Drageas literarias 000

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Café e Literatura

Transcript of Drageas literarias 000

  • Editorial

    Caros amigos

    Umas das ferramentas mais surpreendentes inventadas

    pelo homem foi a internet. Com ela redefinimos as

    noes de compartilhamento, globalizao e

    comunicao de massa.

    Agora podemos estar em todos os lugares ao mesmo

    tempo, dispondo do mesmo espao que todos dispe.

    Viajamos de um lugar para o outro em um nico clique do

    mouse, acessamos informao em qualquer lugar e em

    qualquer lngua, porque tambm dispomos de

    ferramentas que traduzem essas informaes.

    Enfim, abraamos o mundo, especificamente o mundo

    virtual. E nesse oceano de contedo totalmente livre e

    democrtico em que vivemos, nasce a revista Drgeas

    Literrias, uma publicao dedicada aos amantes de caf

    e literatura, no necessariamente nesta ordem.

    Queremos dar ao leitor um contedo ldico e de fcil

    conexo, que traduza a experincia da leitura em algo to

    agradvel quanto tomar um delicioso caf na companhia

    de amigos.

    Esperamos atender as expectativas daqueles que

    procuram algo novo nesse dinmico mundo das letras.

    Um grande abrao!

    Alexandre Costa

    Desconexos Literrios

    Mais uma vez, Alexandre Costa e Roberto Prado, qual um

    Quixote armados de lanas contra moinhos, lanam mais

    uma empreitada literria, as Drgeas Literrias, com seus

    contos, crnicas, poesias, haicais e outras elucubraes...

    Contamos com a sorte de encontrarmos colaboradores

    diletantes (ou seja, que no cobram nada, pois nada

    tudo que nos propomos a pagar) que venham abrilhantar

    ainda mais cada edio dessa ditosa Revista.

    Seguimos com nossos sonhos que a vida teima em

    transmutar em pesadelos, suores noturnos e ranger de

    dentes, seguimos em frente mesmo quando os

    presenteados com nossos trabalhos (no, no declinarei

    nomes) literrios os usam como porta-copos, descanso

    de pratos, calo de cadeira e mesas bambas.

    Avante amigos!

    Roberto Prado

    Drgeas Literrias

    Uma revista dedicada aos amantes de caf e literatura

    ANO I | N 000 | 2015

    Diretores

    Alexandre Costa - Diretor de contedo

    Roberto Prado - Diretor Executivo

    Colaboradores

    Rodrigo Lopes - Inglaterra

    Magno Oliveira - Brasil

    Solange Gomes - Brasil

    Maryland Faillace - Brasil

    Design Grfico | Diagramao

    Alexandre Costa

    Leia Drgeas Literrias no seu celular ou tablet

    DOWNLOAD EM:

    Leia Drgeas Literrias no:

    https://issuu.com

    4 | capa

    Caf com livro: o casamento perfeito

    5 | Voc Sabia?

    curiosidades sobre caf

    6 | Biografia

    Murilo Rubio

    8 | Entrevista

    Roberto Prado

    10 | Realismo Fantstico

    Alexandre Costa

    14 | Sparce Notes

    Rodrigo Lopes: colaborador direto

    de Londres

    16 | Quadrinhos

    17 | crnicas do prado

    Minha relao com Hemingway

    18 | crnicas do prado

    Minha relao com Hemingway

    19 | Degustao

    Receita de caf irlands

    As imagens usadas na revista so livres de direitos, salvo as creditadas a seus autores.

    OS MELHORESDESTINOS

    NORDESTE

    SERRA GACHA

    AMRICA LATINA

    ESTADOS UNIDOS

    EUROPA

    OS MENORESPREOS

    A PARTIR DE

    R$ 59

    SUA PRXIMA VIAGEM EST AQUI

    CONHEA TODOS OS DESTINOS DO BRASIL

    PROGRAME AGORA O SEU FERIADO

    PACOTE PARA VIAGENS DE FRIAS

  • Editorial

    Caros amigos

    Umas das ferramentas mais surpreendentes inventadas

    pelo homem foi a internet. Com ela redefinimos as

    noes de compartilhamento, globalizao e

    comunicao de massa.

    Agora podemos estar em todos os lugares ao mesmo

    tempo, dispondo do mesmo espao que todos dispe.

    Viajamos de um lugar para o outro em um nico clique do

    mouse, acessamos informao em qualquer lugar e em

    qualquer lngua, porque tambm dispomos de

    ferramentas que traduzem essas informaes.

    Enfim, abraamos o mundo, especificamente o mundo

    virtual. E nesse oceano de contedo totalmente livre e

    democrtico em que vivemos, nasce a revista Drgeas

    Literrias, uma publicao dedicada aos amantes de caf

    e literatura, no necessariamente nesta ordem.

    Queremos dar ao leitor um contedo ldico e de fcil

    conexo, que traduza a experincia da leitura em algo to

    agradvel quanto tomar um delicioso caf na companhia

    de amigos.

    Esperamos atender as expectativas daqueles que

    procuram algo novo nesse dinmico mundo das letras.

    Um grande abrao!

    Alexandre Costa

    Desconexos Literrios

    Mais uma vez, Alexandre Costa e Roberto Prado, qual um

    Quixote armados de lanas contra moinhos, lanam mais

    uma empreitada literria, as Drgeas Literrias, com seus

    contos, crnicas, poesias, haicais e outras elucubraes...

    Contamos com a sorte de encontrarmos colaboradores

    diletantes (ou seja, que no cobram nada, pois nada

    tudo que nos propomos a pagar) que venham abrilhantar

    ainda mais cada edio dessa ditosa Revista.

    Seguimos com nossos sonhos que a vida teima em

    transmutar em pesadelos, suores noturnos e ranger de

    dentes, seguimos em frente mesmo quando os

    presenteados com nossos trabalhos (no, no declinarei

    nomes) literrios os usam como porta-copos, descanso

    de pratos, calo de cadeira e mesas bambas.

    Avante amigos!

    Roberto Prado

    Drgeas Literrias

    Uma revista dedicada aos amantes de caf e literatura

    ANO I | N 000 | 2015

    Diretores

    Alexandre Costa - Diretor de contedo

    Roberto Prado - Diretor Executivo

    Colaboradores

    Rodrigo Lopes - Inglaterra

    Magno Oliveira - Brasil

    Solange Gomes - Brasil

    Maryland Faillace - Brasil

    Design Grfico | Diagramao

    Alexandre Costa

    Leia Drgeas Literrias no seu celular ou tablet

    DOWNLOAD EM:

    Leia Drgeas Literrias no:

    https://issuu.com

    4 | capa

    Caf com livro: o casamento perfeito

    5 | Voc Sabia?

    curiosidades sobre caf

    6 | Biografia

    Murilo Rubio

    8 | Entrevista

    Roberto Prado

    10 | Realismo Fantstico

    Alexandre Costa

    14 | Sparce Notes

    Rodrigo Lopes: colaborador direto

    de Londres

    16 | Quadrinhos

    17 | crnicas do prado

    Minha relao com Hemingway

    18 | crnicas do prado

    Minha relao com Hemingway

    19 | Degustao

    Receita de caf irlands

    As imagens usadas na revista so livres de direitos, salvo as creditadas a seus autores.

    OS MELHORESDESTINOS

    NORDESTE

    SERRA GACHA

    AMRICA LATINA

    ESTADOS UNIDOS

    EUROPA

    OS MENORESPREOS

    A PARTIR DE

    R$ 59

    SUA PRXIMA VIAGEM EST AQUI

    CONHEA TODOS OS DESTINOS DO BRASIL

    PROGRAME AGORA O SEU FERIADO

    PACOTE PARA VIAGENS DE FRIAS

  • Caf com livro:o casamento perfeito

    Um caf preto, forte e feito nesse ano!

    Raymond Chandler O Sono Eterno

    Sem grinaldas, sem ptalas de rosas,

    sem arroz, somente um bom livro e uma

    xcara de caf, eis ai um casamento.

    No em uma igreja ou templo, mas em

    uma mesa, no silencio de uma cafeteria, o

    aroma do gro torrado invade nossos

    sentidos e nos vemos completamente

    embriagados. Folheamos as pginas de um

    livro e mergulhamos de cabea na histria,

    a comunho perfeita entre o lugar, a bebida e

    a literatura. E assim, passamos minutos ou

    horas dedicados somente a ns mesmos,

    entregues quela comunho perfeita. Um

    paraso com minutos contatos.

    Poucos hoje em dia curtem esse prazer,

    essa autoindulgncia. Aquele momento

    ntimo entre voc e voc mesmo, aquele

    momento de reflexo, ou quem sabe, de uma

    boa conversa com uma boa companhia.

    Ah! O universo que uma cafeteria...

    Escrevo essas linhas mesa de um caf

    enquanto aguardo minha xcara.

    Em algumas cafeterias, onde as mesas

    ficam nas caladas, temos o privilgio da

    paquera, em outras, o do anonimato. H

    quem at as colecione atravs de fotos,

    textos em dirios, recortes de revista. No h

    nada melhor para o esprito do que a

    comunho entre duas paixes.

    Desde a Absnia (hoje Etipia) h mil

    anos atrs, aos dias de hoje, o caf tem sido a

    bebida mais consumida do planeta depois

    da gua. O que me faz pensar: que fariam os

    sumrios quatro mil anos antes se

    houvessem experimentado a Coffea

    arabica?

    O nome caf no originrio da Kaffa,

    local de origem da planta, e sim da palavra

    rabe qahwa, que significa vinho. Por esse

    motivo, o caf era conhecido como "vinho da

    Arbia" quando chegou Europa no sculo

    XIV. E de l para o resto do mundo.

    Sobre o l ivro, t iveram grande

    importncia para a realizao de registros

    histricos, a compilao de leis e a

    divulgao de ideias. Atualmente, a

    produo de livros chegou a tal ponto que,

    por exemplo, o sculo XX foi responsvel por

    uma literatura histrica

    superior a de todos os outros sculos

    somados juntos!

    Ou seja, duas histrias de sucesso

    absoluto na evoluo da humanidade. Ento,

    no de se estranhar que este casamento

    no fosse duradouro, qui eterno.

    Casais podem discutir suas diferenas

    religiosas, filosficas, ideolgicas; suas

    escolhas e orientaes, e at se continuaro

    a viver juntos com isso, mas no h como

    discutir a perfeita unio entre caf e livro. E

    eu posso prometer a voc que ela ser

    duradoura, eterna enquanto durar e que s

    lhe trar benefcios.

    Imagine-se agora sentado mesa de

    sua cafeteria favorita. Ao lado de sua xcara,

    aberto na pgina trinta e dois, o personagem

    abre a porta do vago principal do expresso

    do Imalaia e v sua amada pela primeira vez,

    ao mesmo tempo em que o aroma do caf

    atinge seus sentidos.

    Ento para sempre, aquela pgina

    estar gravada em sua memria. Todas as

    vezes em que sentir aquele aroma, se

    lembrar de cada detalhe da histria, cada

    frase, e se sentir mais uma vez dentro do

    l i v r o . N o h s e n s a o m a i s

    recompensadora.

    Mas se voc ainda no se entregou a

    esta paixo, no perca mais tempo. Existem

    milhares de centenas de cafeterias neste

    mundo que proporcionaro a voc uma

    experincia nica e inigualvel.

    por: RobertoPrado

    4 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 5

    ima

    ge

    ns d

    esta

    p

    gin

    a: fr

    ee

    pik

    .co

    m

    1. A palavra caf vem do rabe qahwah,

    que est relacionada com a palavra vinho

    2. Em todo o mundo so consumidas mais de

    500 bilhes de xcaras de caf por ano

    3. O caf pode diminuir o declnio cognitivo e

    ainda doenas neurodegenerativas

    4. Produzido nas ilhas de Sumatra, Bali e Java,

    o quilo do Kopi Luwak custa, em mdia,

    US$ 500 (R$ 1.000), fazendo dele o caf

    mais caro do mundo

    5. Homens que bebem seis ou mais xcaras

    de caf dirias, diminuem o risco de

    desenvolver cncer da prstata em 20%

  • Caf com livro:o casamento perfeito

    Um caf preto, forte e feito nesse ano!

    Raymond Chandler O Sono Eterno

    Sem grinaldas, sem ptalas de rosas,

    sem arroz, somente um bom livro e uma

    xcara de caf, eis ai um casamento.

    No em uma igreja ou templo, mas em

    uma mesa, no silencio de uma cafeteria, o

    aroma do gro torrado invade nossos

    sentidos e nos vemos completamente

    embriagados. Folheamos as pginas de um

    livro e mergulhamos de cabea na histria,

    a comunho perfeita entre o lugar, a bebida e

    a literatura. E assim, passamos minutos ou

    horas dedicados somente a ns mesmos,

    entregues quela comunho perfeita. Um

    paraso com minutos contatos.

    Poucos hoje em dia curtem esse prazer,

    essa autoindulgncia. Aquele momento

    ntimo entre voc e voc mesmo, aquele

    momento de reflexo, ou quem sabe, de uma

    boa conversa com uma boa companhia.

    Ah! O universo que uma cafeteria...

    Escrevo essas linhas mesa de um caf

    enquanto aguardo minha xcara.

    Em algumas cafeterias, onde as mesas

    ficam nas caladas, temos o privilgio da

    paquera, em outras, o do anonimato. H

    quem at as colecione atravs de fotos,

    textos em dirios, recortes de revista. No h

    nada melhor para o esprito do que a

    comunho entre duas paixes.

    Desde a Absnia (hoje Etipia) h mil

    anos atrs, aos dias de hoje, o caf tem sido a

    bebida mais consumida do planeta depois

    da gua. O que me faz pensar: que fariam os

    sumrios quatro mil anos antes se

    houvessem experimentado a Coffea

    arabica?

    O nome caf no originrio da Kaffa,

    local de origem da planta, e sim da palavra

    rabe qahwa, que significa vinho. Por esse

    motivo, o caf era conhecido como "vinho da

    Arbia" quando chegou Europa no sculo

    XIV. E de l para o resto do mundo.

    Sobre o l ivro, t iveram grande

    importncia para a realizao de registros

    histricos, a compilao de leis e a

    divulgao de ideias. Atualmente, a

    produo de livros chegou a tal ponto que,

    por exemplo, o sculo XX foi responsvel por

    uma literatura histrica

    superior a de todos os outros sculos

    somados juntos!

    Ou seja, duas histrias de sucesso

    absoluto na evoluo da humanidade. Ento,

    no de se estranhar que este casamento

    no fosse duradouro, qui eterno.

    Casais podem discutir suas diferenas

    religiosas, filosficas, ideolgicas; suas

    escolhas e orientaes, e at se continuaro

    a viver juntos com isso, mas no h como

    discutir a perfeita unio entre caf e livro. E

    eu posso prometer a voc que ela ser

    duradoura, eterna enquanto durar e que s

    lhe trar benefcios.

    Imagine-se agora sentado mesa de

    sua cafeteria favorita. Ao lado de sua xcara,

    aberto na pgina trinta e dois, o personagem

    abre a porta do vago principal do expresso

    do Imalaia e v sua amada pela primeira vez,

    ao mesmo tempo em que o aroma do caf

    atinge seus sentidos.

    Ento para sempre, aquela pgina

    estar gravada em sua memria. Todas as

    vezes em que sentir aquele aroma, se

    lembrar de cada detalhe da histria, cada

    frase, e se sentir mais uma vez dentro do

    l i v r o . N o h s e n s a o m a i s

    recompensadora.

    Mas se voc ainda no se entregou a

    esta paixo, no perca mais tempo. Existem

    milhares de centenas de cafeterias neste

    mundo que proporcionaro a voc uma

    experincia nica e inigualvel.

    por: RobertoPrado

    4 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 5

    ima

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    ns d

    esta

    p

    gin

    a: fr

    ee

    pik

    .co

    m

    1. A palavra caf vem do rabe qahwah,

    que est relacionada com a palavra vinho

    2. Em todo o mundo so consumidas mais de

    500 bilhes de xcaras de caf por ano

    3. O caf pode diminuir o declnio cognitivo e

    ainda doenas neurodegenerativas

    4. Produzido nas ilhas de Sumatra, Bali e Java,

    o quilo do Kopi Luwak custa, em mdia,

    US$ 500 (R$ 1.000), fazendo dele o caf

    mais caro do mundo

    5. Homens que bebem seis ou mais xcaras

    de caf dirias, diminuem o risco de

    desenvolver cncer da prstata em 20%

  • 6 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 7

    Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e

    seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do

    nmero de andares a serem vencidos. Dez.

    No demonstrava pressa, porm o seu rosto denunciava

    a segurana de uma resoluo irrevogvel. J no dcimo

    pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e

    detritos emprestavam desagradvel aspecto aos ladrilhos.

    Todas as salas encontravam-se fechadas e delas no escapava

    qualquer rudo que indicasse presena humana.

    Parou diante do ltimo escritrio e perdeu algum tempo

    lendo uma frase, escrita a lpis, na parede. Em seguida passou a

    mala para a mo esquerda e com a direita experimentou a

    maaneta, que custou a girar, como se h muito no fosse

    utilizada. Mesmo assim no conseguiu franquear a porta, cujo

    madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para for-la.

    E o fez com tamanha violncia que ela veio abaixo ruidosamente.

    No se impressionou. Estava muito seguro de si para dar

    importncia ao barulho que antecedera a sua entrada numa

    saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os

    mveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga.

    Quis voltar ao corredor, a fim de recomear a busca, quando deu

    com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta

    semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no cho, mas um

    terror sbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa

    empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante

    sereno, apontava-lhe um revlver. Conservando a arma na

    direo do intruso, ordenou-lhe que no se afastasse.

    Tambm a Alexandre no interessava fugir, porque

    jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensao

    de medo fora passageira e logo substituda por outra mais

    intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa

    tonalidade azul.

    Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo

    desmazelo, inclusive as esgaradas roupas do seu solitrio

    ocupante:

    Estava sua espera disse, com uma voz macia.

    Alexandre no deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar

    do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar,

    algumas palavras duras, num vo de escada.

    O outro teve que insistir:

    Afinal, voc veio.

    Subtrado bruscamente s recordaes, ele fez um

    esforo violento para no demonstrar espanto:

    Ah, esperava-me? No aguardou resposta e

    prosseguiu exaltado, como se de repente viesse tona uma

    irritao antiga: Impossvel! Nunca voc poderia calcular que

    eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ningum est

    informado da minha presena na cidade! Voc um farsante,

    mau farsante. Certamente aplicou sua velha tcnica e ps espias

    no meu encalo. De outro modo seria difcil descobrir, pois vivo

    viajando, mudando de lugar e nome.

    No sabia das suas viagens nem dos seus disfarces.

    Ento, como fez para adivinhar a data da minha

    chegada?

    Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. H dois

    anos, nesta cadeira, na mesma posio em que me encontro,

    aguardava-o certo de que voc viria.

    Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes

    mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.

    Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque,

    convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez

    do adversrio. Este, entretanto, percebeu-lhe a inteno e

    antecipou-se:

    Antes que me dirija outras perguntas e sei que tem

    muitas a fazer-me quero saber o que aconteceu com Ema.

    Nada respondeu, procurando dar voz um tom

    despreocupado.

    Nada?

    Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se

    de dio e humilhao. Tentou revidar com um palavro.

    Todavia, a firmeza e a tranqilidade que iam no rosto do outro

    venceram-no.

    Abandonou-me deixou escapar, constrangido pela

    vergonha. E numa tentativa intil de demonstrar um resto de

    altivez, acrescentou: Disso voc no sabia!

    Um leve claro passou pelo olhar do homem idoso:

    Calculava, porm desejava ter certeza.

    Comeava a escurecer. Um silncio pesado separava-os e ambos

    volveram para certas reminiscncias que, mesmo contra a

    vontade deles, sempre os ligariam.

    O velho guardou a arma. Dos seus lbios desaparecera o sorriso

    irnico que conservara durante todo o dilogo. Acendeu um

    cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele

    julgaria, desnecessria. Alexandre impediu que a fizesse.

    Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa:

    Seu caduco, no tem medo que eu aproveite a ocasio

    para mat-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revlver.

    No, alm de desarmado, voc no veio aqui para

    matar-me.

    O que est esperando, ento?! gritou Alexandre.

    Mate-me logo!

    No posso.

    No pode ou no quer?

    Estou impedido de faz-lo. Para evitar essa tentao,

    aps to longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto

    da sala.

    Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas.

    Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa,

    abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e

    tentou atirar-se atravs dela. No a atravessou. Bateu com a

    cabea numa fina malha metlica e caiu desmaiado no cho.

    Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta

    e, por baixo dela, iria jogar a chave.

    Lanou-se na direo dele, disposto a impedi-lo. Era

    tarde. O outro j conclura seu intento e divertia-se com o pnico

    que se apossara do adversrio:

    Eu esperava que voc tentaria o suicdio e tomei

    precauo de colocar telas de ao nas janelas.

    A fria de Alexandre chegara ao auge:

    Arrombarei a porta. Jamais me prendero aqui!

    Intil. Se tivesse reparado nela, saberia que tambm

    de ao. Troquei a antiga por esta.

    Gritarei, berrarei!

    No lhe acudiro. Ningum mais vem a este prdio.

    Despedi os empregados, despejei os inquilinos.

    E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si

    mesmo:

    Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.

    biografiaMurilo Rubio

    Murilo Rubio nasceu na cidade de Silvestre

    Ferraz, hoje chamada de Carmo de Minas, em 1 de

    junho de 1916. Era filho de escritores. A famlia

    mudou-se para Belo Horizonte quando ele tinha

    sete anos. Foi l que ele viveu at o final de sua vida,

    retirando-se para viver em Madri como adido junto

    Embaixada do Brasil na Espanha por quatro anos.

    Foi jornalista, chefe de gabinete do governador

    Juscelino Kubitschek e fundador, em 1966, do

    Suplemento Literrio do Minas Gerais.

    Sua carreira do escritor inicia-se com a

    publicao de seus poemas. Ele mesmo reconheceu

    que no era um bom poeta e desiste do gnero.

    Ento em 1947, lanou seu primeiro livro de contos,

    "O ex-mgico", que no teve maior repercusso na

    poca. No entanto, a publicao de "O pirotcnico

    Zacarias", em 1974, deu sbita fama a Murilo Rubio.

    Nos anos seguintes, sua obra passou a ser

    vista como a mais significativa manifestao da

    literatura fantstica no Brasil.

    Murilo Rubio influenciou diversos autores

    brasileiros, dentre eles, Jos J. Veiga e Moacyr

    Scliar.

    a armadilha

  • 6 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 7

    Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e

    seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do

    nmero de andares a serem vencidos. Dez.

    No demonstrava pressa, porm o seu rosto denunciava

    a segurana de uma resoluo irrevogvel. J no dcimo

    pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e

    detritos emprestavam desagradvel aspecto aos ladrilhos.

    Todas as salas encontravam-se fechadas e delas no escapava

    qualquer rudo que indicasse presena humana.

    Parou diante do ltimo escritrio e perdeu algum tempo

    lendo uma frase, escrita a lpis, na parede. Em seguida passou a

    mala para a mo esquerda e com a direita experimentou a

    maaneta, que custou a girar, como se h muito no fosse

    utilizada. Mesmo assim no conseguiu franquear a porta, cujo

    madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para for-la.

    E o fez com tamanha violncia que ela veio abaixo ruidosamente.

    No se impressionou. Estava muito seguro de si para dar

    importncia ao barulho que antecedera a sua entrada numa

    saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os

    mveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga.

    Quis voltar ao corredor, a fim de recomear a busca, quando deu

    com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta

    semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no cho, mas um

    terror sbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa

    empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante

    sereno, apontava-lhe um revlver. Conservando a arma na

    direo do intruso, ordenou-lhe que no se afastasse.

    Tambm a Alexandre no interessava fugir, porque

    jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensao

    de medo fora passageira e logo substituda por outra mais

    intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa

    tonalidade azul.

    Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo

    desmazelo, inclusive as esgaradas roupas do seu solitrio

    ocupante:

    Estava sua espera disse, com uma voz macia.

    Alexandre no deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar

    do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar,

    algumas palavras duras, num vo de escada.

    O outro teve que insistir:

    Afinal, voc veio.

    Subtrado bruscamente s recordaes, ele fez um

    esforo violento para no demonstrar espanto:

    Ah, esperava-me? No aguardou resposta e

    prosseguiu exaltado, como se de repente viesse tona uma

    irritao antiga: Impossvel! Nunca voc poderia calcular que

    eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ningum est

    informado da minha presena na cidade! Voc um farsante,

    mau farsante. Certamente aplicou sua velha tcnica e ps espias

    no meu encalo. De outro modo seria difcil descobrir, pois vivo

    viajando, mudando de lugar e nome.

    No sabia das suas viagens nem dos seus disfarces.

    Ento, como fez para adivinhar a data da minha

    chegada?

    Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. H dois

    anos, nesta cadeira, na mesma posio em que me encontro,

    aguardava-o certo de que voc viria.

    Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes

    mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.

    Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque,

    convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez

    do adversrio. Este, entretanto, percebeu-lhe a inteno e

    antecipou-se:

    Antes que me dirija outras perguntas e sei que tem

    muitas a fazer-me quero saber o que aconteceu com Ema.

    Nada respondeu, procurando dar voz um tom

    despreocupado.

    Nada?

    Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se

    de dio e humilhao. Tentou revidar com um palavro.

    Todavia, a firmeza e a tranqilidade que iam no rosto do outro

    venceram-no.

    Abandonou-me deixou escapar, constrangido pela

    vergonha. E numa tentativa intil de demonstrar um resto de

    altivez, acrescentou: Disso voc no sabia!

    Um leve claro passou pelo olhar do homem idoso:

    Calculava, porm desejava ter certeza.

    Comeava a escurecer. Um silncio pesado separava-os e ambos

    volveram para certas reminiscncias que, mesmo contra a

    vontade deles, sempre os ligariam.

    O velho guardou a arma. Dos seus lbios desaparecera o sorriso

    irnico que conservara durante todo o dilogo. Acendeu um

    cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele

    julgaria, desnecessria. Alexandre impediu que a fizesse.

    Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa:

    Seu caduco, no tem medo que eu aproveite a ocasio

    para mat-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revlver.

    No, alm de desarmado, voc no veio aqui para

    matar-me.

    O que est esperando, ento?! gritou Alexandre.

    Mate-me logo!

    No posso.

    No pode ou no quer?

    Estou impedido de faz-lo. Para evitar essa tentao,

    aps to longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto

    da sala.

    Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas.

    Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa,

    abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e

    tentou atirar-se atravs dela. No a atravessou. Bateu com a

    cabea numa fina malha metlica e caiu desmaiado no cho.

    Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta

    e, por baixo dela, iria jogar a chave.

    Lanou-se na direo dele, disposto a impedi-lo. Era

    tarde. O outro j conclura seu intento e divertia-se com o pnico

    que se apossara do adversrio:

    Eu esperava que voc tentaria o suicdio e tomei

    precauo de colocar telas de ao nas janelas.

    A fria de Alexandre chegara ao auge:

    Arrombarei a porta. Jamais me prendero aqui!

    Intil. Se tivesse reparado nela, saberia que tambm

    de ao. Troquei a antiga por esta.

    Gritarei, berrarei!

    No lhe acudiro. Ningum mais vem a este prdio.

    Despedi os empregados, despejei os inquilinos.

    E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si

    mesmo:

    Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.

    biografiaMurilo Rubio

    Murilo Rubio nasceu na cidade de Silvestre

    Ferraz, hoje chamada de Carmo de Minas, em 1 de

    junho de 1916. Era filho de escritores. A famlia

    mudou-se para Belo Horizonte quando ele tinha

    sete anos. Foi l que ele viveu at o final de sua vida,

    retirando-se para viver em Madri como adido junto

    Embaixada do Brasil na Espanha por quatro anos.

    Foi jornalista, chefe de gabinete do governador

    Juscelino Kubitschek e fundador, em 1966, do

    Suplemento Literrio do Minas Gerais.

    Sua carreira do escritor inicia-se com a

    publicao de seus poemas. Ele mesmo reconheceu

    que no era um bom poeta e desiste do gnero.

    Ento em 1947, lanou seu primeiro livro de contos,

    "O ex-mgico", que no teve maior repercusso na

    poca. No entanto, a publicao de "O pirotcnico

    Zacarias", em 1974, deu sbita fama a Murilo Rubio.

    Nos anos seguintes, sua obra passou a ser

    vista como a mais significativa manifestao da

    literatura fantstica no Brasil.

    Murilo Rubio influenciou diversos autores

    brasileiros, dentre eles, Jos J. Veiga e Moacyr

    Scliar.

    a armadilha

  • Este ms, o entrevistado Roberto

    Prado Barbosa Junior, ou simplesmente

    como conhecido pelos blogueiros

    Ranzinza. Ele fala de seu belo trabalho como

    escritor. Roberto Prado, j publicou

    dois livros pela CBJE, tm 54 anos, mora na

    bela cidade de Santos, funcionrio pblico

    e formado em Comunicao e Tecnologia.

    Drgeas Literrias - De onde voc e a

    quanto tempo escreve?

    Roberto Prado - Sou, com muito orgulho, de

    Santos. Sempre gostei de escrever e,

    principalmente, de ler. Mas escrever,

    escrever mesmo, acho que desde meus

    dezessete anos. Pena ter perdido todo o

    m a t e r i a l d a q u e l a p o c a . T u d o

    datilografado, mal datilografado, guardado

    em pastas organizadas.

    DL - Quanto tempo demorou para escrever e

    distribuir o doidinho?

    RP - O Doidinho comeou com o nosso

    primeiro blog, o Contos & Cultos em 2002

    mais ou menos como uma brincadeira, a

    necessidade de ter sempre um material para

    postar, e quando dei por mim o livro estava

    se formando, crescendo, nisso l se vo

    mais de dez anos.

    Sobre a distribuio, no houve, como

    no houve dos outros. No tenho

    conhecimento tampouco cacife para

    arrumar uma vitrine numa livraria. Diferente

    dos anteriores resolvi presentear os amigos

    com o Doidinho. Mas at ai foda. Difcil

    presentear as pessoas com livros. Elas no

    lem, s pessoas a quem entreguei, s pedi

    uma coisa em troca, que postassem no

    facebook uma foto com o livro na mo. Vo

    ao face e vejam quantas pessoas fizeram

    isso. Somente duas, uma velha amiga, poeta

    de mo cheia!, e minha tia. Por isso sempre

    me pergunto: Escrever para qu? Se

    ningum l!

    DL - Como voc desenvolveu seus

    personagens?

    RP - Muitas pessoas me perguntam isso.

    Resposta? No tenho a menor ideia. Eles se

    escrevem praticamente sozinhos.

    DL - Eles existem na vida real?

    RP - Espero que no!

    DL - Voc pensa em fazer um novo livro

    sobre o doidinho?

    RP - No.

    DL - Quais outro livros voc j escreveu?

    RP - Dois de contos. Um chamado Gringa &

    outras histrias e outro chamado Contos.

    Participei de uma Antologia pela Editora

    Pragmata chamado 'Sou Poeta com

    Orgulho', um outro que era uma crnica de

    memrias de uma amigo, e junto com o

    Alexandre Costa, chamado Drgeas

    L i terr ias. Eram pequenos contos

    envelopados para presentear os amigos.

    Teria sido um bom negcio e feito por uma

    editora grande.

    DL - Enfim, quais seus planos para o futuro?

    RP - Envelhecer um pouco mais, com sade,

    dinheiro e um pulmo bom para continuar

    fumando.

    O LTIMO CAFDO DIA

    Sentando-se mesa, o velho poeta

    pede um caf e acende um cigarro,

    folheia erraticamente uma revista,

    deixando seus olhos correrem por todas

    as pginas, mas sem nada ler.

    Seus pensamentos voam longe

    deixando o corpo sonmbulo, o caf frio,

    o cigarro queimando e a revista

    desfolhada e amassada.

    Ansioso, o garom olha par o

    relgio de cinco em cinco minutos

    esperando a hora em que fechar o caf.

    O cho j esta varrido, os copos e xcaras

    lavados, o lixo recolhido, no entanto, o

    velho continua sentado com o olhar

    perdido, esperando sabe Deus o qu.

    No cu as primeiras estrelas

    piscam suas luzes, na rua, os nibus

    lotados levam as pessoas de volta para

    suas casas e, ele continua ali, esperando

    o sujeito ir embora.

    - Hoje perco a hora, o nibus e a

    minha novela. resmunga para o velho

    na mesa ouvir, mas nada acontece, pois

    o velho agora comea a mexer o caf frio

    com uma colherzinha e acende outro

    cigarro.

    O garom olha para a placa na

    parede onde se l S FECHAMOS

    QUANDO O LTIMO FREGUS SAIR"

    - O ltimo fregus pagante!

    completa rangendo os dentes.

    O tempo passa e ele varre o cho

    mais uma vez. V que na rua o caminho

    do lixo recolhe os sacos e latas deixadas

    na calada, nota tambm que os nibus

    agora passam mais vazios e velozes, as

    ruas esvaziam, mas o velho na mesa

    quatorze continua sentado.

    - Pelo menos agora ele fumou um

    cigarro inteiro! Fala o garom para seu

    reflexo na prateleira do bar.

    Ele j no tem mais o que fazer.

    Olha para o relgio, mas no h mais o

    que limpar, e olha para o relgio de novo,

    maos no h mais o que arrumar, e olha

    para o relgio pela milsima vez. Coloca

    as cadeiras sobre as mesas e pe-se a

    apagar as luzes olhando para o relgio

    - pois assim, quem sabe, o velho se

    levanta e vai embora.

    Uma a uma, ele comea a apagar

    as luzes at que falte apenas a luz sobre

    a mesa com o velho. Ele exita um pouco

    antes de se aproximar para pedir para o

    velho se retirar. Mas encontra apenas

    um cliente frio, duro e com os dedos

    mdio e indicador queimados pela brasa

    do cigarro.

    - Meu So Jorge, mas era s o que

    me faltava hoje! grita o garom

    jogando a vassoura contra a parede.

    8 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 9

    Roberto Prado

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  • Este ms, o entrevistado Roberto

    Prado Barbosa Junior, ou simplesmente

    como conhecido pelos blogueiros

    Ranzinza. Ele fala de seu belo trabalho como

    escritor. Roberto Prado, j publicou

    dois livros pela CBJE, tm 54 anos, mora na

    bela cidade de Santos, funcionrio pblico

    e formado em Comunicao e Tecnologia.

    Drgeas Literrias - De onde voc e a

    quanto tempo escreve?

    Roberto Prado - Sou, com muito orgulho, de

    Santos. Sempre gostei de escrever e,

    principalmente, de ler. Mas escrever,

    escrever mesmo, acho que desde meus

    dezessete anos. Pena ter perdido todo o

    m a t e r i a l d a q u e l a p o c a . T u d o

    datilografado, mal datilografado, guardado

    em pastas organizadas.

    DL - Quanto tempo demorou para escrever e

    distribuir o doidinho?

    RP - O Doidinho comeou com o nosso

    primeiro blog, o Contos & Cultos em 2002

    mais ou menos como uma brincadeira, a

    necessidade de ter sempre um material para

    postar, e quando dei por mim o livro estava

    se formando, crescendo, nisso l se vo

    mais de dez anos.

    Sobre a distribuio, no houve, como

    no houve dos outros. No tenho

    conhecimento tampouco cacife para

    arrumar uma vitrine numa livraria. Diferente

    dos anteriores resolvi presentear os amigos

    com o Doidinho. Mas at ai foda. Difcil

    presentear as pessoas com livros. Elas no

    lem, s pessoas a quem entreguei, s pedi

    uma coisa em troca, que postassem no

    facebook uma foto com o livro na mo. Vo

    ao face e vejam quantas pessoas fizeram

    isso. Somente duas, uma velha amiga, poeta

    de mo cheia!, e minha tia. Por isso sempre

    me pergunto: Escrever para qu? Se

    ningum l!

    DL - Como voc desenvolveu seus

    personagens?

    RP - Muitas pessoas me perguntam isso.

    Resposta? No tenho a menor ideia. Eles se

    escrevem praticamente sozinhos.

    DL - Eles existem na vida real?

    RP - Espero que no!

    DL - Voc pensa em fazer um novo livro

    sobre o doidinho?

    RP - No.

    DL - Quais outro livros voc j escreveu?

    RP - Dois de contos. Um chamado Gringa &

    outras histrias e outro chamado Contos.

    Participei de uma Antologia pela Editora

    Pragmata chamado 'Sou Poeta com

    Orgulho', um outro que era uma crnica de

    memrias de uma amigo, e junto com o

    Alexandre Costa, chamado Drgeas

    L i terr ias. Eram pequenos contos

    envelopados para presentear os amigos.

    Teria sido um bom negcio e feito por uma

    editora grande.

    DL - Enfim, quais seus planos para o futuro?

    RP - Envelhecer um pouco mais, com sade,

    dinheiro e um pulmo bom para continuar

    fumando.

    O LTIMO CAFDO DIA

    Sentando-se mesa, o velho poeta

    pede um caf e acende um cigarro,

    folheia erraticamente uma revista,

    deixando seus olhos correrem por todas

    as pginas, mas sem nada ler.

    Seus pensamentos voam longe

    deixando o corpo sonmbulo, o caf frio,

    o cigarro queimando e a revista

    desfolhada e amassada.

    Ansioso, o garom olha par o

    relgio de cinco em cinco minutos

    esperando a hora em que fechar o caf.

    O cho j esta varrido, os copos e xcaras

    lavados, o lixo recolhido, no entanto, o

    velho continua sentado com o olhar

    perdido, esperando sabe Deus o qu.

    No cu as primeiras estrelas

    piscam suas luzes, na rua, os nibus

    lotados levam as pessoas de volta para

    suas casas e, ele continua ali, esperando

    o sujeito ir embora.

    - Hoje perco a hora, o nibus e a

    minha novela. resmunga para o velho

    na mesa ouvir, mas nada acontece, pois

    o velho agora comea a mexer o caf frio

    com uma colherzinha e acende outro

    cigarro.

    O garom olha para a placa na

    parede onde se l S FECHAMOS

    QUANDO O LTIMO FREGUS SAIR"

    - O ltimo fregus pagante!

    completa rangendo os dentes.

    O tempo passa e ele varre o cho

    mais uma vez. V que na rua o caminho

    do lixo recolhe os sacos e latas deixadas

    na calada, nota tambm que os nibus

    agora passam mais vazios e velozes, as

    ruas esvaziam, mas o velho na mesa

    quatorze continua sentado.

    - Pelo menos agora ele fumou um

    cigarro inteiro! Fala o garom para seu

    reflexo na prateleira do bar.

    Ele j no tem mais o que fazer.

    Olha para o relgio, mas no h mais o

    que limpar, e olha para o relgio de novo,

    maos no h mais o que arrumar, e olha

    para o relgio pela milsima vez. Coloca

    as cadeiras sobre as mesas e pe-se a

    apagar as luzes olhando para o relgio

    - pois assim, quem sabe, o velho se

    levanta e vai embora.

    Uma a uma, ele comea a apagar

    as luzes at que falte apenas a luz sobre

    a mesa com o velho. Ele exita um pouco

    antes de se aproximar para pedir para o

    velho se retirar. Mas encontra apenas

    um cliente frio, duro e com os dedos

    mdio e indicador queimados pela brasa

    do cigarro.

    - Meu So Jorge, mas era s o que

    me faltava hoje! grita o garom

    jogando a vassoura contra a parede.

    8 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 9

    Roberto Prado

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  • 10 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 11

    O realismo mgico uma escola literria

    surgida no incio do sculo XX . Tambm

    conhecida por realismo fantstico ou realismo

    maravilhoso, sendo este ltimo nome utilizado

    principalmente em espanhol.

    considerada a resposta latino-americana

    literatura fantstica europia. Entre seus principais

    expoentes esto o colombiano Gabriel Garca

    Mrquez, Premio Nobel de Literatura, o peruano

    Manuel Scorza em suas cinco novelas onde so

    descritas as lutas do campesinato dos Andes

    Centrais e os argentinos Julio Cortzar e Jorge

    Luis Borges.

    Muitos consideram o

    venezuelano Arturo Uslar Pietri

    o pai do realismo mgico. No

    Brasil, destacam-se os nomes de

    Murilo Rubio e Jos J. Veiga e

    parte da obra de Dias Gomes.

    O cubano Alejo Carpentier,

    no prlogo de seu livro Reino

    deste mundo, enquadra sua obra

    no conce i to de rea l i smo

    maravilhoso, definindo este como

    semelhante ao conceito de

    realismo mgico caracterstico da

    obra de Gabriel Garca Mrquez,

    sem, no entanto, confundir um

    com o outro.

    O realismo mgico se

    desenvolveu fortemente nas

    dcadas de 1960 e 1970, como

    produto de duas vises que

    conviviam na Amrica hispnica e

    tambm no Brasil: a cultura da

    tecnologia e a cultura da superstio. Surgiu

    tambm como forma de reao, atravs da palavra,

    contra os regimes ditatoriais deste perodo.

    Este conceito pode ser definido como a

    preocupao estilstica e o interesse em mostrar o

    irreal ou estranho como algo cotidiano e comum.

    No uma expresso literria mgica: sua

    finalidade a de melhor expressar as emoes a

    partir de, sobretudo, uma atitude especfica frente

    realidade. Uma das obras mais representativas

    deste estilo Cem anos de solido, de Gabriel

    Garca Mrquez.

    Apesar de aparentemente desatento

    realidade, o realismo mgico compartilha algumas

    caractersticas com o realismo pico, como a

    inteno de dar verossimilhana interna ao

    fantstico e ao irreal, diferenciando-se assim da

    atitude niilista assumida originalmente pelas

    vanguardas do incio do sculo XX, como o

    surrealismo.

    Aspectos destacados do Realismo mgico

    Os seguintes aspectos esto presentes em

    muitos romances e contos do realismo mgico, mas

    no necessariamente esto todos presentes em

    todas as obras desta escola. Do mesmo modo, obras

    pertencentes a outras escolas podem apresentar

    algumas caractersticas dentre aquelas aqui

    listadas:

    - Contedo de elementos

    m g i c o s o u f a n t s t i c o s

    percebidos como parte da

    " n o r m a l i d a d e " p e l o s

    personagens;

    - Elementos mgicos algumas

    vezes intuitivos, mas nunca

    explicados;

    - Presena do sensorial como

    parte da percepo da realidade;

    - Os acontecimentos so reais

    mas tm uma conotao, pois

    alguns no tm explicao, ou

    m u i t o i m p r o v v e l q u e

    aconteam;

    - O tempo percebido como

    cclico, como no linear,

    seguindo tradies dissociadas

    da racionalidade moderna;

    - O tempo distorcido, para que

    o presente se repita ou se parea com o passado;

    - Transformao do comum e do cotidiano em uma

    vivncia que inclui experincias sobrenaturais ou

    fantsticas;

    - Preocupao estilstica, partcipe de uma viso

    esttica da vida que no exclui a experincia do real.

    Fonte: Wikipdia

    Na pgina ao lado voc pode ler um conto de realismo fantstico

    de Alexandre Costa.

    REALISMO FANTSTICO

    Corbel toma um ch na cafeteria mais

    famosa da cidade, enquanto Allura acorda entre

    os braos de Lucida a alguns quilmetros dali.

    O ch, ralo demais para seu paladar,

    deixado de lado, enquanto as meninas dividem o

    chuveiro.

    Nem as manhs para ele, ou a noite para

    elas, so capazes de evitar a fadiga de mais um dia

    de trabalho; no entanto preciso, e se preciso ,

    preciso ser feito, e ambos aceitam resignados

    seus destinos.

    Corbel olha no relgio e v o tempo que

    ainda pode desperdiar, Allura sai do banho,

    enquanto Lucida, quase pronta beija sua boca

    com paixo. Ele imagina olhando para o movi-

    mento na rua, que hoje encontrar algum para

    dividir e compartilhar a noite; elas saem apressa-

    das pelas escadarias de olho no tempo que no

    podem desperdiar.

    E se tudo pudesse ser colocado em um livro,

    com certeza os trs ficariam excitados com a

    possibilidade de um encontro assim; e essa possi-

    bilidade toma forma devagar e sorrateiramente,

    enquanto Corbel decide ficar ali na cafeteria at

    que o destino mostre sua cara.

    A quilmetros dali, Lucida e Allura esperam

    o mesmo para ambas, e decidem encarar o dia

    como se o destino tivesse enviado a mesma men-

    sagem para as duas.

    E no h dor, nem h razo, nem h motivo

    ou circunstncia que desvie o efeito da causa, ou

    do que est por vir. E assim acontece que tudo

    est marcado desde sempre para se realizar.

    Corbel espalha o olhar pela calada, alcan-

    ando o mximo possvel de tudo e todos ao seu

    redor. Lucida aponta para a cafeteria e senta-se a

    mesa com Allura. No cardpio, o capuccino

    chama ateno pelo preo e ambas decidem pelo

    mesmo, mostrando um sorriso cmplice.

    Na mesa da frente, Corbel deixa escapar um

    sorriso malicioso e discreto ao mesmo tempo.

    Nos planos do destino, os trs s sairiam

    dali com a lua em suas cabeas e o desejo em seus

    corpos.

    O dia estava perdido, e estava ganho

    tambm. E foi numa bobagem dita por algum na

    mesa, que se juntaram de vez.

    E se essa histria no estivesse num livro,

    onde estaria? Se no estivesse nos trs onde

    estaria? Se no fosse to banal e corriqueira, o

    que seria? E feito culos de sol, onde se v sem ser

    visto, o destino levou os trs dali sem ao menos

    perguntar se queriam sua companhia.

    Nenhuma palavra foi dita no caminho nem

    no tempo, nenhuma pergunta foi feita, pois

    nenhuma resposta seria necessria.

    Ao entrarem no apartamento, Corbel tirou

    os sapatos e pisou no tapete vermelho da sala.

    Lucida tirou a roupa enquanto Allura fechava a

    porta. Lucida puxou-o com fora de encontro a

    sua boca e Allura arrancou sua camisa. Corbel

    fechou os olhos e deitou-se no sof. Lucida sen-

    tou-se em seu colo e Allura foi buscar uma taa de

    vinho na cozinha.

    E os trs pareciam apenas um no emara-

    nhado de corpos quentes e suados; e os trs

    pensavam como um entre a loucura e a falta de

    medo. Corbel entrava e saa de dentro das duas; e

    os trs aos gritos se saciavam um do outro.

    Os corpos espalhados pelo tapete verme-

    lho, no indicavam o fim daquela noite, no para

    as duas mulheres. Corbel sentiu a boca de Lucida

    em seu pescoo e, enquanto gritava e debatia-se

    tentando em vo escapar das suas garras, sentiu

    seus dentes afiados atingirem seu pescoo.

    Allura segurou a cabea de Corbel apoiada em

    suas coxas e encheu a taa de vinho com seu

    sangue.

    Para sempre jovem, para sempre as duas,

    para sempre o eterno destino que une a presa e o

    predador. A taa de sangue estava cheia, o corpo

    no tapete vermelho, vazio.

    Nem todas as noites so assim, s vezes s o

    sono mata a fome.

    No tapete vermelhoAlexandre Costa

  • 10 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 11

    O realismo mgico uma escola literria

    surgida no incio do sculo XX . Tambm

    conhecida por realismo fantstico ou realismo

    maravilhoso, sendo este ltimo nome utilizado

    principalmente em espanhol.

    considerada a resposta latino-americana

    literatura fantstica europia. Entre seus principais

    expoentes esto o colombiano Gabriel Garca

    Mrquez, Premio Nobel de Literatura, o peruano

    Manuel Scorza em suas cinco novelas onde so

    descritas as lutas do campesinato dos Andes

    Centrais e os argentinos Julio Cortzar e Jorge

    Luis Borges.

    Muitos consideram o

    venezuelano Arturo Uslar Pietri

    o pai do realismo mgico. No

    Brasil, destacam-se os nomes de

    Murilo Rubio e Jos J. Veiga e

    parte da obra de Dias Gomes.

    O cubano Alejo Carpentier,

    no prlogo de seu livro Reino

    deste mundo, enquadra sua obra

    no conce i to de rea l i smo

    maravilhoso, definindo este como

    semelhante ao conceito de

    realismo mgico caracterstico da

    obra de Gabriel Garca Mrquez,

    sem, no entanto, confundir um

    com o outro.

    O realismo mgico se

    desenvolveu fortemente nas

    dcadas de 1960 e 1970, como

    produto de duas vises que

    conviviam na Amrica hispnica e

    tambm no Brasil: a cultura da

    tecnologia e a cultura da superstio. Surgiu

    tambm como forma de reao, atravs da palavra,

    contra os regimes ditatoriais deste perodo.

    Este conceito pode ser definido como a

    preocupao estilstica e o interesse em mostrar o

    irreal ou estranho como algo cotidiano e comum.

    No uma expresso literria mgica: sua

    finalidade a de melhor expressar as emoes a

    partir de, sobretudo, uma atitude especfica frente

    realidade. Uma das obras mais representativas

    deste estilo Cem anos de solido, de Gabriel

    Garca Mrquez.

    Apesar de aparentemente desatento

    realidade, o realismo mgico compartilha algumas

    caractersticas com o realismo pico, como a

    inteno de dar verossimilhana interna ao

    fantstico e ao irreal, diferenciando-se assim da

    atitude niilista assumida originalmente pelas

    vanguardas do incio do sculo XX, como o

    surrealismo.

    Aspectos destacados do Realismo mgico

    Os seguintes aspectos esto presentes em

    muitos romances e contos do realismo mgico, mas

    no necessariamente esto todos presentes em

    todas as obras desta escola. Do mesmo modo, obras

    pertencentes a outras escolas podem apresentar

    algumas caractersticas dentre aquelas aqui

    listadas:

    - Contedo de elementos

    m g i c o s o u f a n t s t i c o s

    percebidos como parte da

    " n o r m a l i d a d e " p e l o s

    personagens;

    - Elementos mgicos algumas

    vezes intuitivos, mas nunca

    explicados;

    - Presena do sensorial como

    parte da percepo da realidade;

    - Os acontecimentos so reais

    mas tm uma conotao, pois

    alguns no tm explicao, ou

    m u i t o i m p r o v v e l q u e

    aconteam;

    - O tempo percebido como

    cclico, como no linear,

    seguindo tradies dissociadas

    da racionalidade moderna;

    - O tempo distorcido, para que

    o presente se repita ou se parea com o passado;

    - Transformao do comum e do cotidiano em uma

    vivncia que inclui experincias sobrenaturais ou

    fantsticas;

    - Preocupao estilstica, partcipe de uma viso

    esttica da vida que no exclui a experincia do real.

    Fonte: Wikipdia

    Na pgina ao lado voc pode ler um conto de realismo fantstico

    de Alexandre Costa.

    REALISMO FANTSTICO

    Corbel toma um ch na cafeteria mais

    famosa da cidade, enquanto Allura acorda entre

    os braos de Lucida a alguns quilmetros dali.

    O ch, ralo demais para seu paladar,

    deixado de lado, enquanto as meninas dividem o

    chuveiro.

    Nem as manhs para ele, ou a noite para

    elas, so capazes de evitar a fadiga de mais um dia

    de trabalho; no entanto preciso, e se preciso ,

    preciso ser feito, e ambos aceitam resignados

    seus destinos.

    Corbel olha no relgio e v o tempo que

    ainda pode desperdiar, Allura sai do banho,

    enquanto Lucida, quase pronta beija sua boca

    com paixo. Ele imagina olhando para o movi-

    mento na rua, que hoje encontrar algum para

    dividir e compartilhar a noite; elas saem apressa-

    das pelas escadarias de olho no tempo que no

    podem desperdiar.

    E se tudo pudesse ser colocado em um livro,

    com certeza os trs ficariam excitados com a

    possibilidade de um encontro assim; e essa possi-

    bilidade toma forma devagar e sorrateiramente,

    enquanto Corbel decide ficar ali na cafeteria at

    que o destino mostre sua cara.

    A quilmetros dali, Lucida e Allura esperam

    o mesmo para ambas, e decidem encarar o dia

    como se o destino tivesse enviado a mesma men-

    sagem para as duas.

    E no h dor, nem h razo, nem h motivo

    ou circunstncia que desvie o efeito da causa, ou

    do que est por vir. E assim acontece que tudo

    est marcado desde sempre para se realizar.

    Corbel espalha o olhar pela calada, alcan-

    ando o mximo possvel de tudo e todos ao seu

    redor. Lucida aponta para a cafeteria e senta-se a

    mesa com Allura. No cardpio, o capuccino

    chama ateno pelo preo e ambas decidem pelo

    mesmo, mostrando um sorriso cmplice.

    Na mesa da frente, Corbel deixa escapar um

    sorriso malicioso e discreto ao mesmo tempo.

    Nos planos do destino, os trs s sairiam

    dali com a lua em suas cabeas e o desejo em seus

    corpos.

    O dia estava perdido, e estava ganho

    tambm. E foi numa bobagem dita por algum na

    mesa, que se juntaram de vez.

    E se essa histria no estivesse num livro,

    onde estaria? Se no estivesse nos trs onde

    estaria? Se no fosse to banal e corriqueira, o

    que seria? E feito culos de sol, onde se v sem ser

    visto, o destino levou os trs dali sem ao menos

    perguntar se queriam sua companhia.

    Nenhuma palavra foi dita no caminho nem

    no tempo, nenhuma pergunta foi feita, pois

    nenhuma resposta seria necessria.

    Ao entrarem no apartamento, Corbel tirou

    os sapatos e pisou no tapete vermelho da sala.

    Lucida tirou a roupa enquanto Allura fechava a

    porta. Lucida puxou-o com fora de encontro a

    sua boca e Allura arrancou sua camisa. Corbel

    fechou os olhos e deitou-se no sof. Lucida sen-

    tou-se em seu colo e Allura foi buscar uma taa de

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    nhado de corpos quentes e suados; e os trs

    pensavam como um entre a loucura e a falta de

    medo. Corbel entrava e saa de dentro das duas; e

    os trs aos gritos se saciavam um do outro.

    Os corpos espalhados pelo tapete verme-

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    as duas mulheres. Corbel sentiu a boca de Lucida

    em seu pescoo e, enquanto gritava e debatia-se

    tentando em vo escapar das suas garras, sentiu

    seus dentes afiados atingirem seu pescoo.

    Allura segurou a cabea de Corbel apoiada em

    suas coxas e encheu a taa de vinho com seu

    sangue.

    Para sempre jovem, para sempre as duas,

    para sempre o eterno destino que une a presa e o

    predador. A taa de sangue estava cheia, o corpo

    no tapete vermelho, vazio.

    Nem todas as noites so assim, s vezes s o

    sono mata a fome.

    No tapete vermelhoAlexandre Costa

  • SEU AMIGO NOS DIAS DE SOLA COLOR & FASHION AJUDA VOC A CRIAR SEU ESTILO

  • SEU AMIGO NOS DIAS DE SOLA COLOR & FASHION AJUDA VOC A CRIAR SEU ESTILO

  • 14 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 15

    Sparce NotesJust a little bit of sunshine

    Rodrigo Lopes

    Lead Technical Architect

    at Transport for London

    and Internet Entrepreneur

    Londres | England

    Its quarter to eleven

    I hear its noise with a smile on my face

    it might be today

    So quinze para as onze

    Eu ouo o seu som com um sorriso

    em meu rosto

    talvez seja hoje

    ust a little moment of solitude

    and I was magically whisked away.

    In the clouds the contour of past lives

    S um momento de solido

    e como mgica fui transportado.

    Nas nuvens o contorno de vidas passadas

    Behind that door

    the dawn of 153 new worlds

    from red to white light

    Atrs daquela porta

    o amanhecer de 153 novos mundos

    de vermelho luz branca

    A hand bookmade

    fabrica e distribui

    a sua embalagem

    e a sua marca

  • 14 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 15

    Sparce NotesJust a little bit of sunshine

    Rodrigo Lopes

    Lead Technical Architect

    at Transport for London

    and Internet Entrepreneur

    Londres | England

    Its quarter to eleven

    I hear its noise with a smile on my face

    it might be today

    So quinze para as onze

    Eu ouo o seu som com um sorriso

    em meu rosto

    talvez seja hoje

    ust a little moment of solitude

    and I was magically whisked away.

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    S um momento de solido

    e como mgica fui transportado.

    Nas nuvens o contorno de vidas passadas

    Behind that door

    the dawn of 153 new worlds

    from red to white light

    Atrs daquela porta

    o amanhecer de 153 novos mundos

    de vermelho luz branca

    A hand bookmade

    fabrica e distribui

    a sua embalagem

    e a sua marca

  • 16 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 17

    Quadra colaborativa

    minha vida t um caos.vou ver o que o googleme aconselha! 101101010110111010110

    01010110101110110001

    TRADUZINDO...DIAS PIORESVIRO!!!

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ALEXANDRE COSTA

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ALEXANDRE COSTA

    JORGE, VIM AQUI LHE DIZERQUE VOU CORTAR GASTOSNA EMPRESA!

    ISSO MUITO BOM CHEFE,PRECISAMOS ECONOMIZAR!

    E O QUE VAMOS CORTAR?O SEU EMPREGO!

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ROBERTO PRADO

    MEU DEUS! ME MATEI DEESTUDAR PRA ESSE CONCURSO...

    ME ACABEI FAZENDO CURSOSPRA CRESCER AQUI...

    E o tempo de aposentarno chega nunca!

  • 16 | drgeasliterrias drgeasliterrias | 17

    Quadra colaborativa

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    01010110101110110001

    TRADUZINDO...DIAS PIORESVIRO!!!

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ALEXANDRE COSTA

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ALEXANDRE COSTA

    JORGE, VIM AQUI LHE DIZERQUE VOU CORTAR GASTOSNA EMPRESA!

    ISSO MUITO BOM CHEFE,PRECISAMOS ECONOMIZAR!

    E O QUE VAMOS CORTAR?O SEU EMPREGO!

    O PESSIMISTA DE PLANTO!

    TEXTO: ROBERTO PRADO

    MEU DEUS! ME MATEI DEESTUDAR PRA ESSE CONCURSO...

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    E o tempo de aposentarno chega nunca!

  • Degustao...

    CAF IRLANDS

    Tempo de Preparo: 10min

    Ingredientes

    *3/4 a 1 xcara de ch de caf forte

    preparado

    *1 clice de usque

    *1 colher de ch de acar

    *1 colher de sopa de creme de

    chantilly

    Modo de preparo:

    1.Misturar o caf, o usque e o

    acar em uma caneca ou copo

    2.Levar ao microondas por 1 a 2

    minutos na potncia alta, para

    aquecer 3.Acrescentar o chantilly

    Recomenda-se a leitura de Ulisses

    de James Joyce, ou no, pois h nas

    cafeterias opes de jornais com

    desgraas dirias, caras sorridentes

    e outras misrias impressas, mas se

    o leitor for um sortudo, mesas nas

    ruas para se fumar um cigarro em

    paz.

    18 | drgeasliterrias

    As primeiras linhas so as piores, as

    mais dodas. nessa primeira linha que os

    neurnios mostram a que vieram, as

    sinapses desenferrujam e, para o bem ou

    para mal, fisga o leitor.

    H muito tempo li e depois disso o

    releio todos os anos Paris uma Festa de

    Ernest Hemingway, onde ele descreve seus

    dias de jovem escritor numa Paris que no

    existe mais. Inverno, duro cinzento e faminto.

    Mas o que me encantou nesse livro, foi

    sua descrio do caf onde ele se abrigava do

    frio cortante, com um bloquinho, um lpis e

    uma fumegante xcara de caf.

    Antes que algum desafeto venha a

    contrariar esse texto, admito que ele tambm

    tomava um conhaque, que acompanha muito

    bem essa bebida milenar.

    Apaixonado por esse livro/dirio, alguns

    anos depois fui Frana. Era janeiro e inverno,

    andei pelas ruas onde ele perambulou. La

    Closerie des Lilas, Caf les Deux Magots, Caf

    de Flore, onde tirei uma foto na porta (se

    acharmos publicamos para ilustrar e mostrar

    que isso verdade!).

    Era muito caro tomar um msero caf ali,

    e vejam s, quando fui l a moeda era o

    humilde e charmoso franco, nada de euro.

    Caf e livros - aqui, para eterno desgosto

    de nosso Editor, acrescento para meu

    exclusivo prazer, um cigarrinho. Como a vida

    com tal companhia pode ser tima.

    Ento, caro leitor, dedique alguns

    minutos a voc mesmo, pegue um livro, qui

    nossa revista, sente-se mesa de uma

    cafeteria, pea um espresso e deixe-se levar.

    Garanto a vocs que ser uma viagem

    daquelas.

    Roberto Prado

    Escritor e cronista

    Minha relao com Hemingway

  • Degustao...

    CAF IRLANDS

    Tempo de Preparo: 10min

    Ingredientes

    *3/4 a 1 xcara de ch de caf forte

    preparado

    *1 clice de usque

    *1 colher de ch de acar

    *1 colher de sopa de creme de

    chantilly

    Modo de preparo:

    1.Misturar o caf, o usque e o

    acar em uma caneca ou copo

    2.Levar ao microondas por 1 a 2

    minutos na potncia alta, para

    aquecer 3.Acrescentar o chantilly

    Recomenda-se a leitura de Ulisses

    de James Joyce, ou no, pois h nas

    cafeterias opes de jornais com

    desgraas dirias, caras sorridentes

    e outras misrias impressas, mas se

    o leitor for um sortudo, mesas nas

    ruas para se fumar um cigarro em

    paz.

    18 | drgeasliterrias

    As primeiras linhas so as piores, as

    mais dodas. nessa primeira linha que os

    neurnios mostram a que vieram, as

    sinapses desenferrujam e, para o bem ou

    para mal, fisga o leitor.

    H muito tempo li e depois disso o

    releio todos os anos Paris uma Festa de

    Ernest Hemingway, onde ele descreve seus

    dias de jovem escritor numa Paris que no

    existe mais. Inverno, duro cinzento e faminto.

    Mas o que me encantou nesse livro, foi

    sua descrio do caf onde ele se abrigava do

    frio cortante, com um bloquinho, um lpis e

    uma fumegante xcara de caf.

    Antes que algum desafeto venha a

    contrariar esse texto, admito que ele tambm

    tomava um conhaque, que acompanha muito

    bem essa bebida milenar.

    Apaixonado por esse livro/dirio, alguns

    anos depois fui Frana. Era janeiro e inverno,

    andei pelas ruas onde ele perambulou. La

    Closerie des Lilas, Caf les Deux Magots, Caf

    de Flore, onde tirei uma foto na porta (se

    acharmos publicamos para ilustrar e mostrar

    que isso verdade!).

    Era muito caro tomar um msero caf ali,

    e vejam s, quando fui l a moeda era o

    humilde e charmoso franco, nada de euro.

    Caf e livros - aqui, para eterno desgosto

    de nosso Editor, acrescento para meu

    exclusivo prazer, um cigarrinho. Como a vida

    com tal companhia pode ser tima.

    Ento, caro leitor, dedique alguns

    minutos a voc mesmo, pegue um livro, qui

    nossa revista, sente-se mesa de uma

    cafeteria, pea um espresso e deixe-se levar.

    Garanto a vocs que ser uma viagem

    daquelas.

    Roberto Prado

    Escritor e cronista

    Minha relao com Hemingway

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