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COCANHA & SWISS PARK: A UTOPIA COMO UMA PROPOSTA DE CONVENCIMENTO. DIEGO CARVALHO DE OLIVEIRA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS UNICAMP). Resumo O trabalho tem, como intuito, discorrer acerca da ressurgncia/permanncia no imaginrio humano de alguns anseios que perpassam pocas e que, ao nos depararmos com as construes imagticas contemporneas, percebemos que esto presentes no ser humano as inquietaes e imaginaes de outros tempos e lugares. Consideramos, ento, que permanece a vontade do homem de divagar acerca do amanh, busclo e tornlo possvel, ainda que impossvel de ser construdo em efetividade: a utopia. Em torno dessa discusso, tomamos como base de nosso argumento Cocanha, que vem a ser um pas imaginrio onde a abundncia, em todos os sentidos, tornase realidade. Vimos que as vontades e presses de uma poca so representadas de diversas formas, principalmente na forma do impossvel narrativo e que vem a confortar aqueles a que a realidade presente insuportvel. Diante disso e, principalmente, das alegorias lanadas pela propaganda imobiliria contempornea, escolhemos um lugar que se faz em narrativa para se fazer vender. Esse lugar, foco de nossos estudos, denominase Swiss Park Campinas, um condomnio fechado que, para se fazer melhor e mais rentvel, criou em suas imagens propagandsticas um utopos. So essas questes que fazem parte do trabalho construdo, nos revelando a ressurgncia de Cocanha no homem contemporneo e da utilizao de uma linguagem em direo ao futuro para tocar os homens de hoje: simples consumidores. Palavras-chave: Utopia, Educao Visual, Geografia.

Introduo Um lugar, criado por volta do sculo XII, XIII, outro no sculo XXI. Um utiliza-se de imagens narradas atravs da oralidade e das letras, outro atravs da fotografia entremeada a slogans escritos e textos impressos, das imagens em televiso, de outdoors, panfletos, site, enfim, toda a gama narrativa de massa em que possumos hoje. Um utiliza-se de imagens que dentro de uma narrativa racional o torna irreal, o outro real. Porm ambos tem o mesmo destino e papel: fazer-se interessante e desejvel a qualquer indivduo que o (re)conhea em suas mais diversas formas de narrativas. Falamos, pois, do pas imaginrio da Cocanha, em que a caracterstica da abundncia e da realizao do indivduo em seu deleite aproxima-se, ao nosso ver, das narrativas propagandsticas do chamado complexo urbanstico Swiss Park Campinas, que vem a ser o lugar da abundncia s ditas carncias contemporneas, tal como Cocanha satisf(e)az as carncias de seu espao/tempo. Nos preocupamos, neste artigo, em analisar as formas narrativas, as imagens narradas e as narraes das imagens, bem como auferir ao pensamento utpico a intrnseca capacidade de guiar o homem na construo de espaos, seja nas mais diversas formas

em que possamos nos utilizar da palavra construo. Temos, como intuito, abrir discusso questes que nos so colocadas quando observamos lugares criados, imaginados, narrados em suas mais diversas temporalidades e origens, quer seja no que chamamos hoje de Idade Mdia, quer seja na chamada Idade Contempornea (pocas em que se situam esses dois lugares estudados). Porm, torna-se lugar comum falar que cada poca, impelida pelas suas possibilidades tcnicas, tem sua maneira prpria de narrar os lugares de cri-los , utilizando-se, atravs de diversas formas, meios imagticos que tornam aquele lugar narrado vivo para o espectador que o ouve/l/v. Foras colocadas por argumentos, ora alegricos, ora concretos fazem com que, em determinado tempo/lugar, as narrativas tornem-se atraentes e, por que no assim dizer, compradas atravs das imagens que cada uma, de sua maneira, torna-se real para aquele que consumido/afetado pela pela narrativa em palavras ou imagens. Atravs dessa discusso posta, outra questo pertinente ao trabalho a idia de utopia e as decorrncias desse pensamento utpico, que ora pode ser colocado como gnero literrio, ora como um desabrochar de idias acerca de um lugar diferente, quer seja colocado no passado, no presente ou no futuro. Portanto, nos entretemos com a criao desse topos, ou como iremos tratar, dessa narrativa utpica que perpassa pocas, territrios e homens em seu descontentamento constante com a realidade do hoje em cada poca/lugar. Assim, os lugares nos so narrados e, na nossa tentativa de argumentao para fomentar tal discusso, nos apegamos a dois lugares que, em primeira instncia so muito diferentes entre si, mas que numa anlise mais aprofundada, vemos que as semelhanas argumentativas fazem desses lugares imagens que perpassam pocas, atravs das narrativas de seu tempo/espao. Lugares esperados e imaginados a utopia vasto saber que o mundo no est bom, quer comparativamente (no imaginrio, na memria) ele foi melhor ou que o seu futuro possa ser melhor, mas fato que ele no agrada. O hoje no agrada, pois a realidade quele que o vive no est de acordo com seus anseios e desejos. Lana-se, ento, mo narrativa do impossvel, s imagens criadas pelo desconhecido, sob a inteno de se movimentar nesse espao/tempo em que o peso da realidade no fascina, mas que pode ser aliviado atravs da busca, mesmo que seja ela estritamente imaginativa: pelo outro lugar, pela outra poca, pelo outro ser e estar no mundo. Como nos fala CIORAN (CIORAN, 1994):

s agimos sob a fascinao do impossvel: isto significa que uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e de consagrar-se a ela est ameaada de esclerose e de runa. A sensatez, qual nada fascina, recomenda a felicidade dada, existente; o

homem recusa esta felicidade, e essa simples recusa faz dele um animal histrico, isto , um amante da felicidade imaginada (p. 101).

E pela tica desse pensamento utpico que criam-se as mais diversas formas no espao e que atravs dele transfiguram-se polticas e modos de viver entre esses sujeitos histricos, cambiando seus desejos e limites para essa forma de pensamento. Mas antes de falarmos desse pensamento e suas implicaes apontadas no presente trabalho, afinal, o que vem a ser utopia? Difcil entrar em tal discusso, pois doutos no assunto no entram em acordo para uma definio crassa acerca de seu significado, de seu conceito propriamente dito, seja ela classificada como gnero literrio ou como forma de pensamento. Portanto, nos inclinamos a definir o substantivo utopia, pois parece que tal definio tem mais acordo entre os estudiosos do assunto e, a partir dessa definio, tomamos a liberdade em nos fazer pensantes acerca desse. Esse substantivo vem significar, ao mesmo tempo, um lugar bom e um no lugar, ou seja, um lugar to bom que no existe em lugar algum . Porm, esse lugar sempre est construdo num bojo social totalizante, em sua maioria. Isso quer dizer que h, em diversas utopias, uma preocupao em abarcar uma sociedade, que ela faa parte dessa utopia, que ela, atravs da sua insero nesse magnfico lugar, participe das aes, leis, regras e normas sociais que instituem esses lugares, e isso que faz esses lugares serem considerados utpicos, alm, claro, de seu cercamento e/ou distanciamento geogrfico. Todo lugar maravilhoso, toda faanha est sempre distante das mos daqueles que os desejam, principalmente quando se pensa numa sociedade, em que todos esto dispostos a viver sob determinadas formulaes de um convvio social em virtude de que essa sociedade seja mais agradvel e, doravante, melhor. Fato que toda utopia narrada e aquele que narra esteve ou conhece algum que l esteve, em carne e osso, tornando, dentro de uma argumentao plausvel, carregada de imagens acerca desse lugar, mais factual possvel a narrativa e, assim, prende a ateno do espectador para as maravilhas de um lugar que este desconhece, mas como se esteve l, aquele que o recebe tambm pode estar l s encontr-lo. Outro fato interessante anotar que, em todos esses lugares imaginados, a mudana nunca bem vinda, na verdade, mudar seria a runa de qualquer utopia, pois todo lugar utpico totalmente previsvel e dentro de um padro comportamental que est amarrado em sua prpria existncia (por isso seu distanciamento) e, alm do mais, no haveria a necessidade de mudar um lugar onde se encontra a perfeio e a felicidade. Antes de continuar essa discusso, vale salientar que o que chamamos hoje de Humanismo, este calcado da sabedoria e dos estudos provenientes da Antigidade e de valores que colocam o

homem como o centro e o ator no mundo, vai ser melhor compreendido aps o Discurso sobre a dignidade do homem, de Pico della Mirandola (1463 1494), em que citando as palavras de Deus dirigidas Ado, faz a seguinte considerao: suma liberalidade de Deus pai, suma e admirvel felicidade do homem! ao qual concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer (PICO DELLA MIRANDOLA, 1989: 52). Este autor lana mo, atravs da sua argumentao, que somente os seres humanos podem mudar a si mesmos pelo seu livre-arbtrio e essa a base terico/filosfica de boa parte da criao deste perodo, ao qual conhecemos hoje como Renascimento. Segundo HELLER: com o Renascimento surge o conceito dinmico de homem. O indivduo passa a ter a sua prpria histria de desenvolvimento pessoal, tal como a sociedade adquire tambm a sua histria de desenvolvimento (HELLER, 1982: 09). nesse mesmo perodo que surge o livro Utopia, de Thomas Morus (1478 1535), influenciado por todo pensamento de seu tempo e criando, por assim dizer, um gnero literrio que veio, tambm, influenciar todo um pensamento posterior, mas que no elimina, ao nosso ver, criaes anteriores obra de Morus, de lugares imaginrios to mgicos quanto a Ilha de Utopia s quais, como Cocanha, tambm chamaremos de utopia. Seguimos, a partir dessas constataes, com um trecho pertinente de BERLIN sobre o pensamento utpico (BERLIN, 1991):

de modo geral, as utopias ocidentais tendem a conter os mesmos elementos: uma sociedade vive em estado de pura harmonia, no qual todos os membros vivem em paz, amam uns aos outros, encontram-se livres de perigo fsico, de carncias de qualquer tipo, de frustrao, desconh