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  • ESPECFICA DE SOCIOLOGIA UFU

    Prof. Gilberto

    CONTEDO PROGRAMTICO

    I - Sociologia como Cincia. - A construo do saber sociolgico: os clssicos.

    - Cultura e sociedade 1. Sociologia como autoconscincia da Sociedade: - Breve histrico do surgimento da Sociologia. -A concepo da sociedade segundo os clssicos da Sociologia.

    2. mile Durkheim e a teoria positivista da sociedade: - Fato individual x fato social. - A diviso do trabalho social. - Solidariedade mecnica x solidariedade orgnica. - Socializao. - Coeso social e anomia. - Normal e patolgico. - conscincia coletiva.

    3. Karl Marx e a crtica da sociedade capitalista: - Modo de produo: relaes sociais de produo e foras produtivas. - Infra-estrutura e superestrutura. - A contradio social como fundamento da realidade scio-cultural. - A produo social em funo da lgica do capital: a mercantilizao das relaes sociais.

    4. Max Weber e a teoria compreensiva da sociedade: - Ao social e relaes sociais. - Tipos de ao social. - Racionalidade e no racionalidade das aes.

    5. Cultura e Sociedade. - Natureza e cultura: . Conceito antropolgico de cultura: a desnaturalizao dos costumes. - Diversidade cultural: . Etnocentrismo e relativismo cultural. . Grupos tnicos-culturais. . Preconceito e mito da democracia racial no Brasil. - Cultura popular e cultura erudita: . Caractersticas. . A heterogeneidade da produo cultural. - Indstria cultural: . Cultura como mercadoria. . Estandardizao, homogeneizao e passividade. . Propaganda e consumismo. . Banalizao e descaracterizao da produo cultural.

    II - Trabalho e produo social. - Participao poltica e movimentos sociais

    1. Trabalho e produo social: - Diviso do trabalho social: cooperao e solidariedade (mile Durkheim). - A produo social como produo de valor; cincia e tecnologia; desigualdade, alienao e conflito (Karl Marx). - A tica do trabalho (Max Weber). - As formas de gesto da produo social: taylorismo, fordismo e produo flexvel. - Globalizao: . Caractersticas econmicas, polticas, sociais e culturais. . A insero do Brasil na nova ordem em formao.

    2- As relaes polticas e Estado: - O macro e o micro poder. - Poder e dominao em Max Weber. - Os conceitos sociolgicos de Estado: monoplio legtimo da fora (Max Weber); instrumento da classe dominante (Karl Marx); o Estado como instituio social (mile Durkheim). - Democracia e participao poltica: . Democracia e autoritarismo. . Democracia e desigualdades socioeconmicas e culturais. . Formas diretas e indiretas de participao poltica.

    3- Movimentos Sociais: - Conceito e caractersticas gerais dos movimentos sociais. - Movimento operrio e sindicalismo. - Movimentos sociais contemporneos: . Os novos movimentos sociais: tnicos, sexuais, de gnero, religiosos, ecolgicos, estudantis, rurais e urbanos. - Movimentos sociais e cidadania.

    Sugestes Bibliogrficas ALVES, J. F. A invaso cultural norte-americana. So Paulo: Moderna, 2001. ARANTES, A. A. O que cultura popular. So Paulo: Brasiliense, 1986. BERND, Z. Racismo e anti-racismo. So Paulo: Moderna, 1994. BRANDO, A. C., DUARTE, M. F. Movimentos culturais de juventude. So Paulo: Moderna, 1999. CHIAVENATO, J. J. O negro no Brasil. So Paulo: Moderna, 1991. COELHO, T. O que indstria cultural, So Paulo: Brasiliense, 1986. COMBESQUE, M. A. O silncio e o dio. Racismo: da ofensa ao assassinato. So Paulo: Scipione, 2001. COSTA, M. C. C. Sociologia: Introduo cincia da Sociedade. So Paulo: Moderna, 2000. DA MATTA, R. Exploraes. Ensaios de Sociologia interpretativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 121-135 DIAS, E.; CASTRO, A. M. Introduo ao pensamento sociolgico. Rio de Janeiro: Eldorado, 1981. DURKHEIM, . Educao e Sociologia. 12.ed. So Paulo: Melhoramentos, 1978.Cap.1, p. 33-56. FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. (orgs.) Sociologia e Sociedade. Leituras de Introduo Sociologia. Rio de Janeiro: Ed. LTC. 1978. p. 23-52 e 139-144. GUIMARES, E. F. (org.). Pensando a sociedade: Textos de Sociologia para o 2o Grau. Uberlndia: UFU, CEHAR, DECIS, 1994. IANNI, O. Dialtica e capitalismo. 2.ed. Petrpolis: Vozes, 1985. _______. Ensaios de Sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991. p. 201-212. KUPSTAS, M. (org). Comunicao em debate. So Paulo: Moderna, 1997. ___________ Identidade nacional em debate. So Paulo: Moderna,1997. ___________ Trabalho em debate. So Paulo: Moderna, 1997. LARA, T. A. Cultura: conceito. Educao e Filosofia, Jul.88/Jun.89. p.07-12, v. 3. LARAIA, R. Cultura: um conceito antropolgico.13 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. MAESTRI, M. Terra do Brasil. (A conquista lusitana e o genocdio Tupinamb). So Paulo: Moderna, 1993. MARTINS, C. B. O que Sociologia. So Paulo: Brasiliense, 1994. MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. So Paulo: Global,1986. MERCADANTE, C. O homem: que bicho esse. So Paulo: Moderna, 1997. OLIVEIRA, P. S. Introduo Sociologia. 2. ed. So Paulo: tica, 2000. QUEIROZ, R. S. No vi e no gostei: o fenmeno do preconceito. So Paulo: Scipione, 2001. QUINTANEIRO, T. Um toque de clssicos. 2.ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995. TOMAZI, N. D. (Coord). Iniciao Sociologia. 2.ed. So Paulo: Atual, 2000.

    Um breve histrico do surgimento da Sociologia

    A Sociologia uma rea de interesse muito recente, mas foi a primeira cincia social a se institucionalizar. Antes, portanto, da Cincia Poltica e da Antropologia. As transformaes econmicas, polticas e culturais ocorridas no sculo XVIII, como as Revolues Industrial e Francesa, colocaram em destaque mudanas significativas da vida em sociedade com relao a suas formas passadas, baseadas principalmente nas tradies.

    A Sociologia surge no sculo XIX como forma de entender essas mudanas e explic-las. No entanto, necessrio frisar, de forma muito clara, que a Sociologia datada historicamente e que o seu surgimento est vinculado consolidao do capitalismo moderno. Esta disciplina marca uma mudana na maneira de se pensar a realidade social, desvinculando-se das preocupaes especulativas e metafsicas e diferenciando-se progressivamente enquanto forma racional e sistemtica de compreenso da mesma.

    Assim que a Revoluo Industrial significou, para o pensamento social, algo mais do que a introduo da mquina a vapor. Ela representou a racionalizao da produo da materialidade da vida social. O triunfo da indstria capitalista foi pouco a pouco concentrando as mquinas, as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social, convertendo grandes massas

  • camponesas em trabalhadores industriais. Neste momento, se consolida a sociedade capitalista, que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produo) e proletrios (possuidores apenas de sua fora de trabalho). H paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratizao de suas funes e que est ligado majoritariamente aos estratos mdios da populao.

    O quase desaparecimento dos pequenos proprietrios rurais, dos artesos independentes, a imposio de prolongadas horas de trabalho, e etc., tiveram um efeito traumtico sobre milhes de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida. No demorou para que as manifestaes de revolta dos trabalhadores se iniciassem. Mquinas foram destrudas, atos de sabotagem e explorao de algumas oficinas, roubos e crimes, evoluindo para a criao de associaes livres, formao de sindicatos e movimentos revolucionrios.

    Este fato, associado s mudanas scio-culturais provocadas pela Revoluo Francesa, so importantes para o surgimento da Sociologia, pois colocava a sociedade num plano de anlise relevante, como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrnsecos, como por seu novo protagonismo poltico j que junto a estas transformaes de ordem econmica pde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produo e reproduo da vida social, o que se distingue da percepo de que este papel seja privilgio de um Estado que se sobrepe ao seu povo.

    O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revoluo Industrial, pelas novas condies de existncia por ela criada. Mas uma outra circunstncia concorreria tambm para a sua formao. Trata-se das modificaes que vinham ocorrendo nas formas de pensamento, originada pelo Iluminismo. A valorizao do mtodo cientfico para a investigao dos fenmenos, sejam eles naturais ou sociais, marcou profundamente o pensamento iluminista, para o qual a cincia o nico conhecimento eficaz para a compreenso da realidade (cientificismo). As transformaes econmicas, associadas emergncia da cincia experimental, que se achavam em curso no ocidente europeu desde o sculo XVI, no poderiam deixar de provocar modificaes na forma de conhecer a natureza e a sociedade.

    O Positivismo e suas concepes tericas

    O Positivismo uma corrente sociolgica cujo precursor foi o francs Auguste Comte (1789-1857). Surgiu como desenvolvimento sociolgico do Iluminismo, caracterizando-se como afirmao social das cincias experimentais. Prope existncia humana valores completamente humanos, afastando radicalmente teologia ou metafsica. O Positivismo se torna um mtodo e uma doutrina: mtodo enquanto sugere que as avaliaes cientficas devem estar rigorosamente embasadas em experincias e doutrina enquanto preconizava que todos

    os fatos da sociedade deveriam seguir uma natureza precisa e cientfica.

    Auguste Comte

    Augusto Comte preconizava o emprego de novos mtodos no exame cientfico dos problemas sociais, substituindo as interpretaes metafsicas e estabelecendo a autoridade e a ordem pblica contra os abusos do individualismo da Escola Liberal. O positivismo dessa maneira era, portanto, uma filosofia determinista que professava, de um lado, o experimentalismo sistemtico e, de outro, considera anticientfico todo o estudo das causas finais. Assim admitia que o esprito humano seria capaz de atingir as verdades do mundo fsico atravs de mtodos experimentais, mas no atingir dessa forma a verdade de questes metafsicas. Por isso podemos afirmar que o Positivismo era e um dogmatismo fsico e um ceticismo metafsico. Diretamente vinculadas ao pensamento social positivista, podemos destacar as seguintes concepes tericas:

    1) Darwinismo social: princpio a partir do qual as sociedades se desenvolveram de forma semelhante, segundo um mesmo modelo e que tais transformaes representariam sempre a passagem de um estgio inferior para outro superior, em que o organismo social se mostraria mais evoludo, mais adaptado e mais complexo. Esse tipo de mudana garantiria a sobrevivncia dos organismos sociedades e indivduos mais fortes e mais evoludos. Assim, afirmava-se que as sociedades mais simples e de tecnologia menos avanada deveriam evoluir em direo a nveis de maior complexidade e progresso na escala da evoluo social (evolucionismo), at atingir o estgio mais avanado ocupado pela sociedade industrial europia.

    2) Organicismo: parte do princpio de que existem caracteres universais presentes nos mais diversos organismos vivos, dispostos sob a forma de rgos e sistemas partes independentes cuja funo primordial a preservao do todo social. A sociedade , portanto, concebida como um organismo constitudo de partes integradas e coesas que funcionam harmonicamente, segundo um modelo fsico ou mecnico. Procuravam identificar leis biolgicas com leis sociais, hereditariedade e histria. Desse modo, ignoram a especificidade histrica e cultural do homem.

    3) Cientificismo: crena no poder dominante e absoluto da cincia em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis, que seriam a base de regulamentao da vida do homem, da natureza e do prprio universo. Com esse conhecimento, pretendia-se substituir as explicaes teolgicas, filosficas e de senso comum por um mtodo ou modelo eminentemente cientfico. Por essa razo, os primeiros pensadores sociais (Comte, Durkheim) buscaram no mtodo das cincias naturais a base para a compreenso dos fatos sociais.

    CLSSICOS DO PENSAMENTO SOCIOLGICO

    DURKHEIM (1858-1917)

  • mile Durkheim nasceu em Epinal, na Alscia, descendente de uma famlia de rabinos. Iniciou seus estudos filosficos na Escola Normal Superior de Paris, indo depois para a Alemanha. Lecionou sociologia em Bordus, primeira ctedra dessa cincia criada na Frana. Transferiu-se em 1902 para Sorbonne, para onde levou inmeros cientistas, entre eles seu sobrinho Mareei Mauss, reunindo-os num grupo que ficou conhecido como escola sociolgica francesa. Suas principais obras foram: Da diviso do trabalho social, As regras do mtodo sociolgico, O suicdio, Formas elementares da vida religiosa, Educao e sociologia, Sociologia e filosofia e Lies de sociologia (obra pstuma).

    O que fato social

    Embora Comte seja considerado o pai da sociologia e tenha-lhe dado esse nome, Durkheim apontado como um de seus primeiros grandes tericos. Ele e seus colaboradores se esforaram por emancipar a sociologia das demais teorias sobre a sociedade e constitu-la como disciplina rigorosamente cientfica. Em livros e cursos, sua preocupao foi definir com preciso o objeto, o mtodo e as aplicaes dessa nova cincia.

    Imbudo dos princpios positivistas, Durkheim queria definir com rigor a sociologia como cincia, estabelecendo seus princpios e limites e rompendo com as idias de senso comum os "achismos" que interpretavam a realidade social de maneira vulgar e sem critrios.

    Em uma de suas obras fundamentais, As regras do mtodo sociolgico, publicada em 1895, Durkheim definiu com clareza o objeto da sociologia os fatos sociais.

    De acordo com as idias defendidas nesse trabalho, para o autor, o fato social experimentado pelo indivduo como uma realidade independente e preexistente. Assim, so trs as caractersticas bsicas que distinguem os fatos sociais. A primeira delas a "coero social", ou seja, a fora que os fatos exercem sobre os indivduos, levando-os a conformarem-se s regras da sociedade em que vivem, independentemente de sua vontade e escolha. Essa fora se manifesta quando o indivduo desenvolve ou adquire um idioma, quando criado e se submete a um determinado tipo de formao familiar ou quando est subordinado a certo cdigo de leis ou regras morais. Nessas circunstncias, o ser humano experimenta a fora da sociedade sobre si.

    A fora coercitiva dos fatos sociais se torna evidente pelas "sanes legais" ou "espontneas" a que o indivduo est sujeito quando tenta rebelar-se contra ela. "Legais" so as sanes prescritas pela sociedade, sob a forma de leis, nas quais se define a infrao e se estabelece a penalidade correspondente. "Espontneas" so as que afloram como resposta a uma conduta considerada inadequada por um grupo ou por uma sociedade. Multas de trnsito, por exemplo, fazem parte das coeres legais, pois esto previstas e

    regulamentadas pela legislao que regula o trfego de veculos e pessoas pelas vias pblicas. J os olhares de reprovao de que somos alvo quando comparecemos a um local com a roupa inadequada constituem sanes espontneas. Embora no codificados em lei, esses olhares tm o poder de conduzir o infrator para o comportamento esperado.

    O comportamento desviante num grupo social pode no ter penalidade prevista por lei, mas o grupo pode espontaneamente reagir castigando quem se comporta de forma discordante em relao a determinados valores e princpios. A reao negativa da sociedade a certa atitude ou comportamento , muitas vezes, mais intimidadora do que a lei. Jogar lixo no cho ou fumar em certos lugares mesmo quando no proibidos por lei nem reprimidos por penalidade explcita so comportamentos inibidos pela reao espontnea dos grupos que a isso se opem. Podemos observar ao repressora at mesmo nos grupos que se formam de maneira espontnea como as gangues e as "tribos", que acabam por impor a seus membros uma determinada linguagem, indumentria e formas de comportamento. Apesar dessas regras serem informais, uma infrao pode resultar na expulso do membro insubordinado.

    A "educao" entendida de forma geral, ou seja, a educao formal e a informal desempenha, segundo Durkheim, uma importante tarefa nessa conformao dos indivduos sociedade em que vivem, a ponto de, aps algum tempo, as regras estarem internalizadas nos membros do grupo e transformadas em hbitos. O uso de uma determinada lngua ou o gosto por determinada comida so internalizados no indivduo, que passa a considerar tais hbitos como pessoais. A arte tambm representa um recurso capaz de difundir valores e adequar as pessoas a determinados hbitos. Quando, numa comdia, rimos do comportamento de certos personagens colocados em situaes crticas, estamos aprendendo a no nos comportarmos como ele. Nosso prprio riso uma forma de sano social, na encenao ou mesmo diante da realidade concreta.

    A segunda caracterstica dos fatos sociais que eles existem e atuam sobre os indivduos independentemente de sua vontade ou de sua adeso consciente, sendo, assim, "exteriores aos indivduos". Ao nascermos j encontramos regras sociais, costumes e leis que somos coagidos a aceitar por meio de mecanismos de coero social, como a educao. No nos dada a possibilidade de opinar ou escolher, sendo assim independentes de ns, de nossos desejos e vontades. Por isso, os fatos sociais so ao mesmo tempo "coercitivos" e dotados de existncia exterior s conscincias individuais.

    A terceira caracterstica dos fatos sociais apontada por Durkheim a "generalidade". E social todo fato que geral, que se repete em todos os indivduos ou, pelo menos, na maioria deles; que ocorre em distintas sociedades, em um determinado momento ou ao longo do tempo. Por essa generalidade, os acontecimentos manifestam sua natureza coletiva, sejam eles os costumes, os sentimentos comuns ao grupo, as crenas ou os valores. Formas de habitao, sistemas de comunicao e a moral existente numa sociedade apresentam essa generalidade.

    Outras consideraes sobre os fatos sociais o mtodo de estudo:

    a) Para Durkheim, a cincia deveria apenas explicar e no procurar mudar a sociedade (como queria Comte). Quais as mudanas que deveriam ser feitas seria um problema para a Filosofia, que tentava entender a natureza humana. Assim, tudo o que estivesse de acordo com esta natureza era considerado bom para a sociedade, e tudo o que no estivesse, considerado ruim.

    b) Os fatos sociais devem ser tratados como coisas (objetos que podem ser objetivamente observados). Para Durkheim, " coisa tudo aquilo que dado, e que se impe observao". O que no pode ser experimentalmente (cientificamente) observado, no faz sentido para o mtodo sociolgico: a alma, a natureza

  • humana, o que bom ou mal para a sociedade, a justia social, etc.

    Durkheim, neste sentido, pode ser considerado: - objetivista (fatos sociais so coisas objetivas); - empirista (baseia-se na observao da realidade) - indutivista (mtodo cientfico clssico)

    b) Uma concepo importante, no mtodo sociolgico de Durkheim: o socilogo, ao estudar os fatos sociais, deveria despir-se de todo o sentimento, juzos pessoais, opinies formadas, enfim, de todo preconceito em relao ao objeto estudado.

    c) O pesquisador deveria definir precisamente as coisas de que se trata o estudo a fim de que se saiba bem o que est em questo e o que ele deve explicar. o que chamamos de definio do objeto de estudo.

    d) A explicao dos fatos sociais deve ser buscada na sociedade e no nos indivduos os estados psquicos, tais como emoes, idias, sentimentos, na verdade, so conseqncias e no causas dos fenmenos sociais.

    Morfologia social: as espcies sociais

    Para Durkheim, a sociologia deveria ter ainda por objetivo comparar as diversas sociedades. Constituiu assim o campo da morfologia social, ou seja, a classificao das espcies sociais, numa ntida referncia s espcies estudadas em biologia. Essa referncia, utilizada tambm em outros estudos tericos, tem sido considerada errnea uma vez que todo comportamento humano, por mais diferente que se apresente, resulta da expresso de caractersticas universais de uma mesma espcie.

    Durkheim considerava que todas as sociedades haviam evoludo a partir da horda, a forma social mais simples, igualitria, reduzida a um nico segmento em que os indivduos se assemelhavam aos tomos, isto , se apresentavam justapostos e iguais. Desse ponto de partida, foi possvel uma srie de combinaes das quais originaram-se outras espcies sociais identificveis no passado e no presente, tais como os cls e as tribos.

    Para Durkheim, o trabalho de classificao das sociedades como tudo o mais deveria ser efetuado com base em apurada observao experimental. Guiado por esse procedimento, estabeleceu a passagem da solidariedade mecnica para a solidariedade orgnica como o motor de transformao de toda e qualquer sociedade.

    Educao

    O conjunto de crenas e sentimentos coletivos so a base da coeso (unio) da sociedade. A prpria sociedade cria mecanismos de coero internos que fazem com que os indivduos aceitem de uma forma ou de outra as regras estabelecidas. A formao do ser social feita, em boa parte, pela educao (no s a escolar, mas a familiar, a religiosa, e outras). Educao a assimilao, pelo indivduo, de uma srie de normas, princpios morais, religiosos, ticos, de comportamento, etc. Isso nos leva a considerar que o homem, mais do que formador da sociedade, um produto dela. Para Durkheim, o fato social um resultado da vida em grupo. Ele prope isolar os fatos sociais para estud-los separadamente, um a um, da mesma forma que a Fsica e a Biologia fazem com seus objetos de estudo.

    Socializao

    Por meio da socializao, o indivduo aprende a se integrar ao meio. Ele faz isso por meio da assimilao

    de valores, crenas, hbitos e conhecimentos do grupo social ao qual pertence. Nesse sentido, o conceito socializao bem prximo ao de educao. Para Durkheim, os indivduos que participam dos mesmos grupos compartilham valores, crenas e normas coletivas, o que os mantm integrados. fcil imaginar que um grupo de amigos ser mais unido se seus membros tiverem crenas, gostos pessoais, valores, hbitos e costumes em comum. Uma sociedade somente pode funcionar se tais valores, crenas e normas constrangem (reprimem) as atitudes e os comportamentos individuais provocando uma solidariedade bsica, que orienta as aes dos indivduos.

    Conscincia Coletiva

    Durkheim usa a expresso conscincia coletiva para expressar essa solidariedade comum que molda as conscincias individuais. A famlia, o trabalho, os sindicatos, a educao, a religio, o controle social e at a punio do crime so alguns mecanismos que criam e mantm viva a integrao da conscincia coletiva. Os processos de socializao, tambm chamados de internalizao individual, so responsveis pela aquisio de valores, crenas e normas sociais que mantm os grupos e as sociedades integrados. Esse controle social refora o domnio da sociedade sobre os indivduos. Para Durkheim, a conscincia coletiva um conjunto das crenas e dos sentimentos comuns mdia dos membros de uma mesma sociedade, que forma um sistema determinado que tem vida prpria. Quanto maior a conscincia coletiva, mais a coeso entre os participantes da sociedade estudada refere-se a uma conformidade de todas as conscincias particulares a um tipo comum, o que faz com que todas se assemelhem e, por isso, os membros do grupo sintam-se atrados pelas similitudes uns com os outros, ao mesmo tempo que menor a sua individualidade.

    O que significa internalizao

    Quando um estrangeiro vem morar no Brasil, ele passa costuma passar por algumas situaes de constrangimento. Isso por que seus hbitos, costumes e valores so diferentes dos nossos. Digamos que alguns de seus hbitos so ofensivos ou constrangedores aos olhos dos brasileiros. O grupo social vai coibi-lo, atravs de repreenses ou outras formas de coao social, a agir de forma mais adequada. O estrangeiro, para evitar situaes desagradveis, passa agir da maneira como o grupo exige. Com o tempo, ele nem ir parar para pensar que age de maneira diferente. Quando isso ocorre, dizemos que o estrangeiro internalizou os novos valores, hbitos e costumes. A esse processo damos o nome de socializao.

    Moral, Coeso Social e Anomia

    Durkheim, evidentemente, sabia da existncia de fenmenos tais como conflitos sociais, crises, marginalidade, criminalidade, suicdio, etc., em todas as sociedades. Nem tudo nas sociedades integrao, consenso e harmonia. Mas, para ele, essas formas de desvios sociais no eram conseqncias da perverso ou da maldade dos indivduos; eram, sim, conseqncias da prpria estrutura social que, enfraquecida, produzia um estado de anomia, isto , um estado de enfraquecimento ou ausncia de leis e normas. A anomia gera o caos social. Sem normas claras, os indivduos no sabem como agir e se entregam ganncia, s paixes, ao crime e mesmo ao suicdio. Numa sociedade fraca, os indivduos se perdem e os processos de socializao e internalizao de normas se tornam ineficientes (os indivduos no aprendem a respeitar normas e regras).

  • A sociedade fica, ento, ameaada por no impor limites aos indivduos, que Durkheim concebia como cheios de desejos ilimitados. Quanto mais os homens possuem, mais eles querem, j que as satisfaes estimulam, em vez de preencher as necessidades. justamente esse estado doentio que se observava nas sociedades modernas que levou Durkheim a enfatizar a importncia dos fatos morais na integrao dos homens vida social.

    Moral (...) tudo o que fonte de solidariedade, tudo o que fora o indivduo a contar com seu prximo, a regular seus movimentos com base em outra coisa que no os impulsos de seu egosmo, e a moralidade tanto mais slida quanto mais numerosos e fortes so estes laos. (Durkheim)

    Quando uma sociedade perturbada por uma crise, ela se torna momentaneamente incapacitada de exercer sobre seus membros o papel de freio moral, de uma conscincia superior dos indivduos. Estes deixam, ento, de ser solidrios, e a prpria coeso social se v ameaada porque as trguas impostas pela violncia so provisrias e no pacificam os espritos. As paixes no se detm seno diante de um poder moral que respeitem. Se toda autoridade desse tipo faz falta, a lei do mais forte que reina e, latente ou agudo, o estado de guerra necessariamente crnico. A situao de anomia ou desequilbrio da coeso social pode se manifestar tambm no processo de diviso do trabalho. Sendo este um fato social, seu principal efeito no aumentar o rendimento das funes divididas, mas produzir solidariedade. Se isto no acontece, sinal de que os rgos que compem uma sociedade dividida em funes no se auto-regulam, o que pode resultar numa situao de anomia. V-se, assim, que sob certas circunstncias, a diviso do trabalho age de maneira dissolvente, deixando de cumprir seu papel moral: o de tornar solidrias as funes divididas. Exemplos de tais circunstncias podem ser: nas crises industriais ou comerciais, que denotam que as funes sociais no esto bem adaptadas entre si; nas lutas entre o trabalho e o capital, que mostram a falta de unidade e desarmonia entre patres e empregados e na diviso extrema de especialidades no interior da cincia.

    Fatos Sociais Normais e Patolgicos

    Durkheim tinha inteno de que a Sociologia se estabelecesse como uma cincia objetiva. Isso significa dizer que ela no poderia julgar baseada em opinies pessoais, mas de acordo com critrio objetivos e atravs da observao dos fatos sociais. J dissemos tambm que Durkheim no tinha a pretenso, como Saint-Simon, de transformar a sociedade, mas apenas de explic-la cientificamente. Entretanto, atravs das noes de Normal e Patolgico, Durkheim queria estabelecer uma forma (cientfica) de distinguir os fatos sociais bons e desejveis para a manuteno da sociedade, daqueles considerados ruins e indesejveis, que contribuam para a degradao da sociedade, como se fossem doenas sociais.

    (Patolgico vem de Pathos = paixo, sofrimento, doena)

    Para Durkheim, a sade pode ser entendida como a perfeita adaptao do organismo ao meio ao qual pertence, tendo ele as possibilidades mximas de sobrevivncia. Por outro lado, a doena ser tudo o que perturba essa adaptao, diminuindo essas possibilidades. Devemos lembrar, no entanto que existem algumas excees. A dor, no caso do corpo humano, tambm geralmente ligada doena, mas isso nem sempre verdadeiro. A fome, o parto so exemplos de fatos que podem ocasionar dor sem serem sinal de doena. Nem tudo que coloca a vida da sociedade em risco patolgico. Existem desajustes, contradies internas que no so necessariamente patolgicas, pois

    fazem parte do processo de evoluo daquela sociedade. Certos conflitos e contestaes so normais. Quando a crise se torna intensa, entretanto, ameaando as estruturas que sustentam a sociedade, a se torna algo patolgico (doena). Mas como medir se uma "doena" est ameaando a sade da sociedade? Nas sociedades existem crises que fazem parte delas, como as doenas endmicas, que no ameaam a sobrevivncia do ser vivo (ex. gripe). Essas no so sinais de patologia, enquanto que as crises que ameaam a estabilidade sim, como as epidemias que ameaam a vida do ser biolgico. Entretanto, isso muito mais difcil de ser observado na sociedade do que no corpo humano. O crime, por exemplo, um fenmeno normal, visto que geral para todas as sociedades (no existe sociedade sem transgressores). Ele se torna patolgico quando atinge dimenses exageradas, ameaando a sobrevivncia da sociedade. Quando a coeso se torna muito fraca, a situao se torna anmica (anomia social) e se aproxima da ruptura. Em outras palavras: sem coeso, a sociedade entra no caos. Podemos perceber que muito complicado estabelecer com perfeio o limite entre o normal e o patolgico. Mas dever do homem de estado (governantes), assim como um mdico, prevenir a ecloso de doenas sociais, e quando estas aparecerem, procurar san-las.

    O suicdio: a sociedade agindo sobre o indivduo

    Para Durkheim, um dos problemas centrais das modernas sociedades a difcil relao dos indivduos com o grupo. O estudo do suicdio, feito em sua obra O suicdio (1897), especialmente revelador da natureza dessa relao. Durkheim procura mostrar que mesmo no ato de tirar a prpria vida, a sociedade presente na conscincia do indivduo mais importante do que os detalhes da histria individual do suicida:

    Considerando que o suicdio um ato da pessoa e que se a ela atinge, tudo indica que deva depender exclusivamente de fatores individuais e que sua explicao, por conseguinte, caiba to somente psicologia. De fato, no pelo temperamento do suicida, por seu carter, por seus antecedentes, pelos fatos de sua histria privada que em geral se explica a sua deciso. (Durkheim).

    Em sua obra, Durkheim identifica trs tipos de suicdio:

    - O suicdio egosta, cometido por indivduos preocupados essencialmente consigo prprios, pouco integrados ao grupo;

    - O suicdio altrusta (altrusmo = abnegao, desprendimento, sacrifcio), que ocorre quando o indivduo se sacrifica em obedincia a alguma norma social interiorizada, como no caso das vivas indianas que aceitaram ser queimadas junto ao corpo dos maridos mortos na guerra.

    - E o suicdio anmico (de anomia social), o mais caracterstico da sociedade moderna. Esse tipo de suicdio gerado sempre que a sociedade passa por grandes transformaes (positivas ou negativas). famoso o caso da crise de 1929, nos EUA, onde um grande nmero de empresrios e industriais se suicidou devido a queda da bolsa de Nova Iorque.

    A diviso do trabalho

    A diviso do trabalho um dos aspectos menos discutveis das sociedades humanas, podendo ser encontrada mesmo em sociedades de outros animais, como as formigas e as abelhas. A partir do momento em

  • que cada homem (ou animal) no tem mais condies de sozinho garantir a sua sobrevivncia, preciso que eles se organizem e estabeleam uma distribuio de atividades que permita a produo dos bens necessrios para a sua prpria manuteno. Nas sociedades contemporneas a diviso do trabalho gritante: h os que cuidam da segurana (policiais), os responsveis pela produo (empresrios e trabalhadores), aqueles ocupados com a educao (professores), para no falar em sacerdotes, juzes, mdicos, etc. Segundo Durkheim, a diviso do trabalho gera duas formas de solidariedade.

    - Pela igualdade: os indivduos que executam as mesmas tarefas reconhecem que tm pelo menos parte da personalidade em comum, e se unem em torno dela.

    - Pela diferenciao das atividades entre os membros do grupo: para que elas promovam o bem-estar coletivo, preciso que sejam feitas de forma complementar por cada homem, isto , elas precisam estar interligadas.

    A diferena bsica entre o primeiro e o segundo tipo de solidariedade, que foram respectivamente chamadas por Durkheim de "mecnica" e "orgnica", consiste que na primeira a solidariedade causada pela identificao entre elementos iguais, enquanto que na segunda ela proporcionada pela coordenao de elementos diferentes.

    Malefcios da diviso do trabalho

    Vista deste ngulo, a diviso do trabalho aparece como benfica para a sociedade, uma vez que une os homens atravs de suas atividades. Mas na verdade ela tambm pode ser prejudicial. O prprio Durkheim demonstra que, se o processo de diferenciao de atividades que d origem solidariedade "orgnica" for muito acentuado, a coordenao entre elas no poder ser feita de maneira eficaz. Em outras palavras, a infinidade de ocupaes distribudas entre os homens impedir que eles percebam a complementaridade entre elas. Esta diferenciao, que muitas vezes vem acompanhada de um crescente individualismo, a base para a argumentao de Durkheim sobre a anomia e o suicdio, problemas que ele supe aumentar com o advento da sociedade industrial.

    KARL MARX E A CRTICA DA SOCIEDADE CAPITALISTA

    Os filsofos no tm feito seno interpretar o mundo de diferentes maneiras: o que importa transform-lo.(Marx)

    Marx nasceu em Treves, na Prssia (no confundir com Rssia), em 1818. Era filho de um advogado judeu convertido ao protestantismo. Foi filsofo, historiador, economista e jornalista. Deixou numerosos escritos, tais como os "Manuscritos econmicos e filosficos", "O 18 Brumrio de Lus Napoleo", "Contribuio crtica da economia poltica", "O Capital", e, em conjunto com Friedrich Engels, "A Ideologia Alem", "Manifesto Comunista", entre outros. Segundo Engels, as duas grandes

    descobertas cientficas de Marx foram: a concepo do materialismo histrico e a teoria da mais-valia. Ativista poltico fundou e dirigiu a Primeira Internacional Operria, de 1867 a 1873. Em 1843, exilou se em Paris e posteriormente em Bruxelas e em Londres, onde morreu em 1883. Atualmente bastante difcil analisar a sociedade humana sem citar, em maior ou menor grau, a produo de Marx, mesmo que a pessoa no seja simptica ideologia construda em torno de seu pensamento intelectual, principalmente em relao aos seus conceitos econmicos e sua idia de revoluo.

    Para Marx, Hegel inverte a relao entre o que determinante a realidade material e o que determinado as representaes e conceitos do Esprito ou conscincia. Na abordagem de Marx, as condies materiais (realidade material), nas quais se encontram os homens determinam sua forma de pensar, sentir, crer e agir (dimenso do Esprito). No contexto dialtico, entretanto, o esprito no uma conseqncia passiva da ao realidade material, podendo reagir sobre aquilo que o determina. Isso significa que a conscincia do homem, mesmo sendo determinada pela realidade material e estando historicamente situada, no pura passividade: o conhecimento do determinismo liberta o homem por meio da ao deste sobre o mundo, possibilitando inclusive a ao revolucionria.

    O materialismo histrico no mais do que a aplicao dos princpios do materialismo dialtico ao campo da histria. E, como o prprio nome indica, a explicao da histria por fatores materiais (econmicos, tcnicos). Contrapondo-se ao idealismo hegeliano, Marx procurou compreender a histria dos homens a partir das condies materiais nas quais eles vivem (= materialismo histrico), e no a partir do Esprito ou Conscincia. A forma como os indivduos se comportam, agem, sentem e pensam (dimenso do Esprito ou Conscincia) determinada pela forma de produo da vida social, ou seja, pela maneira como os homens trabalham e produzem os meios necessrios para a sustentao material das sociedades. A partir da sua concepo materialista de sociedade, podemos identificar alguns conceitos-chave da filosofia de Marx:

    * Concepo estrutural da sociedade (infra e superestrutura): a infra-estrutura ou base econmica (formas de trabalho, recursos naturais e humanos, fontes de energia, relaes de trabalho, tecnologia etc.) de uma sociedade determina a sua superestrutura (religio, formas de poder, ideologias, moral, filosofia, arte etc).

    * Capital e trabalho : Para Marx, o trabalho a atividade fundamental do homem. por meio do trabalho que o homem constri a si mesmo e ao mundo ao seu redor. No entanto, ao longo da histria (sobretudo no contexto do capitalismo), o trabalho perde a sua dimenso de realizao, tornando-se, no mbito do sistema capitalista, uma mercadoria, que pode ser vendida ou comprada a qualquer momento. Porm, a fora de trabalho uma mercadoria com dupla face: por um lado, uma mercadoria como outra qualquer, paga pelo salrio; por outro lado, a nica mercadoria que produz valor, ou seja, que reproduz o capital.

    * Classes sociais, mais-valia e alienao : Segundo Marx, na sociedade capitalista as relaes sociais de produo definem dois grandes grupos dentro da sociedade: - De um lado, os capitalistas, que so aquelas pessoas que possuem os meios de produo ou recursos materiais (mquinas, ferramentas, capital, etc.) necessrios para produzir as mercadorias, servios, etc.; - Do outro lado, os proletrios (ou trabalhadores), aqueles que no possuem nada, a no ser o seu corpo e a sua disposio para trabalhar. Eles vendem a sua fora de trabalho (recurso humano) ao capitalista. Marx denominou o lucro obtido sobre o trabalho do operrio de mais-valia. O operrio contratado para trabalhar dentro de uma certa carga horria. Porm, bem antes de completar sua

  • carga horria, ele j produziu mais do que o suficiente para pagar seu salrio e para cobrir os gastos com os meios de produo utilizados durante o seu trabalho. O tempo restante de sua carga horria no de fato remunerado; ele trabalha de graa, a fim de gerar o lucro do burgus. Marx distinguiu duas formas de mais-valia: a absoluta, que est baseada na extenso da jornada de trabalho do operrio (quanto maior for a carga horria maior ser a mais-valia) e a relativa, que est baseada na mecanizao da fbrica. Tal mecanizao permite ao operrio produzir muito mais num curto espao de tempo, o que provoca um maior tempo de trabalho no pago (mais-valia). Alm da mais-valia, Marx concluiu que o trabalho no sistema capitalista de produo gera alienao, sinnimo de perda de um direito ou de um bem. So vrias as formas de alienao ou perda provocadas pelo trabalho: O trabalhador perde a noo global do processo produtivo devido especializao rgida do trabalho; O trabalhador perde a posse do fruto de seu trabalho, que pertence ao burgus; O trabalhador perde a autonomia do processo produtivo, pois seu salrio, sua jornada de trabalho so determinados pelo burgus; O trabalhador perde a riqueza produzida pelo seu trabalho: produz a riqueza que mantm a economia do pas, mas vive na misria; O trabalhador perde a identidade com o trabalho: ele no se reconhece e nem reconhecido naquilo que faz, isto no fruto do seu trabalho.

    * Foras produtivas, Relaes de produo e modo de produo:

    Foras produtivas: ao conjunto dos meios de produo (recursos materiais) mais o trabalho humano, damos o nome de foras produtivas. Estas alteram-se ao longo da Histria. At meados do sculo XVIII, por exemplo, a produo era feita com o uso de instrumentos simples, acionados por fora humana, por trao animal e pela energia proveniente da gua ou do vento. Com a Revoluo Industrial, a partir da segunda metade do sculo XVIII, foram desenvolvidas mquinas, que utilizavam o vapor como fonte de energia e, mais tarde, a eletricidade e o petrleo. Alteraram-se, portanto, os meios de produo e, conseqentemente, as tcnicas de trabalho. Houve, assim, uma profunda mudana nas foras produtivas.

    Relaes de produo: para produzir os bens de consumo e de servio de que necessitamos, os homens estabelecem relaes uns entre os outros. As relaes que se estabelecem entre os homens na produo, na troca e na distribuio dos bens so as relaes de produo. As relaes de produo mais importantes so aquelas que se estabelecem entre os proprietrios dos meios de produo e os trabalhadores. Isso porque todo processo produtivo conta sempre com pelo menos dois agentes sociais bsicos: trabalhadores e proprietrios dos meios de produo. Assim, por exemplo, a produo na sociedade capitalista s existe porque capitalistas e trabalhadores entram em relao. O capitalista paga ao trabalhador um salrio fixo para que trabalhe para ele e, no final da produo, fica com o lucro (mais-valia). Esse tipo de relao foi denominada por Marx de relao de produo assalariada.

    Modos de produo: o modo de produo a maneira pela qual a sociedade produz seus bens e servios, como os utiliza e os distribui. O modo de produo de uma sociedade formado por suas foras produtivas e pelas relaes de produo existentes nessa sociedade. Ele , portanto, a maneira pela qual as foras produtivas se organizam em determinadas relaes de produo num dado momento histrico. Por exemplo, no modo de produo capitalista, as foras produtivas, representadas sobretudo pelas mquinas do sistema fabril, determinam

    as relaes de produo caracterizadas pelo dono do capital e pelo operrio assalariado.

    * Contradio social e luta de classes: Para Marx, as foras produtivas do capitalismo no eram mais um motivo de desenvolvimento social, mas antes criavam um entrave, j que entravam em contradio com as relaes de produo. Abre-se, ento, uma poca de revoluo social. As revolues no acontecem por acaso, so expresso de uma necessidade histrica. Por outro lado, novas relaes de produo s se tornam realidade depois que as antigas tenham decado. Da, a necessidade das revolues sociais: transformar radicalmente as antigas relaes sociais. O processo histrico resultado dessas lutas de classes.

    * O Estado: instrumento da classe dominante: Para Marx, o Estado uma estrutura de poder que concentra, resume e pe em movimento a fora poltica da classe dominante (de um ponto de vista mais geral e abstrato). Em suma, o Estado um aparelho usado pela classe dominante para controlar a sociedade e manter a coeso social.

    A CONTRIBUIO DE MAX WEBER (1864-1920)

    Max Weber nasceu na cidade de Erfurt (Alemanha), numa famlia de burgueses liberais. Desenvolveu estudos de direito, filosofia, histria e sociologia, constantemente interrompidos por uma doena que o acompanhou por toda a vida. Iniciou a carreira de professor em Berlim e, em 1895, foi catedrtico na universidade de Heidelberg. Manteve contato permanente com intelectuais de sua poca, como Simmel' Sombart, Tnnies e Georg Lukcs. Na poltica, defendeu ardorosamente seus pontos de vista liberais e parlamentaristas e participou da comisso redatora da Constituio da Repblica de Weimar. Sua maior influncia nos ramos especializados da sociologia foi no estudo das religies, estabelecendo relaes entre formaes polticas e crenas religiosas. Suas principais obras foram: Artigos reunidos de teoria da cincia: economia e sociedade (obra pstuma) e A tica protestante e o esprito do capitalismo.

    Objeto da Sociologia: a ao social

    Cada formao social adquiriu, para Weber, especificidade e importncia prprias. Mas o ponto de partida da sociologia de Weber no estava nas entidades coletivas, grupos ou instituies. Seu objeto de investigao a ao social, a conduta humana dotada de sentido, isto , de uma justificativa subjetivamente elaborada. Assim, o homem passou a ter, como indivduo, na teoria weberiana, significado e especificidade. o agente social que d sentido sua ao: estabelece a conexo entre o motivo da ao, a ao propriamente dita e seus efeitos.

  • Para a sociologia positivista, a ordem social submete os indivduos como fora exterior a eles. Para Weber, ao contrrio, no existe oposio entre indivduo e sociedade: as normas sociais s se tornam concretas quando se manifestam em cada indivduo sob a forma de motivao. Cada sujeito age levado por um motivo que dado pela tradio, por interesses racionais ou pela emotividade. O motivo que transparece na ao social permite desvendar o seu sentido, que social na medida em que cada indivduo age levando em conta a resposta ou a reao de outros indivduos.

    Para Weber, a tarefa do cientista descobrir os possveis sentidos das aes humanas presentes na realidade social que lhe interesse estudar. O sentido, por um lado, expresso da motivao individual, formulado expressamente pelo agente ou implcito em sua conduta. O carter social da ao individual decorre, segundo Weber, da interdependncia dos indivduos. Um ator age sempre em funo de sua motivao e da conscincia de agir em relao a outros atores. Por outro lado, a ao social gera efeitos sobre a realidade em que ocorre. Tais efeitos escapam, muitas vezes, ao controle e previso do agente.

    Ao cientista compete captar, pois, o sentido produzido pelos diversos agentes em todas as suas conseqncias. As conexes que se estabelecem entre motivos e aes sociais revelam as diversas instncias da ao social polticas, econmicas ou religiosas. O cientista pode, portanto, descobrir o nexo entre as vrias etapas em que se decompe a ao social. Por exemplo, o simples ato de enviar uma carta composto de uma srie de aes sociais com sentido escrever, selar, enviar e receber , que terminam por realizar um objetivo. Por outro lado, muitos agentes ou atores esto relacionados a essa ao social o atendente, o carteiro etc. Essa interdependncia entre os sentidos das diversas aes mesmo que orientadas por motivos diversos que d a esse conjunto de aes seu carter social.

    o indivduo que, por meio dos valores sociais e de sua motivao, produz o sentido da ao social. Isso no significa que cada sujeito possa prever com certeza todas as conseqncias de determinada ao. Como dissemos, cabe ao cientista perceber isso. No significa tambm que a anlise sociolgica se confunda com a anlise psicolgica. Por mais individual que seja o sentido da minha ao, o fato de agir levando em considerao o outro d um carter social a toda ao humana. Assim, o social s se manifesta em indivduos, expressando-se sob forma de motivao interna e pessoal.

    Por outro lado, Weber distingue a ao da relao social. Para que se estabelea uma relao social preciso que o sentido seja compartilhado. Por exemplo, um sujeito que pede uma informao a outro estabelece uma ao social: ele tem um motivo e age em relao a outro indivduo, mas tal motivo no compartilhado. Numa sala de aula, em que o objetivo da ao dos vrios sujeitos compartilhado, existe uma relao social.

    Pela freqncia com que certas aes sociais se manifestam, o cientista pode conceber as tendncias gerais que levam os indivduos, em dada sociedade, a agir de determinado modo.

    A tarefa do cientista

    Weber rejeita a maioria das proposies positivistas: o evolucionismo, a exterioridade do cientista social em relao ao objeto de estudo e a recusa em aceitar a importncia dos indivduos e dos diferentes momentos histricos na anlise da sociedade. Para esse socilogo, o cientista, como todo indivduo em ao, tambm age guiado por seus motivos, sua cultura e suas tradies, sendo impossvel descartar-se de suas prenoes como propunha

    Durkheim. Existe sempre certa parcialidade na anlise sociolgica, intrnseca pesquisa, como a toda forma de conhecimento. As preocupaes do cientista orientam a seleo e a relao entre os elementos da realidade a ser analisada. Os fatos sociais no so coisas, mas acontecimentos que o cientista percebe e cujas causas procura desvendar. A neutralidade durkheimiana se torna impossvel nessa viso.

    Entretanto, uma vez iniciado o estudo, este deve se conduzir pela busca da maior objetividade na anlise dos acontecimentos. A realizao da tarefa cientfica no deveria ser dificultada pela defesa das crenas e das idias pessoais do cientista.

    Portanto, para a sociologia weberiana, os acontecimentos que integram o social tm origem nos indivduos. O cientista parte de uma preocupao com significado subjetivo, tanto para ele como para os demais indivduos que compem a sociedade. Sua meta compreender, buscar os nexos causais que dem o sentido da ao social.

    Explicar um fenmeno social supe sempre que se d conta das aes individuais que o compem. Mas que "dar conta" de uma ao? Pode-se continuar seguindo Weber nesse ponto. Dar conta de uma ao, diz ele, "compreend-la" (Verstehen). O que significa que o socilogo deve poder ser capaz de colocar-se no lugar dos agentes por quem ele se interessa. (BOUDON, R. e BOURRICAUD, F. Dicionrio critico de sociologia.So Paulo: tica, 1993- p. 4).

    Qualquer que seja a perspectiva adotada pelo cientista, ela sempre resultar numa explicao parcial da realidade. Um mesmo acontecimento pode ter causas econmicas, polticas e religiosas, sem que nenhuma dessas causas seja superior outra em significncia. Todas elas compem um conjunto de aspectos da realidade que se manifesta, necessariamente, nos atos individuais. O que garante a cientificidade de uma explicao o mtodo de reflexo, no a objetividade pura dos fatos. Weber relembra que, embora os acontecimentos sociais possam ser quantificveis, a anlise do social envolve sempre uma questo de qualidade, interpretao, subjetividade e compreenso.

    Assim, para entender como a tica protestante interferia no desenvolvimento do capitalismo, Weber analisou os livros sagrados e interpretou os dogmas de f do protestantismo. A compreenso da relao entre valor e ao permitiu-lhe entender a relao entre religio e economia.

    Os tipos ideais de ao social

    Para Weber h diferentes tipos de ao social, agrupados de acordo com o modo pelo qual os indivduos orientam suas aes. Assim, ele estabelece quatro tipos de ao social: Ao tradicional, ao afetiva, ao racional com relao a valores e ao racional com relao a fins.

    Ao Tradicional

    a ao que guiada pela obedincia aos hbitos, costumes, crenas aprendidas, que esto fortemente enraizados na vida do indivduo. Este tipo de ao mais ou menos inconsciente, e geralmente no questionada, j que o indivduo imagina que agir de tal maneira correto porque as coisas sempre foram daquele jeito.

    Exemplos - Entre os estudantes de classe mdia e alta, tradicional cursar uma faculdade simplesmente porque isso o que se espera que um jovem dessas classes sociais faa. Na maioria dos casos, tais jovens no questionam a necessidade de se fazer uma faculdade e sequer pensam nisso. - Entre as jovens de classe mdia, tambm tradicional, ainda que menos comum do que o exemplo acima,

  • celebrar com uma grande festa o aniversrio de 15 anos. Gasta-se pequenas fortunas simplesmente porque tradicional que se faa essa festa aos 15 anos. -Cerimnias de casamento, festas de formatura, festas de fim de ano, soltar foguetes durante a Copa do Mundo, fazer discursos durante a festa de aniversrio, cantar o parabns pra voc, festas de amigo secreto, etc., so aes consideradas do tipo tradicional, uma vez que todas elas so executadas devido ao hbito herdado de nossos antepassados.

    Ao Afetiva

    uma ao baseada mais no estado emocional da pessoa do que em meios racionais. As emoes so uma fora muito grande no que diz respeito motivao do comportamento humano.

    Exemplos - Mudar de escola porque os amigos, de quem se gosta muito, tambm o faro; - No ir a uma festa porque um inimigo estar l; - Escolher uma profisso (mdico ou advogado) apenas para agradar aos pais.

    Ao Racional com relao a valores

    Ao determinada pela crena num valor considerado importante, independente do xito desse valor na realidade. a ao pela qual se busca um objetivo que, em si mesmo, pode at no ser racional, mas que perseguido por meio racionais.

    Exemplos - O estudante que pretende fazer faculdade de msica sabendo que ser difcil conseguir retorno financeiro. O objetivo a ser atingido pode no ser considerado racional (do ponto de vista financeiro), mas os meios que o estudante vai usar para atingir seu objetivo devem ser racionais (freqentar um escola, estudar todos os dias, fazer a prova de vestibular, aprender teoria musical, etc.). - Um outro exemplo so as pessoas que buscam a salvao atravs da religio. A religio, em si mesma, no racional, mas objeto de crena pessoal. Mas, ao construir as igrejas, os homens se utilizam de conhecimentos tcnico-racionais de engenharia, de arquitetura, etc. Ao cobrar o dzimo, fazer o controle do dinheiro, o repasse para as instituies de caridade, pagamento de funcionrios (todas essas so aes racionais).

    Ao Racional com relao a fins

    Pode ser definida como uma ao na qual o meio utilizado para atingir um objetivo sempre e totalmente racional. Nesse caso, a ao no orientada por um sentimento ou por um valor pessoal, mas por um fim objetivamente estabelecido. Esse tipo de ao tambm chamado de ao tecnocrtica.

    Exemplos - Imagine que o engenheiro tenha como objetivo construir um edifcio. Ele se utiliza, para isso, de v-rios conhecimentos racionais no campo da matemtica, fsica, resistncia de materiais, etc. A eficincia do engenheiro vai ser medida pelo domnio tcnico usado para atingir o objetivo (construir o edifcio). - Um pai de famlia percebe que o oramento familiar no est sendo suficiente para pagar as despesas do ms. Percebendo o descontrole, ele vai at um supermercado, compra um software de controle financeiro e passa a lanar seus gastos todos no computador. A sua ao (comprar e usar o software) foi um meio racional encontrado para atingir o objetivo pretendido (controle dos gastos de sua famlia).

    Ao Social em Weber - Anlise

    Weber acreditava que as aes humanas no tm apenas uma explicao, j que elas so causadas por mltiplos fatores. Tambm acreditava que o homem nunca agia de acordo com apenas um tipo (como os citados acima) de ao, mas de vrios tipos misturados. Para ele, uma das principais caractersticas das sociedades modernas era a mudana constante da motivao dos comportamentos individuais. Entretanto, as aes do tipo racional com relao a um fim a que mais se sobressai no mundo atual. Vamos agora observar como um mesmo exemplo pode se encaixar nos trs tipos de ao. Pense num consumidor que vai ao shopping comprar um tnis. Para Weber, a ao social de um indivduo sempre orientada por outros indivduos. Ou seja, o consumidor vai escolher um tnis baseado em outras escolhas. Mas essa influncia pode se dar de vrias formas:

    (afetiva) Ele pode comprar o modelo de que mais goste, ou seja, sua escolha emocional (gosto pessoal). Nesse caso, temos uma ao emocional. Lembre-se que o gosto pessoal tambm influenciado pelo gosto dos demais.

    (tradicional) Ele pode adquirir o tnis que tradicionalmente todos na sua famlia costumam a comprar. Ele sequer se questiona se o tnis feio ou bonito. Isso no importa, j que sua ao, aqui, do tipo tradicional.

    (valores) Ele pode comprar o tnis pelo valor que ele atribui a determinada marca. Aqui, ele toma a marca do tnis como um valor importante, independente da beleza ou do preo. Em alguns casos, o consumidor passa a considerar o tnis bonito simplesmente pelo fato dele ser da marca pretendida.

    (fins) Ele pode comprar o tnis mais adequado ao fim proposto com o melhor preo. Se ele vai jogar vlei, compra um tnis de vlei.

    Comprar em funo do preo pode ser considerado uma ao racional, mas comprar a mercadoria mais barata nem sempre pode ser considerada uma atitude racional, uma vez que podemos no estar levando em conta a qualidade do produto. O racional, nesse tipo de situao, tentar calcular o custo-benefcio.

    Podemos ainda imaginar aes que misturam os vrios tipos: o consumidor, querendo um sapato para passear, compra observando a marca pela qual tem preferncia. Mesmo levando seu gosto pessoal em considerao, ele compra sapato porque acha que um hbito que pessoas da sua idade usem sapatos, e no tnis. Enfim, mistura as aes do tipo com relao a fins (sapato para passear), afetiva (marca) e tradicional (sapato e no tnis).

    A tica protestante e o esprito do capitalismo

    Um dos trabalhos mais conhecidos e importantes de Weber A tica protestante e o esprito do capitalismo, no qual ele relaciona o papel do protestantismo na formao do comportamento tpico do capitalismo ocidental moderno.

    Weber parte de dados estatsticos que lhe mostraram a proeminncia de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negcios, empresrios bem-sucedidos e mo-de-obra qualificada. A partir da, procura estabelecer conexes entre a doutrina e a pregao protestante, seus efeitos no comportamento dos indivduos e sobre o desenvolvimento capitalista.

    Weber descobre que os valores do protestantismo como a disciplina asctica, a poupana, a austeridade, a vocao, o dever e a propenso ao trabalho atuavam de maneira decisiva sobre os indivduos. No seio das famlias protestantes, os filhos eram criados para o ensino

  • especializado e para o trabalho fabril, optando sempre por atividades mais adequadas obteno do lucro, preferindo o clculo e os estudos tcnicos ao estudo humanstico. Weber mostra a formao de uma nova mentalidade, um ethos conjunto dos costumes e hbitos fundamentais propcio ao capitalismo, em flagrante oposio ao "alheamento" e atitude contemplativa do catolicismo, voltado para a orao, sacrifcio e renncia da vida prtica.

    Um dos aspectos importantes desse trabalho, no seu sentido terico, est em expor as relaes entre religio e sociedade e desvendar particularidades do capitalismo. Alm disso, nessa obra, podemos ver de que maneira Weber aplica seus conceitos e posturas metodolgicas.

    Alguns dos principais aspectos da anlise:

    1. A relao entre a religio e a sociedade no se d por meios institucionais, mas por intermdio de valores introjetados nos indivduos e transformados em motivos da ao social. A motivao do protestante, segundo Weber, o trabalho, enquanto dever e vocao, como um fim absoluto em si mesmo, e no o ganho material obtido por meio dele.

    2. O motivo que mobiliza internamente os indivduos consciente. Entretanto, os atos individuais vo alm das metas propostas e aceitas por eles. Buscando sair-se bem na profisso, mostrando sua prpria virtude e vocao e renunciando aos prazeres materiais, o protestante puritano se adapta facilmente ao mercado de trabalho, acumula capital e o reinveste produtivamente.

    3. Ao cientista cabe, segundo Weber, estabelecer conexes entre a motivao dos indivduos e os efeitos de sua ao no meio social. Procedendo assim, Weber analisa os valores do catolicismo e do protestantismo, mostrando que os ltimos revelam a tendncia ao racionalismo econmico, base da ao capitalista.

    4. Para constituir o tipo ideal de capitalismo ocidental moderno, Weber estuda as diversas caractersticas das atividades econmicas em vrias pocas e lugares, antes e aps o surgimento das atividades mercantis e da indstria. E, conforme seus preceitos, constri um tipo gradualmente estruturado a partir de suas manifestaes particulares tomadas realidade histrica. Assim, diz ser o capitalismo, na sua forma tpica, uma organizao econmica racional assentada no trabalho livre e orientada para um mercado real, no para a mera especulao ou rapinagem. O capitalismo promove a separao entre empresa e residncia, a utilizao tcnica de conhecimentos cientficos e o surgimento do direito e da administrao racionalizados.

    As relaes polticas: Poder e dominao

    A dominao, para Weber, a probabilidade de encontrar obedincia a um determinado mandato (poltico, religioso, lder, etc.). A obedincia pode depender:

    a) vantagens obtidas por parte daquele que obedece (obedincia ao patro que paga o salrio); b) do costume, do hbito cego (obedincia bronca de um professor); c) no afeto ou gosto pessoa por quem domina;

    Mas se a dominao se baseasse apenas nesses trs fundamentos, ela seria relativamente instvel. Nas relaes entre dominados e dominantes, a dominao costuma apoiar-se em bases jurdicas, nas quais se funda a sua legitimidade. O abalo dessa crena na legitimidade (o poder legtimo, aceitvel) por parte

    dos dominados pode acarretar conseqncias de grande alcance.

    Weber dividiu assim os tipos de dominao:

    1) Dominao Legal (onde qualquer direito pode ser criado e modificado atravs de um estatuto sancionado corretamente), tendo a burocracia como sendo o tipo mais puro desta dominao. Os princpios fundamentais da burocracia so: a administrao est baseada em documentos, a demanda pela aprendizagem profissional, as atribuies so oficializadas e h uma exigncia de todo o rendimento do profissional. A obedincia se presta no pessoa, em virtude de direito prprio, mas regra, que se conhece competente para designar a quem e em que extenso se h de obedecer. Weber classifica este tipo de dominao como sendo estvel, uma vez que baseada em normas que, como foi dito anteriormente, so criadas e modificadas atravs de um estatuto sancionado corretamente. Ou seja, o poder de autoridade legalmente assegurado.

    2) Na Dominao Tradicional a autoridade , pura e simplesmente, suportada pela existncia de uma fidelidade tradicional. O governante o patriarca ou senhor, os dominados so os sditos e o funcionrio o servidor. O patriarcalismo o tipo mais puro desta dominao. Presta-se obedincia pessoa por respeito, em virtude da tradio de uma dignidade pessoal que se reputa sagrada. Todo o comando se prende intrinsecamente a normas tradicionais (no legais). A criao de um novo direito , em princpio, impossvel, em virtude das normas oriundas da tradio. Tambm classificado, por Weber, como sendo uma dominao estvel, devido solidez e estabilidade do meio social, que se acha sob a dependncia direta e imediata do aprofundamento da tradio na conscincia coletiva.

    3) Na Dominao Carismtica a autoridade suportada, graas a uma devoo afetiva por parte dos dominados. Ela assenta sobre as crenas havidas em profetas, sobre o reconhecimento que pessoalmente alcanam os heris e os demagogos, durante as guerras e sedies, nas ruas e nas tribunas, convertendo a f e o reconhecimento em deveres inviolveis que lhes so devidos pelos governados. A obedincia a uma pessoa se d devido s suas qualidades pessoais. No apresenta nenhum procedimento ordenado para a nomeao e substituio. No h carreiras e no requerida formao profissional por parte do portador do carisma e de seus ajudantes. Weber coloca que a forma mais pura de dominao carismtica o carter autoritrio e imperativo. Contudo, Weber classifica a dominao carismtica como sendo instvel, pois nada h que assegure a perpetuao da devoo afetiva ao dominador, por parte dos dominados.

    Max Weber observa que o poder racional ou legal cria em suas manifestaes de legitimidade a noo de competncia, o poder tradicional a de privilgio e o carismtico dilata a legitimao at onde alcance a misso do chefe, na medida de seus atributos carismticos pessoais.

    Exerccios

    1. (UFU) Considere a maneira pela qual mile Durkheim define os fatos sociais. ... consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivduo, dotadas de um poder de coero em virtude do qual se lhe impem. DURKHEIM mile, As Regras do Mtodo Sociolgico. 9 Ed. So Paulo: Cia. Editora Nacional, 1978. p. 3. Marque a alternativa correta.

    A) De acordo com Durkheim, cabe apenas conscincia coletiva e s sanes repressivas garantirem a solidariedade das sociedades modernas.

  • B) Segundo Durkheim, as sanes repressivas so as nicas compatveis com o tipo de solidariedade caraterstico das sociedades modernas. C) Para mile Durkheim, as sanes restitutrias ganham importncia crescente medida que a diviso social do trabalho torna-se o fator por excelncia da solidariedade social. D) Conforme Durkheim, a diviso social do trabalho que garante a coeso social e moral das sociedades primitivas.

    2. (UFU) Considere a seguinte passagem da obra de Max Weber. ... de acordo com a tica quaker a vida profissional do homem que lhe d certo treino moral, uma prova de seu estado de graa para a sua conscincia, que se expressa no zelo e no mtodo, fazendo com que ele consiga cumprir a sua vocao. No um trabalho em si, mas um trabalho racional, uma vocao que pedida por Deus. Na concepo puritana da vocao, a nfase sempre posta neste carter metdico da ascese vocacional... WEBER, Max. A tica protestante e o esprito do capitalismo. 6 Ed. So Paulo: Biblioteca Pioneira de Cincias Sociais, 1992. p. 115. Marque a alternativa correta.

    A) De acordo com Weber, a ao racional referente a valores passou a predominar to logo o capitalismo e a burocracia modernos se firmaram no seio das sociedades ocidentais. B) Conforme Weber, a ao racional referente a fins componente essencial do tipo de tica predominante nas sociedades modernas. C) Segundo Weber, a ao social de tipo tradicional condio sine qua non para a dinmica das sociedades capitalistas modernas. D) Para Weber, a ao social determinada de modo afetivo central para a lgica de funcionamento da burocracia moderna.

    3. (UFU) A respeito do contexto histrico de emergncia da Sociologia, marque a alternativa correta.

    A) A crescente legitimidade cientfica do saber sociolgico, produzido por autores como Auguste Comte e mile Durkheim, deveu-se sua forte crtica ao Iluminismo. B) A Sociologia consolidou-se, disciplinarmente, em resposta aos novos problemas e desafios desencadeados por transformaes sociais, polticas, econmicas e culturais, cujos marcos histricos principais foram a Revoluo Industrial e a Revoluo Francesa. C) Um dos principais legados do Iluminismo foi a crtica severa s concepes cientficas da realidade social, combinada com a reafirmao de princpios e interpretaes de cunho religioso. D) Herdeira direta das transformaes sociais desencadeadas pela Revoluo Industrial e pela Revoluo Francesa, a Sociologia ignorou os mtodos racionais de investigao em favor do conhecimento produzido pelo senso-comum.

    4. (UFU) Sobre os quadros de anomia social, considere a teoria sociolgica de mile Durkheim e marque a alternativa correta.

    A) A anomia social no se relaciona diviso social do trabalho, pois essa diz respeito, estritamente, s funes econmicas de produo, de riqueza e de comrcio. B) Situaes de patologia social so raras nas sociedades de solidariedade orgnica, pois essas se assentam na semelhana de funes entre as partes que compem o tecido social. C) A ameaa de desintegrao particularmente presente nas sociedades mais complexas, pois essas se baseiam na diferenciao, o que potencializa o enfraquecimento dos valores. D) A sociedade ocidental moderna encontra na religio tradicional sua principal fonte para as crenas comuns, sendo essas a preveno eficaz anomia social.

    5. (UFU) Em O Dezoito Brumrio, de Lus Bonaparte, Karl Marx sustenta que ... os homens fazem sua prpria histria, mas no a fazem como querem; no a fazem sob circunstncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. MARX, K. O Dezoito Brumrio de Lus Bonaparte. In Manuscritos econmico filosficos e outros textos escolhidos. (Seleo de textos: Jos Arthur Giannotti). So Paulo, Abril Cultural, 1978. p. 329. Coleo Os Pensadores. Sobre essa concepo de fazer histrico, marque a alternativa correta.

    A) A sociedade o resultado da prxis humana, que expressa, a partir de cada causalidade, os projetos ou as vises de mundo que prevaleceram nas lutas de classe. B) O passado irresistvel e sua reproduo a regra nas relaes sociais, no sentido de reiterao da ordem posta. C) As transformaes histricas decorrem da interveno da vontade, independentemente, das circunstncias existentes. D) A histria imutvel, quando muito cclica, pois os movimentos possveis no podem romper a existncia de classes sociais.

    6. (UFU) Considere a citao abaixo. Por sua formao filosfica, Marx concebia a realidade social como uma concretude histrica, isto , como um conjunto de relaes de produo que caracteriza cada sociedade num tempo e espao determinados (...). Por outro lado, cada sociedade representava para Marx uma totalidade, isto , um conjunto nico e integrado das diversas formas de organizao humana nas suas mais diversas instncias famlia, poder, religio. COSTA, Cristina. Sociologia introduo cincia da sociedade, 3 ed., So Paulo: Moderna, 2005. p. 123-124. Com base nesse trecho e na teoria social de Karl Marx, marque a alternativa correta.

    A) A conscincia um fenmeno autnomo diante do processo produtivo e das relaes sociais de produo, o que nos leva a concluir que h uma evoluo das idias sociais. B) A dominao de classes no capitalismo um processo econmico que prescinde das esferas poltica, ideolgica e jurdica. C) As transformaes sociais decorrem, natural e fundamentalmente, da evoluo das foras produtivas, principalmente, da cincia e da tecnologia. D) A totalidade social, para Marx, no indeterminada, pois a instncia da produo e reproduo das condies materiais de existncia essencial, sendo que outras instncias no podem ser vistas como meros ou mecnicos reflexos da economia.

    7. (UEG) Considere os trechos abaixo.

    1. O protestantismo ao combinar restrio do consumo com a liberao da procura da riqueza provocou a acumulao de capital. 2. Onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia destruiu todas as relaes feudais, patriarcais, idlicas. Dilacerou impiedosamente os variados laos feudais que ligavam o ser humano a seus superiores naturais, e no deixou subsistir entre homem e homem outro vnculo que no o interesse nu e cru, o insensvel pagamento em dinheiro. 3. , pois, uma lei da histria a de que a solidariedade mecnica, que, a princpio, nica ou quase, perde terreno progressivamente e que a solidariedade orgnica se torna pouco a pouco preponderante.

    Os trechos citados acima expressam

    A) as novas tendncias sociolgicas que, atravs de uma original terminologia, explicam o mundo contemporneo. B) as teorias sociolgicas de Weber, Marx e Durkheim sobre a formao do capitalismo. C) a concepo de Durkheim sobre a ampliao da diviso social do trabalho com a ascenso da sociedade moderna.

  • D) o ponto de vista de Max Weber sobre a origem do capitalismo e o papel da tica protestante nesse processo.

    CULTURA E SOCIEDADE

    Natureza e Cultura

    A Antropologia o estudo do homem como ser biolgico, social e cultural. Sendo cada uma destas dimenses por si s muito ampla, o conhecimento antropolgico geralmente organizado em reas como a Antropologia Fsica ou Biolgica (aspectos genticos e biolgicos do homem), Antropologia Social (organizao social e poltica, parentesco, instituies sociais), Antropologia Cultural (sistemas simblicos, religio, comportamento) e Arqueologia (condies de existncia dos grupos humanos desaparecidos). Alm disso, podemos utilizar termos como Antropologia, Etnologia e Etnografia para distinguir diferentes nveis de anlise ou tradies acadmicas. Para o antroplogo Claude Lvi-Strauss, a etnografia corresponde aos primeiros estgios da pesquisa: observao e descrio (trabalho de campo). A etnologia, com relao etnografia, seria um primeiro passo em direo sntese e a antropologia uma segunda e ltima etapa da sntese, tomando por base as concluses da etnografia e da etnologia. Qualquer que seja a definio adotada, possvel entender a antropologia como uma forma de conhecimento sobre a diversidade cultural, isto , a busca de respostas para entendermos o que somos a partir da comparao com o outro, com o diferente de ns.

    O conceito antropolgico de cultura

    Por influncia do darwinismo, no incio da antropologia social, o projeto de dar conta da diversidade cultural levou naturalistas e historiadores a debruarem-se sobre os relatos de viajantes. Exploradores e administradores coloniais falavam sobre comportamentos exticos das sociedades inferiores, mais simples e incivilizadas. Nesse perodo, o pesquisador julgava as sociedades pesquisadas como inferiores porque o seu parmetro de comparao era pautado numa viso industrial da tcnica, ou seja, a sociedade era desenvolvida e civilizada se desenvolvesse tecnologia no patamar colocado pelas sociedades capitalistas. O relativo isolamento geogrfico destas sociedades e povos tambm contribuiu para esta viso. Assim, a Antropologia Social ficou vista como cincia das sociedades primitivas. Mas com a persistncia destas sociedades em resistirem at a atualidade de forma bastante diferente da tradio europia, colocou um problema crucial para esta viso evolucionista da diversidade humana. Afinal, porque, mesmo em contato com os povos ocidentais, tais culturas no evoluram. O prprio conceito de evoluo cultural foi colocado em questo. A partir dos prprios resultados das pesquisas sobre povos com culturas diferenciadas, voltaram-se para sub-grupos ou subculturas no interior das sociedades complexas e civilizadas: comunidades camponesas, grupos marginalizados nas regies urbanas e grupos pertencentes s classes populares e altas da sociedade moderna. Tais estudos culminaram por desembocar em crtica da viso de mundo ocidental etnocentrista, pois via que o comportamento dito estranho e extico existia tambm dentro da cultura dita superior. A noo de cultura o que separava o determinismo biolgico racial das manifestaes de comportamento aprendidas pelos indivduos. Para o determinismo biolgico racial, a raa determinam o comportamento dos indivduos de um determinado grupo social. O conceito de raa era usado para justificar o domnio sobre escravos, por exemplo, uma vez que se um povo era racialmente inferior, poderia ser escravizado sem problemas. Estes aspectos eram considerados ento

    como de ordem biolgico ou gentico no debate das relaes entre raa e cultura. O antroplogo Edward Tylor (1832-1917) foi um dos primeiros a definir o conceito de cultura fora da viso biologista e geneticista da poca, sem considerar o conceito de raa:

    Cultura o todo complexo que inclui conhecimentos, crenas, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hbitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade.

    Apesar de ser mais uma lista de itens do que uma definio ou uma teoria que descreva e explique a diversidade humana, na prtica, essa definio abriu o campo para o estudo da cultura e da diversidade humana mais interessada em aspectos culturais do que em aspectos biolgicos. Para o a antropologia atual, cultura um sistema simblico. Ela estuda o que considera uma caracterstica fundamental e comum a toda sociedade: atribuir, de forma sistemtica e estruturada, significados e sentidos s coisas do mundo. Assim, uma cultura seria diferente de outra porque atribui sentido diferente s coisas e situaes sociais. Cada cultura observa, separa, pensa e classifica, atribuindo uma ordem ao mundo, de uma maneira especfica. Cabe antropologia compreender o sistema simblico de cada sociedade e sua diversidade nas sociedades humanas.

    Um bom exemplo desse conceito pode ser percebido no filme Os deuses devem estar loucos (1980). Em pleno deserto de Kalahari, no Botswana, junto frica do Sul, um avio sobrevoa tranquilamente os cus africanos. Um dos seus tripulantes lana, inadvertidamente, uma garrafa de Coca Cola - daquelas de vidro, bojudas no meio e estreitas no gargalo e com as letras da marca bem impressas - smbolo da moderna civilizao de consumo deste final de sculo. Por perto, brinca um grupo de crianas. Com a curiosidade que lhes caracterstica, deslocam-se, rapidamente, ao local, a fim de observarem e apanharem o estranho objeto. De incio, a garrafa faz as delcias das crianas e dos adultos: apreciam-na, viram-na, reviram-na, inventam-lhe mltiplas e variadas utilidades para o seu uso, e divertem-se com a sua presena. No entanto, passado algum tempo, esta simples e inofensiva garrafa de Coca-Cola comea a ser disputada e a tornar-se alvo de srias querelas no seio do grupo, despertando sentimentos de posse e invejas.

    Concluso

    As culturas so diferentes porque um mesmo objeto, para uma cultura, tem um significado completamente diferente do que para outra.

    Etnocentrismo

    Etnocentrismo uma viso do mundo onde o nosso prprio grupo tomado como centro de tudo e todos os outros so pensados e sentidos atravs dos nossos valores, nossos modelos, nossas definies do que a existncia. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferena; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc. No etnocentrismo se misturam a) elementos intelectuais e racionais e b) elementos emocionais e afetivos. Estes dois planos do esprito humano (sentimento e pensamento) vo compondo um fenmeno no apenas fortemente presente na histria das sociedades, como tambm facilmente encontrvel no nosso dia-a-dia. O estudo do etnocentrismo, na antropologia, pode ser expresso como a procura de sabermos os mecanismos, as formas, os caminhos e razes, pelos quais existem tantas e to profundas distores nas emoes, pensamentos, imagens que fazemos da vida daqueles que so diferentes de ns.

  • Este problema no exclusivo de uma determinada poca nem de uma nica sociedade. Talvez o etnocentrismo seja, dentre os fatos humanos, um daqueles de mais unanimidade. Um bom exemplo que ilustra a questo do etnocentrismo a experincia de um choque cultural. De um lado, conhecemos um grupo do eu, o nosso grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos deuses da mesma forma, empresta vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente. A, ento, de repente, nos deparamos com um outro, o grupo do diferente que, s vezes, nem sequer faz coisas como as nossas, a tal ponto que no reconhecemos como possveis. E, mais grave ainda, este outro tambm sobrevive sua maneira, gosta dela, tambm est no mundo e, ainda que diferente, tambm existe como ns. Este choque gerador do etnocentrismo nasce, talvez, na constatao das diferenas. uma espcie de mal-entendido sociolgico. A diferena ameaadora porque fere nossa prpria identidade cultural. como se pensssemos:

    Como aquele mundo de doidos pode funcionar (espanto)? Como que eles fazem (curiosidade perplexa)? Eles s podem estar errados ou tudo o que eu sei est errado (dvida ameaadora)! No, a vida deles no presta, selvagem, brbara, primitiva (hostilidade)!

    Relativismo cultural

    Ao contrrio da postura etnocntrica, a postura do relativismo cultural defende que:

    (a) cada cultura tem especificidades prprias, resultantes de fatores scio-histricos que definem a identidade dos seus membros; por isso

    (b) no admissvel a existncia de culturas superiores e inferiores; e

    (c) uma cultura no pode ser compreendida de fora, ou seja, no podemos impor nossos conceitos e parmetros culturais para julgar uma cultura diferente da nossa.

    Na histria da antropologia, o relativismo surgiu como reao ao etnocentrismo e ao evolucionismo social (teoria evolucionista). O etnocentrismo evolucionista privilegiava a objetividade na investigao de outras culturas, ignorando atitudes de respeito pela identidade e pela diferena culturais. O relativismo cultural constitui uma contribuio importante para a antropologia e para o processo de aprendizagem multicultural, j que desenvolveu tcnicas de investigao das complexidades e da diversidade cultural. O relativismo cultural defende a validade e a riqueza de qualquer sistema cultural e nega qualquer valorizao moral e tica dos mesmo. No podemos, dessa formar, comparar culturas, no sentido de conferir maior valor a uma ou outra. So todas equivalentes. Em suas manifestaes mais extremas, o relativismo chega a comparar o vudu com a cincia ocidental e a legitimar a poligamia, sacrifcios. A posio relativista j foi criticada por defensores dos direitos humanos, que consideram certos hbitos de determinados povos como um atentado aos direitos bsicos do ser humano, tal como a extrao do clitris feminino em determinadas tribos africanas.

    Preconceito e o Mito da Democracia Racial no Brasil

    Contrariando o senso comum, que nos ensinou ao longo dos anos que a sociedade brasileira o resultado da mistura das raas aqui reunidas e nos ajudou a construir a auto-imagem do Brasil como pas homogneo e indiferenciado, as polticas de ao afirmativa tm suscitado uma grande discusso. A que

    tem causado a maior polmica, sem dvida, a poltica de cotas. Isto , a polmica s aparece quando as cotas so destinadas aos afro-descendentes e indgenas. Porque as cotas j vm sendo adotadas em vrios segmentos da sociedade. Temos cotas para deficientes, idosos (no transporte rodovirio) e mulheres. Aparentemente o problema no reside na poltica de cotas em si mesma e sim para quem as cotas esto sendo destinadas. Para DOMINGUES, a discusso das cotas j tem o mrito de revelar a cara e a voz do nosso racismo. A incluso da questo das desigualdades tnico-sociais histricas da sociedade brasileira na agenda pblica nacional (e tambm na internacional) ganhou substncia em 2001 quando dos preparativos para Conferncia Mundial Contra o Racismo (CMR) na frica do Sul, onde o debate pblico se intensificou. A excluso do afro-brasileiro j no mais um mito, as estatsticas no permitem disfarar que a diferenciao existe. Portanto a democracia racial brasileira to propalada, atravs de muita luta do movimento negro, est sendo posta em cheque e o reconhecimento do carter pluritnico da sociedade pelo governo. Essa a essncia da questo, a desmistificao da democracia racial brasileira, esta no existe nem nunca existiu e o governo no mbito dos seus trs poderes tem promovido esse reconhecimento atravs de aes de discriminao positiva. (Adaptado de O fim do mito da democracia racial brasileira: Sociedade miscigenada x sociedade pluriracial)

    OUTROS CONCEITOS IMPORTANTES

    Cultura erudita e popular

    No vivemos em uma sociedade homognea, toda produo cultural est sujeita a avaliao que dependem da posio social do grupo a que ela pertence. Para exemplificar vamos estabelecer algumas distines, considerando as seguintes divises:

    - A Cultura Erudita a produo acadmica centrada no sistema educacional, sobretudo na universidade, produzida por uma minoria de intelectuais.

    - A Cultura Popular identificada com folclore, conjunto das lendas, contos e concepes transmitidas oralmente pela tradio. produzida pelo homem do campo, das cidade do interior ou pela populao suburbana das grandes cidades.

    - A Cultura de Massa aquela resultante dos meios de comunicao de massa, tais como a indstria fonogrfica (msica), a cinematogrfica (cinema), Tvs, Rdios, etc. Produzida de cima para baixo, j que o consumidor no participa de sua produo, esse tipo de cultura, veiculada pela indstria cultural, impe padres e homogeneza o gosto, atravs das modas culturais.

    Indstria Cultural e a cultura como mercadoria

    Para Adorno e Horkheimer, representantes da Escola de Frankfur1t, a indstria cultural a indstria da diverso. Ela no provoca construo de juzo crtico. O consumidor da indstria cultural distrado e, por isso, no est preocupado com a anlise das obras. No h uma preocupao profunda com a forma e o produto cultural tem como finalidade principal o entretenimento. No h o desejo de que a massa questione, e sim que ela simplesmente alimente o sistema, consumindo essa espcie de "pacote" que lhe "imposto". Adorno divide a obra de arte em dois tipos, a arte inferior, que aquela composta de elementos da cultura popular, e a arte superior, que a arte produzida

    1 A Escola de Frankfurt (Universidade de Frankfurt-am-Main na

    Alemanha) uma escola de pensamento marxista de Sociologia, Pesquisa Social e Filosofia que abordou criticamente aspectos contemporneos das formas de Comunicao e Cultura humanas. Deve-se Escola de Frankfurt a criao de conceitos como Indstria Cultural e Cultura de Massa.

  • e consumida por poucos. A arte superior provoca uma contemplao, uma relao perceptiva diferente. Tambm pode gerar uma reflexo no receptor, e ao ser traduzida para a massa, ela se transforma em arte inferior e perde o seu carter inovador. Um bom exemplo desse fenmeno, chamado banalizao da obra de arte foi o recente arranjo para orquestra e escola de samba da obra do compositor erudito Mozart. Banalizar as obras de arte significa subtrair da obra a sua aura, ou seja, aquele algo que a torna nica e rara (e por isso, de grande valor artstico). Foi o que ocorreu com a famosa obra de arte, a "Monalisa", que foi reproduzida em camisetas, chaveiros e rplicas pelo mundo inteiro. Ela perdeu a aura que a tornava nica, aparecendo nos mais inusitados locais. Explorada de vrias maneiras pela indstria do entretenimento, hoje ela at virou motivo de piada na Internet. A cultura vira um mero produto para consumo imediato. Depois de consumido, tal como qualquer mercadoria, descartado. A sociedade moderna possibilita a reproduo tcnica e muda a relao espectador - obra de arte. A indstria cultural no cria um sujeito crtico e sim um sujeito condicionado, alienado, passivo e facilmente manipulado.

    Estandardizao da cultura

    Da palavra inglesa standard, que significa padro, o conceito de estandardizao da cultura define que os consumidores, em virtude da Indstria Cultural, teriam passado a ter as mesmas necessidades e preferncias culturais em todo mundo, dos modos de fazer cultura s preferncias dos consumidores por produtos culturais. Grandes conglomerados de entretenimento ligado msica e ao cinema, principalmente, criam gostos semelhantes em culturas bastante distintas em suas preferncias.

    TRABALHO E PRODUO SOCIAL: AS FORMAS DE GESTO DA PRODUO SOCIAL

    Taylorismo

    denominado taylorismo o movimento de racionalizao do trabalho que se inicia no final do sculo passado e, efetivamente, difundido e implantado em todo o mundo no incio deste sculo. No incio do sculo XX, o engenheiro americano F. W. Taylor, foi um dos primeiros a utilizar um mtodo de organizao objetiva do trabalho, conhecido no Brasil, a partir dos anos 30, por Organizao Cientfica do Trabalho (OCT), ou simplesmente Taylorismo, obtendo grande repercusso na industrializao nascente. Muito jovem, preocupou-se com o esbanjamento de tempo, que significava para ele o tempo morto na produo. Assim sendo, ele iniciou uma anlise racional, por meio da cronometragem, de cada fase do trabalho, eliminado os movimentos muito longos e inteis. Desta forma, conseguiu dobrar a produo. Infelizmente, este mtodo, bastante lgico do ponto de vista tcnico, ignorava os efeitos da fadiga e os aspectos humanos, psicolgicos e fisiolgicos, das condies de trabalho. A cronometragem definiu para cada operrio, um trabalho elementar, desinteressante, uma vez que era parcelado, e que deveria ser realizado dentro de um tempo previsto pelos engenheiros. Taylor observava existir uma grande variedade de modos de operao e de ferramentas para cada atividade, considerando que os trabalhadores eram incapazes de determinar os melhores, por falta de instruo e/ou capacidade mental. Ao mesmo tempo, acreditava que os mesmos tinham uma certa indolncia, natural ou premeditada, na execuo de suas tarefas. Enfatizava, assim, ser de vital importncia que a gerncia exercer um controle real sobre o processo de trabalho, o que s poderia ser feito na medida em que a mesma

    dominasse o seu contedo, o procedimento do trabalhador no ato de produzir. Taylor reduziu o homem a gestos e movimentos, sem capacidade de desenvolver atividades mentais, que depois de uma aprendizagem rpida, funcionava como uma mquina. O homem, para Taylor, podia ser programado, sem possibilidades de alteraes, em funo da experincia, das condicionantes ambientais, tcnicas e organizacionais. A reduo do trabalho mental tambm enfatizada na medida em que a superespecializao da tarefa levou a simplificao do trabalho a um nvel elevado, desprovendo o indivduo de sua capacidade pensante.

    Fordismo

    Visando obter maior intensidade no processo de trabalho, Henry Ford retoma e desenvolve o taylorismo atravs de dois princpios complementares.

    - Integrao, por meio de esteiras ou trilhos dos diversos segmentos do processo de trabalho, assegurando o deslocamento das matrias primas em transformao;

    - Fixao dos trabalhadores em seus postos de trabalho. Deste modo, garantida que a cadncia de trabalho passa a ser regulada de maneira mecnica e externa ao trabalhador, a regulao do trabalho coletivo. No Fordismo, a segmentao dos gestos do taylorismo torna-se a segmentao das tarefas, o nmero dos postos de trabalho multiplicado, cada um recobrindo o menor nmero de atividades possveis. Fala-se, ento, de uma parcelizao do trabalho que se desenvolver igualmente no setor administrativo. O sistema taylorista-fordista percebe as organizaes como mq