Consciencia e Autoconsciencia Em Kant - Pereira

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Conscincia e Autoconscincia em KantRoberto Horcio de S PereiraUFRJ

RESUMO: Defendo aqui trs novas interpretaes para as noes capitais de conscincia emprica, apercepo emprica e apercepo transcendental na filosofia terica Kant. Em sentido emprico, a conscincia sempre entendida por Kant como uma forma de conscincia de objeto, produto da representao de uma entidade, resultante da chamada sntese de apreenso. Quando o ato de apreenso est voltado para objetos exteriores (em sentido emprico), a conscincia emprica toma a forma de uma percepo , mas quando o ato de apreenso se volta para os prprios estados ou eventos internos mente (tambm em sentido emprico) a conscincia em questo toma a forma de uma introspeco ou percepo interna .Enquanto a conscincia em sentido emprico percipire, em um sentido proposicional conscincia significa saber ou mais especificamente reconhecer que o percebido pertence esfera de um determinado conceito. Ademais, se a conscincia em sentido proposicional o saber ou o reconhecimento do que aparece como pertencente a um determinado conceito, a conscincia de si como sujeito o saber ou o reconhecimento que se est autoconcernido toda vez em que se entretm um contedo no modo assertrico como uma proposio , ou seja, como uma realidade objetiva, independentemente do prprio sujeito. ABSTRACT: In this paper, I defend three different readings for capital notions of empirical consciousness, empirical apperception and for transcendental apperception in Kants theoretical philosophy. In empirical sense, consciousness is understood by Kant as a form of conscious of objects, the product of a representation, resulting from the so-called synthesis of apprehension. When the act of apprehension is direct to outside things (in the empirical sense of the term), empirical consciousness takes the form of a simple perception , but when the act is internally direct (also in the empirical sense of the term), empirical consciousness takes the form of an introspection or internal perception . While consciousness in empirical sense is percipire, in the propositional sense is rather the knowledge, or more specifically, the recognition that the object perceived belongs to the sphere of such and such concept. Furthermore, if propositional consciousness is the acknowledgment of what appears as belonging a a concept, self-consciousness or consciousness of oneself qua subject is the acknowledge that one is self-concerned or selfinvolved whenever one entertains a given content in the assertoric mode as a proposition , i.e. as a fact or an objective reality independently from the subject himself.

INTRODUO

fato que a boa historiografia filosfica sempre se nutre do debate filosfico contemporneo. No h como se negar, por exemplo, que as principais interpretaes da Deduo transcendental e da filosofia terica de Kant em geral nas dcadas 60, 70 e 80 do sculo passado foram pautadas em grande parte por questes epistemolgicas e metodolgicas (meta-filosficas) que marcaram o cenrio filosfico contemporneo do mesmo perodo. ARevista ndice [http://www.revistaindice.com.br], vol. 02, n. 02, 2010/ 2 ISSN 2175-6244

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Roberto Horcio de S Pereira interpretao de Strawson (1966), pautada no seu prprio projeto filosfico de uma Metafsica descritiva (1959), foi certamente a mais influente desse perodo. A Deduo transcendental passou a ser vista como um Argumento transcendental voltado contra uma forma global de ceticismo e a KrV como um todo passou a ser vista como um misto de filosofia em sentido prprio, ou seja, anlise dos conceitos fundamentais do nosso esquema conceitual, e o que Strawson depreciativamente denominava Psicologia transcendental, ou seja, a metafsica kantiana da mente (das faculdades mentais acima de tudo) e uma teoria geral da cognio, ambas sem qualquer fundamento emprico. Metodologicamente, importava realizar uma depurao na KrV, separando o joio (a Psicologia transcendental) do trigo (os argumentos que Strawson denominava austeros). Hoje, ao reconsiderarmos retrospectivamente a j clssica interpretao de Strawson, tem-se a impresso de que, com a depurao metodolgica proposta, ficamos, por assim dizer, com a gua suja e jogamos fora a criana. H uma srie de razes para isso. Em primeiro lugar, tal depurao repousa sobre prejuzos metodolgicos tpicos da filosofia analtica do perodo que antecede s famosas crticas de Quine e Davidson. Nenhum intrprete, em s conscincia, acredita poder traar, na obra terica de Kant, uma fronteira entre o que seria uma anlise dos conceitos fundamentais de conhecimento e experincia (no jargo de Strawson, uma descrio dos principais conceitos do nosso esquema conceitual) e o que seria uma teoria da cognio ou uma metafsica especulativa da experincia. Da metodologia epistemologia, a partir das famosas objees de Barry Stroud na dcada de 60, pouco a pouco se tornou consenso que a estratgia argumentativa imaginada por Strawson estaria fadada ao fracasso (cf. Stroud 1968). Mesmo Strawson viria a reconhecer no princpio dos anos 80 que, na melhor das hipteses, esses argumentos estabeleceriam conexes conceituais fundamentais ao nosso esquema conceitual (cf. Strawson 1983). Eles fracassariam no seu intuito original de fazer frente ao desafio ctico. Assim, tendo ocupado o centro do debate filosfico nas dcadas de 60 e 70, o interesse por essa forma de argumentao desaparece quase por completo em meados dos anos 80. Em razo das muitas mudanas de paradigmas ocorridas na filosofia contempornea, hoje as principais questes que a KrV suscita dizem respeito justamente metafsica da mente impura ou especulativa que Strawson tanto depreciava, a Psicologia transcendental. Uma dessas muitas noes impuras capitais a prpria noo de conscincia. Nesse trabalho apresento uma interpretao sistemtica para metafsica kantiana da conscincia. Embora minha pretenso fundamental seja histrica, acredito que as interpretaes aqui propostas

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Conscincia e Autoconscincia em Kant possam trazer alguma contribuio sistemtica (ainda que bem modesta, claro) uma vez que o debate contemporneo metafsico em torno de tal noo ainda est em aberto.

CONSCINCIA EMPRICA E APERCEPO EMPRICA Segundo Kant representaes mentais que explicam a emergncia da conscincia em sentido emprico seriam aquelas que resultam de uma atividade da mente, mais especificamente uma sntese de apreenso. Tomo conscincia emprica de algo na medida em que minha mente percorre o mltiplo das representaes sensveis e o rene em uma representao. Entretanto, h pelo menos duas possibilidades de entendermos o que Kant denomina conscincia emprica. Possuir conscincia emprica significa ou (i) possuir conscincia do contedo que as intuies sensveis representam ou (ii) possuir conscincia introspectiva de que possumos tais representaes (meta-representao). importante salientar que essa ambiguidade no se resolve recorrendo ao Idealismo transcendental de Kant. Com efeito, em sentido transcendental s possumos acesso s nossas prprias representaes, ou seja, a fenmenos e no a coisas em si. Entretanto, ainda assim importa saber se a conscincia emprica o resultado de uma apreenso do mltiplo de caractersticas representadas fora de mim (em sentido emprico) ou se da apreenso de representaes em mim (tambm em sentido emprico). A nossa dificuldade pode ser facilmente formulada nos termos distino contempornea entre conscincia transitiva e intransitiva (cf. Rosenthal 1986). Uma intuio sensvel constitui um estado intransitivamente consciente ou porque (i) ela torna o sujeito que a possui transitivamente consciente do que ela representa, ou porque (ii) ela tomada, transitivamente, como objeto de uma meta-representao. A primeira alternativa representa o que hoje se denomina de teorias da mesma ordem da conscincia (same-order theory), enquanto que a segunda as chamadas teorias de ordem superior da conscincia (higher-order theory). Consideremos a primeira alternativa. O que estaria sendo apreendido seria o mltiplo das caractersticas (tais como, portas, janelas etc.) representadas inicialmente sem estruturao pelas intuies sensveis. O sujeito tomaria conscincia emprica daquilo que a sua intuio representa na medida em que sua mente percorresse sucessivamente o mltiplo do contedo representado pela intuio sensvel e os reunisse na representao de uma mesma entidade. Segundo o primeiro dos exemplos mencionados, a mente percorreria, em uma ordem aleatria,Revista ndice [http://www.revistaindice.com.br], vol. 02, n. 02, 2010/ 2 ISSN 2175-6244

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Roberto Horcio de S Pereira as caractersticas da casa (porta, janela, etc.) e as reuniria em uma representao , entendida, assim, como a representao de uma nica entidade (mesmo que ainda ela no seja capaz de identific-la como uma casa ou como uma susbtncia). De acordo com o segundo exemplo, a mente percorreria sucessivamente (agora em uma ordem necessria) as diferentes notas de uma fantasia, e as reuniria em uma representao, ou seja, na representao de um mesmo acorde musical. Consideremos agora a segunda alternativa. Possuir conscincia emprica das intuies significaria possuir conscincia introspectiva de que se tem tais intuies1. Nesse caso, o sujeito tomaria conscincia das suas intuies sensveis na medida em que sua mente percorresse sucessivamente o mltiplo das suas prprias representaes internas (em sentido emprico) e as reunisse na percepo interna de um mesmo estado mental. Na passagem da Deduo que trata especificamente sobre a sntese de apreenso (cf. KrV A98-100), Kant caracteriza o objeto resultante da apreenso como uma representao e mltiplo percorrido e reunido como um mltiplo de impresses . Entretanto, como no temos como saber se ambas as expresses esto sendo empregadas em sentido emprico ou transcendental, no temos como saber se a conscincia emprica das intuies sensveis emerge como a percepo (em sentido usual) de um mesmo objet