Cultura Material

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Conceito da Einaudi

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    CULTURA MATERIALRichard Bucaille e Jean-Marie Pesez

    in: Enciclopdia Einaudi, Lisboa, IN-CM, 1989, vol.16 -Homo Domesticao Cultura Material, p.11-47.

    NDICE DO ENSAIO Nota introdutria1. Pr-histria da noo2. Histria da noo3. Cultura material e arqueologia4. Cultura material: tentativa de definio5. Cultura material e histria6. Cultura material e histria econmica e social7. Cultura material e histria das tcnicas8. Dimenses da cultura material Bibliografia

    Nota introdutria

    A noo e a expresso cultura material* (a no confundir com o conceitoequvoco de civilizao material*) esto relativamente difundidas na histria e,embora em menor grau, tambm em diversas cincias humanas. No parece, noentanto, que algum tenha delas alguma vez apresentado uma definio geral erigorosa: os autores recorrem a elas sem propor acepes precisas ou, se o fazem, de modo implcito, dentro da prpria temtica dos seus trabalhos e em funodeles. Esta noo e esta expresso nem sequer parecem, alis, ter sido objecto decontrovrsias apaixonadas, ao contrrio do que se observa com outrosinstrumentos intelectuais do mesmo gnero. Poder-se-ia portanto concluir que aideia de cultura material bvia e que, por isso, suprfluo dar-lhe uma definioexplcita; tambm se pode pensar, porm, que desta falta de explicitao possamsurgir ambiguidades e mesmo contra-sensos. Em resumo, pode-se para j dizerque, embora o seu significado global seja evidente, como muitas vezes acontececom as ideias e expresses que o investigador usa quotidianamente, a noo decultura material continua a ser, de facto, imprecisa e simultaneamente a estar longeda iluso de transparncia; apresenta-se, mesmo assim, carregada de um conjuntode conotaes bastante diversas, de que no se parece ainda ter feito nem umarecenso pormenorizada, nem um balano. Tendo em conta a prpria sorte daexpresso, parece portanto til e bastante urgente propor a sua definio damaneira mais clara e mais completa possvel.

    Se certo que a ideia de cultura material est difundida e implcita nos trabalhosque a ela se referem, neles que necessariamente teremos de procur-la, sem

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    tentar dar-lhe uma definio a priori, que no teria em conta, de modo exaustivo,significados concretos resultantes do uso que os autores fizeram de tal ideia.Concludo este inqurito prtico, interdisciplinar e cronologicamente regressivo,impe-se uma dupla constatao, cujos termos parecem reciprocamente excluir-se:a noo de cultura material, que, no interior da bagagem de noes das cinciashumanas, relativamente antiga, teve uma evoluo bastante longa para que nelase possam individualizar diversas etapas; no entanto, mesmo no seu evoluir, estanoo conservou sempre algumas caractersticas permanentes que constituem asua identidade e lhe garantem uma coerncia duradoura. Mais precisamente: nopassado, e por um perodo bastante longo cerca de um sculo , a ideia decultura material sofreu a influncia das rpidas e subtis modificaes episte-molgicas que assinalaram as cincias humanas contemporneas. Alis, elaprpria se identifica com essas modificaes, provando assim adaptar-se a umaconjuntura cientfica mutvel; ao mesmo tempo, porm, atravs das variaes destaltima, conserva sempre uma grande estabilidade epistemolgica, que demonstraas suas qualidades heursticas precoces e permanentes no pensamento do nossotempo. O paradoxo inerente a esta dupla constatao , por isso, apenas aparente,visto que, em ambos os casos, somos levados a concluir que existe uma grandecapacidade de adaptao da noo de cultura material s necessidadesintelectuais da nossa poca e, como ela se afirma de tal modo estvel esimultaneamente sempre adaptvel s exigncias do momento, bastante provvelque corresponda a uma necessidade constante nas cincias humanas, e que asatisfaa.

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    I. Pr-histria da noo

    Reconstruir a histria da noo permitir, por um lado, salientar que a suaflexvel continuidade epistemolgica , na realidade, o resultado de umalongussima e prudente estabilizao durante a qual, adquirindo direito decidadania, aperfeioou continuamente o seu objectivo; permitir, por outro lado,integr-la nos contextos sociolgicos e cientficos que lhe permitiram nascer e, maistarde, afirmar-se e desenvolver-se.

    As origens da noo so difceis de precisar; segundo parece, foi-se formandoprogressivamente no decurso da segunda metade do sculo XIX no seio dediversas correntes de pensamento e, mais tarde, como resultado da conjugaodessas mesmas correntes, cujos sistemas ideolgicos eram, na altura,convergentes. E conveniente distinguir cuidadosamente no s essas correntes,mas tambm os laos que mantm entre si e que as unem ao ambientesociocultural que as produziu, se se quiser compreender o contexto que ir permitiro aparecimento gradual da ideia de cultura material. Por volta de 1850 e nos anosseguintes, atravs de diversos trabalhos de grande ressonncia, OS desgniosepistemolgicos gerais que iro orientar a maior parte das produes cientficasposteriores, at aos nossos dias, alcanam um ponto de maturidade. No que serefere s cincias que mais nos interessam, recordemos que se desenvolve poressa altura com rapidez o estudo da pr-histria, sobretudo com Boucher dePerthes, que publica as Antiquits celtiques et antdiluviennes em 1847 e Del*homme antdiluvien em 1860; nesse mesmo perodo, Marx e Engels elaboramuma teoria da histria e da economia das sociedades elevada categoria decincia: o Manifesto do Partido Comunista (Manifest der kommunistischen Partei)data de 1848 e o primeiro volume de O Capital (Das Kapital) sai em 1867. Aantropologia social e cultural qual se pode tambm ligar o nome de Boucher dePerthes s se desenvolve na realidade um pouco mais tarde, aps algumasincertezas, com os mestres a quem deve a sua actual acepo e entre os quais nose podem deixar de citar Tylor, autor de Primitive Culture 1871, e Morgan, autor deAncient Society (1877). To-pouco se podem esquecer OS contributos de cinciasmais rigorosas como a paleontologia, com Darwin, cuja obra On the Origin ofSpecies de 1859, OU a fisiologia e a medicina, com Bernard.

    A simultneidade destas transformaes das cincias em ramos to diversos prova cabal da existncia de uma ruptura epistemolgica, como lhe chamaAlthusser, essa mesma que Comte cedo compreendera pelo menos desde 1826 e to bem formulara em termos do seu tempo. Longamente preparada no sculodas luzes e no incio do sculo XIX com Diderot, Rousseau, Buffon, Lamarck,Cuvier e tantos outros, favorecida pelas revolues polticas da poca, essa rupturaacompanha a revoluo industrial e a formao definitiva dos estados da Europaactual, aos quais dar o enquadramento ideolgico e cientfico de que asburguesias nacionais e o mundo contemporneo necessitam. Nos seus primeirostempos, este universo sociocultural novo provoca tambm, portanto, uma

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    renovao das cincias que corresponde a necessidades at a inslitas; desde ohomem antediluviano at atenta observao das sociedades que mais diferemda nossa, passando pelo marxismo, o evolucionismo biolgico, etc., todas as novasteorias cientficas colidem com os defensores da ordem antiga. Os inovadoresacabam, no entanto, por obter a confiana dos seus contemporneos, geralmentesob a forma de ctedras de ensino, nas quais substituem frequentementeprofessores tradicionalistas, a partir da completamente esquecidos. As nicasverdadeiras excepes a este tipo de consagrao social so Marx e Engels, quepunham precisamente em causa a nova ordem social. Este movimento geral, cujaamplitude no escapou aos contemporneos, tem, evidentemente, causas ecaractersticas comuns; , em grande parte, o resultado de uma nova problemticaideolgica que, opondo-se ao imobilismo e afirmao de absoluto exaltados peloconhecimento tradicional, restitui a cada coisa e a cada fenmeno um passado eum futuro diversos entre si e diversos do presente, sublinhando simultaneamente arelatividade e a contingncia de todo o objecto da cincia. Como objecto de cincia tambm considerado o homem, sobretudo pela cincia da pr-histria e pelaantropologia.

    Paralelamente, estas novas correntes de pensamento desencadeiam umametodologia adaptada ao seu objecto: a glosa e a exegse doutrinal desenvolvidacom base em referncias milenares como a bblia ou os filsofos gregos sosubstitudas pela experimentao prtica, o confronto de dados comprovveis, ademonstrao com prova, um esforo por estabelecer leis verificveis. Assim sechegou a um primeiro ponto fundamental para este tema: experimentaes,confrontos, provas, leis tm uma necessidade imperativa de objectos materiais e defactos concretos: Boucher de Perthes reflecte sobre os depsitos estratigrficos dosubsolo, sobre os utenslios de pedra, sobre as ossadas; Marx baseia-se numaimpressionante documentao econmica em que predominam quantidadesmensurveis de matrias-primas ou de manufactos, elementos monetrios, etc.; osantroplogos recorrem a uma escrupulosa observao etnogrfica das civilizaese dos objectos por elas produzidos e Darwin trabalha com animais reais. Passa-seportanto ao exame exigente de realidades tangveis; simplificando um pouco, podedizer-se que nessa altura que o pragmatismo tem uma enorme vantagem sobre oidealismo. Poderemos captar a ideia de cultura material neste extraordinrio fervorcientfico e nesta renovao epistemolgica? Parece que no: no existem aindanem a expresso nem a noo de cultura material , mas esta a ocasio em quese elaboram as condies sociolgicas e cientficas graas s quais elas mais tardesurgiro. Esta noo, a semelhana de muitas outras ideias dantes inimaginveis,passa a ser possvel a partir do momento em que, com todos os mestres j citados.muda a definio da finalidade e do objecto cientfico e se desenvolve umametodologia que pressupe o recurso ao concreto, ao tangvel, ao material. Assim,a ideia de cultura material que, de certo modo, es