DERRIDA as Mortes de Barthes

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RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção , v. 7, n. 20, pp.264 a 336. Agosto de 2008 - ISSN 1676-8965. 264 DERRIDA, Jacques. “As mortes de Roland Barthes”. RBSE – Re vista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 7, n. 20, pp. 264 a 336. Agosto de 2008. ( Tradução de Mauro Guilherme Pinheiro Koury ) ISSN 1676- 8965 DOCUMENTO As mortes de Roland Barthes * Jacques Derrida RESUMO: Neste ensaio Derrida presta homenagem emocionada a Roland Barthes. A sua vida, a sua obra, - através, principalmente do seu primeiro e do seu último livros, - são passadas em revista, através do cruzamento morte/fotografia. Um ensaio denso, impregnado pelo luto e pela dor do desaparecimento do amigo. PALAVRAS-CHAVE : Roland Barthes; Fotografia; Morte. ABSTRACT: In this essay Derrida makes homage for Roland Barthes. His life, his work, - through, mainly of his first and last books, - is analyzed, in the crossing death/photograph. A dense assay, impregnated for mourning and the pain of friend’s disappearance. KEYWORDS: Roland Barthes; Photograph; Death. * Publicado pela primeira vez em Poétique , n. 47, pp. 269 a 291, setembro 1981. A revista prestou, neste número, uma homenagem póstuma a Roland Barthes, morto em Paris, no dia 26 de Março de 1980. Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Softwa http://www.foxitsoftware.com For evaluation on

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Jacques Derrida discorre sobre o semiólogo francês Rolland Barthes

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  • RB SE R evista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 7 , n. 20, pp.264 a 3 36. Agosto de 2008 - I SSN 1 676-8965.

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    DERRIDA, Jacques. As mortes de Roland Barthes. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 7, n. 20, pp. 264 a 336. Agosto de 2008. (Traduo de Mauro Guilherme Pinheiro Koury) ISSN 1676-8965

    DOCUMENTO

    As mortes de Roland Barthes*

    Jacques Derrida RESUMO: Neste ensaio Derrida presta homenagem emocionada a Roland Barthes. A sua vida, a sua obra, - atravs, principalmente do seu primeiro e do seu ltimo livros, - so passadas em revista, atravs do cruzamento morte/fotografia. Um ensaio denso, impregnado pelo luto e pela dor do desaparecimento do amigo. PALAVRAS-CHAVE: Roland Barthes; Fotografia; Morte. ABSTRACT: In this essay Derrida makes homage for Roland Barthes. His life, his work, - through, mainly of his f irst and last books, - is analyzed, in the crossing death/photograph. A dense assay, impregnated for mourning and the pain of friends disappearance. KEYWORDS: Roland Barthes; Photograph; Death.

    * Publicado pela primeira vez em Potique, n. 47, pp. 269 a 291, setembro 1981. A revista prestou, neste nmero, uma homenagem pstuma a Roland Barthes, morto em Paris, no dia 26 de Maro de 1980.

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    Como fazer para aceder a este plural? Com

    o qu? Esta pergunta se escuta tambm como uma

    msica. Com uma doura ingnua, o plural parece

    manter-se mesmo no meio desse abandono nele

    observado: uma ordem aps o comeo, com uma

    frase inaudvel, como um silncio interrompido.

    Segue uma ordem, sim; at mesmo a obedece, se

    submetido ao ditado. Pergunta-se. E eu, quando me

    submeto a prescrever um plural para essas mortes,

    tenho que dobrar-me ante a lei do nome. No h

    objeo que permita resistir-se, nem o pudor depois

    do momento de uma deciso intratvel e exata, o

    tempo quase nulo do gatilho: ter sido dessa

    maneira, unicamente, de uma vez por todas. E, sem

    sombra de dvida, apenas posso suportar a mera

    apario de um ttulo neste lugar. Bastava apenas o

    nome prprio. Apenas e por si mesmo, tambm,

    disse a morte, todas as mortes em uma. assim,

    mesmo quando seu portador est ainda vivo.

    Embora tantos cdigos e ritos busquem nos

    despojar deste privilgio terrfico: o nome prprio,

    por si mesmo, declara, energicamente, o

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    desaparecimento do nico; quero dizer: a

    singularidade de uma morte inqualificvel (esta

    ltima palavra, inqualificvel, ressoa agora como

    uma citao de Roland Barthes que haverei de reler

    mais tarde). A morte se inscreve no nome mesmo,

    para se dispersar de imediato. Para insinuar uma

    estranha sintaxe no nome de um s, responder a

    muitos.

    Ainda no sei por que preciso deixar como

    fragmentos estes pensamentos dedicados a Roland

    Barthes, e pouco importa no fundo que possa torn-

    lo compreensvel, at porque me obstino, mais do

    que na ruptura, no no acabamento. O no

    acabamento marcado, a interrupo pontuada,

    porm aberta, carente at da aresta autoritria de

    um aforismo. Pequenos cascalhos surgidos durante

    a meditao, um de cada vez, na margem de um

    nome como promessa de um retorno.

    Por ele, para ele, por Roland Barthes: por

    ele, para ele desfiro estes pensamentos. O que

    significa que penso nele e a partir dele, no apenas

    atravs de sua obra ou me referindo a ela. Por ele,

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    para ele. O que implica em dizer que quero dedicar

    a ele estes pensamentos, os ofertar a ele, destin-

    los a ele. Contudo, agora, nunca chegaro at ele.

    Este deve ser o ponto de partida: no podem

    socorr-lo, chegar at ele, mesmo se tivessem

    podido faz-lo enquanto vivia. Ento, aonde

    chegam? A quem e por qu? So apenas para ele

    em mim? Em ti? Em ns? No o mesmo, ocorre

    tantas vezes, e desde o momento em que se

    encontra em outro, esse outro j no mais o

    mesmo. Quero dizer, o mesmo que ele. E, no

    obstante, ele, Barthes, deixou de ser. Ater-se a essa

    evidncia, a sua claridade incontestvel, retornar a

    ela como ao mais simples e apenas a isto: que

    mesmo reservado ao impossvel alguma coisa

    ainda oferecida e permite pensar.

    Contudo, uma luz que deixa algo a que

    pensar ou a que desejar. Saber, ou melhor, aceitar o

    que permite desejar, am-lo desde uma fonte

    invisvel de claridade. De onde vinha a claridade

    singular de Barthes? De onde lhe vinha? Porque,

    tambm, precisou receb-la. Sem simpli ficar nada,

    sem violentar os vincos nem as ressalvas, essa

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    claridade emanava sempre de determinado ponto

    que no era apenas um, que se manter invis vel a

    sua maneira, no localizvel para mim essa

    claridade da qual queria, seno falar, pelo menos

    dar uma idia, e falar tambm do que dela preservei

    para mim.

    O manter vivo e em si o melhor movimento

    da fidelidade? Com o incerto sentimento de adentrar

    na carne viva acabo de ler dois de seus livros que

    nunca antes li. Retirei-me a essa ilha por crer que

    ainda nada havia se detido E acreditei to bem, e

    cada livro me dizia o que teria que pensar de tal

    crena. Estes livros so o primeiro e o ltimo, cuja

    leitura tinha adiado por razes absolutamente

    diferentes. No primeiro, Le degr zro de l critur1,

    compreendi melhor sua fora e sua necessidade,

    mas, acima de tudo, do quanto havia me afastado

    dele, e que no se reduzia apenas s maisculas,

    s conotaes, retrica e todas as marcas de uma

    poca da qual acreditava, ento, ter sado, e da qual

    acreditava que era preciso extrair a escrita. Porm,

    1 - Em portugus: Barthes, Roland, O grau zero da escritura. So Paulo, Cultrix, 1971. (NdoT).

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    nesse livro de 1953, como nos de Blanchot, aos

    quais nos remete com freqncia, esse movimento

    permanece pendente. O que chamo torpe e

    equivocadamente: a sada. E depois La chambre

    claire2, cujo tempo acompanhou Barthes em sua

    morte, como creio que nenhum outro livro tenha

    velado seu autor.

    Le degr zro de l criture e La chambre

    claire so t tulos felizes para um primeiro e um

    ltimo livro. Felicidade terrvel. Apavoradamente

    vacilante por sua oportunidade e predestinao.

    Quero pensar agora em Roland Barthes; hoje,

    quando atravesso a tristeza, a minha e a que

    imaginei senti r sempre nele, sorridente e cansada,

    desesperada, solitria, to incrdula no fundo,

    refinada, cultivada, epicurista, sempre cedendo e

    sem crispar-se, contnua, fundamental e

    desentendida do essencial; quero pensar nele,

    apesar da tristeza, como em algum que apesar de

    no privar-se (acredito) de nenhum gozo,

    legitimamente, os deu todos a si. No sei se

    2 - Em portugus: Barthes, Roland, A cmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. (NdoT).

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    possvel afirmar isto, porm, tenho a impresso de

    que posso estar seguro de que, como dizem

    ingenuamente as famlias em luto, ele teria gostado

    desse pensamento. Traduza-se: a imagem desse eu

    de Barthes, que Barthes escreveu em mim, porm,

    que nem ele nem eu consideramos verdadeiramente

    como algo essencial; essa imagem afirmo no

    presente quem ama em mim esse pensamento,

    goza com ele, aqui e agora, e me sorri. Desde que li

    La chambre claire, a me de Roland Barthes, que

    nunca conheci, me sorri neste pensamento, como

    sorri ao que ela infunde de vida e reanima de prazer.

    Ela lhe sorri e, portanto, tambm a mim, em mim,

    desde porque no? a Fotografia do Jardim de

    Inverso, desde a invisibilidade radiante de um olhar

    da qual ele apenas nos disse que foi claro, to claro.

    A primeira vez que li o primeiro e o ltimo

    Barthes foi com a ingenuidade admitida de um

    desejo, como se ao ler sem deter-me, de uma s

    tirada, esse primeiro e ltimo Barthes, se tratasse de

    um nico volume com o qual me confinei em uma

    ilha; foi afinal para v-lo todo, para sab-lo todo. A

    vida prosseguiria (me restava tanto ainda por ler),

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    mas acaso uma histria ia a flagrar, atada a si

    mesma, a Histria convertida em natureza nessa

    aliana entre elas duas, como se...

    Acabo de escrever as maisculas de

    Natureza e Histria. Ele o fazia quase sempre. Com

    uma freqncia massiva em Le degr zro de

    lcriture, desde seu incio (Nada pode inclui r, sem

    afetao, sua liberdade de escritor na opacidade da

    lngua, porque atravs dela toda a Histria se

    preserva completa e unida como uma Natureza).

    Porm o fez inclusive no La chambre claire (ante

    quem sei que se amam, penso: o amor como

    tesouro o que vai desaparecer, desde o momento

    em que eu j no me encontre aqui, nada poder

    ser sua testemunha: apenas permanecer a

    Natureza indiferente. um dilaceramento to agudo,

    to intolervel que, s contra o sculo, Michelet

    concebeu a Histria como um juramento de amor).

    Agora bem, ele colocava em jogo as maisculas que

    eu mesmo tinha usado por mimetismo para citar.

    So aspas (assim se disse) que longe de marcar a

    hipstase, sublevam, alegam, nomeiam o

    menosprezo e a incredulidade. Creio que ele no

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    acreditava nesta oposio (nem em outras). Servia-

    se delas como de passagem. Mais tarde, quis

    mostrar que os conceitos, fundamentalmente

    opostos em aparncia, adversrios, eram por ele

    empregados um por outro, em uma composio

    metonmica. Era algo que podia inquietar

    determinada lgica, embora a opusesse

    vigorosamente com a maior fora, a enorme fora do

    jogo, como uma maneira ligeira de mobiliz-la ao

    desarticul-la.

    Como se: um atrs dos outros como se fora

    um idioma a surgir, para finalmente entender seu

    negativo ante os meus olhos; como se o andar, o

    porte, o estilo, o timbre, o tom, o gesto de Roland

    Barthes, tantas rubricas obscuramente familiares e

    reconhecveis entre muitas, estivessem a me revelar

    abruptamente seu segredo, um dos mais secretos,

    escondidos por trs dos outros (eu chamo secreto,

    tanto uma intimidade como uma maneira de atuar:

    no imitvel), de um s golpe, o trao nico disposto

    subitamente plena luz; e, no obstante, como eu

    haveria de reconhec-lo no que escreveu sobre a

    fotografia unria naturalmente contra ela, j que

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    anula o pungente no estudioso, o punctum no

    studium. Eu meditei: parecia o ponto de

    singularidade, antes de propagar-se no trao,

    porm, afirmando-se continuamente desde o

    primeiro livro at a sua interrupo no ltimo

    quando, apesar de tudo, resistia de diversas

    maneiras s mutaes, as agitaes, aos

    deslocamentos de terreno, diversidade dos

    objetos, dos corpos e dos contextos. Ocorria como

    se instncia do invariante me fosse entregue tal

    como finalmente era - em algo, em um detalhe. Sim.

    Exigia de um detalhe esse xtase revelador, o

    acesso instantneo a Roland Barthes (a ele, apenas

    a ele), a graa de um acesso alheio a toda busca.

    Esperava a revelao deste detalhe agora

    totalmente visvel e dissimulado (evidente) que dos

    grandes temas, os contedos, os teoremas, as

    estratgias das escrituras que acreditava conhecer e

    reconhecer facilmente desde um quanto de sculo

    atrs atravs dos distintos perodos de Roland

    Barthes (os que ele mesmo distinguiu em Roland

    Barthes par Roland Barthes3 como fases e

    3 - Em portugus: Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes, So Paulo, Estao Liberdade, 2003 (NdoT).

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    gneros). Busquei como ele, e na situao em que

    escrevo desde a sua morte, em que certo

    mimetismo um dever (acolh-lo, identificar-se com

    ele para lhe deixar a palavra, e faz-lo presente e

    represent-lo com fidelidade) e, na pior das

    tentaes, a mais indecente, a mais mortfera, o

    dom e a suspenso do dom, tratar de escolher.

    Como ele, eu buscava o frescor de uma leitura

    nessa relao com o detalhe. Seus textos me so

    familiares e ainda desconhecidos. Essa a minha

    certeza, como ocorre verdadeiramente com todos os

    textos que me importam. A palavra frescor a sua,

    joga um papel essencial na axiomtica de Le degr

    zro de l criture. O interesse pelo detalhe tambm

    foi o seu. Benjamin via no engrandecimento analtico

    do fragmento ou do significante nfimo um lugar de

    cruzamento entre a era da psicanlise e aquela da

    reprodutibilidade tcnica, da cinematografia, da

    fotografia, etc. (Tendo despertado tanto pelos

    recursos da anlise fenomenolgica como pela

    estrutural, ultrapassando-os, o ensaio de Benjamin e

    o ltimo livro de Barthes podiam muito bem ser os

    dois textos fundamentais sobre a questo do

    Referente na modernidade tcnica.) Punctum

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    traduz ademais, em La chambre claire, um valor

    palavra detalhe: um ponto de singularidade que

    penetra a superfcie da reproduo e inclusive da

    produo, - das analogias, das semelhanas, dos

    cdigos. Essa singularidade penetrada me alcana

    de um golpe, me fere ou me assassina e, em

    princpio, parece olhar diretamente para mim. Est

    em sua definio aquilo que se dirigia a mim. A mim

    se dirige a singularidade absoluta do outro, o

    Referente cuja imagem prpia eu no posso

    suspender mesmo quando sua presena se oculta

    para sempre (razo pela qual a palavra Referente

    podia incomodar, se o contexto no a modificara),

    quando ele se encontra fundido j, enquanto

    passado. A mim, se encaminha tambm a solido

    que desfaz a trama do mesmo, as redes ou os ardis

    da economia. Porm, sempre a singularidade do

    outro, lugar que incide em mim sem dirigir-se a mim,

    sem que esteja presente em mim e o outro possa

    ser eu; eu antes de ter sido ou, tendo sido, eu morto

    agora, no futuro anterior ou no passado anterior da

    fotografia. Em meu nome, acrescentarei. Mesmo

    que, como sempre, parea ligeiramente marcada;

    creio que esse alcance do Dativo e do Acusativo que

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    me conduz ou me destina o punctum, essencial

    categoria, em todo caso, na forma que se encontra

    empregada em La chambre claire. Ao relacionar

    duas exposies diferentes do mesmo conceito, v-

    se com claridade que o punctum me remete ao

    instante e ao lugar de onde eu o inscrevo; assim

    que o pungente da fotografia me fere. Em sua

    superfcie mnima, o ponto mesmo se divide: esta

    dupla pontuao desorganiza em seguida o unrio e

    o desejo que ali se ordena. Primeira exposio:

    ele (o punctum) o que surge da cena, como uma

    flecha, e me transpassa. Existe uma palavra em

    latim para designar esta ferida, esta espetada, este

    corte feito por um instrumento pontiagudo; esta

    palavra me vem tanto mais quando4 remete,

    tambm, idia de pontuao e a idia de que as

    fotos que falo, esto, de fato, pontuadas, s vezes,

    inclusive, infestadas desses pontos sensveis;

    4 - Esta a forma do que eu buscava: o que acontece, o que no acontece e no vale mais para ele; como sempre, ele declara que busca o que vem e o que acontece a ele, o conveniente, o que se ajusta como uma pea de roupa, mesmo que seja uma roupa feita e moda, deve submeter-se ao habitus inimitvel de um s corpo. Eleger, ento, suas palavras, novas e muito velhas, no tesouro das lnguas, como se elege uma pea de roupa e o tomar em considerao em seu todo: a estao, a moda, o lugar, a tela, o tom, o corte.

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    precisamente, essas marcas, essas feridas so

    pontos. A esse segundo elemento que vem

    desordenar o studium, ento, chamarei punctum, j

    que punctum tambm furo, pequeno orifcio,

    pequena mancha, pequeno corte e, ainda, lance

    de dados. O punctum de uma foto esse acaso que,

    nela, me punge (porm, tambm, me mortifica e me

    golpeia). O parntese no encerra algo incidental

    ou uma idia secundria, como acontece com

    freqncia; no o dito em voz baixa sob o ngulo

    de pudor. E, em outro lugar, vinte pginas adiante,

    Barthes abre outra exposio: ao passar em revista

    os interesses sensatos despertados em mim por

    determinadas fotos, me parecia confirmar que o

    studium, - que no se encontra atravessado,

    aoitado, zebrado por um detalhe (punctum) que me

    convida ou me fere, - engendrava um tipo de foto

    muito difundido (o mais disseminado do mundo), e

    que poderamos chamar de fotografia unria.

    A sua maneira, e o modo pelo qual exibe,

    pe em jogo e interpreta o par studium / punctum,

    relatando ao mesmo tempo o que faz, e nos

    entregando suas notas; de imediato, escutamos a

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    msica. Essa precisamente sua maneira. Fazer

    surgir lenta, com prudncia, a oposio studium /

    punctum, o versus aparente da barra, em um novo

    contexto antes do qual parecia no existir

    oportunidade alguma de que viesse a aparecer. D-

    lhe essa oportunidade ou a acolhe. Sua

    interpretao pode parecer em princpio um pouco

    artificiosa, engenhosa, elegante, porm, perfeita; por

    exemplo, na passagem que leva do punctum ao me

    punge e ao pungente. Porm, impe pouco a pouco

    sua necessidade, sem dissimular o artifcio por baixo

    de nenhuma pretendida natureza. Faz a

    demonstrao de seu rigor no decorrer de todo o

    livro, e este rigor se confunde com a sua

    produtividade, com a sua fecundidade realizadora. O

    faz conferir a maior quantidade de sentido, de poder

    descritivo ou analtico (fenomenolgico, estrutural e,

    contudo, indo mais alm). O rigor nunca rgido. O

    flexvel, uma categoria que creio indispensvel para

    descrever de todas as maneiras, todas as maneiras

    de Barthes. A virtude da flexibili dade se exerce sem

    o menor vestgio de trabalho, no entanto, desvenda

    pouco o seu desaparecimento. Nunca a abandona,

    mesmo que se trate de teoria, de estratgia de

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    escrita, de intercmbio social, e legvel at em sua

    grafia; a leio como a reafirmao extrema dessa

    civilidade que, em La chambre claire e ao falar de

    sua me, leva at o limite da moral e, inclusive, at a

    se submeter a ela. Flexibilidade, por sua vez, ligada

    e desligada, como j se disse da escritura ou do

    esprito. Tanto no vnculo como na desvinculao

    nunca exclui a eqidade, - ou a justia; imagino que

    honrou essa flexibili dade em segredo at nas

    escolhas impossveis. Aqui, o rigor conceitual de um

    artifcio se mantm flexvel e brincalho, dura o

    tempo de um livro, e ser til a outros, porm,

    apenas convm perfeitamente a seu signatrio,

    como um instrumento que no se presta a nada,

    como a histria de um instrumento. Porque,

    sobretudo e em primeiro lugar, esta aparente

    oposio (studium / punctum) no s evita a

    proibio seno que, pelo contrrio, favorece certa

    composio entre os dois conceitos. O que devemos

    entender por composio? Um conjunto de coisas

    que se compem em conjunto: 1) Separados por um

    limite impossvel de transpor, os dois conceitos

    estabelecem entre si compromissos, um com o outro

    se compem, e reconheceremos a, de imediato

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    280

    uma operao metonmica, sutil, do fora de campo,

    que corresponde ao punctum, que, em sua

    qualidade de exterior ao campo se compe de

    acordo com o modo sempre codificado do studium.

    Pertence-lhe sem pertencer-lhe, impossvel de ser

    localizado, no se inscreve jamais na objetividade

    homognea de seu espao enquadrado, porm, o

    habita, ou melhor, o assedia: um suplemento, o

    que acrescenta foto e que no obstante j estava

    ali. Somos uma presa do poder fantasmtico do

    suplemento, essa condio no localizada. Esse

    precisamente o que d lugar ao espectro. O

    Espectador somos ns, todos os que cotejamos as

    colees de fotos nos peridicos, nos livros, nos

    lbuns ou nos arquivos. E aquele ou aquela que

    fotografado o alvo, a referncia, uma espcie de

    pequeno simulacro, de eidolon emitido pelo objeto,

    que eu chamaria com gosto de Spectrum da

    Fotografia, porque essa palavra conserva, atravs

    de sua raiz, uma relao com o espetculo e o

    incorpora a esta coisa um tanto terrvel que existe

    em toda fotografia: o retorno do morto. Desde o

    momento em que cessa de opor-se ao studium

    mantendo-se ao mesmo tempo heterogneo, desde

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    o momento em que no pode sequer distinguir entre

    dois lugares, dos contedos ou duas coisas, o

    punctum no se submete completamente ao

    conceito, se entendemos por ele uma determinao

    predicativa distinta e adversria. Esse conceito do

    fantasma to pouco apreensvel, in totum, como o

    fantasma de um conceito. Nem a vida nem a morte,

    seno o assdio de um pelo outro. O versus da

    oposio conceitual to inconsistente como o o

    obturador fotogrfico. A Vida / a Morte: o paradigma

    se reduz a um simples obturador, o que estabelece

    a separao entre a pose inicial e o papel final.

    Fantasmas: o conceito do outro no mesmo, o

    punctum no studium, a morte completamente outra

    que vive em mim. Esse conceito da fotografia,

    fotografia como toda oposio conceitual, descobre

    nela uma relao de encantamento que constitui

    quem sabe toda a lgica.

    Penso em um segundo sentido da

    composio. Desta maneira: 2) na oposio

    fantasmtica de dois conceitos, no par S / P

    (studium / punctum), a composio tambm a

    msica. Abrir-se-ia aqui um extenso captulo:

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    282

    Barthes msico. Poderia se colocar, como uma nota,

    este exemplo analgico (para comear): entre os

    dois elementos heterogneos S e P, posto que a

    relao no seja j a excluso simples, quando o

    suplemento do punctum parasita o espao

    assediado do studium, possvel dizer entre

    parnteses, discretamente, que o punctum vem

    conferir seu ritmo ao studium, decomp-lo: O

    segundo elemento vem quebrar (ou decompor) o

    studium. Esta vez no sou eu quem vai busc-lo

    (como tenho investido com a minha conscincia

    soberana o campo do studium), ele quem parte da

    cena, como uma flecha, e vem me atravessar. Uma

    palavra existe em latim... punctum. Quando a

    mtrica foi marcada, a msica chega, ao p da

    mesma pgina, de outro lugar. A msica mais

    precisamente a composio: analogia da sonata

    clssica. Como fazia com freqncia, Barthes vai

    descrever seu caminho, e entregar-nos tambm o

    relato do que fez, fazendo (o que chamou de suas

    notas); o faz com cadncia, com medida, e pouco a

    pouco, com circunspeo e prudncia, com o

    sentido clssico da medida, marca as etapas (alm

    de sublinhar, para insistir e talvez para jogar, quem

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    sabe, ponto contra ponto ou ponto contra estdio

    neste ponto de minha busca). Barthes dar a

    entender, em poucas palavras, com um movimento

    ambguo de modstia e de desafio, que no tratar o

    par de conceitos S e P como essncias vindas de

    um lugar alm do texto que est por escrever e que

    autoriza certa pertinncia filosfica geral. No levam

    a verdade seno ao interior de uma insubstituvel

    composio musical. So motivos. Se si os quer

    transportar para outro lugar, e possvel, til,

    necessrio, preciso proceder a uma transposio

    analgica, e a operao no ter xito alm da

    media onde outro opus, outro sistema de

    composio os arraste consigo de maneira tambm

    original e insubstituvel. Escreve sobre isto:

    Havendo distinguido na Fotografia dois temas (j

    que, em resumo, as fotos que amo estavam

    construdas maneira de uma sonata clssica)

    podia ocupar-me sucessivamente de um e do outro.

    Seria preciso regressar mtrica do

    studium por um punctum que no o oposto,

    mesmo se si mantm como o radicalmente outro

    que vem para duplic-lo, para ligar-se a ele, para

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    compor-se com ele. Penso agora em uma

    composio em contraponto, em todas as formas

    cultas do contraponto e a poli fonia, na fuga.

    A Fotografia do jardim de Inverno o

    punctum invis vel do livro, no pertence ao corpus

    das fotografias que ele mostra, nem a srie de

    exemplos que analisa e exibe. E, sem sombra de

    dvida, irradia todo o livro. Uma espcie de

    serenidade vem aos olhos de sua me, cuja

    claridade ele descreve sem que seja jamais visvel.

    O radiante se compe com a ferida que inscreve no

    livro um signo, um punctum invis vel. Neste ponto

    ele j no fala de luz ou da fotografia, que nada tem

    mais a ver; ele pronuncia a voz do outro, o

    acompanhamento, o canto, o acorde, e a ltima

    msica: Mais ainda (j que intento dizer esta

    verdade) esta Fotografia do Jardim de Inverno era

    para mim como a ltima msica que escreveu

    Schumann antes de fundir-se na loucura, esse

    primeiro Chant de lAube, que concorda to bem

    com o ser de minha me e a pena que sofro por sua

    morte; no podia falar esta concordncia seno

    mediante uma sucesso infinita de adjetivos. E, em

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    outro lugar: em um sentido, nunca falei para ela,

    nem discorri ante ela; pensava sem dizer que a

    ligeira insignificncia da linguagem, a suspenso

    das imagens devia ser o espao mesmo do amor,

    sua msica. Para ela, to forte que era minha Lei

    interior, a vivi, no final, como um menino feminino.

    O que por ele houvera querido evitar: no as

    avaliaes (seria possvel ou mesmo desejvel?)

    seno tudo aquilo que se insinua na avaliao mais

    implcita para remeter ao cdigo (inclusive ao

    studium). Por ele, haveria querido, sem conseguir,

    escrever no limite, o mais prximo do limite, porm,

    tambm, mais distante da escrita neutra, branca,

    inocente, cuja novidade histrica e infidelidade

    perderam importncia, simultaneamente, no Le

    degr zro de l criture: Se a escrita

    verdadeiramente neutra... ento a literatura est

    vencida... Desgraadamente nada mais infiel que

    a escrita branca; os automatismos se elaboram no

    mesmo lugar onde se encontrava no princpio uma

    liberdade, uma rede de formas enrijecidas

    preenchem a frescura primeva do discurso. No se

    trata aqui de superar a Literatura, seno impedir

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    que, como um saber, se feche sensatamente sobre

    a ferida singular, uma ferida sem falta (nada mais

    insuportvel e mais cmodo que todos os

    movimentos de culpa no luto, com todos os seus

    espetculos inevitveis).

    Escrever (lo). Ao amigo morto em si dar de

    pressente a sua inocncia. O que eu queria ter

    querido evitar, evitar-lhe: a dupla ferida de falar dele,

    aqui e agora, como de um vivo ou como de um

    morto. Nos dois casos desfiguro, firo, durmo ou

    mato. Porm, a quem? A ele? No. A ele em mim?

    Em ns? Em vocs? O que quer dizer isso? Que

    ns permanecemos entre ns? verdade, porm,

    talvez, um pouco simples. Roland Barthes nos olha

    (cada um por dentro, cada um pode dizer que seu

    pensamento, sua recordao, sua amizade olha

    ento s a ele) e o seu olhar, mesmo que cada u m

    de ns disponha dele tambm, a sua maneira,

    segundo o seu lugar e sua histria, no fazemos o

    que queremos. Ele est em ns porem no com a

    gente; no dispomos dele como de um momento ou

    de uma parte de nossa interioridade. E o que ento

    nos olha pode ser indiferente ou amante, terrvel,

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    287

    disposto ao reconhecimento, atento, irnico,

    silencioso, com fastio, reservado, fervente ou

    sorridente, criana ou envelhecido; em uma palavra

    pode, em ns, dar todos os signos da vida ou da

    morte que extrairmos da reserva definida de seus

    textos ou de nossa memria. O que queria evitar

    no a Novela e a Fotografia, seno alguma coisa

    que existe em uma e outra, e no nem a vida e

    nem a morte; algo que ele disse antes que eu (e

    sobre o que voltarei sempre a promessa, a

    promessa de regressar, que no mais um recurso

    fcil de composio). Nunca c onseguirei evit-lo, em

    particular porque esse ponto se deixa sempre

    apropriar pelo tecido que ele mesmo dilacera sobre

    o outro, e um vu de studium torna a se formar.

    Porm, quem sabe, valha mais no chegar at l e

    preferir no fundo o espetculo da insuficincia, do

    fracasso, do truncado? (No irrisrio, ingnuo e

    propriamente pueril se apresentar-se ante um morto

    para pedir-lhe perdo? Isso tem sentido? Ao menos

    que isso seja a origem do sentido em si mesmo? A

    origem em uma cena que algum realizaria ante

    outros que o obserevam e personificam tambm o

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    morto? Uma boa anlise da puerilidade em questo

    seria aqui necessria, porm insuficiente).

    Duas infidelidades, uma escolha impossvel:

    por um lado, no dizer nada que o recorde, que

    recorde a sua prpria voz, calar-se ou pelo menos,

    fazer-se acompanhar ou emanar, em contraponto,

    atravs da voz do amigo. Ento, por um fervor de

    amizade ou de reconhecimento, tambm por

    aprovao, contentar-se com citar, com acompanhar

    o que corresponde ao outro, mais ou menos

    diretamente, ceder-lhe a palavra, anular-se frente a

    ela, seguir-la, diante dele. Porm, esse excesso de

    fidelidade terminar por no dizer nada, terminar

    por no intercambiar nada. Regressa, deste modo,

    morte. Remete a ela, remete a morte para a morte.

    Pelo contrrio, ao evitar toda citao, toda

    identi ficao, inclusive toda aproximao, para que

    tudo o que se dirija a Roland Barthes ou fale dele

    venha, em verdade do outro, do amigo vivo, se

    enfrenta o risco de faz-lo desaparecer ainda mais,

    como se fora possvel acrescentar morte morte,

    pluraliz-la indecentemente. Restaria fazer e deixar

    de fazer ambos de uma s vez. Corrigir uma

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    infidelidade com outra. De uma morte outra:

    essa a inquietude que me fez colocar o comeo em

    plural?

    Agora, e com freqncia, eu sei que escrevi

    para ele (digo sempre ele, escrever a ele, dirigir-me

    a ele, evit-lo). Muito antes destes fragmentos. Para

    ele: porm quero rememorar obstinadamente, para

    ele, que hoje no se trata de respeito, portanto de

    respeito vivo, de ateno viva capacidade do

    outro, ainda que coloque de fora o nome de Roland

    Barthes que estar s da em diante, que no deve

    expor-se sem trgua, sem debilidade, sem

    misericrdia, a esta evidncia demasiado

    transparente para no ser ultrapassada

    imediatamente: Roland Barthes o nome de quem

    j no pode nem escut-lo nem suport-lo. E ele

    (no o nome, e sim o portador), quando eu

    pronunciar o seu nome que deixou de s-lo, no

    acolher nada do que digo aqui acerca dele, para

    ele, mais alm do nome, porm, ainda, no nome. A

    ateno viva se afasta em direo ao que no pode

    mais receb-la, se precipita em direo ao

    impossvel. Porm, se o seu nome no mais seu, -

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    o foi alguma vez? Quero dizer simplesmente,

    unicamente?

    Casualmente o impossvel se converte, s

    vezes, em possvel: como utopia. isso o que ele

    dizia antes de sua morte, porm, para si, sobre a

    Fotografia do Jardim de Inverno. Porm, mais alm

    das analogias, ela realizava para mim,

    utopicamente, a cincia impossvel do ser nico. E

    o dizia unicamente, restitudo para sua me e no

    para a me, porm a singularidade pungente no

    contradiz a generalidade, esta no o probe usar

    como lei, apenas a flecha e a faz signo. Singular

    plural. Existe desde a primeira linguagem, com a

    primeira marca, outra possibilidade, outra

    oportunidade que a dor desse plural? E a

    metonmia? E a homonmia? Poder-se-ia sofrer de

    outra coisa, porm, se poderia falar sem elas?

    O que poderamos chamar um pouco

    apressadamente a mathesis singularis o que para

    ele se realizava utopicamente ante a Fotografia do

    Jardim de Inverno: impossvel e ocorre,

    utopicamente, metonimicamente, a partir do que ele

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    marca, de que ele escreve, inclusive, antes da

    linguagem. Barthes fala pelo menos duas vezes de

    utopia em La chambre claire. As duas vezes entre a

    morte de sua me e a sua, na medida em que confia

    esta escrita: Morta ela, no tenho razo alguma

    para me acoplar marcha do Vivente superior (a

    espcie). Minha particularidade no podia, ento,

    jamais universalizar-se (mais que utopicamente,

    pela escrita, cujo projeto devia converter-se ento no

    fim ltimo de minha vida).

    Quando digo Roland Barthes a ele que

    nomeio, bem alm de seu nome. Porm, como a

    partir deste momento ele inacessvel ao chamado,

    como a nominao incapaz de converter-se em

    invocao, apelao, apstrofe (se supormos que,

    revogada hoje, esta possibilidade jamais pode ser

    pura), a ele em mim a quem nomeio, atravesso o

    seu nome para ir direo dele em mim, em ti, em

    ns. O que passa em relao a ele e se diga dele

    subsiste entre ns. O pesar comeou neste ponto.

    Quando, porm? Porque, antes desse

    acontecimento inqualificvel chamado morte, a

    interioridade (do outro em mim, em ti, em ns) havia

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    empreendido a sua obra. Desde a primeira

    nominao, havia precedido a morte como o tivera

    feito outra morte. O nome, por si mesmo, o tornou

    possvel: esta pluralidade de mortes. E, inclusive, se

    a relao entre elas fora somente analgica, a

    analogia seria singular, sem medida comum com

    nenhuma outra. Antes da morte sem analogia nem

    relevo, antes da morte sem nome e sem frase, antes

    dessa morte ante a qual nada temos que dizer e

    imperativo o silncio, antes dessa morte que

    chamada minha morte total, no dialtica, antes da

    ltima, os outros movimentos de interiorizao eram,

    por sua vez, mais ou menos poderosos, poderosos

    de outro modo, mais ou menos seguros de si

    mesmos, de outro modo. Mais: no se encontravam

    ainda perturbados ou interrompidos pelo silncio de

    morte do outro que vem chamar fora dos limites de

    uma interioridade falante. Menos: a apario, a

    iniciativa, a resposta ou a intruso imprevis vel do

    outro vivo invocam tambm este limite. Vivo Roland

    Barthes no se reduz ao que cada um de ns

    imagina, ou ao que podemos pensar crer ou saber e

    recordar dele. Porm, uma vez morto o far? No,

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    porm o risco da iluso ser mais forte e mais dbil,

    outra, em todo o caso.

    Inqualificvel , contudo, uma palavra que

    tomo emprestada dele. Inclusive, se lhe imponho

    certa deportao, esta j se encontra marcada pelo

    que eu j tinha lido em La chambre claire.

    Inqualificvel designava nesse texto uma forma de

    vida, - esta, a sua, foi breve depois da morte de sua

    me, - uma vida semelhante j morte, uma morte

    antes da outra, mais de uma, que imitava de

    antemo. Isso no impediu seu carter acidental,

    imprevisvel, vindo de um fora incalculvel. Este

    semelhante, talvez, autoriza a exilar o inqualificvel

    da vida at a morte. esta a psyche: Se disse que

    o luto, por seu trabalho progressivo, apaga

    lentamente a dor; no devia e no o posso crer,

    porque, para mim, o Tempo elimina a emoo da

    perda (no choro), tudo. Respeito aos demais,

    tudo est imvel. Porque o que eu perdi no foi a

    Figura (a me), seno um ser, e no um ser, seno

    uma qualidade (uma alma): no indispensvel,

    porm, insubstituvel. Eu poderia viver sem Me

    (todos ns o fazemos, mais cedo ou mais tarde);

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    porm, a vida que me restava seria seguramente e

    at o fim, inqualificvel (sem qualidade).

    A cmara clara diz mais, sem dvida, que a

    cmara lcida, nome deste aparato anterior

    fotografia e que se ope cmara escura. -me

    impossvel no associar a palavra claridade, onde

    quer que ela aparea ao que ele disse, muito antes,

    de sua me menina, da claridade de seu rosto.

    Acrescenta em seguida: ... a pose ingnua das

    mos, o lugar que havia ocupado com docilidade,

    sem mostrar-se e sem ocultar-se.

    Sem mostrar-se e sem ocultar-se. No se

    trata da Figura da Me, seno de sua me. No

    deveria haver, no deveria haver a, nesse caso,

    metonmia, o amor protesta (eu podia viver sem a

    Me).

    Sem mostrar-se e sem ocultar-se. Isso foi o

    que ocorreu. Ela havia ocupado j o seu lugar

    docilmente, sem a iniciativa da menor atividade,

    com a passividade mais doce, e ela no se mostra

    nem se oculta. A possibilidade dessa possvel

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    derrota fragmenta toda unidade, e o amor;

    desorganiza todos os discursos originados do

    studium, as coerncias tericas e as filosofias. A

    estas preciso decidir entre a presena e a

    ausncia, aqui e ali, o que s revela e o que se

    dissimula. Aqui, ali, a outra nica, sua me, aparece,

    quer dizer, sem aparecer, visto que o outro no

    aparece, seno desaparecendo. E ela sabia faz-

    lo, inocentemente, porque na pose sem pose de sua

    me encontra-se a qualidade da alma do menino

    que a decifra. No disse mais e nada. No disse

    mais e nada destaca.

    De novo a claridade, a fora da evidncia,

    como ele disse, da Fotografia. Porm, isso implica

    em presena e ausncia, no se mostra nem se

    oculta. Na passagem sobre a cmera lcida, cita

    Blanchot: a essncia da imagem estar de fora, por

    completo, sem intimidade e, contudo, mais

    acessveis e misteriosas que o pensamento de foro

    ntimo; sem significao, porm invocando a

    profundidade de todo sentido possvel; no revelado

    e, contudo, manifesto, tendo esta presena-ausncia

    que constitui o atrativo e a fascinao das Sereias.

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    A aderncia do referente fotogrfico sobre

    o que ele insiste e com toda justia: no se relaciona

    com um presente, nem com um real, seno com o

    outro, e cada vez de maneira distinta de acordo com

    o tipo de imagem (fotogrfica o no, depois de

    haver tomado todas as precaues diferenciais

    possveis, no havamos reduzido o que ele disse de

    especfico da fotografia, a supor que sua pertinncia

    se entende a outros lugares: diria, inclusive, a todos

    os lados. Trata-se de reconhecer, desta vez, a

    possibilidade de suspender o Referente (no a

    referencia), em qualquer lugar que se produza,

    mesmo na fotografia, e sustar um conceito ingnuo

    de Referente, aquele que se admite com tanta

    freqncia).

    Pequena classificao sumria e

    completamente preliminar, a sensatez em si: h, no

    tempo que nos vincula aos textos e a seus

    presunosos signatrios, famosos, autorizados, ao

    menos t rs possibilidades. O autor pode j estar

    morto, no sentido mais comum do termo, no instante

    que comeamos a l-lo, quando esta leitura nos leva

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    297

    a escrever sobre ele, como se diz, mesmo que se

    trate de seus escritos ou dele mesmo. Os autores

    que no se conheceu em vida, que no foram

    encontrados, amados (ou no), so os mais

    numerosos. Esta a-simbiose no exclui certa

    modalidade do contemporneo (e vice-versa);

    implica, tambm, interiorizao, um luto a priori com

    ricas possibilidades, uma completa experincia da

    ausncia cuja originalidade eu no posso descrever

    aqui. Podemos falar, logo aps, de uma segunda

    possibilidade, os autores que vivem no momento em

    que os lemos, quando esta leitura nos leva a

    escrever sobre eles, etc. Como uma bifurcao da

    mesma possibilidade, podemos saber-los vivos,

    conhec-los ou no, termos com eles encontrado,

    amado (ou no), etc., e a situao pode mudar com

    respeito a eles; podemos encontr-los depois de

    termos comeado a l-los (tenho uma recordao

    muito viva do primeiro encontro com Barthes),

    milhes de relevos podem assegurar a transio: as

    fotografias, a correspondncia, a publicao das

    declaraes, as gravaes. Depois h uma terceira

    ocasio, quando ocorre a morte e aps ela,

    daqueles tambm conhecidos, encontrados,

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    298

    amados, etc. Agora bem, acontece que me ocorreu

    escrever no rastro de ou sobre textos de autores

    mortos a muito tempo, antes mesmo de que eu os

    estivesse lido (por exemplo, Plato ou Joo de

    Patmos5) ou cujos autores vivem no momento em

    que escrevo: o que o mais perigoso em aparncia.

    Porm, o que eu acreditava impossvel, indecente,

    injustificvel, o que desde j muito tempo, de

    maneira mais ou menos secreta e resoluta, me havia

    prometido nunca fazer (cuidando o rigor, a fidelidade

    se si quer e porque se quer e porque esta vez foi

    demasiado grave), escrever ante a morte, no

    depois, muito depois da morte, regressando a ela;

    seno ante a morte, na ocasio da morte, nas

    recopilaes de celebrao, de homenagem,

    escritos memria daqueles que em vida haviam

    sido meus amigos, demasiado presentes em mim

    para que alguma declarao, ou mesmo alguma

    anlise ou estudo no me parea intolervel nesse

    momento preciso.

    - Porm, e o silncio, ento? No por

    acaso outra ferida, outra injria?

    5 - Tambm conhecido como So Joo, Joo Evangelista ou Apstolo Joo.

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    - A quem?

    - Sim, a quem ns fazemos oferenda e por

    qu? Que fazemos quando intercambiamos este

    discurso? A quem ns velamos? Buscamos anular a

    morte ou conserv-la? Intentamos por em regra,

    satisfazer ou liquidar contas? Com o outro, com os

    outros afora, em si? Quantas so as vozes que se

    cruzam, ento? Que se vela e se retoma, se

    estreitam e se abraam com efuso ou passam uma

    junto da outra em silncio? Ir algum entregar-se a

    avaliaes de ltima instncia? A assegurar-se de

    que a morte no ocorreu ou que irreversvel e que

    desta maneira se est imunizado com o regresso do

    morto? Ou ainda, converter-se em seu aliado (o

    morto est comigo), se pr do seu lado, exibir seus

    contratos secretos, aniquil-lo ao exalt-lo, o reduzir

    ao que uma atrao literria ou retrica pode ainda

    conter quando se cobra valor mediante estratgias

    cuja anlise seria interminvel, como todas as

    armadilhas do trabalho de luto individual ou

    coletivo? E ademais, esse chamado trabalho cai

    como o nome de um problema. Se trabalhar ,

    tambm, dialetizar a morte, a mesma que Roland

    Barthes chamava: de no dialtica. (Eu no podia

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    300

    mais que esperar a minha morte, total, no

    dialtica).

    Um pedao de mim como um pedao da

    morte. Dizer as mortes acaso dialetiz-las ou o

    contrrio? (porm estamos aqui em um limite no

    qual querer satisfaz bem menos). Luto e

    transferncia. Em uma entrevista com Ristat,

    quando se tratou da prtica da escrita e da auto-

    anlise disse, recordo: A auto-anlise no

    transferencial, e nisto, talvez, no estejam de acordo

    os psicanalistas. Sem dvida. Talvez, haja, sem

    dvida, transferncia na auto-anlise, em particular

    quando passa pela escrita e pela literatura; porm,

    joga de outra maneira, joga mais e as

    transferncias do jogo aqui so essenciais.

    Comparada com a possibilidade de escrever, ns

    temos necessidade de outro conceito de

    transferncia (mas, existiu um alguma vez?).

    O que mais acima se expressou com ante a

    Morte, em ocasio da morte: toda uma srie de

    solues t picas. As piores ou a pior em cada uma

    delas, vil ou ridcula, contudo, no obstante, to

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    freqente: manobrar mais, especular, obter um

    benefcio que seja sutil ou sublime, tirar do morto

    uma fora suplementar dirigida contra os vivos,

    denunciar, injuriar mais ou menos diretamente aos

    sobreviventes, para autorizar, legitimar e elevar-se

    altura de onde a morte, supe-se, ergueu o outro, e

    se por ao abrigo de toda suspeita. Existem outras

    menos graves, certamente, porm, no deixam de

    ser: fazer uma homenagem com um ensaio tratando

    da obra ou de uma parte da obra legada, discorrer

    sobre um tema com que se tem segurana de que

    havia captado o interesse do autor desaparecido

    (cujos gostos, curiosidades e programa no

    deveriam causar surpresa). O tratamento assinalaria

    ainda a dvida, a satisfaria suficientemente e,

    considerando o contexto, se faria a adaptao do

    tema. Por exemplo, na Potique, seria preciso

    sublinhar agora o imenso papel que jogou e

    continuar jogando a obra de Barthes no campo

    aberto da literatura e da teoria literria ( legtimo,

    preciso fazer e fao). E depois, por que no,

    entregar-se, como em um exerccio feito possvel e

    influenciado por Barthes (iniciati va que graas a sua

    memria, encontra aprovao em ns), anlise de

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    302

    um gnero ou de um cdigo discursivo, das regras

    de um cenrio social, faz-lo com essa mincia

    vigilante que, por pior que seja, sabia desarmar-se

    com certa compaixo desiludida, uma elegncia um

    pouco descuidada que o levava a abandonar a

    partida (eu mesmo o vi vrias vezes se enfurecer:

    por questo de tica ou de fidelidade). De qu

    gnero se trata? E ento? Aquele, por exemplo, que

    neste sculo se fez s vezes de orao fnebre?

    Estudar-se-ia o corpus de declaraes nos

    peridicos, nas cadeias de rdio ou de televiso, se

    analisaria as recorrncias, as restries retricas, as

    perspectivas polticas, as exploraes dos indivduos

    ou de grupos, os pretextos tomada de posio,

    para a ameaa, intimidao ou aproximao (penso

    no semanrio que, por motivo da morte de Sartre,

    depois de obter suas fotos para envolv-las at com

    a justia, ousou movimentar um processo para

    quem, - uns poucos, - no havia dito nada a

    respeito, ou porque estavam viajando ou por deciso

    prpria, e queles que no haviam dito o que era

    preciso. A todos acusava de ainda ter medo de

    Sartre). Em seu tipo clssico, a orao fnebre

    possui algo de bom, sobretudo quando permitia

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    interpelar diretamente o morto e, s vezes, ampar-

    lo. A morte em mim certamente uma fico

    suplementar, sempre com os outros ao redor do

    sarcfago, que apstrofo dessa maneira; porm

    em seu excesso caricatural, o exagero retrico

    marcava, pelo menos, que era preciso permanecer

    ali, unicamente entre ns. necessrio interromper

    o comrcio dos sobreviventes e desgarrar o pretexto

    sobre o outro, o outro morto em ns, porm, outro, e

    as certezas religiosas de outra vida poderiam

    acolher favoravelmente esse como se.

    As mortes de Roland Barthes: suas mortes,

    aqueles e aquelas, os seus que esto mortos e

    cujas mortes o teriam habitado e localizar os lugares

    ou as instncias graves, tumbas orientadas em seu

    espao interior (sua me, para terminar e, sem

    dvida, para comear). Suas mortes, aquelas que

    ele viveu no plural, que encadeou intentando em vo

    dialetiz-las antes da absoluta no dialtica,

    essas mortes que, em nossa vida, constituem

    sempre uma srie aterrorizante que jamais termina.

    Porm, como ele as viveu? No existe resposta

    mais impossvel e proibida do que esta. Porm, nos

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    ltimos anos um movimento se precipitou; parece-

    me ter sentido algo como uma acelerao

    autobiogrfica, como se dissera: sinto que me resta

    pouco tempo, devo me ocupar, em princpio, desse

    pensamento de morte que comea como o

    pensamento e como a morte, na memria do idioma.

    Contudo vivo e como escritor, escreveu uma morte

    de Roland Barthes, por ele mesmo. E, finalmente,

    suas mortes, esses textos sobre a morte, tudo o que

    escreveu, marcando enfaticamente o deslocamento

    sobre a morte, sobre o tema que, se si quer, poderia

    ser ele da Morte, se que existe. Da Novela

    Fotografia, de Le degr zro de l criture (1953) a La

    chambre claire (1980), certo pensamento da morte

    ps tudo em movimento, ou melhor, o lanou em

    uma viagem, em uma espcie de travessia at um

    lugar alm de todos os sistemas que confinam, de

    todos os saberes, de todas as positividades

    cientficas cuja novidade tentou desde o Aufk lrer6;

    e ao descobridor que havia nele por um tempo, o

    tempo de um trajeto, de uma contribuio que s

    6 - Aufklrer, em Kant, tem o sentido de maioridade e descreve a situao do indivduo esclarecido, a autonomia, o momento fundamental para a compreenso positiva de liberdade. (NdoT).

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    depois dele se tornou indispensvel, quando ele j

    se encontrava em outra parte e o dizia, ao franquear

    com uma modstia calculada, com uma cortesia que

    esclarece uma exigncia rigorosa e uma tica

    intratvel como uma fatalidade idiossincrtica

    assumida com inocncia. No principio de La

    chambre claire, disse para si mesmo, falou sobre o

    seu incmodo de sempre: ser um sujeito vacilante

    entre duas linguagens, uma expressiva e a outra

    crtica; e no seio desta ltima, entre muitos

    discursos, os da sociologia, da semiologia e da

    psicanlise, - porm, (me digo), pela insatisfao em

    que me encontro finalmente ante uns e outros, rendo

    testemunho do nico fato que com segurana me

    ocorreu (por mais ingnuo que tenha sido): a

    resistncia arrebatada a todo sistema redutor. J

    que, toda vez, tendo j realizado algo e

    experimentava alguma coisa da consistncia deles,

    ao senti-los se resvalar reduo e a reprimenda,

    os abandonava suavemente e me punha a falar de

    outra maneira. O mais distante desta travessia ,

    sem dvida, o grande final, o grande enigma do

    Referente, como o chamou durante os ltimos vinte

    anos e a morte, justamente, nada tem a ver com

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    isso (ser preciso voltar a isto com outro tom). Em

    todo caso, desde Le degr zro de l criture, o mais

    distante da literatura como literatura, a

    modernidade literria, a literatura a produzir-se e

    produzir sua essncia como o seu prprio

    desaparecimento, mostrando-se e ocultando-se por

    sua vez. (Mallarm, Blanchot...), tudo isso passa

    pela Novela, e a Novela uma morte: A

    modernidade comea com a busca de uma literatura

    impossvel. Assim, na Novela se encontram esses

    aparatos ao mesmo tempo destrutivo e passvel de

    ressurreio, prprios de toda a arte moderna... A

    Novela uma Morte; faz da vida um destino, da

    recordao um ato til, e da durao um tempo

    direcionado e significativo. Agora bem, a

    possibilidade moderna da fotografia (arte ou tcnica,

    aqui pouco importa) o que conjuga em um mesmo

    sistema a morte e o referente. No esta a primeira

    vez que ocorre, e esta conjugao, para ter uma

    relao essencial com a tcnica reprodutiva, o com

    a tcnica em si, no esperou Fotografia. Porm, a

    demonstrao imediata que carrega o dispositivo

    fotogrfico, ou a estrutura do res duo que deixa atrs

    de si, so acontecimentos irredut veis, cuja

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    originalidade indelvel. o fracasso ou, em todo

    caso, o limite de tudo que, na linguagem, a literatura

    e as demais artes, parecem sustentar alguns

    teoremas toscos sobre a suspenso geral do

    referente, ou daquele que, por uma significao s

    vezes caricaturesca encobria-se classificado nesta

    categoria ampla e vaga. Agora bem, pelo menos no

    instante em que o punctum dilacera o espao, a

    referncia e a morte encontram uma coincidncia na

    fotografia. Porm, devemos falar a referncia ou o

    referente? A mincia analtica deve estar aqui

    medida do desafio e a fotografia a submete a uma

    prova: a, o referente est visivelmente ausente,

    suspenso, desaparecido na ocasio nica e passada

    do j acontecido, porem a referncia a esse

    referente, poderamos dizer, o movimento

    intencional da referncia (j que neste livro Barthes

    aflui justamente fenomenologia) implica

    irredutivelmente o haver-sido de um nico e

    invariante referente. Implica este retorno do morto

    na estrutura mesmo da sua imagem e do fenmeno

    de sua imagem. Isto , o que no se produz, - ou,

    pelo menos, no da mesma maneira, porque a

    implicao e a forma da referncia assumem outros

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    caminhos e desvios em outro tipo de imagens ou de

    discursos, digamos, de marcar, em geral. Desde o

    prinpio, em La chambre claire, a desordem que

    introduz a fotografia atribuda, fundamentalmente,

    nica vez do referente, uma s vez que j no se

    deixa reproduzir ou pluralizar, uma vez cuja

    implicao referencial se encontra inscrita na prpria

    estrutura do fotograma, seja qual for o nmero de

    suas reprodues ou mesmo o arti fcio de sua

    composio. Da a obstinao do Referente por

    estar sempre ali. Dir-se-ia que a Fotografia sempre

    leva consigo seu referente, ambos fustigados pela

    mesma imobilidade fnebre ou amorosa..., em

    suma, o referente se adere. E esta aderncia

    singular.... Mesmo que j no se encontre ali, o seu

    ter-estado-ali formando parte da estrutura referencial

    ou intencional de minha relao com o fotograma,

    confere o retorno do referente forma da obsesso.

    um retorno do morto cujo advento espectral no

    espao mesmo do fotograma se assemelha muito ao

    de uma emisso ou ao de uma emanao. uma

    espcie de metonmia alucinante: qualquer coisa,

    um pedao vindo de outro (do referente) que se

    encontra em mim, ante mim, porm, tambm, em

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    mim como um pedao de mim mesmo. (j que a

    implicao referencial tambm intencional e

    noemtica, no pertence ao corpo sensvel ou ao

    suporte do fotograma). E, ademais, o alvo, o

    referente, o eidolon emitido pelo objeto, o

    Spectrum que posso ser eu, visto em uma fotografia

    minha: ... vivo, ento, uma micro-experincia de

    morte (do parntesis): converto-me verdadeiramente

    em espectro. O Fotgrafo sabe bem, ele mesmo tem

    medo (mesmo que seja por razes comerciais)

    desta morte em que seu gesto haver de me

    embalar... converti-me em um Tudo-Imagem, quer

    dizer, a Morte em pessoa... No fundo, aquilo que

    aponto na foto que me toma (a inteno com que a

    observo) a Morte: a Morte o eidos dessa

    Fotografia.

    Transportado por esta relao, puxado ou

    atrado pela peculiaridade desta relao (Zug7,

    Bezug8, etc.), pela referncia ao referente espectral,

    atravessou os perodos, os sistemas, as modas, as

    fases, os gneros marcando e pontuando neles o

    7 - Trao, movimento. (NdoT). 8 - Referncia, relao. (NdoT).

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    studium, passando atravs da fenomenologia, da

    lingstica, da mathesis literria, da semiologia, da

    anlise estrutural, etc. Porm, seu primeiro

    movimento foi o de reconhecer sua necessidade e

    sua fecundidade, o seu valor crtico, a sua luz, e

    volt-los contra o dogmatismo.

    No farei uma alegoria, menos ainda uma

    metfora, porm recordo que foi durante as viagens

    que passei mais tempo a ss com Barthes. s vezes

    frente a frente, quero dizer cara a cara (por exemplo,

    no trem de Paris a Lille ou de Paris a Bordeaux), s

    vezes, cotovelo com cotovelo, separados apenas

    por um corredor (por exemplo, na travessia Paris-

    Nova York-Baltimore, em 1966). O tempo de nossas

    viagens no foi, sem dvida, o mesmo e preciso

    acomodar-se a estas duas certezas absolutas. Se

    eu quisesse e pudesse deixar surgir aqui um relato,

    falar dele tal e como foi para mim (a voz, o timbre,

    as formas de sua ateno e de sua distrao, sua

    maneira corts de estar aqui ou ali, o rosto, as

    mos, a roupa, o sorriso, o cigarro, tantos traos que

    nomeio sem descrev-los porque aqui impossvel):

    mesmo se procurasse reproduzir o que ocorreu

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    antes, que lugar reservar para a advertncia? Que

    lugar sobraria para a imensa extenso dos silncios,

    aos no ditos da discrio, da preveno ou do

    para-que-serve, do que em ns j-nos--muito-

    conhecido, ou do que permanece infinitamente

    desconhecido de uma e da outra parte? Continuar

    falando dele na solido que advm aps a morte do

    outro, esboar a mnima conjectura, arriscar a mais

    tnue interpretao, sinto este esforo como uma

    injria ou como uma ferida in aeternum remexida, -

    e, contudo, tambm, como um dever para com ele.

    Porm, no o cumprirei, ou em todo caso no agora,

    aqui. Sempre a promessa de regresso.

    Como crer no contemporneo? Seria fcil

    demonstrar que seus tempos que parecem

    pertencer mesma poca, so delimitados em

    termos de um registro histrico, fechados, ou de um

    horizonte social, etc., segue sendo infinitamente

    heterogneo e carecem, na realidade, de relao.

    Pode-se ser muito sensvel a ele, porm, tambm,

    ater-se, simultaneamente, em outra vertente, a um

    ser-conjuntamente que nenhuma diferena, que

    ningum diferindo pode ameaar. Este ser-

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    conjuntamente no se reparte de maneira

    homognea em nossa experincia. Existem ns,

    pontos de grande condensao, lugares de enrgica

    avaliao, trajetos virtualmente inevitveis de

    deciso ou de interpretao. A Lei parece produzir-

    se a. O ser-conjuntamente se refere a ele e nele se

    reconhece, mesmo que no se constitua

    precisamente l. Contrariamente ao que se pensa

    com freqncia, os sujeitos individuais que habitam

    as zonas mais indefinveis, no so super-eus

    autoritrios, no dispem de um poder, se possvel

    supor que se dispe do Poder. Como aqueles para

    quem tais zonas se voltam de forma indefinida (e

    tratam, em princpio, de sua histria), e mais do que

    dominar nelas, as habitam, capta nelas um desejo

    ou uma imagem. certa maneira de desfazer-se da

    autoridade; mais ainda, ao contrrio, certa

    liberdade, uma relao confessa com a sua prpria

    finitude, o que confere, por um paradoxo sinistro e

    rigoroso, esse suplemento de autoridade, esse

    resplendor, essa presena que passeia seu

    fantasma por onde eles j no mais esto e de onde

    jamais regressaro; em suma, o que faz com que

    surja sempre esta pergunta, mais ou menos virtual:

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    313

    o que que ele ou ela pensam disto? No que se

    esteja disposto a lhe dar sempre razo, a priori e em

    todas as circunstncias, muito menos que se espere

    um veredicto ou se creia em uma lucidez sem

    debilidades, porm se impe a imagem de uma

    avaliao, um olhar, um afeto, inclusive, antes de

    busc-los. difcil, ento saber quem interpela

    quem com esta imagem. Quisera descrever com

    pacincia, interminavelmente, todos os trajetos

    dessa interpelao, sobretudo quando sua

    referncia passa pela escrita; quando se converte

    em algo to virtual, visvel, plural, dividido,

    microscpico, mvel, infinitesimal, tambm

    especular (posto que a demanda seja com

    freqncia recproca e o trajeto se perde com maior

    facilidade), preciso, chegando aparentemente quase

    a anular-se no zero, no tempo que se exerce to

    poderosamente e de maneira to diversa.

    Roland Barthes o nome de um amigo que

    no fundo, no fundo de uma familiaridade, conhecia

    pouco e cuja obra, evidente, eu no li em sua

    totalidade, quero dizer relido, compreendido, etc. E,

    sem dvida, meu primeiro movimento, muito

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    frequentemente, foi de aprovao, de solidariedade,

    de reconhecimento. Porm, me parece, que nem

    sempre foi assim, e por menos que importe, devo

    dizer, para no ceder demasiado ao gnero. Foi, e

    posso dizer que segue sendo, um daqueles ou

    daquelas de quem sempre me pergunto, desde a

    quase vinte anos, de maneira mais ou menos

    articulada: o que pensa ele disto? No presente, no

    passado, no futuro e no condicional, etc. Sobretudo:

    e porque no o dizer e o surpreender? No momento

    de escrever. Disse em uma carta, faz j muito

    tempo.

    Retorno o pungir, atravs deste par de

    conceitos, esta oposio que no o fantasma

    desta parelha, punctum / studium. Retorno a ela

    porque o punctum parece dizer e para deixar que

    Roland Barthes diga por si mesmo, o ponto desta

    singularidade, a travessia do discurso para o nico,

    o referente como o outro insubstituvel, o que foi, e

    j no ser jamais e retorna como aquele que nunca

    voltar, marca o retorno do morto na mesma

    imagem que o reproduz. Retorno a ele porque

    Roland Barthes o nome daquele que me punge, ou

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    punge aqui o que intento dizer torpemente. Retorno

    a ele, tambm, para mostrar como tratou e deu o

    carter de signo propriamente a esse simulacro de

    oposio. Em princpio, valorizou o absolutamente

    irredutvel do punctum unicidade do referencial

    (recorro a esta palavra para no ter que escolher

    entre referente e referncia; o que se adere

    fotografia menos o referente em si mesmo, na

    efetividade presente de sua realidade, que a

    implicao na referncia do haver-sido-nico). A

    heterogeneidade do punctum rigorosa, sua

    originalidade no sofre nenhuma contaminao, no

    permite nenhuma concesso. E, sem dvida, em

    outros locais, em outros momentos, assumiu

    favoravelmente outra exigncia descritiva, digamos,

    fenomenolgica, porque o livro se apresenta

    tambm como uma fenomenologia. Assumiu o ritmo

    requerido da composio, de uma composio

    musical que mais rigorosamente chamarei de

    contrapontista. preciso reconhecer e, com efeito,

    no se trata aqui de qualquer concesso, que o

    punctum no o que parece. Esse outro absoluto

    que compes com o mesmo, com o seu outro

    absoluto que no o seu oposto, com o lugar do

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    mesmo e do studium ( o limite da oposio binria

    e, sem dvida, de uma anlise estrutural do que o

    prprio studium pode abusar). Se for algo mais ou

    algo menos que o mesmo, assimtrico, - com

    respeito a tudo e em si mesmo, - o punctum pode

    invadir o campo do studium ao qual, sem dvida,

    falando com rigor, no pertence. preciso recordar

    que est fora tanto do campo como do cdigo. Lugar

    da singularidade insubstituvel e do referencial nico,

    o punctum i rradia e, isto o mais surpreendente, se

    presta a metonmia. Assim, quando se deixa arrastar

    aos relevos substitutivos, pode invadir tudo: objetos

    e afetos. Este singular que no se encontra em parte

    alguma dentro do campo, mobiliza tudo e por todas

    as partes, pluraliza. Se a fotografia afirma a morte

    nica, a morte do nico, esta se repete de imediato

    e, como tal, ela mesma, porm, em outro lugar.

    Ele falou que o punctum se deixa levar at a

    metonmia. No assim, ele quem induz a ele, e

    nisso radica sua fora ou, mais do que sua fora

    (porque no exerce uma restrio efetiva, seno que

    se mantm inteiramente em reserva). Seu dynamis

    ou, dito de outra maneira, seu poder, sua

    virtualidade e, inclusive, sua dissimulao, sua

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    latncia. Barthes marca com certos intervalos de

    composio esta relao entre a fora (virtual ou de

    circunspeo) e a metonmia, e aqui devo aludir a

    ela de maneira injustamente abreviada: Por

    fulgurante que seja o punctum tem, mais ou menos

    virtualmente, uma fora de expanso. Esta fora ,

    com freqncia, metonmica. E mais adiante:

    acabo de compreender que por imediato, por

    incisivo que seja o punctum podia conciliar certa

    latncia (porm, jamais, algum exame). Esta

    potencia metonmica mantm uma relao essencial

    com a estrutura suplementar do punctum ( um

    suplemento) e do studium que recebe todo o seu

    movimento, mesmo quando deva contentar-se,

    como o exame, com o girar ao redor do ponto.

    Consequentemente, a relao entre os dois

    conceitos no nem tautolgica nem proposital,

    nem dialtica, nem em forma alguma simtrica;

    suplementar e musical (contrapontista).

    Metonmia do punctum: por mais

    escandaloso que seja permite falar, falar do nico,

    dele e para ele. Deixa em liberdade o trao que o

    vincula ao nico. A Fotografia do Jardim de Inverso,

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    que ele no mostra nem oculta, mas diz, o

    punctum de todo o livro. A marca desta ferida nica

    no se encontra em nenhuma parte, porm a sua

    claridade no localizada (a mesma dos olhos da sua

    me) irradia todo estdio. Faz desse livro um

    acontecimento insubstituvel. E, contudo, apenas

    uma fora metonmica pode assegurar certa

    generalidade no discurso, oferec-lo a anlise e

    propor os conceitos para uma utilizao quase

    instrumental. Porque de outra maneira, como seria

    possvel nos tornarmos balanados pelo que disse

    de sua me sem hav-la conhecido, ela que no foi

    apenas a Me, nem uma me, seno que foi s o

    que foi e cuja foto tirada nesse dia? Como poderia

    pungir-nos se no atuara uma fora metonmica que

    no se confunde com uma facilidade no movimento

    de identificao, seno, precisamente, em seu

    contrrio? A alteridade se mantm quase intacta,

    essa a sua condio. No me coloco em seu lugar,

    no tendo a substituir sua me pela minha. Se o

    fao, ela s pode emocionar-me a partir da

    alteridade sem relao, atravs da unicidade

    absoluta que o poder metonmico vem a me recordar

    sem apag-la. Tem razo quando protesta contra a

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    confuso que se faz entre quem foi sua me e a

    Figura da Me, porm, a potncia metonmica (uma

    parte pelo todo, ou um nome pelo outro, etc.)

    sempre inscrever uma e outra em uma relao sem

    relao.

    As mortes de Roland Barthes: pela

    brutalidade um pouco indecente deste plural talvez

    se possa pensar que eu resisti ao nico; que havia

    negado, evitado, procurado apagar sua morte. Como

    um signo de proteo ou de protesto, de um mesmo

    golpe a havia exposto, a havia entregado,

    precisamente, ao processo de uma estudada

    metonmica. Pode ser, porm, como falar de outra

    maneira sem correr este risco? Sem pluralizar o

    nico. Sem generaliz-lo at no que tem de mais

    insubstituvel, sua prpria morte? No falou ele

    mesmo de sua prpria morte at no ltimo instante

    e, tambm, metonimicamente, de suas mortes? No

    foi ele quem disse o essencial (especialmente em

    Roland Barthes par Roland Barthes: ttulo e

    assinatura metonmicos por excelncia) da vacilao

    indecisa entre falar e calar-se? Mesmo se si pode

    calar falando. O nico pensamento que posso ter

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    que no final desta primeira morte estava j inscrita a

    minha prpria morte; no existe nada entre as duas

    seno a espera; no tenho mais recursos alm

    desta ironia: falar do nada o que dizer. E, mais

    adiante: O horror nisto: nada o que dizer da morte

    de quem mais amo, nada a dizer de sua foto.

    Lamiti9,(A amizade) nessas pginas no

    final do volume que leva este ttulo: no temos o

    direito de mudar nada, seja o que . O que liga

    Blanchot e Bataille foi nico e Lamiti o disse de

    maneira absolutamente singular. Contudo, a fora

    metonmica da escrita mais pungente nos permite ler

    estas pginas, que no significa dizer exp-las, para

    alm de sua reserva essencial. Permite-nos pensar

    aquilo que, no obstante, nunca se abre: no se

    mostra nem oculta. Sem que possamos entrar na

    singularidade absoluta dessa relao, sem esquecer

    que apenas Blanchot pode escrever isso e falar

    somente de Bataille, qui sem que possamos

    compreender tal relao e, em todo caso, sem

    conseguir conhec-la, podemos pensar o que est

    9 - Blanchot, Maurice, LAmiti, Paris, Gallimard, 1971. (NdoT).

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    escrito. No deveramos poder citar, porm assumo

    toda a violncia da citao e, sobretudo, de uma

    citao necessariamente truncada: Como aceitar

    falar deste amigo? Nem como elogio, nem pelo

    interesse de alguma verdade. Os traos do seu

    carter, as formas de sua existncia, os episdios

    de sua vida conforme, mesmo, com a busca da que

    se sentiu responsvel at a irresponsabilidade, no

    pertencem a ningum, a nada. No h testemunho.

    Os mais prximos no dizem seno o que os foi

    mais prximo, no o distante que se afirma nessa

    proximidade; e a distncia cessa quando cessa a

    presena... Apenas buscamos encher um vazio, no

    suportamos a dor: a afirmao desse vazio... Tudo o

    que dissemos tem s um velar da afirmao nica:

    tudo deve desaparecer e no podemos nos manter

    fiel alm da viglia a este movimento que

    desaparece, e a que pertence agora essa alguma

    coisa em ns que repele toda recordao.

    Em La chambre claire, o valor da

    intensidade cuja pista eu sigo (dynamis, fora,

    latncia) conduz a uma nova equao

    contrapontista, a uma nova metonmia da prpia

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    metonmia, da virtude substitutiva do punctum. o

    tempo. No este o ltimo recurso para a t roca de

    um instante absoluto por outro, para a substituio

    do insubstituvel, desse referente nico por outro

    que ainda outro instante, completamente outro e

    ainda o mesmo? No o tempo, a forma e a fora

    pontuais de toda a metonmia, a sua ltima

    instncia? Fao aqui uma passagem de uma morte

    outra, a de Lewis Payne para a de Roland Barthes,

    essa passagem parece atravessar (entre outras, se

    nos atrevermos a dizer) pela Fotografia do Jardim de

    Inverno. E sobre o tema do Tempo. Em resumo,

    uma sintaxe aterrorizante onde encontro, em

    princpio, a mostra de uma concordncia singular na

    transio entre S e P: ... A foto bela, o rapaz

    tambm.... E, h aqui a passagem de uma morte

    para outro: Agora sei que existe outro punctum

    (outro estigma) alm do detalhe. Este novo

    punctum que no mais forma seno intensidade,

    o Tempo, a nfase dilacerante do noema (isso

    aconteceu), sua representao pura. Em 1865, o

    jovem Lewis Payne tentou assassinar o secretrio

    de estado americano W. H. Seward. Alexander

    Gardner, o fotgrafo, o esperava em sua cela: o

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    rapaz esperava a forca. A foto bela, o rapaz

    tambm: no studium. Porm, o punctum : vai

    morrer. Leio ao mesmo tempo: isso ser isso

    aconteceu; observo com horror um futuro anterior

    cuja aposta era a morte. Ao me dar o passado

    absoluto da pose (aoristo), a fotografia me fala sobre

    a morte em tempo futuro. O que me punge o

    descobrimento desta equivalncia. Ante a foto de

    minha me menina; digo a mim mesmo: morrer.

    Tremo como o psictico de Winnicott, ante uma

    catstrofe que j ocorreu. Esteja ou no morto o

    sujeito, toda a fotografia uma catstrofe. E, mais

    adiante: Porque existe sempre nela esse signo

    imperioso de minha morte futura, cada foto, mesmo

    se estivera plenamente enraizada no mundo

    excitado dos vivos, vem a interpelar a cada um de

    ns, um a um, alheia a toda generalidade (porm,

    no alheia a toda transcendncia).

    O Tempo: metonmia do instantneo, a

    possibilidade do relato emanada pelo seu prprio

    limite. Na modernidade tcnica de seu dispositivo, o

    instantneo fotogrfico no poder ser em si mesmo

    outra coisa que a metonmia mais surpreendida de

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    uma instantaneidade velha. Velha, mesmo que

    jamais seja estranha possibilidade da tekhn no

    geral. Se si tomam mil precaues diferenciais,

    devemos falar de um punctum em toda marca (e a

    repetio, a iterabilidade10 da estrutura), em todo

    discurso, seja literrio ou no. Se assumirmos que

    no se mantm um referencialismo ingnuo e

    realista, o que interessa e anima a nossa leitura

    mais reflexiv