Chaves raulzinho.cb@hotmail.com

download Chaves   raulzinho.cb@hotmail.com

of 98

  • date post

    14-Dec-2014
  • Category

    Documents

  • view

    2.397
  • download

    0

Embed Size (px)

description

 

Transcript of Chaves raulzinho.cb@hotmail.com

  • 1. ROBERTO GMEZ BOLADOS Traduo Fabiana Camargo
  • 2. Prefcio Por Roberto Gmez Bolanos Suas calas folgadas tinham mais retalhos e remendos do que tecidooriginal. Eram precariamente presas por duas tiras de tecido que funcionavamcomo suspensrios, atravessadas sobre uma camiseta velha e desbotada, na qualtambm predominavam retalhos e remendos. Calava botas de peo, queevidentemente tinham sido de um adulto. Porm, o mais caracterstico de suasroupas era o velho gorro com tapa-orelhas, que em dias frios no deveria ter sidode pouca utilidade, mas que, quando o conheci, em pleno vero, no fazia maisque acentuar o grotesco de sua figura. - Graxa, senhor? - perguntou ele, mostrando a caixinha de engraxate. Eestive a ponto de responder que no, j que meus sapatos estavam em muitobom estado, mas de repente me veio um pressentimento, essa coisa que nos faztomar decises sem nenhuma razo bvia. Sendo assim, respondiafirmativamente. Eu estava sentado num desses lindos bancos de ferro fundido trabalhadoque ainda existem em alguns parques da cidade. Ele se acomodou no banquinhoporttil que fazia parte de seu equipamento de trabalho e comeou a realizar suatarefa com um entusiasmo incomum. Ento o observei com mais ateno e,nesse instante, compreendi qual havia sido a razo do meu pressentimento:aquele menino era a perfeita encarnao da ternura. Deu muito trabalho iniciar uma conversa com ele, porque era bvio queminhas perguntas provocavam o receio natural de quem est acostumado areceber muito pouco - quase nada, eu diria - dos outros. - Como voc se chama? perguntei. - D no mesmo, no? - ... O que que d no mesmo?
  • 3. - D no mesmo como eu me chame, mas, se quer saber, todos mechamam de Chaves. - Quantos anos voc tem? - continuei. - Minha idade so os anos que eu tenho. - Ento, quantos anos voc tem? - Oito, acho... - Onde voc nasceu? - No posso me lembrar, porque eu era muito pequenininho quando nasci. Foi a que resolvi dar um tempo, na tentativa de que ele mesmo retomassea conversa, mas ficou claro que sua timidez o impedia. Por isso, eu tambminterrompi o interrogatrio. Dei-lhe uma boa gorjeta quando acabou de engraxar meus sapatos. Issofez aparecer em seus olhos um brilho que antes esteve ausente, e eleimediatamente comeou a danar e a exclamar: Com isso posso comprar um sanduche de presunto... Ou dois... Outrs...! E, em seguida, dizendo um rpido e entusiasmado "obrigado", pegourapidamente suas ferramentas de trabalho e saiu correndo em direo rua, ondecomeou a driblar o intenso trnsito de automveis com a destreza que s osmeninos de rua das cidades grandes tm. Enquanto o perdia de vista, tornei aouvir as palavras que pareciam mgicas: "sanduche de presunto!" Foi a queencontrei o caderno. 1 Em nenhuma parte do manuscrito estava escrita a palavra "dirio", mas tomei a liberdade de assimcham-lo, em vez de "notas", "apontamentos" ou algo do gnero, porque apesar de no seguir uma ordemcronolgica, a palavra "dirio" pareceu-me mais de acordo com o tom intimista que caracteriza o contedo dovelho caderno. OBS.: Evidentemente, o manuscrito tem uma infinidade de erros gramaticais, de sintaxe etc. Portanto,me vi obrigado a corrigi-los, mas tentando, sempre que possvel, manter o sabor original. Algumas vezes, porexemplo, tive que dar forma frase que estava ligeiramente sugerida, e em outras (muitas) tive que chegar aacrescentar ou suprimir frases e palavras. Alm disso, tive de fazer uma certa reorganizao dos pargrafos; porm, no modifiquei a aparentedesordem com que se narram os acontecimentos ou comentrios do Chaves.
  • 4. Ele tinha esquecido num canto do banco em que eu estava sentado. E erafcil supor que pertencesse ao Chaves, porque seu lastimvel estado condiziacom o dono. Era um caderno comum, que mostrava com toda clareza o usocontnuo a que estivera submetido. Da capa de papelo no restava mais quepequenos e irregulares pedaos manchados de graxa, poeira, suor e sabe-se l oque mais! As folhas, algumas at incompletas, estavam enroladas nas pontas etambm exibiam uma grande, quantidade de manchas, das mais variadas origens;porm, nelas estava o manuscrito mais espontneo que meus olhos j poderiamter visto: o dirio do Chaves! A primeira vez que li o dirio senti o remorso de quem sabe que estviolando a privacidade de algum. Mas, quando li pela segunda vez, essa sensaofoi se transformando numa inquietude, que depois passou ao riso, tristeza e aomedo. Ento me convenci de que era preciso dar s pessoas a oportunidade deconhecer este mundo estranhamente otimista no qual pode crescer uma criana aquem falta tudo, menos aquilo que continua a ser o motor do universo: a f.
  • 5. Dirio Por Chaves Antes eu pensava que nunca tivera um pai. Mas depois meus amigos meexplicaram que isso no era possvel; que quem nasce porque antes seu pai sedeitou com sua me. Acontece que no conheci meu pai. Ou seja, mal ele sedeitou com minha me, foi embora. Minha me sim, eu conheci, mas no muito. Como ela tinha que trabalhar,todos os dias me levava para uma casa que se chamava creche, e ali eu ficava atque ela voltasse pra me pegar. O chato que a coitada chegava muito cansada detanto trabalhar, e, quando dizia que vinha pra pegar seu filho, perguntavam:"Qual ?" E ela respondia: "No sei, um desses." E entregavam a criana queestivesse mais mo. E, claro, nem sempre era a mesma criana. O que significa que o mais certo que eu no seja eu. Um dia minha me no passou pra me pegar. E nos outros dias tambmno.
  • 6. Dona Florinda Apesar de tudo, eu gostaria de ter uma me. H tantas, que no sei por queno tive a sorte de ter uma, mesmo que no fosse a melhor. Claro que temmuitas mes que tm vrios filhos, mas existem outras que tm no mximo um,como o caso de Dona Florinda. Ou seja, Quico tem uma me inteirinha s praele. E o boboca se porta mal e a desobedece. Eu digo a ele pra no ser burro, prano desperdiar isso. Tambm gostaria de ter um pai, mas no como Seu Madruga, que o paida Chiquinha, porque Seu Madruga bate muito. Bem, Dona Florinda tambm bate muito, mas no em seu filho... Ela sbate no Seu Madruga. Seu Madruga muito burro. E dizem que os filhos saem iguais aos pais,mas no verdade, porque a Chiquinha no burra. Mas ela igual a seu pai napreguia, por isso no gosta da escola.
  • 7. Eu tambm queria ter uma tia. Ou um cachorro. Ou alguma coisa. Lembro que h muito tempo me levaram pra morar numa casa que era umorfanato, onde todas as crianas eram rfs. A principal responsvel de l era a senhora Martina, que estava sempre demau humor e batia em todas as crianas. Uma vez at tirou sangue do meu narize depois se irritou porque minha roupa ficou manchada de sangue, e depois aindame castigou me deixando um dia sem comer. Desde ento tive muito cuidado praque no sasse mais sangue do meu nariz, e a nica vez que falhei foi um dia emque tropecei e dei de cara num degrau que tinha l. Mas a senhora Martina nochegou a perceber, porque fui rapidamente lavanderia e lavei minha roupa. Anica coisa chata foi que tive que botar a roupa de novo enquanto ela aindaestava molhada, ento ela me perguntou por que minha roupa estava molhada, eeu disse que tinha chovido em mim. Mas ela disse que eu era um mentiroso,porque fazia dois meses que no chovia. E me castigou me deixando outro dia sem comer. O orfanato tinha um menino maior do que eu, chamado Cente (deVicente), que era meu melhor amigo. O chato que Cente vivia doente. E assimfoi, at que ele morreu.
  • 8. s vezes iam ao orfanato umas senhoras para olhar as crianas. Depoisescolhiam as que mais gostavam e as levavam pra morar com elas. Eu tinha muita
  • 9. vontade de que me escolhessem, mas elas sempre escolhiam os mais bonitos; ouseja, nunca sa, porque era to feio que, quando brincvamos de esconder, osoutros meninos preferiam perder a me encontrar. .Depois, como o tempo passava e a senhora Martina batia cada vez maisna gente, pensei que o melhor seria fugir do orfanato. Mas nunca me ocorreucomo fazer isso. Isso acontecia porque eu era burro e portanto me faltavaimaginao para ter boas idias. Ento tive dois motivos pra ficar triste: um, o fato de no poder escapar; edois, perceber o quanto era burro. Um dia, fiquei to triste que comecei a chorar, e a senhora Martina meperguntou por que eu estava chorando. No tive outra escapatria senoconfessar que queria sair dali. Ento ela me disse: "Se tivesse dito antes...", eabriu a porta. Caminhei por muitas ruas que no conhecia. No eram ruas muito bonitas,como as que aparecem nos filmes da telev