Clube dos 13: crise ou nova ordem? - SNH2011 · fundação do Clube dos 13 quatro clubes de São...

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Anais do XXVI Simpósio Nacional de História ANPUH • São Paulo, julho 2011 1 Clube dos 13: crise ou nova ordem? Luiz Carlos Ribeiro 1 Introdução A palavra crise tem sido recorrente no futebol mundial e, mais especialmente no brasileiro. Em artigo Helal/Gordon observam que é a partir dos anos 1970 que se começa a falar em crise no futebol brasileiro. 2 Claro, isso se ignorarmos a “crise” da Copa de 1950 ou mesmo o fracasso de 1966. Mas a análise dos autores é na perspectiva da relação pátria e futebol e se o Brasil estaria deixando de ser o país do futebol, imaginário construindo desde os anos trinta. A tese é a de que, com a reestruturação da economia global, a partir dos anos 1970/80 teria ocorrido um esvaziamento da ideia de nação”, quando não se enfatiza mais a pertinência das pessoas a uma Nação, mas a grupos étnicos, de gênero e, sobretudo, a grupos que se define basicamente pelo consumo”. 3 Evidentemente que essa verdade pode ser aplicada ao caso brasileiro, mas é uma análise que não pode ser generalizado a todas as sociedades. Vide, como exemplo, as jovens nações do leste europeu que surgiram com o desmanche do bloco soviético. De todo modo, a ideia de crise no futebol brasileiro não pode ser vista apenas sob o aspecto identitário nacional. Tem ocorrido nos últimos trinta/quarenta anos uma serie de solavancos que vem modificando o sistema futebolístico. São tanto fatores de ordem interno quanto interna ao sistema. São fenômenos conjunturais que impõe reordenamentos na organização do esporte e, quando eles acontecem, são vistos como sinais de ruptura, logo de alguma crise. O presente artigo pretende analisar alguma dessas turbulências a partir de um lugar muito particular do futebol mundial e brasileiro: instituições cuja finalidade é a de defender os interesses dos clubes mais ricos do futebol. Mais especificamente, o caso da criação em 1987 da União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro, o chamado Clube 1 Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná. Coordenador do Núcleo de estudos Futebol e Sociedade. 2 Helal, Ronaldo ; Gordon, Cesar, A crise no futebol brasileiro: perspectivas para o século XXI. Eco-Pós. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 1, 2002, p. 37. 3 Idem, p. 51.
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Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1

Clube dos 13: crise ou nova ordem?

Luiz Carlos Ribeiro1

Introduo

A palavra crise tem sido recorrente no futebol mundial e, mais especialmente no

brasileiro. Em artigo Helal/Gordon observam que a partir dos anos 1970 que se

comea a falar em crise no futebol brasileiro.2 Claro, isso se ignorarmos a crise da

Copa de 1950 ou mesmo o fracasso de 1966.

Mas a anlise dos autores na perspectiva da relao ptria e futebol e se o Brasil

estaria deixando de ser o pas do futebol, imaginrio construindo desde os anos trinta.

A tese a de que, com a reestruturao da economia global, a partir dos anos 1970/80

teria ocorrido um esvaziamento da ideia de nao, quando no se enfatiza mais a

pertinncia das pessoas a uma Nao, mas a grupos tnicos, de gnero e, sobretudo, a

grupos que se define basicamente pelo consumo.3

Evidentemente que essa verdade pode ser aplicada ao caso brasileiro, mas uma anlise

que no pode ser generalizado a todas as sociedades. Vide, como exemplo, as jovens

naes do leste europeu que surgiram com o desmanche do bloco sovitico.

De todo modo, a ideia de crise no futebol brasileiro no pode ser vista apenas sob o

aspecto identitrio nacional. Tem ocorrido nos ltimos trinta/quarenta anos uma serie de

solavancos que vem modificando o sistema futebolstico. So tanto fatores de ordem

interno quanto interna ao sistema.

So fenmenos conjunturais que impe reordenamentos na organizao do esporte e,

quando eles acontecem, so vistos como sinais de ruptura, logo de alguma crise.

O presente artigo pretende analisar alguma dessas turbulncias a partir de um lugar

muito particular do futebol mundial e brasileiro: instituies cuja finalidade a de

defender os interesses dos clubes mais ricos do futebol. Mais especificamente, o caso da

criao em 1987 da Unio dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro, o chamado Clube

1 Professor do Departamento de Histria da Universidade Federal do Paran. Coordenador do Ncleo de

estudos Futebol e Sociedade.

2 Helal, Ronaldo ; Gordon, Cesar, A crise no futebol brasileiro: perspectivas para o sculo XXI. Eco-Ps.

Rio de Janeiro, vol. 5, n. 1, 2002, p. 37.

3 Idem, p. 51.

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dos 13, no Brasil e, na Europa, do European Football Clubs Grouping, mais conhecido

como G14, criado em 200 e extinto em 2008.

Ambas as instituies surgem e se fragilizam nesses momentos de turbulncia do

futebol. Tm trajetrias prprias, mas se encontram dentro de uma configurao comum

ao futebol contemporneo, qual seja a do forte crescimento comercial e financeiro que

transformou o esporte em uma das vedetes da indstria de consumo de bens culturais de

massa.

O fato que o crescimento desse tipo de indstria do entretenimento criou uma elite de

clubes, de forma diferenciada no Brasil e na Europa. De tal modo que essa elite passou a

ter interesses distintos da maioria dos clubes. desse modo que no Brasil o C13 passou

a representar os interesses dos grandes e mais ricos clubes nacionais, assim como na

Europa o G14 representou os interesses dos mais ricos entre os filiados da UEFA-Union

of European Football Association.

A crise recente do C13, em 2011, com o processo de negociao da venda da

transmisso dos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol, perodo 2012-2014 foi

analisada por grande parta de imprensa como mais um momento de crise do futebol

brasileiro.

Nosso objetivo exercitar uma anlise para alm das disputas de interesses pessoais dos

dirigentes dos clubes e do C13 (desde a simples vaidade at os escusos interesses

financeiros) e para alm do espetculo miditico que o fenmeno provocou. Ou seja, o

desgaste do C13 no processo de negociao do direito de transmisso dos jogos seria

apenas mais uma fogueira de vaidades ou, mais do que isso, estaramos vivendo o

esgotamento de um modelo de gerncia dos clubes e do futebol brasileiro?

No mesmo sentido, procuramos entender a trajetria do G14, desde a sua criao em

2000 at sua extino em 2008. Por que, apesar de terem um fundamento comum que

o interesse financeiro dos grandes clubes de futebol em se distanciar da massa dos

clubes pequenos, o Clube dos 13 e o G14 tiveram nesses anos trajetrias diferenciadas?

Sobre o C13

O Clube dos 13 foi fundado em 1987, em um momento muito singular do futebol e da

sociedade brasileiros. No plano social e poltico vivamos o esgotamento do regime

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 3

autoritrio e do milagre do crescimento econmico. O tempo agora era o dos

primeiros passos da redemocratizao, mas afundados em uma profunda crise mundial

(1980, a dcada perdida). O quadro poltico era de euforia democrtica e de discusso

de uma nova carta magna. Entre outras medidas, discutamos a aprovao do artigo 217

que consolidou a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associaes, quanto

a sua organizao e funcionamento.

Era na verdade uma luta contra todos os resqucios autoritrios do Estado, desde

Vargas, que institura em 1941 o CND-Conselho Nacional de Desportos.

O mote da criao do Clube dos 13 iniciara-se em 1986, quando a CBF comandou um

dos campeonatos mais desorganizados da histria esportiva brasileira. Para atender as

presses do Vasco da Gama que no se classificara para a segunda fase, a CBF acabou

abrindo excees a outros clubes. O campeonato acabou sendo ampliado para 80 clubes

que, embolado com os campeonatos regionais tornou o futebol brasileiro altamente

deficitrio para os clubes.

O uso do tapeto (jargo popular para se referir aos ganhos escusos obtidos nos

tribunais esportivos) era uma prtica autoritria recorrente. Assim como barganhar a

incluso de clubes sem expresso no campeonato nacional era uma tradio inventada

durante a ditadura militar, muito bem expressa no ditado popular que dizia o seguinte:

onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional. Os clubes pressionavam os

dirigentes das federaes estaduais e estes, por sua vez, pressionavam a CBF. O

resultado foi uma queda expressiva da mdia de pblico nesses campeonatos.4

De tal monta era a desorganizao que, em 1987, a CBF declarou-se sem recursos para

organizar o campeonato. Esse vacilo foi a oportunidade que os chamados grandes

clubes encontraram para realizar um antigo sonho de fundar uma liga independente da

CBF e organizar um campeonato apenas com clubes de expresso, ou seja, um ncleo

restrito de clubes.

Assim, depois de longas discusses, em 11 de julho de 1987 assinaram a ata de

fundao do Clube dos 13 quatro clubes de So Paulo (Corinthians, So Paulo,

Palmeiras e Santos), quatro do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco, Fluminense e

4 Helal, Ronaldo. Passes e Impasses. Futebol e cultura de massa no Brasil. Petrpolis, RJ: Vozes, 1997,

p. 85.

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Botafogo), dois do Rio Grande do Sul (Grmio e Internacional), dois de Minas Gerais

(Cruzeiro e Atltico) e um da Bahia (Bahia). O nmero de participantes deu ao grupo o

nome de Clube dos 13, mantido at mesmo quando foram admitidos mais sete

membros, j nos anos 90 (Sport Recife, Portuguesa-SP, Coritiba, Gois, Atltico-PR,

Guarani-SP e Vitria-BA).

Segundo a memria de Joo Henrique Areias, que na ocasio da fundao do Clube dos

13 era funcionrio do marketing da IBM e assessor informal do Mrcio Braga,

presidente do Flamengo, os clubes tambm no tinham recursos para organizar o

campeonato brasileiro. Iniciou-se, ento, a estratgia de negociao coma Rede Globo

de Televiso. Naquela poca, a televiso ainda era um tabu para os clubes de futebol,

lembra Areias. O medo que a televiso viesse a esvaziar os estdios, apesar da j bem

sucedida experincia no futebol europeu.5

O problema no Brasil era a desorganizao do calendrio que implicava em mudanas

repentinas de escalas dos jogos, dos atrasos (o que para a televiso era algo impensvel

de existir) os arranjos de acenso/descenso. Tudo isso desacreditava o futebol junto a

possveis patrocinadores da mdia televisiva.

Nas palavras de Joo Henrique Areias, organizao e credibilidade era o que faltava

para a busca de recursos junto a televiso:

Eu expliquei aos dirigentes a necessidade de organizar um campeonato em que

todos soubessem, de antemo, quando e contra quem os times jogariam at o fim

do ano. Para vender um produto, o comprador tem que saber exatamente o seu

contedo e, at ento, calendrio era uma palavra pouco importante para

dirigentes de futebol.6

A Rede Globo j havia negociado naquele ano a final do campeonato paulista por 70

mil dlares e esse passou a ser o parmetro para as negociaes com o C13. Para se ter

uma tabela mais racional e de maior abrangncia geogrfica decidiu-se ampliar de 13

para 16 clubes, estendendo-se o convite para Gois, Coritiba e Santa Cruz. Com isso foi

5 Leonardoweb site oficial. Joo Henrique Areias 20 Anos de Clube dos 13. (entrevista postada em

09/08/2007). Acesso: http://leonardoweb.globo.com/pg_noticias.asp?secao=10&cod=295. Acessado

em: 20.03.2010.

6 Idem.

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possvel levantar 3,4 milhes de dlares, mais que o necessrio para os clubes

realizarem o campeonato, que ficou conhecido como Copa Unio.

Nesse momento a CBF percebendo que estava perdendo o controle poltico sobre o

futebol dos clubes, resolve tambm organizar por conta prpria um campeonato

nacional com os clubes excludos da Copa Unio.

Para resolver o imbrglio de dois campeonatos nacionais a CBF tentou organizar

definindo a Copa Unio como modulo amarelo e o seu torneio como modulo verde. A

proposta da CBF de realizar um quadrangular entre os quatro finalistas dos dois

torneiros (Flamengo e Internacional, pela Copa Unio e Sport Recife e Guarani pelo

torneio da CBF) no foi aceita pelo C13. Resulta que em 1987 tivemos dois campees

nacionais: o Flamengo pela Copa Unio e o Sport pelo torneio da CBF. O CND-

Conselho Nacional dos Esportes, rgo que regula o esporte no Brasil reconheceu o

Flamengo como nico campeo. O Sport recorreu justia comum e obteve do Tribunal

de Justia Federal de Pernambuco o direito o mesmo reconhecimento.

Inicia-se assim um longo conflito de interesses entre as duas entidades: a CBF e o Clube

dos 13, que nunca foi reconhecido pela entidade oficial como representante dos clubes

brasileiros, at porque tinha um nmero restrito de scios.

A CBF, por sua vez, sempre contou com o apoio poltico dos clubes pequenos, a

maioria alijada da elite do C13. Em 1991, com apoio da CBF foi criado a ABRACEF,

reunindo inicialmente 11 clubes no pertencentes ao C13, mas que no teve muito

futuro, tanto por que sofreu assdio do C13, tanto por que a CBF nunca teve efetivo

interesse em constitu-lo.

O objetivo da CBF em apoiar a ABRACEF era apenas no sentido de enfraquecer o C13,

na medida em que ela prpria passou a ter interesse nas negociaes com a televiso. O

que faz os interesses dos dois grupos se chocarem de frente , principalmente, a

negociao da transmisso do Brasileiro-98 para os canais de TV aberta, comentava

em 1997 o jornalista Fbio Victor, do jornal Folha de So Paulo.7

No demorou muito para que a ABRACEF, cooptada pelo C13 se pulverizasse, como

testemunha o ex-presidente do Vitria da Bahia, Paulo Carneiro: 7 Victor, Fbio. Sport e Curitiba acendem vela para Deus e diabo. Agncia Folha, 18/06/97. Acesso:

http://www1.folha.uol.com.br/fol/esp/s2028004.htm . acessado em: 21.03.2010.

http://www1.folha.uol.com.br/fol/esp/s2028004.htm

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Fomos perseguidos, inclusive, na nossa vida pessoal, mas resistimos e em 1999

o C13 percebeu que era melhor nos ter l dentro do que fora. E assim entramos

ao lado de Atltico-PR, Portuguesa e Guarani. Antes, j tinham cooptado Sport,

Coritiba e Gois para tentar enfraquecer nosso movimento.8

De acordo com Helal, nos artigos de jornais da poca, os termos que apareciam com

frequncia quando tratavam do Clube dos 13 eram racionalizao e modernizao,

categorias que, segundo o autor, devido resistncia da CBF e das federaes,

indicavam a evidncia da tenso do dilema brasileiro neste universo.9 A partir da

conclui: percebemos que o futebol brasileiro via-se diante de um impasse: reestruturar

a organizao administrativa e promover campeonatos rentveis ou esperar a falncia

dos clubes.10

A forma binria como foi colocada a situao do futebol brasileiro me parece um pouco

simplista. Opor racionalizao/modernizao, supostamente representadas pelo Clube

dos 13, em relao postura contrria da CBF (logo ela representando a tradio)

esclarece muito pouco a situao que vivia (e ainda vive) o futebol nacional.

claro que a motivao primeira dos clubes ao tentarem criar uma liga independente

em 1987 era a lgica do mercado, cuja eficcia econmica exigia o que a imprensa

passou a chamar de racionalizao. Mas a maioria dos diretores signatrios do Clube

dos 13 agia muito mais pelo oportunismo de melhorar os ganhos dos clubes do que por

uma racionalidade fundamentada no planejamento de reestruturao do clube ou do

futebol brasileiro.

Do mesmo modo, tambm os dirigentes da CBF no podem ser vistos irracionais ou

pr-capitalistas, conforme algum linguajar jornalstico. O fato que, como bem

reconhece Helal, h um processo de mudana conjuntural e profunda no capitalismo

global, marcado por uma retomada expansionista e de internacionalizao do capital a

chamada globalizao que desorganiza os mercados locais e coloca indivduos, grupos

e instituies na incerteza. Logo, as mudanas so muito mais ao sabor das

8 Arajo, Wellington (Blog de). Ex presidente do Vitria (BA) Paulo Carneiro comenta discriminao. 1

de maro de 2011. Acesso: http://www.wareporter.com.br/ex-presidente-do-vitoria-ba-paulo-carneiro-

comenta-discriminacao/ . acessado em: 23.05.2011.

9 Helal, op. cit, p. 87

10 Idem.

http://www.wareporter.com.br/ex-presidente-do-vitoria-ba-paulo-carneiro-comenta-discriminacao/http://www.wareporter.com.br/ex-presidente-do-vitoria-ba-paulo-carneiro-comenta-discriminacao/

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oportunidades do que mudana de mentalidade dos dirigentes de clubes em direo a

um projeto de administrao racional e moderna do futebol no Brasil.

Os atores principais C13 e CBF moviam-se nessa turbulncia a partir de pontos

distintos, mas todos inexoravelmente caminhavam em direo hegemonia do capital

globalizado que se impunha no futebol mundial.

Por um lado o Clube dos 13 tentava se desembaraar da lentido que a multido de

clubes profissionais de futebol impunha s mudanas. As ofertas globais do novo

mercado de entretenimento exigiam respostas eficazes que a lentido do voto unitrio

no permitia. Portanto, eles no estavam agindo em favor de uma modernizao de

futebol brasileiro em oposio a uma suposta irracionalidade e desorganizao da

CBF mas apanhando de forma oportuna as oportunidades do mercado global do

futebol, sem mesmo saber a direo que tudo isso levaria.

De outro, a CBF como ainda hoje sabia que a sua fora poltica estava na

dependncia e na lentido (que podemos chamar de atraso) da multido de pequenos

clubes e de federaes corruptas ou falidas. Ela sabia que precisa se modernizar, mas

no podia deixar rfos a imensa maioria de sua base poltica e ficar merc da

modernidade de uma minoria de clubes mais ricos.

O depoimento recente de Juca Kfouri, acerca da criao do Clube dos 13 revela bem o

carter natimorto da modernidade do Clube dos 13:

Conto aqui o que vi, e poucas coisas vi to por dentro em minha vida de

jornalista como o nascimento do Clube dos 13 e da Copa Unio.

Como vi o comeo lento e gradual de sua decadncia.

Curiosa e dramaticamente, sua imploso se d quando parecia ressurgir, embora,

agora, parea mais que tenha sido aquela famosa melhora do doente antes de

morrer.11

Refere-se o jornalista ao acordo que dirigentes do Clube dos 13 realizaram com a CBF,

na sequncia da sua fundao, e conclui: De l para c, cada vez mais o C13 se

11 Kfouri, Juca Nascimento e agonia do Clube dos 13. Folha de S.Paulo. 1/03/2011. Acesso:

http://blogdojuca.uol.com.br/2011/03/nascimento-e-agonia-do-clube-dos-13/ . Acessado em:

13.04.2011.

http://blogdojuca.uol.com.br/2011/03/nascimento-e-agonia-do-clube-dos-13/http://blogdojuca.uol.com.br/2011/03/nascimento-e-agonia-do-clube-dos-13/

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transformou apenas em uma agncia negociadora de direitos de transmisso, com

episdios lastimveis.12

O episdio recente (2011) das negociaes dos direitos de transmisso dos jogos pela

televiso, por parte do Clube dos 13, revelou a absoluta falta de organizao e

racionalidade dos dirigentes de clubes. De tal modo que a maioria dos comentaristas

anuncia a morte do Clube dos 13, como o prprio Juca Kfouri, na citao acima.

Aproveitando-se da ganncia, oportunismo e despreparo da maioria dos dirigentes de

clube, a TV Globo, at ento a nica que tinha privilgios na concorrncia pblica que o

Clube dos 13 realizava para a negociao da transmisso dos jogos, passou a negociar

individualmente com os clubes.

Em 2010 O Conselho Administrativo de Defesa Econmica (CADE) orientou o Clube

dos 13 a retirar a vantagem de 10% concedida Rede Globo de televiso (direito de

preferncia), no edital de licitao dos direitos de transmisso do Campeonato Brasileiro

de 2012 a 2014. Desde ento a emissora passou a fazer adiantamentos financeiros aos

clubes como uma forma de pressionar as futuras negociaes, como admite Atade Gil

Guerreiro, diretor-executivo do C13.13

Em 2011, enquanto o Clube dos 13 encaminhava o processo da licitao a Rede Globo

passou a negociar individualmente com os clubes por fora da entidade. Os primeiros

clubes a aderir foram exatamente os dois de maior torcida: Flamengo e Corinthians.

Diante do ocorrido, a principal concorrente da Globo, a Rede Record, retirou-se do

processo licitatrio. A REDE TV! foi a nica inscrita e, obviamente, como vencedora,

adquiriu o pacote das trs temporadas pelo montante de R$ 1.548 bilhes.

Ganhou mas no levou, pois nessas alturas quase todos os clubes do C13 j haviam

assinado individualmente com a Rede Globo, fato que criou um imbrglio jurdico.

Diante da situao o Clube dos 13 foi obrigado a reconhecer que quem tem o direito de

transmisso dos jogos para as temporadas de 1012-2014 a Rede Globo de Televiso.

12 Idem.

13 Fernandez, Martin. Dvidas e contrato bilionrio causam a disputa entre clubes. Folha de S.Paulo,

24/02/2011. Acesso: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/880281-dividas-e-contrato-bilionario-

causam-a-disputa-entre-clubes.shtml. Acessado em: 13.04.2011.

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/880281-dividas-e-contrato-bilionario-causam-a-disputa-entre-clubes.shtmlhttp://www1.folha.uol.com.br/esporte/880281-dividas-e-contrato-bilionario-causam-a-disputa-entre-clubes.shtml

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Sobre o G14

A criao, em 2000, do G14, grupo lobista autodenominado the voice of the clubs,

composto por 18 dos clubes mais ricos do futebol mundial, marcou um novo momento

no processo de organizao do futebol europeu e mundial. 14

Em 2008, aps longa e

conturbada disputa com a direo da UEFA o G14 foi extinto. Foi incorporado nos

quadros da UEFA como ECA-European Club Association. Em memorando de

entendimento formal, assinado em janeiro de 2008, a ECA foi plenamente reconhecida

pela UEFA e pela FIFA.

Apesar da prtica lobista no futebol ser antiga, a constituio do G14 como um rgo

representativo de um grupo reduzido de clubes deu um significado poltico diferenciado.

O G14 era por excelncia o que podemos definir como um grupo de presso. Era um

agrupamento fechado ao qual s era possvel o ingresso atravs de convite e aprovao

pela maioria dos filiados.

Nos seus objetivos estatutrios, dois aspectos se destacavam: defender os interesses dos

clubes filiados e negociar o formato, a administrao e a operao das competies (das

quais participam seus filiados) organizadas pela FIFA/UEFA e outras instituies

esportivas.15

Ou seja, apesar de falar de princpios gerais de melhoramento do futebol,

seu objetivo era reforar a posio dos clubes associados e impor seus interesses no

mundo do futebol. Como grupo de presso, o G14 desenvolveu uma srie de

reivindicaes pautadas no interesse econmico de mercado, colocando em risco o

funcionamento do chamado modelo europeu de futebol, defendido pelas autoridades

polticas europias e pela UEFA/FIFA. Do mesmo modo, ao se propor como uma

representao institucional de clubes, o G14 confrontou item estatutrio central na

organizao e nos fundamentos polticos da FIFA, que no reconhece mais de uma

instituio por nvel de representao.

14 So os seguintes os 18 clubes pertencentes ao G14: Real de Madrid, FC Barcelone e FC Valence

(Espanha); AC Milan, Inter de Milan e Juventus (Itlia); Liverpool, Manchester United e Arsenal

(Ingleterra); Bayer Leverkusen, Borussia Dortmund e Bayern de Munich (Alemanha); Ajax e PSV

Eindhoven (Holanda); FC Porto (Portugal); Olympique Lyonnais, Paris Saint-Germain e Olympique

de Marseille (Frana). A partir maio de 2007 assumiu a presidncia do grupo Jean-Michel Aulas,

tambm presidente do Olympique Lyonnais, da Frana.

15 G-14. (2008), European Football Clubs Grouping. European Economic Interest Grouping. Foundation

Agreement. Bruxelles: G14. http://www.g14.com/main.php. consultado em 30.05.2008.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Olympique_lyonnais

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 10

Ao no reconhecerem o G14 como interlocutor, a FIFA e a UEFA se depararam, em

contrapartida, com a fragilidade de dirigentes de federaes locais, teoricamente suas

bases polticas de sustentao. Esses dirigentes encontravam-se igualmente envolvidos

nessa complexa rede de interesses, sintetizada no esquema binrio das vantagens

mercadolgicas de um lado e, de outro, na tradio de um futebol solidrio e equilibrado

do ponto de vista competitivo.

Os clubes mais ricos, ao agirem motivados fundamentalmente pela busca de resultados

financeiros, efetivamente vm promovendo um desequilbrio competitivo e um

reordenamento na estrutura do futebol europeu e mundial.

fato que suas motivaes econmicas promovem uma elitizao no futebol, na

medida em que, possuindo condies de adquirir os melhores jogadores, teoricamente

tornam-se mais competitivos. Transformam-se, assim, em uma elite do futebol mundial,

relegando a um segundo plano a grande maioria dos clubes profissionais.

Essa concluso tanto verdadeira quanto polmica. Uma anlise dos resultados

esportivos e financeiros dos clubes demonstra como a opo pela eficcia do mercado

no necessariamente um caminho tranqilo ou nico para o futebol mundial. Dessa

perspectiva de pautar o campo esportivo pela lgica da eficcia financeira temos

exemplos tanto de sucesso quanto de fracassos.

Basta vermos os fiascos de ingresso na bolsa de valores, a runa financeira (em especial

o que vem ocorrendo a partir de crise financeira do final de 2008) ou a perda de

identidade clubstica de alguns clubes europeus. Do mesmo modo, vem se verificando o

crescimento de um campo financeiro que se faz de forma autnoma em relao aos

resultados esportivos. Ou seja, uma articulao que se forma no campo do marketing e

da especulao financeira, independente dos resultados esportivos.

De todo modo constata-se que os clubes mais ricos, dentro ou fora do G14, ao mesmo

tempo em que compem a famlia do futebol, constituem-se em uma fora autnoma.16

Tendo de responder muito mais aos seus investidores financeiros que aos seus

16 O termo famlia recorrente na documentao oficial da FIFA, UEFA e outras instituies ligadas ao

futebol. Refere-se basicamente diversidade do campo que compe a estrutura do futebol, tais como

federaes, clubes, dirigentes, torcedores, etc. O termo usualmente utilizado como sinnimo de

entrosamento e harmonia da estrutura esportiva. Nesse sentido um termo com forte conotao

poltica de produo de um sentimento de pertena.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 11

torcedores, seus objetivos cada vez mais se restringem a somente participar de eventos

efetivamente rentveis. Desse modo agem de maneira incisiva sobre a estrutura dos

campeonatos, que desejam cada vez mais restritiva e de preferncia sem possibilidade

de ascenso/descenso, garantindo assim a permanncia dos clubes nas ligas mais

rentveis, independente de resultados esportivos.

Evidentemente, essa perspectiva enfrenta a oposio do restante da massa de dirigentes

de clubes e de federaes, que no tem interesse nesse fechamento, pois significaria

suas excluses e impossibilidade de participar dos campeonatos mais rentveis, tais

como a Liga dos Campees e a Copa UEFA.

De acordo com os regulamentos atuais desses campeonatos, os critrios esportivos so

determinantes, tendo como parmetros a classificao de cada clube em sua liga

nacional e coeficientes da UEFA, que so atualizados e publicados com freqncia.

Esse critrio do mrito esportivo o mesmo utilizado pela FIFA em todas as suas

competies.

Apesar dos clubes mais ricos ainda no conseguirem alterar esses fundamentos, as suas

condies financeiras tm promovido uma elitizao. o que fica demonstrado quando

analisamos o nmero de clubes participantes nas fases finais da Liga dos Campees,

desde 2000/01 quando foi criado o G14.

Dessas sesses fica demonstrado que Inglaterra (Liverpool e Manchester United),

Espanha (Real Madrid e Barcelona) e Itlia (Milan) dominam o futebol de clubes na

Europa.

Se compararmos esse quadro de vitrias com o de classificao dos clubes mais ricos do

futebol mundial, a situao se apresenta idntica.

De acordo com a Deloitte, empresa britnica de anlise financeira, dos 10 clubes que

geraram mais receitas em nvel mundial no perodo 2006/2010, quatro so ingleses, trs

so italianos e dois so espanhis. Praticamente os mesmos que ganharam as ltimas

sesses da Liga dos Campees, campeonato mais rico do futebol mundial interclubes.

Essa comparao entre resultados esportivos e financeiros demonstra que j existe uma

elitizao do futebol europeu e mundial, independente do discurso dos dirigentes do

G14 em defesa dos interesses de seus aliados. E demonstra a legitimidade do discurso

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 12

poltico da Unio Europia, quando se preocupa com essa elitizao e procura

normatizar o futebol a partir de conceitos como solidariedade, equidade, transparncia,

valores presentes no chamado modelo europeu de esporte.

Porm, no resolve dizer, de maneira simples, que essa elitizao vai na contra-mo do

esprito republicano que molda a Unio Europia. Contraditoriamente, os dirigentes

europeus sabem que a lgica da competitividade o que predomina na sociedade

globalizada. Suas expectativas, seus desejos, so o de ser competitivo mantendo a tica.

Isso se aplica tanto com relao a macroeconomia quanto ao campo esportivo.

por conta dessa concepo de competitividade que a Unio Europia adotou, em

maro de 2000, quando do Conselho Europeu de Lisboa, a estratgia de ajudar os

estados membros a se adaptarem globalizao. Os quinze estados hoje em nmero

de vinte e sete fixaram o objetivo de construir at 2010 a economia mais competitiva

do mundo.

A Unio atribuiu-se hoje um novo objectivo estratgico para a prxima dcada:

tornar-se na economia baseada no conhecimento mais dinmico e competitivo

do mundo, capaz de garantir um crescimento econmico sustentvel, com mais e

melhores empregos, e com maior coeso social.17

Como se tornar competitivo, mantendo princpios ticos republicanos, num mercado

desregulamentado e globalizado uma mgica que a Unio Europia ainda no

respondeu de modo satisfatrio.

A FIFA/UEFA e o G14

De modo controverso, no confronto com os clubes europeus mais ricos, UEFA e a FIFA

transformaram-se em parceiros dos dirigentes polticos da Unio Europeia no projeto

tico e social de um modelo europeu de futebol. uma postura que chama a ateno,

pois no preciso muito esforo para descrever a prtica de tipo patrimonialista da

direo do futebol mundial e de suas filiadas, como por exemplo a CBF. A estrutura

governativa da FIFA pautada por uma lgica tradicional de lealdade e de favores,

igualmente marcada pela corrupo e pelo trfico de influncias. Em sntese, o uso de

forma privada de espaos pblicos, como so as federaes nacionais e os clubes. Uma

17 UNIO EUROPIA. (2000), Conselho Europeu extraordinrio de Lisboa: para uma Europa da

inovao e do conhecimento. 23-24 de maro de 2000.

/www.consilium.europa.eu/ueDocs/cms_Data/docs/pressdata/pt/ec/00100-r1.p0.htm. consultado em

22.09.2007. (destaques no original)

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 13

forma de privatizao da esfera pblica, enfim, que impede a participao democrtica

de seus membros no processo decisrio, em todas suas as instncias. O melhor exemplo

disso a perpetuao dos dirigentes de clubes ou de federaes.

Mas, de todo modo, verifica-se hoje no teatro poltico do futebol uma mudana de

discurso. Refiro-me aqui, basicamente, aos dirigentes da UEFA. O motivo so as

presses que vm ocorrendo e que tm agido no sentido da mudana do discurso desses

dirigentes: (1) a reorganizao da sociedade europeia, inserida no contexto da

reestruturao geopoltica aps o desmantelamento do bloco sovitico, da globalizao

e da construo da Unio Europia; (2) o agigantamento financeiro de alguns clubes,

que passam a exigir do sistema esportivo um tratamento privilegiado.

Como j observado, a lgica do G14 no era exclusivamente a esportiva, mas sobretudo

financeira. O xito esportivo afinal so clubes de futebol! era uma estratgia para se

alcanar o objetivo principal, a eficcia financeira.

O G14, parte integrante do sistema esportivo, era o grupo de presso mais prximo da

direo da FIFA. Esta no , por princpio, contrria lgica da eficcia financeira, mas

a sua base de sustentao outra. Dentro da lgica patrimonialista, a fora da direo da

FIFA se encontra disseminada numa rede fluda de poderes locais e dependentes. So

poderes at com certo grau de autonomia, mas isolados, logo incapazes de se constituir

numa voz dissidente. De forma paradoxal, a fora do poder local encontra-se na

capacidade de aliar-se famlia internacional do futebol.

O surgimento do grupo lobista dos clubes economicamente potentes acelerou a

desestabilizao do sistema tradicional de poder no mundo do futebol. Por outro lado, a

ao extremamente liberal como esses clubes atuam no mercado da bola desde a

compra dos melhores jogadores, desequilibrando o aspecto esportivo, a lavagem de

dinheiro, a aquisio de clubes por empresrios apenas preocupados com o aspecto

financeiro ou a falncia de clubes mdios , tem criado um impacto social e preocupado

as autoridades europeias. A ao destas tem sido a de agir como rbitro e buscar um

consenso entre as vrias famlias do futebol.

Os temas reivindicados pelo G14 eram diversos, como a disputa pelos recursos

financeiros de transmisso dos jogos pelas redes de televiso ou a iniciativa da Liga

Inglesa de levar parte de seus jogos no exterior, visando a internacionalizao da marca

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 14

de seus clubes (em especial os quatro grandes: Liverpool, Chelsea, Mancherter United

e Arsenal) e o aumento de arrecadao com a venda de diversos de seus produtos. A

idia fazer da marca desses clubes um verdadeiro produto de consumo, em especial

nos ricos mercados emergentes como, por exemplo, os do leste europeu, da China, da

ndia ou do rico mundo rabe. Uma nota evidente no s da internacionalizao desses

clubes, mas da sua globalizao. Sobre essa proposta dos clubes ingleses o presidente da

FIFA, Joseph S. Blatter pronunciou-se de forma irnica, mas claramente contra:

Eu estou espantado, mesmo que eu saiba que tais proposies no deveriam me

surpreender. Eu me pergunto se devo me comover ou rir. Uma coisa certa: essa

proposio de forma alguma vai no sentido da responsabilidade social do

futebol, como ns a definimos no Congresso de 2007 da FIFA. (...) O projeto da

Primeira Liga Inglesa, de disputar uma jornada suplementar aos quatro cantos do

mundo inaceitvel. (...) Mesmo na Inglaterra no podemos dizer que essa idia

tenha suscitado uma grande adeso. No plano comercial a iniciativa me parece

duvidosa e, em todo caso, ela certamente no vai na direo de uma

responsabilidade social e de uma elevada solidariedade.18

Mas a demanda do G14 que deu resultados mais efetivos foi a exigncia de indenizao

aos clubes por seus jogadores que participam dos jogos das selees nacionais, numa

evidente definio que o sentimento de pertena de um jogador ao selecionado de seu

pas deixou de ser um fator marcante no sistema futebolstico. Em contrapartida, a

resposta da UEFA/FIFA foi o no reconhecimento do G14 como representao dos

clubes e, baseada nos seus estatutos, a exigncia da dissoluo da entidade, reafirmando

assim os seus fruns internos como os nicos espaos de deciso.

Com relao a liberao de jogadores para atuar nos selecionados nacionais bastante

conhecida a dificuldade dos treinadores para reunir atletas internacionais visando

competies amistosas e preparatrias ou mesmos oficiais. Se pensarmos apenas as

selees de ponta no cenrio mundial, a totalidade de seus jogadores possui um valor

muito alto no mercado e jogam em clubes altamente competitivos. Mas quem normatiza

o calendrio dos clubes, das selees nacionais e a dispensa dos jogadores a FIFA. De

acordo com a lgica de mercado, a argumentao dos dirigentes de clubes que esses

jogadores so seus empregados e, sobretudo, custam muito caro. Logo, se a FIFA e as

federaes nacionais querem utiliz-los, devem pagar por isso, at porque essas

18 FIFA. (2008), Blatter voque le nouveau projet de la Premier League. 15.02.2008.

http://fr.fifa.com/aboutfifa/federation/president/news/newsid=691906.html#blatter+evoque+nouveau+

projet+premier+league. consultado em 22.03.2008.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 15

entidades ganham muito dinheiro, argumentam os dirigentes de clubes. Fica evidente a

similitude desse discurso do G14 com a deciso da Corte de Justia da Comunidade

Europia, no caso Bosmam, definindo os jogadores como assalariados de um mercado

comum de trabalho.

At recentemente um clube, mesmo contra sua vontade, era obrigado a liberar seu

jogador, sem que recebesse qualquer indenizao financeira, seja pela ausncia em si do

atleta durante o perodo de treinamento e jogos do selecionado nacional ao que estaria

servindo, seja nos casos de retornarem machucados e ter de ficar fora de atividade, s

vezes por meses.

Depois de 2004 esse tema tornou-se um cavalo de batalha, tanto jurdica quanto

meditica, entre o G14 e a FIFA/UEFA. Tratava-se de uma demanda indenizatria do

clube belga Royal Charleroi S. C. FIFA, aps seu jogador, Abdelmajid Oulmers, ter se

machucado em jogo amistoso da seleo de seu pas (Marrocos, 17 de novembro de

2004). O clube, argumentando ter sido economicamente prejudicado em funo da

ausncia de seu jogador, passou a reclamar uma indenizao de 616.000 euros junto a

Corte de Justia da Comunidade Europia. Essa ao foi integralmente apoiada pelo

G14, apesar do Charleroi clube pequeno do mercado europeu no ser filiado. Na

ocasio, a reao da FIFA/UEFA foi de inquietao: ser o fim do futebol de

selecionados nacionais para qualquer federao, exceto s cinco grandes europias,

comentou o porta-voz da UEFA, William Gaillard em entrevista BBC de Londres.

A Copa do Mundo ser organizada apenas entre Espanha, Alemanha, Itlia,

Frana e Inglaterra. A federao brasileira no tem recursos para pagar nem ao

menos um quinto de seus jogadores. O presidente da federao irlandesa

explicou, recentemente, que se ele tiver de pagar para ter as estrelas na seleo,

Robbie Keane nunca mais jogar pela Irlanda.19

Nessa disputa com a UEFA/FIFA o discurso do G14 tornou-se um bate e assopra.

Presidente do G14 em 2006, o presidente do Arsenal, David Dein, procurou amenizar o

confronto com as direes da FIFA e UEFA:

Eu espero que, enquanto presidente do G14, consiga construir uma ponte com

UEFA e FIFA. H vrios problemas, como a liberar jogadores para as selees

nacionais, a questo do seguro dos jogadores cedidos aos selecionados, de

19 SPORT.FR. (2006) L'affaire Oulmers inquite l'UEFA. 13 octobre 2006

http://www.sport.fr/Football/foo/L-affaire-Oulmers-inquiete-l-UEFA-72934.shtm. consultado em

22.01.2008

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 16

calendrio, que permanecem fonte de insatisfao para numerosos clubes

profissionais, no somente para os do G14. Penso que podemos resolv-los se

trabalharmos juntos. (...) Cada um dos clubes aqui presente um amigo da

UEFA e da FIFA. No h confrontao. Temos interesse em nos entender e

trabalharmos em conjunto.20

A posio do ex-jogador e presidente do clube alemo Bayern Munich, Karl-Heinz

Rummenigge seguiu o mesmo tom de conciliao. Apesar de tambm membro do G14,

Rummenigge manifestou-se muito descontente com a evoluo do G14, ameaando

mesmo deixar o grupo lobista. Para ele, cada um no pensa seno que em si. Eu digo

claramente, Calderon (Ramon Calderon, presidente do Real Madrid) e seus colegas

jogam individualmente, como os italianos e os ingleses. o egoismo puro que reina

no futebol, lamentou Rummenigge: Desde que Abramovitch, Berlusconi e outros como

Moratti esto no poder, o futebol encontra-se numa situao verdadeiramente podre.

Para Rummenigge, o significado e o futuro do G14 encontram-se em

questionamento.21

Apesar desses sinais avulsos de pacificao da famlia do futebol ou exatamente por

causa deles, que expressam a incapacidade dos dirigentes dos clubes mais ricos

chegarem a um entendimento que William Gaillard, conselheiro especial da

presidncia da UEFA assim se expressou, em final de 2007, sobre uma possvel reunio

de entendimento: Uma reunio com G14 na UEFA no h e no haver, nem formal

nem informal. Est absolutamente fora de questo.22

Contando com o apoio das

autoridades polticas da Unio Europia, as diretorias da UEFA e FIFA foram

contundentes em no aceitar o G14 como interlocutor.

Como resultado desse enfrentamento o presidente da UEFA, o francs Michel Platini,

enviou em setembro de 2007 uma carta solicitando apoio poltico aos presidentes

europeus. O estilo apelativo, associando a FIFA/UEFA viso solidria e democrtica

de construo da Europa, em detrimento de supostos interesses nefastos do mercado.

No momento em que a Europa busca se definir, se unir e encontrar valores que

ns desejamos comuns, nada mais ajuda que seu amor por nosso esporte.

(...)

Quantas crianas comearam a encontrar novas razes sobre um terreno de

futebol no pas que o acolheu, bem antes de sentar-se num banco escolar.

20 Idem.

21 Idem.

22 LQUIPE. (2007), Le G14 runi vendredi. 08/11/2007.

http://www.lequipe.fr/Football/20071108_171459Dev.html. consultado em 20.11.2007.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 17

(...)

Os valores defendidos pelo futebol so um poderoso fator de integrao social e

de educao cvica.23

Para ento apontar o cerne do problema que vive, em sua opinio, o futebol europeu:

No entanto, uma grave ameaa paira sobre o desenvolvimento do futebol

europeu: a onipresena nefasta do dinheiro.

(...) O dinheiro nunca foi o ltimo objetivo do futebol. Ganhar trofus

permanece o objetivo principal. Pela primeira fez corremos o risco de entrar

numa era onde s o benefcio financeiro permitir medir o sucesso esportivo.24

Mas ao mesmo tempo em que associa a FIFA/UEFA ao projeto poltico de uma Europa

unida, reclama dos dirigentes polticos por no agirem com firmeza perverso dos

valores esportivos:

grave constatar que essa perverso de valores esportivos no suscita resposta

adequada de nossas instituies europias, que recusam obstinadamente em

reconhecer a especificidade do esporte e a necessidade de regras esportivas que

assegurem equidade e equilbrio das competies. Os tratados europeus esto

mudos sobre esses temas. Toda regra esportiva tende a ser examinada pelo

prisma deturpado e grosseiro das regras da livre concorrncia.25

Finalmente, um apelo dramtico a uma ltima esperana para salvar o futebol europeu

e mundial da ganncia do mercado:

Se hoje me dirijo aos chefes de Estado e de governos por que os senhores

representam a ltima esperana por um futuro sadio e equilibrado do futebol

europeu. Eu sei que os senhores so sensveis ao problema e que compreendem

o quanto esse assunto importante para dezenas de milhes de nossos cidados

europeus.26

A posio dos polticos em reconhecer a especificidade do sistema futebolstico,

desejando que os dirigentes esportivos encontrem solues para os principais problemas

da especialidade (desde que dentro das regras do direito comunitrio), vem surtindo

lentos mais profcuos resultados.

O fato incontestvel que a forma tradicional da FIFA dirigir o futebol mundial esgota-

se cada dia mais. Como j comentamos, dois elementos pesam nessa mudana: a ao

poltica de construo da Unio Europia que exerce uma presso e reconfigura a

23 Idem.

24 Idem.

25 Idem.

26 Idem.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 18

sociedade como um todo; e a presso do mercado liberal globalizado, que impe aos

clubes e federaes a lgica da eficcia financeira.

Esses dois movimentos no so lineares nem tm um mesmo sentido. So lgicas que

respondem de modos diversos no necessariamente opostos ou excludentes s

reestruturaes globais dos ltimos trinta/quarenta anos.

Presenciamos, portanto, a existncia de projetos de trs atores em ao: a FIFA/UEFA,

a Unio Europia, o G14. Por deter a direo formal do processo (enquanto os outros

dois agem como grupos de presso) em torno da FIFA e de sua filiada europia, a

UEFA, que o debate se localiza.

Dois acontecimentos marcaram algum alinhamento poltico no futebol europeu e

mundial: a reunio em 21 de janeiro de 2008 entre a FIFA, a UEFA e representantes dos

clubes mais ricos da Europa, e o 58 Congresso da FIFA, realizado em Sidney

(Austrlia) nos dias 29 e 30 de maio de 2008.

Na reunio de janeiro importante registrar a presena dos principais e mais ricos

clubes europeus, mas no enquanto G14, entidade no reconhecida pela FIFA/UEFA.

Contudo, a pauta da reunio contemplava alguns dos principais pontos da agenda

poltica do G14, motivos desde sua criao, em 2000.

Entre as decises acordadas encontrou-se a criao da ECA-European Club Association,

uma entidade autnoma, mas reconhecida pela UEFA. A criao dessa entidade

configurou a extino do G14.

A criao da ECA deixa claro que a governabilidade do futebol europeu (e mundial) no

ocorrer mais sem a interveno dos clubes financeiramente poderosos. Porm, foi a

estratgia encontrada pelos dirigentes da FIFA e da UEFA de internalizar e, de algum

modo, controlar o poder desses clubes. Enquanto agiam de forma independente

atravs do G14 ou isoladamente tendiam a aumentar a instabilidade no meio

esportivo. A frmula elaborada para a constituio da ECA responde tanto a uma

tradio representativa dos clubes na UEFA, quanto garante alguma hierarquia. Ou seja,

ao criar essa instncia privilegiada a UEFA diluiu o ento voto unitrio, onde o peso do

voto das ligas mais ricas era idntico ao demais. Tendo como referncia critrios da

UEFA de classificao de associaes nacionais e dos clubes, a ECA constituiu-se com

a seguinte hierarquia representativa: as trs associaes melhores classificadas tero

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 19

cinco clubes participantes; as trs seguintes, quatro clubes; as associaes entre o 7 e o

15 lugar de 3 clubes, as classificadas entre o 16 e o 26 lugar tero dois clubes; as

associaes restantes tero um representante cada. Um Conselho de Transio foi

constitudo. Como no poderia ser diferente, exceto o representante do Chelsea, todos

so dirigentes que compunham o extinto G14: Karl-Heinz Rummenigge, presidente (FC

Bayern Mnchen), Joan Laporta, vice-presidente (FC Barcelona), Umberto Gandini

(AC Milan), Peter Kenyon (Chelsea FC), Marteen Fontein (AFC Ajax) et Jean-Michel

Aulas (Olympique Lyonnais).27

O francs Aulas, ocupava, no momento da constituio

da ECA, a presidncia do G14.

Alm dessa, outra deciso relevante foi tomada. Refere-se indenizao aos clubes pela

cesso de jogadores para os selecionados nacionais, por ocasio da Copa UEFA EURO

2008, campeonato europeu de naes realizado a cada quatro anos. Pela deciso

acordada entre clubes e dirigentes das duas entidades, 43,5 milhes euros foram

destinados para a EURO 2008 e 55 milhes para a EURO 2012. A redistribuio

ocorrer numa base entre 4 a 5 mil euros, por dia e a cada jogador cedido. Fez parte

desse acordo a retirada, por parte dos clubes, de todas as aes indenizatrias, como o

caso emblemtico do clube belga Charleroi, acima comentado.28

Esse acordo se

estender aos jogos classificatrios e Copa de 2010, restando saber como a regra ser

aplicada s entidades nacionais fora da UEFA.

O 58 Congresso da FIFA, alm de uma srie de outros encaminhamentos, definiu a

substituio da Comisso de Organizao da Copa do Mundo de Clubes pela Comisso

de Futebol de Clubes. Esta resoluo amplia para o futebol mundial a deciso tomada na

Europa com a criao da ECA pela UEFA. Ou seja, constitui um frum privilegiado

para os clubes dentro da FIFA. O que no fica claro qual a necessidade de uma

comisso para tratar especificamente de questes relacionadas a clubes, no interior da

FIFA. Na falta de maiores informaes, s nos resta a especulao de uma

interiorizao lobista dos clubes ricos europeus tambm na FIFA. Uma forma de

procurar esvaziar e encerrar as atividades lobistas do G14. O resultado tender a ser

27 UEFA. (2008) Un accord pour une nouvelle re. 25 janvier 2008.

http://fr.uefa.com/uefa/keytopics/kind=4096/newsid=648370.html. consultado em 16.05.2008.

28 Idem.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 20

idntico: eliminar o equilbrio formal hoje existente em que o peso de um representante

africano ou latino americano ainda o mesmo do europeu.

Concluso

Como procuramos demonstrar, tanto o movimento brasileiro do Clube dos 13 quanto o

europeu do G14, encontram-se na mesma configurao das transformaes globais do

mercado econmico e esportivo dos ltimos quarenta anos.

E uma das caractersticas desse movimento econmico-financeiro dentro e fora do

campo esportivo o desregramento ou, se preferirmos, uma liberao dos mecanismos

de controle fiscal e financeiro.

A tradicional autonomia do futebol como reconhecida tanto pela legislao brasileira

quanto pela europeia encontrou solo frtil para ambies desenfreadas dos dirigentes

dos grandes clubes, no Brasil e na Europa.

Nesse aspecto podemos concluir que ambas as instituies foram constitudas dentro do

mesmo lan: aproveitar ao mximo as oportunidades que o mercado liberal da expanso

globalizada possibilitou. Isso exigiu desses clubes a tentativa de romper com os laos de

solidariedade, equidade e mesmo com a to propalada famlia do futebol, como

gostam de referir-se os dirigentes das entidades governativas do esporte.

As instituies oficiais FIFA, UEFA ou CBF tornaram-se lentas e pesadas demais

diante das oportunidades de ganho fcil e imediato que surgiam para esses clubes. Isso

porque elas arrastam consigo uma multido de clubes mdios e pequenos que, na

maioria das vezes, se encontrava distantes das oportunidades, tanto do ponto de vista de

ofertas efetivas quanto de mentalidade de seus dirigentes.

Porm, isso no significa que os dirigentes dos clubes milionrios estejam de fato

preparados s novas regras que o mercado globalizado lhes prope.

Aqui que se encontra o paradoxo, nada nos autorizando a trabalhar com dicotomias

simples de modernos e arcaicos. Afinal, esses dirigentes so remanescentes do mesmo

caldo cultural dos dirigentes das instituies que dirigem o esporte e da grande maioria

dos clubes menores.

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 21

O despreparo o mesmo. A evidncia disso s para ficarmos com alguns exemplos

foram as experincias frustradas de ingressar na bolsa de valores ou, mais emblemtico

ainda, a associao desses dirigentes com a corrupo e a lavagem de dinheiro em uma

escala global.

Os ganhos escusos de agora para citar um exemplo brasileiro no vem mais da

manipulao de borders de bilheterias ou do jogo do bicho, mas de mfias e da

lavagem internacional de dinheiro.

Nesses termos, a diferena de trajetria entre o Clube dos 13 e o G14 encontra-se de

forma mais evidente fora do campo esportivo. Ou seja, nos mecanismos de controle que

a sociedade civil e os poderes pblicos vm operando sobre esses campos autnomos e

desregrados.

No Brasil, desde a CPI CBF-NIKE (1999-2002) e as iniciativas da Lei 9.615/1998 (Lei

Pel) e da Lei 10.671/2003 (Estatuto do Torcedor), recentemente atualizado (Lei N

12.299, de 27.07.2010) vem atuando como um fator de controle externo.

Na Europa h uma srie de regulamentaes, mas por presso dos poderes pblicos e

por iniciativa da UEFA instituiu-se desde 2009 o projeto Fair Play Financeiro.

Vejamos como os dirigentes da UEFA justificam essa iniciativa:

Nas ltimas pocas, vrios clubes reportaram perdas financeiras, de forma

sucessiva e cada vez mais gravosa. A situao econmica mais abrangente criou

condies de mercado difceis para os clubes na Europa e isso pode ter impacto

negativo na produo de receitas e criar novos desafios aos clubes, no que

respeita disponibilidade de financiamento e avaliao do funcionamento.

Muitos clubes registaram quedas de liquidez, que, por consequncia, levaram ao

atraso no pagamento a outros clubes, empregados, Fisco e Segurana Social. 29

Fundamentado no princpio da equidade financeira, os principais objetivos da proposta

do equilbrio fiscal dos clubes de futebol so:

introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanas dos clubes;

diminuir a presso nos salrios e valores de transferncias, e limitar o efeito inflacionrio;

encorajar os clubes a competir dentro das suas possibilidades financeiras;

encorajar investimentos a longo prazo na formao e em infra-estruturas;

29 UEFA (2010) Fair Play Financeiro. Disponvel em:

http://pt.uefa.com/uefa/footballfirst/protectingthegame/financialfairplay/news/newsid=1445723.html#

fair+play+financeiro. Acesso: 25.03.2010

http://pt.uefa.com/uefa/footballfirst/protectingthegame/financialfairplay/news/newsid=1445723.html#fair+play+financeirohttp://pt.uefa.com/uefa/footballfirst/protectingthegame/financialfairplay/news/newsid=1445723.html#fair+play+financeiro

Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 22

proteger a viabilidade do futebol europeu de clubes a longo prazo;

assegurar que os clubes honrem as respectivas obrigaes. 30

A deciso da UEFA em aplicar esse mecanismo de controle financeiro ocorreu no

apenas pelo descontrole que viviam os clubes europeus (com fortes evidencia de

lavagem de dinheiro), mas sobretudo em funo da crise financeira que abalou o mundo

em 2008, em especial os pases da Europa Central.31

De forma diversa, a impunidade fiscal predominante em alguns setores da sociedade

brasileira autoriza o endividamento dos clubes nacionais, fato que inviabiliza qualquer

tipo de planejamento administrativo e, por conseguinte, faz com que fiquem

dependentes dos adiantamentos das redes de televiso.

Em sntese, o despreparo administrativo da maioria dos dirigentes de clubes de futebol

no Brasil, associado impunidade fiscal, no nos autoriza classificar o Clube dos 13,

como exemplo de modernidade administrativa.

Junho de 2011.

30 Idem.

31 KRUGMAN, Paul R. (2009) A crise de 2008 e a economia da depresso. Rio de Janeiro: 2009.

Nessa disputa com a UEFA/FIFA o discurso do G14 tornou-se um bate e assopra. Presidente do G14 em 2006, o presidente do Arsenal, David Dein, procurou amenizar o confronto com as direes da FIFA e UEFA:Eu espero que, enquanto presidente do G14, consiga construir uma ponte com UEFA e FIFA. H vrios problemas, como a liberar jogadores para as selees nacionais, a questo do seguro dos jogadores cedidos aos selecionados, de calendrio, que permanecem...A posio do ex-jogador e presidente do clube alemo Bayern Munich, Karl-Heinz Rummenigge seguiu o mesmo tom de conciliao. Apesar de tambm membro do G14, Rummenigge manifestou-se muito descontente com a evoluo do G14, ameaando mesmo deixar o g...