guerra. Alm disto os dados de um termmetro nico e de um aneroide suspeito, misrrimo arsenal cientfico com que ali lidamos, nem mesmo vagos lineamentos daro de climas que divergem segundo as menores disposies topogrficas, criando aspectos dspares entre lugares limtrofes (CUNHA, 2002, p.102).

    Por mais limitadas que fossem sua impresso isolada, suas vagas conjeturas,

    desfavorecidas pelo objeto contraposto serenidade [ objetividade] do pensamento, e por

    mais que as emoes da guerra tambm tenham atrapalhado seu trabalho, o que o autor

    pretendia era fazer o trabalho pioneiro de submeter o serto cincia at ento impotente

    perante o mesmo. Euclides compreendia parcialmente a rebeldia do serto face cincia e

    seus recursos tecnolgicos. A prova que teve de enfrentar era o constante desacordo entre seus

    equipamentos e conhecimentos prvios em relao realidade observada. As leis que regiam

    o serto ainda eram ignoradas. Euclides se outorgou, portanto, a posio do observador mais

    capaz de realizar tal tarefa de apreenso do serto, mesmo que seus equipamentos e arcabouo

    terico-epistemolgico lhe colocassem em desajuste face aos problemas j referidos. Ainda

    assim, era ele o olho da cincia. O sertanejo ao contrrio, mesmo com tamanha adaptao

    ao meio, ficava rotineiramente cego diante daquela paisagem aterradora. Desta forma,

    novamente o que o autor escreveu surgiu carregado de pretenso cientificidade, mas a

    validade deste conhecimento foi dada pelo fato de que, apesar das possveis incorrees dos

    dados apresentados, havia sido ele quem os recolheu. Ele viu, sentiu e experimentou o serto

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    como no fizeram antes outros pesquisadores (CUNHA, 2002, p.102-105, 110, 207, 235-

    236).10

    Euclides recorreu ao poder da autpsia, legitimidade de seu testemunho aceito como fidedigno a priori, uma vez que ele havia sido um engenheiro formado sob o rigor do objetivismo positivista e das luzes da civilizao. Entre o trecho romanceado do incio da

    descrio das chuvas e a afirmao de que o serto era um paraso, seguida de mais descries

    literrias carregadas de um aspecto maravilhoso sobre paisagem, o autor escreveu a seguinte

    frase: E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, no v mais o deserto. Ora, quem seria esse viajante seno o autor conduzindo consigo atravs do texto seus companheiros leitores?

    O recurso terceira pessoa do singular do verbo ver como ausncia de marca de enunciao sintomtico da operao de autpsia. Aparentemente se abstendo do texto, o que ocorre um efeito de convencimento do leitor pela narrativa. Recurso que visava construir a

    imparcialidade e a objetividade de enunciados maravilhosos e estranhos aos leitores

    (CUNHA, 2002, p.123-126, 130-132).11

    Descrever ver e fazer ver: dizer o que voc viu, tudo o que viu e nada mais do que viu. [. . .] A ausncia das marcas de enunciao ou seu apagamento , pois, uma das tcnicas empregadas pelo narrador para aumentar o peso da alteridade de sua narrativa. Ele d a impresso de transmitir ao destinatrio a alteridade em estado bruto ou selvagem. Todavia, os vestgios enunciativos que pontuam a descrio dirigem-se ao saber implcito do destinatrio e orientam a maneira como este a recebe. [. . .] Como no busco faz-los [os leitores] crer, vocs podem, em suma, crer em mim ainda mais. [. . .] O fazer crer do narrador enxerta-se, com efeito, no querer-crer do pblico, do mesmo modo que em sua recusa de crer. [. . .] A recusa de crer , pois, recuperada e serve, no fim das contas, para reforar o fazer-crer da narrativa (HARTOG, 1999, p.261,269, 301-302).

    Por isso sintomtico o fato de que a autpsia euclidiana surja justamente no momento em que o discurso cientfico se mostra inbil para lidar com a descrio

    maravilhosa, ou seja, a possibilidade de existir vida e beleza numa paisagem aparentemente

    estril. Quando a cincia no basta, surgem as descries romanceadas e o poder legitimador

    do testemunho. O narrador-testemunha coloca diante dos olhos dos leitores o elemento

    maravilhoso daquilo que ele j havia visto antes e por isso o endossa. Este elemento fantstico

    cria efeito de realidade na medida em que atestado pela testemunha e aceito pelo leitor

    10 Nem sempre, porm, pode aventurar-se faanha arriscada. Uma molstia extravagante completa a sua desdita a hemeralopia. Esta falsa cegueira paradoxalmente feita pelas reaes da luz; nasce dos dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular dos ares em fogo sobre a terra nua. uma pletora do olhar. Mal o sol se esconde no poente a vtima nada mais v. Est cega. A noite afoga-a, de sbito, antes de envolver a terra. E na manha seguinte a vista extinta lhe revive, acendendo-se no primeiro lampejo do levante, para se pagar, de novo, tarde, com intermitncia dolorosa. 11 Grifos meus.

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    como parmetro descritivo de alteridade justamente porque se dirige ao outro, diferente e distante do eu (HARTOG, 1999, p.242, 261).

    Traduo da diferena entre aqum e alm, o thma [o elemento maravilhoso] produz finalmente um efeito de realidade, como se dissesse: eu sou o real do outro. [. . .] Nesse postulado repousa sua verossimilhana. Na medida em que sua presena na narrativa produz um efeito srio, na medida em que cria um efeito de realidade (e h o feito srio apenas porque h efeito de realidade), enfim, na medida em que repousa no olho-medida do viajante, o thma bem um procedimento para fazer-crer, desenvolvido pela narrativa de viagem. [. . .] A narrativa de viagem traduz o outro, e a retrica da alteridade constitui o operador da traduo: de fato, ela que faz o destinatrio crer que a traduo fiel. Globalmente, produz, pois, um efeito de crena. [. . .] O olho escreve (ou, pelo menos, a narrativa quer fazer com que se creia nisso). [. . .] Dessa relao entre a viso e a persuaso, o texto hindu faz um princpio jurdico: deve-se crer naquele que viu. J a narrativa de viagem faz dessa mesma relao um princpio de escrita e um argumento de persuaso voltado para o destinatrio: o eu vi como um operador de crena. [. . .] O invisvel (para vocs) eu torno visvel atravs do meu discurso (HARTOG, 1999, p.251, 273, 276, 278).

    a autpsia que atesta e rene o diferente de alm ao semelhante de aqum. Quando o narrador diz eu vi, ele fecha o espao possvel de modulao da informao usualmente deixado ao leitor, uma vez que a autoridade de quem viu serve como marca de veracidade, de

    realidade, para que no seja contestada a informao. At pode-se questionar, mas esta tarefa

    demanda grande esforo de reconstruo da operao realizada antes pelo autor. O narrador

    que viu mantm sob o controle de suas rdeas o leitor que apenas ouviu ou leu. Quando Euclides props que suas impresses pudessem ser verdadeiras ou ilusrias, ele o fez

    apenas depois de ter escrito as seguintes frases: sejamos simples copistas. [. . .]

    Reproduzamos, intactas, todas as impresses. como se o narrador dissesse: o que eu vos

    digo pode at no ser verdadeiro, apesar disto, ainda sim vos direi estritamente aquilo que vi.

    Caso suas impresses fossem ilusrias, a cientificidade pretendida para sua narrativa

    estaria salva graas ao rigor objetivo com que postulou sua atividade de observador. O

    potencial problema seria ento parte integrante do objeto estudado assim como de seus

    atributos, e no do observador, como sugeriu Euclides ao afirmar que, de fato, o clima a

    inteiramente subordinado ao fcies geogrfico viola as leis gerais que o regulam, mesmo que

    fossem leis naturais inviolveis (CUNHA, 2002, p.158, 166, 205).

    Os sertes, elaborado com pretenso cientificidade, por mais que tenha apresentado equvocos e denegaes tericas, ficou legitimado pelo testemunho do autor. Em caso de

    dvida, o crtico haveria de enfrentar uma dupla blindagem textual. Uma seria a cientificidade

    concedida obra por sua construo apoiada em documentos e pressupostos tericos

    cientificistas. No bastando, surgiria ento o poder legitimador do testemunho. Por um

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    movimento aparentemente paradoxal, fechavam-se os espaos possveis a dvidas justamente

    pelo recurso abertura ficcional do discurso.

    Devemos considerar que na poca do lanamento da referida obra, os crticos literrios

    de planto h muito desejavam que algum estabelecesse os postulados definidores da

    natureza brasileira, como o fez paradoxalmente Euclides nas suas histrias dOs sertes.

    Nosso autor afirmou em inmeras situaes que no desejava estabelecer tal definio, pois

    tinha conscincia da complexidade de tal empreitada. Estabelecer a essncia do brasileiro,

    tipo abstrato, um problema que por muito tempo ainda desafiar o esforo dos melhores

    espritos, que apesar de hipoteticamente bem intencionados, ainda fundem as trs raas

    consoante os caprichos que os impelem no momento. E fazem repontar desta metaqumica

    [sic.] sonhadora alguns precipitados fictcios. Pois para o autor, o Brasil no tinha uma

    unidade de raa e talvez nunca tivesse, chegando mesmo a afirmar que no h um tipo

    antropolgico brasileiro. Euclides afirmaria ainda que o sertanejo era o cerne vigoroso da

    nossa nacionalidade. Nas trs primeiras partes dO Homem, o autor esboou uma argumentao histrica pretensamente cientfica para explicar a gnese do sertanejo enquanto

    tipo nacional por excelncia. Entretanto, ele no avanou na explicao. A partir deste ponto,

    ele desacelerou sua exposio. Perante as dificuldades de se definir o objeto que

    anteriormente ele mesmo havia postulado como inexistente, seus argumentos comearam a se

    arrefecer entre a fico literria e alguns esparsos dados cientficos. Diante da dificuldade ele

    apenas constatou, no explicou (VENTURA, 2000, p.11-29; CUNHA, 2002, p.151, 156, 175,

    190).

    No final da segunda parte dO Homem Euclides estabeleceu que a lei que rege a evoluo das sociedades a luta pelo desenvolvimento das raas, luta comovedora e eterna

    caracterizada pelo belo axioma de Gumplowicz como a fora motriz da Histria. Mas nos

    dois ltimos pargrafos desta parte ele retomou o poder legitimador de seu testemunho

    atravs de sua autpsia para garantir suas elucubraes pretensamente cientficas acerca da gnese do sertanejo (CUNHA, 2002, p.202). O que at ento ele havia postulado como

    verdade nas pginas anteriores, ele buscou lastrear afirmando que: Sejamos simples copistas. Reproduzamos, intactas, todas as impresses, verdadeiras ou ilusrias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do serto, com aqueles desconhecidos singulares, que ali esto abandonados h trs sculos (CUNHA, 2002, p.205).

    Ao descrever o sertanejo e seus costumes, por exemplo, a vaquejada e a perseguio

    dos vaqueiros aos bois fugidos no estouro, apesar de nunca ter visto tais cenas, as narrou

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    como se realmente as tivesse presenciado. Certa vez, competindo com seu amigo Francisco

    Escobar para estabelecer quem faria a melhor narrativa do estouro da boiada, esse ltimo, que havia de fato presenciado o fenmeno, aps ter escutado a narrao de Euclides, desistiu da

    competio, dizendo ainda que: Eu vou ento ler alguma cousa depois disso? No possvel

    que o senhor no tenha visto pelo menos cem estouros de boiada... (RABELLO, 1946,

    p.158).

    Assim, ele garantiu a legitimidade do que narrou em funo de seu testemunho, de ter

    experimentado a alteridade do serto e do sertanejo. Se esse era um retrgrado, ele o havia

    paradoxalmente visto in loco, abandonado no serto havia trs sculos. Os objetos descritos pelo autor eram desconhecidos da grande massa da populao: o serto e o sertanejo viviam

    isolados da civilizao litornea, ainda seguindo o ritmo da natureza. Mais do que nunca

    dizer o indizvel, a alteridade arrebatadora do serto e do sertanejo, era convencer o leitor pelo

    pressuposto de que o autor narrou, por mais fantstico que pudesse parecer, aquilo que ele

    prprio viu. Euclides narrou cenas to detalhadas que parecia impossvel aos seus

    interlocutores que ele no as houvesse presenciado. O fato de que, antes de iniciar tais

    descries, ele tenha afirmado que seria simples copista, e que narraria intactas, todas as

    impresses, verdadeiras ou ilusrias que presenciou quando, de repente, acompanhando a

    celeridade de uma marcha militar, deu de frente, numa volta do serto, com aqueles

    desconhecidos singulares, que ali estavam no foi gratuito. A estratgia retrica de

    convencer o leitor pelo argumento da autoridade de quem viu, de quem presenciou o fato narrado, mesmo que no o tenha feito, fundamenta todo seu texto. Desta forma, os impasses e

    tenses cognitivos surgidos ao autor pelo confronto com a alteridade radical do serto sumiam

    de forma anloga empreendida pelos jagunos com suas tticas de guerrilha: se camuflaram

    no prprio meio que os criou, tornando-se parte integrante desse meio e de certa forma

    imperceptveis.

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