B.Häring, Vocações Ministeriais, prognósticos para o futuro

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CADERNOS FUNDAMENTOS | 1 Bernhard Häring Vocações Ministeriais: prognósticos para o futuro A diferença entre aqueles que convicta e conscientemente vivem o exemplo do baptismo de Jesus no Jordão no espírito e no sangue e, por outro lado, aqueles “católicos de berço” que são mais ou menos seguidores passivos é muito mais relevante do que a diferença entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio universal Livraria Fundamentos | Braga, Setembro 2012
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CADERNOS FUNDAMENTOS | 1

Bernhard Hring

Vocaes Ministeriais: prognsticos para o futuro

A diferena entre aqueles que convicta e conscientemente vivem o exemplo do baptismo de Jesus no Jordo no esprito e no sangue e, por outro lado, aqueles catlicos de bero que so mais ou menos seguidores passivos muito mais relevante do que a diferena entre o sacerdcio ministerial e o sacerdcio universal

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Bernhard Hring (1912-1998): missionrio redentorista alemo. J como padre, participou na 2 Guerra Mundial no corpo mdico alemo na frente russa. Destacou-se pelo seu trabalho de renovao da teologia moral catlica, na passagem de um modelo casusta (uma moral segundo casos e regras), para um modelo personalista, no qual se conjugam as exigncias crists do seguimento de Jesus com uma compreenso do ser humano segundo os contributos da psicologia e das cincias sociais, na melhor herana paulina: A lei do Esprito da vida em Cristo (Rom 8,1) Teve um papel importante durante o Conclio Vaticano II, nomeadamente como secretrio da redaco da constituio Gaudium et Spes. Durante as dcadas seguintes continuou a sua misso como evangelizador e telogo moral na Europa e EUA, tendo sofrido tambm um processo desgastante pela Congregao para a Doutrina da F. Em Portugal foram publicadas numerosas obras: actualmente destacam-se ltima Palavra de Profeta: Igreja, Estmulos e Esperanas, Vida em Cristo Plenificada: as Virtudes do Cristo Adulto, e A Igreja que eu Amo (esgotado).

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Traduzido do original: Priesthood Imperiled: a critical examination of ministry in the Catholic Church. Ed. Triumph Books, Liguori Missouri 1996 ISBN: 0892439203 A traduo corresponde ao captulo IX da obra, com o ttulo Prognosis for the future of Priestly Vocations, pginas 121-137 e 165-166 (A Closing Prayer) da edio original Os nossos agradecimentos Liguori Publications pela gentil cedncia dos direitos de traduo das pginas assinaladas.

Traduo: Gustavo Cabral e Rui Vasconcelos

Livraria Fundamentos Av. Gen. Norton de Matos 78 4700-387 Braga Tel: 253272208 [email protected] www.fundamentos.pt

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Prognsticos para o futuro das vocaes presbiteraisA questo sobre o futuro das vocaes presbiterais pode ser extremamente dolorosa se a discusso se centrar apenas na escassez de padres, sem prestar a ateno essencial aos sinais dos tempos e vocao fundamental de todos os cristos. Tal perspectiva muito estreita, at prejudicial misso da Igreja. Deste modo, insisto que devemos dirigir um novo olhar vocao fundamental de todos os cristos, de modo particular luz do baptismo de Jesus por Joo, no Jordo. A vocao de Cristo qual somos chamados , acima de tudo, a vocao do Servo no-violento de Yahweh para a salvao e paz no mundo. O anncio da feliz boa-nova da paixo, morte e Ressurreio durante a vida a pblica de Jesus depende da sua relao e do seu chamamento pelo Pai. Tu s o meu filho muito amado (Mc 1,11). Jesus chamado e consagrado para carregar os jugos da Humanidade numa solidariedade salvfica, de modo a libertar a Humanidade das lgicas destrutivas do pecado. Ele o profeta que vai nossa frente, guiando-nos no caminho da paz, da no-violncia e da fora do amor que procura transformar os inimigos em amigos. Imediatamente depois do acontecimento do Baptismo, o Evangelho de Mateus oferece-nos uma das chaves essenciais para compreender o drama da Salvao. F-lo desmascarando as maiores tentaes satnicas, iluminando as falsas expectativas de um violento e poderoso Messias, e expondo os abusos da religio para obter lucro, poder e exaltao. Apesar de as tentaes rodearem a Jesus de todos os lados, elas no tm absolutamente nenhum poder sobre ele. Foi em nosso benefcio que Jesus desmascarou de uma vez por todas essas tentaes atravs da sua absoluta fidelidade sua vocao como Servo-Filho de Deus, sofredor e no-violento.

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Compreend-lo sobretudo um modo de aprofundar a nossa vocao crist luz da vocao de Jesus. Assim, torna-se evidente que o futuro de todas as vocaes crists depende da nossa inteira fidelidade aos passos do Servo de Yahweh neste novo contexto. Isto implica que o futuro da Igreja ser marcado no apenas por vocaes particulares, mas sobretudo por aqueles que conscientemente tomam uma opo pessoal por seguir a Cristo, o Servo noviolento de Deus. A diferena entre aqueles que convicta e conscientemente vivem o exemplo do baptismo de Jesus no Jordo no esprito e no sangue e, por outro lado, aqueles catlicos de bero que so mais ou menos seguidores passivos muito mais relevante do que a diferena entre o sacerdcio ministerial e o sacerdcio universal. O que realmente caracteriza os cristos a profundidade da sua compreenso do que Desde a era significa ser chamado em e por Cristo para Constantiniana at servir a causa do Reino do Servo de Yahweh, e a praticamente sua firmeza em abraar esta vocao que a todos presente era, a maioria abrange. das pessoas era crist Esta perspectiva o fundamento bsico de por nascimento. Agora todas as vocaes crists, incluindo a vida o novo paradigma presbiteral num sentido estrito. Esta no uma urge-nos mais ideia completamente nova. Os meus pais, que claramente para eram cristos por nascimento, tornaram-se, ao sermos e tornarmo-nos longo das suas vidas, cada vez mais cristos por cristos por escolha, opo, e enquanto o viveram de modo especial por vocao. na sua vocao como esposos e pais, viveram-no tambm como comprometidos criativamente na vida da Igreja. Foram agricultores segundo o sinal do Criador, amigos dos pobres, e em igual medida, enfrentaram enormes perigos na sua firme e corajosa resistncia ao regime de Hitler. Robert Schuman, que com Alcide de Gaspari e Konrad Adenauer foi um dos principais construtores da reconciliao na Europa Central, a certa altura hesitou entre a vocao presbiteral e a poltica profissional. O presbtero que lhe disse que poderia viver mais plenamente a sua vocao crist na poltica do que no ministrio presbiteral prestou um grande servio Igreja e ao Mundo. Como jovem professor, eu tive a sorte de conhecer de Gaspari e a sua famlia. Com uma simplicidade impressionante, em diversas ocasies eleCadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 5

serviu em celebraes da Eucaristia a que presidi. Foram homens assombrosos que viveram a sua vocao crist mantendo o testemunho do Servo noviolento de Yahweh. De modo nenhum pretendo menosprezar a vocao presbiteral, tendo eu tantas razes de a agradecer; mas atrevo-me a dizer que o futuro da Igreja e das vocaes ministeriais depende de uma mudana radical do paradigma constantiniano para o da vocao crist livremente assumida evitando, a todo o custo, qualquer pensamento de superioridade. Tal mudana significar, necessariamente, uma nova abordagem vocao do sacerdcio ministerial. Haver um nmero suficiente de vocaes presbiterais se a abordagem se fizer num sentido ao mesmo tempo mais amplo e mais especificamente cristo da vocao, e sempre em vista da salvao do mundo. Que bno encontrar mdicos e todo o tipo de terapeutas que, de um modo convicto, abraam a vocao crist como curadores e, ao mesmo tempo, do testemunho de Cristo-curador! Do mesmo modo, no podemos tambm referir os advogados que sabiamente trabalham no sentido de criar leis mais humanas e de melhor as aplicar, apontando, atravs da sua profisso, para Cristo que no veio para julgar mas para salvar? Penso aqui num dos meus antigos estudantes que entusiasticamente estudou teologia mas que no se sentiu chamado ao celibato. Como juiz num tribunal de menores, desenvolveu uma magnfica e criativa capacidade libertadora. Em vez de enviar jovens problemticos para a priso, ofereceulhes oportunidades teraputicas para mudar as suas vidas para melhor servindo a comunidade. Por exemplo, os jovens foram encarregados de visitar os doentes e idosos, por vezes levando-lhes flores e perguntando-lhes em que poderiam ser-lhes teis. Os jovens foram proibidos de dizer s pessoas a quem visitavam que o faziam como cumprimento de uma pena pelo seu mau comportamento, especialmente porque o juiz no decretou essas penas com o objectivo de punir. Um livro poderia ser escrito sobre a variedade de vocaes e de caminhos pelos quais podemos viver a nossa vocao crist para a salvao do mundo, de modo a que o novo paradigma de cristos por vocao adquira carne e sangue. No temo que tal viso possa ser em detrimento da especfica vocao ministerial. Pelo contrrio, acredito que pode acentuar significativamente a sua autenticidade.Cadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 6

Deve a Igreja reconhecer a sacramentalidade das diversas vocaes ministeriais?Ao renovar a doutrina do sacerdcio ministerial dos fiis, e ao confiar explicitamente uma diversidade de actividades apostlicas e eclesiais a leigas e leigos, o Conclio Vaticano II deu um contributo oportuno e significativo para a questo das vocaes. Por todo o globo, ainda que em diferentes graus e diversas modalidades, um clero no-clerical emergiu. Com grande alegria e confiana no futuro da Igreja, pude observar este desenvolvimento sobretudo em frica. Milhares de catequistas bem preparados, juntamente com as suas generosas esposas, fazem praticamente todo o trabalho paroquial, o que inclui a catequese, a formao de adultos, mediao de paz, edifcios comunitrios, cuidado com os pobres e doentes, solenes e festivas celebraes do baptismo e, em cada domingo, celebram a liturgia da Palavra e presidem ao servio da comunho, apenas para referir algumas actividades. luz destes contributos excepcionais, a minha questo : devem estas pessoas ser obrigadas a percorrer longas distncias a p ou de bicicleta para receber o po previamente consagrado? De um ponto de vista legal, considerado tudo o que fizeram, eles ainda no participam de um sacerdcio sacramentalmente constitudo. A maioria destes homens no pretende ser ordenados de diconos, porque isso significaria abraar o celibato aquando da morte das suas esposas. Alm disso, como pode o celibato actualmente ser concebido na cultura africana? Eles no podem celebrar o sacramento do crisma que, na cultura africana, tem um profundo significado. Pessoalmente, eu no vejo nenhum obstculo dogmtico mudana desta situao. No dizem, por sinal, a inteira vida de Jesus e a misso do Esprito sejam criativos! Igreja? Nunca na histria da Igreja houve um to grande nmero de homens e mulheres preparados e qualificados ao nvel teolgico. No tempo presente, a Igreja tem mais pessoas preparadas do que teve nos dezoito sculos anteriores juntos. Porque devemos ento queixar-nos da falta de vocaes crists na Igreja?

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Juntamente com o Papa Joo Paulo II, durante muito tempo rezamos fervorosamente pelas vocaes presbiterais e celibatrias. Muitos desistiram desta busca devido ausncia de respostas a alguns pensamentos e questes perfeitamente razoveis: porque dizemos ao Esprito Santo que os presbteros devem ser-nos dados apenas atravs da porta do celibato? Achamos que o Esprito Santo est encantado pelo facto de ns, clrigos, determinarmos o tamanho do buraco da agulha pelo qual o Esprito nos deve fazer passar as to necessrias e desejadas vocaes? Haver algo mais idoltrico do que impor ao Esprito a vontade humana ou encaixar o Esprito nas nossas estreitas categorias de pensamento? Tivessem os apstolos e os seus primeiros sucessores actuado deste modo, impondo este tipo de prescries ao Esprito Santo, e eles teriam de Nunca na histria da deixar as suas esposas e, o que ainda mais Igreja houve um to importante, teriam de deixar praticamente grande nmero de todas as jovens comunidades crists sem Eucaristia. homens e mulheres Repito: o celibato, como um carisma preparados e qualificados livremente suscitado pelo Esprito, um ao nvel teolgico. No nobre e gracioso dom, mas as autoridades tempo presente, a Igreja eclesiais devem fazer uma escolha consciente tem mais pessoas e bem ponderada entre a absoluta fidelidade preparadas do que teve ao testamento e mandato de Jesus Tomai e nos dezoito sculos comei, tomai e bebei, todos vs e as meras anteriores juntos. Porque tradies humanas. Devemos recordar que devemos ento queixarns clrigos podemos ser presas, no apenas nos da falta de vocaes dos perigos das heresias verbais, mas tambm crists na Igreja? dos perigos da heteropraxis. Durante o perodo da Inquisio, a Igreja envolveu-se em prticas horrveis de tortura e morte pelo fogo de mulheres inocentes suspeitas de bruxaria. Denunciar estas prticas sombrias sem estar atento ao presente pode ser uma forma subtil de encobrimento. O celibato, como um carisma precioso de testemunho do Reino de Deus, no retira o seu valor dos nmeros mas da autenticidade com que vivido. Nem o celibato deve ser entendido segundo a perspectiva da lei. Pelo

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contrrio, mais do que qualquer outra coisa, o celibato proclama as palavras de Paulo: Vs j no estais sob a lei, mas sob a Graa (Rm 6,14).

A vocao crist fundamental: o testemunho da no-violnciaEstes pensamentos so escritos no dia a seguir ao meu encontro com uma corajosa mulher, numa grande assembleia de membros da Pax Christi. Falamos acerca da nobre vocao daqueles que, na sua f em Jesus como o Servo de Yahweh, testemunham a no-violncia. A sua histria pessoal de angstia marcou-me fortemente, uma histria a que j referi anteriormente mas que merece ser de novo contada. Quando o seu marido, um jovem sacristo, decidiu que seria melhor para ele morrer s mos do regime de Hitler do que participar na morte de outros atravs de uma guerra claramente injusta, o seu pastor e o seu bispo no o apoiaram. Pelo contrrio, tentaram dissuadi-lo com o argumento de que, na obedincia lei, deveria estar preparado para aceitar o servio militar. A sua esposa, contudo, apoiou-o totalmente com o co-testemunho. As cartas que ele lhe escreveu durante os ltimos dias da sua vida so um impressionante desafio para todos os que professamos testemunhar o amor no-violento do Servo sofredor de Deus. Numa das cartas ele diz: Querida esposa, de modo nenhum pude poupar-te pelo sofrimento da minha ausncia. Como deve o nosso querido Redentor sentido a dor da sua me diante da sua paixo! Jesus e Maria sofreram pelo nosso amor. Agradeo ao nosso Salvador por me permitir sofrer e morrer pelo seu amor. Mahatma Gandhi, que viveu o esprito da no-violncia, criou ashrams (eremitrios hindus), casas para a aprendizagem da no-violncia, especialmente no esprito das Bem-Aventuranas. No seria ento expectvel que homens como Gandhi e Martin Luther King jr. enfrentassem a morte como um selo pela sua misso e vocao? Pela primeira vez na histria temos a capacidade de exterminar o nosso planeta, seja rapidamente pela guerra nuclear ou gradualmente pela eroso de todas as formas de vida atravs dos nossos pecados pessoais e corporativos deCadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 9

irresponsabilidade ecolgica. O mundo precisa urgentemente de pessoas como o sacristo e a sua esposa, Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Dorothy Day todos eles viveram a sua vocao de um modo muito exigente. Se das nossas celebraes eucarsticas no brota uma fora e uma determinao a viver o testemunho radical da justia, da paz e da no-violncia, ento deveremos tristemente concluir que demasiadas vocaes crists, ministeriais e laicais, no so suficientemente autnticas. Para mim, esta uma preocupao infinitamente maior do que o nmero de padres celibatrios. Quanto mais as nossas preocupaes se tornarem estreitas e paroquiais, mais dificilmente nos preocuparemos nas questes mais essenciais e abrangentes.

O que dizer das mulheres em relao ao sacerdcio?Processos e acontecimentos histricos de rpida mudana so particularmente evidentes na recente evoluo da identidade e do papel social da mulher. Ser que a Igreja deve adaptar-se a estas mudanas ou ficar para trs? Nesta era, a emancipao das mulheres representa um teste oportuno e decisivo para a Igreja, no seu desejo de ser sal da terra na histria humana e numa dimenso importante do seu ministrio. Uma viso patriarcal e artificial da Igreja criou problemas muito srios. H poucos sculos atrs, parecia algo miraculoso que So Vicente de Paulo obtivesse permisso para as mulheres religiosas sarem da clausura, de forma a servirem os doentes e os pobres sem interferncia e superviso incessante dos clrigos. Qual o estatuto da mulher na Igreja no fim do segundo milnio? A experincia feminina est muito frente da actual perspectiva institucional da Igreja. J existem centenas seno milhares de mulheres telogas talentosas e criativas, mais do que em todos os sculos anteriores reunidos. Porm, o Vaticano continua a dificultar s mulheres o acesso s posies de ctedra nas suas Universidades Catlicas, sobretudo se esto comprometidas numa crtica e reconstruo de assuntos e questes teolgicas, j sem falar das doutrinas da Igreja. Apesar disso, as mulheres j exercem uma influncia significativa nas Universidades no controladas por Roma, e mais ainda, nas Faculdades teolgicas ecumnicas.Cadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 10

Em diversas regies do mundo confiado s mulheres uma variedade de papis pastorais de grande importncia e, na prtica, at j partilham alguns papis eclesiais. Muitas j pregam retiros e dirigem workshops, com o reconhecimento e elevada estima de padres pela sua especialidade. Ao nvel paroquial, muitas delas so agentes pastorais, alm de acumularem outras responsabilidades consolando e levando a comunho aos doentes. Mais ainda, elas do relevncia ao laicado na medida em que formam e treinam equipas de cuidado pastoral aos doentes, um ministrio que vai muito alm de simples visitas iniciais a hospitais. Elas organizam e educam para a formao de equipas de justia social laical, focadas no despertar duma conscincia e envolvimento mais activo em questes sociais que afectam de um modo particular os pobres e oprimidos. As mulheres apoiam e desenvolvem grupos de estudo bblico nas parquias e em casas particulares para aprofundarem um melhor entendimento das Escrituras por parte dos leigos, especialmente como fonte de crescimento espiritual, e para ajud-los a responderem ao seu chamamento como Cristos. Todas estas coisas esto a ser realizadas nas parquias onde uma liderana pastoral colaborativa a norma; isto , onde os pastores, que tm a necessidade de pouco protagonismo, resistem tentao de controlo recusando exercer poder sobre outros. Pelo contrrio, o pastor colaborativo partilha o poder do Esprito Santo com outros na tarefa de reconhecer, encorajar, e usar a riqueza de talentos e dons de fiis bem formados hoje. Podem as mulheres celebrar o sacramento da reconciliao? Muitas servem, nas suas vidas e ministrios, como sinais sacramentais de paz e reconciliao. As mulheres so dotadas de um especial carisma para o perdo generoso, e com uma habilidade tremenda para relacionarem-se com os doentes, idosos e moribundos de uma forma sadia e prestvel. Na verdade, as mulheres so uma inspirao para os outros em mais formas das que foram apresentadas aqui. Eu pessoalmente conheo um nmero de mulheres verdadeiramente carismticas cujos bispos nomearam para a capelania hospitalar. Claro que, ainda no vimos nenhuma mulher sentada no confessionrio atendendo penitentes. Contudo, pessoas doentes e saudveis na sua necessidade e desejo de arrependimento e reconciliao continuaram a confiar e a abrir as suas conscincias a mulheres atenciosas.

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A este respeito, mencionarei dois exemplos significativos a partir da minha experincia. Aps a segunda guerra mundial, foi construdo em Gars onde vivo actualmente um hospital de soldados nazis que eram prisioneiros de guerra dos americanos. Alguns destes homens endurecidos sentiram a necessidade de confessar os seus pecados, e at os crimes que cometeram durante a guerra, a uma irm [freira] que cuidava deles. Orando com eles, ensinou-lhes a apresentar diante de Deus o seu sofrimento e tristeza com uma prece humilde e confiante. No consigo deixar de pensar que o que aconteceu ali foi de facto um momento sacramental muito mais profundo que aquelas confisses escutadas por padres austeros e ritualistas. Outro exemplo diz respeito a uma irm mais velha que, nomeada como capel hospitalar, considerada como fidedigna. Muitos pacientes abriram-se espontaneamente a ela, e confessavam o que consideravam como pecados graves. Infelizmente, aqui h um problema. Os pacientes falavam de um padre local que vinha ao hospital semanalmente ou de dois em dois meses, ciosamente inquirindo acerca do nmero e espcie dos seus pecados. Agora, se a irm capel tivesse dito aos seus pacientes que deveriam confessar-se a um padre um pedido que, em muitos casos, teria significado uma confisso a este mal-amado padre uma m reaco teria sido expectvel. Os pacientes, ou ficariam zangados, recusando a confisso, ou pior, ficariam ainda mais fechados possibilidade de tentarem-se confessar a ele. A questo no : pode uma mulher celebrar o rito da reconciliao?. Na nossa actual circunstncia, ela no se oferece a esse rito. Eu sei apenas o que as mulheres fazem nessas situaes. Elas escutam os pacientes, rezam com eles, e louvam a Deus pelo seu perdo generoso, esperando e rogando por um sinal de gratido nos seus coraes, e que os conduzir, de futuro, a serem misericordiosos para com aqueles que os ofenderam. Podero as mulheres celebrar o sacramento da uno dos doentes? Enquanto no o podem fazer presentemente, as autoridades da Igreja poderiam certamente confiar-lhes essa misso. Eu conheo uma irm muito graciosa e amvel que, com leo da santa uno, unge os doentes quando lhe pedido, e at reza por eles. Contudo, ela no usa as frmulas litrgicas prescritas. Ser que ela administra o sacramento? Formalmente falando, no; mas a sua presena radiante e a sua uno inspiradora podem muito bem ser mais cheias

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de graa do que no caso do padre que apressa-se a entrar na sala, unge sacramentalmente o paciente, e depois apressa-se a sair. De acordo com a definitiva doutrina do Papa Joo Paulo II, as mulheres nunca podem celebrar como presbteras na Eucaristia, ou, mais tecnicamente, jamais podem consagrar. Contudo, o sucessor de Joo Paulo II pode muito bem sentir que no est vinculado por tal declarao, caso escute mais pacientemente, no s os telogos mais qualificados e confiveis, mas tambm o bom senso dos fiis que, na discusso destas questes, do provas do seu processo de maturidade e discernimento. Por vezes ouo esta pergunta: como que ento explica que os padres em estado de pecado mortal podem validamente consagrar, enquanto mulheres santas no o podem fazer? Eu respondo Antes de ser com uma pergunta chave: o que significa definitivamente decidido consagrar? No que ns padres quais os ministrios a consagremos de tal modo que o po se serem abertos a mulheres, torna na presena de Cristo. O mistrio deveria ter-se o cuidado de acontece no momento da epiclese, pelo convidar mulheres, uma poder do Esprito Santo. No poderia a grande parte criativa da evocao solene do Esprito Santo igreja, a participarem Santificai estes dons, derramando sobre substancialmente nos eles o Vosso Esprito, ser proferida por processos envolvidos em uma santa mulher, quando, de facto, todas as grandes decises homens no to santos o fazem? A meu colegiais ver, o maior pecado no torna um padre ordenado incapaz de consagrar da mesma maneira que uma mulher santa ficasse automaticamente e necessariamente excluda de o fazer. Noutras palavras, o simples facto de ser mulher constitui um obstculo imensurvel validade, enquanto o estado de pecado grave de um homem no? Estas so coisas que no podemos compaginar satisfatoriamente. Uma coisa que hoje geralmente aceite que as autoridades da Igreja no podem oferecer qualquer razo satisfatria para exclurem mulheres de todos os grandes processos e decises que dizem respeito tanto a homens como mulheres. Antes de ser definitivamente decidido quais os ministrios a serem abertos a mulheres, deveria ter-se o cuidado de convidar mulheres, uma grande parte criativa da igreja, a participarem substancialmente nos processosCadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 13

envolvidos em todas as grandes decises colegiais. No significativo que durante o Snodo Mundial dos Bispos de 1994 (que adereou a questo da vida consagrada), um bispo tenha sugerido que as mulheres deveriam tambm participar na eleio do papa? A respeito do assunto acerca da ordenao de mulheres, foi suficientemente documentado que o tradicional argumento contra no s falacioso como tambm vergonhoso, para no dizer at teologicamente perigoso. O documento InterInsigniores (15 de Outubro, 1976) do papado de Paulo VI refere-se mais a um nmero de telogos medievais, do que a contemporneos, tais como Boaventura, Duns Escoto, e Durando. Todos esses homens produziram o mesmo argumento duplo (e duplamente falso). A viso de Escoto particularmente clara seno francamente odiosa: Ordem um certo grau de eminncia sobre outros na Igreja e por um certo grau de superioridade que deve, de alguma forma, ser significado por natural eminncia de condio e grau. Mas a mulher est naturalmente num estado de sujeio em relao ao homem, e por isso, no pode possuir um grau de eminncia acima de nenhum homem se ela recebesse Ordens na Igreja, ela poderia presidir e governar, o que contra a sua condiodesse modo, ela no uma matria capaz de receber este sacramento (Escoto, In IV sent. d. 25, Scholium Opus Oxoniense). Assim, podemos ver como o complexo de superioridade masculina transfere-se facilmente para um complexo de superioridade clerical, que, acrescento, est em gritante contradio com a verdade central e imagem de Cristo, o Servo [Sofredor]. Tambm fica claro que todo o assunto da ordenao de mulheres no pode realmente ficar resolvido enquanto o sacerdcio catlico terica e praticamente entendido como um estado de superioridade. Um padro de pensamento unilateral hierrquico e patriarcal tende tambm a excluir as mulheres na Igreja de todos os grandes processos de deciso. (ver Dennis Michael Ferrara, The Ordenation of Women: Tradition and Meaning Theological Studies 55 [1994]: 706-719.)

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Requisitos para presidir celebrao eucarsticaCristo instituiu a Eucaristia como um dom particularmente amoroso Igreja peregrina de todos os tempos e lugares. Parece-me que, desta verdade fundamental, torna-se fcil retirar a concluso de que qualquer tipo de prrequisito que praticamente prive as comunidades crists da regular celebrao da Eucaristia no pode ser defendido e mantido. Esta uma grave e vinculativa verdade para os que se encontram em autoridade. Note-se que o Catecismo da Igreja Catlica refere: A Eucaristia dominical fundamenta e sanciona toda a prtica crist. por isso que os fiis tm obrigao de participar na Eucaristia nos dias de preceito, a menos que estejam justificados, por motivo srio (por exemplo, doena, obrigao de cuidar de crianas de peito) ou dispensados pelo seu pastor. Os que deliberadamente faltam a esta obrigao cometem um pecado grave (n. 2181). Numa teologia moral elaborada no apenas para os que esto sob autoridade, mas igual e especialmente para os que detm a autoridade, torna-se claro que os lderes eclesiais que criam tantas condies especficas e meramente humanas a tal ponto de impossibilitarem um grande nmero de pessoas e comunidades crists de participarem regularmente na Eucaristia, cometem um pecado grave. No poderemos dizer que as autoridades da Igreja incorrem em pecado atravs das suas normas que privam tantas pessoas da Eucaristia? O ponto de partida para futuras deliberaes poderia bem ser as refeies comunitrias da Igreja primitiva.

Um agradecimento sincero aos Padres-OperriosSem dvida, os padres-operrios merecem a nossa profunda gratido. Eles foram e so pioneiros corajosos na explorao de novos horizontes para compreender melhor a inculturao do ministrio presbiteral. Metaforicamente falando, eles constituram um salto tremendo sobre uma larga e profunda vala. Padres e bispos vivem o seu zelo pastoral e a sua clarividncia carismticaCadernos Fundamentos | I | Bernhard Hring 15

enfrentando criativamente o tema escaldante da alienao das profisses de colarinho azul face Igreja que no s marcou negativamente a histria como o prprio Evangelho do Deus Connosco o Emanuel. Estes padres deram conta do escndalo causado pela perda de contacto com a classe operria, tal como hoje muitos cristos atentos temem que a Igreja possa perder muitas das suas melhores e mais dotadas mulheres. As encclicas de Leo XIII e Pio XI sobre a questo social da classe operria foram certamente exemplos de passos na direco certa, mas no puderam preencher o abismo entre a prtica da Igreja e a cultura da classe operria. O mundo da Igreja e o mundo operrio surgiram como duas esferas diferentes. Na Frana e na Alemanha alguns bispos comearam a delegar padres capazes para servir primria ou exclusivamente a classe operria. Paul Gauthier, um entre muitos outros padres pastoralmente atentos, teve o bom senso e a coragem de o expressar em termos muito simples: A Frana tornouse um pas de misso. Ainda assim, apesar de toda a sua boa-vontade, os padres enviados junto da classe operria estavam realmente marcados pela sua identificao com uma classe e uma cultura diferentes a cultura tridentina, simbolizada pela batina. Muitos padres foram simplesmente incapazes de se dar conta do tamanho de tal diferena e distanciamento cultural. E no podemos especificar qual distanciamento falamos, se o dos trabalhadores ou se o da Igreja, visto que ambos se deram.

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Em jeito de Orao

Senhor Jesus Cristo: Ao longo destes cinquenta e seis anos permitiste-me que servisse a milhares de homens que comigo partilham a vocao presbteral, atravs do ensino, da direco espiritual, da exortao, e do consolo. Juntos, aprendemos e, espero, continuaremos a aprender como humilde e corajosamente te havemos de seguir, a ti o Servo e Profeta de Yahweh, e como reverenciar e servir a todos os membros do teu povo sacerdotal, por todo o mundo. Enche-nos de f, alegria, esperana e de um profundo amor! Dia aps dia aprofunda as nossas capacidades de te reconhecer cada vez melhor como o Servo no-violento, o Caminho da Paz, o Consolador dos aflitos e desesperados! Pelo poder do Esprito, ajuda-nos a melhor compreender e promover os muitos caminhos da paz, e ajuda a cada um de ns a tornarmo-nos mais atentos e mais determinados a ser, acima de tudo, verdadeiros servos da tua Palavra, e a sermos ministros humildes e alegres de todos aqueles a cujo servio nos confiaste. Abenoa o nosso Papa e os nossos bispos, e a todos aqueles que detm autoridade na Igreja, para que possam cada vez mais viver e promover a unidade na diversidade. Fortalece-nos para que possamos tornar-nos autnticas testemunhas da tua Verdade, e instrumentos efectivos na promoo da unidade crist e na solidariedade universal para a salvao de todo o mundo.

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Livraria FundamentosUma livraria dedicada literatura crist e religiosa, de todas as editoras, confisses e espiritualidades. Em Braga.

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