Cloudy Heart

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Cloudy Heart Prólogo: " A sala estava escura como sempre. A essa hora, quando o sol já havia se posto, a penumbra da noite tomava conta do recinto de maneira uniforme. Os móveis, de madeira rústica, pareciam combinar com a escuridão. A janela de fronte a pequena lareira não demonstrava sua emoção perante a falta de lua, já que a cortina puída pelo tempo limitava toda a sua expressão. Os penduricalhos do lustre antigo permaneciam silenciosos, como se nem ao menos existissem. Era um lugar sombrio, agourento. Um misto de chocolate com poeira compunham o aroma do ambiente. Pequenos objetos estranhos buscavam, em vão, enfeitar o batente da lareira. A pequena mesa redonda ao estilo provençal, tentava inutilmente mostrar alguma delicadeza naquele cômodo tão taciturno. A porta abria-se novamente, como todas as noites naquele mesmo horário. Os pés que adentravam eram tão silenciosos quanto o próprio recinto. A intenção era não perturbar aquela paz fúnebre que se instalava. A luz do pequeno abajur era acesa por mãos brancas e delicadas. As unhas eram longas, porém, sujas de terra. Ao contrário do que se pode imaginar, a luz amarelada do abajur não tornava o ambiente mais confortável ou menos assustador. Tornava-o ainda mais triste, mais solitário. O caminho traçado pelos pés, vestidos de couro preto, era linear rumo ao quarto, no final do corredor. Nenhuma outra luz fora acessa durante o percurso, e logo outra porta se abria. Mais um cômodo revestido com o aroma de chocolate e poeira. A pequena cama de solteiro e o roupeiro de apenas duas portas, ambos feitos em ébano, caracterizavam a escuridão do recinto. Uma porta menor defronte a cama encontrava-se entreaberta, e o cômodo ao qual essa porta protegia era um pequeno banheiro, com peças de louça branca e um pequeno espelho redondo na parede em cima da pia. Os passos rumaram lentamente para a porta entreaberta. As roupas daquele dia foram despidas e acomodadas num cesto cheio pela metade de outras peças. Os pés descalços agora sentiam o frio que emanava do piso. O corpo nu se arrepiava com a escuridão instalada e permitiu-se chegar ao interruptor. A luz também era fraca e os azulejos brancos formavam uma sombra assustadora quando a lâmpada tremulava.

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Ficção

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Cloudy HeartPrlogo:" A sala estava escura como sempre. A essa hora, quando o sol j havia se posto, a penumbra da noite tomava conta do recinto de maneira uniforme. Os mveis, de madeira rstica, pareciam combinar com a escurido. A janela de fronte a pequena lareira no demonstrava sua emoo perante a falta de lua, j que a cortina puda pelo tempo limitava toda a sua expresso. Os penduricalhos do lustre antigo permaneciam silenciosos, como se nem ao menos existissem. Era um lugar sombrio, agourento. Um misto de chocolate com poeira compunham o aroma do ambiente. Pequenos objetos estranhos buscavam, em vo, enfeitar o batente da lareira. A pequena mesa redonda ao estilo provenal, tentava inutilmente mostrar alguma delicadeza naquele cmodo to taciturno. A porta abria-se novamente, como todas as noites naquele mesmo horrio. Os ps que adentravam eram to silenciosos quanto o prprio recinto. A inteno era no perturbar aquela paz fnebre que se instalava. A luz do pequeno abajur era acesa por mos brancas e delicadas. As unhas eram longas, porm, sujas de terra. Ao contrrio do que se pode imaginar, a luz amarelada do abajur no tornava o ambiente mais confortvel ou menos assustador. Tornava-o ainda mais triste, mais solitrio. O caminho traado pelos ps, vestidos de couro preto, era linear rumo ao quarto, no final do corredor. Nenhuma outra luz fora acessa durante o percurso, e logo outra porta se abria. Mais um cmodo revestido com o aroma de chocolate e poeira. A pequena cama de solteiro e o roupeiro de apenas duas portas, ambos feitos em bano, caracterizavam a escurido do recinto. Uma porta menor defronte a cama encontrava-se entreaberta, e o cmodo ao qual essa porta protegia era um pequeno banheiro, com peas de loua branca e um pequeno espelho redondo na parede em cima da pia.Os passos rumaram lentamente para a porta entreaberta. As roupas daquele dia foram despidas e acomodadas num cesto cheio pela metade de outras peas. Os ps descalos agora sentiam o frio que emanava do piso. O corpo nu se arrepiava com a escurido instalada e permitiu-se chegar ao interruptor. A luz tambm era fraca e os azulejos brancos formavam uma sombra assustadora quando a lmpada tremulava. Respirou fundo. Uma, duas, trs vezes. Permitiu-se sentir a gua fria cair sobre seu corpo. Os banhos frios sempre foram os melhores para sua solido. Secou-se com a toalha felpuda que sempre deixava pendurada do lado de fora do box. Dispensou as roupas. Rumou para as cobertas quentes que a esperavam, porm, nenhuma delas foi-lhe suficiente para aquecer a alma. Essa era a pior parte do dia. Quando o sono estava prestes a tomar seu corpo e sua mente e quando ela, e apenas ela, precisa enfrentar seu corao nublado. "

Captulo 1: MedoO despertador tocava incessantemente. A tecnologia do sculo ao qual vivia no coincidia com sua personalidade. Tateou por entre as cobertas at encontrar o pequeno aparelho que lhe tirava a paz e com um pequeno "click" o silncio reinou novamente. Respirou fundo. Seu dia comeava sempre cedo, pouco antes do sol nascer, porm, sua felicidade estava em poder dormir mais um pouco, s por mais algumas horas. Era nesses momentos que desejava ser um urso, para hibernar por meses, sem abrir os olhos, sem ver pessoas, sem sentir medo de nada...apenas dormir. Mais um suspiro. Levantou-se da cama em um pulo. Rumou para o banheiro. Escovou os dentes e lavou o rosto sonolento. Encarou seu prprio ser no espelho. Os pequenos raios de sol perpassavam as frestas da cortina velha do quarto, possibilitando uma nfima luminosidade no ambiente. Pode distinguir seus olhos castanhos como avels. Estavam opacos, sem vida. Seus cabelos desciam lisos pelas costas at perto da cintura, onde faziam cachos largos e desiguais, mas que agora encontravam-se embaraados. O corpo esguio que ainda encontra-se despido, rumou para o pequeno roupeiro. No era difcil encontrar algo para vestir. Era um dia como qualquer outro. Seu corpo escanzelado no permitia nuances de vestimentas. As calas escuras eram a melhor opo. A camisa de manga comprida azul marinho lhe combinava bem, alm de serem confortveis na temperatura atual. As botas com salto mdio eram o nico charme daquela combinao to simplria e amarga. Os cabelos, agora devidamente penteados, lhe caiam sobre os ombros moldando sua face como a de uma boneca de loua sem bochechas rosadas, sem boca em forma de corao. Tudo era uniforme, lmpido. Sentia-se bem com isso, afinal, sua profisso exigia o mximo de distino. Tomou uma xcara de caf com muito acar e comeu dois bombons que se encontravam dispostos no balco da cozinha. A bolsa de couro encontrava-se na poltrona da sala, e antes de toma-la para si, escolheu dois livros de uma pequena estante quase escondida atrs da cortina. Eram dois volumes, um intitulado "O Egito dos Grandes Faras" e o outro "Egito: Pessoas, Deuses, Faras". Ambos estavam com marcadores de pgina, o que indicava uma leitura recente. Colocou-os na bolsa. Olhou para o ambiente mentalizando se no havia se esquecido de nada. Era um habito, apesar de irrelevante, j que tudo o que usava sempre ficava na sua bolsa, a no ser os livros da estante que sempre precisavam ser trocados assim que os acabava de ler. Riu consigo mesma e colocando a ala da bolsa sobre o ombro esquerdo, saiu do pequeno apartamento, trancando a porta de madeira rstica com uma grande chave antiga. Sentiu a brisa da manha e pode ver que o dia j estava bem claro. Ouviu os carros passando na rua e conversa de pessoas, talvez adolescentes que rumavam para a escola. Caminhou suavemente at o saguo do prdio sem porteiro. A construo era antiga, cerca de 200 anos aproximadamente, e definitivamente todo aquele mundo cheio de tecnologia que o sculo XXI proporcionava no combinava com aquele imvel, tampouco com ela mesma. Para quem via de fora, era completamente deslocado do contexto citadino, pois encontra-se entre dois grandes prdios empresariais, com suas janelas de vidro espelhado, seus funcionrios engravatados que viviam correndo contra o relgio, sempre levando consigo um copo descartvel cheio de um lquido escuro ao qual insistem em denominar "caf".Saiu pela porta de vidro sem fachada e comeou a caminhar. Seu destino ficava a poucas quadras de distncia e isso lhe deixava satisfeita, j que podia exercitar suas pernas ao menos alguns minutos. Havia se enganado em relao a adolescentes nas ruas. No havia ningum. O dia havia acabado de clarear e alguns carros passavam na rua ao seu lado. Ela era a nica que caminhava contra o vento que comeava a arder na pele. O inverno logo chegaria, devido a isso as folhas das arvores estavam em sua troca de cor: do amarelo para o vermelho. Era uma viso incrvel, mesmo que fosse triste. Logo avistou o grande porto da universidade a qual lecionava: "University of Calgary " se lia em um pomposo letreiro no gramado alaranjado. Era uma tima universidade. Estava lhe proporcionando grandes conquistas em sua carreira desde que conseguira entrar no corpo docente. Os outros professores lhe acolheram bem e seu orientador acadmico Sr. Terry Dunfield se empenhava realmente em sua pesquisa, mesmo esta sendo um pouco fora dos padres da academia. No podia reclamar daquela paz, daquela monotonia a qual vivia. Precisa convencer-se de que aquela vida era uma tima vida. Os corredores at as salas dos docentes eram limpos e gelados. Os alunos ainda no haviam chegado para as aulas matutinas o que lhe dava um sossego interior. Apesar de ser do corpo docente, no lecionava com frequncia, precisava adquirir experincia e concluir seu PhD, para s ento ser legitimamente reconhecida como professora efetiva. At l, era responsvel por substituir professores ausentes ou tirar possveis dvidas de alunos. Era um caminho longo, penoso, dolorido. Mas o seguia com toda a fora que possua, mesmo que sentisse em seu peito que algo lhe faltava. Seus passos ecoaram pelo longo corredor. Sua sala era a ltima, prxima aos banheiros dos funcionrios e da maquina de caf expresso. Pegou a chave da bolsa ainda faltando poucos metros para chegar a porta quando parou subitamente. Olhou diretamente para figura que estava parada antes do batente, observado o pequeno letreiro pregado a madeira o qual indicava seu nome. Era um homem alto, no to esguio quanto os canadenses habitualmente eram. Ombros medianos. Cabelos dourados como nozes. A pele parecia plida, quase translcida. Usava um suter cor de areia por cima de uma camisa branca. No parecia um aluno, tampouco um professor. Ele observa a porta, como se buscasse compreender a pessoa que ocupava aquela sala somente de olhar o letreiro. No conseguiu buscar em sua mente uma reao imediata. Observava o estranho da mesma forma como ele observava a porta. Seria um aluno transferido? Ou quem sabe um novo professor, que assim como ela no era efetivo as aulas? No sabia dizer, no podia na verdade. Estava congelada com a aura que aquele homem emanava. Piscou vrias vezes buscando clarear os pensamentos at que, vendo-se sem sada, deu meia volta, como se no houvesse visto ningum ou, como se estivesse vindo pelo caminho errado. Iria voltar pelo corredor e esconder-se na biblioteca at que aquele homem sumisse. Era o melhor a se fazer.- Elizabeth Somniare...? ouviu atrs de si, ao longe. Uma voz to grave quanto melodiosa que, ao mesmo tempo em que parecia distante, lhe sussurrava ao ouvido. Captulo 2: Surpresa.Sentia seu corao explodir dentro do peito.Respirou fundo e, mesmo sem vontade de dar a devida ateno aquele que lhe chamara, decidiu o fazer por educao. Mas ao virar-se sobre os calcanhares, surpreendeu-se ao no ver ningum. O homem desaparecera, e tudo encontrava-se como se ele nunca tivesse existido naquele cenrio. Procurou com um olhar discreto a sua volta, mas nada diferente do normal ocorria. Os alunos comeavam a chegar, conversando sobre seus pequenos mundos. Nenhuma ateno lhe era dirigida, nenhuma s brisa lhe sacudia as roupas. Era como se ela mesma no estivesse ali.Mais um respirar. Desta vez, encheu completamente os pulmes e soltou o ar de vagar. Caminhou at a porta da sua sala, destrancou-a e empurrou lentamente, ouvindo o baixo ranger das dobradias j enferrujadas. Nada de diferente ali tambm. Nada fora tocado e o ambiente se encontrava to vazio como sempre fora. A mesa do Sr. Dunfield, cheia de pequenos papeis amarelos espalhados encontrava-se intacta, bem iluminada pela janela. Virou-se e seguiu um pouco a direita, onde sua mesa tambm encontrava-se como a deixara no dia anterior. Limpa, com alguns livros empilhados ao lado do computador. A enorme estante de livros, que fazia o pano de fundo do seu lado da sala estava como sempre fora: empoeirada e belssima. As horas avanavam e o trabalhado era sempre o mesmo. Como no havia nenhum professor faltoso, sua funo era basicamente catalogar os livros recm-chegados que no foram aceitos pela biblioteca. Tambm era responsvel pelos resumos do contedo de cada um deles, enchendo sempre cadernos e mais cadernos de anotaes na sua mida letra. Sr. Dunfield ligara avisando que no poderia ir a faculdade por motivos de sade, o que lhe deixava muito a vontade para trabalhar. Mesmo no sendo um homem velho, Sr. Dunfield tinha uma grande necessidade de contar suas experincias de vida, como viagens, compras inusitadas e relaes amorosas falhas. Riu com o pensamento. No pouco tempo que trabalhava com aquele homem sorridente e distrado, j conhecia todas suas ex-mulheres e amantes, mesmo no tendo visto nenhuma delas pessoalmente. Repensou no assunto por mais um momento e desistiu de sorrir. Esteve sozinha desde que reconheceu seu reflexo no espelho pela primeira vez, ento nunca entendia de fato os problemas de seu orientador. Eram sentimentos que estavam alm do seu corao e da sua mente. Seus pensamentos rumaram ento para aquela figura misteriosa que lhe procurara mais cedo. Levou uma das mos a tmpora afim de forar sua mente a qualquer lembrana desse homem. Talvez uma criana parecida com ele, ou um parente...No, seus pais sempre moraram do outro lado do continente. Havia vindo sozinha para o Canad a pouco mais de um ano e tinha certeza que ningum viria lhe encontrar, afinal nunca teve amigos. Pensou na possibilidade de ser um futuro orientando, talvez algum interessado em sua pesquisa... mas era algo to vago e ainda pouco estruturado, do conhecimento de pessoas intimamente envolvidas na academia que nem ao menos lhe conheciam pessoalmente, somente pelo nome ou talvez s pelo seu numero de registro. Talvez fosse um parente de Sr. Dunfield, essa era a nica explicao. Mas porque lhe chamar e depois desaparecer...qual era o sentido daquilo?Sentia-se cheia desses pensamentos desconexos. Lhe incomodava quando as coisas no faziam sentido ou saiam da ordem comum do universo. O relgio marcava duas da tarde. No havia comido ainda e sentia-se exausta. Iria pra casa mais cedo. Riu novamente. Mais uma coisa mudando num nico dia, afinal, desde que chegara cumprira sempre o mesmo horrio, chegando ao amanhecer e saindo quando o sol j havia sumido. Hoje seria diferente, portanto. Pegou sua bolsa de couro, alguns livros da estante e saiu. Observou a sua volta antes de trancar a porta e conferiu se estava bem fechada depois de dar trs voltas na chave. Seguiu o corredor at o final e logo estava no gramado frontal do campus. Era um lugar relativamente grande, muito arborizado e com um certo ar medieval. Gostava disso, gostava at mesmo do vento frequente e frio que costumava bagunar-lhe os cabelos, mas que lhe abandonara neste dia. Um peso no peito lhe fez falhar um inspirar. Era como uma angustia, que aparecia repentinamente e sem explicao aparente, talvez fosse a solido, ou talvez s curiosidade sobre a pessoa que havia lhe procurado mais cedo.*Adentrou finalmente o cmodo glido que lhe pertencia. A penumbra tomou conta de si e sentiu-se aliviada. Era bom quando ningum podia lhe ver ou sentir que existia. Essa era a beleza da solido. Ser completamente invisvel e inviolvel. Retirou os sapatos, deixando-os jogados de qualquer maneira na sala e rumou para o pequeno aparelho, de calefao da parede prxima a estante de livros. Sentia grande necessidade de aquecer-se. Riu pela terceira vez. Desde que mudara para aquele pas coberto de neve, nunca havia usado a calefao. Nunca sentira frio suficiente para isso, porm neste dia, to surreal em sua rotina pacata, sentia uma necessidade extrema de aquecer-se. - Posso te aquecer tambm se voc quiser uma voz repentina fez-se ser ouvida, vinda da janela.No conseguiu gritar. Simplesmente sua voz no conseguiu entrar em acordo com o oxignio em seus pulmes. Virou-se o mais rpido que pode e sentiu a saliva secar na garganta. Era ele, aquele em frente a porta da sua sala na universidade, que agora estava recostado na parede. Estava usando as mesmas roupas de antes, e buscava com curiosidade olhar a rua pela fresta da cortina. - Como entrou? Finalmente foi capaz de falar algo. O ar quente que aquecia o cmodo aqueceu tambm sua mente, clareando-a para tomar a atitude mais sensata: chamar a polcia.-