Dissertacao Valter Oliveira5.pdf

of 48 /48
124 (15) Hospital Antônio Teixeira Sobrinho. Década de 1930. Foto: Juventino Rodrigues? Acervo particular da Família Barberino. (16) Hospital Antônio Teixeira Sobrinho. Década de 1930. Foto: Juventino Rodrigues? Acervo particular da Família Barberino. Depois daqueles efusivos anos trinta, em que os ideais de progresso e civilização fizeram parte da sociedade local, foi somente entre as décadas de cinqüenta e sessenta que se encontra novamente o mesmo clima festivo. Com a nova onda de reformas no espaço urbano da cidade, velhos prédios foram abaixo para a construção de novas formas de arquitetura sob a ótica da civilização e do progresso (Imagem 25 do capítulo 2). Naquele período, o fotógrafo Osmar Micucci acompanhou as transformações ocorridas na paisagem urbana. Pela vasta documentação encontrada do fotógrafo, pôde ser identificado, entre os anos 1950 e 1960, um significativo número de imagens da arquitetura privada e pública, nova ou reformada na cidade. Isso leva à compreensão de que existia uma vontade coletiva de se preservar na memória fotográfica as imagens daqueles edifícios. A hipótese é reforçada pela existência em grande número de repetições de temas entre outros fotógrafos, como Amado Nunes e Lindenício Ribeiro, tanto no mesmo período como em épocas diferentes. Pelo visto existia clientela suficiente para o consumo

Embed Size (px)

Transcript of Dissertacao Valter Oliveira5.pdf

  • 124

    (15) Hospital Antnio Teixeira Sobrinho. Dcada de 1930. Foto: Juventino Rodrigues? Acervo particular da Famlia Barberino.

    (16) Hospital Antnio Teixeira Sobrinho. Dcada de 1930. Foto: Juventino Rodrigues? Acervo particular da Famlia Barberino.

    Depois daqueles efusivos anos trinta, em que os ideais de progresso e civilizao

    fizeram parte da sociedade local, foi somente entre as dcadas de cinqenta e

    sessenta que se encontra novamente o mesmo clima festivo. Com a nova onda de

    reformas no espao urbano da cidade, velhos prdios foram abaixo para a

    construo de novas formas de arquitetura sob a tica da civilizao e do progresso

    (Imagem 25 do captulo 2). Naquele perodo, o fotgrafo Osmar Micucci

    acompanhou as transformaes ocorridas na paisagem urbana. Pela vasta

    documentao encontrada do fotgrafo, pde ser identificado, entre os anos 1950 e

    1960, um significativo nmero de imagens da arquitetura privada e pblica, nova ou

    reformada na cidade. Isso leva compreenso de que existia uma vontade coletiva

    de se preservar na memria fotogrfica as imagens daqueles edifcios. A hiptese

    reforada pela existncia em grande nmero de repeties de temas entre outros

    fotgrafos, como Amado Nunes e Lindencio Ribeiro, tanto no mesmo perodo como

    em pocas diferentes. Pelo visto existia clientela suficiente para o consumo

  • 125

    daquelas imagens na cidade, seja atravs de contrataes prvias ou pela aquisio

    das mesmas atravs de lbuns ou postais.

    Em 1959, Osmar Micucci produziu uma srie de fotografias externas e internas da

    Capela do Bom Jesus da Glria. No plano externo, parecendo fazer referncia

    antiga imagem de Juventino Rodrigues, ele fixou atravs de sua cmera, no mesmo

    ngulo e enquadramento, uma apario da capela aps restauro (Imagem 17). Nos

    planos internos, ele colheu detalhes da pintura do antigo braso gravada no arco

    triunfal do alto da nave (Imagem 18) e do imaginrio religioso existente na igreja.

    Tudo leva a crer que estivesse prestando servio para algum ou para alguma

    instituio interessada na preservao do monumento, provavelmente para o ento

    prefeito Florivaldo Barberino que, em 1960, entrou com solicitao ao SPHAN

    Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional - para a inscrio e tombamento

    daquele e de outro monumento do municpio: a Igreja de So Miguel das Figuras,

    com a colaborao do historiador franciscano Frei Venncio Willeke164. No livro do

    referido autor foram encontradas outras fotografias da igreja, sem nenhuma

    identificao de autoria, onde se v uma foto com Amado Barberino e Florivaldo

    Barberino em pose ao lado do armrio da sacristia165. Pelo que se percebe, numa

    poca em que cresciam, em vrias cidades, as discusses sobre a preservao de

    monumentos histricos no Brasil, o prefeito quis gravar seu nome entre aqueles que

    buscavam inserir Jacobina neste rol de cidades. Enquanto isso, motivados pela

    aventura da modernidade, antigas construes particulares eram derrubadas para a

    edificao de novos prdios.

    164 Conforme texto Ligeiro Histrico das Igrejas de Jacobina, de Amado Barberino (datilografado). 165 WILLEKE, O. F. M. Venncio, Misses franciscanas no Brasil. Petrpolis, 1978, p. 92.

  • 126

    (17-18) Igreja da Misso (Capela do Bom Jesus da Glria) e braso interno. Fotos: Osmar Micucci. 1959. Acervo particular do fotgrafo. (Negativos 6x6cm).

    Nos anos 50, diversos novos prdios, pblicos e particulares, foram construdos,

    modificando pouco a pouco a paisagem urbana de Jacobina. Pelo discurso

    veiculado na imprensa, a cada novo prdio pblico surgido, crescia na populao o

    sentimento de que a cidade estava se modernizando. Muitos daqueles espaos

    foram fotografados na poca por Osmar Micucci. o caso, por exemplo, da agncia

    dos Correios e Telgrafos, inaugurada em 1950 na Rua Senador Pedro Lago. At

    aquele momento, os servios dos correios eram bastante precrios, como demonstra

    Amado Barberino nas suas correspondncias, em 1948, onde constantemente

    reclama dos deficientes servios prestados pelo senhor Correio166. O novo prdio

    surgia como um alento de dias melhores. No se sabe se as mudanas atenderam

    s exigncias do missivista Barberino. Seis anos aps a sua inaugurao, Osmar

    Micucci registrou uma imagem isolada daquela arquitetura que passava a fazer parte

    do cotidiano visual dos passantes no centro da cidade. Foram encontradas,

    inclusive, nas fotografias do prdio, de Micucci e Nunes, constantes presenas de

    pessoas em sua frente. A atitude, aparentemente simples, demonstra na prtica a

    forma de uso do espao visual pela comunidade. Atribuindo ao monumento valor

    esttico a populao deu a ele outro sentido, alm do funcional. Para o fotgrafo de

    rua, ali estava mais um novo motivo e cenrio para as composies das imagens,

    enquanto que para os fotografados ele valia como uma lembrana em frente ao

    edifcio que remetia a novidade na cidade.

    166 Correspondncia de Amado Barberino de 22 de abril de 1948.

  • 127

    (19) Alunas em pose para fotografia em frente ao prdio dos Correios e Telgrafos. 1956. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular do fotgrafo. (Negativo 6x6cm).

    Os usos e valores que a populao faz e atribui cidade devem merecer a devida

    ateno do pesquisador social. As fotografias de indivduos ou grupos diante dos

    monumentos pblicos ou privados representam indcios dessas relaes

    estabelecidas entre a comunidade e a sua cidade. o que diz o historiador de arte

    Guilio Carlo Argan.

    A cidade, dizia Marslio Ficino, no feita de pedras, mas de homens. So os homens que atribuem um valor s pedras e todos os homens, no apenas os arquelogos ou os literatos. Devemos, portanto, levar em conta, no o valor em si, mas a atribuio de valor, no importa quem a faa e a que ttulo seja feita167.

    So os casos tambm dos diversos registros de edificaes residenciais e

    comerciais produzidas naqueles anos na cidade. Ao contratar os servios de um

    fotgrafo para produzir uma imagem de sua residncia pessoal ou estabelecimento

    comercial, acredita-se que, diante da atitude de documentao, estava tambm

    envolvida uma relao tanto de valorizao do carter esttico quanto da

    comemorao do bem privado, aspecto sagrado do capitalismo. Com o advento da

    fotografia, cristalizava-se o sentimento de pertencente ao lugar. O registro retm a

    memria do indivduo em contextos especficos, como no nascimento de

    logradouros (Imagem 7 do captulo 2) e nos locais consagrados e recm-erigidos na

    cidade. Isto o que chama a ateno nas referncias ao envio de fotografias de

    residncias e prdios comerciais para amigos e parentes de outras localidades,

    167 ARGAN, Giulio Carlo. Histria da arte como histria da cidade. Traduo Per Luigi Cabra. So Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 228.

  • 128

    como em uma foto onde Amado Barberino transmite o orgulho pela conquista

    pessoal.

    Junto envio uma fotografia do consultrio do Florivaldo, instalado em prdio prprio, por mim construdo, na antiga Praa da Matriz, hoje Castro Alves, no mesmo local onde tinha minha casa comercial.

    Penso que o prdio no envergonha a terra de Afonso Costa168.

    (20) Prdio residencial da Famlia Barberino. 1956. Foto: Osmar Micucci Acervo particular do fotgrafo. (Negativo 6x6cm).

    interessante a forma como Amado Barberino acreditava que a qualidade esttica

    do seu prdio no envergonharia a terra de Afonso Costa. O missivista refere-se

    Jacobina numa provvel aluso ao artigo Minha Terra, que aquele escritor escrevera

    em 1916 e pelo qual se notabilizou na cidade. Ele bem sabia que Afonso Costa

    naquele texto fora bastante exigente quanto aos traos arquitetnicos das

    edificaes em Jacobina. Costa informa, com pesar, que aps a grande destruio

    de mais de cem casas provocada pela grande enchente de 1914, as novas

    edificaes surgidas eram sem os ditames da esttica das cidades novas. A respeito

    dos trs templos catlicos do sculo XVIII na cidade, o autor comenta a inexistncia

    de traos de estilo clssico que a recomendem como obras de importncia

    arquitetnica169.

    Certamente, movido pelo conceito de arquitetura como produto das belas artes, a

    postura rgida do historiador quanto aos edifcios de sua terra natal seja justificada.

    No vendo ali nenhum monumento que lembre os traos do estilo clssico, Afonso

    168 Correspondncia de Amado Barberino de 16 de maro de 1948. 169 COSTA, Afonso. Minha terra (Jacobina de antanho e de agora). In: Anais do V Congresso Brasileiro de Geografia. Vol. II, 1916, pp. 235-319.

  • 129

    Costa no havia levado em considerao a importncia da cultura local na definio

    dos aspectos dos mesmos. A arquitetura, no entanto, segundo Carlo Argan, uma

    arte por excelncia representativa.

    Na cidade, todos os edifcios, sem excluso de nenhum, so representativos e, com freqncia, representam as malformaes, as contradies, as vergonhas da comunidade170.

    Provavelmente a busca de uma aproximao do estilo clssico levou, entre fins da

    dcada de 40 e incio de 50, a sede da Loja

    Manica de Jacobina a ser construda com

    duas colunas na sua entrada sugerindo

    classicismo. Este tipo de detalhe foi bastante

    difundido em reparties pblicas no Brasil.

    Aquele edifcio, ainda que distante das

    representaes clssicas, destaca-se na

    paisagem da cidade pela sua imponncia em

    relao ao entorno, o que provavelmente

    tenha sido a inteno. Anos mais tarde,

    Amado Nunes em sua atividade de flneur

    pela cidade deixou registrado atravs de suas

    lentes uma imagem do imvel. Devido

    estreiteza da rua onde se localiza e pela falta de um equipamento com lente de

    grande angular, o fotgrafo no conseguiu capturar uma imagem diretamente frontal

    do edifcio.

    Pelo que foi demonstrado, v-se que as fotografias da arquitetura em Jacobina

    cumpriram sua funo de conservar na memria iconogrfica os padres de estilos

    de cada poca. O que antes se considerava como atribuio apenas do monumento

    edificado, com o tempo, a prpria fotografia, pelos seus diversos usos e funes,

    assumiu o papel tambm de advertir e de lembrar. Como disse Franoise Choay,

    A fotografia contribui, alm disso, para a semantizao do monumento-sinal. Com efeito, cada vez mais pela mediao de sua imagem, por sua circulao e difuso, na imprensa, na televiso e no cinema, que esses sinais se dirigem s sociedades contemporneas. Eles s se constituem signo

    170 ARGAN, Giulio Carlo. Op. Cit., p. 243.

    (21) Prdio da Loja Manica. Dcada de 1960. Foto: Amado Nunes. Acervo Memria Fotogrfica de Jacobina. (Cpia digitalizada).

  • 130

    quando metamorfoseados em imagens, em rplicas sem peso, nas quais se acumula seu valor simblico assim dissociado de seu valor utilitrio171.

    Pelo que foi notado, em Jacobina o papel assumido pela fotografia nesta

    semantizao dos monumentos foi tambm fundamental. Atravs de seus usos, a

    fotografia despertou ateno dos seus contemporneos para os monumentos da

    cidade e legou s geraes vindouras as imagens-sinais daqueles signos

    arquitetnicos.

    Os usos e funes da fotografia na poca foram alm dos registros de vistas

    urbanas e monumentos. Na dcada de 50, Osmar Micucci contribua para o

    desenvolvimento do fotojornalismo na cidade. o que se observa com a cobertura

    fotogrfica da visita do presidente Juscelino Kubitschek a Jacobina. Um grande

    nmero de polticos de diversas localidades da micro-regio e parte da populao

    local foram ver de perto o chefe supremo da nao e sua grande comitiva que a

    bordo de vrios avies pousaram no aeroporto local. Pelo que se ver, a fotografia

    cumpriu tambm com a funo de monumentalizar eventos histricos na cidade.

    JK em Jacobina: imagens desvendando histrias

    Philippe Dubois, ao chamar a ateno para os limites da referncia na imagem

    fotogrfica, diz que a foto no explica, no interpreta, no comenta. muda e nua,

    plana e fosca. O observador da fotografia v nela apenas signos que so

    semanticamente vazios 172. Compete ao analista de imagens interpretar estes

    signos como mensagens e informaes. A operao de anlise do artefato

    fotogrfico como uma atividade de desvendamento de mistrio. A imagem por

    natureza enigmtica, e cabe ao historiador buscar, atravs dela, outras histrias por

    trs dos seus sinais. Ocorre que no cruzamento de suas mensagens com as de

    outras mdias, como os jornais, por exemplo, chega-se por vezes a lugares

    diferentes. Foi o que algumas fotografias da visita do presidente Juscelino

    171 CHOAY, Franoise. A alegoria do patrimnio. Traduo Luciano Vieira Machado. 3 ed. So Paulo: Estao Liberdade: UNESP, 2006, p. 22. 172 DUBOIS, Philippe. O ato fotogrfico e outros ensaios. Traduo Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993, p. 84.

  • 131

    Kubitschek Jacobina revelaram neste estudo, onde aps longas investigaes nos

    jornais da poca pde ser confrontado com as imagens do evento.

    Juscelino Kubitscheck simbolizou para o Brasil daqueles anos 50 o arauto do

    desenvolvimentismo. Sua figura ficou marcada como a imagem do homem ao.

    Sua presena em Jacobina foi interpretada pela populao como smbolo da fase

    urea vivida pela cidade. Para a historiadora Vnia Maria Losada Moreira, JK foi,

    dentre todos os presidentes eleitos da experincia democrtica dos anos 1946-1964,

    aquele que mais se destacou como homem pblico de ao173. Governando dentro

    dos limites constitucionais, ele realizou uma srie de obras e reformas dentro do

    pas em um governo que, segundo a autora, se resumia com as idias de

    movimento, ao e desenvolvimento. Apesar de centralizar as atenes na sua obra

    sntese, que era a construo de Braslia, o presidente fez uma srie de viagens

    pelo nordeste do pas entre os anos de 1957 e 1958, quando a regio atravessava

    mais uma das suas secas assoladoras. JK colocou o Nordeste na sua agenda

    procurando promover um projeto desenvolvimentista para a regio, que acabou

    culminando na criao da Superintendncia do Desenvolvimento do Nordeste

    (SUDENE), em 1959.

    Em Jacobina, o jornal Vanguarda foi um grande defensor do governo JK. Por

    diversas vezes o peridico publicou textos enaltecedores da figura do presidente

    como grande administrador e de suas obras de governo, a exemplo da construo

    de Braslia174. Em uma das colunas assinadas pelo pseudnimo Braz Cubas175 tem-

    se uma idia do tom eufrico da linha editorial do jornal.

    Quando imagino o que ser o Brasil de amanh, com a Capital no centro do pas, forando abertura de estradas para a periferia, formando um leque de artrias por onde correr o sangue da terra, produzindo a riqueza da Nao, tenho mpeto e anseios de sair pelo Brasil afora gritando Aleluias em todos os ouvidos brasileiros, pela glria da terra que se vai levantar deixando de ser

    173 MOREIRA, Vnia Maria Losada. Os anos JK: industrializao e modelo oligrquico de desenvolvimento rural. In: DELGADO, Lucilia de Almeida N. e FERREIRA, Jorge (orgs.). O tempo da experincia democrtica: da democratizao de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003, p. 157. 174 Jornais Vanguarda, n 446, de 31 de maio de 1958, p.1. (Homenageado o Presidente da Repblica); n 449, de 21 de junho de 1958, p.1. (O Caminho do Oeste), e, n 464, de 05 de outubro de 1958, p.1 (Cresce Vertiginosamente a Populao de Braslia). 175 Brs Cubas foi um personagem de Machado de Assis que valorizava e criticava a repblica brasileira em seus primeiros anos, perodo de Floriano Peixoto, quando foi preso por aqueles que defendiam.

  • 132

    gigante deitado para ser gigante erguido altivamente em gesto esplndido176.

    Enquanto no cenrio poltico nacional o Vanguarda, em vrios momentos, aplaudiu o

    governo JK, no cenrio local fazia uma tmida oposio ao deputado Rocha Pires, na

    poca lder do Partido Republicano da cidade. Esta interpretao se deve porque

    aos discursos feitos a respeito do citado deputado, que so geralmente dbios,

    muitas vezes se usava um colunista com pseudnimo para lhes fazer crticas. Isso

    traduz, em parte, tanto a timidez poltica do Vanguarda quanto o perfil autoritrio de

    Rocha Pires na cidade, exatamente num perodo em que a liberdade de expresso

    da imprensa nacional era a marca do mandato do presidente JK. Por ser um jornal

    atrelado a uma faco poltica na cidade, ele fazia efusivos elogios ao jovem

    Edvaldo Valois Coutinho, presidente do PSD local, e posteriormente deputado.

    A passagem do presidente Juscelino Kubitschek por Jacobina, em 1957, foi

    certamente o maior evento que Osmar Micucci cobriu naqueles primeiros anos como

    fotgrafo de reportagem. O jovem de dezenove anos teve, pela primeira vez, a

    oportunidade de aprimorar as habilidades de reprter fotogrfico e justamente com a

    visita de um presidente em exerccio. Foi a primeira e nica vez que um evento

    daquela natureza ocorreu em Jacobina. Micucci contou que, sendo ainda estudante,

    teve que faltar ao ginsio naquele dia para acompanhar toda a recepo do

    presidente e sua comitiva no aeroporto, que seria inaugurado pela ocasio da

    chegada de JK cidade.

    Primeiro eu deixei de ir at para o Ginsio. Eu fazia o curso ginasial. Ento percorri todos os locais que ele percorreu, um dos mais distantes foi a inaugurao da energia eltrica [...] l tinha dois grandes motores, e fotografei a sada dele e passei nos dias seguintes na casa do deputado Rocha Pires, em p em uma caixa vendendo as fotografias da chegada de JK em Jacobina177.

    de se imaginar o clima de agitao ocasionado no cotidiano da pequena cidade

    diante de tal evento. Pela primeira vez, um presidente e uma grande comitiva

    visitavam a regio, tendo chegado em vrios avies, cortando o tranqilo cu da

    cidade e pousando no aeroporto local. Segundo informaes dos jornais A Tarde e

    Vanguarda, JK e grande comitiva formada por ministro, senador, deputados,

    engenheiros e tcnicos, chegaram ao aeroporto da cidade s 12:15h na quarta-feira 176 Jornal Vanguarda, n 405, de 17 de agosto de 1957, p.2. (Instantneos LVI). 177 Entrevista com Osmar Micucci de Figueiredo em 18 de novembro de 2005.

  • 133

    de 6 de novembro de 1957178. L foram recebidos pelo deputado Rocha Pires e o

    prefeito Orlando Oliveira Pires. Aps inaugurarem o aeroporto partiram para o centro

    da cidade, onde o presidente discursou para o pblico que o aguardava na Praa

    Rio Branco.

    Enquanto o jornal A Tarde arrastou por vrias edies as crticas sobre a ausncia

    do governador Antnio Balbino na recepo ao presidente em Jacobina, o

    Vanguarda direcionou suas crticas ao deputado Rocha Pires, atentando para o fato

    da pouca presena de pessoas no evento, para o aspecto improvisado da

    ornamentao na cidade, que recebia os ilustres visitantes, e para a comprovao

    da ausncia de influncia poltica do deputado na visita do presidente179. Os jornais

    noticiaram a vinda do presidente e aproveitaram para fazer oposio aos dirigentes

    polticos locais.

    Aps os discursos, todos almoaram na sede da Sociedade Filarmnica 2 de

    Janeiro e depois inauguraram as instalaes de uma usina termoeltrica na cidade.

    No incio da tarde, o presidente e sua comitiva decolaram para o Estado do Par,

    onde prosseguiriam com a sua caravana pelo Nordeste.

    (22) JK e sua comitiva em pose para fotografia oficial no aeroporto de Jacobina. 1957. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular do fotgrafo. (Negativo 6x9 cm).

    178 Jornal Vanguarda, n 417, de 9 de novembro de 1957, p.1. (A Visita do Presidente da Repblica a Jacobina); Jornal A Tarde de 6 de novembro de 1957. (Hoje, em Jacobina, o presidente da Repblica). 179 Jornal Vanguarda, n 418, de 16 de novembro de 1957, p.2. (Fatos e Coisas da Poltica).

  • 134

    Existem entre os negativos de Osmar Micucci algumas imagens de pessoas que

    estiveram no campo de pouso do aeroporto da cidade. Pelo visto, a visita do

    presidente rendeu clientes para o fotgrafo no s no meio poltico. O jovem

    Micucci, que j dominava os segredos do

    laboratrio fotogrfico, em poucos dias

    disponibilizou suas imagens para vender

    aos dirigentes polticos e populao

    local, vida por possuir uma lembrana

    do dia da visita de JK a Jacobina.

    Conforme diz Jeziel de Paula: As pistas

    e vestgios encontrados nas fotografias,

    bem mais do que fornecer respostas,

    sugerem perguntas e formulam

    conjecturas, levando a uma

    (re)explorao de outras fontes

    historiogrficas180. Alguns negativos encontrados despertaram curiosidades por

    causa de pequenos detalhes existentes nas imagens, chamando a ateno para

    certos aspectos pontuais daquele evento na cidade. Esses detalhes nas fotografias

    funcionaram como pistas que levaram a perceber a existncia de certos episdios

    ocultos na memria oficial da cidade. Parafraseando o que disse Carlo Guinzburg

    com relao ao mtodo indicirio por ele sugerido, pode-se crer que se a imagem

    parece ser opaca, existem zonas privilegiadas que permitem decifr-la, levando-se a

    perceber o que est alm do horizonte da prpria imagem181.

    180 DE PAULA, Jeziel. 1932: imagens construindo a histria. Campinas/Piracicaba: Editora da UNICAMP/Editora UNIMEP, 1998, p. 31. 181 GUINZBURG, Carlo. Sinais: razes de um paradigma indicirio. In: Mitos, emblemas, sinais: morfologia e histria. Traduo Federico Carotti. So Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 143-179.

    (23) A populao aproveitou a oportunidade para guardar uma lembrana fotogrfica do dia do presidente na cidade. 1957. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular do fotgrafo. (Negativo 6x6cm).

  • 135

    (24-25) Praa Rio Branco durante a presena do presidente Jucelino Kubitschek. Fotos: Osmar Micucci. Acervo particular do fotgrafo. (Negativos 6x9cm).

    (26) JK discursando em palanque na Praa Rio Branco. 1957. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular

    do fotgrafo. (Negativo 6x9cm).

    As fotografias produzidas por Osmar Micucci daquele comcio na Praa Rio Branco

    no foram veiculadas no jornal local e nem em outros da poca. Percebe-se que, ao

    contrrio do que menciona o jornal Vanguarda, as imagens de Micucci demonstram

    uma grande multido presente na cidade para assistir ao comcio de perto as falas

    do presidente. Pelo enquadramento das suas fotos possvel enxergar a praa

    totalmente preenchida de pessoas. Pelo visto, aquelas fotografias colaboraram para

    fazer do evento uma festa mais brilhante do que poderia ter sido, ou do que os

    jornais Vanguarda e A Tarde mencionaram.

    Observa-se em uma fotografia (Imagem 25), onde o presidente discursa em

    palanque armado, que uma pessoa da multido no canto esquerdo porta uma

  • 136

    bandeirola com o nome de Jango. Pelo que se nota, a segunda pessoa da direita

    para a esquerda no palanque tambm segura uma daquelas bandeirolas, como foi

    identificado em outras fotografias do mesmo dia. Joo Goulart, ento vice de

    Juscelino, que embora anteriormente tenha sido divulgado pelo Vanguarda como

    participante desta comitiva, por motivos que no foi possvel descobrir, no chegou a

    acompanhar o presidente a Jacobina. No entanto, foi possvel descobrir que Jango

    no era benquisto por muitos polticos na regio, afinal era o comunista temido

    pelas oligarquias que apoiavam o governo de JK na cidade. Por sua vez, nota-se

    que as presenas de partidrios seus ocuparam importante espao na cena poltica

    daquele evento, com destaque para a deputada federal baiana Nita Costa, que

    pronunciou efusivo discurso conforme noticiou o Vanguarda182. Pelo visto o nome de

    Joo Goulart estava bem trabalhado na visita de JK embora nenhum dos jornais

    abordasse o fato.

    Em Jacobina, o que se conhece por janguismo esteve muito vinculado figura do

    advogado Ivanilton Costa Santos. Segundo informe do jornal Vanguarda ele havia

    instalado seu escritrio de advocacia na cidade em 1957. Associado pelas

    oligarquias locais como homem vinculado ao comunismo, com sua imagem

    dinmica, ao contrrio, atraiu adeptos entre vrias pessoas na cidade, inclusive

    jovens estudantes motivados pela idia de mudana nas estruturas do poder local.

    o que sugere o relato de uma atual liderana poltica de esquerda na cidade que na

    poca foi aluno de Ivanilton no ginsio:

    (...) O valor que teve Ivanilton em minha opinio foi de chacoalhar uma estrutura que vinha desde os anos vinte, se no me falha a memria, com os Pires e os Morais. Ento aquela coisa das famlias estava enraizada. Eu entendo que o Ivanilton teve essa vantagem (...)183

    Em 1962, a oposio local ao Deputado Rocha Pires lanou o nome de Ivanilton

    Santos para as eleies municipais e, mesmo aps o festejado mandato de

    Florivaldo Barberino, ele conseguiu grande votao nas urnas, perdendo para o

    medico ngelo Brando, candidato lanado pelo deputado Rocha Pires, por apenas

    43 votos. Segundo alguns depoimentos, ngelo Brando exerceu o mandato sob

    uma forte suspeita de fraude nas urnas, no conseguindo emplacar seu nome de

    182 Jornal Vanguarda, n. 418, de 16 de novembro de 1957, p.2. (Fatos e coisas da poltica). 183 Entrevista com Jos Lages em 19 de abril de 2007.

  • 137

    maneira expressiva na poltica local. Pela postura vacilante, seu nome figura entre

    diversas anedotas da poltica local. o que aborda, por exemplo, o advogado e ex-

    prefeito Fernando Daltro com referncia ao golpe de 31 de maro de 1964:

    (...) ns tnhamos um servio de auto- falante que divulgava as noticias por toda a cidade. s oito horas do dia da revoluo, oito horas da manh, o prefeito ngelo Brando passou um telegrama para o presidente da repblica, dizendo que Jacobina hipotecava atravs deste toda a solidariedade porque estava do lado da legalidade, e no poderia concordar com aquilo. Quando a revoluo foi vitoriosa, ele passou um telegrama ao comando revolucionrio, dizendo que Jacobina estava do lado da revoluo porque realmente aquele regime no poderia continuar (...)184

    Com a implantao do regime militar, Ivanilton Santos foi perseguido politicamente e

    preso sob denncia de vinculao ao comunismo. Depois da priso ele foi forado a

    sair da cidade. Pelo que se percebe, aquele registro fotogrfico da visita de JK em

    Jacobina um indicativo de pistas que levam a uma histria da presena de foras

    esquerdistas na cidade, ocultadas pelas verses veiculadas pela imprensa.

    (27) O prefeito Orlando Pires e o presidente Juscelino Kubitschek cortando faixa de inaugurao de

    obra. 1957. Foto: Autor no identificado. Acervo Memria Fotogrfica de Jacobina. (Cpia digitalizada).

    184 Entrevista com Fernando Mrio Pires Daltro em 15 de dezembro de 2005.

  • 138

    Em uma imagem daquele dia, ainda sem a devida identificao quanto a sua autoria,

    o fotgrafo registrou o momento oficial de inaugurao da usina termoeltrica da

    cidade, quando o presidente JK corta a faixa, tendo ao lado o prefeito Orlando

    Oliveira Pires. Esta foi uma das poucas fotografias, at ento encontradas, onde se

    v lado a lado aqueles que segundo o

    Vanguarda eram os dois grandes

    administradores pblicos da poca.

    Uma imagem simblica, oficial, e

    bastante difundida na cidade at os

    dias de hoje como memria de uma

    fase de glria poltica. No foi

    encontrada nenhuma informao que

    comprove a atuao de Aurelino

    Guedes na passagem de JK por

    Jacobina. No entanto, pelas

    evidncias da presena deste fotgrafo na cidade durante aquele perodo e por seu

    perfil de reprter fotogrfico sempre presente nos grandes eventos pblicos, tudo

    leva a crer que ele tambm produziu fotografias naquele dia. Em outra imagem,

    recentemente encontrada, observa-se nela a presena da legenda de lembrana da

    visita do presidente Jacobina. Esta caracterstica, da fotografia como souvenir, foi

    uma marca constante na obra de Aurelino Guedes. Partindo deste pressuposto,

    poderia se imaginar que aquela fotografia oficial seria uma das imagens de sua

    autoria?

    As imagens oficiais possuem normalmente uma caracterstica de exaltao do

    governante. Orlando Oliveira Pires, administrador festejado, no ficou to presente

    na memria fotogrfica da cidade como o seu sucessor Florivaldo Barberino.

    Percebendo o poder da fotografia para a construo de sua imagem, o prefeito fez,

    extensivamente, o uso deste veculo de comunicao como seu instrumento

    privilegiado de propaganda poltica.

    (28) Lembrana da visita do presidente Juscelino Kubitschek a Jacobina. Autor no identificado. Acervo Memria Fotogrfica de Jacobina. (Cpia digitalizada).

  • 139

    O olhar oficial de Osmar Micucci

    As imagens so instrumentos eficazes na comunicao do governante e teis na

    construo da sua auto-imagem. Foi o que demonstrou Peter Burke em seu famoso

    estudo sobre a fabricao do Rei Lus XIV. Utilizando uma vasta documentao

    imagtica, como pinturas, esculturas, desenhos, moedas, adereos, etc., acerca da

    figura do rei; e de variados documentos confidenciais - de cartas pessoais a minutas

    de reunies de comits - que lhe possibilitou perceber detalhes das intenes e dos

    mtodos dos fabricantes da imagem do rei atravs de diferentes meios de

    comunicao185, Peter Burke buscou compreender os mecanismos de construo

    da imagem pblica do governante e o lugar ocupado por ele na imaginao coletiva.

    Ele demonstrou como os instrumentos de propaganda poltica foram fundamentais

    para imortalizar a imagem do governante.

    O que se ver a seguir, em Jacobina, foi como o prefeito Florivaldo Barberino

    procurou garantir e preservar sua imagem atravs do uso especfico da fotografia.

    Durante toda sua administrao (1959-1963), o fotgrafo Osmar Micucci lhe prestou

    servios como fotgrafo oficial, documentando tudo o que lhe era interessante.

    Micucci chegou a trabalhar para vrias administraes durante o perodo em que

    morou em Jacobina, mas perguntado a ele qual teria sido aquela para a qual ele

    mais fotografou, acreditou ter sido a de Florivaldo Barberino. Segundo o fotgrafo,

    isso no se deveu ao fato de ser afilhado do prefeito, o que certamente contribuiu,

    (...) mas o trabalho com ele foi at com mais amor do que comercial, porque alm de ser parente ele tinha muito bom gosto em mostrar o que era e o que ficou. Ento eu acredito, no tenho assim plena certeza, foi quando eu mais fotografei, numa gesto de quatro anos, porque ele queria documentar tudo aquilo que fez186.

    Semelhante atitude do prefeito Pereira Passos, no Rio de Janeiro, que era sempre

    acompanhado oficialmente do fotgrafo Augusto Malta, pelo que se percebe nas

    imagens de Florivaldo Barberino durante sua administrao, Osmar Micucci tambm

    acompanhou passo a passo as obras promovidas e inauguradas pelo prefeito na

    cidade.

    185 BURKE, Peter. A Fabricao do Rei: a construo da imagem pblica de Lus XIV. Traduo Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994, p.14. 186 Entrevista com o fotgrafo realizada em 18 de novembro de 2005.

  • 140

    Florivaldo Barberino assumiu o posto de prefeito aps derrotar o candidato Ubaldino

    Mesquita Passos nas eleies de 1958. Contando com o apoio do deputado

    Francisco Rocha Pires ele chegou ao poder substituindo o prefeito Orlando Oliveira

    Pires, cujo mandato teve ampla aprovao popular na poca. As obras realizadas

    por Orlando Pires foram, do ponto de vista urbano, estruturantes para a expanso da

    cidade. Ele contou com o aparato propagandstico do jornal Vanguarda que a ele

    no poupou elogios.

    A administrao de Florivaldo Barberino, sem contar com o apoio da imprensa local

    na propaganda de sua imagem, buscou outros meios de garantir sua auto-

    promoo. Durante toda a campanha, o Vanguarda esteve ligado ao candidato

    derrotado, alm do que o jornal tinha como novo scio-proprietrio o recm-eleito

    deputado da oposio Edvaldo Valois Coutinho. No entanto, ficaram evidentes que

    as fotografias produzidas por Osmar Micucci para a documentao das obras

    realizadas pela prefeitura tinham a finalidade de cumprir o importante papel de

    propaganda oficial de governo. Ao contratar os servios de um profissional da rea

    fotogrfica para documentar as obras no municpio, o prefeito Florivaldo Barberino

    estava preocupado com a formao de uma memria do seu mandato pautada na

    idia do trabalho. Na administrao de Barberino, a fotografia cumpriu uma funo

    que na anterior foi tarefa da imprensa escrita.

    (29-30) Registros do acompanhamento de obras na Praa Rui Barbosa. 1959. Fotos: Osmar Micucci

    Acervo particular da Famlia Barberino.

    Existem, no acervo particular de fotografias do prefeito, textos-legendas adicionados,

    informando as aes promovidas por sua administrao na cidade e em todo o

    municpio. A presena dos textos provoca uma conduo no olhar do observador.

    Naquelas fotografias o contedo existe na relao intrnseca entre imagem e texto, o

  • 141

    que constitui no que o historiador de arte Peter Wagner chamou de iconotexto187.

    Sendo assim no foram analisados apenas seus componentes imagticos,

    registrados pelo olhar do fotgrafo, mas tambm as informaes que o prefeito quis

    relacionar a eles.

    O uso de textos-legendas nas fotografias tambm foi feito por Augusto Malta nos

    servios prestados para a prefeitura do Rio de Janeiro. Porm, naquele caso, era o

    prprio fotgrafo quem fazia as inscries, primeiro nas cpias positivas, depois j

    nos negativos em chapas de vidro. A atitude era no sentido de tambm conduzir o

    olhar do observador para a imagem e fazer com que a mensagem fosse dirigida

    objetivamente. No era para restar dvidas quando ele, por exemplo, inseria a

    legenda est pedindo picareta! referindo-se s residncias que deveriam ser

    indenizadas para a grande reforma urbana empreendida pelo prefeito Pereira

    Passos.

    A administrao de Florivaldo Barberino

    contratou o fotgrafo Osmar Micucci e

    se apropriou das suas imagens no uso

    da propaganda do governo. No caso

    das fotografias da Praa Rui Barbosa,

    Micucci fez dois registros do mesmo

    ngulo em momentos diferentes da obra

    e a administrao colocou as legendas

    nas imagens indicando os detalhes dos

    servios desenvolvidos no local

    (Imagens 28 e 29). Depois dos

    trabalhos concludos, a prefeitura

    prestava contas exibindo as fotografias

    em mural.

    Um detalhe que chama a ateno nas

    fotografias da administrao o fato de

    187 WAGNER, Peter. Reading Iconotexts: From Swift to the Freench Revolution. London: Reaktion Books, 1995. In: BURKE, Peter. Testemunha ocular: histria e imagem. Traduo Vera Maria Xavier dos Santos; reviso tcnica: Daniel Aaro Reis Filho. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p.49.

    (31) Mural com fotografias das obras na Praa Rui Barbosa. 1959. Fotos: Osmar Micucci Acervo particular da Famlia Barberino.

  • 142

    que elas foram agrupadas ao longo dos quatro anos de mandato na seqncia

    mensal das atividades na cidade. O fio condutor da narrativa da coleo fotogrfica

    a presena permanente das aes do prefeito na cidade. Do incio ao final do

    mandato, existem registros fotogrficos dos locais de servios e das inauguraes,

    transmitindo uma mensagem visual da cidade como um canteiro de obras

    promovidas por Florivaldo Barberino. Decerto era assim que o prefeito quis eternizar

    seu nome na memria coletiva da cidade e a fotografia servia como prova inconteste

    da existncia dos fatos.

    Ao privilegiar as imagens com cenas de construes, onde em muitos momentos o

    prefeito procurava estar presente, ou ento nas

    inauguraes de obras realizadas, as fotografias

    lhe serviram na formao de uma memria

    oficial onde o que prevalecia era a ao.

    Florivaldo Barberino precisava competir com a

    imagem do prefeito dinmico, criada pelo

    Vanguarda e por muitos contemporneos para o

    nome de Orlando Pires, sob o risco de ficar

    ofuscado na memria dos habitantes da cidade.

    Existia uma inteno de auto-promoo de sua

    imagem pessoal para a posteridade, e a mais

    uma vez a fotografia lhe servia como guardi

    desta memria oficial. Da porque o historiador

    Jeziel de Paula afirma no ser correto pensar

    apenas o fotgrafo como uma espcie de

    narrador visual de seu tempo. Para ele,

    A interferncia conotativa na imagem no exclusiva do operador da cmara prevalecendo apenas seu ponto de vista. Vrios outros sujeitos atuam de forma concomitante na operao, e a subjetividade ideolgica do fotgrafo no o nico elemento que compe o universo da imagem fotogrfica, mas um entre vrios. Esses sujeitos podem exercer influncias com igual peso e simultaneamente entre si. No caso de fotografias onde entra o elemento humano, tambm e preciso considerar a viso do prprio fotografado, que pode estar exprimindo, de forma consciente ou no, seus anseios e sua auto-imagem idealizada188.

    188 DE PAULA, Jeziel. Op. Cit., pp. 36-37.

    (32) Prefeito fazendo a primeira ligao no Servio Telefnico de Jacobina. 1960. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

  • 143

    Diferente da linguagem escrita do jornal, que era seletiva e elitista, a fotografia, cuja

    mensagem era mais direta, atingiu por sua vez o enorme pblico de populares na

    cidade.

    (33) Prefeito e secretrio acompanhando o calamento da Rua Prof. Tavares. 1962. Foto: Osmar Micucci. (Acervo particular da Famlia Barberino).

    (34) Prefeito e esposa inauguram pedra fundamental da construo do Abrigo Cruzada do Bem. 1962. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

  • 144

    (35) Prefeito em inaugurao dos jardins da Rua Frei Jos da Encarnao. 1962. Foto: Osmar

    Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    Nas fotografias onde se encontra o prefeito em Jacobina, geralmente estava

    tambm o seu pai, Amado Barberino, secretrio da sua administrao. Ele era um

    eminente fazendeiro e antigo comerciante ligado s velhas elites do poder na

    cidade. Homem afeito ao universo das letras, foi o fundador da primeira imprensa

    escrita em Jacobina, com o jornal A primavera, em 1916. Como j demonstrado, ele

    tambm manteve por longas datas uma estreita ligao atravs de correspondncias

    com o historiador Afonso Costa, quando este residia no Rio de Janeiro. Amado

    Barberino nutria uma enorme admirao intelectual pelo amigo, o que deixa bem

    ntido nas suas cartas e tambm em algumas atitudes. Aps o falecimento do

    escritor, sua famlia doou o acervo da biblioteca particular para o municpio de

    Jacobina. Estando frente da secretaria da prefeitura, Amado Barberino rendeu

    uma homenagem ao amigo, solicitando do prefeito que denominasse a biblioteca

    municipal como Afonso Costa. Entre efusivas palavras, ele diz que justa, pois,

    esta plida homenagem que o Poder Executivo irmanado com o Legislativo prestam

    quele que viveu e morreu amando com desvlo e carinho a terra extremecida do

    seu bero idolatrado189. Atravs de Amado Barberino, as idias defendidas por

    Afonso Costa, como a da importncia de uma biblioteca municipal, tiveram eco na

    cidade durante a administrao do seu filho.

    Nas fotografias oficiais, o prefeito procurava preservar tambm uma imagem de

    liderana carismtica e popular. Pode-se relacionar tal prtica com a utilizada pelas 189 Jornal Vanguarda, n 505, de 15 de junho de 1960, p.1. (Denominar-se- Afonso Costa Biblioteca Municipal).

  • 145

    principais lideranas polticas daquele contexto nacional, como Getlio Vargas, JK,

    Adhemar de Barros ou Jnio Quadros. Os dois ltimos, por sinal, estiveram em

    Jacobina durante o seu mandato. Em fotografias com fortes apelos simblicos ao

    seu personalismo, o prefeito Florivaldo Barberino procurava estar sempre ao lado do

    povo ou promovendo aes assistencialistas nas ruas.

    (36) Prefeito e populares posam para foto em frente ao cruzeiro de concreto iluminado no alto da

    serra. 1962. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    (37) O prefeito, a esposa e o pai na oferta de uma ceia pblica a 398 trabalhadores da prefeitura em

    plena praa. 1962. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

  • 146

    (38) Distribuio de gneros da comisso central coordenadora, pela comisso municipal de Jacobina. Fevereiro de 1962. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    Fazendo eco ao perodo de Orlando Pires, durante o mandato do prefeito Florivaldo

    Barberino ele recebeu as visitas de importantes personalidades polticas do cenrio

    nacional e baiano. Sempre acompanhado do fotgrafo Micucci ele deixou

    registradas aquelas cenas polticas na cidade. Entre fotografias de seus lbuns

    particulares e nos negativos de Osmar Micucci, foram encontradas aquelas que

    talvez tenham sido as duas visitas polticas mais significativas ocorridas naqueles

    anos: a de Jnio Quadros, em 1960, e a de Juracy Magalhes junto com o ministro

    Juarez Tvora, em 1961.

    Em 1960, o grupo poltico do qual o prefeito fazia parte, liderado pelo deputado

    Rocha Pires em parceria com Manoel Novais, apoiou a candidatura de Jnio

    Quadros presidncia da repblica. O Partido Republicano, de Manoel Novais, que

    esteve ao lado do governo de JK, diante da candidatura do Marechal Henrique

    Teixeira Lott, decidiu pelo apoio UDN, com Jnio Quadros. A UDN baiana,

    inclusive, tinha fortes chances de lanar Juracy Magalhes como candidato a

    presidente, no entanto ele foi derrotado por Jnio Quadros na conveno do partido.

    Jnio era figura carismtica e durante sua campanha soube usar muito bem este

    recurso para angariar o voto popular. Precisando garantir maior espao poltico na

    Bahia, durante sua campanha no Estado o candidato esteve em Jacobina em

    setembro daquele ano, onde, como parte do Movimento Popular Jnio Quadros, fez

    um comcio, entre outras atividades e dormiu uma noite na cidade.

  • 147

    Osmar Micucci documentou a presena de Jnio Quadros em Jacobina atravs de

    algumas imagens emblemticas, onde o candidato aparece sempre cercado de

    polticos e populares, marca registrada da sua campanha. Existe uma em especial,

    onde o ento secretrio da prefeitura, Amado Barberino, carrega um guarda-chuva

    em sinal de proteo do futuro presidente Jnio Quadros do provvel sol escaldante

    da cidade. Pela composio jocosa da imagem, ela lembra, muito rapidamente, uma

    famosa fotografia de Erno Schneider, publicada no Jornal do Brasil, em 1961, onde o

    j presidente aparece com seu passo torto, tendo ao fundo, alguns militares. As

    fotografias que Micucci fez daquele evento no chegaram a ser veiculadas em

    nenhuma imprensa da poca; no entanto, algumas delas foram divulgadas na cidade

    atravs de um painel produzido por ele. Aqui uma evidncia de como o fotgrafo

    se interessava pela publicizao de sua obra como reprter fotogrfico.

  • 148

    (39-44) Jnio Quadro em Jacobina. 1960. Fotos: Osmar Micucci. Acervo particular do fotgrafo.

    (Negativos 6x6cm).

    Em novembro de 1961, o grupo poltico do prefeito recebeu a visita do governador,

    General Juracy Magalhes, e do ministro da viao, Coronel Virglio Tvora. Juracy

    Magalhes, como Manoel Novais, sempre esteve ligado Jacobina, atravs do

    deputado Francisco Rocha Pires. Quando fora indicado intendente da Bahia, em

    1930, Juracy buscou estabelecer vnculos com as lideranas coronelsticas do

    interior, o que ocorreu em Jacobina com Rocha Pires. Em foto oficial no aeroporto

    est l o governador, os deputados Manoel Novais e Francisco Rocha Pires, o

    prefeito, diretores de rgos pblicos federais e estaduais e demais pessoas

    aguardando a chegada do ministro.

    Em outra imagem fotogrfica, desta vez na residncia do deputado Rocha Pires,

    encontra-se em p o prefeito Florivaldo, entre Juracy Magalhes e Virglio Tvora

    sentados em um sof. O ministro Tvora era um militar do Estado do Cear. Poltico

    conservador, sempre esteve ligado UDN, tendo exercido entre 1957-1959 a vice-

    presidncia do partido; em 1959 defendeu a candidatura de Jnio Quadros dentro da

    conveno. Durante o governo parlamentarista de Jango, ele assumiu, sob

    indicao da UDN, o ministrio de Viao e Obras Pblicas, em 1961. A imagem

    tambm emblemtica, pois enquadra o prefeito ao lado das duas lideranas

    nacionais da poca, denotando sinal de prestgio poltico.

  • 149

    (45) Juracy Magalhes, Manoel Novais e polticos locais aguardam o ministro Juarez Tvora no

    aeroporto de Jacobina. 1961. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    (46) Florivaldo Barberino, Juracy Magalhes e Juarez Tvora. 1961. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    Ao longo do seu mandato, o prefeito Florivaldo Barberino realizou diversas obras de

    terraplanagens, pavimentao de ruas, construes e reformas de praas, sempre

    em busca de dotar a cidade de uma esttica moderna. Esta preocupao tambm o

    levou a promover uma reforma na iluminao pblica das principais praas e ruas do

    centro da cidade. Procurando destacar este aspecto, Osmar Micucci produziu, em

    1962, uma indita fotografia da vista noturna, entre a Rua Senador Pedro Lago e a

    Praa Rio Branco com sua nova iluminao fluorescente. Na legenda da fotografia,

    usada na propaganda do governo, esto s inscries do modelo de lmpada usada

    naquela e em outras praas centrais da cidade.

    Percebe-se que na cena noturna capturada pelo fotgrafo no aparece nenhuma

    figura humana. Qual teria sido o motivo? Seria pela inexistncia de pessoas

  • 150

    transitando no local ou talvez uma escolha na composio da imagem? Em suas

    reminiscncias Micucci arrisca ter sido a primeira opo. A fotografia apresenta no

    canto esquerdo um carro estacionado e em linha diagonal uma fileira de postes com

    suas luzes artificiais espectrais, sugerindo um clima noir para pequena cidade

    sertaneja. A atitude de Micucci em Jacobina remete ao que fez Brassi ao fotografar

    Paris e suas luzes noturnas nos anos trinta. O fotgrafo francs, ao lanar seu livro

    Paris noite, revelou naquelas imagens a poesia das ruas e dos lampadrios da

    chamada cidade luz. Aquele foi um perodo em que, segundo Jean-Claude

    Lemagny, se desenvolve uma nova potica da cidade como cenrio mgico para o

    pedestre sonhador190. No projeto de cidade moderna, o ato de flanar noite pelas

    ruas iluminadas era um imperativo de civilidade. A imagem fotogrfica foi usada

    como instrumento de propaganda destes novos tempos em Jacobina.

    (47) Vista noturna entre a Rua Senador Pedro Lago e Praa Rio Branco. 1962. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    Entre as obras mais cobradas da administrao de Barberino para a cidade estavam

    o mercado municipal e o matadouro. Considerando como condio bsica para uma

    cidade civilizada, a existncia de pavimentao, gua encanada, esgoto, mercado e

    matadouro pblicos, o Vanguarda aponta ainda que Jacobina j conta, felizmente,

    com alguns dsses melhoramentos, entretanto, ainda no possui, um mercado e um

    190 LAMAGNY, Jean-Claude. Metamorfoses dos olhares fotogrficos sobre a cidade.in: Projeto Histria: Revista do Programa de Estudos Ps-graduados em Histria do Departamento da Histria da PUC-SP. So Paulo: EDUC, 1981, p. 15.

  • 151

    matadouro pblicos, indispensveis sua atual fase de progresso191. Ao final

    daquele mandato, o matadouro foi inaugurado e o mercado ficou com suas obras

    adiantadas (Imagens 20 e 21 dos anexos).

    Muito mais do que esclarecer, a fotografia tambm sugere dvidas. Nem sempre o

    aparente no plano da imagem o que demonstra ser. A manipulao da mensagem

    est presente em todo o processo de produo da fotografia, do momento do clic

    ao consumo. A operao fotogrfica trabalha com selees, cortes, montagens, de

    forma que cabe ao operador demonstrar o que merece ser visto e o que deve ser

    escondido. o que se percebe em algumas imagens oficiais do encerramento do

    mandato de Barberino.

    A administrao de Barberino encerrou seus ltimos dias com uma srie de

    inauguraes de obras. Nas fotografias oficiais, a mensagem visual sempre a da

    ao administrativa. Para no deixar dvidas quanto popularidade do prefeito,

    Osmar Micucci, fazendo uso de uma tcnica onde ampliava dois negativos em um

    nico papel, produziu uma fotografia com dupla imagem onde a intencionalidade

    parecia a de transmitir a idia do prefeito das multides. Nela se v, na parte

    superior da fotografia, o prefeito discursando ao lado do grupo poltico e, abaixo,

    enorme nmero de pessoas na indicada inaugurao do matadouro municipal, em

    31 de maro de 1963. No entanto, conforme sugere a imagem, parece que o prefeito

    no estava falando para uma grande multido, pois no se nota o uso de microfone

    e nem gestos que denotem falar em alto tom, como normalmente se v nas imagens

    desta natureza. Restam, portanto, dvidas: qual a dimenso real daquela multido?

    E realmente estaria aquela especfica multido no evento citado?

    191 Jornal Vanguarda, n 506, de 10 de julho de 1960, p.1. (Dependem Autorizao da Cmara de Vereadores: Mercado e Matadouro).

  • 152

    (48) Inaugurao do matadouro municipal. 1963. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

    Naquela noite, em palanque armado da prefeitura, nota-se em outra fotografia o

    prefeito discursando ao lado do grupo poltico. A composio da imagem foi

    centralizada no palanque, permitindo que se avistem, na parte inferior, algumas

    pessoas, sem com isso saber qual a extenso daquela multido de ouvintes. Aquele

    evento, pelo visto, marcou oficialmente o encerramento da sua gesto. Na legenda,

    os indicativos das obras inauguradas no dia: matadouro, calamentos, jardins,

    fontes luminosas, chafarizes e ampliao da rede abast. dgua, alargamento de

    ponte, prdios escolares, parques infantis, estradas.

    (49) Comcio de inauguraes de obras no encerramento do mandato. 1963. Foto: Osmar Micucci. Acervo particular da Famlia Barberino.

  • 153

    Tudo indica que o prefeito quis sair do governo perpetuando historicamente na

    memria local uma imagem pblica do administrador das grandes realizaes. Pelo

    visto, a fotografia lhe foi bastante til nesta tarefa.

  • 154

    CONSIDERAES FINAIS

    Ao nos ensinar um novo cdigo visual, as fotos modificam e ampliam nossas idias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos direito de observar192.

    Susan Sontag chama a ateno para um aspecto importante na imagem fotogrfica:

    o da codificao visual. O status de veracidade e credibilidade conferido a ela nos

    primeiros tempos provocou nos homens a impresso de que tudo que existia era

    para ser fotografado. A enorme gama de imagens criada ao longo da histria da

    fotografia contribuiu decisivamente na construo das memrias individuais e

    coletivas, como no caso das cidades. Desde quando os primeiros fotgrafos

    direcionaram suas cmaras para a paisagem urbana, deixando como herana um

    rico inventrio de imagens, hoje no conseguimos imagin-la sem o seu auxlio.

    Todavia os aspectos gravados na memria fotogrfica nos permitem enxergar

    apenas a realidade construda na sua trama interna193. As cidades apresentadas

    pelas fotografias constituem o resultado final da rede de relaes entre os

    fotgrafos, os referentes, seus repertrios culturais e ideologias. Acredita-se que ir

    alm da imagtica da fotografia possibilita ao pesquisador ter acesso a outras

    realidades por trs do ato fotogrfico194.

    Esta dissertao teve como propsito inserir a fotografia e o fotgrafo como temas

    dos estudos histricos sobre a Bahia. Nela se procurou abordar a importncia da

    imagem fotogrfica e dos seus construtores na investigao histrica sobre a

    experincia urbana no interior do Estado. Jacobina uma cidade onde a presena

    fotogrfica se fez desde o final do sculo XIX, existindo ali um rico material pronto

    para ser analisado por pesquisadores de diversas reas.

    192 SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Traduo Rubens Figueiredo. So Paulo: Cia. das Letras, 2004, p. 13. 193 KOSSOY, Boris. Realidades e fices na trama fotogrfica. 3 ed. Ateli Editorial: So Paulo, 2002. 194 A este respeito ver alguns autores que trabalham com a semitica da imagem: DUBOIS, Philippe. O ato fotogrfico e outros ensaios. Traduo Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993, e CARDOSO, Ciro F. e MAUAD, Ana Maria. Histria e Imagem: Os exemplos da Fotografia e do Cinema. In: CARDOSO, Ciro F. e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domnios da Histria: Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, pp. 401-416.

  • 155

    A fotografia vem sendo bastante utilizada como fonte privilegiada em outros Estados

    do Brasil, onde as obras de fotgrafos tm merecido a ateno dos pesquisadores

    em So Paulo, a exemplo da obra de Milito Augusto de Azevedo195; no Rio de

    Janeiro, com Augusto Malta196; e na Paraba, com Walfredo Rodrguez197, para citar

    apenas alguns exemplos. Na Bahia, o uso da fotografia como fonte privilegiada

    ainda bastante incipiente nos estudos histricos. As contribuies que a Faculdade

    de Comunicao da UFBA vem fazendo sobre o estatuto da fotografia enquanto

    mdia comunicativa so interessantes, no entanto, para a pesquisa histrica, alm do

    carter esttico, a fotografia reserva para o pesquisador as potencialidades e limites

    de uma documentao de primeira grandeza.

    Neste trabalho, o fotgrafo foi visto como um espectador privilegiado das cidades.

    Apontando o caso especfico de Osmar Micucci como testemunha ocular da histria

    em Jacobina, sua obra se revelou uma importante referncia para pensar a

    experincia urbana no interior do Estado, ou seja, analisar no caso o contexto das

    transformaes na fisionomia urbana e cultural da cidade, entre os anos de 1955 a

    1963. Sua obra extensa e ampla. Abordando temas que vo desde o retrato social,

    passando por eventos familiares, reportagens de rua, vistas da cidade at a

    fotografia documental de administraes, ele descortinou atravs de suas lentes

    quase quatro dcadas de histria em Jacobina. O olhar direcionado para a cidade,

    em muitos aspectos, seguiu caminhos contrrios ao tom ufanista, geralmente

    dedicado a ela pela pequena elite letrada da poca, pois puderam ser observadas

    atitudes que sugerem pontos de vista relacionados com as questes culturais da

    populao local. Atento ao novo e ao velho na cidade, Micucci deixou registradas

    importantes pistas que levam a perceber tanto seu olhar sobre esses aspectos

    citados quanto para referncias a momentos-chaves do contexto local, alm de ir

    tambm em busca de temas latentes da histria baiana, nacional e mundial.

    195 LIMA, Solange Ferraz de e CARVALHO, Vnia Carneiro de. Representaes urbanas: Milito Augusto de Azevedo e a memria visual da cidade de So Paulo. In: Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional. Fotografia. N 27. So Paulo: IPHAN, 1998, pp. 110-123. 196 GRALHA, Fernando. Augusto Malta e o olhar oficial: fotografia, cotidiano e memria no Rio de Janeiro 1903/1936. In: Revista Histria, imagem e narrativas. N 2, ano I, abril/2006. Disponvel em: www.simonsen.br/novo/revistadigital/augustomalta.pdf. Acessado em 7/6/20006. 197 KOURY, Mauro G. P. Provar o espao: fotografia e cidade atravs das lentes e das crnicas de Walfredo Rodrguez. Joo Pessoa: Poltica & Trabalho 12, 1996, pp. 139-148. Disponvel em: http://www.geocities.com/ptreview/12-koury.html. Acessado em 19/06/2007.

  • 156

    Este estudo tem um carter bastante significativo para os conhecimentos acerca do

    interior baiano, onde ainda existem enormes lacunas, sobretudo sobre a experincia

    urbana das suas antigas cidades de mdio e pequeno porte. Atravs deste estudo

    visual da cidade de Jacobina foi possvel perceber ali a existncia de um clima

    modernizante em sintonia com as experincias da capital do Estado, do Brasil ou de

    cidades-modelos, como Paris. Contando com a presena do rdio, do jornal, da

    revista ilustrada, da fotografia, do cinema, as distncias espaciais e culturais eram

    encurtadas, possibilitando populao local ter acesso ao universo cultural dos

    grandes centros urbanos, com quem buscava se identificar atravs das prticas

    culturais.

    Jacobina procurava encontrar, desde o incio do sculo vinte, o caminho para a

    modernizao do seu espao urbano e dos hbitos culturais. Algumas tentativas

    foram empreendidas j na dcada de 1930, com a implantao do Cdigo de

    Posturas, de 1933, definindo condutas e prticas para a populao no seu centro

    urbano. Alguns empreendimentos tcnicos e culturais, e as realizaes de obras

    pblicas na cidade, contriburam para que aquela populao acreditasse na insero

    da cidade na to desejada modernidade. A presena do transporte ferrovirio, o

    desenvolvimento da imprensa escrita, a presena do cinema na vida cultural, a

    existncia de estdio fotogrfico, a implantao da escola pblica, e de outros

    incrementos, foram vistos pela populao como sintomas da fase civilizatria

    reinante. O pice deste clima se configurou na dcada de 50, onde uma conjuno

    de fatores contribuiu para que a cidade passasse por grandes transformaes na

    sua fisionomia urbana e cultural. Alguns destes fatores se devem ao crescimento

    econmico do municpio, sobretudo nas reas de agricultura, pecuria, minerao e

    o desenvolvimento de servios, como do ensino pblico ginasial e mais um conjunto

    de obras promovidas pelas administraes de Orlando Oliveira Pires e Florivaldo

    Barberino. Outros fatores tambm foram s ligaes polticas entre o deputado

    estadual Francisco Rocha Pires com o deputado federal Manoel Novais, que

    levaram as indicaes de obras pblicas para a cidade via recursos do governo

    federal. Outro aspecto importante foi a forte presena do clima desenvolvimentista

    do governo de Juscelino Kubitschek na cidade, principalmente com a surpreendente

    visita do presidente, em 1957, para inauguraes de obras do governo federal. A

  • 157

    passagem do presidente JK inscreveu no imaginrio social a evidncia de que a

    cidade vivia seus dias de glria.

    Para a realizao desta pesquisa o acesso s fontes merece algumas

    consideraes. A escassez de maior documentao do perodo no Arquivo

    Municipal, bem como em outros arquivos pblicos, dificultou o avano em alguns

    momentos da pesquisa, ainda mais pela exigidade de tempo para recolher mais

    fontes, em domnio de algumas famlias locais estarem atualmente espalhadas em

    vrias cidades do pas. Ainda que uma parte da documentao fotogrfica

    trabalhada neste estudo j estivesse sendo coletada dentro do projeto A memria

    fotogrfica de Jacobina, foi somente no decurso desta pesquisa que se pde ampliar

    os horizontes das informaes sobre ela. No entanto, dado a pouca existncia de

    acervos particulares de fotografias, preservados por alguns fotgrafos e familiares,

    ainda assim foi fundamental para o acesso s principais fontes em formato de

    negativos. Estes acervos reservam grandes riquezas para os pesquisadores que

    trabalham com fontes iconogrficas. Merecem destaque os acervos dos fotgrafos

    Osmar Micucci e Lindencio Ribeiro.

    O arquivo de Osmar Micucci foi o mais importante para esta pesquisa. Com muito

    zelo, ao longo de toda sua profisso, ele veio organizando o acervo estimado em

    cerca de 80.000 negativos, desde sua insero na rea no incio da carreira, na

    dcada de 50, at os anos 80, quando partiu com sua famlia para Salvador.

    Atualmente, estimulado por esta pesquisa, ele retornou ao seu arquivo revendo as

    imagens e organizando minuciosamente seus negativos em envelopes

    cuidadosamente confeccionados por ele. Foi surpreendente notar no fotgrafo a

    permanncia da paixo pela fotografia depois de mais de 50 anos de profisso. No

    seu rico arquivo, tambm foi encontrado parte de acervo do seu pai, Carolino

    Figueredo Filho, que fotografou a cidade e regio entre os anos 30 e 40, e de outros

    fotgrafos, como Rosendo Borges, Aurelino Guedes e Juventino Rodrigues.

    O arquivo de Lindencio Ribeiro tambm foi significativo para esta pesquisa. Nele

    foram encontrados diversos negativos de seu tio, Juventino Rodrigues, um dos mais

    influentes fotgrafos da cidade que atuou entre os anos 30 a 70, e de Aurelino

    Guedes, outro eminente fotgrafo que prestou muitos servios dentro e fora da

    cidade. Ainda em fase de organizao, no acervo do fotgrafo Lindencio Ribeiro,

  • 158

    que iniciou sua profisso nos 60, existe um importante inventrio visual da cidade no

    perodo mais recente da sua histria.

    As demais fontes impressas e manuscritas foram encontradas em alguns acervos

    privados ou em domnio de particulares. As famlias mais antigas e abastadas da

    cidade preservam uma rica documentao da cidade, que poderia ser utilizada por

    pesquisadores de reas diversas caso estes acervos fossem disponibilizados para

    consultas. Um desses acervos, e o mais consultado por esta pesquisa, foi o da

    famlia Barberino, que j se encontrava em posse do Ncleo de Estudos Orais e

    Iconogrficos, da UNEB, para os trabalhos de digitalizao. Nele foram encontrados

    vrios exemplares de jornais que circularam na cidade em diversas pocas, lbuns

    de fotografias da famlia e da administrao de Florivaldo Barberino,

    correspondncias de Amado Barberino, que apresentam tanto aspectos da cidade

    quanto do envio de fotografias e documentos para o conterrneo Afonso Costa, no

    Rio de Janeiro.

    Optando pelas recentes noes do conceito de patrimnio, as fotografias de Osmar

    Micucci e dos outros espectadores locais foram compreendidas como um legtimo

    patrimnio histrico e cultural da cidade. Aqui no Brasil, quando a fotografia foi tema

    da Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, em 1998, ficou claro o uso, e

    a importncia que diversos pesquisadores vinham dando a este artefato artstico da

    era industrial. Na seleo dos trabalhos, os organizadores tiveram como propsito

    compreender as relaes, direta e indireta, entre fotografia e patrimnio;

    fotografia, objeto de coleo e objeto de histria; fotografia e representaes simblicas da cidade, da nao, do trabalho, da religiosidade; fotografia e identificao/ pesquisa/ preservao/ valorizao do patrimnio histrico, artstico e natural; fotografia e criao cultural, especialmente no Brasil (poesia, artes plsticas, msica, artesanato popular)198.

    Em Jacobina, foi possvel perceber algumas destas relaes apontadas nesta

    pesquisa. Alm de um valioso recurso da memria, a fotografia cumpriu tambm

    diversas outras funes naquela sociedade. Conforme abordado nos trs captulos,

    a fotografia foi importante como objeto de coleo, principalmente atravs dos

    acervos particulares de famlias, e tambm objeto de histria, como demonstrado

    atravs dos seus usos no estudo de Afonso Costa, em 1916; na administrao

    198 TURAZZI, Maria Inez. Uma cultura fotogrfica introduo in: Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional. Op. Cit., p.7.

  • 159

    municipal e tambm como fonte para esta dissertao. Por outro lado, as fotografias

    dos principais espectadores fotogrficos foram responsveis pela constituio de um

    padro visual da cidade, notadamente moderno e higienizado, simbolizado atravs

    de imagens dos locais que serviram de referncias para a cidade, sendo difundidas

    e veiculadas em diferentes formatos e suportes, tanto localmente quanto

    externamente. A pesquisa tambm demonstrou como a fotografia serviu para

    evidenciar a arquitetura local, pblica e privada, em momentos de edificao,

    apogeu e/ou decadncia.

    Alm dos aspectos contributivos j apontados sobre este trabalho, ele tambm

    poder servir de embrio para novos estudos. A seleo iconogrfica adquirida na

    garimpagem dos arquivos constitui documentao importante para que outros

    pesquisadores possam extrair dela outras respostas para suas inquietaes, ou

    quem sabe, ampliar o painel de dvidas. Fica, portanto, o desejo que novos

    caminhos possam ser trilhados para um maior conhecimento da Histria de Jacobina

    ou, quem sabe, da fotografia na Bahia. Oxal isso possa acontecer!

  • 160

    REFERNCIAS

    1. FONTES

    Iconogrficas

    Acervo do Centro Cultural Edmundo Isidoro dos Santos (PMJ)

    Acervo do Centro Cultural Luis Eduardo Magalhes (PMJ)

    Acervo Memria Fotogrfica de Jacobina (NECC/UNEB)

    Acervo do Ncleo de Estudos Orais, Memria e Iconografia (NEO/UNEB)

    Acervo particular da Famlia Barberino

    Acervo particular da Famlia Guerra

    Acervo particular da Famlia Guerra

    Acervo particular da Famlia Lages

    Acervo particular de Lindencio Ribeiro

    Acervo particular de Osmar Micucci

    Orais

    Osmar Micucci Figueiredo Nascido em Djalma Dutra (atual Miguel Calmon)

    atuou como fotgrafo em Jacobina entre as dcadas de 50 a 80. Atualmente

    reside em Salvador. Entrevistas realizadas em 23/11/2004, 13/04/2005,

    18/11/2005.

    Lindencio Flix Ribeiro - Nascido na zona rural em Piritiba atua como fotgrafo

    em Jacobina desde a dcada de 60. Entrevistas realizadas em 7/10/2004,

    22/09/2005 e 21/07/2006.

  • 161

    Amado Honorato de Oliveira Nascido em Jacobina, foi msico e trabalhou na

    prefeitura desde 1954. Faleceu em 2005. Entrevista realizada em 30/11/2004.

    Cirilo Rosa Nascido em Itiba atuou como fotgrafo em Jacobina entre as

    dcadas de 60 a 80. Atualmente aposentado reside em Jacobina. Entrevista

    realizada em 05/05/2005.

    Fernando Mrio Pires Daltro Nascido em Jacobina, advogado, poltico, foi

    diretor do Ginsio Estadual Deocleciano Barbosa de Castro nos anos 50, eleito

    vereador em 1959 e prefeito em 1970 em Jacobina. Atualmente exerce a

    profisso de advogado em Salvador. Entrevista realizada em 14/12/2005.

    Edna Daltro Nascida em Salvador, residiu em Jacobina entre as dcadas de 50

    a 70, atuando como professora. Esposa de Fernando Daltro, atualmente reside

    em Salvador. Entrevista realizada em 20/12/2005.

    Ameriza Carvalho Reis Nascida na zona rural em Jacobina mora na cidade

    desde a dcada de 40. Seu esposo era proprietrio de farmcia que vendia

    produtos fotogrficos. Atualmente viva e aposentada reside em Jacobina.

    Entrevista realizada em 20/02/2006.

    Jos Coutinho Silva Nascido em Jacobina, advogado, estudou na cidade at o

    ginasial. Atualmente exerce a profisso de advogado em Jacobina. Entrevista

    realizada em 26/05/2006.

    Jos Lages Mota Nascido na zona rural em Jacobina, ex-bancrio, sindicalista

    e poltico, concorreu por trs eleies prefeitura em Jacobina pelo Partido dos

    Trabalhadores. Atualmente agricultor e sindicalista em Jacobina. Entrevista

    realizada em 19/04/2007.

    Flvio Antnio de Mesquita Alves Nascido em Campo Formoso, mdico,

    poltico, foi eleito prefeito em 1978. Atualmente exerce a profisso em Jacobina.

    Entrevista realizada em 25/11/2005.

    Manuscritas

    Anotaes tcnicas e escritos de Osmar Micucci.

  • 162

    Correspondncias entre Amado Barberino e Afonso Costa.

    Texto datilografado Ligeiro Histrico das Igrejas de Jacobina de Amado

    Barberino.

    Impressas

    Jornal Correio de Jacobina, de 1921.

    Jornal O Lidador, de 1933 a 1940.

    Jornal Vanguarda, de 1955 a 1960.

    Jornal A Tarde, de novembro 1957.

    Arquivo Municipal de Jacobina

    Resoluo n 8 de 7/10/1915 das Leis e Resolues do Conselho Municipal. Ano

    1908 a 1915. Arquivo Municipal de Jacobina.

    Cdigo de Posturas de Jacobina, 30/12/1933.

    Livros, artigos e ensaios

    COSTA, Afonso. 200 anos depois (a ento vila de Jacobina). In: Revista do

    Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia. N. 48, 1923.

    COSTA, Afonso. Minha terra (Jacobina de antanho e de agora). In: Anais do V

    Congresso Brasileiro de Geografia. Vol. II, 1916, pp. 235-319.

    GAMA e ABREU, Edith Mendes da. Afonso Costa. In: Revista do Instituto

    Genealgico da Bahia. Ano X, n. 10. Salvador, 1958, pp. 4-19.

    Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 2 e 3 de janeiro de 1956. in: Revista do

    Instituto Genealgico da Bahia. Ano X, n. 10. Salvador, 1958, pp. 24-27.

    LEMOS, Doracy Arajo. Jacobina, sua histria e sua gente. Jacobina, 1995.

    SILVA, Alcira Pereira Carvalho. 50 anos depois. Salvador, 1984.

  • 163

    WILLEKE, O. F. M. Venncio, Misses franciscanas no Brasil. Petrpolis, 1978.

    2. MONOGRAFIAS, DISSERTAES E TESES

    ALMEIDA, Gilberto Wildberger de. Poltica e Mdia na Bahia: a trajetria de Antnio

    Carlos Magalhes. Faculdade de Comunicao. UFBA: Salvador, 1999. (tese de

    doutorado).

    AQUINO, Ivanilton de Arajo. Histrias de um velho co. Licenciatura em Histria.

    UNEB: Jacobina, 2001. (monografia de graduao).

    BORGES, Eduardo Jos dos Santos. Modernidade negociada, cinema, autonomia

    poltica e vanguarda cultural no contexto do desenvolvimentismo baiano (1956-

    1964). Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas. UFBA: Salvador, 2003.

    (dissertao de mestrado).

    CARVALHO, Maria do Socorro Silva. Imagens de um tempo em movimento: Cinema

    e Cultura na Bahia nos anos JK (1956-1961). Faculdade de Filosofia e Cincias

    Humanas. UFBA: Salvador, 1992. (dissertao de mestrado).

    CARVALHO, Telma Campanha de. Fotografia e cidade: So Paulo na dcada de

    1930. PUC: So Paulo, 1999. (dissertao de mestrado).

    FONSECA, Antnio ngelo Martins da. Poder, crise regional e novas estratgias de

    desenvolvimento local: o caso de Jacobina/Bahia. Faculdade de Arquitetura. UFBA:

    Salvador, 1995. (dissertao de mestrado).

    JESUS, Zeneide Rios de. Eldorado sertanejo: Garimpos e garimpeiros nas serras de

    Jacobina (1930-1940). Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas. UFBA, 2005.

    (dissertao de mestrado).

    LEITE, Rinaldo Csar Nascimento. E a Bahia Civiliza-se... ideais de civilizao e

    cenas de anti-civilidade em um contexto de modernizao urbana. Salvador, 1912-

    1916. Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas. UFBA: Salvador, 1996.

    (dissertao de mestrado).

  • 164

    SANTOS, Vaniclia Silva. Sons, danas e ritmos: A Micareta em Jacobina-Ba (1920-

    1950). PUC: So Paulo, 2001. (dissertao de mestrado em Histria).

    SILVA, Neemias Oliveira da. O vivo demnio e o cotidiano: Jacobina em tempos de

    cinema 1950-1960. Licenciatura em Histria. UNEB: Jacobina, 2002. (monografia

    de graduao).

    SOUSA, Ione Celeste Jesus de. Garotas tricolores, deusas fardadas: as normalistas

    em Feira de Santana 1925 a 1945, Bahia. PUC: So Paulo, 1999. (dissertao de

    mestrado em Histria)

    THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da sade do Brasil: a fotografia na

    institucionalizao da sade pblica. PUC: So Paulo, 1992. (dissertao de

    mestrado em Histria).

    3. REVISTAS E JORNAIS

    BARRETO, Maria Cristina Rocha. Breve leitura da idia de progresso atravs das

    fotografias da Cidade da Parahyba. In: Paraiwa: revista dos ps-graduandos de

    sociologia da UFPB. Nmero zero. Joo Pessoa: dezembro de 2000. Disponvel em:

    < http://www.cchla.ufpb.br/paraiwa/index00.html > Acessado em 19/06/2007.

    Cadernos de Antropologia e Imagem. Vol 10. n 1. Rio de Janeiro: UERJ, NAI, 1995.

    GAMA e ABREU, Edith Mendes da. Afonso Costa. In: Revista do Instituto

    Genealgico da Bahia. Ano X, n. 10. Salvador, 1958.

    GRALHA, Fernando. Augusto Malta e o olhar oficial: fotografia, cotidiano e memria

    no Rio de Janeiro 1903/1936. In: Revista Histria, imagem e narrativas. N 2, ano

    I, abril/2006. Disponvel em: < www.simonsen.br/novo/revistadigital/augustomalta.pdf

    >. Acessado em 7/6/20006.

  • 165

    KOURY, Mauro G. P. Provar o espao: fotografia e cidade atravs das lentes e das

    crnicas de Walfredo Rodrguez. Joo Pessoa: Poltica & Trabalho 12, 1996, pp.

    139-148. Disponvel em: < http://www.geocities.com/ptreview/12-koury.html >.

    Acessado em 19/06/2007:

    LAMAGNY, Jean-Claude. Metamorfoses dos olhares fotogrficos sobre a cidade.in:

    Projeto Histria: Revista do Programa de Estudos Ps-graduados em Histria do

    Departamento da Histria da PUC-SP. So Paulo: EDUC, 1981.

    LIMA, Solange Ferraz de. Espaos Projetados: As representaes da cidade de

    So Paulo nos lbuns fotogrficos do incio do sculo. In: Acervo: Revista do

    Arquivo Nacional. Vol. 6, n. 1-2, (jan./dez. 1993). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,

    1993.

    OLIVEIRA, Valter G. S. de. JK em Jacobina: fotografia e histrias. In: Primeira

    Pgina. Jacobina, 18/3/2006, p.2.

    OLIVEIRA, Valter G. S. de. O dia em que JK esteve em Jacobina. In: Primeira

    Pgina. Jacobina, 4/2/2006, p.2.

    PESAVENTO, Sandra Jatahy. Muito alm do espao: Por uma histria cultural do

    urbano. In: Revista Estudos Histricos. Rio de Janeiro, vol.8, n.16, 1995, pp. 279-

    290.

    Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional. Fotografia. N 27. So Paulo:

    IPHAN, 1998.

    RUBIM, Antnio Albino Canelas. Comunicao, mdia e cultura in: Bahia Anlise &

    Dados. Leituras da Bahia I. Salvador, Vol. 9, n. 4, maro 2000.

    SILVA, Joseli Maria. Cultura e territotalidades urbanas: uma abordagem da

    pequena cidade. In: Revista de Histria Regional. Vol 5. n. 2, 2000. Disponvel em:

    < http://www.uepg.br/rhr/v5n2/joseli.htm >.Acesso em 05/10/2003.

    VELHO, Gilberto. Estilo de vida urbano e modernidade. In: Revista Estudos

    Histricos. Rio de Janeiro, vol.8, n.16, 1995, pp. 227-234.

  • 166

    4. BIBLIOGRAFIA

    ABREU, J. Capistrano de. Captulos de histria colonial. 6 ed. Revisado, anotado e

    prefaciado por Jos Honrio Rodrigues. Rio de Janeiro, Briguiet, 1976.

    ALVES, Aristides (Coord.) A fotografia na Bahia (1839-2006). Salvador: Secretaria

    da Cultura e Turismo; Funcultura; Asa Foto, 2006.

    ANTONIL, Andr Joo. Cultura e opulncia do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte :

    Itatiaia/Edusp, 1982. (Coleo Reconquista do Brasil).

    ARGAN, Giulio Carlo. Histria da arte como histria da cidade. Traduo Per Luigi

    Cabra. So Paulo: Martins Fontes, 1995.

    ATGET, Eugne. Photo Poche. Centre National de la Photographie Paris, 1984.

    BARTHES, Roland. A Cmara Clara. Traduo Manoela Torres. Lisboa: Edies 70,

    1981.

    BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna.

    Organizador Teixeira Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

    BAUDRILLARD, Jean. A arte da desapario. Traduo Anamaria Skinner. Rio de

    Janeiro: Editora UFRJ/ N-Imagem, 1997.

    BENJAMIN, Walter. Pequena Histria da Fotografia. In: Obras escolhidas I: Magia

    e Tcnica, Arte e Poltica. Traduo Srgio Paulo Rouanet. Brasiliense: So Paulo,

    1985.

    BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire um lrico no auge do capitalismo. Traduo

    Jos Carlos Martins Barbosa e Hermerson Alves Baptista. Obras escolhidas vol. III.

    2 ed. So Paulo: Brasiliense, 1991.

    BERMANN, Marshall. Tudo o que slido se dissolve no ar: a aventura da

    modernidade. Traduo Ana Tello. Lisboa: Edies 70, 1982.

    BOLLE, Willi. Fisiognomia da Metrpole Moderna: Representao da Histria em

    Walter Benjamin. 2 ed. So Paulo: Editora da Universidade de So Paulo, 2000.

  • 167

    BORGES, Maria Eliza Linhares. Histria & Fotografia. Belo Horizonte: Autntica,

    2003.

    BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simblicas. So Paulo: Perspectiva,

    1974.

    BRANDO, Maria de Azevedo e CARDOSO, Suzana Alice M (orgs.). Jacobina:

    passado e futuro. Jacobina (BA): ACIJA, 1993.

    BRESCIANI, Maria Stella (org.) Palavras da cidade. Porto Alegre: Ed. Universidade/

    UFRGS, 2001.

    BURKE, Peter (org.) A escrita da histria: novas perpectivas. Traduo Magda

    Lopes. So Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.

    BURKE, Peter. A Fabricao do rei: a construo da imagem pblica de Lus XIV.

    Traduo Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

    BURKE, Peter. A Revoluo Francesa da historiografia: a Escola dos Annales, 1929-

    1989. Traduo Nilo Odlia. So Paulo:Editora UNESP, 1991.

    BURKE, Peter. Testemunha ocular: histria e imagem. Traduo Vera Maria Xavier

    dos Santos; reviso tcnica: Daniel Aaro Reis Filho. Bauru, SP: EDUSC, 2004.

    CARDOSO, Ciro F. e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domnios da Histria: ensaios de

    teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, pp. 401-416.

    CERTEAU, Michel de et alii. A inveno do cotidiano: 2. morar, cozinhar. Traduo

    Ephraim F. Alves e Lcia Endlich Orth. Petrpolis, RJ: Vozes, 1996.

    CHOAY, Franoise. A alegoria do patrimnio. Traduo Luciano Vieira Machado. 3

    ed. So Paulo: Estao Liberdade: UNESP, 2006.

    CIAVATTA, Maria e ALVES, Nilda (orgs.). A leitura de imagens na pesquisa social:

    Histria, Comunicao e Educao. So Paulo: Cortez, 2004.

    CIAVATTA, Maria. O mundo do trabalho em imagens: a fotografia como fonte

    histrica (Rio de Janeiro, 1900-1930). Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

  • 168

    COSTA, Helouise e RODRIGUES, Renato. A fotografia moderna no Brasil. Rio de

    Janeiro: UFRJ Editor/ Funarte/IPHAN.

    DE PAULA, Jeziel. 1932: imagens construindo a histria. Campinas/Piracicaba:

    Editora da UNICAMP/Editora UNIMEP, 1998.

    DELGADO, Lucilia de Almeida N. e FERREIRA, Jorge (orgs.). O tempo da

    experincia democrtica: da democratizao de 1945 ao golpe civil-militar de 1964.

    Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003.

    DUBOIS, Philippe. O ato fotogrfico e outros ensaios. Traduo Marina Appenzeller.

    Campinas, SP: Papirus, 1993.

    FABRIS, Annateresa (org). Fotografia: usos e funes no sculo XIX. So Paulo:

    Edusp, 1998.

    FABRIS, Annateresa. Fragmentos Urbanos: representaes culturais. So Paulo:

    Studio Nobel, 2000.

    FABRIS, Annateresa. Identidades virtuais: uma leitura do retrato fotogrfico. Belo

    Horizonte: Editora UFMG, 2004.

    FERRARA, Lucrcia DAlessio. Os significados urbanos. So Paulo: Editora da

    Universidade de So Paulo: Fapesp, 2000.

    FLUSSER, Vilm. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da

    fotografia. Traduo do autor. Rio de Janeiro: Relume Dumar, 2002.

    FONSECA, Raimundo Nonato da Silva. Fazendo fita: cinematgrafos, cotidiano e

    imaginrio em Salvador, 1897-1930. Salvador: EDUFBA, 2002.

    GINZBURG, Carlo. Emblemas, Sinais e Mitos: Morfologia e Histria. Traduo

    Federico Carotti. So Paulo: Cia das Letras, 1989.

    GRANGEIRO, Cndido Domingues. As artes de um negcio: a febre photographica:

    So Paulo 1862-1886. Campinas, SP: Mercado de Letras; So Paulo: Fapesp, 2000.

    KOSSOY, Boris. Dicionrio Histrico-Fotogrfico Brasileiro: Fotgrafos e ofcio da

    fotografia no Brasil (1833-1910). So Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

  • 169

    KOSSOY, Boris. Fotografia e Histria. So Paulo: tica, 1989.

    KOSSOY, Boris. Realidades e fices na trama fotogrfica. 3 ed. Ateli Editorial:

    So Paulo, 2002.

    KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro (org.) Imagem e memria: ensaios em

    Antropologia visual. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.

    LE GOFF, Jacques (org.) A Histria Nova. Traduo Eduardo Brando. 4 ed. So

    Paulo: Martins Fontes, 1998.

    LE GOFF, Jacques. Histria e memria. Traduo Suzana Ferreira Borges [et. al.]. 4

    ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.

    LEITE, Miriam Moreira. Retratos de famlia: leitura da fotografia histrica. 2 ed.

    revisada. So Paulo: Edusp, 2000.

    LIMA, Rogrio e FERNANDES, Ronaldo Costa (orgs.) O imaginrio da cidade.

    Braslia: Editora da Universidade de Braslia: So Paulo: Imprensa Oficial do Estado,

    2000.

    LIMA, Solange Ferraz de e CARVALHO, Vnia Carneiro de. Fotografia e cidade: da

    razo urbana lgica do consumo: lbuns da cidade de So Paulo, 1887-1954.

    Campinas, SP: Mercado de Letras; So Paulo: Fapesp, 1997.

    LIRA, Bertrand de Souza. Fotografia na Paraba: um inventrio dos fotgrafos

    atravs do retrato (1850-1950). Joo Pessoa: Editora Universitria, 1997.

    MACIEL, Laura Antunes. A nao por um fio. Caminhos, prticas e imagens da

    Comisso Rondon. So Paulo: EDUC, 1998.

    MAGALHES, Angela e PEREGRINO, Nadja Fonsca. Fotografia no Brasil: um

    olhar das origens ao contemporneo. Rio de Janeiro: Funarte, 2004.

    MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: uma histria de amor e dio. Traduo Rubens

    Figueiredo et alii. So Paulo: Companhia das Letras, 2001.

    MAUAD, Ana Maria e CARDOSO, Ciro Flamarion. Histria e Imagem: Os exemplos

    da fotografia e do cinema. In. CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo

  • 170

    (orgs). Domnios da Histria: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro:

    Campus, 1997.

    MONDENARD, Anne de. A Emergncia de um Novo Olhar Sobre a Cidade: As

    Fotografias Urbanas de 1870 a 1918. In: Projeto Histria: Revista do programa de

    estudos ps-graduados em histria da PUC_SP. So Paulo: Educ, 1981.

    MORIN, Edgar. As estrelas: mito e seduo no cinema. Traduo Luciano Trigo. Rio

    de Janeiro: Jos Olympio, 1989.

    MOTTA, Rodrigo Patto S. Jango e o golpe de 1964 na caricatura. Rio de Janeiro:

    Jorge Zahar Ed., 2006.

    Museum Ludwig Cologne. 20th Century Photography. Taschen, 1996.

    PALLARES-BURKE, Maria Lcia Garcia. As muitas faces da histria. Nove

    entrevistas. So Paulo: Editora UNESP, 2000.

    PESAVENTO, Sandra Jatahy (coord.). O espetculo da rua. 2 ed. Porto Alegre: Ed.

    Universidade/ UFRGS, 1996.

    PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imaginrio da cidade: vises literrias do urbano -

    Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999.

    RIO, Joo do. A alma encantadora das ruas. Organizao Ral Antelo.So Paulo:

    Companhia das Letras, 1997.

    SAMAIN, Etienne (org.). O fotogrfico. So Paulo: Hucitec, 1998.

    SAMPAIO, Alan e OLIVEIRA, Valter de (orgs.). Arte e cidade: imagens de Jacobina.

    Salvador: EDUNEB, 2006.

    SILVA, Zlia Lopes da (org.). Arquivos, patrimnio e memria: trajetrias e

    perpectivas. So Paulo: Editora UNESP: FAPESP, 1999.

    SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Traduo Rubens Figueiredo. So Paulo: Cia.

    das Letras, 2004.

  • 171

    TAVARES, Lus Henrique Dias. Histria da Bahia. 10 ed. So Paulo: Editora

    UNESP: Salvador, BA: EDUFBA, 2001.

    THOMPSON, E. P. Costumes em comum. Traduo Rosaura Eichemberg. Rio de

    Janeiro: Companhia das Letras, 1998.

    TURAZZI, Maria Inez. Marc Ferrez. Espaos da arte brasileira. So Paulo: Cosac &

    Naify Edies, 2000.

    VARNHAGEN, Franscisco Adolfo de. Histria Geral do Brasil. 6 ed. So Paulo:

    Edies Melhoramentos, 1956.

    VERGER, Pierre. Retratos da Bahia. 1946 a 1952. Salvador, BA: Corrupio, 1980.