Breviario Dos Politicos - Cardeal Mazarin

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  1 BREVIÁRIO DOS POLÍTICOS (Cardeal Mazarin)  Apresentação O Poder e seus Micro mecanismos por Bolívar Lamounier Prefácio Os Sinais do Poder por Umberto Eco Introdução Primeira Parte Conhece-te a ti mesmo E conhece os outros Segunda Parte Os Homens em Sociedade Obter o favor de outrem Os amigos dos outros Boa reputação Os afazeres Ler, escrever Os benefícios Solicitar  Aconselhar Não se deixar surpreender  A boa saúde Ódios e rancores Os segredos  As intenções  Jamais ofender Incitar à ação  A sabedoria  Agir com prudência Os inoportunos  A conversação Os gracejos Evitar as armadilhas O dinheiro: ganhá-lo e guardá-lo  As honrarias

Transcript of Breviario Dos Politicos - Cardeal Mazarin

BREVIRIO DOS POLTICOS(Cardeal Mazarin)Apresentao O Poder e seus Micro mecanismos por Bolvar Lamounier Prefcio Os Sinais do Poder por Umberto Eco Introduo Primeira Parte Conhece-te a ti mesmo E conhece os outros Segunda Parte Os Homens em Sociedade Obter o favor de outrem Os amigos dos outros Boa reputao Os afazeres Ler, escrever Os benefcios Solicitar Aconselhar No se deixar surpreender A boa sade dios e rancores Os segredos As intenes Jamais ofender Incitar ao A sabedoria Agir com prudncia Os inoportunos A conversao Os gracejos Evitar as armadilhas O dinheiro: ganh-lo e guard-lo As honrarias 1

As solicitaes A simulao dos sentimentos Festas e gapes Limitar os desperdcios As inovaes Sair de apuros Dissimular seus erros Excitar o dio contra um adversrio Pr fim a uma amizade O elogio de outrem Impedir algum de recusar um cargo Conter sua clera Fugir Punir Pr fim a uma sedio Escutar e pronunciar justos louvores Conservar sua serenidade Desprezar os ataques verbais A habilidade nas palavras Desviar as suspeitas Desembaraar-se de um adversrio Em viagem No correr atrs das satisfaes do amor-prprio Criticar, repreender Dissimular seus sentimentos Emprestar Saber a verdade Acusar Ser acusado Viagens provncia ou ao estrangeiro Os livros tericos AXIOMAS EM RESUMO Simula, dissimula No confies em ningum Fala bem de todo o mundo Reflete antes de agir 2

Apresentao

O PODER E SEUS MICROMECANISMOS

por Bolvar Lamounier Franqueza e cinismo so palavras que se repelem, e este o paradoxo: em Mazarin elas parecem se fundir com extraordinria perfeio. Como ocorre essa juno de extremos? A explicao que logo nos vem mente que Mazarin trata apenas e to-somente da eficcia, deixando de lado os fins ltimos, da ao poltica. De fato, perder o seu tempo quem vier a este texto com o intuito de se ilustrar sobre o bem comum, a justia, a paz ou qualquer outro objetivo tido como desejvel por alguma comunidade. Nenhuma das 62 sees deste seu Brevirio pergunta a que fins servia na Frana setecentista, serviu no passado ou deveria no futuro servir o poder poltico. A ateno de Mazarin volta-se exclusivamente para os meios a que um indivduo deve recorrer para preservar ou aumentar seu poder. Sua concentrao nesse ponto tamanha que chega a imprimir uma tonalidade algo sinistra mxima conhece-te a ti mesmo, que encima o primeiro captulo. Nas mos de Mazarin ela perde sua conotao humanstica e se torna incomodamente estreita, designando apenas aquele conhecimento prtico de sua prpria imagem que todo poltico precisa ter, se quiser ter xito na busca de apoios ou na manipulao de outras pessoas. Conhece aos outros: consistente com o primeiro, o segundo captulo diz que o poltico precisa prestar meticulosa ateno aos seus possveis adversrios, a ponto mesmo de prever-lhes os movimentos. Ou seja, a eficcia que interessa a Mazarin eficcia na busca e no exerccio do poder. Nisto ele no se distingue de Maquiavel e de outros que, a partir da Renascena, o precederam na tentativa de decifrar o poder como fruto do convvio humano, livre de interferncias divinas. Onde ele se distingue de seus predecessores na crueza ainda maior com que expe suas concluses. Realmente, o texto ora nos desconcerta, como se estivssemos a ouvir a confisso surpreendentemente franca de um homem muito mau, cnico e totalmente alucinado pelo poder (e h quem diga que assim era efetivamente o Cardeal Mazarin), ora nos soa como pilhria, como discurso de quem contempla a poltica de longe, sem disposio para nela sujar as mos, mas arguto o suficiente para esmiuar-lhe a lgica e escancarar-lhe as entranhas, com o objetivo de divertir, ou, quem sabe, de preparar nossa alma para algum ensinamento moral. Na verdade, o texto de Mazarin no nada disso. No puro cinismo, nem pilhria, nem subreptcia pregao moral embora tenha muito do primeiro e talvez um pouco dos outros dois ingredientes. Para bem entender este Brevirio, parece-me imprescindvel comear situando-o em seu quadro histrico. Que mundo poltico esse a que se refere o Cardeal Mazarin? A que polticos se dirige? Em que consistiam na Frana de meados do sculo XVII a carreira e a atividade polticas? Dizer que o Brevirio de Mazarin flor colhida nos jardins do absolutismo chover no molhado. Importante entender que o termo absolutismo designa a hipertrofia do poder de alguns monarcas individualmente, ou de suas respectivas dinastias, e no a plenitude institucional daquela grande estrutura que fomos aos poucos identificando como o Estado moderno. Na verdade, a importncia que Mazarin atribui a pequenos expedientes de manipulao e a espantosa meticulosidade com que os decifra so sintomas da debilidade, no da robustez institucional do Estado francs, ou de qualquer Estado europeu, em meados do sculo XVII. O absolutismo uma das formas iniciais do Estado moderno, no o Estado moderno plenamente configurado e muito menos, bvio, o moderno Estado democrtico, sujeito a controles jurdicos e fundado em eleies peridicas, no funcionamento regular de parlamentos autnomos e em partidos polticos em competio pela preferncia dos eleitores. Se as prprias fronteiras nacionais atributo fundamental do3

Estadonao continuavam instveis, como imaginar, na Europa do sculo XVII, que o acesso e a investidura de indivduos privados em funes dotadas de autoridade pblica j estivessem balizados por regras jurdicas firmemente estabelecidas, ou que existissem organizaes polticas e burocrticas sedimentadas o suficiente para assegurar a tais indivduos segurana e legitimidade em seu exerccio? claro que nada disso estava configurado, e se no estava, de que poltica estamos falando? Esse o ponto bsico. No sentido moderno, prprio dos Estados constitucionais, a poltica uma atividade limitada quanto aos meios e aos fins; , como se costuma dizer, uma carreira, um conjunto identificvel de papis que devem ser exercidos e de trajetrias que devem ser percorridas por aqueles que aspirem a exercer funes pblicas. por meio desse conjunto de papis e atividades que a sociedade regula e delimita o exerccio do poder, para que o recurso fora ocorra somente como ultima ratio, isto , quando os procedimentos estabelecidos de negociao e presso se revelarem insuficientes. Na poca de Mazarin, a hipertrofia do poder pessoal e a prpria tentativa de legitim-la apelando ao direito divino dos monarcas refletia a quase total incipincia de todo esse mecanismo institucional que hoje nos parece to bvio (e que alguns at imaginam que esteja entrando em obsolescncia histrica). Inexistindo o Estado constitucional moderno, tampouco poderia existir a poltica como hoje a entendemos: como uma carreira ou atividade regular; e menos ainda a figura histrica do homem comum como cidado-eleitor, visto que os grandes eleitorados de massa s comeam a surgir a partir do incio do sculo XX, mesmo na Europa. Uma primeira concluso, portanto, que os destinatrios do Brevirio de Mazarin eram polticos, mas no polticos no sentido que hoje emprestamos a essa palavra. Os polticos de nossa poca se definem em relao a um arcabouo constitucional preestabelecido: so polticos no Estado, ou em relao ao Estado. Os polticos de Mazarin, em comparao, seriam polticos antes do Estado. Se no fosse o risco de atribuirmos ao Cardeal uma clarividncia excessiva, poderamos at dizer que eram avant la lettre: polticos que ele aparentemente desejava formar, como se vagamente antevisse a necessidade de um verdadeiro Estado, e conseqentemente de uma classe poltica, para que o exerccio do poder se distanciasse cada vez mais do recurso violncia. Mazarin sucedeu a Richelieu em 1642: mesmo ano, por coincidncia, em que tiveram incio, na Inglaterra, as guerras civis inglesas, que levariam poucos anos depois decapitao do rei Carlos I. Oportunidade instigante, como se v, para um homem de Estado que se inclinasse a entender o estado de natureza e a guerra de todos contra todos como uma possibilidade real, e no apenas como a construo filosfica abstrata de uma situao-limite. Mas se Mazarin tivesse de chegar ao entendimento da paz pelo caminho da guerra, poderia t-lo feito bem antes e sem necessidade de olhar para o outro lado da Mancha. Bastar-lhe-ia refletir sobre conflitos recentes da prpria Frana, como, por exemplo, aqueles que levaram ao morticnio conhecido como massacre da noite de So Bartolomeu (1572). No suscito aqui essas hipteses para contrapor a figura imaginria de um Mazarin mais construtivo e algo pacifista suposio mais freqente de que ele teria sido um homem de pssima ndole. Suscito-as apenas como prembulo ao inevitvel debate tico a que somos levados ao ler este seu Brevirio. A questo esta: se no havia realmente Estado, no sentido moderno, e tampouco a poltica como atividade regular, voltada para a acomodao no-beligerante dos conflitos e da luta pelo poder, que juzo tico nos dado emitir sobre o que nos parece ser o manifesto cinismo do texto 16 Cardeal Mazarin de Mazarin? Esta, na verdade, a mesma questo que h sculos temos debatido a propsito do maquiavelismo de Maquiavel que no pode ser descuidadamente transposto para a nossa poca e confundido sem mais aquela com o eventual cinismo de algum discurso poltico contemporneo. Como Maquiavel, como Hobbes, como tantos outros, o que Mazarin parece estar dizendo que a idia de uma tica poltica pressupe a idia, ou melhor, a realidade de uma ordem, ou de uma esfera pblica razoavelmente institucionalizada; ordem essa, por sua vez, que pressupe um centro de poder estvel e organizado. A diferena, se existe, que Maquiavel dispunha de modelos (na histria de Florena e na antiga Roma) do que lhe parecia4

dever ser a encarnao dessa ordem, ou desse centro de poder, enquanto Mazarin no se dirige a nenhum prncipe em particular. Talvez seja esse o trao que levou Umberto Eco a ver uma qualidade paradoxalmente democrtica no texto de Mazarin. De fato, seu destinatrio no parece ser um indivduo, e sim um coletivo. Arrisco-me a conjecturar e repito que o fao em busca da consistncia interna do texto, no para pintar um Mazarin benvolo que esse coletivo seria uma classe poltica em potencial, isto , um conjunto ou categoria de indivduos em princpio aptos a organizar o poder e a exerc-lo sem recurso exagerado ou desnecessrio violncia, mas carentes de clareza a respeito de como o poder se constitui, emergindo a todo momento na atmosfera difusa das relaes interindividuais. Um indcio favorvel interpretao que venho de esboar que Mazarin evita a grandiloqncia, raramente recorre a paralelos histricos e faz questo de se exprimir de maneira direta e com extrema simplicidade. O tom quase coloquial do texto parece calculado para trazer Maquiavel para um plano ainda mais rente terra. O que ele pretende demonstrar no apenas que o poder no fruto de causas transcendentes ou supra-individuais: que cada indivduo pode construir algum poder para si, visto que o poder brota direta e continuamente de seus relacionamentos, como algo inerente multiplicidade de relaes interindividuais que constitui a vida de cada um. O tom coloquial conduz o foco do texto para situaes e relacionamentos facilmente identificveis, como se pretendesse demonstrar que essas interaes cotidianas contm dentro de si o combustvel de que um indivduo precisa para se distinguir dos outros como um poderoso. Distinguir-se como poderoso e preservar essa condio naquele ambiente o nico que Mazarin conhecia onde a guerra de todos contra todos parecia sempre prxima mas sem chegar ao extremo de exercer ele mesmo e diretamente a violncia. Mazarin quer mostrar o que esse indivduo deve e no deve fazer para obter a cooperao de outros, para conseguir para si uma parcela de um poder maior, no regulado ou muito precariamente regulado por regras preestabelecidas, e eventualmente para consolidar uma situao de predomnio. Linguagem, como se v, que soa subjetiva e pessoal, mas que pode ser plausivelmente interpretada como o reverso individual ou microssocial daquele grande processo histrico a que chamamos de construo do Estado. Nesse sentido, a questo tica que se pode suscitar a propsito do texto de Mazarin no diferente da que se tem continuamente suscitado, por exemplo, a propsito de Hegel. Inmeros crticos acusaram Hegel de absolutizar, e mesmo de deificar o Estado constitucional moderno, como se uma tica poltica s pudesse ser concebida em seu mbito no antes ou margem dele. Sem uma ordem racionalmente estabelecida, o discurso tico se tornaria (segundo essa leitura) insubsistente e ahistrico ou seja, abstrato, no mau sentido desse adjetivo. Dizer o mesmo de Mazarin, em sentido literal, seria ler demais em seu texto, j que ele no percebeu efetivamente o advento do Estado moderno como um novo indivduo histrico. Mas seu tom de sistemtico cinismo suscita a mesma questo. Inexistindo essa ordem, esse arcabouo pblico e jurdico a que chamamos Estado, ou outra equivalente que, ao limitar os meios, nos permita especular racionalmente sobre os fins, de que estamos falando, quando emitimos juzos ticos sobre a atividade poltica? Que dizer, porm, da interpretao oposta: a de que a atualidade de Mazarin, assim como a de Maquiavel, consistiria justamente em haver dissecado a eterna perversidade da poltica, ou seja, um substrato de manipulao, malcia e maldade que lhe seria inerente e necessrio? Nestes tempos antipolticos em que vivemos, no h como negar a alta condutibilidade atmosfrica dessa interpretao (os polticos so sempre os mesmos, j os conheo etc.), e por isso quero concluir reconhecendo certa parcela de verdade nessa interpretao, para depois recus-la. O que Mazarin fez, na verdade, foi compor um retrato antecipado daqueles que, no virtual estado de natureza hobbesiano que era a estrutura poltica de seu tempo, pretendessem exercer com eficcia uma parcela de poder, ou aspirassem a se tornar governantes em nvel elevado. Na perspectiva de hoje, quanto mais avanado o estgio civilizatrio de um pas, mais esse retrato haver de nos soar5

estranho, para no dizer intil, e at contraproducente. Num Estado constitucional moderno, numa democracia digna do nome, algum que se propusesse a seguir fiel e sistematicamente as recomendaes de Mazarin no teria tempo para mais nada, provavelmente diluiria aquele ncleo de identidade no qual se ancoram as relaes de confiana mtua e chegaria, por conseguinte, ao ponto oposto daquele que buscava: completa ineficcia. Acabaria sendo visto como um paranico full-time, um desastrado que no atinge seus fins justamente por que os persegue com excessiva voracidade. Dito isso, preciso reconhecer que o Brevirio de Mazarin retrata um aspecto ao que tudo indica permanente e inevitvel da atividade poltica. De fato, um microcosmo hobbesiano persiste e acho que existir sempre em toda grande organizao e aqui me refiro no apenas a instituies polticas, como os parlamentos e partidos, mas tambm a organizaes burocrticas, econmicas, militares, educacionais e at religiosas , mesmo nos Estados mais civilizados e democrticos. Sob o teto e nos corredores altamente formalizados e codificados das grandes organizaes, tenham estas finalidade utilitria ou altrusta, continua a existir microfsica do poder, isto , um contnuo processo de diferenciao entre pequenas influncias, cuja resultante ou somatria pode eventualmente produzir alguma inflexo particular na lgica macroinstitucional do poder. Nesse micromundo informal a que me refiro, quem quiser exercer influncia na fixao de prioridades ou na alocao de recursos, agilizar ou tentar esterilizar a implementao de decises, ver-se- inexoravelmente diante da necessidade de agir politicamen22 Cardeal Mazarin te: ou seja, de ganhar espaos, obter apoios, se impor, conquistar ou preservar posies hierrquicas. Posies essas convm repetir que surgiro sempre, em maior ou menor medida, como referncias para o debate tico, se entendermos que a tica diz respeito responsabilidade por aes (ou omisses), e portanto a agentes efetivamente detentores de alguma parcela de poder. Quem quiser fazer o bem ter de buscar o poder, tanto quanto quem quiser fazer o mal. Nesse sentido, Mazarin mais que um Hobbes visto pelo lado subjetivo: tambm um precursor daquela longa estirpe de socilogos (de Georg Simmel a Peter Blau) que tenta entender a emergncia do poder, no tanto nas relaes entre grandes agregados sociais, como classes sociais ou grupos profissionais, mas j a partir das relaes interindividuais. Mais uma vez, o carter paradoxalmente democrtico deste Brevirio: o prncipe nele implcito no tem necessariamente sangue real, no pertence necessariamente a nenhuma dinastia. Ele est por toda parte. qualquer um que pretenda conquistar e exercer uma parcela de poder, infinitesimal que seja, para qualquer fim. Prefcio por Umberto Eco Sejamos sinceros. Aquilo que sabamos do Cardeal Mazarin (alm de um nome nos livros didticos vislumbrado por volta do final da guerra dos Trinta Anos) tnhamos aprendido com o Dumas de Vinte anos depois. Cardeal mais do que odiado, figura desprezvel de calhorda e simulador em confronto com seu famoso antecessor, o grande Richelieu que sabia atacar os inimigos e promover a capito os mosqueteiros que o mereciam. Mazarin mente, falta com a palavra dada, demora para pagar as dvidas, manda envenenar o cachorro do duque de Beaufort que tinha sido adestrado para se recusar a pular em sua honra. um italiano srdido, e Beaufort caracteriza-o como o ilustrssimo carregador Mazarin. vil, desonrado, covarde e est sempre enfiado na cama de Ana da ustria, que em outros tempos soubera amar homens da estirpe de Buckingham. Ser possvel que Mazarin fosse to mesquinho? Por outro lado sabemos que Dumas, quando falava de personagens histricos, no inventava: carregava nas cores, dramatizava, mas seguia as fontes, os cronistas, os6

OS SINAIS DO PODER

memorialistas, mesmo quando esboava os personagens fictcios, imaginem ento com um homem da envergadura de Mazarin. Assim sendo, confivamos nele. No sei se Dumas conhecia este Brevirio dos polticos. Poderia, porque a pequena obra saiu em latim em 1684, por um improvvel editor de Colnia, mas foi amplamente traduzida e circulou pelos sculos seguintes. Pode ser que tenha s ouvido falar. Porque ao se falar sobre, ao resumi-lo em poucas palavras, pode se fazer com que aflore o Mazarin do Dumas, de um maquiavelismo barato que se empenha em combinar seu prprio aspecto exterior, seus prprios festins, as prprias palavras e os prprios atos, de maneira a cair na graa dos patres e colocar em encrenca os prprios inimigos, atirando a pedra e escondendo a mo. Mas, lendo bem, o personagem que aflora, apesar de continuar sendo aquele que Dumas flagrou, pelo menos nos surpreende pela complexidade, pela sabedoria, pelo elevado rigor terico da sua calculada e humanssima mesquinhez. O livro, diro, no seu, surge como uma antologia das suas mximas, proferidas ou, que seja, praticadas. Por que ento no l-lo como uma stira, da mesma maneira como Maquiavel foi por muitos interpretado, como obra de um moralista perspicaz que fingindo dar conselhos ao prncipe apara-lhe os excessos e aos demais o revela? Contudo, o fato que, seja l quem tenha escrito o libelo, se no foi Mazarin, foi algum que levava a srio o que escrevia, j que no Seiscentos como lembrava Croce na Storia dellet barocca in Itlia a arte de simular e dissimular, da astcia e da hipocrisia era, pelas condies no-liberais da sociedade da poca, abundantemente praticada, e fornecia material para os inumerveis tratados de poltica e de prudncia. O livro de Maquiavel era mais um tratado de imprudncia, o ousar proclamar em voz alta o que o Prncipe deveria fazer para o bem comum. Mas no meio h a Contra-reforma e a casustica jesuta: os pequenos tratados do Seiscentos no ensinavam nada alm de como se defender em um mundo de prncipes desleais e, naquela altura, conscientemente maquiavlicos em excesso, para salvar a prpria dignidade interior, ou a prpria integridade fsica, ou ainda para fazer carreira. Antes deste brevirio de Mazarin aparecem, na cena cultural, dois outros, bem mais conhecidos: Orculo manual ou arte da prudncia de Baltasar Gracin (1647) e o Da dissimulao honesta de Torquato Accetto (1641). Havia no que se inspirar, mas o brevirio de Mazarin parece original pelas suas intenes despudoradas. Gracin e Accetto no eram homens de poder, e a dolente meditao que faziam diz respeito s tcnicas com as quais, numa poca difcil, se poderia defender-se dos poderosos. Para Gracin o problema estava em como se harmonizar com seus semelhantes sofrendo o menor dano possvel (ele que sofreu tantos na vida, no tendo sido to prudente quanto pregava) e para Accetto a questo no era simular aquilo que no se (que teria sido engano) mas dissimular o que se , para no irritar demais os outros com as prprias virtudes (seu problema no era como provocar dano mas como no o sofrer). Mazarin est longe disso tudo: compe o programa de um homem que, aprendendo o modo de cativar os poderosos, de se fazer gostar pelos prprios sujeitos, de eliminar os inimigos, mantm solidamente nas mos, com tcnicas simulatrias, o poder. Simulao, no dissimulao. Mazarin (ou quem escreveu o pequeno livro) no tem nada para dissimular: nada, porque ele s aquilo que produz como imagem externa. Observe-se o primeiro captulo, simuladamente intitulado Conhece-te a ti mesmo. Comea com um aforismo sobre a necessidade de se auto-examinar atentamente para ver se se tem alguma paixo no nimo (por outro lado, aqui tambm a pergunta no quem sou? mas como me manifesto para mim mesmo?) e logo em seguida continua, com outras mximas, a desenhar um eu mesmo que mscara, sabiamente construda: Mazarin aquilo que consegue aparecer para os outros. Ele possui uma clara noo do sujeito como produto semitico; Goffman deveria ler este livro, um manual para a total teatralizao do eu mesmo. Aqui se delineia uma idia de profundidade psquica feita toda ela de superfcies.7

Encontramo-nos diante de um modelo de estratgia democrtica (na era do absolutismo!), j que so pouqussimas, e equilibradas, as instrues sobre como ter poder produzindo violncia; e, de qualquer modo, jamais diretamente, sempre por meio de um terceiro. Mazarin nos d uma esplndida imagem de como obter poder pela pura manipulao do consenso. Como agradar, no s ao prprio patro (preceito fundamental) e no s aos prprios amigos, mas tambm aos prprios inimigos, a serem celebrados, acariciados, convencidos da nossa boa vontade e boa-f, de modo que morram, mas nos abenoando. Gostaria ainda de insistir sobre o fundamental primeiro captulo. Em nenhuma das suas mximas deixa de usar um verbo de aparncia: dar sinal, fazer acreditar, revelar, olhar, observar, passar por... Mesmo as mximas que dizem respeito aos outros baseiam-se nos sintomas, nos signos reveladores, tanto no que diz respeito aos pases, s cidades, s paisagens como aos amigos e inimigos. Como perceber se algum mentiroso, se ama outrem, se o abomina; e as instrues so muito sutis, como por exemplo: fala mal do seu inimigo, e observa seu comportamento e como reage. E as tcnicas para descobrir se algum sabe manter um segredo, mandando at ele um outro que o provoque e demonstre saber do que se trata, para ver se o primeiro se deixa levar ou antepe uma mscara impenetrvel, como aquela que Mazarin se empenha em construir para si, chegando a sugerir como se deve escrever uma carta na presena de outros de maneira que estes no possam l-la, e como mascarar aquilo que se l, e mais, como se fazer passar por homem sisudo (No ds a impresso de encarar teu interlocutor, no esfregues nem franzas o nariz [...]. S econmico em teus gestos, mantm a cabea erguida e um tom um pouco sentencioso. [...] Que ningum presencie [...] tuas refeies). E faa sempre com que seu adversrio execute de boa vontade aquilo a que se quer conduzi-lo: Se algum disputa uma honraria que tambm cobias, envia-lhe secretamente um emissrio que, em nome da amizade, o dissuada, mostrando-lhe os mltiplos obstculos que de toda forma ele teria de enfrentar. E esteja preparado para todas as insdias, e para contra-atac-las: Diariamente, [...] dedica um momento a estudar como reagirias diante desse ou daquele acontecimento, o que , alis, a moderna teoria dos cenrios de guerra e de paz, s que o Pentgono usa os crebros eletrnicos. E ensina-se at mesmo como fugir com bons resultados da priso (j que tudo pode acontecer a um homem de poder) e como estimular panegricos sua prpria honra que sejam breves e custem pouco, de maneira que todos possam conhec-los. E como dissimular a riqueza (queixa-te a todo momento de no teres [dinheiro] o bastante, e aqui Dumas flagrou o seu personagem) mas no sempre, dependendo do caso, e eis que de repente o nosso autor nos surpreende com uma descrio de um jantar perfeito para deixar os convidados estupefatos, impossvel de resumir e que um exemplo do melhor teatro barroco. Mas enfim, chega de admirao. Livros do gnero so lidos para que se tire algum proveito. Mas no acreditem que possa servirlhes para se tornarem homens de poder, e no porque suas mximas no sejam boas; esto todas corretas. que este livro nos descreve aquilo que o homem de poder j sabe, talvez por instinto. Nesse sentido no s um retrato de Mazarin: usem-no como identificador de perfis para a vida cotidiana. Encontraro a muitas das pessoas que conhecem, por t-las visto na televiso ou por t-las encontrado no trabalho. A cada pgina diro: Mas este aqui eu conheo! Naturalmente. Os Mazarin tornam-se famosos e jamais declinam. O poder consome s a quem ainda no sabe dessas coisas. BREVIRIO DOS POLTICOS Notas de rodap de Franois Rosso INTRODUO8

Como o fazia a mais antiga e a mais pura filosofia, fundamentamo-nos hoje sobre dois grandes princpios. Os antigos diziam: contm-te e abstm-te. Ns dizemos: simula e dissimula; ou ainda: conhece-te a ti mesmo e conhece os outros o que, salvo erro de minha parte, equivale exatamente mesma coisa. Comearemos por examinar o segundo desses princpios, e depois, abordando as diferentes aes humanas, voltaremos ao primeiro na segunda parte desta exposio sobre a qual esclareo que no seguir nenhum plano preestabelecido, tanto verdade que apenas o acaso determina as aes dos homens. PRIMEIRA PARTE CONHECE-TE A TI MESMO s de um temperamento colrico, demasiado tmido ou demasiado audacioso, ou ento dominado por uma paixo qualquer? Quais so as falhas de teu carter, os erros que podes reconhecer em tua maneira de te comportar, na igreja, mesa, na conversao, em volta de uma mesa de jogo e nas diferentes atividades, em particular as que se praticam em sociedade? Primeiro, examina-te fisicamente. Tens o olhar insolente, a perna ou o pescoo rgidos demais, a sobrancelha que se franze, os lbios excessivamente frouxos, o andar muito lento ou muito apressado? Se assim, convm corrigir-te. Passa em seguida s pessoas que gostas de freqentar. Tm elas boa reputao? So ricas? Avisadas? Pergunta-te em que ocasies tens tendncia a perder o controle de ti mesmo, a deixar-te levar por desvios de linguagem e de conduta. Quando bebes demais durante um banquete. Quando gracejas. Quando uma infelicidade te aflige. Em suma, aqueles momentos em que, como escreve Tcito, as almas dos mortais so vulnerveis. No s um freqentador de certos lugares suspeitos, bons para o vulgo, mal afamados, em suma, indignos de ti? Deves aprender a vigiar tuas aes, e a jamais relaxar essa vigilncia. a isto que te ajudar a leitura deste pequeno livro: a considerar sempre cuidadosamente em que lugar e em que companhia te encontras e que circunstncias te levaram a isso, a te conduzires em conformidade tua posio e em conformidade posio das pessoas com quem lidas. essencial que estejas consciente de todas as tuas falhas e que portanto te vigies. Saibas desde o incio que, toda vez que nos deixamos levar por uma tendncia ruim, eficaz impor-se uma prova. Por exemplo, se algum te lanou palavras ofensivas e sentes tua blis ferver, faz de modo que nada revele tua clera. Enquanto as circunstncias tornarem ineficaz qualquer demonstrao de animosidade, contm-te e no procures te vingar. Finge, ao contrrio, no ter sentido nenhuma ofensa. Aguarda tua hora... Arranja-te para que teu rosto jamais exprima nenhum sentimento particular, mas apenas uma espcie de perptua amenidade. E no sorrias ao primeiro que chega sob pretexto de que recebeste dele um sinal de amizade qualquer. Outra regra: deves ter informaes sobre todo o mundo, no confiar teus prprios segredos a ningum, mas colocar toda a tua perseverana em descobrir os dos outros. Para tanto, espiona todo o mundo, e de todas as maneiras possveis. Jamais digas nem faas nada que possa infringir o decoro, pelo menos em pblico; pois mesmo se ages espontaneamente e sem ms intenes, estejas certo de que os outros, eles, tero sistematicamente ms intenes. O melhor manter sempre uma atitude reservada, embora observando discretamente o que se passa. Cuida, de resto, que tua curiosidade no ultrapasse o limite de teus clios. assim, parece-me, que se conduz um homem avisado e bastante hbil para se precaver contra qualquer desagrado.9

E CONHECE OS OUTROS A doena, a embriaguez, os banquetes, os momentos de descontrao e de riso, os jogos a dinheiro, as viagens em suma, todas as circunstncias em que os espritos tendem a afrouxar as rdeas, em que os coraes se abrem e em que, poderamos dizer, as feras se deixam atrair fora de suas tocas sero outras tantas ocasies para recolheres informaes preciosas sobre uns e outros. O mesmo ocorre em relao dor, sobretudo quando uma injustia sua causa. Convm saber aproveitar tais situaes, freqentando ento mais assiduamente aqueles sobre os quais desejas saber mais. Percebers tambm que bastante til aproximar-se de seus amigos, seus filhos, seus familiares sem esquecer seus domsticos, que se deixam corromper facilmente por pequenos presentes em troca dos quais se dispem a fornecer inmeras informaes. Se suspeitas que algum tem uma opinio formada sobre um assunto mas no quer se manifestar a respeito, sustenta o ponto de vista oposto durante uma conversao. Se tua opinio for de fato contrria dele, dificilmente, apesar de toda desconfiana e circunspeo, ele conseguir no se trair levantando objees e fazendo observar que sua opinio igualmente defensvel, e portanto deixar te revelar o fundo de seu pensamento mostrando que tem uma opinio diferente da tua. Eis agora um bom mtodo para descobrir os vcios de algum. Conduz inicialmente a conversao sobre os vcios mais comuns, e depois, mais particularmente, aborda os que julgas atingirem teu interlocutor. Ele no ter palavras suficientemente duras para reprovar e denunciar o vcio do qual ele prprio a presa. Assim vemos com freqncia pregadores fustigarem com a maior veemncia os vcios que eles mesmos praticam. Para desmascarar um tratante, consulta-o sobre um assunto, e depois, tendo deixado passar alguns dias, volta a lhe falar do mesmo assunto. Se, na primeira vez, ele quis te induzir em erro, a opinio que te dar na segunda vez ser diferente: a divina Providncia quis que fssemos prontos em esquecer nossas mentiras. Finge estar bem informado sobre um assunto do qual, em realidade, no sabes grande coisa, em presena de uma pessoa que tens motivos de supor que ela est perfeitamente a par: ela se trair corrigindo tuas afirmaes. Quando um homem atingido por um grande desgosto, aproveita essa ocasio para adul-lo e consol-lo. com freqncia em tais circunstncias que ele deixar transparecer seus pensamentos mais secretos e que mais bem oculta. Conduz as pessoas sem que elas o percebam a te contarem sua vida. O melhor meio para chegar a isso fingir que contas a tua. Elas te confiaro como conseguiram enganar os outros, o que ser muito valioso para interpretar seu comportamento atual. Mas da tua vida mesmo, naturalmente, toma o cuidado de nada revelar. Eis como saber quais so as capacidades verdadeiras de um indivduo. Pe-lhe, por exemplo, um pequeno poema sob os olhos. Se ele se mostra entusiasmado quando os versos no so excelentes, sabers que no entendido em poesia. Do mesmo modo, poders apreciar se ele um fino gastrnomo oferecendo-lhe pratos para degustar etc. um bom meio de averiguar seus conhecimentos. Pode ser til, em sociedade, organizar um pequeno jogo cujos participantes fingem debater um assunto srio. Cada um ter oportunidade ento de mostrar seus talentos e suas qualidades de julgamento pois brincadeira e gracejo encerram sempre um fundo de verdade. Poders mesmo, se a ocasio se apresentar, imitar os mdicos, misturando ao alimento destinado a algum um daqueles filtros que provocam a euforia e soltam a lngua.10

A marca mais reveladora da vilania, num homem, que ele se contradiz com freqncia. Saibas que um homem que se contradiz no relutar em te roubar. Em troca, no h muito a temer dos que incomodam a todos de tanto alardear seu prprio elogio. Mas receia aqueles excntricos de aspecto taciturno e rabugento que se comprazem em pronunciar em voz alta e sentenciosa interminveis discursos. Poders reconheclos por suas unhas cortadas muito rente e por sua maneira de ostentar mortificaes que de maneira nenhuma se inspiram num sentimento religioso sincero. Quanto aos novos-ricos, nascidos na sarjeta, por sua obsesso pelos belos adereos e pelos festins refinados que os reconhecers. A experincia da misria leva a cobiar as satisfaes materiais muito mais que as honrarias. Lembra-te sempre que os homens cuja vida dominada pelos prazeres do vinho ou da carne so quase incapazes de guardar um segredo: uns so escravos de suas amantes, os outros, aps beberem, no conseguem se impedir de falar a torto e a direito. Eis como fazer cair em sua prpria armadilha os contadores de histrias e os fanfarres que te narram suas viagens, suas campanhas e suas existncias aventurosas, gabando-se de inumerveis faanhas e afirmando terem passado longos perodos nesse ou naquele lugar. Anota bem tudo o que eles contam, faz a soma dos anos que isso representa, depois pergunta-lhes oportunamente quando comearam sua carreira herica, quando esta se encerrou, e finalmente qual sua idade. Vers ento que nada combina. Podes tambm fazer-lhes perguntas sobre uma cidade imaginria cujo nome ters inventado, interrogando-os sobre o nmero de palcios l existentes, ou sobre a clebre fortaleza que a domina... Podes ainda, fingindo conhecer tudo da vida deles, felicit-los por terem sado inclumes desse ou daquele perigo imaginrio, evidentemente! Reconhecers a virtude e a piedade de um homem na harmonia de sua vida, em sua ausncia de ambio e em seu desinteresse pelas honrarias. Nele no h falsa modstia, nem premeditao nas palavras ou no comportamento. Ele no finge falar num tom imperturbavelmente suave, ostentando mortificaes puramente superficiais, como aqueles que repetem, a quem quer ouvi-los, que mal comem e bebem... Os melanclicos de tez biliosa, assim como os fleugmticos, tm o hbito de declarar abertamente que so desprovidos de ambio e de orgulho. De fato, podemos ofend-los sem que isso tenha conseqncias, pois se reconciliam imediatamente conosco. Um homem astucioso se reconhece com freqncia por sua doura afetada, por seu nariz adunco e seu olhar penetrante. Para avaliar a sabedoria e a inteligncia de algum, finge consult-lo sobre um assunto delicado. Por suas opinies, sabers alm disso se ele tem ou no o esprito de deciso. Desconfia de um homem que faz promessas fceis: geralmente um mentiroso e um prfido. Poders facilmente julgar a capacidade de um homem de guardar um segredo se ele no te revela os segredos de outrem sob pretexto de amizade. Um excelente mtodo enviar-lhe um homem teu que lhe faa confidncias, para ver se ele vem te conta-las em seguida, ou que procure faz-lo revelar segredos que lhe confiaste. Lembra-te que um homem se deixa facilmente levar s confidncias com a mulher ou o rapaz por quem est apaixonado, e tambm com os poderosos deste mundo, ou os prncipes que lhe concedem favores. De qualquer maneira, se algum te revela os segredos de um outro, guarda-te de confiar-lhe mesmo a mnima parte dos teus, pois estejas certo de que ele se conduzir com seus ntimos como se conduziu contigo. til, de vez em quando, interceptar as cartas destinadas a teus subordinados. Depois que as tiveres lido com ateno, cuida que elas lhes sejam entregues para que no suspeitem de nada.11

Um homem de uma elegncia muito rebuscada com freqncia um efeminado que carece de fora moral. Um verdadeiro soldado no porta armas com adornos muito delicados. Assim tambm um artista consumado no utiliza ferramentas muito lindas nem muito elaboradas a menos que tenha a desculpa da extrema juventude. Quanto ao verdadeiro erudito, ele no dedica seu tempo a divertimentos fteis, nem a brilhar nos sales. Um bom meio de reconhecer um bajulador: conta-lhe que s o autor de uma ao ignbil fingindo orgulhar-te dela como de uma faanha. Se ele te felicita, um bajulador. Um homem sincero se absteria pelo menos de comentrios. Para desmascarar um falso amigo, envia-lhe um homem teu que, seguindo instrues tuas, lhe anunciar que ests beira da runa e da desgraa, que os documentos que fundavam tua posio neste mundo se revelaram sem valor. Se ele escutar teu emissrio com indiferena, deve ser banido do nmero de teus amigos. Mesmo assim, envia-lhe outro mensageiro que lhe pedir de tua parte sua ajuda e seus conselhos: vers sua reao. Mas quando tiveres as provas de sua deslealdade, finge no acreditar numa s palavra de tudo o que te tiverem contado a respeito dele. Reconhecemos as pessoas incultas em seu gosto pelo pomposo e o espalhafatoso na decorao e no mobilirio de sua casa. Alm disso, quando algum comete um erro de gramtica, elas riem abertamente a fim de que ningum possa ignorar que o notaram. Desconfia dos homens de baixa estatura: eles so teimosos e arrogantes. Para pr prova a solidariedade de teus amigos, denigre violentamente um deles em presena de um outro, ou, ao contrrio, faz um elogio ditirmbico dele. Sua reao, silncio ou frieza, ser eloqente. Aproveita quanto estiveres em companhia numerosa para pedir a cada um sua opinio sobre a melhor maneira de resolver uma questo delicada. As respostas te permitiro fazer uma idia precisa dos diferentes caracteres e dos graus de inteligncia de uns e de outros. Pede igualmente conselhos para enganar determinado indivduo: tambm nesse caso as diversas sugestes muito te ensinaro sobre a verdadeira natureza de cada um. Se propes conversar sobre perseguies, por exemplo, saibas que quem mais tem a dizer sobre o assunto quem mais as sofreu. A maior parte dos mentirosos tm covinhas nas bochechas quando riem. Das pessoas muito preocupadas com sua aparncia, nada a temer. Lembra-te que as pessoas muito jovens e os velhos senis te fornecero de bom grado uma imensidade de informaes, e em todos os domnios. Sobre o mesmo assunto, o tratante apresenta ora uma opinio, ora a opinio contrria, segundo as circunstncias. Cuidado com ele. As pessoas que conhecem muitas lnguas so com freqncia estouvadas, pois sua memria est to atulhada que sufoca sua faculdade de julgamento. Quando um indivduo podre de vcios tornasse bruscamente virtuoso, desconfia: essa mudana repentina oculta seguramente alguma coisa. Quando suspeitas que algum espalha aos quatro ventos o que dizes, confia-lhe coisas sem importncia, mas inteiramente pessoais e das quais no ters falado a mais ningum. Divulgadas tuas confidncias, sabers quem te traiu. Certas pessoas sentem prazer em contar seus sonhos. Aproveita essa propenso e lana-as em seu assunto favorito, pedindo a elas todo tipo de detalhes: ficars sabendo muito sobre os segredos de seu corao. Se, por exemplo, algum afirma ter afeio por ti, encontra uma ocasio para faz-lo falar de seus sonhos: se jamais sonha contigo que no te ama.12

Para discernir os verdadeiros sentimentos de outrem a teu respeito, mostra-te particularmente afetuoso, ou, ao contrrio, finge a hostilidade. Na maior parte das vezes a reao ser muito reveladora. No ds a impresso de ter a experincia do vcio, e sobretudo jamais reproves com demasiada violncia os vcios dos outros: suspeitar-te-iam dos mesmos. Se um denunciador vem te procurar para lanar acusaes contra algum, finge no apenas estar a par, mas saber muito mais que o denunciador. Sua reao ser ento acrescentar mais detalhes e esclarecimentos, e ele te revelar uma srie de coisas que de outro modo no te teria revelado. Um homem que fala com voz afetada, pontuando suas frases com tosses curtas, geralmente um efeminado, entregue em excesso aos prazeres da carne. O mesmo se d com aqueles sujeitos que vemos sempre embonecados, untados de pomada e bem penteados, que buscam apenas chamar a ateno e espreitam com o canto do olho os rapazes ou as meninas, sobretudo pberes. Os hipcritas esto sempre prontos a espalhar novidades e boatos. Sistematicamente os vers aprovar tudo o que fazes e, claro, desempenharo diante de ti a comdia da amizade; mas se em tua presena eles se comprazem em falar mal de algum, toma cuidado: no tardaro a te tratar exatamente da mesma forma. Eis como te assegurares de que algum saber guardar teus segredos. Escolhe primeiro um homem a quem fars uma confidncia sob promessa de sigilo. Depois faz o mesmo com um segundo. A seguir, coloca um terceiro a par de teu estratagema, encarrega-o de reunir os outros dois e de fazer aluso, durante a conversa, ao segredo que lhes confiaste. Poders assim avaliar o carter deles e saber qual dos dois te trair primeiro. Se, tomando conhecimento de que os trs so depositrios do mesmo segredo, um dos dois permanece calado, sabers que lidas com uma prola rara e poders com segurana fazer dele teu secretrio. Um bom mtodo para descobrir os propsitos de algum subornar uma pessoa pela qual ele est apaixonado: por intermdio dela, penetrars suas intenes mais secretas. SEGUNDA PARTE OS HOMENS EM SOCIEDADE Nesse caminho que sigo, continuarei a avanar ao sabor do acaso, sem me conformar a um plano definido. OBTER O FAVOR DE OUTREM Observa o que interessa pessoa cuja amizade procuras, e oferece-lhe presentes relacionados com seus centros de interesse e seu carter: tratados de matemtica, por exemplo, ou A magia natural ou os milagres da Natureza, ou ainda as obras de Mizauld. Livro do fsico e escritor Joo Batista Della Porta (nascido em Npoles em 1535, morto na mesma cidade em 1615). Crebro ecltico como poucos, no limite da cincia e da magia, da superstio e da f, no deixa de ser, no entanto, um dos pilares do pensamento cientfico moderno. O livro aqui mencionado ilustra soberbamente essa personalidade complexa e curiosa. Della Porta tambm o autor de um tratado sobre a refrao ptica, no qual estabeleceu os princpios que levaram inveno da cmara escura e, segundo o testemunho do prprio Kepler, em muito contriburam para a realizao do primeiro telescpio. Constantemente assediado pela Inquisio o papa dissolveu a Academia dos Segredos que ele havia fundado , foi tambm autor de comdias como O astrlogo, A furiosa, O mouro, Dois irmos rivais, alm de uma tragicomdia, Penlope. Antoine Mizauld (nascido em Montluon por volta de 1510, falecido em Paris em 1578). Astrlogo, amigo de Marguerite de Valois e de Gui Patin, autor de mais de quarenta obras que receberam grandes elogios do magistrado De Thou apesar do severo julgamento do historiador Gabriel Naud, que as considerava um amontoado de inpcias, de

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mentiras e de contos pueris. Foi o mesmo Naud que as deu a conhecer a Mazarino. Sua obra mais clebre, Nouvelles inventions pour incontinent juger du naturel de chacun par la seule inspection du front et de seus linaments [Novas invenes para julgar de imediato o temperamento de cada um pela simples inspeo do rosto e de seus traos] (Paris, 1565), certamente serviu de base s interpretaes fisiognomnicas do Cardeal. Ele igualmente o autor de um tratado de astronomia, Ls secrets de la Lune [Os segredos da Lua].

Visita-a com freqncia, pede-lhe conselho, aceita suas opinies. Mas guarda-te de lhe revelar muito a teu respeito, pois, se eventualmente ela se tornasse teu inimigo, facilmente levaria vantagem sobre ti. No lhe peas nada que ela s possa te conceder a contragosto como tudo aquilo que se preza. As festas solenes, seu aniversrio, a cura de uma enfermidade devem ser ocasies de lhe enviares teus cumprimentos em poucas frases simples mas graciosamente escritas. Fala-lhe com freqncia de suas virtudes; de seus desvios, jamais. Relata-lhe, murmurando-lhe ao p do ouvido, os elogios que lhe fizeram, particularmente os de seus superiores. Sob hiptese nenhuma apontars seus vcios. Tampouco digas nada daqueles que lhe atribuem, no importa o tom com que essa pessoa te solicite isso. Se ela se mostrar muito insistente, finge no poderes conceber que possa haver algum, a no ser muito insignificante. Ou ento, cita apenas os que ela prpria admitiu diante de ti numa conversa anterior. Com efeito, a verdade nesse domnio sobretudo se observada com preciso, e a despeito da delicadeza com que se d mostras apresent-la sempre deixa um gosto amargo. Sempre que possvel, envia-lhe tuas saudaes por intermdio de um terceiro, ou nas cartas remetidas a terceiros. Escreve-lhe regularmente. Jamais defendas uma opinio contrria dela. Cuida de no contradiz-la. Ou, se te permites faz-lo, deixa-lhe a possibilidade de te persuadir que ela tem razo e, fingindo adotar seu ponto de vista, oferece-lhe a ocasio de pensar que ela te fez mudar de opinio. No hesites em dirigir-te com freqncia a ela utilizando seus ttulos, e mostra-te sempre disposto a apoi-la em suas iniciativas, mesmo se prevs que no levaro a nada. Todavia, no procures em hiptese alguma atrair a amizade de algum imitando seus defeitos, e jamais te conduzas de um modo incompatvel com tua condio. Um eclesistico, por exemplo, deve evitar os gracejos vulgares, os banquetes regados a muito vinho, as palhaadas... Se se deixasse levar, isso poderia parecer simptico na hora, mas logo em seguida viriam o desprezo e os sarcasmos. Mais tarde, tais erros poderiam mesmo ocasionar dios tenazes a quem os tivesse cometido. Se justificado s vezes deixar o caminho reto da virtude, que no seja para tomar o do vcio. Se queres entrar na intimidade de algum, comea por observar quem tem direito a seus favores entre os membros de seu crculo, quem trama as intrigas, quem tem o privilgio de zombar dos outros. Usa de todos os meios para que cada um te aprecie: eles te sero teis no futuro. Poders aproveitar seus conselhos para fazer avanar teus propsitos sobretudo porque, quando do conselhos, as pessoas gostam de ver que eles so seguidos de fato e te apoiaro em teu empreendimento de seduo. Se h algum de quem desejas vingar-te, trata de desacredit-lo aos olhos dessas pessoas, de modo que passem a compartilhar teu desejo de prejudic-lo. No toleres que teu mestre te ordene uma ao criminosa: ao cumpri-la, talvez conquistasses sua gratido no momento, mas em breve ele no veria em ti seno um censor. Alm disso, as pessoas de seu crculo pensariam que s perfeitamente capaz de empreender contra elas o que aceitaste fazer contra um outro. De qualquer modo, serias considerado um homem cuja lealdade e a fidelidade se compram. Caso no puderes evit-lo, embolsa ento a recompensa de teu ato e desaparece o mais depressa. Se queres atrair o favor de algum, escreve a um terceiro uma carta elogiosa a seu respeito, e deixa-a extraviar-se de modo que seja interceptada e acabe por chegar s mos do interessado.14

No crculo daquele cuja amizade procuras, seguramente encontrars pessoas cujo maior prazer agradar. Espiando-as, tenta adivinhar o que lhe agrada e o que lhe desagrada, e age em conformidade. No hesites em cham-lo meu irmo, mesmo se for de uma condio inferior tua, e honram de todas as maneiras contanto ele tenha uma origem honrosa. Mas evita cumul-lo do que ele gosta a ponto de enjo-lo: para suscitar a cobia, para agu-la, prefervel deixar entrever que dar. Guarda a mesma reserva no jogo e na conversao. No peas a um amigo para te emprestar seja o que for: pode ocorrer que ele no possua aquilo que d a entender a todo o mundo que possui, e assim, desmascarado, ele te odiaria. Do mesmo modo, se consentir a contragosto, ou se no recuperar seu bem em perfeito estado, ele guardar rancor de ti. Tambm nunca compres algo de um amigo: se ele te pedir um preo muito alto, sers trapaceado, se o preo for muito baixo, ele que ser trapaceado. Em ambos os casos, vossa amizade se ressentir disso. Para proteger essa amizade, convm tratar bem os servidores de teu amigo, mesmo os mais humildes, caso contrrio eles procuraro te desacreditar dia aps dia em seu esprito. Pensa nisso por ocasio dos banquetes, quando fores convidado casa dele. Finge t-los na maior confiana, e confessar-lhes segredos supostamente importantes. Manifesta que nada te interessa mais que prestar servio a seu patro em qualquer circunstncia. No entanto, evita mostrar-te excessivamente familiar eles te desprezariam e tampouco irritarte contra eles eles te odiariam. O melhor meio para que te respeitem? Uma boa dose de gentileza e de distanciamento. Quando recebes pessoas bem-nascidas, mostra- te sempre benevolente, afetuoso, ameno, mas desconfia de uma humildade excessiva, de uma submisso exagerada beijarem-te os ps, por exemplo. Exclui de tua companhia os avarentos, eles so servis por natureza. Se queres atrair a simpatia do povo, promete pessoalmente a cada um gratificaes materiais: isso que lhes importa; as pessoas do povo so indiferentes glria e s honrarias. Se um inferior te convida sua mesa, aceita e no te permitas nenhuma crtica; demonstra em relao a todos uma perfeita cortesia. Mas, descontrado na conversao, conserva um toque de gravidade em tua compostura. Evita, sem o consentimento deles, apropriar-te de qualquer coisa que lhes pertena, e, se se queixarem de sua sorte, mostra-lhes compaixo. Confrontado a vrios partidos que solicitam tua proteo, reparte cuidadosamente teus benefcios entre todos. Se no podes evitar criticar certas pessoas, jamais as acuses de falta de juzo ou de competncia. Diz, por exemplo, que seus projetos, suas iniciativas merecem elogios em todos os pontos. Faz-lhes observar no entanto as graves dificuldades s quais se expem, ou o custo elevado de seu empreendimento. Faz-te sempre o defensor das liberdades do povo. Observa atentamente o homem do qual queres tornar-te amigo. Tem ele paixes? Armas? Conhecimentos? uma pessoa clemente? Sincera? No intercedas a no ser excepcionalmente junto a teu senhor em favor de outra pessoa: se obtiveres dele um benefcio para outrem, ser como se o tivesses reclamado para ti mesmo e prudente no solicit-lo com muita freqncia para reservar a ti seu favor. No reveles em nenhuma hiptese os segredos que ele te confiou, perderias sua estima. Se ele te ordena cometer um crime, procura ganhar tempo e achar um meio de te esquivar simulando, por exemplo, uma doena, alegando que roubaram teus cavalos...15

Os servidores daquele cuja amizade procuras, trata-os como amigos. Poders compr-los mais facilmente se um dia tiveres necessidade de que traiam seu senhor. No importa o mtodo que tenhas empregado para obter o favor de algum, apega-te ao mesmo para conserv-lo. Se, por exemplo, prestaste-lhe numerosos servios, ters de continuar prestando-lhe sempre novos, para conservar o favor adquirido sem jamais perd-lo. OS AMIGOS DOS OUTROS Faz grande elogios de algum em presena de um terceiro. Se este permanece calado, que no amigo do primeiro. O que tambm poders adivinhar se ele desvia a conversa para outro assunto, se responde com indiferena, se procura moderar teus elogios, se se diz mal informado sobre a pessoa em questo ou ainda se introduz no elogio pessoas que nada tm em comum. Podes igualmente mencionar um ato admirvel realizado por essa pessoa um ato do qual sabes que teu interlocutor est perfeitamente a par para ver se ele se vale ou no disso para encarecer. Talvez ele reaja dizendo que, nesse caso, antes a boa sorte que convm felicitar, que s vezes a divina Providncia se mostra muito prdiga em benefcios. Ou talvez aproveite para enaltecer faanhas ainda mais notveis de outras pessoas. Pode tambm afirmar que teu homem apenas limitou-se a seguir um bom conselho. Outra possibilidade: envia-lhe uma carta em que invocas o testemunho daquele de quem queres verificar se ele ou no seu amigo, pedindo-lhe para revelar-te um segredo: conforme ele o revelar ou no, poders avaliar seus sentimentos verdadeiros. Sada-o da parte desse suposto amigo, ou anuncia que recebeste dele ms notcias, e observa sua reao. BOA REPUTAO Jamais esqueas que qualquer um suscetvel de espalhar rumores a teu respeito se, em sua presena, te comportaste ou falaste de maneira demasiado livre, ou grosseira. Nesse ponto, no confies sequer num servidor, nem num pajem. As pessoas se baseiam num incidente isolado para generalizar; valem-se disso para fazer-te uma reputao que seja conforme. No contes jamais com o benefcio da dvida. Convence-te inclusive do contrrio. Portanto essencial no te descuidares em pblico, mesmo em presena de uma s testemunha. No contes, por exemplo, como no passado te sucedeu ser caluniado ou atacado injustamente: tornarias a lanar a ti mesmo na calnia, pois sempre haver algum para espalhar as falsas acusaes que tiveres mencionado. De nada serviria ento invocar a mxima de so Bernardo de Claraval: Perdoa a inteno se no podes perdoar a ao, nem explicar que, se pecaste, foi por acidente, por inadvertncia, ou que, se houve mal, foi porque buscaste deliberadamente pr prova tua virtude: essas santas consideraes no vm ao caso. Em troca, com os tagarelas impenitentes, abre-te em falsas confidncias. Faz-lhes acreditar sob promessa de sigilo, claro, e fazendo-lhes jurar pelo que h de mais sagrado que no o repetiro a ningum que exerces uma grande influncia sobre alguns poderosos, e que mantns com outros uma correspondncia regular. A seguir, redige, dissimulando-te, cartas a esses poderosos, assina-as e mostra-as aos tagarelas. Queima-as depois, no sem antes ter inventado respostas s quais, como por distrao, fars aluso. Nada mais eficaz para se fazer passar por um homem com o qual se deve contar. H todavia um risco: que os indiscretos espalhem confusamente o que tero ouvido de maneira confusa, ou mal compreendida. Assim, ao ler essas cartas a eles, cuida de articular bem, ser perfeitamente inteligvel.16

Afirma em alto e bom som que jamais fizeste mal a ningum, que por essa razo e por essa razo somente que esperas te elevar ao topo. De tua abnegao cita exemplos que ters inventado para a circunstncia. Toda vez que apareceres em pblico o menos freqentemente possvel, de preferncia , trata de conduzir-te de maneira irreprochvel: um nico erro basta para macular uma reputao, e o mal muitas vezes irreversvel. No te lances jamais em vrios empreendimentos ao mesmo tempo: no iro te admirar ao te verem disperso. prefervel ser bemsucedido num s, mas que impressione. Falo por experincia. Deve-se sempre confiar nas pessoas intuitivas, nos poderosos e em seus parentes. uma confiana bem colocada. Simula um ar modesto, cndido, afvel, finge uma perptua eqanimidade. Cumprimenta, agradece, mostra-te disponvel, mesmo em relao queles que nada fizeram por merec-lo. No incio de tua carreira, no economizes longas horas de reflexo nem os esforos mais rudes. Tambm no tomes iniciativas se no estiveres certo de triunfar. To brilhante em teus comeos quanto em qualquer outra coisa: uma vez estabelecido teu renome, mesmo teus erros se transformaro em ttulos de glria. Quando estiveres dominado por uma questo que tua incumbncia, recusa absolutamente tudo o que poderia distrair um pouco tua ateno. Com efeito, se porventura percebem que faltaste ainda que de maneira mnima aos deveres de teu cargo, disso prontamente te acusaro. E apesar de tudo o mais que possas ter realizado, apesar do fardo de preocupaes que te oprimia, imputaro tua falta a essa tarefa suplementar. Quando te envolveres num empreendimento, jamais te associes a algum mais competente ou mais experimentado que tu. Do mesmo modo, quando visitares algum, no te faas acompanhar de um terceiro que esteja em melhores relaes que tu com teu anfitrio. Se deves abandonar um cargo, faz de modo que teus sucessores no possuam talentos que ultrapassem muito visivelmente os teus. Pe no papel os episdios gloriosos da histria de tua linhagem, sem te preocupares com os ciumentos que, nessa hora, no deixaro de ironizar sobre teu orgulho. O que importa que os escritos, verdicos ou complacentes, tenham para os futuros leitores a aparncia de verdade enquanto as palavras faladas morrem com aqueles que as pronunciaram, ou mesmo antes. Um bom meio de construir para ti uma reputao de erudito: rene num volume o resumo dos conhecimentos histricos que puderes juntar e, todo ms, aproveita teus momentos de descanso para ler e reler essa compilao. Ters uma viso global da histria do mundo e, quando a necessidade se apresente, poders recorrer a teus conhecimentos para brilhar. Memoriza, de modo a ter sempre tua disposio, um repertrio de frmulas para saudar, replicar, tomar a palavra e, de maneira geral, enfrentar todos os imprevistos da vida social. Certos homens se rebaixam de bom grado, professando inclusive que essa a verdadeira grandeza. Afirmam dever suas distines apenas a acasos felizes, no sua coragem; a predisposies inatas, no a seus esforos. Fazem o possvel para se depreciarem, se humilharem, e at passarem por fracos e indecisos. Desconfia dessas atitudes, salvo se vm daqueles que dedicaram sua vida religio. Guarda sempre foras em reserva, a fim de que ningum possa conhecer os limites de teu poder. Sempre que puderes recorrer a subordinados para colocar teus planos em execuo, exercer presses ou infligir castigos em teu lugar, no te prives disso! Reserva-te para tarefas mais elevadas. Abstm-te de intervir em discusses em que se enfrentam pontos de vista opostos, a menos que estejas absolutamente seguro de ter razo e de poder prov-lo.17

Se deres uma festa, dispe para que teus servidores obtenham algum benefcio dela: a populao tagarela e a criadagem faz e desfaz as reputaes. Lana-lhes poeira nos olhos, isso abafar sua tendncia natural indiscrio e aos mexericos. Do mesmo modo, ao te mostrares afvel com teu cabeleireiro, ou com uma cortes, evitars que espalhem boatos maldosos a teu respeito. OS AFAZERES Encarrega teus subordinados das ocupaes menores, segundo uma repartio estrita das tarefas na qual posteriormente no mexers. Se um assunto de pouca importncia, dedica-lhe pouco tempo. Regra geral, e no importa o que te ocupe, nunca dispendas mais tempo que o indispensvel. Se por causa de uma questo abominavelmente complicada tens o bastante para arrancar os cabelos, intil persistir: mais vale arejar o esprito concedendo-te alguns divertimentos decentes e praticando um pouco de exerccio. Vers que em seguida resolvers teu problema facilmente, e mesmo muitos outros. Se tens as horas realmente contadas, por um intervalo ocupa-te de uma questo mais simples. Fragmenta as tarefas que exigem vrios dias de trabalho, e resolve-as por etapa uma aps a outra. Quanto s que requerem grandes esforos sem trazer nem glria nem dinheiro, faz que sejam confiadas a outros. No te deixes dominar, simplesmente para agradar algum, por afazeres que, alm de te tomar muito tempo, no serviro em nada a teus prprios interesses. Enfim, dispe para nunca tratar diretamente com os artesos, e no te ocupes nem com tesouraria, nem com jardins, nem com construes, coisas essas que do um trabalho imenso e s trazem contrariedade atrs de contrariedade. No te entregues seno a ocupaes relacionadas com tua qualidade. Se s prelado, no te interesses pela guerra; se s nobre, pela quiromancia; se s religioso, pela medicina; e se s letrado, no te batas em duelo. Guarda-te de fazer promessas muito facilmente e de conceder demasiadas permisses. Mostra-te difcil de alegrar, circunspecto antes de dar tua opinio. E, assim que a tiveres expressado, no a modifiques mais. No ds a impresso de encarar teu interlocutor, no esfregues nem franzas o nariz, evita ter um aspecto contrado, carrancudo. S econmico em teus gestos, mantm a cabea erguida e um tom um pouco sentencioso. Anda a passos comedidos e conserva em todas as circunstncias uma postura cheia de dignidade. Jamais confies a ningum tuas inclinaes ntimas, nem tuas repugnncias, nem tua timidez. Jamais te envolvas pessoalmente em ocupaes medocres: deixa-as a teus subordinados, e no fales delas. Que ningum presencie teu levantar, teu deitar, nem tuas refeies. Tem poucos amigos, que vers raramente. Assim evitars que eles esqueam a deferncia que te devem. Escolhe sempre tu mesmo o lugar de vossos encontros. Evita toda mudana brusca em teus hbitos, mesmo que para adotar melhores. Observa a mesma regra em relao ao luxo de teu vesturio ou ao fasto de tua criadagem. No pronuncies censuras nem elogios a no ser com uma grande moderao. Mas cuida que a fora de teus julgamentos esteja altura de seu objeto caso contrrio, tu que cairias num remorso imoderado.18

No manifestes seno raramente sentimentos muito vivos, como a alegria ou o espanto. Mesmo em companhia de amigos ntimos, no te afastes jamais de uma atitude piedosa, virtuosa. Mesmo se te sentes totalmente em segurana com aqueles que te cercam, procura no te queixar de ningum, no acusar ningum. No edites leis, ou muito poucas. Cuida de no te encolerizares facilmente, pois, se tua clera se extingue com a mesma facilidade, ters a reputao de um homem de humor instvel. Se deves falar em pblico, que teu discurso seja sempre preparado e escrito antecipadamente com o maior cuidado. LER, ESCREVER Se deves escrever num lugar por onde passa muita gente, coloca verticalmente diante de ti uma folha j escrita e finge recopi-la. Faz que todos a vejam. Dispe na horizontal as folhas sobre as quais escreves e procura encobri-las, de modo a deixar visveis apenas algumas linhas de uma nica pgina que ters efetivamente recopiado e que todos os que se aproximarem de ti podero ler. Quanto s folhas sobre as quais realmente ters escrito, oculta- as debaixo de um livro, debaixo de outras folhas ou sob aquela que finges copiar. Se algum te surpreende quando ests lendo, finge folhear rapidamente o livro que tens em mo, para evitar que adivinhem o que suscita teu interesse. Melhor: coloca uma pilha de livros tua frente, de modo que quem te observa no possa saber o que ests lendo. Se um importuno aparece quando ls, ou quando rediges uma carta, e se for perigoso para ti que essa pessoa saiba o objeto de tua leitura ou o contedo da carta, ento, queima roupa, e como se isso tivesse uma relao com o livro ou a carta, coloca-lhe uma questo que em realidade nada ter a ver com o que te ocupa. Finge, por exemplo, responder a algum que te teria escrito para pedir um conselho, e interroga o que acaba de entrar inesperadamente: Que conselho dar a um homem que se meteu em tal situao? Isso requer prudncia, reflexo... Ou ainda, pede ao intruso notcias de alguma coisa, ou de algum, sob pretexto de que queres falar disso em tua carta. Age sempre segundo essas regras, mesmo se ests tranqilamente fazendo tuas contas ou lendo por prazer. Procura sempre dar-te o trabalho de escrever de prprio punho os documentos que queres manter secretos. Podes eventualmente dit-los utilizando uma linguagem codificada ainda que, nesse caso, para enganar, seja preciso escolher uma que d a todo o mundo a iluso de compreender o que redigiste, como as que prope Trittenheim em sua 3 Johannes Tritemius (ou Tritheim). Nascido em Trittenheim por volta de 1460, falecido na abadia de Wurtzburg em 1516. Telogo, abade da abadia de Spanheim, posteriormente da de Wurtzburg. Fino homem de letras, esse beneditino extraordinrio, aps ter enriquecido de vrios milhares de obras a biblioteca de seu mosteiro, apaixonou-se pela alquimia e pela cabala. autor de vrios livros, entre os quais As luzes da Alemanha e Poligrafia e universal escrita cabalstica (1518), traduzidos para o francs em 1561. Poligrafia. Trata-se do mtodo mais seguro se no quiseres tu mesmo escrever, pois uma linguagem codificada que apresente um texto ininteligvel levantar necessariamente suspeitas, e, sendo assim, teu documento corre o srio risco de ser interceptado. Portanto indispensvel que tu mesmo escolhas o cdigo.

OS BENEFCIOS19

Mostra-te generoso quando se trata com certeza daquilo que no te custa, nem jamais te custar nada: por exemplo, privilgios que o beneficirio jamais poder usar. Um preceptor no deve tirar de seu aluno a esperana de que poder, graas a seu ensino, aprofundar os conhecimentos. Do mesmo modo, quando um pai d presentes a seu filho, deve fazer-lhe compreender que est longe de ter esgotado os recursos de sua bondade e que o filho pode ainda esperar outros sinais dela. O princpio idntico entre um senhor e os que o servem. Se o senhor faz doao de uma propriedade a um deles, este deve sentir que permanece dependente de sua boa vontade. Cabe ao senhor, portanto, fazer de modo que seu devedor tenha necessidade dele, por exemplo para se abastecer de gua ou de madeira, ou para utilizar o moinho. Se o senhor deve vincular-se a seu servidor por um contrato escrito, que haja uma clusula estipulando que o ato revogvel por ele quando quiser. Se julgas que um homem digno de uma funo, mas se ele se esquiva dela no momento em que lha outorgas, no aceites sua recusa, salvo se a exprime publicamente: de outro modo, imaginariam que no so apenas seus mritos que teu favor entendia recompensar, mas algo de mais duvidoso. Todavia, para evitar que ele se esquive, pega-o de surpresa. Faz com que assuma sua nova funo no dia mesmo em que lha conferes, e parte em viagem em seguida. Deste modo, se ele quiser te manifestar sua recusa, ser obrigado a te escrever e aguardar tua resposta; mas, nesse meio tempo, j ter comeado a exercer seu cargo. No sejas avaro dos favores que nada te custam: por exemplo, concede facilmente indultos de penas. Ou ento renuncia, guisa de concesso, a uma nova cobrana de imposto, dando a entender que, a exemplo de um senhor da vizinhana, te preparavas para aplic-la apesar de seu carter injusto. Escolhe para teu servio pessoas que no tenham o gosto do luxo, que no apreciem nem as armas caras, nem as jias, nem os cavalos. Poders assim prodigalizar-lhes sinais de tua generosidade sem gastar muito dinheiro. Inventa maneiras originais de dar: se, por exemplo, queres presentear um arcabuz, organiza um concurso de tiro em que recompensars o vencedor seja porque tens certeza de quem triunfar, seja porque o resultado pouco te importa contanto estejam presentes testemunhas de tua liberalidade. No procures atrair os servios de algum fazendo-lhe muitas promessas, ele recusaria. Todos sabem perfeitamente que prometer uma maneira de no dar e de mostrar-se generoso apenas em palavras. Se algum se enaltece a todo momento de suas grandes riquezas, instiga os que ouvem suas fanfarronadas a fazer-lhe solicitaes. Evita revogar decises daqueles que te precederam: talvez eles estivessem em condies de prever acontecimentos com os quais tu no contas. No concedas privilgios perptuos: talvez um dia tenhas vontade de conferi-los a uma outra pessoa. No ds a impresso de ser prdigo em recompensas. Todavia, quando as concederes, evita fazer sentir seu valor: ficaro ainda mais agradecidos a ti por isso. Identifica os que esto passando por privaes; procura saber o que lhes falta e qual sua situao real. Se decides ajudar algum, no comentes nada a teu redor: mago-lo-ias, dando a impresso de que o censuras por isso. E se, por algum motivo, s forado a falar, faz como se fosse uma dvida que pagas, e como se nisso no se devesse ver nem favor nem recompensa. Em troca, se s tu que recebes um presente, cuida de manifestar claramente tua gratido por mais modesto que ele seja.

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SOLICITAR Vigia para que tuas solicitaes no levem teu benfeitor e amigo falncia, ou no exijam dele sacrifcios excessivos. O melhor declarar-lhe simplesmente que ests sofrendo privaes. E se acaso no obtns grande coisa dessa forma, estejas certo de que no terias obtido mais por pedidos insistentes. Nesse caso, que teus sinais de reconhecimento estejam altura do pouco que esse amigo tiver feito por ti: que ele fique bem consciente de que continuas tendo necessidade de sua ajuda. Se deves solicitar dele no dinheiro mas um procedimento importante, comea por lhe falar de outros assuntos e, no meio da conversa, como quem no quer nada, faz-lhe compreender o que esperas realmente dele. Aborda os poderosos com prudncia, pois eles facilmente imaginam que tentam manipul-los. Convm recorrer a intermedirios, e escolher pessoas bem-nascidas. Por exemplo, podes pedir a um filho para interceder junto a seu pai com a condio de que seus prprios interesses no estejam em concorrncia com os teus. Para fazer uma solicitao, convm saber escolher o momento. prefervel que o homem que vais solicitar esteja de bom humor: assim, abordo durante folguedos, ou aps um banquete contanto, claro, que o vinho e a boa comida no o tenham deixado sonolento. Evita os dias em que o homem est envolvido numa srie de problemas, ou aqueles em que o vs extenuado de fadiga. Evita sobretudo fazer vrias solicitaes ao mesmo tempo. Se s tu que favoreces os interesses de algum, toma muito cuidado, em pblico, de conduzir-te com ele exatamente como com um estranho. No lhe concedas seno raros encontros, e breves, a fim de dar a impresso de que por preocupao com o bem comum que ages dessa maneira, no para privilegiar interesses particulares. Adapta tua maneira de ser e tuas palavras quele com quem ests lidando. Aos avarentos, fala de prejuzos e lucros, aos devotos, de Deus e de Sua maior glria, aos jovens vaidosos, de sucessos provveis e humilhaes possveis. Jamais peas a teu senhor para conceder-te privilgios por escrito, o que no se consegue seno aps um tempo infinito, ou nunca. Um mtodo bem melhor redigir tu mesmo a ata, coloc-la ante seus olhos num momento oportuno para que ele tenha s que apor sua assinatura. No cometas o erro de pedir a algum um objeto raro que ele estima, sobretudo se no necessitas dele expressamente. Pois, se recusar, ele ter o sentimento de te haver ofendido e guardar rancor de ti; se consentir, tambm te querer mal, pois te considerar doravante como um pedinte maante e indelicado. Como sempre desagradvel suportar uma recusa, no peas nada que no estejas certo de obter. por essa razo que mais vale nada pedir diretamente, mas dar a entender por meias palavras aquilo de que necessitas. Quando tens a inteno de solicitar um favor, no a deixes transparecer a ningum antes de t-lo obtido. Declara mesmo abertamente que nada esperas desse lado. Anuncia por toda parte que foi um outro que recebeu o que havias por um momento cobiado, e vai felicitar o feliz eleito. Se te recusam alguma coisa, recorre a algum que ter mais chances que tu, a fim de que ele te repasse discretamente o objeto desejado depois que o tiver obtido. Se algum disputa uma honraria que tambm cobias, envia-lhe secretamente um emissrio que, em nome da amizade, o dissuada, mostrando-lhe os mltiplos obstculos que de toda forma ele teria de enfrentar.21

ACONSELHAR Quando queres fazer que algum compreenda que est errado, comea por lhe falar de outras coisas e chega, como por acaso, aos atos que merecem reprimenda. Faz ento uma descrio caricatural deles, diz o quanto te desagradam, mas junta-lhes circunstncias diferentes para que o homem que pretendes aconselhar no se sinta diretamente visado. Faz de modo que ele te escute de bom grado, sem se aborrecer; tempera tuas palavras com alguns gracejos e, se de repente, ele fizer cara feia, assume um ar ingnuo e pergunta-lhe a razo. Enfim, misturando-os a consideraes diversas, aborda os remdios que podem ser adotados num caso como aquele que te preocupa. Se algum acha que suspeitas dele acerca de um delito qualquer, eis como se aproveitar disso: confia-lhe secretamente uma misso, que escolhers de modo que os riscos sejam para ti pequenos. Pressionado para reabilitar-se de tuas suspeitas, podes ter a certeza de que ele por todo o seu zelo em te servir bem, desta vez e em outras ocasies. Eis por que, de tempo em tempo, no ruim dar a entender aos subordinados que alimentamos uma sombra de suspeita a respeito deles. Os jovens legalmente maiores de idade tm propenses rebelio e libertinagem. Se os censurares num tom grave e sentencioso, no fars se no excitar suas inclinaes. Assim, na maioria dos casos, prefervel armar-te de pacincia e esperar que eles se corrijam por si mesmos ou se cansem de seus desregramentos. Mas se sabes usar tua autoridade bastante habilmente para recoloc-los na linha, evita passar bruscamente do rigor indulgncia. Com os temperamentos plcidos, mostra-te direto e, se preciso, bate com o punho na mesa: isso os impressiona. Com as naturezas agitadas, ao contrrio, demonstra doura e delicadeza. NO SE DEIXAR SURPREENDER Convm no confiar demais nas palavras dos sbios: eles minimizam a tal ponto sua superioridade que a reputao dos outros resulta engrandecida em excesso. Jamais te confessaro que algum falou mal de ti na presena deles. Tampouco te diro de quem deverias desconfiar, nem quais so os vcios de uns ou de outros. Isso se aplica igualmente aos padres, que enaltecem os mritos de seus penitentes uma regra de seu sacerdcio , e aos pais, que fazem o elogio de seus filhos. Se temes que algum se aproveite de tua ausncia para suscitar queixas contra ti ou espalhar calnias a teu respeito, acha um pretexto amistoso e roga-o a acompanhar-te em viagem, caa ou guerra. Vigia-o e, quando estiveres acompanhado, mesa ou noutros lugares, no o deixes se afastar. Do mesmo modo, para evitar que uma nao se aproveite de uma de tuas expedies para te declarar guerra, leva contigo a elite dessa nao como se no tivesses aliados mais fiis , mas cuida de fazer escoltar essas pessoas por um pequeno grupo de homens armados devotados a teu servio. A BOA SADE Procura te alimentar sem excesso, nem em quantidade, nem em qualidade. Faz o mesmo em relao s roupas, conforme esteja frio ou quente. Evita trabalhar demais ou, ao contrrio, dormir demais. Convm que tua casa seja bem arejada, mas que as peas no tenham o teto muito alto. A ingesto e a defecao, causas de numerosas doenas, devem obedecer s mesmas regras de moderao e de regularidade, assim como o movimento e o repouso, e tambm os desejos carnais, que devem ser controlados. No habites nas22

proximidades de um pntano, menos ainda beira de um rio. Escolhe um quarto de dormir cujas janelas estejam orientadas de preferncia a nordeste que a noroeste. No trabalhes mais de duas horas seguidas sobre um problema difcil: de tempos em tempos faz uma interrupo para repousar o esprito. Habitua-te a uma alimentao simples, feita de produtos que possam ser facilmente obtidos e em qualquer lugar. Seja qual for tua qualidade, no te entregues aos prazeres da carne seno com uma freqncia moderada, mas de acordo com as exigncias de teu temperamento. DIOS E RANCORES Recusa testemunhar nos processos judiciais: necessariamente suscitarias o rancor de uma ou da outra parte. Jamais forneas informaes sobre um homem que no seja nobre de nascimento menos ainda se for de baixa extrao , e age como se ignorasses tudo dele. Se, durante uma conversao, decides lanar uma queixa a algum, sobretudo no te mostres zangado, mas continua a falar como se fosse algo insignificante. Em presena de terceiros, no manifestes a ningum um favor particular: considerariam que desprezas os outros e te votariam um dio tenaz. Evita progredir em tua carreira de modo muito rpido ou muito evidente. Face a uma luz cada vez mais brilhante, os olhos devem se habituar aos poucos, caso contrrio, ofuscados, se desviam. Jamais te oponhas ao que agrada s pessoas do povo, quer se trate de simples tradies ou mesmo de hbitos que te repugnam. Se s forado a admitir que cometeste uma ao odiosa, no estimules o dio que ela provoca dando a impresso de no sentir nenhum remorso ou, pior ainda, de escarnecer de tuas vtimas, ou de te orgulhar do que fizeste: far-te-ias odiar duas vezes mais. O melhor desaparecer, deixar o tempo fazer sua obra e no te manifestar. Evita toda mudana extravagante em teu modo de vestir, e no exageres no luxo das festas que ofereces. Se editas leis, que sejam as mesmas para todos: nesse ponto, alis, preciso assumir o risco de confiar na honestidade de uns e outros. Cuida, para adular o povo, de prestar contas de teus atos, mas somente depois de tomados, a fim de que ningum resolva contestar tuas decises. Adota como regra absoluta e fundamental jamais falar irrefletidamente de quem quer que seja no importa se falando bem ou mal e jamais revelar as aes de qualquer pessoa, boas ou ms. Com efeito, sempre possvel que um amigo daquele que criticas esteja presente e se apresse a transmitir tuas palavras exagerando-as, criando-te um inimigo a mais. Em troca, se fazes o grande elogio de algum na presena de um outro que o odeia, desse outro que provocars a inimizade. bem verdade que necessrio saber tudo, ouvir tudo, ter espies por toda parte, mas convm tomar tuas informaes com prudncia, pois as pessoas logo passam a te odiar se se sabem vigiadas. Espiona-as portanto sem te fazer notar. Evita manifestar o que se pode chamar um excesso de altivez. Quando, por exemplo, afirmas que no esperas servios de ningum, que dispes de tropas em nmero suficiente, alguns vem nisso apenas desprezo. Jamais te vanglories de praticar uma poltica melhor que a de teus predecessores, nem de anunciar que tuas leis so ao mesmo tempo mais rigorosas e mais eqitativas: atrairias a animosidade de seus amigos. Mesmo se forem perfeitamente justificados, nada reveles de teus projetos polticos ou, pelo menos, no fales seno daqueles que tens certeza sero bem acolhidos por todos. Eis agora como conduzir-te em relao a teus servidores. No concedas a todos o que era inicialmente privilgio de alguns. Jamais ds a impresso de delegar uma parte de tua autoridade a um deles, sobretudo se os outros o detestam. Evita distinguir um ou dois por23

favores particulares, a menos que todos estejam de acordo em admirar seu devotamento, pois ento tua recompensa ter um efeito de emulao. Se deves punir um ou outro de teus servidores, encarrega disso um terceiro. Faz como se no fosse de ti que viesse a sano. Deste modo, se aquele que provocou tua severidade vier queixar-se a ti, ters a liberdade de abrandar o castigo e de fazer recair a responsabilidade sobre aquele que aparentemente ter tomado a iniciativa de castigar. Se, por exemplo, ests frente de um exrcito cuja disciplina se relaxa, deixa aos oficiais a tarefa de punir. Ordena-lhes que castiguem os soldados indisciplinados condenando-os a trabalhos penosos, sem fixar limite a seu rigor. Para se redimirem a teus olhos de terem deixado instalar-se a indisciplina, eles infligiro aos culpados punies muito severas, o que te dar a oportunidade de ostensivamente demonstrar indulgncia para com os soldados que vierem pedir tua clemncia. Deixa triunfar a seu gosto os que realizaram autnticas faanhas e merecem uma glria verdadeira, sem reivindicar tua prpria parcela de louvores: essa glria se refletir ainda melhor sobre ti se a ela juntar-se a de teres te mostrado acima da inveja. Atribui teus xitos e teus sucessos a outrem. Por exemplo, a uma pessoa experiente que te ajudou com sua previdncia e seus conselhos prudentes. Faz como se no tirasses nenhum orgulho de teus sucessos, no modifiques em nada teu modo de falar ou de vestir, nem teus hbitos de mesa. Ou, pelo menos, se deves modificar alguma coisa nesses domnios, que seja por uma razo bem definida que todo o mundo compreender. Se te preciso punir algum, faz de modo que ele prprio se reconhea culpado. Ou ento, faz que seja julgado por outra pessoa a quem ters determinado infligir-lhe um castigo severo: poders a seguir atenuar a sentena. Quando tiveres triunfado de um adversrio, no cedas tentao de insult-lo acima da conta. No zombes de teus rivais, evita provoc-los e, toda vez que fores vencedor, contenta-te com o prazer da vitria sem te glorificar em palavras ou em atos. Se s chamado a decidir entre dois partidos de maneira categrica, comea por utilizar frmulas ambguas. Por exemplo, em favor do partido que queres defender, fala num tom solene mas dando a impresso de que te inclinas mais pelo partido oposto. Ou ento reserva tuas concluses. Se te pedem para interceder em favor de algum numa disputa, no recuses, mas procura fazer compreender que o caso no depende de ti, que no s tu que decidirs de seu resultado, e que este poderia de fato ser contrrio ao que desejas. Se decides te vingar, faz isso por intermdio de um terceiro, ou age dentro do maior segredo. Ao mesmo tempo que ajudas um agressor a fugir secretamente e o mais rpido possvel, faz com que o agredido lhe perdoe. Se so parentes teus que se enfrentam num processo, no tomes partido nem a favor de um, nem a favor de outro. Finge estar sobrecarregado de trabalho e desculpa-te junto a cada um. No tendo dado preferncia a nenhuma das partes, nenhuma das duas poder julgar-se trada. Ningum deve poder imaginar que em concordncia com teus superiores tomaste parte na elaborao de novas leis, sobretudo se forem impopulares. Mostra-te o mnimo possvel em companhia do verdadeiro detentor do poder; mas conta-lhe discretamente boatos e anedotas, contanto que sejam sem conseqncias. Sobretudo no te orgulhes diante de algum de haver conquistado sua amizade.24

Se notarem tua influncia sobre os poderosos, tu que sers tido como responsvel por suas ms aes. Vigia portanto para que teu superior escute atentamente teus conselhos, leve em conta tuas observaes, mas no se envolva em grandes perturbaes polticas a no ser em tua ausncia. Precauo particularmente til aos confessores dos prncipes. Se, na conversao, algum elogia tua famlia e teus antepassados, muda logo de assunto. As pessoas apreciaro tua modstia, e tua reputao no ser manchada pela inveja. Se deres mostra de um pouco de vaidade, suscitars cime e animosidade. Jamais te faas o defensor de medidas demaggicas. Se algum nunca te demite de tuas funes, manifesta publicamente tua satisfao e mesmo teu reconhecimento para com aquele que te proporcionou a quietude e o lazer aos quais aspiravas. Encontra os argumentos mais convincentes para os que te escutam: assim evitars que desgraa se junte o sarcasmo. No procures abertamente saber nem quem te combateu, nem quem o apoiou em seus esforos para te derrubar. Se tens um inimigo jurado, jamais faas aluso a ele. Em troca, da mais alta importncia que descubras todos os seus segredos. No concedas entrevistas em pblico s pessoas odiadas por todos, e no te tornes conselheiro delas. Se participaste de um conselho em que foram tomadas medidas que todos concordam serem muito rigorosas, d um jeito para que no o saibam, mesmo se tais medidas visam apenas pessoas sem influncia: poderiam supor que foste o instigador delas. No comentes nem critiques os atos de ningum. Evita examinar muito de perto a maneira como os outros desempenham suas funes. Guardate, se no s convidado, de entrar nos escritrios, nas propriedades, nas estrebarias, e em todos os lugares onde poderiam acreditar que vens para espionar. Quando te dirigires a servidores ou a pajens para obter informaes sobre seu patro, faz isso sempre com a maior prudncia. Toma cuidado para que nada em tua conduta, em teus gestos, em teu andar, em teus ditos espirituosos, em teus comentrios e no tom em que os fazes, em teus risos, em tuas predilees, jamais possa ser tido como injurioso. Mesmo muito ocupado, recebe sempre amavelmente um visitante inesperado e d-lhe a impresso de ser bem-vindo. Roga-o, porm, a desculpar-te por hoje e a voltar outro dia. Saibas que, se queres viver em paz, em geral ters de aceitar todo tipo de pequenos desagrados. Sempre que em tua presena fizerem afirmaes erradas, deixa falar sem intervir, nem ds a entender que ests melhor informado. Jamais recebas algum com um gracejo ou um dito espirituoso: ele poderia perceber isso como uma excessiva liberdade em relao a ele, ou uma forma de sarcasmo. Se teu visitante acaba de sofrer um revs, sobretudo no zombes dele: ao contrrio, encontra-lhe escusas, permita-lhe aliviar seu corao e, conforme for, esfora-te por ajud-lo. Se tens prerrogativas de juiz, no te sirvas delas para dar ordens a pessoas fora de tua jurisdio. OS SEGREDOS No desdenhes conversar com pessoas sem estirpe e de baixa condio: tua benevolncia lhes dar prazer e, em troca de um pouco de ouro, elas te diro tudo o que esperas saber delas. Faz o mesmo com os pajens, embora consciente de que com eles h sempre riscos. Recomenda aos servidores que revelam os segredos de seu senhor que desconfiem uns dos outros, e, a fim de manter a confiana que tm em ti, jamais esqueas de cumprir as promessas que lhes fizeste. ltima precauo: evita fazer uso imediato dos segredos que eles te revelarem.25

AS INTENES Antes de mais nada, escuta atentamente as razes daquele que vem defender uma causa diante de ti, e pergunta-te se so vlidas. Depois, observa como esse homem tem o costume de se comportar, e deduz se h motivos para duvidar de sua sinceridade. Assim, algum que se exprime com muito ardor, quando habitualmente jamais se apaixona por nada, certamente no diz o que pensa. Por outro lado, aquele que muda facilmente de opinio e hoje defende com o mesmo arrebatamento o que ontem denunciava, evidente que foi comprado. Se algum permanece obstinadamente em suas posies mesmo depois de lhe terem demonstrado seu erro, estejas certo de que suas motivaes no so as que afirma. Ocorre o mesmo se ele faz discursos inflamados mas apoiados em argumentos sutis e retorcidos, se usa de uma sofstica complicada ou se recorre a razes que no so prprias de seu carter. H tambm pessoas que, para sustentar um ponto de vista, se baseiam em argumentos que no final de sua demonstrao contradizem o que sustentaram no incio pois certo que, o que dizemos sem pens-lo verdadeiramente, esquecemos de imediato. Em tais casos, envia ao homem com quem ests lidando algum que lhe inspire confiana e depois o interrogue amigavelmente sob promessa de sigilo: ele obter desse homem uma verdade completamente diferente. JAMAIS OFENDER Se, em relao a algum que te solicitava um servio, te mostraste reticente, ou mesmo indelicado, no concedas o mesmo servio a seu inferior, nem mesmo a seu igual. No apenas perderias sua confiana como ele te conservaria um dio tenaz por isso. No te mostres de sbito mais exigente e mais severo para com aqueles cuja situao depende de ti, sem te mostrares ao mesmo tempo mais generoso. Em troca, ao aumentares tanto as recompensas quanto os castigos, essas pessoas te sero mais dedicadas, por uma mistura de amor e de temor. Se decides uma inovao que possa ofuscar os outros e sobretudo teu senhor, trata de conseguir mulos. No sendo o nico a suscitar inimizades, estas, em razo de seu nmero, perdero muito de sua virulncia. Se te sabem o instigador de uma medida impopular, acalma a populaa concedendo-lhe ostensivamente algumas gratificaes: uma reduo de imposto, o indulto de um condenado, por exemplo. Mostra sempre que tens as melhores relaes com os que querem bem plebe. Se cogitas uma mudana de orientao poltica, procura preliminarmente e em segredo um telogo, ou uma pessoa entendida, e obtm sua aprovao plena e cabal. Depois d um jeito para que seja ele que te faa essa sugesto diante de testemunhas, ele que te incite a isso e melhor ainda ele que parea abertamente fazer presso sobre ti. Se decides promulgar novas leis, comea por demonstrar a imperiosa necessidade delas a um conselho de sbios, e ultima essa reforma com eles. Ou ento faz que se propague simplesmente a notcia de que os consultaste, e que eles te aconselharam abundantemente. Depois legifera sem te preocupar com seus conselhos, como achares melhor. Jamais trates de obter para algum nem esposa, nem criada. Tampouco procures persuadir quem quer que seja a mudar seu modo de vida. Jamais aceites o encargo de executante testamentrio.26

Se eventualmente ests presente no momento em que algum d ordens a seus servidores, no te julgues obrigado a partir; mas no intervenhas, nem para aprovar, nem para contradizer. Ao chegares num novo pas, no caias no erro to comum que consiste em tecer louvores aos habitantes e enaltecer os costumes do pas que acabas de deixar. Se, nas questes que dizem respeito conscincia e moralidade, te sentes interiormente inclinado severidade, segue apesar de tudo o partido da indulgncia e faz o mesmo em todos os outros tipos de questes. Que isso no te impea, no resto do tempo, de pregar o rigor. Em pblico, jamais afirmes ter influncia sobre teus superiores; nunca te enalteas de gozar de seu favor. Tampouco te deixes levar a confidncias dizendo o que pensas desse ou daquele. Quaisquer que sejam tuas funes, saibas que podes sempre atrair as boas graas de um superior assegurando-lhe proventos. Quanto aos inferiores, sempre prefervel mostrarbrandura em relao a eles mesmo se s aparente em vez de rigor excessivo. Se te contam que um suposto amigo falou mal de ti, no o censures por isso: farias dele um inimigo, quando at o momento ele no seno, no pior dos casos, um indiferente. No busques penetrar o segredo dos poderosos: se eles forem divulgados, de ti que suspeitaro. Se algum te visita com o nico objetivo de te ser agradvel, para te felicitar ou te transmitir as saudaes de uma outra pessoa, acolhe-o calorosamente e, no momento oportuno, devolve-lhe a cortesia. Quando um amigo te fizer promessas e no as cumprir, no lhe mostres que ests aborrecido: ganharias apenas seu ressentimento. No jogo, deixa ganhar teu senhor quando isso razovel: quero dizer, quando arriscas apenas o amor-prprio, e no o dinheiro. Um homem de carter verdadeiramente temperado jamais vencido por ningum, exceto por seu senhor. Mesmo se tuas relaes com teu senhor so de grande intimidade, jamais dispenses a deferncia e a submisso que lhe deves; caso con