Bruno Peron - Aresta Da Paixão

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ARESTA DA PAIXÃO Bruno Peron

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Bruno Peron, Aresta Da Paixão, Outubro de 2013

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  • ARESTA DA PAIXO Bruno Peron

  • ARESTA DA PAIXO

    Bruno Peron

    Brasil Edio do Autor

    1 Edio Outubro de 2013

  • PERON LOUREIRO, Bruno. Aresta da paixo. Brasil,

    Publicao Autnoma, Livro Eletrnico, 1 Edio, Outubro

    de 2013. Fonte: .

    No necessrio pedir autorizao ao autor desta publicao

    para consulta, gravao em disco, divulgao,

    encaminhamento a outros leitores e reproduo dos

    captulos e trechos contidos nela desde que se atribua

    devidamente o crdito da obra ao autor e fonte.

  • NDICE

    Prefcio.......................................................................................................................... 1 1. Tergiversao......................................................................................................... 3 2. Feriado e interrupes......................................................................................... 5 3. Feriado: Para uma releitura................................................................................. 7 4. Loterizao e cultura lotrica.............................................................................. 9 5. Habitao e cidade artificial...............................................................................11 6. Idosos....................................................................................................................13 7. Indgenas e Estado brasileiro.............................................................................15 8. Autor da mensagem............................................................................................17 9. Passos do gentil....................................................................................................19 10. Funo das vacas.................................................................................................21 11. Desero escolar..................................................................................................23 12. Loja do vassoureiro.............................................................................................25 13. Manaus e o desenvolvimento............................................................................27 14. Esporte..................................................................................................................29 15. Deficincias..........................................................................................................31 16. Tolerncia.............................................................................................................33 17. Ambiente...............................................................................................................35 18. A lanchonete.........................................................................................................37 19. Mortalidade infantil.............................................................................................39 20. Crise da criatividade............................................................................................41 21. As etiquetas...........................................................................................................43 22. Rotina....................................................................................................................45 23. A razo do vandalismo.......................................................................................47 24. Os Muppets e o Brasil........................................................................................49 25. Circos e festas infantis........................................................................................51 26. A picaretagem do Buy American......................................................................53 27. O desafio do petrleo.........................................................................................55 28. Fofocas..................................................................................................................57 29. Dedo na tomada..................................................................................................59 30. Feminismo............................................................................................................61 31. Experincia faltante.............................................................................................63 32. Brasil encarcerado................................................................................................65 33. Policiais de planto..............................................................................................67 34. Caleidoscpio.......................................................................................................69

  • 35. Supermercado.......................................................................................................71 36. A sade e a imaginao.......................................................................................73 37. As rodovias...........................................................................................................75 38. A informtica........................................................................................................77 39. Pav de amendoim..............................................................................................79 40. Brasil letrado.........................................................................................................81 41. Velrio e candelabro...........................................................................................83 42. Na mosca..............................................................................................................85 43. Honduras e a democracia...................................................................................87 44. Violncia real e fictcia........................................................................................89 45. Loja de importados..............................................................................................91 46. Padro europeu....................................................................................................93 47. Meninos de rua.....................................................................................................95 48. Durabilidade.........................................................................................................97 49. Do local ao global................................................................................................99 50. Clube da cultura.................................................................................................101 51. Sada para fotos..................................................................................................103 52. Patrimnio..........................................................................................................105 53. UNASUL e a corrida de galinhas....................................................................107 54. Encomenda ao Brasil........................................................................................109 55. Banco do Sul e tendncias neurastnicas.......................................................111 56. O tal pargrafo...................................................................................................113 57. Finalidade da rdio............................................................................................115 58. Imagens do Brasil..............................................................................................117 59. Descobertas da espcie.....................................................................................119 60. Cultura de acesso VIP.......................................................................................121

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    PREFCIO

    resta da paixo uma compilao de textos escritos entre setembro de 2008 e outubro de 2009. H uma alternncia entre reflexes filosficas

    (Ambiente, Descobertas da espcie, Passos do gentil, Tolerncia), sobre a Amrica Latina (Honduras e a democracia, UNASUL e a corrida de galinhas, Banco do Sul e tendncias neurastnicas), e sobre o Brasil contemporneo (Manaus e o desenvolvimento, Mortalidade infantil, Brasil encarcerado).

    Nalguns textos, deixo a linguagem mais coloquial e prxima de acontecimentos do dia-a-dia (A lanchonete, As etiquetas, Loja do vassoureiro) e baseio minha interpretao em acontecimentos corriqueiros. Continuo sendo motivado, porm, a discutir temas do desenvolvimento brasileiro e a insero do Brasil no mundo de uma perspectiva cultural e poltica. Busco, em reas diversas do conhecimento, noes e ferramentas para construir minha posio.

    Minha preocupao com as identidades brasileiras (histricas, econmicas, culturais, geogrficas, polticas, etc.) constante desde que comecei a escrever textos no formato dos que esto nesta compilao. Infludo por minha formao acadmica, chego gradualmente a uma interpretao do Brasil contemporneo passando pelo entendimento de sua posio nas relaes internacionais e na Amrica Latina. Fiz Graduao em Relaes Internacionais e, seguidamente, Mestrado em Estudos Latino-americanos. Busco entender contextos e processos mais amplos para rever as particularidades brasileiras. Penso nas identidades, assim, no somente como constituintes simblicas seno mais amplamente enquanto fatores de polticas pblicas que determinam nossa satisfao ou insatisfao com a economia, a segurana e a educao.

    Enquanto redigia os textos desta compilao, despedia-me do Mxico. Tive um momento singular em minha formao acadmica aps cumprir meu ano derradeiro no programa de Mestrado em Estudos Latino-americanos na Universidade Nacional Autnoma do Mxico (UNAM). A despeito do direcionamento que as elites polticas mexicanas do na integrao deste pas com a Amrica do Norte, aprendi com meus colegas e professores do Mestrado a valorizar a integrao latino-americana, as culturas tradicionais e o pensamento autnomo a favor de nossa regio. Passei a dedicar mais tempo e ateno s experincias dos pases latino-americanos e possibilidade de integr-los via polticas de complementaridade em vez de desconhecimento.

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    Pases da Amrica Latina no s compartilham histrias e costumes em suas trajetrias, sobre cuja interpretao capciosa s lhes restaria buscar incessantemente o que a Amrica do Norte e a Europa tm de melhor. Em vez disso, presto ateno nos destinos divergentes que dividem os pases latino-americanos (hoje vemos, por exemplo, a Aliana do Pacfico e o Mercado Comum do Sul) e nos modos em que um pode aprender com o erro do outro.

    A redao dos textos que compem esta Aresta da paixo demandou-me o recurso a atividades e sentimentos passionais sem os quais minha abordagem ficaria sistematicamente sem graa. Uma destas paixes a de que o Brasil aflora como uma nova civilizao, onde o melhor e o pior do mundo tm chance de reciclar-se e regenerar-se. Outra minha conscincia de que a Amrica Latina deve olhar mais para dentro a fim de que seus pases troquem experincias e complementem-se; para este fim, preciso melhorar a formao cidad e aumentar a representatividade poltica das culturas tradicionais.

    A abordagem de temas polticos j quase sempre envolve posturas passionais de quem inicia algum debate, alm de provocar este tipo de reao em outrem. A poltica no teria este nome se resultasse de um consenso. Contudo, comeo a dar um giro de perspectiva para incluir aspectos polticos no entramado cultural do Brasil e da Amrica Latina. A paixo pelo que fao intermedia esta metodologia de enfoque na medida em que incentiva, provoca e reacende a escritura sobre temas corriqueiros e outros nem tanto.

    Desejo uma tima viagem por esta Aresta da paixo e que se controlem os sentimentos sobre temas que, inevitavelmente, incitam nossas paixes.

    Bruno Peron Loureiro

    Londres, 3 de outubro de 2013.

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    1. Tergiversao

    o lembro onde li ou escutei a palavra tergiversao. Devo ter lido, pois no usual escutar uma palavrinha destas. Costumo ficar inquieto

    quando aparece alguma expresso portuguesa da qual no sei o significado, mas afinal reconheo que nosso idioma extenso e nem os redatores de dicionrios devem ter domnio dele na ntegra. H coisas que desconhecemos, mas temos oportunidade de descobrir e saber, enquanto h outras que a busca de facilidades nos faz atribuir-lhes um sentido seja l o que forem.

    Para traar paralelismos, como interpretar uma pessoa que carrega um caderno enquanto anda na rua? Se for jovem, estudante ou realizador de questionrio; se for adulto, est fazendo as contas dos gastos domsticos; e, se for senil, est somando os pecados para ver se ter lugar no cu. Ou ser outra coisa? Um homem de terno no necessariamente um executivo, nem algum que dirige um carro motorista particular. A luz refrata no prisma quando no se considera o contexto.

    A imagem no resume a atividade ou a funo de uma pessoa, embora insistimos em interpret-la apressadamente. E se o tal homem de terno for o motorista e esse algum de carro, um turista? As coisas podem ser bem diferentes. Voltando um pouco no trajeto, antes que o motorista vire socorrista, h palavras que tm vrias acepes, ou significados, segundo os dicionrios. Menos mal que julgar e atribuir um sentido que no lhe pertence dizer plstico para uma garrafa plstica ou vidro para uma mesa de vidro.

    Em meados de setembro, estive no stio arqueolgico de Quiahuiztln, no estado de Veracruz, Mxico. Pedi para uma amiga tirar-me uma foto enquanto eu encostava naquela pedra (assim me referi), e logo escutei risos do guia turstico dizendo que se tratava de uma tumba funerria dos povos totonacas que datava de mais de cinco sculos atrs, para minha informao. Na prxima vez, pergunto antes de que me tirem uma foto se estarei apoiado numa tumba, templo, monumento de sacrifcio, ou o que seja.

    De que forma nos relacionamos com produes culturais de outros povos sem esse olhar prvio e desavisado? Os espanhis aportaram em Veracruz, Mxico, impondo a verdadeira cruz representada pelo Catolicismo, o que no muito diferente do que fizeram os portugueses no Brasil. Da

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    histria atualidade, antecipamo-nos em fazer julgamentos dos outros sem conhecer as motivaes alheias ou os preconceitos da nossa viso. Quanto mais diferente e extico, mais d o que falar.

    E quanto palavra tergiversao, que apresentei no incio do texto, temo informar que ainda no busquei o significado no dicionrio. Melhor ainda, faamos um exerccio de tentar adivinh-la antes de consultar o pai dos burros, seja pelo contexto em que se insere ou pelo que parece ser. Vai que

    acertemos. Se errarmos, o procedimento refletiria bem o que expus nos pargrafos anteriores. Que palavrinha estranha! Quer saber, continuarei sem conhecer seu significado. Que importa?

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    2. Feriado e interrupes

    ma das necessidades do Brasil a de parar com a mania de criar feriados e travar o desenvolvimento das pessoas e dos servios. O tema tem

    discusso acirrada e controvertida. Defendo um nmero mnimo de feriados nacionais e a autonomia decisria dos estados e municpios sobre a questo, embora faa a mesma recomendao a estas instncias.

    No plano federal, o nmero de feriados baixo. H em torno de oito (entre os quais: Tiradentes, Independncia, Nossa Senhora Aparecida, Finados, Proclamao da Repblica), alm de outros tantos de pontos facultativos (Paixo de Cristo, Corpo de Cristo, dia do servidor pblico). As datas dos feriados nacionais so definidas pelo Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto. O problema a soma dos feriados nacionais com os estaduais e municipais, que transforma o ano numa sequncia de interrupes.

    Cito alguns comentrios sobre o excesso de feriados que encontrei nos foros virtuais de discusso: toda luta com trabalho, e j se quer iniciar com folga; as pessoas vo passear, dormir, viajar, fazer churrasco, e perguntar no fim do dia o que que se comemora hoje; de novo esta histria de tapar o

    sol com a peneira. Fascina-me a opinio pblica por este motivo: sabedoria. O povo quem conhece melhor seus problemas e sabe do que precisa. A insatisfao supera o contentamento com respeito ao excesso de feriados.

    O mercado movimenta-se menos, os estudantes prejudicam-se com a intermitncia dos programas de ensino, o dia que se passa em casa no significa necessariamente tempo bem aproveitado, os feriados com invocao religiosa j no fazem sentido diante de um pas com variedade cada vez maior de credos, a criao de feriados municipais dedicados a grupos tnicos e sociais no se justifica diante de tanta diversidade, o feriado s mobiliza uma minoria populacional para reconhecer e pensar no seu significado. A homenagem a gneros, grupos tnicos e religies pode e deve permanecer sem, contudo, transformar uma data em feriado e parar todo um pas.

    Fazer que um dia deixe de ser feriado ou deixar de cri-lo no significa desprezo ou falta de considerao; ao contrrio, quer dizer que se preza estes e todos os outros que ainda no se homenageiam com feriado. Prope-se, portanto: maior regularidade e rendimento para o comrcio, a indstria e o

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    setor pblico com tempo de servio no prejudicado com feriados; aumento de direitos para os dias de frias para compensar a reduo no nmero de feriados; controle mais rigoroso do excesso de carga horria no trabalho para evitar a nsia pelo feriado.

    O Brasil tem crena no passado e arrependimento do futuro. A primeira afirmao deve-se continuidade de frmulas obsoletas se o que se quer um pas moderno, ao passo que a segunda refere-se ao comodismo de projetar tradies nocivas reconhecendo o seu pecado. Os feriados devem ser mnimos, embora compensatrios. A importncia da data no ser menor se ela no se instituir como feriado. Conforme tendncia, as homenagens convertidas em feriados demandariam mais de 365 dias.

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    3. Feriado: Para uma releitura

    m nenhum dos meus artigos anteriores havia notado tantas crticas deixadas como comentrio em jornais de verso eletrnica ou portais

    como no artigo que escrevi sobre os feriados, que intitulei Feriado e interrupes. No vi maneira mais adequada que estender a discusso e esclarecer alguns pontos que ficaram nebulosos, num sentido, e mal interpretados, em outro. Assim, o que tento fazer sugerir uma nova leitura, mas sem deixar de reconhecer que o tema polmico e continuar havendo leitores que discordam da minha postura.

    Uma leitura casual induz crena de que sou a favor do fim dos feriados e que o pregaria paulatinamente, o que seria mais que catastrfico do ponto de vista da identidade nacional e da vontade da opinio pblica. O que formulei foram argumentos a favor de manter um nmero mnimo de feriados, que se refere manuteno dos nacionais, como o de Independncia, Natal e Ano Novo. Critiquei, portanto, a somatria dos feriados nacionais com aqueles propostos pelos estados e municpios, que poderia transformar o ano numa sequncia de interrupes.

    Algumas datas comemorativas, como a Independncia e a Proclamao da Repblica, so imprescindveis para o estreitamento dos vnculos identitrios contidos numa nao, cuja dificuldade de integrao alta em se tratando das dimenses do Brasil. Sobre a autonomia decisria, quis dizer que o governo federal, ainda que faa recomendaes do nmero mnimo de feriados regionais, deveria continuar deixando a deciso de assumir ou no tais e quais dias como festivos para os estados e municpios, exceto quando se trate de alguma data comemorativa nacional.

    Um leitor, que me escreveu um comentrio via correio eletrnico praticamente com a mesma quantidade de palavras que meu artigo dizendo que eu deveria ser mais criterioso na escolha do tema, apontou uma leve m vontade no meu texto em relao aos feriados dedicados a grupos tnicos, minoritrios e religiosos, porm negligenciou o meu diagnstico de que o Brasil um pas diverso e plural. Nestas condies, como conciliar a demanda numerosa de vrios grupos que tambm querem ser representados com feriado nacional? Por isso, conclu que precisaramos de mais de 365 dias.

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    Sendo assim, no faria sentido privilegiar alguns grupos em detrimento de outros com a instituio de feriado nacional ou regional, uma vez que muitos cidados se perguntam no final do dia o que mesmo que se comemora sem fazer a to esperada reflexo sobre o assunto que o dia rememora. A ateno que se deve dar a esses grupos transcende o estabelecimento de feriados, pois se trata de mobilizar eficientemente a reflexo coletiva sobre o tema e a transformao social, cuja estratgia deve ser revista.

    Uma leitora de Alagoas apontou que o problema est na corrupo e nas leis que protegem os maus polticos, enquanto outro do mesmo estado duvidou que os feriados tivessem culpa pelo atraso no desenvolvimento do pas. Uma leitora do Paran afirmou que temos pouco tempo para usufruir de luz natural em vez de artificial, e para estar com a famlia e a natureza. O nmero maior de feriados, no entanto, no significa que algum aproveitar melhor o tempo livre com atividades educativas, recomponentes e saudveis. Ademais, no pargrafo penltimo do meu texto ofereo propostas compensatrias, como o controle do excesso de carga horria no trabalho.

    Houve tambm comentrios em acordo com o que escrevi, inclusive ampliando os meus argumentos e oferecendo outros para sustentar minha posio. O problema que h muitos interesses envolvidos. Por exemplo, do ponto de vista empresarial, convm no ter feriados para que o rendimento de um negcio aumente, ao mesmo tempo que, desde uma viso estudantil ou laboral, ter feriados para que se emende a semana inteira a fim de obter tempo livre e dedicar-se a outras atividades. Nada impede que o tema continue gerando discrdia. Para dar um tempo na discusso, convm um feriado.

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    4. Loterizao e cultura lotrica

    ulano inicia uma aposta na Mega-Sena. Se ganhar, j sabe o que vai fazer com o dinheiro: comprar o carro que lhe seduziu na propaganda da

    televiso, casa prpria, televisor de plasma; pensa em mudar radicalmente de vida. Se sobrar dinheiro, comprar presente para a sogra. Hoje fulano almeja tudo isso; amanh ningum sabe o que. As vontades sofrem influncias. As apostas exercem um fascnio diante das instabilidades que nosso pas atravessa. Do a possibilidade de mandar tudo pelos ares. Talvez este seja seu atrativo.

    Um ludibriado a pagar mais caro por alimentos bsicos e consumir por meio de obteno de crditos infindveis (pagando durante anos por um carro ou uma moto), enquanto o outro, a sonhar com produtos que nenhuma poupana poder comprar nos prximos quinze anos porque o salrio tem que ser gasto quase integralmente em necessidades bsicas, como aluguel, alimentao e energia eltrica. O primeiro compra endividando-se, enquanto o segundo tem vises.

    O Brasil, num sentido, experimenta um momento de crescimento elevado do consumo com pouca sustentao no setor produtivo, pois o aumento da rea de plantao canavieira no tem implicado preo mais baixo do lcool nas bombas de combustvel, nem o costume brasileiro de comer arroz, feijo e bife tem-se mantido sem que o feijo se substitua por lentilhas ou se comprem fatias de carne mais finas. Isso sem falar da quantidade de empresas transnacionais que se establecem aqui e do-nos a iluso de que o pas se industrializou.

    Em outro sentido, a oferta de alguns segmentos do mercado no alcana concretamente todos os consumidores enfeitiados pela propaganda do carro do ano que sai na televiso ou do apartamento no condomnio recm-inaugurado, que supostamente dariam mais conforto e segurana famlia. Por maiores que sejam as prestaes, elas ainda esto fora de muitos oramentos familiares.

    nesta brecha que entra a cultura de loteria, em que se tenta a sorte para faturar milhares ou milhes de reais. Alguns brasileiros tentam uma combinao especfica de nmeros h mais de dez anos, enquanto outros confiam ajuda aos seus protetores celestiais para que sua sequncia numrica

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    seja sorteada. Alis, fortuna confundida com dinheiro. A sorte o jogo do acaso, que enriquece subitamente ou alonga a esperana.

    Preceituo que o caminho para a realizao pessoal no Brasil traa-se pela dedicao, inovao e ousadia. E outros elementos que exorcizam a sorte. H inmeros exemplos dos que subitamente mudam de vida em nossa sociedade por foras lotricas, porm esta no uma regra de oportunidade. Ademais, bens de luxo no deixam qualquer um realizado; menos ainda que todo produto propagandeado faz bem ou necessrio. Este preceito pretende evitar a loterizao, que implica entregar-se ao acaso.

    Aposta est abaixo de oportunidade. No vivemos para apostar seno para aproveitar os ventos oportunos do derramamento de suor que leva a um objetivo dignificante. No quis fazer disto um texto motivacional, mas um alerta a favor da mudana cultural de abandono da loterizao na sociedade brasileira. Vejo que, no Brasil, ainda h uma confiana excessiva no que os outros ou as instituies podero fazer por ns. a loterizao do Brasil.

    A loterizao um processo que leva a uma cultura lotrica. O maior valor acumulado na histria brasileira, porm, a perspectiva de eliminao desta cultura lotrica.

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    5. Habitao e cidade artificial

    ma coisa falar sobre o tema da habitao desde o aconchego do lar e uma casa familiar prpria, pois se supe exgua a sensibilidade; outra seria

    esclarecer o direito e a necessidade dos que ainda no desfrutam de uma moradia digna, segundo a expresso do programa do governo Lula.

    Comove-me reconhecer que esta a realidade de muitos compatriotas de reas urbanas e rurais e que envolve majoritariamente a populao de renda baixa.

    O problema da habitao refere-se tambm recuperao de cortios e casas em situao degradante, deslocamento de reas de risco, urbanizao de favelas, e construes ambientalmente corretas. Os programas de crdito e financiamento bancrios de casa prpria, como o da Caixa Econmica Federal, para famlias de renda baixa devem elaborar-se em funo de que estas possam participar dos mesmos com sobra de dinheiro para outros fins, ou seja, desde que as parcelas sejam acessveis.

    A habitao deve ser pensada em referncia a outros problemas brasileiros e no isoladamente, o que assegura que a sua possvel resoluo no seja temporria. No adianta, por exemplo, construir casas para todos sem dar-lhes empregos. A situao ideal implica que os beneficiados tenham condio de sustent-las. A habitao tem que ser garantida junto com a proviso de infraestrutura adequada e sustentvel, alm das demais polticas sociais, como a de sade.

    Escrevo sobre o tema da habitao pensando mais na proposta que tenho para resolver o problema, posto que milhes de brasileiros vivem em construes precrias, sem a infraestrutura mnima (eletricidade, gua, esgoto), em reas de risco ou ilegais, ao passo que outros nem moradia fixa tm e vivem no nomadismo. Este um problema conhecido, evidente e histrico; a urbanizao intensificou-o. Estima-se que o dficit habitacional do Brasil seja de umas sete milhes de moradias.

    A resoluo do problema, por vezes, exige o deslocamento de famlias de bairros com os quais estavam acostumadas ou a mudana radical de vida, que quatro paredes bem levantadas e se possvel bem pagas propiciam. Algumas sadas triviais tm sido as de facilitar o acesso ao crdito por cidados

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    de renda baixa, reduzir ou extinguir tributos para casas populares, e construir conjuntos habitacionais de moradias com poucos metros quadrados.

    Isto reduz o dficit de sete milhes de moradias. So polticas que contribuem, mas no resolvem o problema. Ainda, proponho a criao de uma cidade artificial e planejada (poderia impulsionar-se com o deslocamento temporrio de servios bsicos at que seus moradores conquistem autonomia), com financiamento do governo federal deduzido do repasse aos estados e municpios, a fim de convidar os que no tinham habitao ou moravam em condies precrias para que mudem radicalmente de vida.

    No ignoro o problema de que h muitas famlias que no deixariam seus bairros por nada devido ao vnculo que criaram com o territrio e a vizinhana. O governo considera, neste caso, a negociao e, talvez, a elaborao de polticas de melhora do local j estabelecido se estiver dentro da legalidade. O investimento inicial da minha proposta elevado, mas o resultado, prometedor. Emprego e infraestrutura bsica seriam garantidos por planejamento urbano. O resto do trabalho seria com os moradores.

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    6. Idosos

    nterram-se os velhos conceitos. Nascem novas interpretaes e propostas para um segmento populacional que passa a receber ateno maior da

    sociedade e dos governos: os idosos. Concomitantemente, o setor privado fabula maneiras de expandir o mercado, os organismos no-governamentais elaboram projetos que visam melhora da qualidade de vida, e as polticas pblicas dedicam-se a promover a insero. A ateno na terceira idade tem aumentado.

    O termo terceira idade um eufemismo da sucesso de fases:

    infncia, maturidade e logo terceira idade na tentativa de atenuar a impresso de haver chegado ao envelhecimento, senilidade ou velhice. Empresas tm-se preocupado crescentemente com a diversificao de seus produtos e servios para este segmento populacional: stios na rede que proveem servios especficos, acessrios e equipamentos de uso domstico, e at conjuntos habitacionais elaborados para facilitar a vida dos idosos so exemplos do que tem surgido.

    O segmento populacional sobre que escrevo, no entanto, tem uma importncia que vai muito alm de atender a uma oferta como consumidor. Seus representantes acumulam e recontam experincias proveitosas de vida para as geraes seguintes, so fonte de conhecimento histrico e das tradies regionais e nacionais, tm capacidade e disponibilidade de educar e zelar pelos familiares, percorrem perodos longos de desenvolvimento humano.

    Encontrei, na rede mundial de informao, uma quantidade enorme de projetos interessantes para a terceira idade, sobretudo no mbito dos governos municipais e de organismos no-governamentais. Entre outros que tambm merecem ser citados, esto os que facilitam o atendimento bancrio com filas especiais ou encaminhamento pessoal, e a criao de oficinas dedicadas ao segmento, como de cermica, pintura, idioma e msica.

    Destaco tambm projetos que incentivam a prtica de atividades fsicas, dana, lazer, assistncia mdica (fisioterapeutas e geriatras), descontos nas tarifas de transporte pblico e interestadual, estmulo obteno de ces e outros animais para servirem como companhia; alm da promoo de eventos como caminhadas, bailes, semanas do idoso.

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    Quase todos estes projetos tratam de propor novas formas de garantir a autonomia dos idosos e melhorar sua qualidade de vida. A primeira garantia refere-se manuteno da independncia deles no dia-a-dia, ou seja, para que possam viver sem o amparo obrigatrio de outrem; a segunda, a um ambiente ou forma de vida que lhes d a sensao de no terem envelhecidos.

    Aumenta o nmero de centros comunitrios ou clubes onde grupos de terceira idade se renem para conhecer novas pessoas, conversar, contar piadas, jogar cartas ou bingo, rezar, trocar e vender bugigangas. Estas atividades saudveis desenvolvem-se sem a interveno necessria do governo e afastam o mal-estar mais temido protagonizado pela solido. O af de solidarizar-se e sentir-se teis e amparados percorre a psicologia desta fase.

    Hoje os idosos so pouco mais de 10% da populao brasileira e se prev o aumento deste percentual, embora seja difcil definir a idade a partir da qual algum se transforma em idoso. So mais importantes as propostas para que os prprios idosos possam escolher o que fazer entre muitas opes em vez de que sejam passivos de algumas atividades que se lhes conferem. Estas so as que os consideram dentro do padro normal de vida e no pensam somente em releg-los a asilos ou casas de dedicao exclusiva, ainda que estas opes sejam pertinentes aos casos de restries fsicas.

    Um idoso tem necessidades semelhantes s de outras idades, como as de socializar-se, ir ao mdico ou passear, com a diferena de que seu corpo fsico resulta de um desgaste natural maior que o de outras faixas etrias. O esprito no se deteriora; ao contrrio, evolui e amadurece. Pode haver idosos com mentalidade mais jovial que a de uma criana ranzinza. A sade da alma contribui para o bem-estar fsico e no deixa que as enfermidades perturbem mais do que sua ao provisria.

    Ao escrever sobre a terceira idade, baseio-me no apreo que tenho em conversar com pessoas desta fase de amadurecimento biolgico, tanto da minha famlia como com vizinhos ou de onde seja, e no reconhecimento da sua relevncia. Acho que eles demonstram afeto, carinho e sensibilidade exponenciais. Quando reclamam que chegaram velhice, retruco em pensamento que esto mais prximos da juventude do que possam imaginar. A mente responde a outra concepo de envelhecimento.

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    7. Indgenas e Estado brasileiro

    povo brasileiro se faz do amlgama tnico. Ainda que a aparncia fsica nem sempre o demonstre, todos temos algo de negro ou indgena

    conforme apregoava o antroplogo Darcy Ribeiro enquanto manifestao cultural, que envolve a culinria e expresses agregadas ao idioma portugus. Trato, nesta ocasio, de comentar alguns acontecimentos histricos, problemas e propostas com respeito aos grupos indgenas em territrio nacional. Desde a espoliao e a matana promovidas pela conquista portuguesa, que logo se converteu no lema crioulo, no lhes sobra outro caminho a estes grupos na atualidade que a reivindicao dos seus direitos perante o Estado brasileiro.

    difcil estimar o nmero de indgenas do incio do sculo XVI no que atualmente chamamos territrio brasileiro porque no houve censo na poca. Hoje se fala que existem 300 mil (ou 0,2% da populao) e 215 grupos tnicos catalogados, sem contar os desconhecidos, como aquele cujas imagens apareceram recentemente na televiso brasileira enquanto atiravam arcos contra o helicptero de onde se gravavam as cenas, e uma variedade de 180 lnguas. A maioria destes grupos possui populao abaixo de cinco mil habitantes; inclusive h os de menos de trinta pessoas. Alguns transcendem os limites territoriais brasileiros e ocupam tambm espaos em pases limtrofes.

    Primeiro, os europeus achavam que tivessem aportado na ndia, da o nome de ndios. Logo, os nomes que se lhes atriburam aos grupos nem sempre correspondiam a como se conheciam entre eles, seno que foram dados pelos brancos conquistadores. Os europeus, no perodo da conquista, exterminaram os indgenas com armas e doenas contra as quais estes no tinham imunidade. Como se no bastasse, os meios de comunicao cotumam tratar dos indgenas e dos temas relacionados a eles, quando se discutem, como se constitussem uma nica comunidade ou dentro de um desenho homogneo, que desconsidera as particularidades de cada grupo.

    De sangue e imposio se fez a conquista. Houve, neste nterim, um recuo paulatino dos grupos indgenas na direo do interior do pas a estados como os do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, que so os que mais contiveram a expanso moderna, enquanto outros indgenas se afetaram menos porque j habitavam estas regies. O conflito atual emerge do interesse de empresas mineradoras e de alguns fazendeiros, que enxergam os autctones como

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    empecilho expanso territorial para os negcios agrcolas. O impasse que a maioria dos indgenas encontra-se justamente nas regies onde o Estado mais dbil e, portanto, menos capaz de assegurar-lhes seus direitos.

    A Constituio Federal de 1988, que atualiza a legislao indgena e dedica ateno maior ao tema, enfatiza a proteo territorial, no entanto, como se o problema fosse s o de garantir-lhes terras. Se pelo menos as instituies pblicas assegurassem este direito, j fariam algum benefcio. Contudo, os interesses latifundirios tm feito as autoridades locais de cmplices, quando no refns de suas intenes econmicas, como se nota em cidades de pequeno e mdio porte. Nelas, at mesmo os valores bsicos das sociedades modernas, como a democracia e a liberdade, titubeiam. A atuao de organismos pblicos, como a Fundao Nacional do ndio (FUNAI), deve intensificar-se nestas regies para cumprir a Lei Magna e ampliar a ateno aos indgenas.

    As polticas indigenistas de criao e manuteno de reservas indgenas, que so locais de preservao destes povos e de suas culturas, iludem-se na falta de articulao com outras reas do desenvolvimento. Persiste a crena em que a demarcao de terras suficiente para respeitar o universo indgena. Uma proposta: ao atrelar, por exemplo, a defesa indgena preservao ambiental, que so dois fulcros da discusso atual, seria possvel associar a ligao intrnseca que os indgenas tm com a natureza ao apoio mundial ao meio ambiente, cujo tema est em alta na agenda internacional. Assim, a questo indgena deixaria de ser secundria.

    Enquanto no se amplia a perspectiva desde a qual a questo indgena interpretada e avaliada, as polticas continuaro sendo traadas sem escutar as demandas destes povos e sem ponderar sobre elas, em outras palavras, refiro-me ao que eles querem e no o que a pretensa civilizao acha que aqueles devem receber numa prtica assistencialista. O ponto crucial refere-se dinmica cultural de cada um dos grupos indgenas, que poucas vezes desejam integrar-se ao estilo de vida moderno apesar de todo avano tcnico e do atrativo que se afigura como isca, e aos direitos de manifestarem suas tradies e sua relao secular e respeitosa com a natureza sem palpites alheios.

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    8. Autor da mensagem

    umenta a preocupao em torno de como elaborar e atribuir direitos de propriedade intelectual a autores de obras artsticas, cientficas e literrias.

    O mais difcil garantir que ningum copie, imite ou plagie a produo de outrem ou que ningum cometa algum delito deste tipo e continue na impunidade. embaraosa a apropriao e reproduo do trabalho intelectual de algum sem o crdito autoral como se pertencesse a uma outra pessoa ou fosse fruto de seu labor.

    Como ponto de partida, direito de autor no o mesmo que direito de reproduo ou de cpia (copyright, da expresso em ingls), embora se relacionem. Aquele est na pessoa ou criador, enquanto este, na obra ou no produto. As principais perguntas que se devem fazer ao tratar do tema so: como intervm o Estado brasileiro para proteger os autores ou, ao menos, controlar o abuso atravs de legislao pertinente? Assim que se formula uma lei, ela protege efetivamente os direitos autorais?

    A legislao tem ficado mais rigorosa e tambm a presso dos pases onde a produo intelectual fonte importante de rendimento. Entre outros exemplos, esto os livros, canes, telenovelas, programas de televiso baseados em reality shows, inventos, avanos e descobertas cientficas. O brasileiro Santos Dumont no leva o crdito pela descoberta do avio nos Estados Unidos, que demandam a faanha para os irmos Wright.

    Contudo, surgiram propostas para a proteo dos direitos autorais que tm polemizado em vez de amenizar o problema. Um deles o das patentes, cuja crtica maior que recebem a do uso econmico de elementos que so patrimnio da humanidade, como substncias encontradas na natureza, nem sempre do pas onde se realiza a pesquisa cientfica, e apropriadas para fins farmacuticos. O tema das patentes alarga a discusso e meree um espao prprio de interpretao.

    O problema agrava-se com o anonimato dos intercmbios pela rede de computadores e pela eficincia que o mercado defende. O primeiro se exemplifica pela busca crescente de trabalhos escolares na Internet por estudantes que usam o artifcio de copiar e colar. Na televiso, no me conformei quando vi o Speedy, servio de banda larga da Telefnica, sendo

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    vendido com apelo aos pais de que seus filhos estariam com a ferramenta ideal para encontrar os trabalhos escolares.

    O segundo, em que o mercado exige eficincia, tem a ver com os artesanatos cuja assinatura do autor se torna irrelevante diante da produo em srie de um mesmo objeto destinado a vendas massivas. A propriedade intelectual dilui-se neste processo, porquanto no se reconhece o esforo desprendido para elaborar um trabalho artstico, cientfico ou literrio. Da que a reivindicao mais forte venha de pessoas dedicadas a produzi-lo, seja com fins de colaborar, expor ou sobreviver.

    O mar contm segredos. Se algum atirar nele uma mensagem escrita dentro de uma garrafa que se mantenha aparentemente bem vedada, quanto tempo outra pessoa levaria para encontr-la e ler o contedo? Se abri-la depois de um ano, pode ser que a mensagem esteja legvel e consiga interpret-la. At o nome do autor possvel reconhecer supondo-se que o deixou. No entanto, se abri-la em dez anos, ou mais, poder ter entrado gua e manchado o contedo. Pior ser se s o nome do autor esvaecer.

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    9. Passos do gentil

    scuto os passos do ser gentil. tarde, ele atravessa as ruas e avenidas, num ritmo de caminhada regular, e cumprimenta quase todos que se

    interpem a sua vista. Admiro como algum tem a capacidade de transmitir breves palavras de saudaes numa sequncia intermitente como se fosse a primeira abordagem. Ao ser comum, dizer tudo bem? ou como vai? torna-se mecnico e inspido, quase uma obrigao. como uma recorrncia enfadonha formalidade. Para o ser gentil, no. Tudo renovao.

    O presente um tempo que no existe, dizem alguns, enquanto outros sustentam que cambaleia e se esfumaa imediatamente em passado. Retomo a crtica do historiador Immanuel Wallerstein ao que chama de ateno excessiva ao presentismo que dada por alguns intelectuais nos meios de comunicao. Diz que se est desconsiderando o contexto e a histria nas interpretaes, o que justifica que um crime hediondo sucedido hoje seja amanh objeto de artigos precipitados e superficiais sobre o tema.

    No pode haver um crime, que logo j se fala dele em todos os lugares. Detalhes da cena, dedues e relatos sobre as pegadas do pai que jogou a criana pela janela, o beb que atiraram na lixeira ou o menino que os bandidos arrastaram preso ao cinturo por vrios quarteires enquanto tentavam roubar um carro. evidente que estas notcias comovem. No entanto, temos que discernir entre objeto de sensacionalismo e argumento a favor de mudanas polticas e sociais.

    Contrariamente ao que se cr, a violncia no s se manifesta em pases subdesenvolvidos e s vezes at mais cruel nos pases desenvolvidos que naqueles. Recordo as chacinas dentro de escolas nos Estados Unidos, ou o atentado num metr na Espanha, ou os conflitos tnico-religiosos na Irlanda. Um tratamento diferenciado e no mercantil questo da violncia o que promove sua reduo. A compreenso de que ela resulta de um conjunto de contradies e desigualdades tanto nacionais como mundiais requer uma reorientao humana. Uma pisada com sapatos novos.

    Neste contexto, lembro-me de um conselho que j me deram, to proveitoso quanto aplicvel, de que sempre temos duas opes: enfrentar ou ceder, sorrir ou lamentar, aceitar ou fraquejar, viver ou morrer. Embora, na

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    prtica, estas no se reduzam a duas seno a muitas outras opes, a escolha por uma orientao diante da vida serve como incentivo e contrapeso a uma situao de lamrias a que, se no nos vigiarmos, entregamo-nos em tropeos. O mundo o que fazemos dele: passos firmes ou trpegos.

    O ser gentil tambm ensina a dar bons passos e tem forte vnculo com o entendimento das diversas formas de vida. Eu diria, mais que isso, que o ser gentil um semeador: provoca atitude e sorriso. Enquanto o mundo no gira sem a selvageria, ele mostra a face vencedora. Enquanto a indignao transparece nos receios da existncia, ele comprova que o ser humano o responsvel pelo ambiente em que vive e faz dele o que projeta. Entre as duas opes, ele sugere que tem uma que nos realiza mais. Basta regular os passos.

    Ontem eu s escutava os passos do ser gentil assim que ele passava. Hoje eu espero por eles.

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    10. Funo das vacas

    crise financeira mundial, cujos ventos no sopram com a mesma intensidade nos pases mais afetados por ela, serve como pretexto para

    reavaliar o processo de consumo desenfreado de bens e o manejo de dinheiro que no existe.

    A abundncia de crditos para a compra de carros e casas, para no falar de outros setores, gerou dvidas insustentveis. Em seguida, veio a queda no consumo, a superproduo, as demisses. Os Estados Unidos esto em recesso e estima-se que a crise comeou h mais de um ano, embora tenha explodido em setembro de 2008. Aos pases mais atrasados, chegou o raio. O trovo ouve-se posteriormente.

    H muito tempo tem sido assim: os pases mais desenvolvidos determinam, sugerem ou exigem que os demais sigam as mesmas prticas econmicas, porm no se importam que as condies de desenvolvimento sejam distintas. Entre outras tentativas de arregimentar vacas, cito a rea de Livre Comrcio das Amricas (ALCA), os Tratados de Livre Comrcio (TLCs), e o Acordo Multilateral de Investimentos (AMI). Este ltimo se refere s negociaes intencionalmente discretas que comearam em 1988 no mbito da Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE) a fim de atribuir maior liberdade de ao e interveno s empresas e ao capital de atuao global.

    As negociaes oficiais do AMI, contudo, comearam em maio de 1995 e tiveram como objetivo um processo de desregulao e liberalizao da economia mundial. Embora elas tenham fracassado trs anos depois, pouco mais de uma dcada atrs estivemos sob o risco de que se aprovasse um acordo nefasto pelo grupo constitudo majoritariamente por pases desenvolvidos, que logo viriam com suas sugestes nossa instvel Amrica Latina. O AMI limitaria o poder dos Estados e daria sinal verde para as empresas multinacionais fazerem o que der vontade sem qualquer regulao do interesse pblico.

    A proposta do AMI foi a de criao de um novo marco de investimentos: tratamento jurdico equivalente para investidores nacionais e estrangeiros; amplitude maior de investimentos; possibilidade de as empresas

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    estrangeiras estabelecerem seus negcios como, onde e quando quiserem; a autonomia na deciso destas empresas; a circulao livre de capital; irrevogabilidade do acordo uma vez assinado; e indenizao por qualquer instabilidade que afete seus negcios num pas. O acordo s no afetaria os setores de defesa e manuteno da ordem pblica conforme consta nas negociaes, o que parece uma mera formalidade.

    Nunca demais comentar sobre um acordo tido por fracassado, uma vez que os responsveis pela proposta continuam discutindo-o em outras instncias e organismos internacionais, como a Organizao Mundial de Comrcio (OMC). O Brasil tem que estar atento a como se movem os demais pases e em que direo para definir seus objetivos, aceitar ou recusar propostas de insero na economia internacional. Os efeitos da crise atual ainda no chegaram completamente. O aviso o de que nem tudo que bom para eles para ns. Entre fatos e iluses, ainda no descobri se s querem ordenhar as vacas ou tambm mamar nelas.

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    11. Desero escolar

    s brasileiros temos mania de sofrer antes de o problema aparecer, especular sem que a situao se concretize e ir na onda dos outros s

    porque fulano de tal escolheu de um jeito e se deu bem. A crise econmica mundial mal chegou ao Brasil e tudo culpa dela: empresas demitem funcionrios, alguns produtos encarecem, chove muito, e o motor do automvel no pega. a crise.

    aquela velha histria de aceitar ou pegar dos outros o que no nosso nem era para ser. O vizinho tosse e ns que ficamos gripados; o baderneiro bebe e ns que ficamos de fogo; os gringos se atrapalham com suas falcatruas financeiras e ns que somos ameaados de demisso e queda no consumo. Falta distinguir o que nosso e o que deles. Quando o Brasil situar-se mais autonomamente nos intercmbios internacionais e com isso no quero dizer isolar-se, melhorar seus ndices de desenvolvimento e estabilidade.

    Um dos indicadores a desero escolar, que significa abandono da escola ou da universidade antes do trmino dos estudos. No se constri um pas de destaque mundial sem a boa formao de sua populao, a conscientizao do papel que exercemos no Brasil e no mundo, e a preparao para uma carreira profissional que no se molde apenas ao setor produtivo existente. Concentro-me em duas questes: a causa da desero escolar e a do desinteresse nas instituies de ensino como lugares de aprendizagem, interao e prazer.

    Dentre as vrias etapas do ensino no Brasil (Infantil, Fundamental, Mdio e Superior), uma minoria que chega ao Superior e muitos sequer terminam o Mdio. Os principais fatores que interferem na continuidade dos estudos so a renda familiar, a idade, a necessidade de trabalhar e a m qualidade da escola. Quanto maior for a idade, menor ser a propenso a estudar devido presso de ter um trabalho. baixo tambm o interesse numa escola onde os professores esto desmotivados, a didtica no boa, a infraestrutura precria e o descrdito na instituio aumenta.

    Ainda, os estudantes de escolas pblicas recebem o incentivo ignorncia atravs do sistema de aprovao automtica, que uma poltica de Estado elaborada para reduzir os nmeros da desero escolar e deixar a

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    impresso de que melhorou o nvel de escolaridade dos brasileiros. Muitos atravessam, assim, vrios anos sem saber escrever. calamitosa a sada dada pelo governo deteriorao do ensino pblico no Brasil, como se a soluo fosse driblar a pssima qualidade da educao pblica pela aprovao automtica ou, na melhor das hipteses, aumentar levemente o oramento.

    O Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) prognosticou que a crise econmica mundial tende a aumentar a desero escolar, a desnutrio infantil e a mortalidade materna na Amrica Latina. No entanto, estas previses devem servir de pretexto para que o Brasil ressitue-se no mundo de maneira mais autnoma, projete um modelo de desenvolvimento mais responsvel em relao aos que brincam com o setor financeiro, e resolva problemas internos que travam a evoluo do pas. Por isso importante retomar o tema da educao.

    A escola e a universidade so espaos de intercmbio de conhecimento, conquista de novas amizades, insero no pas e no mundo. Estas instituies demandam um outro olhar da populao e uma ateno mais concentrada do governo. Que no se desertem os sonhos de um pas onde se valorize a boa formao.

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    12. Loja do vassoureiro

    avia uma loja a meio quarteiro de onde morei na infncia que era modesta, pequena, usava um espao improvisado para vender objetos de

    baixo valor e uso corriqueiro. Lembro-me de que, sempre que me aproximava de l, havia um senhor sentado num banquinho, prximo da parede, esperando com pacincia pelo prximo cliente. Era um lugar com que se podia contar caso a vizinhana precisasse de algum produto de uso domstico e no quisesse enfrentar o supermercado para isso. Atendia a uma necessidade do bairro. Era conhecida como a loja do vassoureiro.

    Este tipo de estabelecimento comercial tinha sua razo de ser: surgiu de um cidado comum e de uma necessidade local. Dava uma resposta comercial sem deixar de atender a um vnculo afetivo com o bairro e os vizinhos. E por falar de comrcio, estamos passando por um processo de condicionamento mental sem precedentes com o poder mundial dos Estados Unidos e a indstria cultural que este pas dissemina atravs de seus filmes, sua msica e sua programao televisiva, que tm no encanto pela tecnologia o seu principal cmplice entre os receptores.

    Depois da aeroespacial e militar, os Estados Unidos sacam sua maior fonte de renda da indstria audiovisual. Explica-se porque as nossas videolocadoras concentram filmes estadunidenses em quase todas as estantes, do pouca ateno aos produtos de pases latino-americanos, asiticos e europeus, e chegam a colocar filmes brasileiros em sees de alternativos ou estrangeiros. Minha cautela em ver filmes estadunidenses dobrou depois que assisti a O Nevoeiro (The Mist) e notei uma crtica implcita aos discursos do ex-presidente cubano Fidel Castro no roteiro do filme. A mensagem poderia ter sido contra qualquer outro governante a que os Estados Unidos se opem.

    Achei uma covardia inserir uma crtica poltica desta maneira quando tudo o que o pblico espera divertir-se e no a primeira vez que me dou conta disso. H muito tempo, os Estados Unidos nos inebriam com seus artifcios estratgicos nos produtos culturais. Para no falar da infinidade de escolas de ingls nas nossas cidades, que so encravamentos imperiais sob consentimento. praticamente uma obrigao que aprendamos este idioma, ao passo que eles negligenciam o portugus. O ponto a que quero chegar que o

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    Brasil carece de polticas consistentes para o audiovisual e outros de seus produtos culturais.

    como se as polticas continuassem sendo elaboradas para o videocassete numa poca em que os filmes tm sido vistos em DVD ou Blu Ray. pequena a quantidade de nossa produo audiovisual que chega aos televisores e aparelhos de som de outros pases, a difuso da lngua portuguesa no exterior insignificante, sem contar que o Brasil estereotipado pela inrcia de nossa diplomacia cultural. A situao s no est to ruim no mbito do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), mas ainda os vizinhos se conhecem pouco. Os intercmbios entre os pases so muito desiguais, e ns cidados brasileiros geralmente obtemos mais desvantagens que benefcios.

    J estava esquecendo a loja do vassoureiro. Gostava daquele lugar. L buscava linha de pipa, bonecos dos Cavaleiros do Zodaco, produtos de limpeza quando algum de casa pedia. E as vassouras? Comprava-as no supermercado em frente.

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    13. Manaus e o desenvolvimento

    anaus uma terra de energia e grandeza. As culturas desta cidade so diversas e exuberantes; a natureza ao seu redor, em meio floresta

    amaznica, frondosa e magnificente. Ao contrrio do que esperava numa visita que fiz, encontrei uma urbe grande e moderna: extensa, de quase dois milhes de habitantes e nmero crescente de edifcios altos e condomnios de luxo, como no bairro da Ponta Negra. Prosperam algumas regies ao tempo em que outras se deterioram, como a zona Leste. Manaus provocou-me, assim, dois sentimentos nem sempre conciliveis: encanto e comoo.

    Manaus tem problemas parecidos com os de outras cidades grandes do pas: delinquncia, mendicncia, congestionamento automotivo em horrios de pico, acmulo de lixo na rea central, sobreposio das culturas de elite sobre as populares, e separatismo de classes. At se convence de que Manaus tem comparativamente ndices mais baixos de violncia porque o infrator, comentou-me um taxista, no teria para onde fugir devido ao isolamento da cidade, cujo acesso majoritrio por via area ou pelo rio Negro. As rodovias so escassas, o que justifica o tamanho pequeno da rodoviria, e ao redor h selva.

    Esta cidade, no entanto, possui voos diretos aos Estados Unidos, pas do qual recebe grande quantidade de turistas vidos para conhecer a Amaznia; o governo do estado do Amazonas investe fortemente em propaganda audiovisual de integrao de seu povo atravs do slogan de que um orgulho ser amazonense; e o que mais integra esta regio ao restante da federao so os meios de comunicao, sobretudo os programas da rede Globo, que, a meu ver e com o Rio-centrismo desta emissora, mais anulam as particularidades dos amazonenses que as promovem.

    Ainda sobre a questo da semelhana de Manaus com outras cidades brasileiras, a ideia que mais me surge a de povoamento em funo de alguma atividade econmica. Na capital amazonense, o auge do ciclo da borracha (entre 1850 e 1910) ensejou um processo de expanso da cidade, atrao de mo-de-obra de outros estados e configurao de uma oligarquia, que se formou a partir da figura do baro e de outros imigrantes europeus. Construram-se em funo deste gnero de explorao, entre outros, o Palcio Rio Negro e o Teatro Amazonas.

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    Logo na segunda metade do sculo XX, formou-se um dos maiores centros industriais do pas com a Zona Franca de Manaus. Como de costume, buscou-se mo-de-obra barata e atraiu-se contingente de outros estados, mormente das regies Norte e Nordeste. Esta cidade tem sua peculiaridade.

    Engoli, contudo, dois sapos. Um o de entend-la como o interesse de um pequeno grupo em precarizar o trabalho do povo brasileiro para remuner-la cada vez menos desde a expanso industrial. O aumento descontrolado da populao do nosso pas responde a esta demanda. E outro a minha dvida da viabilidade de promover o crescimento industrial no meio da selva quando a nfase deveria ser a proteo ambiental. A sujeira dos portos e a expanso perifrica da cidade com moradias e fazendas so alguns dos meus argumentos. Em outras palavras, no sou a favor de um distrito industrial nesta cidade porque a depredao ao redor se torna inevitvel.

    Escrevi este texto sobre papel reciclado de caixa de presente. A ocasio era propcia para fazer-me refletir. Roguei, neste nterim, que o futuro de Manaus acompanhe o desenvolvimento sustentvel e demonstre que outro modelo de cuidado ambiental e urbanizao possvel.

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    14. Esporte

    difcil botar no papel todos os benefcios que o esporte traz para a sade fsica e mental e o convvio da espcie. As vantagens so muitas: desde a

    contribuio ao bem-estar individual e coletivo comunicao e interao entre os esportistas. Antes de escrever sobre o esporte, perguntei-me sobre o que poderia expressar que fosse diferente do que todos j sabem sobre o tema. Foi difcil chegar a uma resposta. Pelo menos, incentivarei a prtica de esporte, que contribui para melhorar a qualidade de vida da populao.

    No sei que to produtivo ponderar, promover ou falar de esporte num pas que reconhecido mundialmente pelos craques de futebol e que ganhou quinze medalhas nas Olimpadas de Pequim, China, em atividades diversas, como atletismo, jud, vela, vlei de praia e taekwondo. Melhor seria se eu me contentasse apenas com recordar a importncia da atividade esportiva. J se tentou definir esporte como qualquer prtica que tenha competio, o que nos serve de antecedente.

    Os colgios e as universidades costumam organizar jogos entre os estudantes, equipes de trabalho conseguem tempo para encontros esportivos, os clubes so lugares tradicionais para essas atividades, os campos de futebol de aluguel so formas de unir grupos, e os jovens logram improvisar facilmente maneiras de interagir, como nos jogos de taco, futebol, vlei, entre outros. A criatividade tem permitido o surgimento de novas modalidades esportivas em bairros e centros de lazer.

    O Brasil propcio inclusive a prticas esportivas mais aventureiras, como arborismo, canoagem, escalada, rapel, rafting e surf, dentro da oferta ecolgica. Esta uma das vantagens de ser nacional de um pas grande e diverso. A Copa de 2014 ser aqui. At l no sei se elogio ou critico a deciso. O pas tem mania de esporte mesmo. Nestes jogos, at quem detesta futebol veste a camisa brasileira para assistir aos dribles e a seleo fica mais famosa que o elenco de um filme que tem xito de bilheteria.

    J que o futebol todo mundo conhece, poderiam aparecer modalidades novas e acessveis dessas que s vemos em jogos olmpicos ou em outros pases, como beisebol, crquete e golfe. Nunca joguei nenhum destes, mas tenho curiosidade. Depois que vi uma reportagem na televiso mostrando a

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    prtica de esqui num hotel em Dubai (Emirados rabes Unidos), acredito que qualquer esporte vivel onde quer que seja. a que empresas privadas poderiam desenvolver os espaos apropriados e incentivar novas prticas distintas da centralizao no futebol.

    O esporte deve ser difundido, diversificado e democratizado. O Ministrio do Esporte tem investido em eventos de grande porte e repercusso mundial, como a demanda para sediar a Copa de 2014 e os jogos Olmpicos de 2016. Deixa patente o esforo em patrocinar atletas em esportes de alto rendimento com incentivo financeiro e reconhecer que o esportista brasileiro que no ganhou medalha em Pequim no deixou por isso de ser vitorioso. A quantidade de medalhas que o Brasil obteve, assim, no a melhor forma de avaliar o desempenho de seus atletas.

    Medidas do governo federal, como a Lei de Incentivo ao Esporte (2006), que permite o desconto no imposto de renda de atividades relacionadas ao fomento de prticas esportivas, reforam o interesse neste setor e o incentivo a ele. No entanto, mais que identificar potencialidades profissionais no esporte est a prtica amadora, que aumenta o bem-estar. O esporte pode associar-se a uma atividade espordica de lazer ou a uma competio. Pode reduzir o estresse ou servir de ponte para a realizao pessoal e coletiva.

    Vale a pena o incentivo, uma vez que o esporte fortalece o organismo e renova a mente. Retomando: importante diversificar as opes de esporte e estimular a prtica. Surgiram at cursos universitrios que se dedicam especificamente ao esporte, alm de um Ministrio do Esporte. Alguns tm na ponta da lngua a resposta pergunta de que esporte praticam quando dizem que levantamento de garfo, entre outros ditos jocosos. O bom humor faz uma combinao saudvel com o esporte.

    A reao tem a ver com levar as coisas na esportiva.

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    15. Deficincias

    egundo informao mais recente fornecida pela Relao Anual de Informaes Sociais (RAIS) do Ministrio do Trabalho e Emprego, 1%

    dos empregos formais, ou o que corresponde a 348 mil postos, ocupado por portadores de algum tipo de deficincia.

    Pensava inicialmente em focalizar os deficientes fsicos, mas acabei ampliando a perspectiva para englobar outros gneros de deficincia, uma vez que ela mais comum do que se imagina, embora no se sofram os efeitos com a mesma intensidade de um caso para outro. Refiro-me a dificuldades que aparecem no relacionamento, na acessibilidade em estabelecimentos e meios de transporte, na conquista de empregos, na necessidade de contar com o apoio da famlia e de outrem para sobreviver.

    Esta redao baseia-se em depoimentos textuais de pessoas que tm algum tipo de deficincia. Acreditei que esta seria uma manera propcia para aproximar-me de suas necessidades e sentimentos do que se ruminasse teorias que falam sobre o problema dentro de um idealismo romntico.

    Concluo antes de introduzir o tema, pois achamos que sofremos at vermos que podem existir situaes piores. Ademais, os danos de uma deficincia geralmente vo alm da aparncia, por exemplo, um tetraplgico tem dificuldade no funcionamento dos rgos.

    Assaltou-me, antes mesmo de redatar sobre o tema, um sentimento de vulnerabilidade que me fez questionar por que nos queixamos de ligeiros contratempos enquanto h gente sorrindo sem poder enxergar ou caminhar. Assim me recordo de um grupo de visitas a pessoas enfermas e deficientes, de que tive o privilgio de participar algumas vezes e onde havia, entre outras, uma senhora em coma e um homem com transplante de bacia limitado a ficar deitado quase o tempo todo.

    No tento sugerir uma soluo para todas as deficincias, que diferem em gnero e intensidade, seno maneiras de incluir estes portadores de necessidades especiais num convvio harmonioso, sadio e sem o afastamento das relaes sociais. Estas prticas envolvem o estmulo a grupos institucionais que lhes deem ateno, a construo de uma vialidade adequada nas ruas

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    (como rampas para cadeirantes) e polticas de incentivo admisso escolar e contratao profissional de deficientes.

    Permitir-nos, no importa o esforo que demande, compreender as diferentes necessidades desse segmento da populao um passo na direo da extino dos preconceitos, inclusive o de que a deficincia incita mais o sentimento de pena que de solidariedade nos demais. Se o preconceito se reduzisse a uma curiosidade sobre o incomum e a situao do deficiente, j seria um princpio. Porm, o rechao e a excluso so o seu lado obscuro.

    Uma vizinha vinha prometendo-me, havia dois meses na Cidade do Mxico, chamar-me para uma visita a sua filha Gina, que sofreu um acidente ao cair da escada aos trinta e trs anos e teve quase o corpo inteiro paralisado. Alegava-me a senhora, quando nos encontrvamos no corredor do edifcio, que logo me avisaria sobre o momento adequado porque Gina estava naquela semana com problemas de imunidade e comentou que seu marido tinha o receio de que o visitante, qualquer que fosse, ficasse com d dos pais e da situao.

    At que um dia finalmente esta senhora me chamou quando eu menos esperava, desci as escadas seu apartamento ficava logo no andar de baixo e entrei no recinto. Encontrei, para inveja das pessoas normais, algum sorridente e um ambiente de carinho. A senhora disse que seu neto, algumas vezes, deitava no colo de Gina e murmurava: Te amo muito! e aquela completava com ateno, dedicao e felicidade. Borram-se as fronteiras entre o fsico e o imaterial.

    Muito pode ser feito pelo governo, organismos no-governamentais, empresas e outros atores sociais para ressocializar pessoas que, por alguma deficincia, tiveram sua insero social prejudicada e sofrem algum tipo de preconceito. Formam-se grupos de apoio, como os de restries auditivas, visuais, motoras e mentais. Assim se concentram estudos e prticas voltados a eles. Finalmente, admoesto que a deficincia fsica ou mental de algum no se converta em deficincia de carter de outrem.

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    16. Tolerncia

    o confundamos tolerncia com pacincia, que outra virtude e exige mais calma na interpretao. O mundo feito da coexistncia de

    contrastes, diferenas e oposies. Que inspido seria se todos fssemos iguais. Com vrios critrios, constri-se a tolerncia.

    No fcil ser tolerante. Quando algum cr que alcanou um nvel satisfatrio de tolerncia, aparece alguma situao que o pe em xeque. Que to tolerantes conseguimos ser quando est em questo uma crena, uma convico ou um interesse?

    A tolerncia s vezes nos parece pr prova. Quebra a bicicleta justo daquele que mais gosta dela, embora a use tanto quanto seus amigos. Se algum toca um instrumento musical, d problema justo nele e no no televisor que est h vinte anos sem qualquer manuteno.

    E, por falar de eletrnicos, no tenho sorte com computadores. Em menos de um ano, a segunda vez que vai assistncia tcnica por problema no monitor. Isso sem mencionar os travamentos de equipamentos anteriores, ou a lentido no uso dos programas. Melhor tolero seu jeito de ser.

    O maior exerccio de tolerncia quando algum traz mesa assuntos polticos, religiosos ou de orientao sexual. A a discusso fica incandescente porque bem difcil chegar a um consenso ou a paixo move o indivduo.

    Dividir moradia tambm exige tolerncia por mais que qualquer acordo facilite a convivncia, o que se deve s diferenas de costumes e formas de organizao. O mesmo serve para o ambiente de trabalho, onde a articulao entre as pessoas pode sofrer atrito se no se emprega a tolerncia.

    No me esqueo de quando meu av derrubou a lata de tinta enquanto pintava um cmodo. Ouviram-se dezenas de palavres, alguns antiquados, outros frutos do neologismo, entre tantas variedades que se uniam numa sinfonia.

    H provas para desenvolver a tolerncia consigo mesmo. Situao idntica quando se quebra algo sem querer ou se derrubam produtos de estante de supermercado como aconteceu comigo. Vrias pessoas ficaram olhando; senti-me envergonhado. Tem que aceitar e pagar o preo.

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    Porm, nada mais provocador que esperar horas numa fila at ver algum fur-la porque conhece outro que estava esperando nela ou fulano de tal que se cr mais importante a ponto de passar na frente dos demais. A recomendo fingir que no existe a tolerncia ou, melhor, consentimento e partir para a advertncia.

    Falarei um pouco de algumas instituies tradicionalmente poderosas no Brasil. A Igreja catlica uma que prega a tolerncia, entre outros valores que soam bonitos e universais, mas a que mais discrimina outros credos e formas liberais e modernas de vida.

    Tenho receio, ainda, de que o nvel de tolerncia das instituies pblicas baixe. Policiais achando que podem tratar todos os cidados como delinquentes at que se prove o contrrio; militares e polticos abusando da autoridade como se o Brasil estivesse revivendo o passado; e logo o descumprimento da lei seca de proibio de qualquer consumo de lcool antes de dirigir, que expe a corrupo nos acordos ilegais entre motoristas infratores com policiais e entre estes e proprietrios de bares.

    A educao no pas tem que priorizar o respeito ao prximo e s leis, estimular o entendimento e a tolerncia, no entanto sem cercear a liberdade de defender-se, manifestar-se e viver.

    A tolerncia que mais se discute a de reconhecer que as atitudes e opinies alheias podem diferir, e constantemente o fazem com todo direito. Neste caso, fica difcil falar de certo e errado, melhor e pior, conforme e desprezvel, visto que cada um tem suas motivaes e objetivos.

    A tolerncia, ainda, muito mais que este reconhecimento. tambm a busca do diferente, do contrrio e do divergente, que nos faz rever os pontos de vista que tnhamos e, qui, reformar nossas atitudes e opinies.

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    17. Ambiente

    ue to intensa a nossa relao com o ambiente? Hipteses: em casa, o cachorro late, o familiar grita e algum ouve msica no cmodo ao lado;

    no trabalho, o telefone toca insistentemente e o patro repreende; no campo, os pssaros cantam, o crrego flui e o vento sopra; na cidade, a correria nas ruas, o congestionamento no trnsito, o som das buzinas, gente apressada, blocos de concreto e objetos de publicidade dominam o visual. Da mesma forma que nos inserimos no ambiente, s vezes buscamos sair dele.

    Vejo a sobreposio de cmodos entre os edifcios e as formas distintas de convivncia praticamente no mesmo espao. Assim o aspecto visual: prdios comerciais de luxo em cuja entrada est o vendedor de discos piratas ou comida barata; uma escola de idiomas que se separa de um consultrio mdico por uma simples parede; esconderijos ou o poro da casa como anexos ocultos; e finalmente me impressiona que possa haver parques ecolgicos rodeados por uma cidade grande ou por um canavial.

    Ouo o motor de automveis quase como uma orquestra de fundo no ambiente urbano. No posso deixar de mencionar que o eco da vizinhana soa constantemente apesar dos meus esforos para conter o volume externo. Pessoas que passam conversando todo o tempo no corredor da unidade habitacional onde moro, crianas contando seus chistes entre elas, os vendedores de gua e o reparador de cortinas, e o que atende o celular diariamente na janela do seu apartamento porque at a chega o sinal.

    Cheiro de cidade grande estupefaciente e inebriante. Em algumas ocasies, porm, alcana-me o aroma do bolo que o vizinho prepara, do charuto que um senhor fuma ou dos vestgios de uma rao saborosa que o animal de estimao j digeriu. Qualquer ambiente sempre oferece opes vastas de experimentao que variam em funo de onde nos inserimos e como nos deslocamos nele. Seja no campo ou na cidade, em casa ou no transporte, dentro ou fora de algum lugar.

    Sinto o sabor do ambiente e tateio-o para ver se de verdade. H os que no creem nem vendo; comeam a acreditar quando escutam; aceitam quando cheiram; e se conformam quando tocam a concretude. O ambiente, no entanto, determinamo-lo, por uma parte, e aceitamo-lo como , por outra. Se o

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    sol estiver forte, fecha-se a cortina; se o trnsito estiver pesado, liga-se o rdio para distrair; se a vizinha for bonita, espia-se pela janela. Neste caso, faltou algum sentido para atravessar os limites das paredes.

    Apuremos os sentidos. Assim, a experincia poder ser outra: mais envolvente. No incio deste texto tridimensional, ou quadridimensional se o leitor tambm participa, falei que nos esforamos para tanto entrar no ambiente quanto para sair dele. Tenho mania de expor imagem e som com palavras. Aqui questo de espao. Reivindique o seu.

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    18. A lanchonete

    ncomoda-me a sensao de conflito quando estou a passeio em algum lugar, distrado da rotina ou fazendo o possvel para desfrutar dos minutos

    de ociosidade (mais fsica que mental). Tento esquecer que as dificuldades e as mazelas existem, ou coloc-las um pouco de lado, mas no d. Coa a orelha.

    Quando falo de conflito, refiro-me quele que tantas vezes fechamos os olhos ou fingimos no o ver para no sentir a dor que no merecemos, como a dura vida de mendigos, pedintes, viciados e outros gneros de excludos e sofredores.

    Ao fim, acabo tendo que aceitar os conflitos quando menos os espero e fao, em seguida, algumas reflexes sobre a situao que os gerou antes que eu perca a oportunidade de entravar uma nova discusso construtiva. E parece que, nestes momentos, nosso pensamento atinge maior fluidez.

    Uma vez, enquanto eu pagava a conta de uma refeio rpida numa lanchonete, notei que vrios funcionrios que estavam de frente na cozinha me olhavam como que tentando expressar algo. O recinto era aberto para satisfao dos clientes desconfiados. Virou moda esse acesso facilitado s cozinhas nos estabelecimentos que trabalham com refeio. De duas, uma: ou para provar que o lugar tem higiene ou para desafiar a coragem do cliente.

    Pensei que estivesse ficando louco. Ser que lhes incomodava o fato de eu estar passeando, alimentando-me e de certa forma divertindo-me com os amigos no fim de semana enquanto eles tinham que suportar o calor que se levantava da chapa e um turno extenuante de servio? A imaginao aflora.

    Melhor se fosse por outra razo. Mas, espera! No tinha um abacaxi na cabea, nem a beleza de um gal de cinema, nem fiz nada que merecesse olhares to perscrutadores vindos de um mesmo grupo de trabalhadores.

    Quer saber? Tempos depois, nessa incerteza de crise econmica mundial em que no tem um santo que se salva nem vela que suporte ficar muito tempo acesa, conclu que eu que deveria ter-lhes olhado daquela maneira e pensado que, com o aumento crescente do desemprego no mundo, eu os admirava porque eles tinham motivos para comemorar de estar a.

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    E os nmeros tm comprovado esta atitude porque o desemprego um tema que se revigorou no mundo, voltou para inquietar os analistas e os tomadores de deciso como um problema mal resolvido.

    No fim de janeiro de 2009, a Organizao Internacional do Trabalho (OIT), que uma agncia da Organizao das Naes Unidas (ONU), anunciou que este ano poder representar a perda de at 51 milhes de empregos devido crise econmica mundial. Este nmero indica a previso mais nefasta.

    Conflitos que aparecem em hora errada tm serventia porque mostram que o prazer se confunde com a dor, a diverso com a infelicidade, e a incerteza com a dvida.

    Valorizo a informao que se l na expresso facial antes mesmo de os lbios vibrarem, ainda que eu tenha continuado sem saber qual foi a mensagem intencional dos funcionrios na lanchonete. De qualquer maneira, agora comunico sobre a do desemprego, que, esta sim, vai perseguir muitos enquanto por a se fala da tal da crise econmica mundial.

    Crise e desemprego so duas palavras impactantes que voltaram a compor o nosso cotidiano. Queria mesmo ter podido consumir aquele lanche nas margens dos conflitos.

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    19. Mortalidade infantil

    morte de crianas de at um ano de idade tem uma porcentagem baixa, segundo indicao dos pases mais desenvolvidos. Esta fatalidade pode

    seguir uma ordem que est alm de qualquer esforo humano. No entanto, inaceitvel que crianas em idade to precoce deixem a vida por falta de instruo familiar, condies precrias de sade, carncia de educao e meios para a sobrevivncia, entre outras causas que se podem evitar num pas mais preparado e justo. A taxa de mortalidade infantil no Brasil, em relao Amrica do Sul, s no pior que as de Bolvia e Paraguai.

    Estou tratando de um dos indicadores de desenvolvimento humano de um pas, entre outros como expectativa de vida, educao e renda. O Ministrio da Sade e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE) definem taxa de mortalidade infantil como o nmero de mortes de menores de um ano de idade a cada mil nascidos vivos num espao geogrfico e ano considerados. Estas instituies associam a taxa principalmente s condies de sade e desenvolvimento econmico. No indicador de mortalidade infantil, pases como Cuba, Argentina, Chile, Costa Rica e Mxico esto em melhor situao que o Brasil.

    Soa promissor o discurso oficial de que nosso pas alcanar a meta global de reduo da taxa de mortalidade infantil at 2011, portanto antes do prazo estipulado pela Organizao das Naes Unidas (ONU). Esta props os Objetivos de Desenvolvimento do Milnio, que, entre outros tpicos como a erradicao da fome e da pobreza extrema, a garantia do ensino bsico universal e da sustentabilidade ambiental , sugeriu a reduo em dois teros da mortalidade de crianas menores de cinco anos entre 1990 e 2015. Atualmente a mdia brasileira de 23 bitos por mil, o que preocupante para um pas deste porte.

    O que mais agita os neurnios dos responsveis pelas polticas pblicas neste setor que alguns estados j alcanaram a meta, enquanto outros esto longe dela e vislumbram-na num horizonte mais longnquo. H desigualdades exacerbadas entre as taxas das regies Sul e Sudeste, que so as menores, e as do Norte e Nordeste, que continuam altas apesar dos esforos para reduzi-las e dos avanos obtidos. O Rio Grande do Sul tem a menor taxa de mortalidade

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    infantil; Alagoas, a maior. necessrio calibrar a estratgia no setor e concentrar as polticas nos estados onde ela mais alta.

    idlico o anncio de que o Brasil passou a fazer parte do grupo dos pases de alto desenvolvimento humano, segundo o ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, porque logo se d conta de que o alarde no implicou melhor insero do pas no mundo nem a extino de problemas to rudimentares quanto a fome e a misria. Ao contrrio, o Brasil retrocedeu na classificao de desenvolvimento da qual participam 177 pases. O indicador de mortalidade infantil nos exige o questionamento do que fazer para equiparar ndices de desenvolvimento de estados que j entraram no sculo atual e de outros que arrastam vestgios do anterior.

    Proponhamos um pas menos desigual e, antes de que as crianas tenham direito e acesso a boa educao conforme se tem discutido tanto, que elas possam ao menos sobreviver.

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    20. Crise da criatividade

    hegamos a um momento de crise da criatividade, que se deu aps a turbulncia de ideias dos sculos anteriores e, em especial, das ltimas

    dcadas. O que no quer dizer, porm, que o fim do ser criativo ou que j no possvel mais criar, uma vez que o processo continua ainda que paulatina e surpreendentemente. Parto da premissa de que a criatividade no a mesma coisa que acmulo de conhecimentos: aquela tem a ver com a fluidez da imaginao e o uso da inteligncia, enquanto este se refere simplesmente ao depsito de informao.

    Vamos para os argumentos. As eleies passadas formaram colees de discursos polticos clichs ou que repetem como papagaio os de dcadas ou at sculos atrs, se levarmos em considerao os sistemas polticos de outros pases. O mais grave que as propostas, quando existem, quase sempre se amparam em princpios implantados em outro contexto e importados por nosso pas sem que se considere necessariamente sua adequabilidade realidade em que vivemos. A menos, claro, que se proponha construir uma ponte ou um viaduto na cidade; alguns supem que nisso haja criatividade.

    cada vez mais profusa a cpia de trabalhos intelectuais ou obras artsticas por preguia de um suposto criador. Os filmes que passam nos cinemas exigem um cuidado especial para que no se confunda fico com realidade, embora o mesmo autor esteja em vrios deles ou pressuponhamos que se trate de criao. Os filmes de terror dificilmente saem dessa de casa amaldioada ou de mitificao do desconhecido; os de aventura trazem atos heroicos, quando no sensacionalistas, de final feliz; e os de histrias de amor s vezes recheiam com algum problema atual para parecerem criativos.

    Comentei de ideias que se oferecem como propostas para a regulao da nossa situao poltica e social, de um gnero de indstria cultural que so os filmes, e acrescento que ocorre um processo semelhante de crise da criatividade na televiso, mas que se faz passar por novidade. Um programa tende a imitar o outro em funo da audincia. Menciono desde as pegadinhas at os reality shows, que passaram pela Europa e pelos Estados Unidos e logo apareceram em seus formatos da Casa dos Artistas e do Big Brother Brasil, com todas as suas edies anuais. O mesmo com o American Idol estadunidense, que inspirou o dolos brasileiro. E faz sucesso.

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    Ao Se Vira nos Trinta do Domingo do Fausto, contudo, dou-lhe crdito como incentivador das manifestaes populares de criatividade. At mais do que atribuo s novidades da Polishop e de outras empresas, que, por ser to estapafrdias, acabam oferecendo opes criativas aos consumidores que querem produtos de limpeza mais eficientes, televisores que cabem na palma da mo ou acessrios de ginstica e fortalecimento muscular que fazem todo o trabalho enquanto o usurio est relaxado. Poderamos achar que a criatividade no est tanto em crise porque nos tornamos mais exigentes. Queremos o mesmo, mas em nova roupagem.

    O brasileiro muito criativo, diverso e inteligente, porm aguarda passivamente que alguma instituio o promova sob risco de que sua criatividade fique mal representada. E isto acontece na maioria dos casos. A crise a que mais me refiro a de domnio oligoplico das indstrias culturais e comunicacionais, que, em funo do lucro e da ganncia, acabam limitando a criatividade do ser humano. Logo, se no estiver na tev, ningum v, ningum escuta e ningum sabe. Assim se alimenta o estancamento da criatividade e se difundem impresses e registros de um mundo ditado por poucos.

    Um olhar atento ao que o mundo j criou sugere, no entanto, que estamos num momento de crise da criatividade. Por mais que cada ser humano seja nico e original (afinal, que gmeos so completamente parecidos?), o que falta a mobilizao dos elementos que fazem da nossa realidade distinta e, portanto, autntica. Deve haver algum jeito de continuar criando, ainda que no sejamos necessariamente artistas ou cientistas. Nem todo criador o dentro de uma profisso. O lado direito do crebro associado criatividade. Quem sabe uma massagem neste hemisfrio cerebral o reacenda.

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    21. As etiquetas

    companhei, dia desses, um amigo enquanto ele passava nas casas de pessoas conhecidas para oferecer produtos que ele traz frequentemente

    do Texas, Estados Unidos, como bermudas, calas, relgios e sapatos. Ainda se acha que tudo o que vem dos pases desenvolvidos de melhor qualidade e, se puder conseguir por preos mais baixos, leva-se vantagem.

    Nas sacolas, havia bens de consumo que se vendem nos centros comerciais e em lojas de grife dos nossos pases latino-americanos por preos at duas vezes superiores aos que ele paga nos Estados Unidos. Assim, lucrativo para ele sair da capital mexicana em direo fronteira entre Tamaulipas e Texas para adquiri-los do outro lado e revend-los.

    Eu no contava com um fato, porm. No momento em que ele esvaziava as sacolas e mostrava os produtos aos clientes, dei-me conta de que a etiqueta do tnis notificava Made in China, enquanto a das calas dizia Made in Bangladesh, e assim por diante. No encontrei nenhum produto

    que tivesse sido feito nos Estados Unidos.

    Muitos bens que so trazidos dos pases desenvolvidos sequer foram produzidos l, porm essa passagem temporria certifica uma relao de perda de vnculo territorial, uma diviso internacional do trabalho (reduo de custos, terceirizao da explorao da mo-de-obra, desencargo de leis trabalhistas), e uma confiabilidade na procedncia (enquanto ainda se acredita que o deles melhor).

    Os Estados Unidos so a vitrina das tendncias econmicas: compras, grifes, viagens e crises. Oculta-se o sangramento em outras partes do mundo para sustentar este modelo. A China, por sua vez, segue ao p da letra o que a industrializao desordenada trouxe de malfico: poluio atmosfrica, mo-de-obra mal paga e descartvel, desigualdades econmicas e sociais.

    No quis, contudo, ocupar estas linhas com crticas focalizadas em algum pas, seno para recordar a sensatez de que, na pior das hipteses do que se poderia fazer para melhorar nossas condies de desenvolvimento, cidades latino-americanas poderiam substituir a funo das estadunidenses de fronteira e ser tambm comerciais e atrair incentivos fiscais ao prprio pas.

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    Em parte, esse desnvel se deve sobrecarga tributria sobre o comrcio de produtos estrangeiros; em outra, sobrevalorizao pelos consumidores do que vem de fora. No Brasil, no faz sentido criar uma zona comercial deste porte em lugares de reserva ambiental, nem aceitar que por muito tempo houve o fluxo descomunal de importados atravs da fronteira paranaense desde a Ciudad del Este, no Paraguai.

    Setores amplos da economia movimentam-se nestas cidades comerciais, como o de hotis, restaurantes, bancos, lojas. Entra mais renda ao pas. O sacoleiro viaja de outras regies em busca de produtos mais baratos, que no deixariam de ser importados, e precisa almoar, hospedar-se, sacar dinheiro de caixa eletrnico, usar servios de transporte. Poderamos ter maiores incentivos em distintas cidades e regies para a circulao de mercadorias.

    Enquanto isso no acontece, os estadunidenses se saem bem e vendem seus produtos americanos. At que algum desconfie e leia as etiquetas.

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    22. Rotina

    vida rotineira aborrece porque ela esconde a repetio sem que nos demos necessariamente conta. Ao mesmo tempo, ela nos cotovela para o

    despertar de novas atitudes. Ela nos avisa, cedo ou tarde, que o nosso caminho pertence a ns mesmos e que a pressa ou a delonga nossa. Ela nos murmura quando seguimos um ritmo diferente daquele que a natureza determina.

    Esboo algo do tipo: se fecharmos os olhos, no deixaremos de chegar ao destino a p ou de veculo porque j nos acostumamos a pegar a mesma via. O pensamento vagueia. A rotina acomoda. s vezes, vale a pena mud-la e seguir rumos e procedimentos diferentes antes que o meio nos domine em funo da apatia.

    Da que a mudana de caminho ajuda a quebrar a rotina: passar por outras ruas e avenidas, perder-se em becos sem sada, pedir informao sobre como trafegar na prpria cidade. Isto acontece, por incrvel que parea. Logo descobrimos que esta ruptura tem muito a ensinar-nos porque no conhecemos tanto as veias da nossa rotina.

    Podemos ir alm: preparar outro tipo de refeio ou comer em outro restaurante, deslocar os mveis na casa, rever amigos de outra poca ou fazer novas amizades, abrir-se a novas ideias e perspectivas, conhecer formas de vida e cidades distintas. Reformam-se os afazeres corriqueiros, mas, tambm, deixamo-os de lado, quando for possvel, para uma viagem ou experincia extraordinria.

    No confundo rotina com tradio para evitar o risco da apologia do moderno como se o tradicional tivesse que ser desprezado. Sobre esta questo, lamentvel que muitos ainda acreditem obter cultura somente em funo do desfrute do que estrangeiro em detrimento da riqueza da diversidade brasileira. A rotina tambm consegue enganar-nos com bens e smbolos alheios nossa realidade.

    Existe o lado confortante e o malfico da rotina. Este segundo aspecto manifesta-se na desesperana de