Belo Horizonte, Novembro–Dezembro/2010 • Nº 1.333 • Secretaria ...

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Belo Horizonte, Novembro–Dezembro/2010 • Nº 1.333 • Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais
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  • Belo Horizonte, NovembroDezembro/2010 N 1.333 Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

  • Antonio Augusto Anastasia Junior Washington MelloEstevo FizaJaime Prado GouvaFabrcio MarquesPlnio Fernandes Trao LealJairo SouzaHumberto Werneck, Sebastio Nunes, Eneida Maria de Souza, Carlos Wolney Soares, Fabrcio MarquesElizabeth Neves, Aparecida Barbosa, Jos Augusto SilvaGeizita Mendes, Marina Viana, Mariana PiastrelliAntnia Cristina De Filippo Reg. Prof. 3590/MG

    Suplemento Literrio de Minas GeraisAv. Joo Pinheiro, 342 Anexo30130-180 Belo Horizonte, MGFone/Fax: 31 3269 [email protected]

    Acesse o Suplemento online: www.cultura.mg.gov.br

    Impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado de Minas

    Governador do Estado de Minas GeraisSecretrio de Estado de Cultura

    Secretrio AdjuntoSuperintendente do SLMG

    Assessor EditorialProjeto Grfico e Direo de Arte

    DiagramaoConselho Editorial

    Equipe de ApoioEstagirias

    Jornalista Responsvel

    Textos assinados so deresponsabilidade dos autores

    Capa: Fausto Prats

    O desenho da capa deste ltimo nmero de 2010 do Suplemento Literrio de Minas Gerais, de autoria de Fausto Prats, mostra uma exploso nucle-ar dividindo o gesto da criao de Michelangelo. Ou a exploso da cria-o simbolizada no gesto divino representado pela arte. Ou o fim de um ano e o incio de outro. Enfim, o mistrio da vida e do mundo. Preferimos a revelao que a cada dia nos chega da literatura africana de lngua portuguesa, aqui representada por dois cones de Angola, Luandino Vieira que nos conta ter descoberto Minas Gerais atravs das pginas deste SLMG que lhe chegou s suas mos de prisioneiro durante a guerra pela libertao de seu pas no final dos anos 60 e Gonalo Tavares, nascido em Luanda em 1970, ao fechar-se aquela dcada. Naquela mesma poca, surgia em Minas Gerais o movimento musical que ficou conhecido como Clube da Esquina, cujo representante mais destacado, Milton Nascimento, tem as letras de suas canes examinadas por um especialista em sua obra, Paulo Vilara. E a literatura brasileira tambm comentada por Elosio Paulo, um estudioso de Machado de Assis. Completam o nmero os contos de Carlos Roberto Pellegrino (que foi um dos primeiros redatores do SLMG), da professora Ruth Silviano Brando e do jornalista pernambucano radicado em So Paulo, Fernando Portela, que tem no currculo um Prmio Esso de Jornalismo e diversos livros de contos da mais alta linhagem, alm dos poemas de Eberth Alvarenga, Adriano Menezes e Claudio Daniel.

  • 3NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    E m determinado dia de um ms que no lembro mais, mas que era do ano de 1968, recebi sem nunca saber de quem e nem de onde, no campo de concentrao em que estvamos, ns, os nacionalis-tas angolanos, na ilha de Santiago de Cabo Verde, um suplemento literrio de um jornal de Minas Gerais, Brasil. Mais concretamente Belo Horizonte, Minas Gerais. (*) Como no nos era permitido receber jornais ou ouvir rdio, saber notcias, fui chamado ao director que me deu conhecimento de que viera, pelo correio tal suplemento. Queria saber quem enviara, e de onde, j que o carimbo do correio nada queria dizer. Encurtando razes: o suplemento s me seria entregue mais tarde por interferncia do padre que, aos sbados, dizia missa para os catli-cos, na capela-biblioteca do campo. E por, como argumentara com o director nada trazia de poltica e viera de um stio que nenhum de ns, os angolanos, havamos visitado. E foi assim que lemos, entre incrdulos e espantados, tudo quanto esse suplemento trazia sobre um livro, um tema e um autor totalmente desconhecido de todos ns: Aires da Mata Machado Filho, O Negro e o Garimpo em Minas Gerais. As discusses entre ns, na leitura e ps leitura naquela caserna do campo de concentrao, foram longas, acaloradas por vezes violentas, j que os poucos de ns que alguma coisa sabiam sobre o Brasil, o sabamos tambm com ignorncia e preconceito, no pouco ler e muito ouvir dizer. Tudo isto fruto da nossa oposio ao luso-tropicalismo de Gilberto Freyre que o governo colonial salazarista portugus utili-zava politicamente contra nossos ideais independentistas. E do pouco que sabamos (os que haviam lido) era que a presena africana no Brasil era majoritariamente sudanesa, de gentes iorubas e outras provenientes do Golfo da Guin e por a abaixo. E que de nossos povos bantos do Congo, Angola, Benguela- as marcas culturais se haviam esvanecido. E, agora, lamos ali por entre a transcrio de formas de dizer actuais, os velhos, ancestrais vocbu-los quicongo ou quimbundo e espanto maior! umbundo. Por semanas fomos discutindo at exaurir a mina. Ficaram luzes e sombras, curiosidades e encolher de ombros. Guardei o suplemento e, por amigos de Portugal, tentei a compra do livro. Com muitas peripcias acabou por chegar, finalmente quase trs anos depois. A, j decepcionado e meio esquecido o recebi e li

    * Luandino Vieira se refere a duas matrias publicadas por este SLMG (Um livro significativo, de Lindolfo Gomes, e Um livro sobre Minas, de Plnio Barreto), em novembro de 1969.

    Luandino Vieira e Minas Gerais

    Depoimento a Joo Pombo Barile

  • 4 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    avidamente. O lemos avidamente. E jurei: um dia chegarei a S. Joo da Chapada, em Minas. E escutarei esses sons antigos. Em 1972, o governo portugus sob presso internacional, nos tirou a mim e ao poeta Antnio Jacinto (meu companheiro de controversa sob o livro de Machado Filho, ele e No Sade e Mendes de Carvalho, dois profundos conhecedores de quimbundo) para Lisboa com liberdade vigiada. O livrinho me acompanhou e a viagem para Minas Gerais, que comeara naquele dia distante de 1968, continuava. Ao longo de muitos anos, em algumas vezes que viajei para o Brasil sempre em meu corao ia o desejo de alcanar Minas Gerais. Desconseguia. No Rio, com viagem de nibus aprazada me fizeram regressar por S. Paulo. Em outra vez, j aps misso literria conclu-da escolhendo como chegar a Ouro Preto, fui enviado a Braslia para insignificncia oficial. E assim, por anos, palmilhei estradas poeirentas de Minas, fui de ferro, e os meus ombros suportaram a nostalgia do que ainda no havia visto. Mas tambm, por todos esses anos, insidiosamente o destino me fez perder o livrinho de Aires da Mata Machado Filho. Sumiu na companhia da minha velhinha mquina de escrever Hermes Baby, em um pequeno assalto Unio de Escritores Angolanos, coisa frequente naqueles idos de 1980 At que em 2009, para minha alegria, com dedicatria e tudo, rece-bi novo exemplar, oferta do Prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo de Arajo, que, sabedor desta estria por Guiomar de Grammont, mo enviou por mo amiga. Percebi ento que minha viagem para S. Joo da Chapada continuara. E foi com emoo tranquila, j que temperada pela longa viagem

    iniciada em 1968, que em Novembro de 2010 cheguei a Ouro Preto ao Frum das Letras. E a estava eu, finalmente, na Praa Tiradentes. E via por mim pas-sar o povo angolano, quieto e calado, como se nunca tivssemos estado separados por tanto sculos de sofrimento e exlio. E na noite de 12 de Novembro, ouvi e vi, no palco da Casa da pera os Vissungos de tanta saudosa controvrsia, em minha memria daque-les anos do campo de concentrao, de tanta dolorosa alegria pelas veias abertas por cima do Atlntico. Era mais uma jornada, na viagem. Chegarei algum outro dia a S. Joo da Chapada, como cheguei j a Ouro Preto, e ouvirei velhas palavras ou seus sons desarticulados, sons e ritmos que me levaro de volta infncia de minha pessoal identidade angolana? A viagem continua.

    Fot

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    pia

    JOO POMBO BARILE jornalista.

  • 5NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    A literatura como um

    G onalo M. Tavares nasceu em Luanda, Angola, em 1970, mas reside h muitos anos em Lisboa, Portugal. Publica o seu primeiro livro em 2001, intitulado Livro da Dana, um quase-poema longo, dividido e numerado em 114 fragmentos, mas que tambm se aproxima muito de um ensaio, numa relao direta com ques-tes da filosofia e com questes que parecem ter sido retiradas de um pensamento da dana. E ensaio, no trabalho de Gonalo M. Tavares, pode ser entendido de duas maneiras distintas e complementares: como procedimento de reflexo crtica, experincia intelectual livre, e como ao, movimento de algo que se repete inmeras vezes, como uma core-ografia, uma dana o texto inteiro como um corpo que dana, que trei-na, que ensaia. No por acaso, Gonalo M. Tavares j publicou, em pouco mais de nove anos, 26 livros, que passeiam entre diferentes gneros literrios e que so distribudos em sries e cadernos numerados. As sries so termos de apreenso que ele anota para o leitor, um indcio como diz em entrevista que segue para este Suplemento, algo que quem l tem obrigao de dar substncia , um mapa sutil que desenha uma suposta ordem para o seu trabalho espalhado por tantos livros, numa experincia intelectual que se apropria do ensaio, da filosofia, da cincia, da lgi-ca etc., para compor um laboratrio ficcional de sensaes. Um proce-dimento muito prximo de um estado de dana, que aparece tambm como indcio na anotao [espcie de subttulo] que ele faz no seu Livro da Dana: projecto para uma potica do movimento. Essas sries so divididas em Livros pretos [O Reino], Livros pretos [Canes], O Bairro, Estrias, Enciclopdia, Bloom Books, Poesia, Teatro, Arquivos e Investigaes. No Brasil, j foram publicados boa parte de seus livros, espalhados por diferentes editoras, como os magros e deliciosos livros da srie O Bairro, publicados, em sua maioria, pela editora Casa da Palavra (RJ) como, por exemplo, os livros O Senhor Calvino, O Senhor Brecht, O

    Senhor Kraus, O Senhor Juarroz, O Senhor Walser. Os quatro romances da tetralogia O Reino Livros pretos, que saram pela Companhia das Letras (SP), e que composta por Um homem: Klaus Klump, A mquina de Joseph Walser, o premiado Jerusalm e Aprender a rezar na Era da Tcnica. O Livro da Dana, da srie Investigaes, publi-cado pela Editora da Casa (SC). O livro 1, da srie Poesia, publicado pela Bertrand Brasil (RJ). Os trs livros da srie Enciclopdia [Breves notas sobre cincia, Breves notas sobre o medo, Breves notas sobre a ligao], que saram juntos, encartados numa caixa-estante, pela Editora da UFSC/ Editora da Casa (SC); entre alguns outros. Assim, Gonalo M. Tavares parece provocar uma imploso silencio-sa e espalhada pelos tantos livros e gneros literrios que faz uso, numa tentativa de tornar o que antes era diferenciado [poesia, filosofia, ensaio, fico, teatro, aforismos etc.] num estado uniforme, misturado, concen-trado num nico ponto, mnimo e indistinto, como escreve na abertura do seu livro Histrias Falsas [da srie Estrias, publicado no Brasil pela Casa da Palavra]: perceber o modo como a fico [verossmil ou nem tanto] se pode encostar suavemente a um fragmento da verdade at ao ponto em que tudo se mistura e se torna uniforme. Uma tarefa para a literatura que se apresenta como forma de resistncia no mundo agora treinar, ensaiar para que o corpo da escrita contempornea seja pro-fundo , ao propor uma escrita que tambm um compsito de intensi-dades. Uma escrita que, ao repetir o mesmo movimento, inmeras vezes, de vrias maneiras, sem um sentido nico determinado, mas aberta para todos os lados num excesso de desejo e de ateno, se lana no mundo como felicidade e como jogo; uma escrita que procura situaes sempre experimentais para retirar o corpo da superfcie e ensaiar uma espcie de profundidade para a literatura como um corpo alterado, misturado e que, ao atirar-se no mundo, ainda pode ser pensamento e poltica. O que segue uma breve entrevista realizada por e-mail, entre julho e agosto do ano corrente.

    Jlia Studart

    DOSSI GONALO M. TAVARES

  • 6 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Voc j disse que pensar o gesto de resistncia mais vigoroso no mundo agora. Sua literatura, me parece, toda atravessada por este gesto. Como voc estabelece esta idia de resistncia para o pensa-mento atravs de sua literatura?

    Pensar pr uma pedra no meio do avano normal das circunstncias. A expresso parar para pensar redundante, pensar j parar, e isso, em tempo de enorme velocidade, fundamental. Claro que muitas vezes este gesto visto como algum que pra no meio da estrada a pertur-bar o trfego. Quem pensa torna-se assim um obstculo, que deve ser removido ou mesmo atropelado. Mas cada vez me parece mais evidente, isto: escrever livros tentar travar, desacelerar o trfego ininterrupto de notcias aparentemente actuais. Claro que ningum pra os acontecimentos, tal impossvel e ler no nem nunca foi isso. Mas ler pode ser, pelo menos, sair da confu-so, ignorar temporariamente o acontecimento do ltimo minuto que, no fim desta frase, j foi ultrapassado pela notcia ainda mais recente. De certa maneira isto: trata-se de desviar os olhos do muitssimo recente, fixando-os no que mais antigo mas que, daqui a meses ou anos, ser bem mais recente do que a notcia actual.

    Quais dilogos voc arma do seu trabalho com a tradio da litera-tura portuguesa [ou em lngua portuguesa] e, principalmente, com outras expresses como o cinema, a dana, as artes visuais tambm praticadas em Portugal?

    Quem faz algo sem ouvir o que se fez, sem falar para o que j se fez, entra num monlogo ou pouco tonto; pensando estar a inaugurar um mundo qualquer est, afinal, s a varrer para o canto os restos de uma festa anterior. Escrevemos sempre depois de outros, como dizia algum e pensar que escrevemos antes de qualquer outro, pensar que somos o primeiro escritor no revela ambio, mas ignorncia. Ningum faz nada de novo a partir do zero, s se faz algo de novo a partir do antigo, parece-me. E em breve sair algo Uma viagem ndia que um dilogo claro com a tradio da literatura portuguesa que me interessa muito.

    Tenho pensado a sua literatura a partir de uma idia de movimento e, principalmente, de dana; uma sugesto que vem de seu primeiro livro, o Livro da Dana [2001]. O que muitas vezes indica uma escri-ta misturada, no s entre a fico e o ensaio, mas tambm numa conversa direta com outras expresses. Fale um pouco deste seu mundo potico que se move?

    Interessa-me muito o cinema, o teatro, todas as expresses artsticas. Gosto da ideia de que um texto resulta de um choque entre imagens, texto, gestos, etc. Claro que podemos ver a tragdia disto, mas de um choque nascem sempre novas formas, mesmo que distorcidas. Alis

    um pouco isso, como se as novas formas fossem distores das antigas, um resultado feliz de um acidente terrvel. difcil, impossvel, separar fico de ensaio ou, mais especifica-mente, do pensamento. O que uma frase que no pensa? Ser que pode-mos dizer: esta frase est a pensar e portanto no est a narrar? Ser que podemos dizer: esta frase est a narrar, por isso no est a pensar? Contar uma historia, narrar um acontecimento, j uma forma de pensar. Por exemplo, muita da filosofia oriental parte de histrias e no de conceitos; ensinam-se conceitos por via de narrativas. O inverso tambm sucede: uma ideia, um conjunto de pensamentos tambm uma narrativa, com o antes e o depois, com causa e efeitos; alis a lgica da lngua e do pensa-mento essa mesma estabelecer uma ordem cronolgica nas ideias, estabelecer uma narrao: as ideias so apresentadas numa espcie de introduo, que tem desenvolvimento e depois concluses. At os mto-dos das cincias mais fechadas e puras como a matemtica e a Fsica -podem ser vistos sob esta perspectiva. Esses mtodos so fixaes da maneira de contar (1,2,3) e tambm de contar narrativamente: o que vem antes, o que vem depois, o que se deve explicitar, o que o leitor j conhe-ce e portanto no necessita de explicitao, etc, etc. (Por exemplo, numa tese matemtica h muito do implcito h teorias de que se parte do princpio que j so conhecidas do leitor e que portanto no so expli-citadas; etc., etc.). Enfim, parece-me que h muitos mecanismos seme-lhantes. Estamos sempre a pensar e a narrar, ao mesmo tempo. Parece-se que quase um acto de magia, poder dizer: agora vou s pensar, no vou narrar; ou agora s vou narrar, no vou pensar. um pouco como julgar que se pode cortar uma moeda de tal forma que ela chegue ao ponto de ter apenas um lado. Mas no h isso, ou h dois lados ou h nada. Ou se pensa e conta, ou nada.

    Voc comenta que a literatura precisa ser tocada pela paixo. O seu trabalho, alm disso, parece manter uma relao direta com o corpo, uma espcie de alterao corporal. Como voc pensa a sua literatura por dentro deste organismo descontrolado paixo e corpo alterado que a linguagem?

    A ligao entre corpo e linguagem uma ligao concreta, brutal, que no pode ser separada. No h linguagem sem corpo: quando falamos, falamos com o corpo, quando escrevemos escrevemos com o corpo (com uma das mos, com as duas), quando pensamos, pensamos com o corpo. Tudo tem uma base biolgica, mas o que fascinante conseguir-mos, a partir do corpo, emitir abstraces lingusticas. O facto de o nosso corpo conseguir dizer ou escrever ou pensar a palavra alma, absoluta-mente espantoso. algo a que no se d muito ateno, mas deve mere-cer estudo e reflexo. Como que eu partir da matria, da carne, da clula, da coisa que ocupa espao, como que eu consigo falar de Deus, de alma e de inmeras outras coisas materiais? Essa grande surpresa que a linguagem nos guarda. E, se calhar, no s a linguagem.

  • 7NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Heidegger disse que a poesia fundao, uma efetiva fundao do que permanece, e que o poeta seria o fundador do ser (Seyn). Esta proposio indica uma maneira de pensar a poesia como aquilo que se movimenta entre o saber e o poder, um aprofundamento da pol-tica. Seu trabalho sempre me leva a pensar sobre isso, este apro-fundamento e esta expanso da poltica para tocar os problemas do mundo agora. Comente um pouco sobre esta questo para voc e no seu trabalho.

    Interessa-me muito a poltica que passa, por exemplo, pelo estudo apro-fundado da linguagem. Quase toda a poltica actual passa pela lingua-gem. Como de certa maneira tendemos a abolir a violncia aquilo que resolvido ao murro ou ao tiro como, de certa maneira, o que a cidade pretende abolir isso, ento o que fica na cidade, pelo menos a cidade-legal, a linguagem o corpo e as suas decises desapareceram. Ficou a linguagem e os seus contorcionismos. Por isso, intervir politicamente, na tal polis, intervir na linguagem. No limite, um poema sobre Deus ou sobre uma planta que existe numa aldeia do outro lado do mundo, pode estar intervir politicamente no dia a dia da nossa cidade. Se o poema, claro, tiver a linguagem que a literatura forte exige.

    Dois dos projetos mais interessantes que apareceram recentemen-te na literatura de lngua portuguesa, so, a meu ver, os seus O Bairro e O Reino. A estes livros voc chama, respectivamente, de livros brancos e livros pretos; ao mesmo tempo em que os indica, tambm respectivamente, como ldicos e violentos. Fale um pouco sobre esses dois projetos e dessas suas indicaes para eles.

    Fico muito contente com a sua apreciao do Bairro e do Reino e para mim um privilgio ter pessoas a pensar com substncia sobre o meu trabalho; estou-lhe muito grato por isso. De facto, interessa-me tanto a utopia como a distopia. Olhar com ateno para o pior, e para o possvel-melhor. Talvez isto, o pior ou o possvel-pior, no Reino. E talvez a utopia, sim, no bairro. Assim, talvez entre o bairro e o reino esteja a guerra entre uma utopia e uma distopia. Como se um e outro se vigiassem a ver quem desiste primeiro.

    Voc sempre insiste que os gneros literrios so pouco importantes no seu trabalho. Por que ento sugerir como indicao algo pr-ximo a um modo de uso ou a um como ler algumas etique-tas, tais como: investigaes, enciclopdia, teatro, arquivo, poesia etc?

    As categorias literrias realmente no me interessam muito. Tudo sem-pre uma misturada. Nem sequer, como disse antes, podemos classificar uma frase, o tomo mais pequeno de um texto, quanto mais classificar um

    livro como poesia, ensaio, fico. Talvez o que exista apenas sejam pre-domnios, percentagens mais altas ou mais baixas de uma matria. Mais percentagem de poesia, mais percentagem de ensaio, mais percentagem de narrao. Enfim, e mesmo assim, esta contabilidade no exacta. Tenho por um lado o gosto de arrumar e por outro, e ao mesmo tempo, o gosto de desarrumar. Agrada-me a ideia de arrumar uma desarruma-o, uma desordem. A ideia por exemplo de ordenar, de contar, simples-mente objectos uma ideia, um processo que, de imediato, pe ordem no catico. Por exemplo, se eu tiver uma p, um gato morto, um saco do lixo, uma mulher e uma criana, um copo, uma moeda, um elefan-te eu posso pr uma ordem nesta confuso, ordenando precisamente, contando: uma coisa, duas coisas, trs coisas, etc. E, assim, deixo de ter vrios elementos que parecem no estar bem juntos, para passar a ter sete ou oito coisas. A numerao dos meus livros (cadernos/1,2,3) segue um pouco este instinto. Se eu ordenar as partes do caos, a ordem transforma o caos num outro tipo de organizao. Mas o problema mesmo esse, o de uma classificao condicionar a forma de ler. Preferia ver os termos poesia, enciclopdia, etc., como um indcio e no como uma classificao. Indcio algo que quem l tem obrigao de dar substncia. Transformar um indcio numa coisa concreta, que pode ou no confirmar a ideia inicial, , parece-me, um dos ofcios do leitor e da leitura.

    JLIA STUDARTAutora de Livro Segredo e Infmia (Editora da Casa, 2007) e Wittgenstein e Will Eisner (Lumme Editor, 2006), poeta e doutoranda em Teoria Literria pela UFSC / CNPq.

  • 8 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    INVENO, FILOSOFIA,

    FUTEBOLManoel Ricardo de Lima

    G onalo M. Tavares, alm de ter formao em Educao Fsica, jogou futebol no time juvenil do Beira Mar, da cidade de Aveiro, onde morou durante algum tempo. O Beira Mar hoje disputa a primeira diviso da liga em Portugal. No sei se Gonalo torce para algum time, se ainda acompanha futebol, se torce para o Beira Mar. No encontrei nenhum comentrio dele sobre isso, nem muito menos algum registro em quaisquer de seus livros. A nica referncia que encontrei est em uma entrevista para TV: o entrevistador lhe pergunta sobre o tempo em que jogou, ele silencia, olha fixo e pra-ticamente muda de assunto. Fala alguma coisa sobre memria e infncia, leitura e livros. No sei o quanto, mas reparando bem nos livros de Gonalo Tavares, principalmente em um deles que me chama ateno desde o comeo, Histrias Falsas, quando nos prope olhar a histria a partir de algo que est ao lado, ou de lado, quase jogado fora, a salincia ou salto atravessa a palavra como um drible convulso: exercer um desvio do olhar em relao linha central da histria.

    DOSSI GONALO M. TAVARES

  • 9NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    O futebol tem a ver com os modos de operao do desejo e da paixo, quase arte, principalmente quando a bola aparece como artifcio da imaginao [ela pode no estar ali, pode apresentar-se como um objeto ausente], e move uma insero de temporalidade que est diretamente vinculada ao corpo, mas sempre como uma intuio do corpo. Nelson Rodrigues atribuiu ao futebol um saque metafsico de mtodo consti-tutivo entre a fria moderna e o gesto clssico, porque talvez vislum-brasse que h nele uma dana que despreza o clculo mais arguto e opta por um desenho coletivo que tende a alucinao do tempo e do espao, entre movimento constante e inveno. Algo prximo das jogadas e pro-vocaes de Almir Pernambuquinho, o furioso e margem, que jogou no Vasco da Gama, no Flamengo e no Boca Juniors da Argentina, por exemplo, e foi assassinado por um grupo de portugueses num bar no Rio de Janeiro. Dizem que tentava defender alguns travestis que estavam por ali. De outra maneira, com menos violncia, mas no com menos fria, Romrio [o ltimo torto], aparentemente sempre com sono, despertava de uma vez e rompia o espao num zs com o peito apontado para fren-te e um desprezo atvico com o mundo ao redor. O gesto era todo em direo ao gol: a bola levemente empurrada e colada ponta da chuteira para sempre ou ali, num quadrado mnimo e impossvel, sobre-humano, quando a bola se descolava da chuteira seguindo a intuio de uma dana esgotada e triunfante. E isso tudo pode ser usado como uma leitura crtica em direo literatura de Gonalo Tavares, porque a questo no somente montar relaes entre literatura e futebol, porque o ponto no de incluso ou arrolamento, como indica o timo, nem muito menos traar a lista da conversa que pode ir de Joo Cabral de Melo Neto [apenas porque um dos verbetes do livro Biblioteca, de Gonalo, e porque jogou fute-bol com uma fora descomunal para o seu corpo magro e quase fr-gil] nem cair nas esparrelas bvias, mesmo que encantadas, do goleiro Albert Camus [porque tambm verbete no mesmo livro, Biblioteca] ou cifrar em direo a literatura de Gonalo a belssima letra da cano de Belchior, intitulada Divina Comdia Humana, que comea com as linhas Estava mais angustiado que um goleiro na hora / do gol. Mas tocar o mais perto possvel a captura do gesto espasmdico da literatura de Gonalo Tavares como um corpo que se move deliberadamente entre pensamento, inveno, intuio e mtodo, depois entre o paradoxo e a ambivalncia. A inveno de uma literatura que toda ela um esboo do corpo, como fria e gesto clssico, gesto que me parece vem da filosofia e est muito perto do futebol como jogo e dana, porque de fato o que temos para ler o quanto Gonalo arma o tempo inteiro uma srie impre-vista de histrias no combinadas, de histrias falsas.

    O gesto da literatura de Gonalo tende construo de uma trans-parncia desgarrada da histria, e aqui bom tomar nota de muito da tradio do pensamento ocidental, algo dos relevos do oriente, muito do peso inclume da tradio portuguesa ao recuperar, por exemplo, sem cit-la, o infenso mover-se da heteronmia de Fernando Pessoa [armada como apagamento do nome e vetores de sada: nenhum heternimo mais Fernando Pessoa, todo ele ningum e, ainda, indito e muito per-to do ato de Duchamp] em projetos como O Bairro e Biblioteca, ao tomar posse e, ao mesmo tempo, impor um mbil de despossesso quan-do inventa outras formulaes de pensamento aos nomes fixados pela tradio. E isso tanto pode ser lido como um aceno em direo a enci-clopdia naturalista dos sculos XV e XVI ou a etnografia dos sculos XVII, XVIII e XIX, quanto questo contempornea mais abrangente, a da deliberao anacrnica. A enciclopdia alucinada de Gonalo Tavares remete a uma possi-bilidade aberta pelo conhecido esquete de humor, Futebol Filosfico, realizado pelo grupo ingls Monty Phython e encenado em 1972 [os mesmos dos filmes Em busca do clice sagrado, 1975 e A vida de Brian, 1979], que uma brincadeira com inveno, filosofia e futebol. De um lado, filsofos gregos, do outro, filsofos alemes. O trio de arbitragem tem Confcio como rbitro [com uma ampulheta para marcar o tempo], Santo Agostinho e Santo Toms de Aquino, como assistentes-bandeiri-nhas. O time alemo tem Leibniz, Kant, Hegel, Schopenhauer, Schelling, Beckenbauer [esta presena insuspeita], Jarspers, Schlegel, Wittgenstein, Nietzsche e Heidegger. Marx est no banco de reservas, depois se aque-ce com a indicao do narrador que vai mudar a histria do jogo, nada muda. O treinador Martinho Lutero. Do lado grego, Plato, Epicteto, Sfocles, Empdocles, Plotino, Epicuro, Herclito, Demcrito, Scrates e Arquimedes [que tem a brilhante idia, eureca, de chutar a bola e con-vidar os seus companheiros a fazerem o mesmo at marcarem um gol; a comemorao eufrica]. O futebol como alumbramento e pulso, pode apontar para o movimento ininterrupto da literatura quando ela tambm drible. E como tal, o drible uma inveno intuitiva e pura do corpo e um mtodo furioso e sofisticado do pensamento.

    MANOEL RICARDO DE LIMA poeta, professor de Literatura Brasileira [Uni-Rio]. Publicou 55 Comeos [Editora da Casa, 2008] e Quando todos os acidentes acontecem [7 Letras, 2009], entre outros.

  • 10 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    G onalo publica desde o comeo desta dcada uma srie de

    livros chamada O bairro. Foram lanados mais de sete volu-

    mes at agora. Mas a srie no segue um plano ou esque-

    ma rigoroso. Cada um dos livros dedicado a um senhor e cada um

    deles , na verdade, um autor Bertolt Brecht, Calvino, Henri Michaux,

    Karl Krauss e Robert Walser so alguns dos homenageados. Numa

    entrevista, Gonalo explica que o aparecimento de cada um dos senho-

    res no tem um programa prvio. E continua, dizendo que, apesar de

    ser um local imaginrio, um bairro, portanto h pessoas que podem

    mudar subitamente para l, e h outras que podem sair. Estes senhores,

    os autores, so visualizados enquanto personagens possveis, segundo

    ele ainda.

    bairr

    o,

    bibli

    oteca,

    come

    osDO

    SSI

    GON

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  • 11NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Como personagens possveis, no h como saber qual ser o prxi-mo senhor-autor homenageado, nem quantos sero os senhores, enfim, quantos sero os habitantes do bairro. Quase todos esto por escrever, embora os visualize j, um projeto para muitos anos, para toda a vida, diz ele na mesma entrevista. Antes, ento, de solicitar um tipo de fecha-mento, a srie solicita uma organizao diferente, configurada a partir de uma idia de abertura: configurao que, valorizando a hesitao, a possibilidade um valor produtivo do talvez e a falta de uma dimen-so antevidente a noo de plano geral que solicitada por qualquer projeto , incorpora o movimento, as mudanas de plano e, at mesmo, os erros do percurso. Um projeto, assim, mais a vontade ou o desejo de torn-lo uma possibilidade do que sua realizao, ou melhor, do que a sua realizao previamente definida. Biblioteca livro de quase duzentas pginas com verbetes dedica-dos a escritores, filsofos e artistas plsticos, publicado em Portugal em 2004 e no Brasil em 2009 estabelece uma relao com a srie. Na Breve nota que abre o livro, l-se que o ponto de partida deste livro a obra dos autores nunca aspectos biogrficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associaes incons-cientes puramente individuais) esto na origem do texto. A forma de escrever estes verbetes assemelha-se configurao dos personagens ou senhores do bairro. H uma contaminao espiritual a expresso de Gonalo , isto , no se trata (como tambm no se trata em Biblioteca) de questes biogrficas, mas sim, nas palavras dele, de uma contamina-o dos temas que interessavam ao autor homenageado e personagem que criei. Cada um dos senhores (autores), portanto, foi escrito (ou ser escrito) a partir de um tema que atravessa as obras de cada um deles, um tema bastante recorrente nelas: possvel, ento, solicitar as respectivas obras para ler os respectivos senhores a obra de Brecht para ler o Brecht de Gonalo, a obra de Michaux para ler o Michaux de Gonalo, etc., etc. Da mesma forma que a srie solicitou a presena de Biblioteca, possvel ento solicitar outra presena, a de Roland Barthes, em Roland Barthes por Roland Barthes. Em um fragmento auto-explicativo, ele afirma o seguinte: Gostando de encontrar, de escrever comeos, ele ten-de a multiplicar esse prazer: tantos fragmentos, tantos prazeres (mas ele no gosta dos fins: o risco de clusula retrica grande demais: receio de no saber resistir ltima palavra, ltima rplica). Escrever em fragmentos escrever comeos, multiplicar as possibilidades, j que se est sempre no comeo de um caminho uma escrita em fragmentos quase sempre um projeto escrito como inteno, desejo quem escreve assim no se preocupa com os fins que, nesta perspectiva, so clusula, isto concluso, fecho ou encerramento. Barthes e Gonalo tm medo

    que a escritura se torne a ltima palavra a escritura neles, ao contrrio, pretende ser um movimento de abertura e a leitura uma srie de come-os, de caminhos a serem multiplicados, de no-concluses. Em Biblioteca, no verbete dedicado a Roland Barthes, l-se isto: H quem escreva como num testamento: uma linguagem que separa e dei-xa apenas parte a cada um. E h quem escreva como mo de agricultor: deixa mais do que acabou de deixar. Escrever comeos , em certo sen-tido, a operao-multiplicao que a escrita em fragmentos torna poss-vel. A escritura clusula retrica semelhante escritura-testamento, que como diz sua etimologia, uma atestao, escritura esta que separa ao invs de multiplicar, que enclausura. Aquele que escreve comeos, que escreve com a mo do agricultor, deixa sempre mais possibilida-des de leitura naquilo que escreve ou semeia. Um livro que se configura, melhor dizendo, uma obra que se configura a partir da abertura um livro que, por sua forma, capaz de multiplicar os caminhos. E os livros da srie O bairro so livros em fragmentos: pequenas histrias ou narrativas que seguem, como cada um dos verbetes em Biblioteca, um ritmo peculiar, narrativas que solicitam um percurso no-linear de leitura. Eu posso comear com a narrativa que abre o livro, pular duas outras, voltar e ler as que foram puladas. Depois, e mais uma vez, pular cinco narrativas, reler as que foram puladas, reler a primeira e voltar a essas que no foram lidas anos mais tarde a seqncia da pagi-nao no obriga, assim, uma leitura linear. A srie configurada, ento, a partir da idia de abertura, que atravessa cada um dos livros. Enfim, ela projetada, quer dizer, desejada como abertura num primeiro momento, os senhores so personagens possveis, entram e saem do bairro a qualquer hora eles esto sempre por escrever. Num segundo, uma forma no-linear de leitura possvel por causa de uma escrita em fragmentos. E, num terceiro momento, a abertura que cada uma das histrias solicita elas antes de enclausurarem a leitura, mul-tiplicam-nas. H sempre, por causa da escritura configurada assim, um tipo de no-acabamento que solicita, sempre ou quase sempre, o leitor, algum que reconhece que se est diante de comeos, diante de algo que deixa mais do que acabou de deixar.

    FRANKLIN ALVES DASSIE poeta e mestre em Literatura pela Universidade Federal Fluminense, onde tambm faz doutorado [bolsista CNPq]

  • 12 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    TEXTOGonalo M. Tavares

    A CIDADEColocado em cima do vazio o homem, estranhamente no

    desaparecendo, constri a cidade onde ces, pssaros, e gatos percorrem o pescoo dcil da casa.

    A COnStRuOAvanando como a alma, sem pernas nem msculos, apenas supondo

    inveno de caminhar sem caminho como se as formas loucas, de tamanho zero em cada lado, pudessem aumentar a rapidez do mundo, o

    bronze resiste quase doce invaso das ervas.

    O AMORAs npcias entre a felicidade e o homem so breves e mentem. Se trs

    mil verdades dormirem no mesmo instante, uma nica mentira pode dominar um dia ou dois anos. Porm o sono desaparece como aparece

    um incndio: sempre previsvel, sempre imprevisvel.

    A CAtStROfENuma flor no ocorre a catstrofe, dirs tu, confundindo dimenses,

    corao e maldade.S nos palcios, dirs; ou s em mim, dirs.

    Mas se os astros te vem como uma pequena flor ou um breve excremento, que infeliz dia esse, o teu, onde poders perder uma

    perna ou a cabea inteira?

    Para o rosto do astro o teu rosto no existe; nem a tua face alegre plen, nem a tua tragdia mais que um ponto mnimo no mesquinho.

    E nada s, e nada te acontece. E nem s flor.

    O BEROBalana como um barco ou como o corao.

    Ilust

    ra

    o de

    Qui

    nho

  • 13NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    O CALENDRIOSe dividires a noite em dois no ters de um lado luz. Porque o lado onde a luz , o terceiro: o lado para onde no olhaste.

    A CASAStio onde penduramos o Perigo e o deixamos estar, esquecido. O previsvel veste-se e despe-se. No pode existir mistrio no que inimigo do mistrio. Mas uma casa tem sempre uma fenda, breve e calma, mas fenda: possibilidade e indcio de: caos, tumulto atravessado no dia, mudana, madeira partida, veneno vermelho, uma coisa suja que no se apaga do cho.Mas podes os dias completos viver sem uma nica vez conheceres a fenda m que existe na tua casa, no stio onde certamente nenhuma ameaa existe, dizes tu, na vspera.

    O CEntROPoders ver o centro como aquilo onde tudo cai, mas eu vejo o centro como aquilo onde tudo se levanta depois da queda.O salto, o voo, a tentativa, a hiptese, a inveno, a declarao de amor, o beijo, a primeira nudez, a primeira fora que pela primeira vez no se usa, os primeiros olhos baixos orgulhosos. Inseparvel do centro, o incio. Inseparvel do incio, a alegria.

    O tEMPONem sete dias sero suficientes para rodeares por completo uma pedra pequena.

    A ESCADAToda a escada um tempo. Se comeas no Inverno nunca terminars no mesmo Inverno. Cada degrau parece curvar-se debaixo do teu caminho. E pareces subir. E pareces contente.Mas cairs.

    (de O Livro das Origens)

    INDITODOSSI GONALO TAVARES

  • 14 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Iescuto escuro sombras surdas

    no espao espesso lodo torvo

    de um tempo esquivo em que comeo e recomeo

    o pugilato comigo mesmo

    luta ou luto que me cega e segue como treva ou trava

    ao vento curvo.

    IIverde o segredo verde o silncio

    escrito em cicatriz escrito em anti-flor-de-lis

    para a necessria abolio de mim

    IIIestou morto e no-morto

    vrtebras ao inverso letras tontas

    de um nome incerto vocbulo equvoco

    desfeito em gua para a necessria abolio de mim

    escuto espesso sombras mudas no escuro escuro.

    IVnada me aquieta

    entre espectrosde palavras-coisas:

    anmonas trafegam pensamentos rotos,

    rodos at o muco

    eis a era desolada de cortes e recortes

    tempo-cutelo

    no espao lacerado pele-de-lua violada

    por lnguas-grgulas

    lua-esfinge-macerada por caninos crberos:

    tempo nigromante

    corvo corvo corvorecrocitando escrnios.

    Cla

    udio

    Dan

    iel

  • 15NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Vquando nada mais faz sentido busco o mistrio animal,a ferocidade da noite:deslizando por meus lbios,ela se transforma, revoluta,desentranhada, no me decifra,no te devoro, abisma fbulas na desordem dos cabelos;entre pupilas, expandindo luas,tensionando a pele, na cegueira dos mamilos.

    VIfloresta de enganos, se me esmagam, furiosos, com simulaes, tua face que me escapa pele;se atravesso veredas infernais,desalentado, paisagem de fraturas, apenas para encontrar-te,tua imagem reversa o meu labirinto.

    VIIespao vegetal, tempo lagarto:mos fluidas; voz movedia;olhos de musgo, na pedra;quem sou eu, nessa era lquida,menos homem que nmero,letra negra, fragmento do caos,movendo-me roda de teu nome?

    VIIIflutuantes territriosem que tudo ambguo;larvais estatuetas, jadesinstveis, refratando nferos.

    IX mulher-esfingedisposta em meu sangue incisiva, configurada ao sol de duas faces, quem voc, jardim, jaspe ou pesadelo, serpe cabalstica em cada unha, tudo instvel, tudo msica e insanidade, mas teu seio afundando em minha boca.

    CLAUDIO DANIEL poeta, tradutor e ensasta, autor de Romanceiro de Dona Virgo (Lamparina, 2004). Este fragmento a sequncia inicial do poema Letra Negra, plaquete publicada em 2009, com apenas 60 exemplares.

  • 16 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Conto de Fernando Portela

    Da livre-iniciativa e suas excelncias

  • NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais 17

    B estunto tomaria conta da porta. Ele era mesmo o mais inte-ligente do grupo, e sabia conversar com as pessoas. Por exemplo: se, na hora do assalto, algum quisesse entrar no restaurante, Bestunto daria um jeito de afastar esses clientes. E tudo na conversa, com calma. Eu (meu nome Debandinha, porque ando meio torto, pendendo para um lado por causa de uma bala que se alojou pra sempre no meu quadril esquerdo) e o Acuado renderamos primeiro os manobristas, depois o caixa e os garons. Eu me concentraria no caixa, apontando o revlver pra cabea dele. Minha especialidade a concentrao. O assaltado sen-te quem frio e quem no . Sou frio: jamais tremi com um revlver apontado para o outro. No caso, o caixa deveria ser o prprio dono do restaurante, e os donos sabem mais do que ningum que melhor no reagir. Eu estava muito seguro, como sempre. Acuado seria o encarre-gado de pr todos os empregados e alguns clientes (claro que haveria alguns clientes) na cozinha. Ele no to inteligente como Bestunto, mas jeitoso, pede por favor, sem deixar de mostrar a pistola. Praga de Me seguraria o pessoal na cozinha. Praga sabe fazer bem isso, segurar, at porque a cara dele assusta at bicho. A gente imaginava chegar por volta das duas da manh, talvez um pouco antes, quando s estivessem por ali alguns clientes meio bbados e os garons.

    Mas ningum estava feliz. Antigamente, um pequeno grupo, como o nosso, reunia-se, conversava, escolhia a estratgia, e assaltava. Tudo na hora. No impulso, est certo, sem grande planejamento, mas com aque-la vontade de acertar, de enfiar um monte de dinheiro no bolso. Minha porcentagem pessoal no ano passado foi muito boa: quarenta e cinco assaltos, sessenta por cento dos quais limpos, sem mortos ou feridos. Meu faturamento, no entanto, no chegou a ser alto: cento e sessenta mil dlares. Mas, comparado a este perodo de agora, o ano passado foi uma glria. J estamos em outubro e eu realizei apenas vinte e uma operaes, com faturamento de oitenta mil dlares brutos (estou levando em conta o rateio, em partes iguais, menos para o coordenador, que leva quinze por cento), sem contar as taxas de vinte por cento, que antiga-mente no havia, claro, quando a gente ainda era iniciativa individual. A diferena que, a partir deste ano, passamos a trabalhar sob comando do Partido. No planejamos mais nossos prprios assaltos: vem tudo prepa-rado do Comit Central, e temos apenas de cumprir as ordens. Por exemplo: o assalto a este restaurante foi um trabalho da Diretoria de Planejamento. Escolheu o objetivo, estudou a melhor estratgia e apresentou o proje-to ao Comit Central, que, por sua vez, nos escalou para a execuo. Este um outro problema: gosto muito dos meus companhei-ros, so meus irmos, mas no escolheria, se fosse o responsvel pela ao, um quadro como Praga de Me. Ele muito burro e, fisicamente,

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  • 18 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    repulsivo. Estava em outra equipe, que assaltava lojas de departamento, e era s ele pr o p num shopping que os clientes chamavam a segurana. Um sujeito com aque-la cara s poderia ser tarado ou assaltante. A foi afasta-do. Passaram-no para nosso grupo, que se dedica a assaltos menos sociais. A gente no reclamou de pena dele. Mas o Praga atrapalha. As pessoas podem entrar em pnico s de olhar pra ele. Hoje em dia, assaltos so operaes delica-das, no devem fazer vtimas, isso joga a opinio pblica contra ns. No somos brbaros, somos expropriadores. Mas, pelo Partido, tudo. Admito que alguma coisa melhorou. Agora, temos os melhores advogados do Pas. Poucos de ns ficam presos por muito tempo. E h, ainda, o Comando Cssio Pilar, que resgata os que no conseguiram se beneficiar da Justia. Cssio Pilar foi um dos nossos que tombou, heroicamente, numa operao de resgate, logo no incio da atuao do Partido. Bem, voltando ao trabalho aqui. Recebemos um relatrio completo das atividades deste restaurante: nmero presumi-do de clientes em todas as horas; nmero de garons; posi-o do caixa; manobristas e seguranas, e seus respectivos lugares no palco das operaes. Tudo furado. Os manobris-tas eram, na verdade, os prprios seguranas, obedecendo aos novos tempos, que obrigam o profissional a desempe-nhar vrias funes ao mesmo tempo. Um dos seguranas eu at conhecia, havia cumprido uns trs anos comigo, na Casa de Deteno. Outro furo foi o clculo dos clientes. Os planejadores no perceberam que havia uma igreja evan-glica prxima, e que nela aconteciam reunies s teras e quintas, no comeo da noite, e que, nesses dias, um bom nmero de participantes acabava jantando no restaurante, ou seja, tera e quinta seriam dias inviveis para o nosso objetivo. Foi o Bestunto, muito esperto, que acabou desco-brindo isso, simplesmente porque, superprofissional, deci-diu dar uma olhada no local da operao, dias antes, o que terminantemente proibido pelo Partido. (Bestunto, na verda-de, veio com uma histria de que descobrira esses detalhes porque j conhecia a regio, mas ningum nasceu ontem). Ento, tudo pronto, vamos l. Chegamos, dois pela

    esquerda, dois pela direita, e pegamos fcil o nico mano-brista/segurana, porque o outro, justamente o meu colega, j havia sado. Quieto, viado, passa pra c o revlver. No uso. No usa uma porra! E tome uma coronhada na cabea. Discreta. Foi Bestunto que deu. Passa logo, ou te mato aqui mesmo, disse ele. O pobre diabo olhou pro Praga e resolveu pegar a arma, presa na botina. Agora v na frente, rapaz, que vou te trancar na cozinha, disse Acuado, empurrando o cara com delicadeza. Entramos eu, Acuado com o manobrista e Praga de Me. Na hora em que o caixa, que era o dono, nos viu, adivinhou tudo. Ficou branco. Nem se mexeu de onde estava. Eu gos-to assim, eu disse a ele, os bons meninos ficam quieti-nhos. Mas o sujeito comeou a tremer. Esperamos que dois dos trs garons chegassem do salo, onde serviam a apenas um casal. Praga de Me j tomava conta, dentro da cozi-nha, do manobrista, do cozinheiro e de um auxiliar. Praga de Me no ameaava ningum, assim, de mostrar revlver. S apontava o volume debaixo da camisa. No precisava de mais nada. Eu tenho de falar uma coisa com o senhor, disse-me o caixa. Depois, moleque (ele era muito novinho). Vamos pri-meiro limpar o salo. Limpar, como? Vai atirar nas pessoas? Claro que no, babaca. Vou esperar que os garons vol-tem do salo. E eles logo voltaram, eram dois, um deles trazendo uma bandeja pesadssima. Ao nos ver, perdeu o equilbrio e caiu tudo no cho. Restos de sobremesa, molho de tomate, uns nacos de carne, sujeira grossa. E o barulho? Mas um casal, em confabulaes amorosas, deu somente uma olhada, rpi-da. Acuado no deixou que aquele garom juntasse as coi-sas, j mandou os dois pra cozinha. Depois, foi at o salo e convidou o casal a se juntar ao pessoal. A moa ensaiou gritar. Acuado mostrou a arma, ela se conteve. A eu me virei para o caixa. Que que voc queria falar comigo? Senhor, quero pedir desculpas, mas eu s tenho aqui

  • 19NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    FERNANDO PORTELA pernambucano de Olinda, jornalista em So Paulo. Publicou, entre outros, os livros de contos Leonora premiada (Duas Cidades, 1974), Querido senhor assassino (Smbolo, 1979), Allegro (Terceiro Nome, 2003) e O homem dentro de um co (Terceiro Nome, 2007).

    dinheiro meu. No restaurante, s aceitamos carto de crdito e cheque. Caralho. No diga! Infelizmente, senhor. Mas eu tenho alguma coisa. Talvez o cliente tenha, tambm. No, cara, eu vim aqui pegar a fria. No tem. Partido de merda!, eu tive vontade de comentar, mas me calei. Mandei o caixa se levantar. Vai me matar?, ele perguntou, lvido. No, porra. S pensa nisso? Levei-o at a cozinha. Tinha um cheiro horrvel, de bosta, l dentro. Que cheiro esse, Praga? O cozinheiro se cagou todo. Que foi que voc fez, idiota? Assustou o cara? S perguntei se ele tinha lasanha. Deu fome, meu. A ele disse que o restaurante no serve lasanha e comeou a chorar... Fiquei deprimido. Pegamos o dinheiro de todo mundo, no chegou a dois mil dlares. A equipe de planejamento se esqueceu de examinar o cardpio. Estava l escrito: S aceitamos cartes de crdito ou cheques especiais, para evitar assaltos. Se eu tivesse, sozinho, pesquisado o pon-to, planejado e operado, nada disso teria acontecido. O Partido muito burocrtico. uma espcie de repartio pblica. Confio em Bestunto: vou comentar com ele que no estou feliz com esse jeito de trabalhar. Eu sei que ele tambm contra. Mas, o que a gente pode fazer? Se cair-mos fora, poderemos acabar assassinados pelos nossos prprios amigos, que se sentem mais seguros pertencendo a uma organizao com mui-to dinheiro para contratar advogados, comprar policiais e juzes. Nossa situao a mesma dos funcionrios do governo: ganhamos uma merda mas estamos protegidos. No, no quero ser acusado de individualista. Mas essa no a vida que pedi a Deus.

  • 20 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    MILTON NASCIMENTO

    O uro Negro. Achado potico e justssima homenagem em vida, este pre-cioso ttulo foi dado, em 2001, pelos instrumentistas e produtores musi-cais Z Nogueira e Mario Adnet a uma caprichada seleo de 28 msicas e canes extradas de alguns discos de Moacir Santos, maestro e compositor brasi-leiro, falecido em 2006. Nos anos 60 do sculo XX, um desses discos, o LP Coisas (1965), era um biscoito fino raro, apreciado e disputado por todos aqueles ligados no jazz e no tipo de msica que recentemente comeara a ser feita no Brasil. Em Coisas, universo de maravilhas, muito bem vinda chuva de idias sonoras, parte delas jazzstica, outra parte de acento erudito, europeu, juntavam-se ensolarados e populares ritmos africanos, brasileiros, caribenhos e um instigante bailado de notas musicais, habilmente estruturados em brilhantes acordes, refinadas harmonias e sofis-ticadas orquestraes. Era tudo to original e encantador, que bastavam alguns pou-cos minutos de audio para que o disco transformasse o ouvinte mais atento em um

    Paulo Vilara

  • 21NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    prspero garimpeiro, j que aquela bolacha escura rodando ali, no prato da vitrola, era uma profunda mina musical, um veio de ouro riqussimo, sem-fim. O compositor Ronaldo Bastos contou-me um caso inte-ressante a esse respeito. Ele, Ronaldo, era, como se diz, o feliz proprietrio de um Coisas. E Milton Nascimento um apaixonado pelo disco, que no possua e, portanto, no podia ouvi-lo na hora que quisesse e ele gostaria de escu-t-lo todos os dias, todas as horas, o dia inteiro. Aps uma tarde de fruio sonora em casa de Ronaldo, pediu a este o disco emprestado. Levou, ouviu, ouviu e ouviu. Mas sem conseguir se afastar do cultuado objeto, tomou a deciso de imitar a caligrafia do amigo na capa, onde acima da assina-tura de Ronaldo, que h meses l se encontrava, estampou a dedicatria: Para Milton Nascimento, com a amizade eter-na do. Mais que isso, assumindo-se como legtimo dono, usou caneta com tinta de outra cor o crime perfeito e com sua prpria letra carimbou definitivamente no canto superior direito da contracapa: Pertence a. E firmou embaixo a sua, naquela poca, nada famosa assinatura. O disco est com ele at hoje. Ronaldo conta o caso e sorri, mas confessa que sente saudades daquelas lindas Coisas. Assim como Moacir Santos, o compositor Milton Nascimento , tambm, mina de ouro sem-fim. Desde que, em 1967, ainda desconhecido, teve trs de suas canes (Travessia, Morro Velho e Maria, Minha F) classi-ficadas para concorrer s finais do II Festival Internacional da Cano, com Travessia e Morro Velho terminando, respectivamente, em 2 e 7 lugares, muito j se disse e se escreveu sobre a sua msica. No o suficiente, j que ainda h bastante para ser explorado, descoberto, analisado, dito e escrito sobre esses belos sons. Mais que pedras, na msica de Milton Nascimento so pepitas que rolam. Contudo, com quase 50 anos de carreira (em 1964 gra-vou o compacto duplo Barulho de Trem), surpreendente que to pouco ou quase nada tenha sido comentado a respei-to das letras de msica escritas e assinadas por ele. Naquele festival mesmo, se Travessia tinha letra de Fernando Brant (a primeira que ele escreveu na vida), as outras duas canes foram inteiramente compostas por Milton, msica e letra, letra e msica. Destaco aqui uma delas, justamente aquela que considero a mais potica e bem estruturada de suas letras de msica: Morro Velho.

    O disco trazia as canes Barulho de Trem (MN), Aconteceu (Wagner Tiso e MN), Frias (Wagner Tiso) e Noite Triste (MN e Mauro Oliveira). Em 1999, no disco Crooner, Milton regravou a cano Barulho de Trem).

    Reproduo do livro Palavras musicais

  • 22 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    MORRO VELHO

    No serto da minha terraFazenda o camarada que ao cho se deu

    Fez a obrigao com foraParece at que tudo aquilo ali seu

    S poder sentar no morroE ver tudo verdinho, lindo a crescer

    Orgulhoso camaradaDe viola em vez de enxada

    Filho de branco e do pretoCorrendo pela estrada atrs de passarinho

    Pela plantao adentroCrescendo os dois meninos, sempre pequeninos

    Peixe bom d no riachoDe gua to limpinha

    D pro fundo verOrgulhoso camarada

    Conta histrias pra moada

    Filho do senhor vai emboraTempo de estudos na cidade grande

    Parte, tem os olhos tristesDeixando o companheiro na estao distante

    No me esquea amigo, eu vou voltarSome longe o trenzinho ao deus-dar

    Quando volta j outroTrouxe at sinh-mocinha para apresentar

    Linda como a luz da luaQue em lugar nenhum rebrilha como l

    J tem nome de doutorE agora na fazenda quem vai mandar

    E seu velho camaradaJ no brinca mais, trabalha.

    Caracterstica fundamental do fazer potico, louve-se nessa crnica musicada o poder de sntese do compositor: na primeira parte os meni-nos so sempre pequeninos; na segunda, ao voltar da cidade grande com nome de doutor, o filho do branco ter, no mnimo, 25 anos. Em poucas linhas, delineia-se um transcorrer no tempo de, pelo menos, 15 anos! Na ourivesaria de Milton, possvel ver a, tambm, um corte no tempo, uma elipse, uma montagem de planos, uma narrativa maneira do melhor cinema. Para quem comeou a solidificar sua carreira de com-positor imediatamente aps assistir, em companhia de Mrcio Borges, a trs sesses seguidas de Jules et Jim, filme de Franois Truffaut, a rique-za de imagens e a construo cinematogrfica dessa letra de msica no surpreendem. Mas encantam pela beleza. Falando ainda da letra de Morro Velho, no ser desnecessrio cha-mar ateno para o retrato realista expresso na idia do tempo que passa, afasta a inocncia da infncia e separa socialmente, de vez, os dois ami-gos. So imagens fortes, marcadas pela experincia da pele, a escravi-do, o preconceito, os sculos de latifndio e dominao. E qualidade potica impressa nos versos dessa cano, some-se o fato de que Milton Nascimento autor de uma respeitvel quantidade de letras de msica gravadas, cerca de 50. Listo, em ordem alfabtica, os ttulos dessas canes, citando entre parnteses o autor da msica, quando esse no o prprio Milton; e nas canes em que, alm de autor da letra, Milton parceiro na cria-o da msica, ele aparece citado como MN: Aconteceu (Wagner Tiso); Al (L Borges); Anima (Jos Renato); Barulho de Trem, Cano do Sal; Caso de Amor (Wagner Tiso); Cativante (Tlio Mouro); Certas Canes (Tunai); Cidade Encantada (Nelson Ayres); Coisas de Minas (Wilson Lopes); Corao de Estudante (Wagner Tiso); Dana dos Meninos (Marco Antnio Guimares); De Magia, de Dana e Ps; De um Modo Geral (Wilson Lopes e MN); Don Quixote (Csar Camargo Mariano); Duas Sanfonas (Gilberto Gil); E a Gente Sonhando; Em Poucas Palavras (Tavinho Moura); Feito Ns (Paulo Ricardo); Homem Feito (Francis Hime); Imagem e Semelhana (Bena Lobo e Kiko Continentino); Lgrima do Sul (Marco Antnio Guimares); Mar do Nosso Amor (Tunai); Maria, Minha F; Meninos de Araua (Telo Borges); Morro Velho; Noites do Serto (Tavinho Moura); Ns Dois (Luiz Avellar); O Cavaleiro (Wilson Lopes e MN); O Farol (Francis Hime); Olha, O Rouxinol, Pai Grande; Parceiros (Francis Hime); Ponto de Encontro (Jos Renato); Portal da Cor (Ricardo Silveira); Que Bom Amigo; Rdio Experincia (Tunai); River Phoenix; Sacramento (Nelson Angelo); Sebastian (Gilberto Gil); Sonho de Moo (Francis Hime); Talvez nos Teus Olhos (Wagner Tiso); Teia de Renda (Tlio Mouro); Testamento (Nelson Angelo); Tristesse (Telo Borges); Tudo (Ruben Rada, Hugo Fattoruso); Vozes do Vento (Kiko Continentino). H, ainda, canes em que Milton tem parceiros na cria-o das letras: A Lgrima e o Rio (msica de Wilson Lopes, letra de

  • 23NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    MN e Ricardo Nazar), A Primeira Estrela (msica de Tlio Mouro, letra de MN e Tavinho Moura). A cano Trovoada , at agora, caso nico na obra de Milton Nascimento: nela, Gilberto Gil comps a msi-ca e a letra da parte A e Milton a msica e a letra da parte B. Pode ser ouvida no disco Gil e Milton (2000). Seleciono trechos de algumas dessas letras de msica:

    Banco de estao / lugar de despedida e emoo / comigo diferente, apenas vim / pra ver o movimento que tem / barulho de trem(Barulho de Trem)

    Corro sem parar / nessas trilhas, sem controle, sem lugar / tudo ou nada me sussurra ao corao / bate pedra, bate lua, bate cho (O Cavaleiro, msica de Wilson Lopes e MN)

    Coragem, companheiro / Pra que fechar a voz / Se a fora do desejo / Pulsa em cada um de ns (Portal da Cor, msica de Ricardo Silveira)

    Trs pessoas vieram me pedir / no morra que o mundo quer saber / as coisas que a vida no te imps / a morte que sempre a ti perdeu (Sacramento, msica de Nelson Angelo)

    Eu no aceito o que se faz / Negar a luz fingindo que paz / A vida hoje, o sol sempre / Se j conheo eu quero mais(Teia de Renda, msica de Tlio Mouro)

    Sebastian, Sebastio / Diante da tua imagem / To castigada e to bela / Penso na tua cidade / Peo que olhes por ela (Sebastian, msica de Gilberto Gil)

    Rouxinol me ensinou que s no temer / Cantou / Se hospedou em mim

    (O Rouxinol)

    A pulsao do mundo / o corao da gente / o corao do mundo / a pulsao da gente (De Magia, de Dana e Ps)

    Certas canes que ouo / Cabem to dentro de mim / Que perguntar

    carece / Como no fui eu que fiz?(Certas Canes, msica de Tunai)

    Mantendo Morro Velho como norte de qualidade potica e consci-ncia poltica, Pai Grande, Cano do Sal e Lgrima do Sul tam-bm se destacam no conjunto das letras de msica escritas por Milton Nascimento. Assim como em Morro Velho, as injustias, as desigual-dades sociais, a violncia do racismo ali se encontram latentes, presentes de maneira sutil, nunca bvias nem panfletrias. H uma fora tambm expressa nas melodias que vem das razes africanas do autor, por isso mesmo duplamente marcado como aqueles indivduos que, arrancados de seus pases de origem, foram escravizados no Brasil. Pai Grande e Cano do Sal tm msica e letra de Milton; em Lgrima do Sul os versos so dele e a msica de Marco Antnio Guimares. Se em Pai Grande o banzo a caracterstica inicial que impregna msica e letra, ao final esse sentimento superado e o personagem j no quer mais ir embora do Brasil, afirma que minha gente essa agora. Canto de tra-balho, Cano do Sal igualmente se destaca pela afirmao do perso-nagem, consciente da sua condio de vida sofrida. O trabalhador braal luta para que o filho estude e no tenha a mesma profisso que ele, quer que o filho conquiste uma situao melhor, para vida de gente levar. Lgrima do Sul, conforme o prprio Milton diz no disco A Barca dos Amantes (1986), foi feita em homenagem a Winnie Mandela, contra todas aquelas atrocidades e barbaridades na frica do Sul, contra o racis-mo, l e em todos os lugares, inclusive aqui. Antes de expor os versos completos desses trs artefatos poticos, importante lembrar: diferentemente de um poema escrito, a letra de msica no foi feita para ser lida, falada ou declamada, mas sim para ser cantada. na voz do intrprete que ela se exerce inteira, adequada sua funo. E quando as palavras, as idias, as imagens so boas, justamente porque poticas, e as slabas se casam perfeio com as notas musicais e com o ritmo da melodia, ento a letra de msica atinge a sua plenitude. Portanto, leiam os versos de Pai Grande, Cano do Sal e Lgrima do Sul. Mas quando isso for possvel, ouam com ateno essas can-es.2 H ouro a ser encontrado a.

    Milton Nascimento gravou Morro Velho nos discos Milton (1967), Courage (1968), Yauaret (1987) e Belmondo & Milton Nascimento (2009); Pai Grande nos discos Milton Nascimento (1969), Milton (1970) e Missa dos Quilombos (1982); Cano do Sal nos discos Milton (1967), Courage (1968), O Planeta Blue na Estrada do Sol (1991), Gil e Milton (2000) e Belmondo & Milton Nascimento (2009); Lgrima do Sul nos discos Encontros e Despedidas (1985) e A Barca dos Amantes (1986). Elis Regina gravou Cano do Sal no disco Elis (1966) e Morro Velho no disco Elis (1977). Alade Costa gravou Pai Grande no disco Corao (1976); Mark Ribas gravou Cano do Sal em Cavalo da Alegria (1979); Morro Velho foi gravada por Fagner no disco Amigos e Canes (1998), por Joyce no disco Astronauta Canes de Elis (1998), por Pena Branca e Xavantinho em Corao Matuto (1998) e por Saulo Laranjeira em Ful da Laranjeira (1998). Pai Grande foi gravada por Joo Bosco no disco D licena meu senhor (1995) e por Alda Rezende no disco Samba Solto (2001).

  • 24 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    PAI GRANDE

    Meu pai grandeAinda me lembroE que saudades de vocDizendo eu j criei seu paiHoje vou criar vocAinda tenho muita vida pra viverMeu pai grandeQuisera eu ter sua raa pra contarA histria dos guerreirosTrazidos l do longeTrazidos l do longeSem sua pazDe minha saudade vem voc contarDe onde eu vim bom lembrarTodo homem de verdadeEra forte e sem maldadePodia amarPodia verTodo filho seuSeguindo os passosE um cantinho pra morrerPra onde eu vimNo vou chorarJ no quero ir mais emboraMinha gente essa agoraSe estou aquiEu trouxe de lUm amor to longe de mentirasQuero a quem quiser me amar

    CANO DO SAL

    Trabalhando o sal amor o suor que me saiVou viver cantando o dia to quente que fazHomem ver criana buscando conchinhas no marTrabalho o dia inteiro pra vida de gente levargua vira sal l na salinaQuem diminuiu gua do mar?gua enfrenta o sol l na salinaSol que vai queimando at queimarTrabalhando o salPra ver a mulher se vestirE ao chegar em casa Encontrar a famlia a sorrirFilho vir da escolaProblema maior de estudarQue pra no ter meu trabalho E vida de gente levar

    LGRIMA DO SUL

    ReviverTudo o que sofreuPorto de desesperana e lgrimaDor de solidoReza pra teus OrixsGuarda o toque do tamborPra saudar tua belezaNa volta da razoPele negra, quente e meigaTeu corpo e o suorPara a dana da alegriaE mil asas pra voarQue havero de vir um diaE que chegue j, no demore, noHora de humanidade, de acordarContinente e maisA cano segue a pedir por ti(a cano segue a pedir por ns)frica, bero de meus paisOuo a voz de seu lamentoDe multidoGrade e escravidoA vergonha dia a diaE o vento do teu sul semente de outra HistriaQue j se repetiuA aurora que esperamosE o homem no sentiuQue o fim dessa maldade o gs que gera o caos a marca da loucurafrica, em nome de DeusCala a boca desse mundoE caminha, at nunca maisA cano segue a torcer por ns

  • 25NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    PAuLO VILARA autor do livro de entrevistas Palavras Musicais (Belo Horizonte: edio do autor, 2006) e do infantil Congresso Internacional da Bicharada (Curitiba: Ed. Arco-ris, 1996).

    Dono de uma das mais belas, inconfundveis e emocionantes vozes do planeta Terra, Milton Nascimento quase sempre tmido, contido e, s vezes, at mesmo titubeante quando se trata de falar em pblico. Mas em suas letras de msica firme, sabe dizer, e em algumas delas imprime mais fortemente a marca de sua conscincia a respeito de questes importantes para a humanidade (sua msica universal)4 e, em particular, para a sociedade brasileira. Evidencia-se, em muitos de seus versos, uma capacidade incomum de exprimir poeticamente, e narrar com sensibilidade, a luta de todos aqueles que trazem na pele a ancestralidade da Me frica. Milton Nascimento. Ouro Preto.

    * Agradeo a Tavinho Bretas pela valiosa contribuio na pesquisa da obra de Milton Nascimento.

    3 Nas voltas que o mundo d, ouam, no disco Ouro Negro, a interpretao de Milton Nascimento para a cano Coisa n 8 Navegao / Make Mine Blue, de Moacir Santos, Regina Werneck e Nei Lopes. A gravao original, no LP Coisas, era instrumental, e a parceria apenas de Moacir Santos e Regina Werneck.4 Gravado na Frana, em 2007, e s em 2009 lanado no Brasil, o disco Belmondo & Milton Nascimento mais uma prova eloquente da universalidade da msica de Milton Nascimento. Com a presena da Orquestra Nacional da Frana, arranjos inspirados e Milton usando ao mximo as ricas possibilidades de sua voz, os irmos Lionel e Stphane Belmondo, jazzistas, fizeram um belssimo disco contemporneo com releituras de canes atemporais de Milton Nascimento, entre elas, Morro Velho e Cano do Sal, destacadas neste artigo. Disco para ouvir com ouvidos de garimpeiro: tem ouro fino, 24 quilates, sobrando a. Emocionante. Infelizmente, o encarte do disco desafinou: a cano Milagre dos Peixes est erroneamente creditada como sendo de autoria de MN e Mrcio Borges. de MN e Fernando Brant. Espera-se que a Biscoito Fino corrija o equvoco na prxima edio.

    Reproduo do livro Palavras musicais

  • 26 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    I vonaldo de Castro era da melhor cepa de Capinpolis. Sexagenrio de respeito, famlia tradicional, gente rica. Descendia de famlia abastada, um senhor de muitos escravos, cuja lembrana o tinha como manso e humilde de corao, pai dos pobres, era como lhe convi-nha nos comentrios dos amigos. Na linhagem comum gabava-se do av mdico, pai mdico, filho mdico e finalmente neto mdico, residente na Santa Casa. Quanto a si, durante a vida fora artista da relojoaria pelo que cultivara o exerccio da pontualidade at a morte inopinada na hora precisa em que Deus o chamou. Durante a vida no houve Patek Philippe ou Omega-Ferradura que o desalentasse. Apesar de bons relgios, Ivonaldo lhes superava na quali-dade das horas. Passados por suas mos, os engenhos assumiam tal rigor que no derrapavam um segundo sequer, nem para mais ou para menos, a hora H. Corria a lenda que ao menor desgoverno dos ponteiros celes-tiais um mensageiro recomendava limpeza e ajuste acurado na mquina das horas. Assim os dias pareciam mais ligeiros e as noites longas na proporo dos minutos e segundos.

    Numa tarde de calor intenso, antes que o anjo viesse recomendar novos encargos, Ivonaldo atendeu irrecusvel convocao para prestar-Lhe contas da vida. No houve meio de escapatria, e l se foi, sem que lhe tivesse sido concedido o benefcio da recusa. Solcito e sem alterna-tiva, acomodou-se definitivamente troca do endereo ou, como costu-mava dizer com saudvel ironia: desta para melhor. Morreu de sncope. Na bagagem da herana, alm dos amores jurados e prometidos inclua o afeto Dorotia, que o manteve o mesmo durante os longos anos de convivncia. Amante ciumenta de marido fiel, a viva assumiu, corajosa, a eco-nomia da casa. O cuidado com os filhos moos, todos bem arranjados, o que significava preocupao a menos. Na conta do zelo a ateno espe-cial ao neto j rapaz, que mostrava formosura ao vestir o jaleco branco de futuro mdico. Das moas juradas no amor do pai, Isaurinha era a caula. Guardava fiel o compromisso de casar-se com Manuel Espinho, filho de um fazen-deiro de tantas cabeas quantas fossem os bois a perder de vista na inver-

    A VIVAConto de

    Carlos Roberto Pellegrino

  • 27NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

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  • 28 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    nada. Glucia se mantinha na solteirice recatada, na diverso nica de ensinar msica no conservatrio, ao que dedicara toda a vida. Virgininha, a me do mdico residente, casara-se com um capito da Fora. J Dorotia mantinha-se incansvel na faina de me extre-mosa e viva piedosa. Na manh seguinte ao passamento, ajaezaram o finado com o melhor que havia; terno escuro folgado, gravata amarela de seda pura, e o depuseram sobre a mesa da sala ao lamento de rosrios e ladainhas. Decoraram a morte com um lenol de flores brancas e a tolha de renda da Madeira, lembrana amarelecida do casamento, conforme recomendao da viva desconsolada Tudo o mais houve para despertar a contrio dos amigos. As fitas bentas de amarrao foram dispostas em cada canto da sala e deveriam ser reverenciadas somente com a meno de beijo para mant-las limpas. Desfiaram-se jaculatrias e ladainhas chorosas, velas e louva-es ocasionais em torno do caixo. As beatas se engabelavam no gemido modorrento de um canto arrastado como portas rangedeiras. Ivonaldo merecia as homenagens do amigo dos amigos, pai exem-plar e marido fiel. O jornal noticiou o passamento do pai, marido, sogro e av, estando convidados os amigos para o seu sepultamento a realizar-se s quinze horas, saindo o fretro da rua das Accias nmero tal para a necrpole municipal. Antecipavam-se agradecimentos por quantas houvessem sido as manifestaes de pesar, carinho e soli-dariedade recebidas. Descansasse em paz. O pequeno anncio, com moldura de nojo, convinha ocasio, nada mais se comentou. Amparada pelas filhas, Dorotia encontrava foras para prantear o finado. Respirou coragem para entrar na sala pela porta da frente. Ao dar com o semblante do marido conteve o soluo na borda do lencinho de cambraia como recomendado por Isaurinha. A viva guardava as lgrimas em boa compostura. Tudo correu conveniente at o instante de fecharem o caixo. Dorotia ento buscou um soluo mais forte. Um adeus pungente. Sem dar tempo a mais sofrimento, logo aplicaram as tarraxas em cada extremo do caixo. Ivonaldo assumia solitrio o destino incer-to e no sabido, de onde jamais retornaria. No tom da toada houve o gemido de uma voz pequena que rever-berou entre os circunstantes. Para Dorotia foi mais um lamento pelo ao finado. Um amigo, quem sabe. O risco era de algum inde-sejvel, mesmo que privasse da intimidade do morto. Ou uma ami-ga. Uma amante! Passou-lhe pala cabea atordoada. Uma amante? a grita veio retumbante. Sim ou no, a questo estava lanada, conquanto. Ivonaldo sem-

    pre foi pessoa discreta, de hbitos morigerados. Estaria a salvo dos amores furtivos. Nas filhas, veio imaginao da mulher alta, vis-tosa, peitos grandes e pontudos, pernas torneadas e o que mais lhe sobressasse: a bunda. Rolia e insinuante mantinha-se reservada s investidas clandestinas, ainda que poucos ousassem. Rei morto rei posto, algum sentenciou. No haveria de ser assim to fcil beliscar a bunda da suposta amante de Ivonaldo. Antes era preciso desvend-la, nudificar, como props Adamastor, fiel escu-deiro e confidente do falecido. Mas, quem haveria de ser amante de Ivonaldo quela altura? Nos trs lances de escada da varanda que levavam sala onde haviam colocado os despojos do amantssimo, um grupo de senho-ras conversava. Nenhuma delas era amante, pelo menos nada que denunciasse qualquer delas. Respeitveis e assduas frequentadoras das rezas vespertinas. Definitivamente no tinham cara de amante. A garantia dessa afirmativa assim peremptria relanou a dvi-da: mas qual haveria de ser a cara de amante? Talvez um olho menor que o outro, orelha de abano, a verruga saliente numa das bochechas, lbios finos, sobrancelha circunflexa, e o que mais? Eram dvidas que no se ousava comentar, receosos da cumplicidade confessa. Segundo Adamastor, cioso das virtudes do amigo, era preciso pre-serv-la. Haveria de ser igual a todas, em qualquer lugar. Sim, mas como, e onde? Antes de tudo tinha de ser bonita, atraente, vistosa. Gostosa, arrematou um mais irreverente, que, de pronto, mereceu discreto olhar de apoiamento. Amante tem que gostar; gostar de qu? Daquilo. Daquilo o qu? Indagavam com nervosismo crescen-te. Do amante, ora, tratou de afastar a malcia. Amante amante e pronto, sentenciou o cunhado do morto com autoridade insuspeita de parente postio. Temia-se que o assunto descambasse para deta-lhes inconvenientes, sobretudo naquela circunstncia. Entre os conhecidos, o assunto deu panos pra mangas. No espi-chamento do debate, acrescentaram comentrios insolentes sobre o desempenho do Ivonaldo no reservado dos seus aposentos. Um atleta, exagerou o tipo que trazia um bigodinho recalcado a lpis. Coisas do arco-da-velha, meu amigo. Do velho, s ele mesmo, bra-dou o outro exigindo respeito ao amigo morto. Tudo dito e assim feito, Adamastor chamou ordem. A partir de ento, decidiu-se que o pranteado receberia os lauris dos amantes. Na sala respiravam incerteza entre os grupos. Fecha? No fecha? Fecha o que? O caixo, ora! boca pequena, expunha-se Ivonaldo execrao pblica. Dorotia ignorou a sentenas. Reforou as oraes com o voze-rio troante. Louvaram-se o quanto era santo. Atnitos, os amigos se

  • 29NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    entreolhavam, acusadores. Quando eu morrer, vou s, comen-tavam os mais mordazes. Olhos nos olhos, desconfiavam de todos. Entretidas, as senhoras beatas cofiavam as recomenda-es do catecismo com splicas por um lugar nos cus. No passo lento desfilaram pela ltima vez diante de Ivonaldo. Persignaram-se circunspetos, desenhando com a ponta dos dedos um sinal rpido e mal espalhado no peito, ao que todos resmungavam amm. Estava confirmada a presena. Rapidamente ganhou fama a verso de que certa senhora ali presente, ao acariciar respeitosamente o rosto do finado, depositara furtivamente um bilhete num dos bolsos do terno de encomendao. Foi o bastante para reaquecer o fogo das malda-des. O derradeiro recado, um adeus definitivo. A autenticidade do bilhete haveria de ser a chave que desvendaria a identidade da traidora. Dito e feito. Mas onde? Como? Quando? Era pre-ciso buscar a evidncia, e mais gritava a curiosidade alheia por conta da suposta ofensa ao marido. Afinal era a fama sobre a cabea. Na passagem da fila pelo morto fizeram questo de tocar-lhe o peito com a palma da mo, como prova de estreita amizade. Aproveitaram a oportunidade para enxerir nos bolsos do defunto buscando o bilhete. E tanto foi assim que muitos que j haviam passado, repassavam, agora com a curiosidade flor da pele. Agora no dava mais para esperar; fechariam o esquife. De pronto, alguns reagiram idia aos gritos de que ainda no era a hora. Deixa disso, erguiam os braos, contrariados e teme-rosos pela surpresa iminente. Na peleja a que se dispuseram, chegou Isaurinha e aos sete sis de espanto entregou me o recado que havia encontrado no sapato do pai ao apront-lo horas antes. Desabou um grande silncio na sala. No se ouviu nem mesmo o piar do coleirinha. Entreolharam-se mudos, as mulheres pela fama, os maridos na cumplicidade aturdida. Dorotia leu a mensagem e no se conteve. Escapou o grito lancinante contrariando as recomendaes da filha para que se contivesse. Suportou a me. Tinha razo. Espera um pouco, recomendou Dorotia. Ainda no. Vagarosamente tornou a dobrar o bilhete, beijou-o e o depo-sitou entre as mos de Ivonaldo. Vai, meu querido. Nada mais foi dito nem se soube do escrito e o seu nome.

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  • 30 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Inditos de Eberth Alvarenga

    REMENDO

    A cala rasgadano bolso traseiroia da pobreza seduo,no ritmo audaciosoda dvida provocada.

    Essa viagem,ida e volta,acompanhava o andar da bela,que se escondia para revelar,que se exibia,amocambada,num olho mgico.

    POR ACASO ELA ERA NuVEM

    O acaso e o ventoformatame dissipamas nuvens.

    O acasome soprasseo inesperado:uma surpresaem formasdefinitivasde mulher.

    HORA DOS GATOS

    Um gato persaentra em minhas rbitaspra encontrar a manh que vem. O corpo encolhido,arco eriado,vaza olhos, desenha plpebras e sobrancelhasna curva dos gestos,que tambm me pertencem.

    Enrosca-se de clios,ronrona por toda a tardeo fastio de tapetes dominadose a docilidade aparente.Noite grande, reativo,deixa o campo visual,se empardece, todo, arranha paredes,galga telhadosde vidas longas...

    ESPREITA

    Demolio, rosto que se move em direo ao escuro.

    A maquiagemmuda essa face,disfarceque no se convm.

    D-lhe o formatode quem pede para ficar,para ficar, trs dum espelho,

    cuidando,morosamente,

    para o tempo no envelhecer.

    EBERtH ALVAREnGA Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro agrnomo e autor de Desafins (Scriptum, 2002). Reside em Lavras, Minas.

  • 31NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    P rimeiro foi o pssaro, no o da janela, o que apa-receu na manh daquele dia embaado, mas o da memria, como num retrato em spia, resto de dias perdidos, cpia inexata, em spia tambm. Uma lembrana j metfora, pois foi num dia to antigo que o vermelho do pssaro lhe incutiu o desejo claro de escrever. E passaram-se muitos anos em que a figura do pssaro, desde sempre vir-tual, j que no havia pssaro nenhum, volteava como figu-ra viva. Uma lembrana do que no existia como histria. Anos mais tarde, uma frase passou-lhe nos olhos, pou-sou-lhe na tecla como msica. Coisa assim: escrever o pssaro, tir-lo do espao, com pena. To impulsiva a fra-se como se tivesse vontade prpria. E outras frases vieram como se fossem ditadas e o pssaro se imps como uma sntese, como um senhor em suas pginas.

    O pssaro e a flor Conto de Ruth Silviano Brando

  • 32 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

  • 33NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    Os livros-poemas se multiplicaram com vida prpria, mas era segre-do que no revelava o fato de que as palavras vinham de outro espao, impositivas, em horas imprevistas, como um comando. Sofria por ele, o pssaro, em algum lugar, estar preso numa gaiola estpida que balanava com o vento da sala que no havia. Se havia, no lhe dizia respeito, eram lugares-comuns os pssaros e as gaiolas. Depois vieram outros animais para atorment-la com sua priso e soube que o amor podia ser cruel. Talvez a pior coisa do mundo, j que impunha uma ordem louca que era a covardia do amado em relao amante. Sabia que as fbulas nem sempre eram verossmeis, imaginou que era possvel o cordeiro ser feliz. E o lobo inocente. E os animais felizes por obterem comida ao preo pequeno de lamberem as mos do dono. Odiou os cachorrinhos por sua fragilidade, como odiou a maldade das crianas que pintavam de amarelo os pintinhos que acabavam morrendo. O que era uma impresso, uma janela para ver o mundo, tornou-se um sentimento mais forte e mais incmodo com o qual no sabia o que fazer, j que estava tomando dimenses desproporcionais em sua vida. Queria amar como as mulheres amam e conhecem o fascnio e todas as delcias da espera, o gozo de um corpo amado, os sustos da perda, a

    dor do cime e viu que era assim. E quis tambm amar, o que no demo-rou muito e aconteceu na figura do homem que a fez conhecer o amor e deliciou-se com tudo. Amou o amor, perdeu o rumo de suas idias to bem cimentadas. Prendeu todos os pssaros nas gaiolas da memria, criou um viveiro com pssaros azuis, vermelhos de todos os tons. Chamou o viveiro de creatrio e cuidou dos pssaros como de filhos que iria ter e teve. E fez com eles a mesma coisa e amou-os com amor total, tirnico como o das criancinhas por seus pintinhos amarelos e o das meninas que cuidavam de passarinhos na gaiola, dando-lhes alpiste, gua e um mnimo espao de onde podiam ver a imensido do cu azul. O homem que a fez conhecer o amor era tambm um poeta sem o saber e, um dia, lhe contou, que tinha ficado, enquanto regava suas plan-tas, sua grama, suas rvores, suas flores, diante de um pssaro, um beija-flor que beijava uma flor que no existia mais. A flor fora podada, a flor j no existia, era inexistente. E o pssaro insistia em seu vo trmulo diante do que no havia mais. O homem no se espantou, pois j tinha ficado, um dia, transido de dor, diante de uma flor que j no existia. Mas a dor persistia. A dor no tinha cado do cho de sua alma.

    RUTh SILVIANO BRANDO mineira de Belo Horizonte, professora de Literatura, escritora e tradutora. Autora de diversas obras literrias e ensasticas, lanou, em 2010, o livro Minha fico daria uma vida, pela Editora Com-Arte.

  • 34 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    LOUCO COMO UM SILOGISMO

    E m um conto publicado dcada e meia depois de O Alienista, o leitor reencontrar os olhos de Simo Bacamarte pregados face do capitalista Fortunato. O jovem mdi-co Garcia, dotado de pendores psiquitricos, intriga-se com aquelas duas chapas de estanho, duras e frias, no incio de A Causa Secreta. Em O Alienista, o olhar da personagem principal tem uma importncia que chega ao excesso de dramaticidade e por isso acaba funcio-nando como ironia; as diferentes maneiras de Bacamarte fixar um objeto ou exprimir o que vai na prpria alma pontuam a evoluo de seu quadro manaco; do captulo III ltima pgina do relato, as principais aparies do mdico exteriorizam percepo do leitor a transformao interior da personagem. O recurso usado para isso a freqente meno a seus olhos, que compe o eixo em torno do qual se movimenta o enredo, numa espcie de contracanto para as tambm numerosas aparies do padre Lopes, vigrio de Itagua. explicitao da loucura pelo olhar de Bacamarte correspondem um desenvolvimento para-lelo da capacidade do alienista de dissimular as prprias intenes e um enrijecimento de seu discurso. No captulo III, o metal dos olhos do protagonista no sofre qualquer alterao diante da queixa de sua mulher, a qual se considerava to viva como dantes, j que o marido dedi-cava todo o tempo aos estudos. Os olhos metlicos entremostram o raciocnio lgico inflexvel do mdico adivinhando nas queixas da mulher uma oportunidade para, fazendo-a viajar ao Rio de Janeiro, ver-se inteiramente disponvel para o trabalho no hospcio, j ento povoado pelas torrentes de loucos cujo estudo andava levando Simo Bacamarte, no captulo anterior, a comer e dormir pouco. ainda no captulo III que aquele olhar inquieto e policial do marido, indife-rente s lgrimas de Evarista na hora da partida, procura na multido algum luntico que possa estar indevidamente misturado com a gente de juzo. Esse olhar j anuncia a cogitao da nova teoria que, no captulo IV, o mdico explicar compridamente ao farmacutico Crispim Soares e depois ao padre Lopes, teoria segundo a qual a loucura era muito mais comum do que at ento se pensara e abrangeria tudo o que no chegasse ao perfeito equilbrio de todas as faculdades.

    Ritmo narrativo de O Alienista marcado pelas menes ao olhar do protagonista, que explicitam a evoluo de seu quadro clnico

    Elosio Paulo

  • 35NovembroDezembro/2010Suplemento Literrio de Minas Gerais

    LOUCO COMO UM SILOGISMO

    O que acontecera desde a partida da mulher? Pode-se ima-ginar o alienista completamente imerso no autismo da espe-culao psiquitrica. Se no incio do relato Itagua era seu mundo, agora o universo se reduz a sua mente. Antes de revelar ao padre e ao farmacutico a experi-ncia destinada a mudar a face da terra, Bacamarte sa-ra pela vila cata de novos loucos, vasculhando todos os cantos e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais hericos. Est explicitada a insanidade do alie-nista, e so seus olhos que, insistentemente mencionados pelo narrador, trazem-na luz. A recluso do Costa, perso-nagem que parece conter em germe o Rubio de Quincas Borba, marca o incio do terror em Itagua, configurado pela coleta desenfreada de loucos. Ao conversar com a prima do incorrigvel prdigo, o alienista espeta nela um par de olhos agudos como punhais, que significam a deci-so de intern-la tambm, porque sua excessiva credulidade considerada pelo mdico um sintoma de loucura. Ainda no mesmo captulo, uma volpia cientfica alumiou os olhos de Bacamarte ao saber da mania de ostentao que lhe transformava o albardeiro Mateus em mais um paciente. No captulo VI, quando a revolta dos Canjicas chega s portas de sua casa, apavorando Evarista e a criadagem, Simo Bacamarte demora a dar-se conta do que ocorre, pois seus olhos esto empanados pela cogitao e cegos para

    a realidade exterior, videntes apenas para os profundos tra-balhos mentais. Mostram que o alienista cada vez mais se isola em seu mundo de pensamentos dirigidos a um s obje-to: a loucura e as maneiras de reconhec-la e encerr-la na Casa Verde. Instalado o absurdo, os olhos de Bacamarte no preci-sam dizer mais nada ao leitor. Apenas no desfecho do relato, acesos de convico cientfica eles mostram o alienista numa espcie de transe mstico ao descobrir a ltima verda-de: sua prpria perfeio, ou seja, a perfeita loucura.

    A psiquiatria brasileira no sculo XIX

    Que o olhar de Bacamarte traduza o que lhe vai na alma, chega a ser um clich, e clich romntico. Mas exatamente por isso que se deve considerar mais atentamente a questo. Uma vez que o ficcionista nada entrega facilmente ao leitor, sensato desconfiar de que essa evidncia exterior simpli-fica algo muito mais complexo e interior, a saber, a evolu-o do caso clnico do alienista. possvel que Machado viesse estudando seriamente a cincia personificada em Bacamarte. Leme Lopes opinou que, a despeito de no se ter notcia de livros de psiquiatria na biblioteca do autor, o conhecimento da etiologia e sintomatologia das doenas

  • 36 Edio 1.333Suplemento Literrio de Minas Gerais

    mentais demonstrado por este ao caracterizar personagens no poderia resultar meramente da intuio. O interesse de Machado pelo assunto atestado, por exemplo, pelo emprego da palavra monomania com certa propriedade; o termo de Esquirol, a segunda maior influncia da psiquiatria brasileira depois de Auguste Morel na poca em que foi escrito O Alienista. Magali Engel, em sua tese A loucura nas ruas do Rio de Janeiro 1830-1930 (IFCH/UNICAMP, 1995), lembra que diversas teses sobre o conceito de doena mental foram produzidas nas faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia desde 1830. Mais importante, porm, o emprego da expresso Bastilha da razo humana por uma personagem para referir-se Casa Verde: as comparaes do hospcio com aquela priso francesa eram correntes na literatura psiquitrica escrita na Inglaterra, como documenta Roy Porter em Histria social da loucura: na meno s cartas em que o poeta ingls John Clare comentava sua estada no hospcio, o historiador lembra que a instituio era comparada a um inferno, uma Bastilha, uma Sodoma. Nada impede que Machado tenha tomado conhecimento dessas cartas, j que lia muito em ingls. E a comparao do hospcio com a Bastilha era de tal modo corrente na Inglaterra que em 1883 Louisa Lowe publicaria um protesto contra o confinamento psiquitrico, inti-tulado The Bastilles of England, incluindo-se na j longa tradi-o, iniciada no sculo XV, de relatos autobiogrficos escritos em ingls por indivduos considerados loucos. A vizinhana da narrativa com o contexto social patente j a partir do ttulo: por que O Alienista? Simplesmente porque, na poca de Machado, a designao alienado era preferida, entre os mdicos, de louco. No escapou ao ficcionista o intenso deba-te que se travava na comunidade mdica a propsito do conceito de doena mental, do qual resultou a criao, em 1879 (dois anos antes de sair O Alienista), da primeira ctedra de clnica psiqui-trica numa faculdade brasileira. Certamente havia reflexos desse debate na imprensa fluminense, e alm disso a teoria da degene-rescncia, formulada por Morel e naquele momento no auge do seu prestgio, dizia respeito diretamente condio do escritor: mulato, gago e epilptico triplamente suspeito de taras que Morel enfeixava como definidoras da periculosidade social. Desde 1830, os mdicos brasileiros empreendiam uma campa-nha para apropriar-se da doena mental, seguindo de perto a ten-dncia europia. Essa campanha, que teve como primeira vitria a criao do Hospcio de Pedro II, progrediu exatamente no sentido da primeira teoria bacamartiana: ampliar os limites da loucura. Daquela loucura clssica, expressa nas palavras, nos gestos e na aparncia fsica dos loucos, os mdicos esforaram-se continua-mente para estender seu poder a manifestaes bem menos vis-

    veis da insanidade. Da a substituio do conceito de loucura ou vesnia, por demais evidente a qualquer leigo, pelos de aliena-o mental e molstia mental, cuja sintomtica muitas vezes sutil s poderia ser determinada pelos especialistas, cada vez mais numerosos. Os tratados sobre o assunto coincidiam sempre a res-peito da incompetncia dos leigos para reconhecer a doena, como fica claro nesta reivindicao de um alienista citado por Magali Engel:

    Debelada pela lgica da verdade e vencida pelo rigor dos fatos baqueia a teoria paradoxal que pretende que o simples bom senso basta para o reconhecimento das afeces mentais. Semelhantes pesquisas so da com-petncia exclusiva do mdico, portanto este o nico que rene as condies necessrias para pronunciar-se acerca da presena, ausncia, ou simulao da loucura.

    Em sua narrativa, Machado captou a essncia do problema da lo