Curadoria Digital

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1 [curadoria digital] e o campo da comunicação adriana amaral carolina frazon terra daniela bertocchi daniela osvald ramos elizabeth saad corrêa heitor ferraz tarcízio silva
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    12-Mar-2016
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Curadoria digital

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  • 1[curadoria digital]e o campo da comunicao

    adriana amaralcarolina frazon terra

    daniela bertocchidaniela osvald ramoselizabeth saad corra

    heitor ferraztarczio silva

  • ISBN: 978-85-7205-097-5

    Ttulo: Curadoria digital e o campo da comunicao

    Organizador: Elizabeth Nicolau Saad Correa

    Edio: 1

    Ano de Edio: 2012

    Local de Edio: SO PAULO

    Tipo de Suporte: E-BOOK

    Formato: PDF

    Pginas: 79

    Editora: ECA - USP

  • [curadoria digital]e o campo da comunicao1 edio

    Elizabeth Nicolau Saad Corra (org.)

    So PauloEscola de Comunicaes e Artes Universidade de So Paulo2012

  • Catalogao na Publicao Servio de Biblioteca e DocumentaoEscola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo

    C975 Curadoria digital e o campo da comunicao / Elizabeth Nicolau Saad Corra, organizadora -- So Paulo : ECA/USP, 2012. 79 p.

    ISBN: 978-85-7205-097-5

    1. Comunicao digital 2. Informao 3. Curadoria

    I. Corra, Elizabeth Nicolau Saad.

    CDD 21.ed. 004.6

  • Ficha TcnicaOrganizadora: Elizabeth Saad Corra Assistente editorial: Bianca Marder Dreyer Preparao, edio e normatizao de textos: Andr de Abreu de Souza, Lia Raquel de Almeida - Daniela Bertocchi - front end webApoio na normatizao de textos: Daniele C. Rodrigues e Mara BittencourtEdio de vdeo: Daniela Osvald RamosPromoo e divulgao: Carolina Frazon Terra

    Equipe LinkLabProjeto grfico e diagramao: Thiago Vasconcelos

  • SumrioApresentao

    Anotaes para a compreenso da atividade do Curador de Informao Digital, por Daniela Osvald Ramos

    O papel do comunicador num cenrio de curadoria algortmica de informaopor Elizabeth Saad Corra e Daniela Bertocchi

    Curadoria de informao e contedo na web: uma abordagem cultural por Adriana Amaral

    Usurio-mdia: o curador das mdias sociais? por Carolina Frazon Terra

    Curadoria, mdias sociais e redes profissionais: reflexes sobre a prticapor Tarczio Silva

    Da edio para a curadoria: o jornalista-curador na revista SamuelHeitor Ferraz em entrevista para Daniela Osvald Ramos

    Sobre os autores

    Sobre o COM+

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    9296

  • 7Apresentao[ ]

  • 8Apresentao A presena das redes digitais de informao e comunicao em nosso dia-a-dia ou mais simplesmente, a presena da internet incorpora em nossos relacionamentos e trocas de informaes uma sucesso de comportamentos, hbitos, linguajares, atitudes e aes que se transformam rapidamente em prticas sociais coletivas, ultrapassando os limites daquele do grupo de cidados conectados em rede digital.

    Falamos, portanto, de fenmenos da cibercultura que empurram a sociedade como um todo para estados de compartilhamento e cognio coletivos.

    Tem sido assim quando uma hashtag como #calabocagalvo se transforma em capa de revista; quando o churrasco de gente diferenciada salta do Facebook para uma verdadeira aglomerao no bairro de Higienpolis, SP; ou quando termos de significado especfico passam a identificar contextos e comportamentos ciberculturais os portais, a arquitetura, os memes, e tambm curadoria.

    O termo curadoria entrou na categoria dos ciber-significados de uma forma impactante e muito recentemente. O bem conhecido e consolidado curador das artes ou aquele curador gestor legal de patrimnios passaram a conviver com uma multido de curadores da informao, curadores digitais, curadores de festas, de musicas, de programaes, de coletneas literrias, entre outras novas funes que necessitam de cura para se concretizarem.

    Um dos primeiros questionamentos que um pesquisador do campo das mdias e comunicao digitais faz ao deparar-se com tal profuso de usos de um mesmo termo est na analise do seu potencial transformador das relaes sociais. Quando isso acontece no meio digital, nos vemos acelerando analises e olhares para entender as implicaes de um novo ciber-significado nos contextos da comunicao e da informao. Antes que o significado se perca.

    Foi esse o leit motif inicial que o COM+ - Grupo de Pesquisa em Comunicao e Mdias Digitais da ECA-USP Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo, elegeu discutir o tema curadoria digital como seu foco de pesquisa ao longo do ano de 2011. Um tema com poucas referencias cientificas, mas com muito uso social.

    Toda atividade de pesquisa acadmica no campo da comunicao s tem sentido se estabelece uma relao direta com vivencias e experincias. Especialmente se considerarmos o contexto cibercultural como o mais instigante campo de experimentaes para sustentar nossas reflexes conceituais. Para acompanhar a velocidade das relaes digitais h que se inverter o ritual tradicional do processo de pesquisa acadmica. H que se recorrer ao precioso campo das relaes cotidianas para posterior sustentao e validao conceitual.

  • 9 Assim ocorreu ao nos depararmos com as muitas curadorias presentes em nossos dilogos e relacionamentos digitais.

    O COM+, por meio de seus pesquisadores e colaboradores, iniciou sua investigao por conta da desagradvel sensao de que o termo curadoria estava sendo utilizado excessiva e deslocadamente pelos meios de comunicao, estimulados pela exploso curatorial no ciberespao. Ao longo do ano de 2011 procuramos discutir textos Curation Nation, de Steven Rosenbaun foi o primeiro deles; promover workshops as professoras Giselle Beiguelman, da FAU-USP e Maria Jos Baldessar, do Departamento de Jornalismo da UFSC trouxeram luzes sobre os usos contemporneos da curadoria; participar de eventos internacionais para entender de perto a aplicao da curadoria no mundo digital; iniciar pesquisas acadmicas em nveis de mestrado e doutorado; e, acima de tudo, procuramos sistematizar a diversidade que encontramos ao longo deste processo.

    Evidentemente, a discusso e a reflexo sobre curadoria digital no terminou e nem aponta para um consenso conceitual e emprico. um tema ainda em construo como cunha o jargo cibercultura.

    Mas, todo o processo vivenciado pelos pesquisadores do COM+ fez com que produzssemos este e-book Curadoria Digital e o campo da Comunicao como forma de estabelecer um dialogo mais amplo entre os muitos interessados no tema, alm de cumprir com um dos papis essenciais da pesquisa acadmica: a produo e a transmisso de conhecimentos e conversaes com a sociedade.

    A principal concluso a que o COM+ chegou ao longo desse perodo de pesquisa que curadoria digital ainda no possui uma compreenso uniforme de seus significados no campo da Comunicao. um tema multifacetado, com diferentes aplicaes no contexto digital. A segunda principal concluso a que chegamos foi a necessidade de manter em pauta essa discusso por meio deste e-book e sua fanpage no Facebook.

    A proposta de Curadoria Digital e o campo da Comunicao abriga entre textos e vdeo olhares diversos sobre o que seria curadoria no campo da comunicao digital, discutindo desde as origens do termo e caracterizao de sua atividade com o texto de Daniela Osvald Ramos; passa pela discusso da existncia de algoritmos que exercem a curadoria na rede, com o texto de Beth Saad e Daniela Bertocchi; Carolina Terra analisa como ocorre a curadoria nas mdias sociais; Adriana Amaral discute a curadoria sob o ponto de vista da cultura; e chegamos prxis curatorial vivenciada e explicada por Tarcizio Silva que contribui com a experincia das agencias e Heitor Ferraz que se coloca como um jornalista-curador em sua revista Samuel.

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    O COM+ espera que com a leitura deste e-book se desencadeie uma discusso mais ampla, mais coletiva e mais dialgica na construo de um conceito mais uniforme acerca da curadoria, ou at mesmo na desconstruo dos poucos consensos ora em uso.

    Nossa inteno questionar. Ento, caro leitor, o que curadoria para voc? Estamos no Facebook para conversar!

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    Anotaes para a compreenso da atividade do Curador de Informao Digital[ ]

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    Anotaes para a compreenso da atividade do Curador de Informao DigitalResumo: Realizamos um mapeamento exploratrio e inicial sobre as origens do termo curador na cultura, tendo como objetivo apontar para a necessidade de uma reflexo cuidadosa ao invs de uma transposio rpida de termos de diferentes reas (Arte-Comunicao). Tambm apontamos caminhos de pesquisa interdisciplinares para o desenvolvimento de consistncia terica sobre esta nova rea de atuao.

    Palavras-chave: curador, curadoria, direito romano, arte contempornea.

    Daniela Osvald Ramos

    Jornalista e Doutora em Interfaces Sociais da Comunicao na Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo. Professora no curso de Jornalismo e na Ps-Graduao da Faculdade Csper Lbero. Colaboradora no curso de Ps-Graduao Comunicao e Semitica da Universidade Anhembi Morumbi.

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    Introduo Ao falarmos de Curadoria da Informao, especialmente no meio digital, pressupomos que vivemos em uma sociedade na qual a informao um bem que tem algum valor. Corra & Bertocchi (2012) contextualizam bem a questo ao citarem os termos (...) excesso informativo, ansiedade de informao, dieta informativa, por sua vez referenciando autores que tratam do tema. Ou seja, no momento em que a informao passa a ser excessiva, o fato de algum nos dizer preste ateno nisso e no naquilo d a este algum o status do que est se chamando atualmente no campo da comunicao como curador. As informaes que circulam nas mdias digitais at podem ser consumidas gratuitamente, mas certamente as horas que passamos tentando dar sentido exploso crescente de dados organizados em diferentes formatos, como e-mails, sites, aplicativos, portais, redes sociais e mapas, entre outros, tem alto custo na nossa economia diria de tempo.

    O outro cenrio complementar o que Beiguelman (2011) e Rosenbaum (2011) apontam sobre a exploso de dados. Hoje, so mais de cinco exabytes (um exabyte = um bilho de gigabytes) de informao emitidos digitalmente a cada dois dias. Como sabemos, dados podem no gerar informao e a que entraria o papel do curador de informao, proporcionando contexto e percursos. Weisgerber (2012) define os processos da etapa de curadoria da informao digital em:

    1) Achar: identificar um nicho; agregar 2) Selecionar: filtrar; selecionar: qualidade / originalidade / relevncia 3) Editorializar: contextualizar contedo; introduzir / resumir (no simplesmente postar); adicionar a sua perspectiva; 4) Arranjar / formatar: classificar contedo; hierarquizar; leiautar contedo; 5) Criar: decidir por um formato: Paper.li, Scoop.it, Storify, Storiful, Twitter curation; creditar fontes; 6) Compartilhar: identifique sua audincia; qual mdia eles usam? 7) Engajar: seja o anfitrio da conversao; providencie espao; participe; anime; 8) Monitore: monitore o engajamento; monitore a liderana da conversao; melhore.

    A autora cita os formatos para a curadoria de informao, que so as interfaces usadas para organizar o contedo curado.

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    No entanto, a que entra tambm o problema da definio do termo e do ofcio do curador de informao. A definio de etapas citada acima uma dentre vrias e temos novamente o caso de transposio de um terno usado em outra rea, no caso, na Arte, para o campo da Comunicao. Tradicionalmente identificamos o ofcio do curador como o do profissional que organiza obras de arte em um museu ou galerias transformando-as em exposies, ou seja, em um percurso socialmente legitimado. Como sabemos, obras de arte so bens culturais muitas vezes extremamente valiosos. Um uso anterior do termo na histria da cultura pouco citado no Direito Romano na figura do curator bonorum, que criou as bases para a moderna lei de falncia. H tambm o caso do cura catlico, que cuidava espiritualmente da parquia. O dicionrio Houaiss (2012) informa que ele era o saber e a moralidade do lugar e d a etimologia da palavra: lat. cra,ae cuidado, direo, administrao, curatela (em linguagem jurdica), tratamento (em linguagem mdica), guarda, vigia, objeto ou causa de cuidados ou amor.

    Parece claro que a origem do termo nos remete ao cuidado original com determinado bem, mas queremos indicar algumas direes para uma explorao que certamente deve ser mais detalhada para que possamos entender a estrutura, ou seja, a modelizao que o curador confere ao texto artstico e ao texto da legislao romana para posteriormente entendermos com mais propriedade como a curadoria pode ser entendida como uma operao de modelizao da forma cultural de bases de dados.

    Caminhos para uma investigao sobre a origem do termo Na Histria da Arte

    Se o contexto expositivo remonta criao, no Renascimento florentino, da Galeria Uffizi, sugere-se que apenas no sculo 19, com a recusa de Courbet em alinhar suas pinturas com as de outros autores e gneros, haja um marco moderno da curadoria. Com o Pavilho do Realismo (1855), o artista criou o contexto de observao de suas obras. J se tratava, ento, da recepo da obra de arte fator decisivo na atividade do curador.

    Nota-se que uma possvel linha de tempo da histria da curadoria deveria levar em conta tambm os estudos de recepo. Outro caminho paralelo a pesquisa sobre o desenvolvimento e as vinculaes do curador de acordo com a histria da cultura. Segundo Tadeu Chiarelli,

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    Contemporaneamente, o curador, que muitas vezes no um s, mas uma equipe, como atestam os expedientes da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel, assume a funo de mediador, como diz Rejane Cintro:

    Contemporaneamente Bourriaud (2009) chama a ateno para o que ele intitula como arte da ps-produo e em como o prprio artista passa a ser um curador da cultura, evidenciando uma operao de reprogramao no mundo (ibidem, pp. 7-8):

    (...) a princpio, existiriam dois tipos [para curador]: o ligado diretamente a uma determinada instituio museolgica normalmente algum formado nas reas de Histria ou Teoria da Arte, e o curador independente um profissional ligado s reas de Histria ou Crtica de Arte que concebe exposies autnomas, sem estar necessariamente vinculado a uma instituio (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SO PAULO, 2008).

    Eu vejo o curador como a pessoa que vai intermediar a leitura da obra, possibilitando que ela seja compreendida dentro de um determinado contexto. O curador vem com uma ideia, tem um conceito que permite reunir certas obras. Em minha opinio, esse conceito deve estar claro para o pblico [...]. O pblico leigo, que a grande maioria, precisa de uma intermediao, que no precisa necessariamente acontecer por meio do educador (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SO PAULO, 2008, p. 121).

    Desde o comeo dos anos 1990, uma quantidade cada vez maior de artistas vem interpretando, reproduzindo, reexpondo ou utilizando produtos culturais disponveis ou obras realizadas por terceiros. Essa arte da ps-produo corresponde tanto a uma multiplicao da oferta cultural quanto de forma mais indireta anexao do mundo da arte de formas at ento ignoradas ou desprezadas. Pode-se dizer que esses artistas que inserem seu trabalho no dos outros contribuem para abolir a distino tradicional entre produo e consumo, criao e cpia, ready-made e obra original. J no lidam com uma matria-prima. Para eles, no se trata de elaborar uma forma a partir de um material bruto, e sim de trabalhar com objetos atuais em circulao no mercado cultural, isto , que j possuem uma forma dada por outrem. Assim, as noes de originalidade (estar na origem de...) e mesmo de criao (fazer a partir do nada) esfumam-se nessa nova paisagem cultural, marcada pelas figuras gmeas do DJ e do programador, cujas tarefas consistem em selecionar objetos culturais e inseri-los em contextos definidos.

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    Curioso que justamente o gesto apontado pelos pesquisadores de comunicao como o ofcio do curador de informao selecionar objetos culturais e inseri-los em contextos definidos; no caso troca-se objetos culturais por dados ou informao; seja muito parecido com o que o crtico aponta como a arte da ps-produo, termo usado no cinema, na TV e no vdeo para uma srie de ajustes tcnicos (montagem, insero de legendas ou udio, etc.) realizados no audiovisual aps sua primeira edio. Como conjunto de atividades ligadas ao mundo dos servios e da reciclagem, a ps-produo faz parte do setor tercirio em oposio ao setor industrial ou agrcola, que lida com a produo das matrias-primas (ibidem, p. 7). Desconfia-se que h muito mais para se entender no que h de mais recente na reflexo do campo da Arte Contempornea sobre o que significa a curadoria hoje e em como este ofcio se modificou e foi modificado pelos prprios artistas, ou corre-se risco de, novamente, a Comunicao importar um conceito j falido e aplic-lo ipsis litteris a uma j fadada reflexo que surge sem a marca do dinamismo tpico da cultura.

    Antes da Arte, no Direito Romano Muito antes disso, porm, encontramos na dissertao de mestrado de Groff (2010), sobre direito propriedade a figura histrica no Direito Romano do curator bonorum. Em 435 a.C (ibidem, p. 4), em Roma, censores, que recenseavam tribos territoriais e tomavam declaraes do pater famlias, responsvel mximo pelas pessoas e coisas sob seu poder, com a misso de verificar o patrimnio. Nessa poca, o patrimnio no estava acima da vida da pessoa, ao contrrio. Importava tanto quanto (ou menos) a vida do indivduo. Assim, no direito moderno que os bens do devedor passam a responder pela dvida e no o castigo do seu corpo. Isso se deve influncia da filosofia grega, que conferiu carter humanitrio ao Direito Romano. No toa; isso atenderia melhor os fins capitalistas (ibidem, p. 7).

    O curador conorum protagonista do que se chama no Direito Romano clssico da bonorum venditio, na qual a venditio venda, (...) referia-se alienao forada da totalidade do patrimnio do devedor (idem). O curator era figura de destaque neste contexto, pois no necessariamente fazia parte dos credores de determinado patrimnio, mas podia agir como dono dos bens que lhe caiam nas mos. Assim, o curador protegia o patrimnio de uma dilapidao e cuidava dos interesses do devedor. Ele tambm a figura responsvel pela evoluo da Execuo: Curadoria (curatela) e execuo patrimonial. Cuida do patrimnio, ora em interesse do credor, ora do devedor. (ibidem, p. 10).

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    (...) atos de conservao, administrao do patrimnio do devedor, a satisfao dos crditos que se mostrassem mais gravosos, a defesa do devedor nas aes dos credores e a venda de objetos que se pudessem perder. Mas, entre todas as funes, destaca-se a de evitar que a bonorum venditio fosse consumada.

    O curator possui uma atividade delicada (...) para o qual se requer habilidade, capacidade e idoneidade. Isso porque, se para os romanos o patrimnio em si interessava tanto ou mais do que a prpria vida, e se as coisas eram vistas de forma unitria, e no separadamente, sob esses aspectos o curator bonorum cumpria o papel mais importante de todo o procedimento executivo.

    Sua atuao no configura representao de nenhuma das partes e nem mandato: ela implica, em verdade, defesa do interesse pblico e auxlio justia. Por isso sua relao com os credores e o devedor indireta, e a curadoria que lhe incumbe voltada ao patrimnio.

    Ao cuidar, por vezes, do interesse do devedor, e, por outras, do interesse dos credores, o curator assegura que o devedor no sofrer mais que o necessrio para que a dvida seja paga e, ainda, que os credores no tero maiores prejuzos alm daqueles intrnsecos promoo da cobrana, o que ele faz tendo por objetivo final cuidar das coisas e da integridade do fundo por elas composto. Colidentes os interesses, o curator se interpe entre as partes e proporciona, na medida do possvel, a preservao dos direitos de todos os envolvidos. (...) o trabalho de evitar a venda universal do patrimnio (...) o ponto de partida do desenvolvimento da moderna execuo patrimonial (ibidem, pp. 17-18).

    A est a origem de tudo que modernamente se convencionou serem caractersticas do curador de arte: conservar e administrar (no museu), habilidade, idoneidade indiscutvel na sua rea de atuao e capacidade de relacionamento e mediao, j que precisa prestar contas ao pblico. Melhor dizendo, uma das caractersticas do seu trabalho um servio ao pblico. Podemos dizer ento que as origens do termo e das consequncias do seu uso na cultura esto enraizados no Direito Romano, ao contrrio do que se comumente pensa, de que o termo comeou a ser utilizado na Igreja Catlica e, depois, nos museus.

    Dentre os deveres do curador, encontramos: (ibidem, p. 16)

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    Sua atuao no configura representao de nenhuma das partes e nem mandato: ela implica, em verdade, defesa do

    interesse pblico e auxlio justia.

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    Consideraes finais guisa de concluso queremos apontar algumas linhas de investigao para a pesquisa da curadoria da informao digital levando em conta o dinamismo da cultura:

    DXjgVYdgiZbVXVgVXiZghi^XVYZbZY^VYdgZZhhVjbVVi^k^YVYZXZcigVacVXjaijgVcontempornea. Talvez no se trate mais de produzir novas formas, mas arranj-las em novos formatos, como os artistas contemporneos, que reprogramam o fazer artstico e, assim, (...) no compem, mas programam formas: em vez de transfigurar um elemento

    bruto (a tela branca, a argila), eles utilizam o dado. (Bourriaud, p. 13).6cZXZhh^YVYZYVeZhfj^hVgZVabZciZ^ciZgY^hX^ea^cVg!djhZ_V! ^gdcYZdVhhjcidYZorigem est, neste caso, a Arte Contempornea. Os pesquisadores de comunicao precisam estar cientes de que o curador de arte hoje, muitas vezes, no cura objetos materiais, mas performances e processos, o que Nicolas Bourriaud chama de esttica relacional: (...) a obra de arte pode consistir num dispositivo formal que gera relaes entre pessoas, ou nascer de um processo social fenmeno que apresentei com o nome de esttica relacional cuja caracterstica determinante considerar o intercmbio humano como objeto esttico em si. (2009, p. 33)

    D\ZhidXjgVidg^VajbV^bedgiVciZbdYZa^oVdcVXjaijgVZVYfj^gZeVeZaXZcigVano contexto da sociedade informativa. Por isso, a informao um bem do patrimnio individual imaterial contemporneo.

    6eZhfj^hVYdh[dgbVidhYZXjgVYdg^VYV^c[dgbVd!fjZegdXjgVbYVg[dgbVVdfjZj tem forma, operao que podemos falar superficialmente como uma reformatao de formas e uma reescrita de formas (temos em mente os formatos digitais), trazendo tona a importncia do prefixo re na forma cultural das bases de dados. Ou seja, tratamos de um assunto complexo que requer desenvolvimentos que aqui pretendemos somente anunciar.

    Grifos do autor.

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    Referncias BibliogrficasAVELINO, Gilmar. Direito falimentar. Disponvel em: . Acesso em: 4 mar. 2012.

    BOURRIAUD, Nicolas. Ps-produo. Como a arte reprograma o mundo contemporneo. So Paulo: Martins Fontes, 2009.

    BEIGUELMAN, Gisele. Information curation | Curadoria de informao. Disponvel em: . Acesso em: 4 mar. 2012.

    _____________. Links compilados em Delicious.com. Disponvel em: . Acesso em: 4 mar. 2012.

    ____________. Curadoria de Informao. Palestra realizada na srie Encontros com o futuro, do grupo de pesquisa COM+. 21 jun. 2011, Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo, 2011.

    CORRA, Elizabeth Saad; BERTOCCHI, Daniela. O algoritmo curador o papel do comunicador num cenrio de curado-ria algortmica de informao. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Cibercultura do XXI Encontro da Com-ps, na Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, de 12 a 15 de jun.o 2012.

    DICIONRIO HOUAISS. Disponvel em: < http://houaiss.uol.com.br/>. Acesso em: 7 maio 2012.

    GROFF, Fbio de Carvalho. Contribuio ao estudo da curadoria de bens na execuo: o curator bonorum da bonorum venditio. Dissertao de mestrado, Faculdade de Direito do Largo So Francisco, Universidade de So Paulo, 2010.

    INTERLENGHI, Luiza. Sobre o ofcio do curador. In: Revista Artes e Ensaios (2010). Disponvel em: Acesso em: 4 mar. 2012.

    NEGRISOLLI, Douglas. Do ofcio do curador. Disponvel em: . Acesso em: 4/3/2012.

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    Referncias BibliogrficasOAB (1890). Das fallencias. Dos meios preventivos de sua declarao. Volume I. Disponvel em: . Acesso em: DD ms AAAA. RAMOS, Alexandre Dias. Sobre o ofcio do curador. Porto Alegre: Editora Zouk, 2010.

    ROSENBAUM, Steven. Curation nation. Why the future of content is context. Nova York: McGrawHill, 2011.

    SOARES, Ana Ceclia. Ofcio de curador. Disponvel em: . Acesso em: 4 mar. 2012.

    WEISGERBER, Corinne. Building thought leadership in an age of curation (2012). Disponvel em: . Acesso em: 7 maio 2012.

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    O ALGORITMO CURADORO papel do comunicador num cenrio de

    curadoria algortmica de informao[ ]

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    O ALGORITMO CURADORO papel do comunicador num cenrio de curadoria algortmica de informao4

    Resumo: A recente cena das redes digitais tem indicado com nfase a atividade de curadoria e a prpria figura do curador como sada ao problema da abundncia informativa em rede. Argumentamos, contudo, que na atualidade a curadoria da informao em ambientes digitais tem se manifestado mais como um procedimento automtico algortmico que propriamente humano. Com base na reviso da literatura, reiteramos, entretanto que o processo curatorial configura-se como uma atividade inerente ao campo da Comunicao. O comunicador tem competncias para assumir papis de seleo, filtragem, agregao e, mais importante, remdiao de contedos para partilha em rede, inclusive com auxlio de algoritmos.

    Palavras-chave: Comunicao digital; Curadoria de informao; Algoritmo; Perfil do comunicador.

    Elizabeth Saad Corra5 Daniela Bertocchi6

    4 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho CIBERCULTURA do XXI Encontro da Comps, na Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, de 12 a 15 de

    junho de 2012.

    5 Elizabeth Saad Corra, Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editorao da Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo e do

    PPGCom-ECA. Coordenadora do curso de especializao DIGICORP e do grupo de pesquisa COM+. Email: [email protected]

    6 Daniela Bertocchi, doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Cincias da Comunicao da Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo.

    Mestre em Ciberjornalismo pela Universidade do Minho, Portugal (2007). Pesquisadora do grupo de pesquisa COM+. Site: www.bertocchi.info Email: [email protected]

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    Information is to data what wine is to a vineyard: the delicious extract and distillate.

    David Weinberg (2012)

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    1. Abundncia informativa Excesso informativo, ansiedade de informao, dieta informativa (Turkle, 2011, p. 242; Pariser, 2011; Johnson, 2012) so expresses que comearam a surgir na dcada de 1970 do sculo passado7 e, desde ento, passaram a ser incorporadas no discurso de pesquisadores da comunicao e, cada vez mais, nas conversas de no especialistas no assunto. Reflexo de um momento em instituies cientficas acadmicas, escolas, bibliotecas, museus, organizaes, e corporaes de toda espcie -- e no somente os meios tradicionais de informao e comunicao -- partilham dados digitais na rede, multiplicando a oferta informativa para seus indivduos.

    Constatam-se uma abundncia informativa e uma disseminao de mltiplas narrativas sobre os acontecimentos do mundo, criadas a partir de distintas fontes, e apresentadas em formatos para todos os gostos. Contudo, inexiste a garantia de transformao de dados em informao e tampouco estes em conhecimento por parte do homem8. O especialista em mdia Neal Gabler (2011) chega a afirmar que a sociedade vive na era da ps-ideia, ou seja, os indivduos se tornaram grandes acumuladores de fatos e informaes, mas j no conseguem desenvolver um pensamento crtico e profundo sobre um fato. O comentarista de mdia declara que a era digital nos libertou para a ignorncia bem informada.

    Weinberger (2012) identifica neste cenrio de information overload uma crise de conhecimento. Para o autor, as informaes permaneciam clara e concretamente localizadas (em livros, bibliotecas, jornais) e permitiam a construo do conhecimento por meio de trabalho duro de estudiosos que se tornavam, por consequncia, especialistas em assuntos. No contexto digital, vive-se o oposto, segundo o autor: as informaes encontram-se espalhadas desordenadamente; so produzidas por amadores, plagiadores e usurios que consideram um bom contedo aquele que possui o maior nmero de polegares indicando curtir. Ainda assim, reitera, os meios de comunicao, as empresas, os governos e a cincia se beneficiam dos dados disponveis na rede, sobretudo por conta das contribuies de leitores que, ao colaborar com o processo, tornam os dados muito mais encontrveis e compreensveis por outros tantos leitores. (2012, loc. 126-132).

    Ou seja, a crise do conhecimento nasce numa poca de exaltao do conhecimento. O conhecimento em rede, embora menos acurado, torna-se mais humano:

    7 Alvin Toffler introduziu a idia de excesso de informao em 1970 com a publicao de seu livro O Choque do Futuro.

    8 Referenciamos aqui a famosa pirmide DIKW (dado, informao, conhecimento e sabedoria) criada em 1988 pelo pesquisador Russell Ackoff.

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    Hoje, conhecimento propriedade da rede, e esta engloba negcios, governos, mdias, museus, colees curadas e mentes comunicativas. Em algumas circunstncias, o conhecimento como propriedade da rede tem mais significado como um tipo de saber do que aquele das multides. E, como veremos adiante, no apenas em determinadas circunstncias que grupos so mais inteligentes que seus membros em separado. Ou seja, a mudana na infraestrutura do conhecimento est alterando sua forma e natureza. Na medida em que o conhecimento ocorre em conexo, a pessoa mais inteligente de uma sala no aquela sentada nossa frente, e tambm no o conhecimento de todos daquela sala. A pessoa mais inteligente da sala a prpria sala: a rede que agrega pessoas e ideias e as conecta quelas que esto do lado de fora. Isso no significa que a rede est se tornando um superc-rebro. o conhecimento que est se tornando inextricvel literalmente, algo impensvel rede. Nossa tarefa saber como construir salas inteligentes, ou seja, como construir redes que nos tornem mais inteligentes, e se isso for feito de forma inadequada, a rede pode fazer de ns pessoas cada vez mais ignorantes. Conhecimento em rede menos preciso, porm, mais humano (Weinberger, 2012, loc. 139-148, grifos nossos e traduo livre).

    2. Curadoria como soluo Como resposta ao problema que a dadosfera (Beiguelman, 2011) nos apresenta, a saber, o gerenciamento de uma grande quantidade de dados na rede e em rede, observamos a retomada de um conceito j bastante conhecido o de curadoria agora adaptado ao contexto digital. Nessa paisagem, a noo gera desdobramentos tais como cura-doria de informao, curadoria de contedo, curadoria de conhecimento e curadoria de dados, quase sempre colocando como protagonista os seres humanos capazes de filtrar informaes e reorganiz-las para uma pliade de usurios (Rosenbaum, 2011).

    Argumentaremos, contudo, que atualmente temos muito mais uma curadoria algortmica de informao do que propriamente humana. Falta ao comunicador da era digital se posicionar diante desse novo panorama curatorial explorando competncias de re-mediao, agregao de audincias, minerao de dados, inteligncia distribuda, agenciamentos e adio de valor s informaes.

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    O conhecimento em rede, embora menos acurado, torna-se mais humano.

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    2.1. Os significados de curadoria Todo processo de inovao de ruptura como tem sido o caso das Tecnologias Digitais de Informao e Comunicao (TICs) e a sucesso de plataformas e sistemas decorrentes traz consigo modos de apropriao pela sociedade que, geralmente, passam pela adoo transversal de conceitos diversos j vigentes uma maneira de facilitar a apreenso do novo por todos9.

    Temos assistido a tal dinmica no cenrio das mdias digitais quase como rotina. Termos como portal, interface, memes, viralizao, mdias e redes sociais, curadoria, so alguns dos exemplos recentes.

    Sabemos que parte da construo do conhecimento social recorrer a tal dinmica de emprstimos conceituais, porm percebemos tambm que, devido atualidade e fora que o mundo digital assume em nosso dia-a-dia, no so raras as inadequaes conceituais existentes. Ao gerar um iderio simplificado para o pblico em geral, corre-se o risco de promover uma fixao errnea de termos ou, ainda, como consequncia, temos o perigo de oferecer um baixo aproveitamento do potencial que tal conceito adaptado cena digital poderia assumir.

    Consideramos que assim tem ocorrido recentemente com o termo curadoria de informao.

    Nossas afirmaes no surgem apenas a partir de percepes empricas de quem atua longamente nesse ambiente. Recorremos ao conceito de incerteza ontolgica para sustentar nossa proposta. Segundo Lane e Maxfield, 2005 (apud Fox, 2012, on-line) a incerteza ontolgica existe quando os indivduos tm uma percepo sobre a inovao tecnolgica de ruptura baseada em suas diferentes vises de mundo e no na proposta de inovao em si. Essas variaes esto ligadas s questes de gnero, personalidade, cultura, experincias, processos organizacionais ou outras influncias externas.

    Mas o que curadoria e quais as incertezas ontolgicas a ela associadas?

    Em sua etimologia, o termo curadoria est vinculado ao ato de curar, zelar, vigiar por algo: um conceito originalmente relacionado aos campos do Direito e das ordens monsticas. Com a evoluo social o termo passa a relacionar-se com o campo das artes, dos museus e de seus respectivos acervos.

    9 A dinmica da inovao por ruptura na indstria digital bastante explorada por Clayton Christensen como uma srie de livros como The Innovators Dilema,

    The Innovators Solution, entre outros. Para o autor, uma inovao de ruptura ocorre quando um produto ou servio criam um novo mercado e uma nova forma de valorao. (Christensen, 1997)

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    As representaes de curadoria vigentes vinculam-se ao humana e, ampliadas para qualquer contexto social, referem-se sobremaneira s atividades de seleo, organizao e apresentao de algo a partir de algum critrio inerente ao indivduo curador. Mais adiante nessa evoluo conceitual vemos o termo vinculado atividade de mediao, qual seja, de um especialista que executa conexes entre grupos, pblicos, pessoas com propostas, objetos, exposies ordenados a partir de modelos de ordem definidos pelo mediador (aqui curador).

    Na medida em que ocorre a expanso da sociedade digitalizada, o termo curadoria passa a ser utilizado para uma diversidade de aes que envolvem organizao de dados a partir de critrios ou recortes. Nesse contexto, a curadoria de informao assume uma ideia muito mais de organizao que de inaugurao de uma nova proposta ou viso de mundo.

    Recorrendo ao Google, observamos a exploso de uso do termo a partir do ano de 2010. Quantitativamente, em fevereiro de 2012 o Google registrou aproximadamente 1.230.000 resultados para o termo curadoria em Portugus e 7.450.000 em Ingls; considerando o termo curadoria da informao registrou 1.0038.000 resultados em Portugus e mais de 4.750.000 em Ingls. A diversidade de associaes semnticas ligadas ao termo revela a amplitude de sua apropriao: curadoria de contedo, cuidador de informao, filtrador, curadoria digital, editorial, social, jornalstica, educativa, do conhecimento, do consumidor, de comunidades, entre outros. Alm disso, encontramos um journal indexado International Journal on Digital Curation10 ; e um mestrado em Curadoria Digital na Universidade de Lule, na Sucia11 que prev a formao em conceitos e modelos de preservao, conservao e atividades similares, a interoperabilidade e acesso a dados, normas e metadados, a manuteno de sistemas de curadoria e o desenvolvimento de organizaes curatoriais.

    Sob o ponto de vista do campo da Comunicao, apreciamos uma imagem de abundncia informativa, alavancada pelas redes digitais, e, ao mesmo tempo, o surgimento, na prpria rede, de propostas curatoriais organizadoras. Aes essas exercidas na atualidade predominantemente por processos automatizados que assumem o papel de filtradores dessa abastana informativa. Como pano de fundo, tem-se os diversos aspectos de construo de conhecimento individual, coletivo e social que no contexto atual requerem uma interveno mediadora (que mais adiante veremos como re-mediadora).

    10 http://www.ijdc.net/

    11 http://www.masterstudies.com/Masters-Degree/Engineering-and-Technology/Computer-Science-Information-Technology-(IT)/MSc-in-Information-Technology-

    (IT)/Sweden/Lule-University-of-Technology/Master-Programme-in-Digital-Curation/)

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    Pressupomos que exatamente na interseco entre a fartura informativa digitalizada, a disponibilidade de processos organizadores e a construo do conhecimento e formao de opinio da sociedade que se coloca o papel do comunicador como curador da informao.

    2.2 O algoritmo curador Seja na web ou atravs de aplicativos para tablets e outros dispositivos mveis observa-se uma significativa presena de solues algortmicas para lidar com a profuso informativa. O buscador Google (e outros buscadores mais segmentados12) e a rede social Facebook so baseados em algoritmos curadores. Os sistemas agregadores, baseados na organizao de fluxos informativos em RSS, utilizam um algoritmo simplificado, sendo o GoogleReader o melhor exemplo. Os sistemas de recomendao como o da loja Amazon, ou dos sites de msica, como LastFm e Spotify, tambm se utilizam de algoritmos simples. E h os prprios algoritmos criados para sustentar modelos de negcio e que se transformaram em produtos especficos baseados em feeds pessoais e/ou tags definidas pelos usurios: o caso do Zite e do Flipboard, revistas personalizveis, nicas para cada usurio e exclusivas, por ora, para tablets; do Paper.Ly que organiza informaes a partir da navegao dos usurios nas redes sociais; do Scoop.it que cria contedo a partir de uma temtica definida pelo usurio; o Storify que constri narrativas sociais e viraliza o resultado obtido; o Social Pulse da agncia de notcias Reuters que apresenta o noticirio mais tuitado e retuidado por uma rede de influenciadores; o Washington Post Social Reader, agregador de notcias igualmente personalizado; e as ferramentas de organizao da informao por meio de imagens, trazendo a inovao do aprendizado social na construo de narrativas visuais, a exemplo do Pinterest e do WeHeartIt.

    Fontes menos acadmicas ou de outros campos do conhecimento como a Engenharia da Informao, colocam na lista de ferramentas de apoio curadoria sistemas publicadores de contedo, os CMS (content management systems). Com isso, publicadores de blogs como o Wordpress e o Tumblr, publicadores personalizados (como Joomla e Drupal), ou publicadores proprietrios criados por empresas informativas entram nessa lista.

    Referenciamos apenas os exemplos mais populares daquilo que denominamos ferramentas de organizao da abundncia informativa por meio de algoritmos. O que temos a refletir sobre essa disponibilidade o seu forte papel curatorial, j intrnseco s ferramentas, e a noo de que todo algoritmo produto de um processo humano, com critrios de escolha previamente definidos com base em algum contexto de oferta da informao,

    12 Incluem-se, entre outros, nessa categoria buscadores como o Addict-o-matic que privilegia a busca do buzz momentneo nas redes sociais; o DuckDuckGo que

    busca contedos em sites de crowdsourcing; e o Icerocket que busca em tempo real na rede.

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    conforme explicado a seguir.

    O termo algoritmo uma palavra latinizada, derivada do nome de Al Khwarizmi, matemtico rabe do sculo 19. Na computao, um algoritmo um procedimento criado para cumprir uma tarefa especfica (Skiena, 2008, p. 3).

    Trata-se de um passo-a-passo computacional, um cdigo de programao, executado numa dada periodicidade e com um esforo definido. O conceito de algoritmo permite pens-lo como um procedimento que pode ser executado no apenas por mquinas, mas tambm por homens, ampliando seu potencial de acuidade associada personalizao.

    Deste modo, desenhar um algoritmo elaborar uma srie de instrues com a finalidade de resolver um problema. No caso da timeline social do Facebook, o algoritmo utilizado especialmente para ordenar elementos (dados sobre outros usurios) por critrio de importncia (definida pelo programador da empresa). Para o Google, o algoritmo busca resolver o problema da compreenso dos dados e retorno de ocorrncias afins. Para Zite ou Flipboard, o objetivo produzir uma revista digital apenas com contedos relevantes para aquele usurio. Para a Amazon, o objetivo do algoritmo ampliar o leque de sugestes para a compra de produtos. Nos demais exemplos, o uso de algoritmos ocorre na definio das fontes de informao. Ou seja, no cenrio da comunicao digital, a rigor, o algoritmo trabalha com a misso de expurgar informaes indesejveis, oferecendo apenas o que o usurio julgaria eventualmente o mais relevante para si, conforme um modelo de negcio definido ou de acesso s informaes tambm previamente determinado pelo proprietrio do algoritmo.

    Como qualquer criao humana, o algoritmo pode ser mais ou menos elegante, mais ou menos original. No campo das cincias da computao, um bom algoritmo aquele que correto (certo para o problema), eficiente (resolve o problema mais rapidamente e facilmente possvel) e fcil de ser implementado no sistema computacional (Skiena, 2008).

    A ligao entre algoritmo e capacidade de deciso (decidability) bastante clara para os profissionais de computao: um algoritmo decide caminhos para cumprir sua meta. Para tanto, pode conter ou no inteligncia artificial. Os que a contm, assimilam novas informaes apreendidas de seus usurios, aprendendo padres de comportamento, e se tornando cada vez mais sofisticados.

    A curadoria realizada pelo algoritmo pode ser inserida em um campo de estudo emergente, a sociologia do algoritmo (Anderson, 2011, p. 529). Ao falar sobre jornalismo de algoritmos, Anderson afirma que o algoritmo est desempenhando um papel sociotcnico cada vez mais importante na mediao entre jornalistas, audincia e produtos de mdia, e esta mediao tem implicaes tanto sociolgicas como normativas.

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    nesse ponto que colocamos mais uma reflexo para a configurao de um comunicador-curador: o estabelecimento de uma relao entre sofisticao do algoritmo e correspondente interveno humana especializada (o comunicador) no processo de sua construo. Quanto mais informaes circunstanciais, sociais e comportamentais se fizerem necessrias para o modelamento do algoritmo, mais deveria ser exigida a participao do comunicador como alimentador do modelo e, especialmente, como refinador ao longo da vida til do algoritmo.

    Observamos isso, sobretudo quando notamos que a curadoria realizada pelos algoritmos menos complexos tende a olhar para trs: considera o comportamento passado do usurio, o que ele comentou, recomendou, apreciou, leu. Conhecendo padres e preferncias, esse passo-a-passo matemtico traz mais informaes similares e afins para seu usurio, partir de uma varredura rpida e eficiente pelas bases de dados.

    A curadoria humana pura e simples (sem os procedimentos matemticos), por outro lado, mais livre para olhar para o futuro. Um curador de contedos capaz de agregar novas e inusitadas perspectivas informao, oferecendo aos seus usurios a surpresa, o inesperado ou simplesmente aquilo que o usurio nem imaginaria existir no mundo e sobre o mundo, ampliando seu prprio entendimento de mundo.

    A curadoria comunicacional, que faz uso de algoritmos sofisticados associados s expertises de re-mediao do comunicador, parece ser o campo para o entendimento e caracterizao da curadoria da informao na Comunicao. A reprter Jane Wakefield, em artigo publicado pela BBC News, chega a reiterar: Algoritmos podem ser mais espertos que o homem, mas eles no possuem necessariamente a noo de perspectiva do homem.

    Anderson qualifica esse processo como promiscuidade algortmica: a capacidade da mquina de agregar e tratar os dados computacionais e os dados humanos da mesma forma, reduzindo e esquematizando estes ltimos.

    Os leitores de informaes assim so reduzidos s suas preferncias, ao que consomem. A agenda setting passa a ser pessoal, nica, personalizada e determinada por seus desejos. Processo indesejvel do ponto de vista da comunicao social como um todo, em que diferentes pontos de vista, fontes, perspectivas e recortes so fundamentais para o alargamento da viso de mundo desses leitores e para a construo do conhecimento da humanidade. (Pariser, 2011; Basulto, 2012).

    13 When algorithms control the world, BBC News, Disponvel em: http://www.bbc.co.uk/news/technology-14306146 Acessado em 14/02/2012.

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    Ao refletirmos sobre a curadoria comunicacional da informao partimos do pressuposto de que o profissional da comunicao, por vivenciar a proximidade com aquele que quer e deve ser informado, possui um cabedal de variveis importantes sobre processos de escolha, gostos, direcionamento da formao de opinio, variao de padres sociais, entre outros dados, que possibilitam o uso de modelos algortmicos menos uniformizantes e, portanto, mais adequados funo social do campo da Comunicao.

    3. O comunicador como curador O histrico dos significados da curadoria coloca como denominador comum a interveno humana no processo de selecionar, organizar e apresentar, mesmo que ocorra o suporte de algum sistema automatizado. Nessa linha, evidenciamos para o curador duas dimenses de ao: aquela da re-mediao, que agrega o valor pessoal ao contedo trabalhado; e a de design de relaes, que prope a disseminao do material re-mediado.

    Pensando nas dimenses de ao da curadoria de informao, possvel inferir que, apesar da possibilidade potencial do exerccio da curadoria por qualquer cidado conectado, no campo da comunicao digital tal potencial reduzido ao conjunto de profissionais que transitem em domnios simultneos da arte do re-mediar (= interconexo de mdias), do estabelecimento de relaes interpessoais pr-ativas (= seleo de pblicos ou audincias), da concepo ou uso de plataformas tecnolgicas para tratamento e disponibilizao de dados (= recorrncia a bases de dados), e principalmente, da capacidade intelectual e informativa para curar de modo nico e diferencial (= agregao de valor). Todo esse conjunto de competncias pode ser associado aos algoritmos, de forma que no apenas entre em jogo o histrico passado de apropriao e preferncias informativas por parte do usurio, mas ainda, e principalmente, o resultado dessas aes especficas do comunicador.

    Sobre a re-mediao, importante retomar Bolter & Grusin (1999) e Fiedler (1997). A produo de contedos nas mais diversas plataformas tecnolgicas a que assistimos hoje decorrncia do mesmo processo de comunicao que sempre pautou a sociedade, passando apenas por adequaes de coevoluo, coexistncia e complexidade por conta da inovao, e da possibilidade de contextualizao instantnea via hipermdia.

    O processo de re-mediao informativa que a rede digital consolidou amplia as possibilidades de correlaes de contedos, uma atividade tpica do curador de informao. O que inferimos que a curadoria comunicacional pode se favorecer da evoluo tecnolgica, mas ela no fruto de um determinismo. Ao contrrio, ela uma ao deliberada de quem assume papis de re-mediao na sociedade, seja um ativista, um blogueiro, um pesquisador, um jornalista ou um comunicador.

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    Assim, potencialmente, poderamos todos ser curadores: possvel fazer a curadoria de um show, o set list de uma festa, a concepo de uma exposio, at mesmo a seleo de autores e organizao de um livro coletivo. A ao depende de habilidades e competncias individuais exercidas num dado recorte temtico. A ao curatorial no implica necessariamente numa profisso.

    No campo da comunicao digital, entendemos que o curador da informao assume um papel mais assertivo ao combinar competncias de re-mediao, agregao de audincias, minerao de dados, inteligncia distribuda, agenciamentos e adio de valor visando o exerccio da ao comunicativa que, em ultima instncia, objetiva a fixao e disseminao de mensagens, e a respectiva obteno de valor como retorno. Aqui falamos de uma complexidade de relaes para gerenciar e aes para tomar dentro de um sistema de comunicao que se prope a uma dada capacidade expressiva e de criao de significados.

    uma ao curatorial especializada. E que faz sentido, sobretudo, ao considerarmos o processo cada vez mais proeminente de perda da diversidade de contedos ofertada por meios de comunicao tradicionais em espaos digitais. Boczkowski (2010) aponta um quadro preocupante em relao a tal problema: existe um crescimento da proporo de contedos genricos compartilhados pelos principais meios de comunicao (e mesmo entre provedores terceiros, como agncias noticiosas); ao mesmo tempo em que h uma reduo de empresas de mdia independentes a desempenhar a sua funo de co de guarda de uma forma vigorosa, resultando em mais do mesmo em termos informativos em sites que se propem a manter seus leitores bem informados sobre os acontecimentos do mundo.

    O salto da reproduo mecnica para a digital seja de noticias ou de outras reas do trabalho simblico introduziu, no inicio do sculo 21, uma era de abundncia informativa, caracterizada pela preocupao sobre o crescente custo-benefcio entre qualidade e quantidade de informao. Ter mais informaes disponveis do que recursos para process-las e o temor de que esse crescimento em quantidade cause a deteriorao da qualidade do produto resultante e das experincias de consumo no so novidade, mas esto ficando cada vez mais acentuadas nos ltimos anos. (Boczkowski, 2010, loc.2445, traduo nossa).

    Temos claro que nem todo curador (no sentido etimolgico do termo) um potencial comunicador no mundo digital; por outro lado, no deixamos de observar que a ao comunicacional em rede digital est cada vez mais ancorada em processos curatoriais que vo desde simples sistemas de recomendao construo de complexos algoritmos, passando todos eles pela mediao inerente atividade comunicacional.

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    Como contraponto, no podemos deixar de notar o questionamento que se faz sobre o uso do termo curadoria como apenas a mais contempornea forma de rotular as atividades desde sempre exercidas pelos comunicadores: mediao, edio, seleo, divulgao, opinio, entre outras.

    Em Facts are Sacred: The power of data, editado pelo jornal britnico The Guardian, Rogers (2011) revela que a curadoria realizada por um especialista (o jornalista, no caso) prev habilidades bem distintas, entretanto: inclui horas compilando e analisando dados em tabelas Excel e documentos em PDFs disponveis na internet, procurando um padro informativo e com valor-notcia para, ento, a partir desse trabalho, criar um conjunto informativo perspectivado de uma maneira at ento indita (2011, loc. 64) .

    O autor afirma que a abundncia de dados digitais transformou o jornalismo e, por extenso, a prpria comunicao. O chamado jornalismo de dados (data journalism) torna-se, muitas vezes, curadoria, como afirma:

    O autor Steven Rosenbaum (2011) preconiza uma curadoria ampla na sociedade, mesclando cidados, profissionais, ferramentas e plataformas, sem qualquer distino de funo ou necessidade. Para ele, a rede e seus usurios se autoformatam. Nessa linha, temos a discordar quanto a no considerao das possibilidades de explorao comunicacional desse processo curatorial hoje disponvel em rede.

    Por outro lado, a professora da FAU/USP Giselle Beiguelman nos oferece alguma ordenao das atividades da curadoria digital que podem sustentar nossas colocaes. Em palestra junto ao grupo de pesquisa COM+ da ECA-USP (2011, on-line) prope trs tipos de atividades curatoriais nas quais podem se inserir os comunicadores: o curador como filtro, representado pela frase eu sou o que eu linko; o curador agenciador com a frase as coisas so como eu as linko; e o curador como plataforma com a frase as coisas so como voc linka. Se fizermos uma correlao

    O jornalismo em base de dados transformou-se em curadoria? Algumas vezes, sim. Hoje existe tal quantidade de dados disponvel no mundo que procuramos oferecer em cada noticia os fatos principais e encontrar a informao correta pode se transformar numa atividade jornalstica to intensa quanto buscar os melhores entrevistados para uma matria (...) Qualquer um pode fazer isso... Especialmente com ferramentas gratuitas como o Google Fusion Tables, Many Eyes, Google Charts ou Timetric e voc pode acessar postagens dos leitores no seu grupo do Flickr (...). Mas, a tarefa mais importante pensar sobre os dados obtidos mais como jornalista do que como um analista. O que interessante sobre tais dados? O que novo? O que aconteceria se eu mesclasse com novos dados? Responder tais perguntas da maior importncia. Funciona se pensarmos numa combinao disso tudo. (Rogers, 2011, loc. 56-71, traduo livre e grifos nossos).

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    com as possibilidades do uso de algoritmos, o curador-filtro se conecta com os algoritmos pouco flexveis como aqueles dos buscadores ou de plataformas de redes sociais; a plataforma traz uma individualizao do processo informativo que no cabe no papel do comunicador; e o curador-agenciador prope a proximidade comunicador-algoritmo que j sustentamos. Segundo Beiguelman (2011): o agenciamento manifesta-se nas possibilidades de influenciar, alterar ou criar instituies e eventos, ou agir como um proxy14 . Os graus de agenciamento so medidos pela capacidade de ter um efeito significativo no mundo e em um contexto social, o que implica em responsabilidades.

    Beiguelman considera o curador de informao aquele que faz uso das ferramentas, associadas a filtros e plataformas que facilitam a atividade de agenciamento, gerando uma inteligncia distribuda.

    Na mesma trilha de novas responsabilidades do comunicador est o consultor Shel Holtz, afirmando que a curadoria da informao inerente atividade do comunicador (2011, on-line), constituindo-se numa mdia. O autor destaca as atividades de contextualizao e forma de disponibilizao das informaes abundantes na rede para enquadrar o papel do comunicador.

    A partir de todo o cenrio aqui descrito possvel afirmar que o comunicador e o prprio campo da Comunicao se constituem no cenrio mais propicio s atividades de curadora da informao pelas prprias caractersticas do campo. Tambm fica evidenciada a ao de curadoria alavancada pelas ferramentas baseadas em algoritmos, que funcionariam como parceiros do comunicador. A questo que se coloca, por fim, refere-se ao status de tal parceria e suas perspectivas futuras. o que propomos para nossas consideraes finais.

    Consideraes finais Apresentamos ao longo deste trabalho o atual cenrio de abundncia informativa na rede digital e a compatvel fartura de ferramentas para a busca e organizao dessas informaes, constituindo um campo potencial para a atividade de curadoria de informao. Estabelecemos a existncia de algoritmos matemticos e seus diferentes graus de complexidade como o principal meio de consolidao da atividade curatorial em rede, podendo por um lado ampliar as possibilidades de construo coletiva do conhecimento, mas por outro limitar tais possibilidades diante do mecanicismo inerente. Discorremos sobre o papel do campo da Comunicao e do profissional de comunicao neste cenrio, estabelecendo uma relao possvel entre sofisticao algortmica e envolvimento do comunicador,

    13 Proxy, em seu conceito informtico, um servidor que atende a requisies repassando os dados do cliente frente: um usurio (cliente) conecta-se a um

    servidor proxy, requisitando algum servio, como um arquivo, conexo, pgina web, ou outro recurso disponvel no outro servidor.

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    criando todo um novo campo de atuao que pode colocar em evidncia a ao do comunicador na construo coletiva do conhecimento e na formao de opinio na sociedade: o comunicador responsvel pela curadoria de informao em rede.

    Com isso, surge todo um conjunto de atribuies e de aprimoramentos da atividade comunicacional que sugerem novas reflexes e discusses.

    Aqui, tomamos por base as ideias de Anne-Marie Schleiner que em 2003 j propunha alguma caracterizao para a atividade curatorial em rede. A autora baseia-se no conceito de fluidez da sociedade (muito similar sociedade lquida de Zygmunt Bauman) como motivador de novas posturas e procedimentos para o exerccio da curadoria. Destacam-se: o predomnio do pensamento no-linear; o desenvolvimento de contedos informativos em fluxo contnuo; uma compulsividade do curador para a criao, desconstruo e colecionismo; o gosto pelas interaes sociais; e viso de negcio atrelada ao contedo. (Schleiner: 2003, p. 2-5).

    Estamos diante de uma espcie de pensar fora da caixa no exerccio da comunicao contempornea, implicando para o comunicador competncias que vo para alm do formalismo das grades curriculares. de se esperar que o comunicador-curador consiga participar dialogando com a tecnologia da construo de algoritmos, sistemas CMS e de aplicativos e, simultaneamente, ter uma viso socioantropolgica do comportamento e das tendncias de seu pblico-alvo. Sem deixar de lado o processo histrico da informao e de sua correlao com mensagens atuais. uma dinmica de mediao/re-mediao contnua entre pblicos, fontes, sistemas, ferramentas e sociabilidades. Falamos de um superprofissional? Seria um exagero na formao? Nem tanto, se levarmos em conta que o momento de rediscutirmos o perfil de nossa atuao. Ou ento, repassamos a funo para os algoritmos.

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    Referncias BibliogrficasANDERSON, C.W. Deliberative, Agonistic, and Algorithmic Audiences: Journalisms Vision of its Public in an Age of Audience Transparency. International Journal of Communication 5 (2011), 529547. ISBN 19328036/20110529.

    BASULTO, Dominic. Are Newspapers Civic Institutions or Algorithms?

    BEIGUELMAN, Gisele. Curadoria de informao. Palestra, ECA-USP, 2011. Disponvel em: http://www.slideshare.net/gbeiguelman/curadoria-informacao. 2011.

    BOCZKOWSKI, P. News at work: Imitation in an age of information abundance. The University of Chicago Press, Ltd., London . Kindle Edition, 2010.

    BOLTER, Jay e GRUSIN, Richard. Remediation: Understanding new media. Cambridge: The MIT Press, 1999.

    CHRISTENSEN, C. M. The innovators dilemma: when new technologies cause great firms to fail, Boston, Massachusetts, USA: Harvard Business School Press, ISBN 978-0-87584-585-2. 1997.

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  • 39

    Referncias BibliogrficasJOHNSON, C. The information diet: A case for conscious consumption. OReilly Media, 2012. Kindle Edition.

    PARISER, E. The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You. Publisher: Penguin Press HC, 2011. Kindle Edition.

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    SKIENA, S.S. The Algorithm Design Manual, 2. ed., Springer-Veriag London, 2008.

    Turkle, S. Alone together: Why we expect more from technology and less from each other. Basic Books, 2011.

    WEINBERG, D. Too Big to Know. Basic Book. Kindle Edition, 2012.

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    Curadoria de informao e contedo na web: uma abordagem cultural[ ]

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    15 O presente texto um desdobramento da palestra Curadoria de Informao e contedo na Web: contribuies possveis para o ciberjornalismo apresentada

    no III Seminrio de Ciberjornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em agosto de 2011, na cidade de Campo Grande. Disponvel em http://www.slideshare.net/adriamaral/curadoria-de-informacao-no-ciberjornalismo

    16 Professora e pesquisadora do Programa de Ps-graduao em Cincias da Comunicao e dos cursos de Comunicao Digital e Jornalismo da Universidade

    do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Bolsista de Produtividade do CNPq. Diretora de Comunicao da Associao Brasileira dos Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). Coordenadora do curso de Especializao Lato Senso em Cultura Digital e Redes Sociais. Email: [email protected] Twitter: @adriaramaral

    Curadoria de informao e contedo na web: uma abordagem cultural15Resumo: O presente ensaio trata de uma perspectiva sobre a curadoria da informao enquanto uma prtica cultural hbrida entre agentes humanos e no-humanos, discutindo seu papel cada vez mais significativo na cultura digital. Num primeiro momento resgataremos um pouco da discusso etimolgica do termo, a partir do ponto de vista da histria da arte e sua evoluo ao conceito de curadoria na web. Depois discutiremos como os processos de curadoria esto relacionados recomendao, seja ela do algoritmo ou humano. Por fim, encaminhamos o debate sobre como pensar o reconhecimento de padres curadores a partir de dois vetores que julgamos importantes para o elemento humano dessa prtica: contedo e contexto e citamos alguns exemplos de curadorias enquanto prticas de recomendao relacionadas ao contexto do consumo musical na web.

    Palavras-chave: curadoria, cultura digital, prtica cultural.

    Adriana Amaral16

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    Introduo Nos ltimos dois ou trs anos aproximadamente, o termo curadoria de informao tem aparecido cada vez mais para tratar de alguns processos que ocorrem sobretudo no mbito da internet. O termo, que aparece ora na literatura especfica da rea da comunicao ou do jornalismo, ora nas matrias dos veculos ou cadernos de informtica virou um termo chave para a tratar, a grosso modo, das prticas de filtragem e produo de contedo nas mais diversas plataformas digitais.

    No entanto, percebemos que a reflexo mais densa sobre o termo em si, destacando algumas excee, ainda engatinha, ainda mais se levarmos em considerao o contexto brasileiro. Alm da questo novidadeira do termo, o que contribui para que essa discussso ainda esteja em estgio inicial a acepo que fica escondida por trs dos usos mercadolgicos e de argumentos de venda de produtos (softwares ou plataformas) que esto relacionados a ele, o que usualmente acontece com todo termo que ganha uma certa notoriedade da imprensa especializada, sobretudo nesses tempos de rpida disseminao de tendncias no campo da comunicao digital.

    Assim, o presente texto no tem a pretenso de esgotar os debates conceituais sobre esse termo, mas sim, apresentar uma perspectiva sobre a curadoria de informao vinculada a aspectos culturais centrais aos processos da comunicao digital no mbito da circulao de informaes nas multiplataformas da rede, iniciando com uma contextualizao histria da mudana de significados adquirida por essa definio.

    Das origens do termos A palavra curar significa: zelar por, cuidar de, vigiar. Etimologicamente, curador vem do latim tutor, aquele que tem uma administrao ao seu cuidado17. De acordo com o dicionrio18, a curadoria um cargo, poder, funo ou administrao. As palavras curador e curadoria assumem diferentes significados conforme as especificidades das reas. Assim, temos a figura do curador como uma espcie de vigia que zela por ou d tratamento a algum (no caso da Medicina, por exemplo) ou um especialista que defende um ausente na justia (no caso do Direito). Em relao s profisses, o significado mais popular de curador, no entanto, aquele relacionado ao campo das artes visuais, no qual o curador normalmente est vinculado a escolha e execuo de um catlogo de obras ou de uma exposio.

    17 http://pt.wikipedia.org/wiki/Curador_%28artes%29

    18 http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/

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    O crtico de arte, professor e curador Olu Oguibe (2004, p.07) afirma que at a segunda metade do sculo XX, a figura do curador no passava de

    A partir do final do sculo XX, OGUIBE (2004) descreve uma mudana no papel do curador das artes visuais na sociedade, devido ao aumento do nmero de atribuies e de tipos de atributos sociais que extrapolam o conhecimento sobre histria da arte, esttica, etc. As questes relacionadas administrao, economia e ao mercado globalizado da arte tambm so elementos que interferem nessa transformao. De acordo com autor, muda a forma de atuao dos curadores, que deixam de ser vistos como especialistas ou conaisseur e passam a atuarem como mediador social, seja entre as instituies (museus e galerias), os artistas e o pblico.

    Essa diversificao e reconfigurao dos papis do curador sofre a partir dos anos 60 do sculo XX perodo no qual o curador ainda era visto como algum relacionado Academia e crtica de arte - tem como resultado: visibilidade s obras e artistas e a legitimao e a construo de um discurso sobre as obras. Assim, o curador comea a ser tratado, disscursiva e midiaticamente de vrias formas, ora como connaisseur/ especialista, ora como corretor cultural ou mediador.

    um agente provinciano com uma referncia estrutural limitada etnocntrica, e tambm excntrica, sustentada pela autoridade da qualificao e especializao acadmica. O curador de arte contempornea era um historiador da arte ou algum com uma qualificao em arte, histria da arte ou esttica, que na trajetria de seu treinamento e carreira se interessou especialmente por um aspecto do perodo ao qual se dedicou, destinando seu tempo ao estudo do trabalho produzido de uma forma ou tcnica especfica, tal como pintura, desenho ou gravura, e, geralmente, tinha uma especializao em determinada rea geogrfica.

    Entre os anos 70 e 90, medida que os acadmicos e crticos se tornaram menos influentes nas decises sobre o destino da carreira do artista especialmente na cultura metropolitana , o curador comeou cada vez mais a definir a natureza e a direo do gosto na arte contempornea tanto assim que, na virada para o sculo XXI, o curador passa ento a representar a figura mais temida e talvez a mais odiada da arte contempornea.

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    Ao longo desse processo, para o autor, h um aumento de status social para a funo, que ganha uma glamourizao e goza da companhia de um amplo crculo de indivduos que trabalham em mais do que apenas nas artes visuais e facilmente reivindica um lugar entre os mais visveis destaques da sociedade de sua gerao. O curador da arte contempornea uma parte slida do circuito de moda Hugo Boss (OGUIBE, 2004, p.08). interessante observar que esse processo de transformao das noes de curadoria (do conaisseur ao mediador) vai incidir diretamente sobre as concepes de curador de informaes no contexto dos ambientes digitais.

    Curadoria na Web: amadores e profissionais, em defesa da qualidade da informao Aps essa breve contextualizao a respeito das mudanas no papel do curador na cultura contempornea a partir das artes visuais, importante destacarmos o aumento da importncia da funo de curadoria de informao no contexto da internet. Autores como Rosembaum (2011) e Beiguelman (2011) justificam o surgimento e o crescimento da atribuio de curadoria de informao ao imenso volume exaustivo de dados na web (textos, links, vdeos, imagens, formatos), desde os mecanismos de busca aos sites de redes sociais e outras plataformas. Rosembaum (2011) chama esse volume de informaes crescentes de tsunami de dados e Bieguelman (2011) de dadosfera. As mtricas e mensuraes quantitivas como o relatrio anual do Technorati sobre a blogosfera (State of the blogosphere) so exemplos dessa avalanche informacional.

    Alm dessa justificativa numrica e centrada na informao em si, h tambm uma justificativa mais relacionada s prticas da cultura. David Jennings (2007), em seu livro sobre descoberta e recomendao musical na web, sublinha a atuao dos produtores de contedo especializados no caso dele, especificamente nos blogs como curadores da memria cultural, preservando materiais, arquivos e informaes de diversos perodos da histria e os tornando acessveis atravs da digitalizao. Essa noo de curadoria da memria social tambm aparece nas prticas de fs de colecionismo e disponibilizao de informao atravs de prticas como a produo de contedo como fanvideos ou estratgias de mobilizao atravs de lipdubs ou outros produtos elaborados na cultura da remixagem, ao que denominamos anteriormente de prticas de fansourcing (AMARAL, 2010).

    Nossa compreenso de curadoria est relacionada tanto aos formatos e plataformas, como aos processos e prticas e apropriaes que ali ocorrem seja a partir da prpria materialidade dos meios como dos usos deles decorrentes e seus significados sociais. Podemos depreender que h diferentes nveis ou formas de proceder a curadoria.

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    Uma questo importante e polmica de ser destacada nesse contexto diz respeito ao profissionalismo/amadorismo de quem efetua esse processo. Para alm das dicotomias entre amadores versus profissionais19, questo que vem sendo debatida sobretudo no contexto das rotinas de produo jornalstica, entendemos assim como Rosembaum (2011), que no h ameaas entre esses dois campos e que tanto profissionais quanto amadores amplificam e podem se apropriar das prticas curatoriais digitais com fins e objetivos distintos e de qualidade.

    Para Rosembaum(2011), a curadoria adiciona valor a partir dos humanos e do seu julgamento sobre o que est sendo coletado e organizado, mas tambm interessante pensar em uma no-hierarquizao entre agentes humanos e no-humanos no processo, uma vez que essa qualidade tambm pode vir da programao e da recomendao entregue por um algoritmo.

    Tambm importante refletir historicamente que atividade de curadoria de informao no exatamente uma novidade e est presente na internet desde seus primrdios. Mecanismos de busca como Altavista, Yahoo! e Google sempre priorizaram a organizao e a recuperao das buscas de formas e com hierarquias e prioridades diferentes. Por volta de 1997 e 1998, os primeiros blogs j faziam um tipo de curadoria atravs da recomendao e divulgao de links (AMARAL, RECUERO, MONTARDO, 2009).

    Para uma breve arqueologia das possibilidades e formatos de curadoria na web listamos as algumas tecnologias mais utilizadas para esse fim: mecanismos de buscas(Google, Bing), buscas em tempo real, (a busca do Twitter, por ex) blogs, agregadores de feeds (Google Reader), sistemas de recomendao (Last.fm), sites de redes sociais (Facebook), plataformas especficas de curadoria (Scoop). A esses breves exemplos podem ser acrescentados muitos outros.

    Em busca de modelos de curadoria online Beiguelman (2011) prope trs possveis modelos de curadoria online, combinando elementos humaos e no-humanos. So eles: 1) curador como filtrador; 2) curador como agenciador; 3) a plataforma como dispositivo curatorial. A partir delas tentaremos sistematizar alguns exemplos j citados anteriormente.

    19 Entre os mltiplos debates travados sobre o tema no mbito da cultura digital, nos referimos aqui defesa dos amadores/no-profissionais por parte de autores

    como Shirky (2008) e Jenkins (2008) e, do outro lado, Keen (2009) ou Carr (2011). Nossa compreenso de que os fenmenos so mais complexos do que a mera defesa da produo e curadoria de contedo por um grupo especfico ou por vises idealizadas de uma sabedoria coletiva.

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    O curador como filtrador realiza suas funes a partir da relao homem-mquina, sobretudo atravs de links, contextualizando as informaes e observando seus efeitos. A partir de um perfil do Twitter, por exemplo, pode-se gerenciar uma curadoria informativa sobre um determinado assunto, segmento ou rea especfica. Uma veculo de mdia que possui um perfil ou uma marca podem trabalhar nesse sentido. F-clubes ou fandoms (tweet-fandoms) que atuam atravs do Twitter tambm podem praticar esse modelo atravs da contextualizao das aes do dolo, suas participaes na mdia e a seleo de informaes e distribuio de links e de outros fandoms recomendados (MONTEIRO, 2011).

    Um segundo modelo o de curador-agenciador - que se relaciona com a ideia de mediao discutida por Oguibe na transformao do curador no contexto das artes visuais. Para Beiguelman (2011), a forma do agenciamento se d pela combinao entre a sistematizao de categorias de contedo e suas relaes. A produo de contedo para um blog especfico como por exemplo o Scream & Yell (site de crtica e recomendao musical da cena indie rock) podem ter esse carter, uma vez que alm da seleo de contedos e suas relaes h a figura dos prprios blogueiros atuando como mediadores nos espaos convergentes.

    O modelo de plataforma como dispositivo curatorial potencializa e facilita a organizao das informaes. o caso de um site como o Scoop.it, que mistura diversas funcionalidades como agregador de feeds, blog, site de rede social, entre outros e amplifica estratgicamente a produo e seleo de contedo. A curadoria muito mais manual e estratgica, embora o suporte tambm ajude a condicionar a forma do consumo da informao.

    Aos trs modelos propostos por Beiguelman (2011), adicionamos mais dois: o curador como crtico e a recomendao como curadoria.

    No modelo curador como crtico, recupera-se a dimenso crtica da curadoria para o contexto da web. O contexto social histrico e social do contedo implcito. Esse modelo de curadoria pode ser produzida a partir de qualquer plataforma online seja a partir do compartilhamento de uma imagem ressignificada em seu contexto no Facebook por exemplo, um Tumblr com gifs que tracem crticas a produtos culturais como filmes ou seriado. Nesses casos, a curadoria, alm de selecionar e compartilhar os dados, ainda os subverte para um comentrio ou crtica, entendida aqui como desde um comentrio textual, como uma alterao na imagem ou o uso de ironias e outras figuras de linguagem.

    J a recomendao enquanto curadoria est relacionada aos filtros de informao cuja funo tem a ver com o gosto ou a construo de perfis de consumo. Esse processo feito tanto atravs de softwares de recomendao, caracterizados por agentes inteligentes que tentam antecipar os interesses do consumidor nos ambientes digitais e prever seus gostos a fim de recomendar novos produtos (S, 2009). Para tanto h uma combinao de metodologias

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    O curador como filtrador realiza suas funes a partir da relao homem-mquina, sobretudo atravs de links, contextualizando as informaes

    e observando seus efeitos.

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    de anlise seja atravs da filtragem colaborativa, na qual os agentes humanos atualizam o sistema com informaes e categorizaes; seja por mtodos analticos de similariedade feitos por algoritmos e agentes no-humanos.

    Dentre as prticas de curadoria relacionadas recomendao podemos observar a folksonomia e a escrita coletiva de tags na plataforma social Last.fm como exemplo de construo de perfis de consumo musical no qual a curadoria se d tanto pelos scrobblings (rastreamento dos bancos de dados musicais dos usurios cadastrados) quanto pelas formas de social tagging que indexam gneros musicais feitas manualmente pelos prprios usurios a partir dos seus arquivos de msicas disponibilizados em rede. Tais prticas so resultados tambm de engendramentos e negociaes identitrias que por um lado so facilitadas atravs das ferramentas de tagging, mas por outras so parte de culturas fortemente relacionadas aos processos de consumo musical, confome discutido por Amaral & Aquino (2009).

    Os modelos de curadoria aqui indicados relacionam-se entre si e no so propostos enquanto categorias estanques. Elas se encontram sempre em fluxo e em transio. possvel que cada plataforma ou sistema trabalhe mais ou menos com diferentes modelos e processos. Tambm torna-se importante nesse contexto, levar em considerao para a curadoria de informao aspectos que transcendam os resultados quantitativos como softwares de visualizao de dados, de monitoramento, mtricas, infogrficos, nmero de followers, likes, etc. Nesse sentido preciso pensar a curadoria de informao em um contexto mais plural do que apenas a internet, mas sim como as pessoas se relacionam com essas prticas e como suas vidas cotidianas e suas prticas de consumo so atravessadas por elas.

    Consideraes Finais No presente texto, procuramos trazer uma breve abordagem a respeito da curadoria de informao enquanto uma prtica cultural emergente na cultura digital. A partir dessas observaes iniciais, podemos observar que a combinao e a no-hierarquizao entre agentes humanos e no-humanos, os fatores qualitativos; as materialidades dos artefatos culturais digitais e as dimenses de contexto e disseminao do contedo caracterizam uma perspectiva cultural dos processos de curadoria de informao.

    Tomamos como importante os diferentes processos de mediao social, seja pelas tecnologias, seja pelos elementos humanos repensando uma perspectiva crtica sobre a curadoria na qual o resgate do zelo pela qualidade da informao e do contedo o maior diferencial para a sua filtragem, independente de plataformas ou ferramentas que j existam ou que iro surgir.

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    Referncias BibliogrficasAMARAL, Adriana. Prticas de Fansourcing. Estratgias de mobilizao e curadoria nas paltaformas musicais. In: S, Simone (org). Rumos da cultura da msica. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2010.

    AMARAL, Adriana, AQUINO, Maria Clara. Eu recomendo... e etiqueto. Prticas de folksonomia dos usurios do Last.fm. Revista Lbero, n. 24, Ano XII, pp.117-129, Dez. 2009. Disponvel em http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/libero/article/view/6779/6122

    AMARAL, Adriana., RECUERO, Raquel., MONTARDO, Sandra. Blogs: mapeando um objeto. In: AMARAL, RECUERO & MONTARDO. Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicao. SP: Momento Editorial, 2009. Disponvel em http://www.sobreblogs.com.br

    BEIGUELMAN, Gisele. Curadoria de informao. Palestra, USP, 2011. Disponvel em: http://www.slideshare.net/gbeiguelman/curadoria-informacao

    CARR, Nicholas. Gerao superficial. O que a internet est fazendo com os nossos crebros. So Paulo: Editora Agir, 2011.

    JENKINS, Henry. Cultura da convergncia. SP: Aleph, 2008.

    JENNINGS, David. Net, blogs and rock nroll. How digital discovery works and what it means for consumers, creators and culture. Boston: Nicholas Brealey Publishing, 2007.

    KEEN, Andrew. O culto do amador. RJ: Jorge Zahar, 2009.

    OGUIBE,Olu. O fardo da curadoria. In: Revista Concinnitas Virtual, n.6, UERJ, RJ, Julho 2004. Disponvel em http://www.concinnitas.uerj.br/resumos6/oguibe.htm

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    Referncias BibliogrficasROSENBAUM, Steven. Curation nation. Why the future of context is context. NY: McGraw Hill, 2011.

    S, Simone. Se voc gosta de Madonna tambm vai gostar de Britney! Ou no? Gneros, gosto e disputas simblicas nos sistemas de recomendao musical. Artigo Apresentado na Comps 2009, PUCMG, Belo Horizonte, 2009. Disponvel em http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1169.pdf

    SHIRKY, Clay. Here comes everybody. The Power of organizing without organizations. NY: Penguin, 2

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    Usurio-mdia: o curador das

    mdias sociais?[ ]

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    20Carolina Frazon Terra, professora dos cursos de graduao em Comunicao Social da FECAP e da ECA-USP e das ps-graduaes em

    Comunicao Corporativa e Digital, tambm da ECA-USP. Pesquisadora e consultora de mdias sociais e membro do grupo de pesquisa COM+. E-mail: [email protected] e [email protected]

    Usurio-mdia: o curador das mdias sociais?Resumo: O artigo tem como objetivo caracterizar quem o usurio-mdia, usurio avanado da internet e das mdias sociais, ativo produtor e compartilhador de contedos da rede que, a nosso ver, tem a funo tambm de curadoria de informao no ambiente digital. O percurso terico inclui categorizar quem o usurio-mdia, quem e o que faz um curador digital e relacionar ambas as partes ao usurio produtor de contedo e influenciador on-line das redes sociais online.

    Palavras-chave: Usurio-mdia; Curadoria de informao; Influenciador On-line.

    Carolina Frazon Terra20

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    Introduo Com a avalanche informacional vivida nos dias de hoje e impulsionada pela web, faz-se necessrio obter filtros eficazes de contedo que nos ajudem a consumir assuntos de nosso interesse, com fontes crveis e com reconhecimento e influncia garantidos.

    Chamamos esses filtros confiveis de informao de curadores. Mais ainda, consideramos que os usurios relevantes, ativos e influentes da web sejam os usurios-mdia, que explicaremos adiante quem so.

    Para tanto, o objetivo desse artigo conceituar o usurio-mdia, o curador informacional/de contedo e relacion-los, mostrando que podem ser a mesma entidade. A seguir, veremos conceitos que aproximam a ambos bem como os caracterizam.

    Quem o usurio-mdia? O objetivo desse tpico caracterizar o usurio-mdia e analisar sua proximidade com termos ou conceitos defendidos por autores reconhecidos no mundo digital. Por isso, iniciaremos com uma definio prpria e partiremos para as conceituaes de tais autores a fim de reforar nossa viso a respeito do usurio-mdia.

    Estamos na era da midiatizao dos indivduos, na possibilidade de usarmos mdias digitais como instrumentos de divulgao, exposio e expresso pessoais. Da o termo usurio-mdia. Cada um de ns pode ser um canal de mdia: produtor, criador, compositor, montador, apresentador, remixador, filtrador, selecionador ou apenas um difusor dos seus prprios contedos.

    Entendemos que o usurio-mdia um heavy user tanto da internet como das mdias sociais e que produz, compartilha, dissemina contedos prprios e de seus pares, bem como os endossa junto s suas audincias em blogs, microblogs, fruns de discusso on-line, comunidades em sites de relacionamento, chats, entre outros. Acreditamos que existam nveis de usurio-mdia: os que apenas consomem contedo e replicam; os que apenas participam com comentrios em iniciativas on-line de terceiros; e os que de fato produzem contedo ativamente.

    A partir daqui, iremos pontuar os pensamentos de alguns autores a fim de sustentarmos nossa tese do usurio-mdia como usurio ativo da internet.

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    No ciberespao, cada sujeito efetivamente um potencial produtor de informao: servios colaborativos de informao, comunidades, blogueiros ou microblogueiros que vivem o fato e relatam em suas pginas pessoais. (Lemos, 2008, p.3).

    A cultura da criao, para Deuze (2009, p.22), est se tornando rapidamente o centro da atividade industrial e individual na emergente economia cultural globalizada. Para ele (Ibid., p. 23), a mdia sob qualquer formato ou tamanho, amplifica e acelera esta tendncia, pois no apenas consumimos a mdia digital, mas tambm vivemos nela. E isso ocorre de tal modo que a nossa dieta miditica caminha mais para a produo desta do que para o simples consumo. A tecnologia central no trabalho da mdia atual, alerta Deuze (Ibid., p. 31).

    Vale aqui utilizarmos a concepo de Castells sobre contrapoder. O autor (2007, p. 239) entende poder como a capacidade estrutural de um ator social se impor sobre outros. Todos os sistemas institucionais refletem relaes de poder assim como seus limites que so negociados por processos histricos de dominao e contradominao. J o contrapoder visto por Castells (Ibid., p.239) como a capacidade dos atores sociais de desafiar e eventualmente modificar relaes de poder institucionalizadas na sociedade. Em poltica, credibilidade e confiana so fundamentais para a tomada de deciso e como consequncia, surge um mercado de intermedirios que pode proliferar, deturpar, manipular ou fabricar informaes. Podemos estender essa concepo para os usurios-mdia que servem como esse mercado intermedirio entre as organizaes, marcas, produtos e a opinio pblica. A dinmica do contrapoder, para Castells (2007, p. 258), que so novas formas de mudana social e emergncia poltica alternativa, pode se valer das novas redes de comunicao horizontal especficas da infraestrutura organizacional da sociedade em rede. Os detentores de poder perceberam que a comunicao digital ganhou fora e entenderam que precisam estar presentes nas comunicaes horizontais.

    Montardo (2009, p. 4) atribui outra nomenclatura aos usurios-mdia: produsers e prosumers. Bruns & Jacobs (apud Montardo, 2009, p. 4) apontam que os produsers definem os usurios de ambientes colaborativos que se comprometem com contedo intercambivel tanto como consumidores quanto como produtores, fazendo o que os mesmos autores classificam como produsage (produo ou uso). J a terminologia prosumer foi primeiramente citada por Tofler (1990) e significa consumidor profissional em que o retorno de suas necessidades, gostos e impresses das organizaes culminam no desenvolvimento de novos produtos e servios. J os produsers afetam diretamente no modo de produo capitalista, interferindo diretamente na reputao e na imagem das corporaes.

    Quando a atividade do usurio neste ambiente participativo for menos classificada em termos de consumo e mais em termos de produo, o termo adequado, para Dijck (2009, p. 46) prosumption ou wikinomics, e suas bases so Leadbeater (2007) e Tapscott & Williamns (2006), respectivamente. Alm disso, para Dijck (2009, p. 46),

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    com a emergncia de sites que permitem que o consumidor crie contedos, as organizaes mudaram a rbita de seus interesses das atividades de consumo para as de produo, dando aos usurios mais poder sobre o contedo pela adio de valor que isso traria aos negcios.

    A pesquisadora Dijck (Ibid., p. 42) acredita que os usurios sejam referidos como os internautas ativos e contribuintes da internet, aqueles que dedicam certo esforo criativo e o fazem fora de sua rotina ou atividade profissional. Termos como produser e cocriadores acabaram por adentrar o cenrio acadmico para explicar o crescimento do poder de gerao de contedos dos internautas, segundo BRUNS (2007).

    Benkler (2006, p. 126) classifica esse novo consumidor como sendo aquele usurio mais ativo e produtivo que os consumidores da economia industrial da informao.

    O Internet Advertising Bureau (IAB) afirma que a principal mudana promovida por esse usurio-mdia a reao das audincias em relao aos contedos, alterando a postura em relao comunicao organizacional, aos conglomerados de mdia e forma de acessar a informao. Nesse sentido, aponta Montardo (2009, p. 5), o The Cluetrain Manifesto postula 95 teses sobre como o mercado mudou em funo da capacidade de conversao das pessoas na internet e sobre como a comunicao tambm deve ser alterada por conta disso.

    Chris Anderson (2006), autor de A Cauda Longa, classifica esse usurio-mdia como os novos formadores de preferncias por se expressarem nas mais variadas plataformas on-line e em sistemas de recomendao e influncia.

    Muniz Sodr (2006) defende uma teoria que define a mdia no como transmissora de informaes, mas como ambincia, como forma de vida, como um bios miditico. Nesse sentido, caracterizamos o usurio-mdia como aquele que no apenas transmite informaes, mas que por si transforma-se em um veculo de mdia, em meio, em comunicao.

    Barichello (2009, p. 347) utiliza a mesma noo de mdia de Muniz Sodr, que inclui tanto os meios quanto os hipermeios (ou meios digitais) e que pode ser entendida como canalizao e ambincia, estruturado com cdigos prprios.

    Um autor que avesso produo de contedos por internautas Keen (2009). Ele acredita que medida que a mdia convencional tradicional substituda por uma imprensa personalizada, a internet torna-se um espelho de ns mesmos e em vez de buscarmos notcias, informao ou cultura, passamos a utiliz-la para sermos de fato tudo isso. Keen ainda chama as mdias sociais de santurios para o culto da autotransmisso e de repositrio de nossos desejos e identidades individuais. Apesar de crtico da internet (a internet, a seu ver, pode ser um acmulo de tolices produzidas por narcisistas ansiosos), as afirmativas acima s nos ajudam a demonstrar que de fato temos um usurio

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    que se tornou mdia.

    No entanto,