Ecologia humana e turismo no Alto Minho / José da Cruz Lopes

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Revista da Faculdade de Letras — Geografia I Série, Vol. IX, Porto, 1993, pp. 17-44. Ecologia humana e turismo no Alto Minho José da Cruz Lopes 1. Enquadramento teórico-metodológico A Ecologia Humana em Portugal despontou, de forma implícita ou explí- cita, do vasto conjunto de estudos geográficos e socio-antropológicos levados a cabo no período após Leite de Vasconcelos 1 . Na Bibliografia Geográfica de Portugal, em dois volumes 2 , o último dos quais relativo ao período de 1947- 1974, encontramos já alguns estudos e trabalhos que prenunciam alguma intencionalidade orientada para o campo da Ecologia Humana. Podemos com segurança afirmar que Orlando RIBEIRO, Jorge DIAS e Carlos TEIXEIRA contribuíram, com os seus estudos, para uma visão ecológica do homem português 3 . 0 primeiro autor, porque retratou o País numa vertente geográfica em bases sólidas, numa leitura que, passados quase cinquenta anos, continua em parte actual 4 . Os estudos de Jorge DIAS, principalmente antropológicos e sociológicos, reconhecem que a «própria ecologia e a adaptação de uma sociedade a condições ambientais complexas e muito diversificadas [...] impõe métodos próprios»**. Esta citação Texto adaptado do Capítulo III da dissertação «Ecologia humana e turismo ...no Noroeste de Portugal», apresentada para a obtenção do grau de Mestre em Ecologia Humana pela Universidade de Évora, 1992. Licenciado em Geografia pela FLUP ; docente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. 1 Na bibliografia consultada menciona-se frequentemente que a Ecologia Humana é veiculada pelos sociólogos e antropólogos, que deram ampla circulação ao termo em numerosos estudos, tanto em artigos especializados como em manuais. Cfr. Amos H. HAWLEY, op. cit., Madrid, Tecnos, 1966, p. 21-22. O primeiro volume reúne a bibliografia recolhida por H. LAUTENSACH, foi organizado e complementado por Mariano FEIO até 1946 e foi editado pelo Instituto de Alta Cultura e Centro de Estudos Geográficos (Lisboa) em 1948. 0 segundo volume foi preparado por Ilídio do AMARAL e Suzanne DAVEAU, cobrindo o período de 1947 até 1974, em edição do Centro de Estudos Geográficos / INIC, Lisboa, 1982. 3 Os resultados em Ecologia Humana terão maior validade quando os estudos se alicercem no conhecimento real e concreto das relações do homem com o meio natural. Estes investigadores ainda hoje são modelo, particularmente ao nível das metodologias e técnicas de trabalho de campo. No Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro, já se podem encontrar bastantes efeitos desta orientação. Vide, v.g., vol. 1, Lisboa, CEG, 1984, p. 59-88. 4 De facto, como um discípulo seu reconheceu: «Tem percorrido o país de lés a lés. Poucas aldeias haverá onde não tenha estado. Mais andarilho ainda que Leite de Vasconcellos e parece que nisso só com ele emparceiram Jorge Dias e Carlos Teixeira» (Guerreiro, 1984). 5 Jorge DIAS, «Reflexões de um Antropólogo» in Cadernos de Etnografia, Barcelos, 2 sér., 6, 1968, p. 42. 17

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  • Revista da Faculdade de Letras Geografia I Srie, Vol. IX, Porto, 1993, pp. 17-44.

    Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    Jos da Cruz Lopes

    1. Enquadramento terico-metodolgico A Ecologia Humana em Portugal despontou, de forma implcita ou expl-

    cita, do vasto conjunto de estudos geogrficos e socio-antropolgicos levados a cabo no perodo aps Leite de Vasconcelos1. Na Bibliografia Geogrfica de Portugal, em dois volumes2, o ltimo dos quais relativo ao perodo de 1947-1974, encontramos j alguns estudos e trabalhos que prenunciam alguma intencionalidade orientada para o campo da Ecologia Humana.

    Podemos com segurana afirmar que Orlando RIBEIRO, Jorge DIAS e Carlos TEIXEIRA contriburam, com os seus estudos, para uma viso ecolgica do homem portugus3. 0 primeiro autor, porque retratou o Pas numa vertente geogrfica em bases slidas, numa leitura que, passados quase cinquenta anos, continua em parte actual4. Os estudos de Jorge DIAS, principalmente antropolgicos e sociolgicos, reconhecem que a prpria ecologia e a adaptao de uma sociedade a condies ambientais complexas e muito diversificadas [...] impe mtodos prprios**. Esta citao

    Texto adaptado do Captulo III da dissertao Ecologia humana e turismo ...no Noroeste de Portugal, apresentada para a obteno do grau de Mestre em Ecologia Humana pela Universidade de vora, 1992. Licenciado em Geografia pela FLUP ; docente do Instituto Politcnico de Viana do Castelo.

    1 Na bibliografia consultada menciona-se frequentemente que a Ecologia Humana veiculada pelos socilogos e antroplogos, que deram ampla circulao ao termo em numerosos estudos, tanto em artigos especializados como em manuais. Cfr. Amos H. HAWLEY, op. cit., Madrid,

    Tecnos, 1966, p. 21-22. O primeiro volume rene a bibliografia recolhida por H. LAUTENSACH, foi organizado e complementado por Mariano FEIO at 1946 e foi editado pelo Instituto de Alta Cultura e Centro de Estudos Geogrficos (Lisboa) em 1948. 0 segundo volume foi preparado por Ildio do AMARAL e Suzanne DAVEAU, cobrindo o perodo de 1947 at 1974, em edio do Centro de Estudos Geogrficos / INIC, Lisboa, 1982.

    3 Os resultados em Ecologia Humana tero maior validade quando os estudos se alicercem no conhecimento real e concreto das relaes do homem com o meio natural. Estes investigadores ainda hoje so modelo, particularmente ao nvel das metodologias e tcnicas de trabalho de campo. No Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro, j se podem encontrar bastantes efeitos desta orientao. Vide, v.g., vol. 1, Lisboa, CEG, 1984, p. 59-88.

    4 De facto, como um discpulo seu reconheceu: Tem percorrido o pas de ls a ls. Poucas aldeias haver onde no tenha estado. Mais andarilho ainda que Leite de Vasconcellos e parece que nisso s com ele emparceiram Jorge Dias e Carlos Teixeira (Guerreiro, 1984).

    5 Jorge DIAS, Reflexes de um Antroplogo in Cadernos de Etnografia, Barcelos, 2 sr., 6, 1968, p. 42.

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    traduz, por um lado, as convices de que as bases ecolgicas constituem um contributo vlido aos trabalhos versando a realidade portuguesa e, por outro lado, que as produes cientficas se devem edificar em moldes inova-dores. Para fundamentar este intencional (ab)uso de transposio de J. DIAS como eclogo humano, refiro um texto que bem documenta o seu posi-cionamento terico-metodolgico relativamente aos factos sociais: o que nos deve interessar o homem nas suas inter-relaes sociais e as respostas que ele adopta em face dos problemas que a vida lhe pe6. De facto, encontramos no seu pensamento argumentos para validar a Ecologia Humana como rea de notria vitalidade e como uma constante no perspectivar das Cincias Soci-ais7, pelo menos desde 19218. 0 terceiro autor, sendo gelogo de formao, marcou os seus trabalhos sobre a geologia de Portugal com significativas notas explicativas da paisagem portuguesa. A atest-lo veja-se a sua nota sobre as paisagens granticas onde afirma: tirem ao homem do noroeste peninsular este maravilhoso elemento e ser toda uma civilizao que desaba9. Esse elemento o granito que, como outros recursos geolgicos do Pas, marca a paisagem e a cultura das comunidades humanas no rinco portugus.

    Mas a Ecologia Humana no uma rea temtica feita de consensos. As suas concepes so mltiplas e enrazam-se no confronto das abordagens cientficas do biologismo e do culturalismo. A interface entre natureza e so-ciedade sempre suscitou interrogaes e poucas certezas. A viso destes dois mundos sempre foi parcial e descontnua, porque este estado razo do seu prprio conhecimento cientfico. Em ambas, as perspectivas de abor-dagem geraram sempre novos procedimentos e problemas que ainda hoje persistem. Para uns, a Ecologia Humana representa uma especializao dentro da disciplina geral da Ecologia10, enquanto para outros no uma simples extenso ou prolongamento da Ecologia Geral, mas tem caracters-ticas prprias e sobretudo conceptualizaes distintas11.

    Passando para a relao ecossistema-homem, no que diz respeito ao ecossistema, verso sistmica da vida, hoje considerado como canal de in-formao, composto por trs nveis ou subcanais diferentes: o canal gentico, por onde se transmite e perpetua (internamente) a diversidade gentica das espcies e as estruturas individuais renovveis; o canal ecolgico, verdadeiro palco de interaco entre diferentes espcies coexis-tentes e de trocas regulares entre os seus indivduos; e o canal etolgico ou cultural, o qual veicula o que se aprendeu pela actividade individual ou

    Idem, ibidem, p. 44.

    7 Assim a considera Amos H. HAWLEY, op. cit, Madrid, Tecnos, 1966, p. 22. Este ano considerado como data de referncia da Ecologia Humana. Vide Pascal ACOT, Histria da Ecologia, Rio de Janeiro, Campus, 1990, p. 118. Alguns Aspectos da Geologia dos Granitos do Norte de Portugal, Porto, Sociedade Geolgica de Portugal, 1945.

    10 Cfr. Amos H. HAWLEY, op. cit, p. 78. 11 Vide George OLIVIER, A Ecologia Humana, Lisboa, Intercincia, 1979, p. 9.

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    experincia e que transmitido s geraes futuras. Este ltimo canal, de reduzida importncia no passado, hoje particularmente importante. Em termos figurativos, pode-se dizer que vai desde a madeira morta do bosque, que conserva uma estrutura, at madeira transformada em papel das nossas bibliotecas, que conservam a cultura12.

    No caso das actividades humanas, reconhece-se hoje que os usos no se limitam aos ecossistemas, antes os atravessam para aproveitar as com-plementaridades e os contrastes de zonas ecolgicas variadas13. Esta questo fundamental investigao em Ecologia Humana ainda persiste, se bem que outros mtodos sejam hoje adoptados. E o caso de alguns in-vestigadores que parecem ter concludo que, em vez de ecossistema, seria necessrio encontrar unidades no identificveis e, deste modo, uns propem o conceito de sistema de uso humano (UNESCO, 1974), enquanto outros (VAYDA, 1983) defendem, em alternativa, um sistema a que se chamou contextualizao progressiva14.

    De facto, esta problemtica centra-se sobre o homem. Como ser biolgico, ele apresenta-se com uma caracterizao ecolgica muito diferenciada dos outros seres vivos: o caso da sua biomassa; da sua dinmica e taxa de crescimento; da organizao estrutural das populaes humanas e relaes interpopulacionais; do uso e nvel de consumo da energia15. Reconhece-se, por isso, que o homem um animal relativamente no especializado, que no ocupa um nicho definido na hierarquia ecolgica da natureza, e que tem uma capacidade para produzir cultura em grau maior que qualquer outra espcie de vida16. Por outro lado, o ser humano um mistrio e a multipli-cidade de vidas que uma sociedade compreende no se tornam menos hu-manas, embora possam ser contadas, analisadas e avaliadas em termos impessoais17. Estas especificidades conduziram a que o homem, em quase todo o seu passado, tivesse tomado a natureza como inimiga, de que fugia e qual no queria subordinar-se, comportamento que responsvel por consequncias graves ao nvel da delapidao e/ou degradao dos recursos da biosfera.

    Conceptualmente, a Ecologia Humana no se pode desligar das atitudes tomadas perante a conservao da natureza. Nas ltimas duas dcadas, tomou-se conscincia do facto de no haver biotopos intocveis interveno humana. Mas foi uma atitude meramente proteccionista, assumindo forma

    12 cfr. Rmon MARGALEF, Perspectivas de Ia Teoria Ecolgica, Barcelona, Blume, 1978, p. 95-96.

    13 Segundo di Castri (1976) citado por Andrew P. VAYDA, Progressive contextualization: methods for research in Human Ecology, in Human Ecology, Nova Iorque, 11(3), 1983, p. 267- 268.

    14 Cfr. Andrew P. VAYDA, op. cit, 1983, p. 265-278. Sobre uma caracterizao ecolgica do Homem ver a obra Concepts unificadores en

    Ecologia, Barcelona, Blume, 1980, p. 242-260. 16 Cfr Amos H. HAWLEY, op. cit, Madrid, Tecnos, 1966, p. 36, 67, 70. 17 Cfr. M. R. BRETT-CROWTHER, Human Ecology and Development, in Inter. J. Environment Studies, vol. 24, London, 1985, p. 198.

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    legal ou vigiada, em que as espcies vulnerveis e em risco de extino eram apenas rodeadas de medidas restritivas que, muitas vezes, acabavam por se tornar ineficazes, na medida em que o objecto de protec-o era a espcie e no o sistema ecolgico em que espcie vivia. Esta cons-tatao veio a motivar uma nova atitude de preservao, que passar a ter em conta a conservao do ecossistema18 em que as espcies se integram. Nenhuma espcie vive isoladamente e, por este facto, esta viso globalizan-te toma a estrutura e a funcionalidade do ecossistema como um valor ecolgico relevante. Porque as comunidades humanas interagem com os ecossistemas, tambm o homem passou a fazer parte dessa conservao.

    Por isso, a nova atitude de conservao passa a formalizar reas natu-rais, que de forma voluntria e espontnea integram amostras de ecossis-temas escolhidos entre as mais tpicas na gama de variaes do ambiente natural de uma regio geogrfica determinada19. Eis, pois, no quadro da definio e implementao de estratgias de conservao da natureza, um campo particularmente rico de reflexes e de aplicaes em Ecologia Huma-na. Sintomtico do que se expe uma das definies de Ecologia Humana: a ecologia do homem e das comunidades e populaes humanas, especial-mente no que diz respeito defesa da qualidade do ambiente por meio da aplicao correcta de prcticas de conservao e de engenharia civil20. Para P. DANSEREAU (1957), a Ecologia Humana a cincia directamente envol-vida nas matrias relativas paisagem, ao ecossistema, ao espao, e tem por objecto a influncia do homem no ambiente e os efeitos do ambiente no homem ou, dito de outra forma, as causas e as consequncias dos proble-mas ambientais21.

    Ora esta formulao conceptual vai de encontro s actuais preocupaes da humanidade, exprimindo as intenes que a Ecologia Humana deve tri-lhar e concretizar. Mas, para certos autores, esta cincia, se quer dar senti-do relao entre o humano e o meio ambiente, deve estar preparada para constatar que o poder no deve ser encarado necessariamente como um bem, e que, quanto maior a escala, maior a parcela de poder que deve estar sob controle social e moral22. Da no ser estranha a constatao de que, em geral, se tm sentido efeitos perturbadores da cincia e suas respectivas aplicaes tecnolgicas. Consequentemente, uma outra evidncia nos mostra que os sistemas de planeamento favorecem o uso no ecolgico e no conservacional dos recursos23.

    18 Para Eugene P. ODUM um ecossistema ou sistema ecolgico qualquer regio natural que

    inclua organismos vivos e substncias abiticas interactuando para promover uma troca de matrias entre as partes vivas e no-vivas. Vide Fundamentos de Ecologia, 2'9 ed., trad., Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, 1976, p. 19.

    19 Segundo NOIR (1972) in A Sntese Ecolgica, 2o vol., Lisboa, Socicultur, 1977, p. 279. 20 M. R. BRETT-CROWTHER, Human Ecology and Development in Inter. J. Environmental

    Studies, vol. 24, London, 1985, p. 191-192. 21M. R. BRETT-CROWTHER, op. cit, 1985, p. 188. 22 M. R. BRETT-CROWTHER, op. cit, 1985, p. 198. 23 Idem, ibidem, p. 197.

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    Por conseguinte, as contradies existentes no campo de aco da Ecolo-gia Humana sempre foram condicionantes de que esta rea de saber emer-gisse de forma autnoma e convincente. Mas devido tomada de cons-cincia dos problemas do ambiente no mundo actual e dimenso dos riscos que isso acarreta no Homem que hoje todas as disciplinas e profisses, tanto no campo das cincias como no nas humanidades, esto vidas por encontrar na rea da ecologia humana um campo comum de encontro24". E este interesse que ainda hoje prevalece, o que faz com que gegrafos, soci-logos, bilogos e outros investigadores e tcnicos em recursos tenham con-tribudo para eleger a Ecologia Humana como denominador comum.

    Tambm em Portugal estas questes de ordem cientfico-metodolgica obstaram ao surgimento de estudos com um perfil coerente e claro em Ecologia Humana25. 0 que houve em Portugal foi, no incio da dcada de se-tenta, a concretizao de algumas aces imbudas dum pendor de Ecologia Humana. Uma iniciativa legislativa atesta esse contexto. E o caso da Lei n 9/70, de 19 de Junho, onde j se estipula que os parques nacionais que vierem a ser criados, podero abranger quatro tipo de reservas, um dos quais o das reservas tursticas2^. Este diploma veio a conferir base legal constituio do Parque Nacional da Peneda-Gers (PNPG), criado pelo Decreto n 185/71, de 8 de Maio27.

    Esta rea serrana e raiana do interior noroeste portugus consubstancia o binmio natureza cultura, onde a aco do homem unificou e complemen-tou uma paisagem. Detendo o estatuto de nico parque nacional em Portu-gal, teve de recorrer incorporao de territrios habitados, de ambiente rural, que, aliados rudeza natural da rea, passaram a constituir uma forma sui generis, de modo a poder cumprir as condies exigidas internacio-nalmente28. A quando do seu processo de reconhecimento, o territrio que o seria por direito rondava os 20000 ha, pelo que houve necessidade de adi-cionar uma faixa envolvente, de paisagem muito ruralizada e interdepen-dente com a rea natural, com cerca de 50000 ha, sujeitando-a a uma gesto em tudo idntica de Parque Nacional. Desde o seu incio se pensou ordenar esta rea protegida, definindo uma zona de Parque propriamente

    24 Cfr. Eugene P. ODUM, Fundamentos de Ecologia, 4- ed., trad., Lisboa, Fundao Calouste

    Gulbenkian, 1988, p. 812. 25 Por exemplo, no texto de BAETA NEVES, Evoluo histrica da Ecologia em Portugal, in

    Ciclo de Conferncias sobre Ecologia Fundamental e Aplicada, Porto, Instituto de Cincias Biomdicas "Abel Salazar", 1985, p. 9-18, no h qualquer referncia Ecologia Humana em Portugal.

    26 Definidas como zonas a desenvolver segundo as necessidades das populaes e do turismo, em conformidade com os objectivos do parque e subordinadas a um ordenamento destinado a favorecer a sua unidade e conservao natural e a harmonia das construes.

    27 Cfr. Adolfo A.M. Macedo, Aspectos inovadores na criao do PNPG in Io Congresso de reas Protegidas, Lisboa, S.N.P.R.C.N., 1987, p. 123-126.

    Segundo a Assembleia Geral da Unio Internacional da Conservao da Natureza, efectuada em Nova Delhi em 1969, o conceito de Parque Nacional tem de respeitar cinco condies fundamentais: ampla extenso; contedo notvel; regime de proteco eficaz; criao pela mais alta autoridade competente do pas; e turismo autorizado.

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    dito, correspondente ao espao natural e selvagem, e uma zona de Pr-Par-que, respeitante rea afectada pela intensividade e presena de activi-dades humanas.

    Portanto, estamos j perante um espao-cenrio de adequao das aces humanas ao nvel dos interesses e valores naturais desta rea, onde assumem particular destaque o zonamento e a gesto territorial. O que significativo , por um lado, o nosso parque nacional ter nascido no ano seguinte comemorao do Ano Europeu da Conservao da Natureza, ocorrido em 1970, e, por outro lado, ter, no ano posterior sua criao, em 1972, na II Conferncia Mundial de Parques Nacionais, sido reconhecido que podem surgir conflitos entre a conservao da natureza e outros usos legtimos nos Parques Nacionais, especificamente o Turismo29.

    Mas estas preocupaes j tinham sido ventiladas em anos anteriores. A consulta documental diz-nos que os ncleos de muitos parques nacionais foram j utilizados como reas recreativas em pocas anteriores a essa declarao. Na grande maioria dos parques nacionais, em cujos limites se encontravam grandes hotis e numa poca em que os visitantes, transpor-tados a cavalo, necessitavam de lugares adequados para descanso, cons-truram-se internamente estruturas de alojamento. Mas os impactos dessa situao, traduzidos em desregulaes e disfunes dos sistemas ecolgicos, logo se fizeram sentir, determinando uma mudana de atitudes e de poltica relativamente fruio turstica destas reas naturais. A poltica mais apropriada foi eliminar esses hotis e albergar os turistas no dentro, mas fora dos parques nacionais30.

    De facto, um dado adquirido que j na dcada de setenta se refere que a regulamentao de um parque nacional ou de uma reserva aberta ao pblico deve prever disposies que preservem a natureza de uma "eroso" humana consecutiva vaga de visitantes31. Da que, a organizao espacial das estruturas recreativo-tursticas esteja cada vez mais subordinada na-tureza dos valores naturais e culturais dos respectivos espaos32, j que se reconhece que a actividade turstica d lugar a uma nova forma de explo-rao do espao, infinitamente subtil e perigosa, portadora de poderosos condicionalismos econmicos e duma violncia social difusa33. Assim, a or-ganizao espacial do turismo em parques e reservas naturais de pre-mente necessidade. Particularmente em Portugal, onde a componente am-biental ainda um recurso abundante e barato, em termos econmicos, as estratgias de desenvolvimento turstico devem expressar vias prprias de

    29 Cfr. Adolfo MACEDO, op. cit, 1987, p. 125. U Cfr. Maria BUCHINGER, Los parques nacionales y otras reas recreativas: su uso y abuso

    in 2Q Seminrio Internacional sobre reas Naturais e Turismo, 1971, p. 16. Acerca destas questes, ver Jean DORST, Antes que a natureza morra, trad., Edgar

    Blucher, 1973, pp. 367-372. 32 Veja-se Jean-Pierre LOZATO-GIOTART, Gographie du tourisme, Paris, Masson, 1990, pp.

    90-98. 33 Cfr. Jean-Luc MICHAUD, Le tourisme face l 'environnment, col. "Le gographe", Paris,

    PUF,p. 11.

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    compatibilizao entre turismo e natureza e no adoptar modelos e formas j ultrapassadas em outros lugares e pases.

    Em Portugal, atravs do Decreto-Lei n 613/76, de 27 de Julho34, foram instituidos outros tipos de reas Protegidas. O Turismo assume nesse diploma uma importncia declarada, atravs da definio da reserva de recreio^, onde se considera que o turismo no mais que a comercializao do recreio e que esse recreio ter de ser compatvel com a defesa do meio natural e do equilbrio ecolgico. Mas, em geral, esta inteno de preserva-o est tambm no campo dos comportamentos do turista. Hoje, temos que privilegiar um comportamento-tipo de turista, que se assemelhe ao que RAPPE (1977) formulou: o turista deve merecer a natureza, deve aprender a observ-la viva, mas nela intervindo o menos possvel.

    Neste quadro, escolhi um aldeamento do PNPG, o lugar de Vrzea da freguesia do Soajo, no concelho de Arcos de Valdevez, de forma a evidenciar o seu quadro de relaes em termos de ecologia humana, os seus problemas actuais e futuros e o papel integrador do turismo (fig. 1), no esquecendo que o Geres referido como um dos locais do Pas onde a "eroso" humana provocada pelo recreio e pelo turismo mais se tem feito sentir. Da o interesse do seu estudo, perseguindo solues de equilbrio entre o turismo, segundo HAULOT (1985) um elemento extremamente potente de degradao e poluio, e o interesse, a mais longo prazo, da comunidade humana, qualquer que seja a escala em que se insere.

    Mas, para alm da montanha, a faixa litoral que mais significado tem tido no chamado espao turstico. Segundo Henri NONN, espontaneidade e s especulaes particulares de mais de cem anos, vieram juntar-se, h pouco tempo, as intervenes do Estado e de grandes colectividades financeiras, que urbanizaram amplas reas costeiras preparando-as para receber centenas de milhares de visitantes durante uma estao36.

    O ecotone litoral de Portugal caracterizada por uma aprecivel concen-trao de recursos naturais, de entre os quais os recursos biolgicos mari-nhos foram um dos principais factores de atraco e fixao de populaes. Ora, esta presso humana que concorre, atravs dos mais diversificados usos, para a delapidao dos recursos litorais.

    Portugal adoptou, em 1981, a Carta Europeia do Litoral na sequncia da Conferncia das Regies Perifricas da Comunidade Europeia, com o compromisso de controlar o turismo e desenvolver ura turismo adaptado a cada regio e respeitador do seu patrimnio natural e cultural'31. Dada a complexidade do conceito e expresso territorial de litoral, considera-se de um ponto de vista tcnico-legal que a zona litoral abrange uma faixa, para

    Definio legal de reservas, paisagem protegida, etc.

    35 A componente recreativo turstica explcita na definio de Parque nacional, Paisagem protegida e Parque natural.

    36 Cfr. Henro NONN, Geografia de los litorales, Madrid, Akal, 1987, p. 155. 37 Cfr. MAI-CCRN, Carta Europeia do litoral, trad., Porto, Comisso de Coordenao da

    Regio Norte, 1982, p. 20-31.

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  • Figura 1 Localizao e substrato geolgico das povoaes da Vrzea e da Amorosa

    o interior, de 2000 metros de largura a partir da linha de mxima praia-mar de guas vivas equinociais38.

    Focalizando a integrao do turismo no espao litoral, surgem-nos, no caso de Portugal, algumas contradies ao nvel da coerncia e correco de prticas de administrao e gesto territorial. E o caso do recente diploma que define o regime de gesto urbanstica do litoral, o qual isenta de alguns procedimentos legais, particularmente de princpios a observar na ocupa-o, uso e transformao da faixa costeira, as estruturas tursticas hoteleiras39.

    Para o litoral do Alto Minho, nossa inteno abordar estas questes de organizao e desenvolvimento turstico e o seu grau de adequao ao quadro da ecologia humana, tomando como exemplo uma povoao costeira caracterstica do Noroeste portugus (fig. 1).

    2. Os espaos-casos no Alto Minho De um ponto de vista geogrfico, mostramos que o Alto Minho no tem

    uma equidade regional. Da que tambm o turismo a no possa ter, porque h contrastes naturais vincados, que condicionaram a capacidade biogen-tica dos solos e, consequentemente, influenciaram as diferentes aptides dos espaos. Como resultado destes factores, a ocupao humana e o qua-

    Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    38 Cfr. MPAT-SEALOT, Ordenamento do litoral, 14, Lisboa, Direco Geral do Ordenamento do Territrio, 1990, p.17.

    39 Cfr. Art 2" do Decreto-Lei n 302/90, de 26 de Setembro.

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    dro das estruturas criadas pelo homem deram origem oposio entre o litoral e o interior, "fracturando" a regio em duas sub-unidades com valo-res e problemas diferenciados.

    O interior regional, face s suas condies ecolgicas e ambientais, foi v-tima, nas ltimas dcadas, dum processo de empobrecimento das suas ca-pacidades humanas e desenvolvimentais, como resultado da fuga de po-pulao, o que conduziu a um enfraquecimento do seu tecido social e econmico. Desde longa data que a famlia o centro de todo o sistema produtivo. Afectada que foi a unidade familiar, o interior defronta-se com a feminizao e o envelhecimento da sua populao, pelo que a valorizao de algumas actividades ajustadas s condies naturais se encontra dimi-nuida, face desertificao humana das zonas serranas. Pelo contrrio, o litoral protagonizou um notvel dinamismo demogrfico e econmico, ao dispor de recursos naturais mais diversificados e, assim, potencializar a jusante o desenvolvimento de actividades de produo de bens e servios.

    A este quadro acrescente-se que, para o conjunto dos recursos naturais potencializadores da actividade turstica, os valores paisagsticos, tanto do litoral como do interior, ainda so reconhecidos como um recurso competitivo em relao a todo o Pas. Mas o grau de competitividade est, contudo, de-pendente do estado dos ecossistemas e reas naturais, do modo como actu-almente se organiza o espao e da qualidade esttica da paisagem. Nas duas ltimas dcadas, evidenciaram-se sintomas preocupantes a nvel da organizao fsica do espao: nas reas de habitat disperso, com longos sculos de existncia, essa disperso agudizou-se, atravs da casa do emi-grante que s muito raramente comporta um grau de qualidade e harmonia esttica e de funcionalidade com o meio envolvente; nas reas de habitat concentrado, surgem casos de ntida disperso, o que coloca problemas de ordenamento e gesto territorial a nvel do municpio.

    Por estas razes e num horizonte de longo prazo, o Alto Minho necessita de agregar um conjunto de foras endgenas, doseadas e combinadas com as "presses" externas, de forma a que a sua unidade socio-cultural se perpetue e, desta forma, consolide uma aco de defesa e valorizao do seu diversificado patrimnio. S assim ser possvel uma coeso social e econmica do Alto Minho.

    Vem a propsito lembrar que Jorge DIAS (1977) pe em causa a econo-mia moderna quando esta atenta contra um sistema de valores duma co-munidade humana, escrevendo que o grupo social em questo pode no s tornar-se disfrico, como mesmo entrar em verdadeiro estado de desintegra-o social40. Por isso, os factores de desregulao econmico-social so quase sempre perigosos, porque extinguem os laos de herana e de identi-dade, bem como diluem as tradicionais manifestaes de coeso social e cultural do homem. Ora a nossa abordagem mostra que o turismo pode

    40 Cfr. Jorge DIAS, op. cit., 1977, p. 45.

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    participar, em larga escala, para a dimenso destes problemas, desde que antecipadamente no exista uma conscincia real e efectiva dos seus impactes. Da que, para Arthur HAULOT, os efeitos negativos do turismo podero ser medidos, limitados, travados e corrigidos, na medida em que deles se tome uma conscincia suficiente41.

    2. 1. A povoao de Vrzea no Parque Nacional da Peneda-Gers Encastoada quase a meio de uma vertente do sistema orogrfico da

    serra do Soajo, no terminus de uma nica estrada, de terra batida, que do Soajo se dirige para nascente at fronteira, no vale do Laboreiro, encas-tela-se, a meio da vertente, um conjunto de construes compactas, disten-didas ao longo de uma curva de nvel e, por isso, a bordejar os campos em socalcos. Eis o quadro geral de um pequeno lugar habitado, a aldeia de Vrzea, separada de Espanha pela raia hmida do rio Laboreiro. Esta aldeia, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gers, um dos mais afastados lugares da freguesia de Soajo, que administrativamente pertence ao concelho de Arcos de Valdevez.

    O rio Laboreiro, afluente da margem direita do rio Lima, corre numa di-reco geral NE-SW, em vale de fractura, ligeiramente apertado, e consti-tuindo fronteira em grande parte do seu percurso. Pela vertente oriental de um interflvio, e na margem direita da bacia do Laboreiro, drenam algu-mas linhas de gua, a Norte o rio da Peneda em parte com a funo de li-mite administrativo entre freguesias. E a, latitude aproximada dos 41 54'N, longitude dos 8o 12' 30"W e entre as cotas dos 360-400 metros de altitude, que est implantada a povoao de Vrzea, onde uma ruptura de declive criou a deposio de camadas terrgenas, tanto de vertente como de acumulao aluvial, potencializando, dessa forma, que as casas, de cons-truo simples e com pedra aparelhada, tosca e sobreposta, se erguessem sobre esse declive natural do terreno.

    Vrzea denominao que quer dizer terra ch, irrigada e cultivada. Ora as caractersticas deste vale levam-nos a compreender o nome e a im-plantao da povoao. Assente em rocha grantica mas muito prxima do limite com o xisto, os socalcos agricultveis nasceram onde a profundidade das camadas terrgenas e a morfo-topografia facilitaram a produo de bens alimentares e energticos. Mas a riqueza desse espao de produo devida aos pequenos eixos fluviais que rasgam transversalmente o vale, pelo que se evidencia que so estes acidentes hdricos a razo do enqua-dramento e relativo alargamento do espao agrcola ao longo do vale. Por esta razo, compreende-se o posicionamento e a existncia dos micro-luga-res de nsuas e Soutelinho, bem como a rede de caminhos e a disperso de propriedades muradas (fig. 2). A disperso foi sempre contrariada pela crescente necessidade de obter recursos de subsistncia humana, mas tam-

    41 Cfr. A. HAULOT, O turismo: actividade autrquica ou aco ao servio do homem in Bios, Conservao da Natureza, Jan./Fev.~ 23,.Lisboa, LPN, p. 7.

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    bm pela necessidade de coeso social, nica via de adaptao a ambientes adversos e de relativo isolamento. A ligao, por estrada, com os outros lu-gares do Soajo, implantados no extremo oriental do vale do Lima, foi criada e executada na dcada de setenta e primeiros anos da dcada de oitenta, pelo Parque Nacional da Peneda Geres e Cmara Municipal de Arcos de Valdevez. E a dimenso das vias e a rede interna dos seus caminhos o melhor exemplo dos condicionalismos geogrficos e da vontade frrea do homem de a se perpetuar.

    O carcter mais vincado da paisagem o "modelo" de organizao espa-cial das estruturas humanas. Face ao quadro das aptides da terra, o n-cleo residencial desenvolveu-se no limite entre o ager e o saltus, demons-trando uma vontade racional de fruio do espao, com o ntido intuito de tirar partido da sua diversidade biogentica, mas tambm da melhor aces-sibilidade aos recursos, tanto hdro-agrcolas como florestais.

    O topnimo Soutelinho (muito pequeno Souto) comum e tpico destas zonas e tem as suas raizes na ocupao humana pelo menos medieval. Os soutos eram manchas arbreas de carvalhos e castanheiros, ricos numa fauna prpria que fornecia os indispensveis recursos alimentares. Tendo sido objecto de uma intensa ocupao humana, reduziram-se s faixas das quebradas, onde na Idade Mdia foram intensamente utilizadas para pas-toreio de sunos. Foi nestas manchas de souto, quase sempre a meia ver-tente, que se instalaram os lugares habitados, porque o homem tambm a obtinha os referidos recursos e outras fontes de alimentao, algumas das quais vieram a constituir reservas energticas em perodos de crise. Hoje, esses lugares habitados absorveram o topnimo, reflectindo os laos e a es-trutura de uma ecologia humana que ainda perdura.

    A montante da povoao, o domnio da vida selvagem, dos incultos (servindo de pastagens naturais), dos recursos florestais e cinegticos, en-quanto a jusante fica a zona de veiga, dos campos agricultveis e dos pra-dos cultivados42. Portanto, nas superfcies declivosas e de maior altitude o domnio do coberto vegetal natural, a florescendo a flora espontnea, ao lado de espcies florestais introduzidas pelo homem. Nas reas de cota mais baixa e menor pendor, o homem moldou o territrio, tornando-o menos natural, pela actividade agro-pastoril. Deste modo e desde muito cedo, os grupos humanos retiraram deste meio os recursos de que necessitavam. Para as casas, espigueiros, eiras, moinhos e grande parte dos muros de sustentao fizeram blocos de granito e para os telhados talharam "fatias" de xisto, mais tarde substitudas por telha; do monte, reservatrio de pastagem e caa, vinha o mato, para adubao, e alguma lenha; do campo vinham os recursos alimentares. Bastando-se a si prpria, num

    42 Em artigo recente de Rosa F. Moreira da SILVA, A aldeia da Vrzea (Serra do Soajo):

    situao actual e a inundao, para breve, da sua veiga in Revista da Faculdade de Letras, col. "Geografia", I srie, vol. 1, Porto, FLUP, 1985, p. 5-32, abordam-se significativos aspectos da sua geografia rural.

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  • Figura 2 Enquadramento geogrfico da Vrzea

    regime de auto-subsistncia, foi o milho, o centeio, a batata, os legumes e frutos, o vinho americano e a criao de gado os recursos fundamentais do seu quotidiano.

    A posse colectiva de parte do monte, onde a pastorcia ainda se manifes-ta, em vezeira43, anda associada explorao individual da terra, com a maioria dos trabalhos agrcolas a beneficiarem da entre-ajuda da comuni-dade. Nos campos, um muro e valado, ladeando um estreito caminho (Caneja) de acesso veiga, divisria de um antigo afolhamento bienal, e

    43 Termo para classificar a actividade pastoril constituda por rebanhos pertencentes a

    diversos donos mas guarda de um pastor da aldeia que se vai revezando.

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    Ecologia humana e turismo no Alto Minho

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    corta os socalcos perpendicularmente, no sentido nascente-poente, no tendo hoje em dia aquela funo. A estrumao e o carinho com que a acti-vidade agrcola foi praticada, aliada bio-diversidade de plantas cultiva-das possibilitou uma maior intensividade do solo. Por outro lado, ao respei-tar um espao vital (os campos agrcolas), a comunidade assegurou o seu futuro cultural. Por isso, os seus habitantes tm orgulho em afirmar que nesta terra h necessitados, mas no h pobres44.

    Mas a dcada de oitenta atentou contra este sistema de valores. O rio Lima, na sua entrada em Portugal, e a jusante da foz do rio Laboreiro, possua, desde a dcada de vinte, uma barragem, chamada do Lindoso, e hoje submersa pelo enchimento da albufeira da nova barragem (agora chamada do Alto Lindoso e pertencente segunda gerao de barragens do Pas), com 110 m de altura mxima, de que resultar uma rea inundada de 1072 ha45. Desde 1983 que se iniciaram os primeiros trabalhos relacio-nados com a expropriao dos terrenos que iriam ser inundados, a maioria deles na parte espanhola e uma parte no vale terminal do rio Laboreiro. Presentemente, a albufeira est a encher, prevendo-se que a sua cota mxima atinja os 338 m. A esta altitude, o limite das guas extingue para sempre os belos e pitorescos socalcos agrcolas da Vrzea (fig. 3). Assim, a aldeia ver o seu "corao" afogado pelas guas, realidade que j causa importantes transformaes sociais e econmicas a esta comunidade. o tradicional e secular modus vivendi que est em questo.

    Em consequncia disto, a povoao ficar privada de espao e recursos agrcolas. Mas desfruta de uma extensa toalha lquida e considervel su-perfcie de bravio ou monte. Face a estas mutaes, uma nova paisagem se ter de (re)organizar. Mas a comunidade humana que nos deve preocupar, porque as vias que ela poder trilhar so opostas: uma, a procura de um novo equilbrio ou compensao (em geral de cariz econmico) para satisfa-zer a perda dos valores tradicionais; a outra, a desorganizao social manifestada, na maioria dos casos, pela emigrao definitiva, para no cair em fenmenos de disfuno social.

    Numa ptica de ecologia humana, as novas condies geogrficas da Vrzea comportam potencialidades que importa explorar. Os seus recursos paisagsticos no devem ser menosprezados.

    Ao bordejar o limite da extensa toalha lquida da albufeira do Alto Lin-doso e com o "monte" como fundamental reserva biogentica, eis o cenrio que presentemente se depara povoao da Vrzea (fig. 2 e 3).

    De acordo com o Censo de 1981, a povoao da Vrzea registava uma populao de 145 habitantes, dos quais 55 eram homens e 90 mulheres. O

    Alguns dados aqui registados sobre a aldeia da Vrzea, so o resultado de uma observao

    participante, de trabalho de campo, em resultado de ter pertencido direco de dois Campos de Trabalhos, realizados nesta aldeia, e organizados pelo FAOJ em 1983 e 1984. 45 Cfr.EDP/EP, Aproveitamentos hidroelctricos de Alto Lindoso e Touvedo, Direco Operacional de Equipamento Hidrulico, Maio de 1990.

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  • Figura 3 Barragens e reas a submergir pelas guas da albufeira no Vale do Lima

    nmero de famlias totalizava 53 e os alojamentos e edifcios eram em nmero de 6046. Mas, em 1983, a sua populao era de 143 indivduos (56,6% de mulheres e 43,4% de homens), tendo uma estrutura etria tpica de uma rea serrana, com os seguintes valores: entre 0-19 anos existiam, respectivamente, 32,3% e 25,9% de homens e de mulheres; entre 20-39 anos 17,7% e 27,2%; entre 40-59 anos 27,4% e 22,2%; e, com mais de 60 anos, 22,6% e 24,7%. Da actividade agro-pastoril provinham 76,6% dos recursos econmicos dessa populao, indicando-se que a agricultura estava na base da profisso de 75,5 % dos membros dos agregados familiares. No que diz respeito habitao, esta aldeia possua 47 casas com famlia, de dois pisos, com o rs-do-cho a servir de corte para o gado em 72,3% delas, e 55,3% das casas anexando um quinteiro (pequena horta).

    Outras caractersticas dessas casas eram as seguintes: 72,3% delas

    46 Cfr. I.N.E., XII Recenseamento geral da populao: resultados preliminares: distrito de

    Viana do Castelo, 1983.

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    Ecologia humana e turismo no Alto Minho

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    possuiam uma construo base de materiais tradicionais (pedra e madeira) e s 27,7% de beto e tijolo; 19,2 % somente comportavam at duas divises, 48,9 % com trs e quatro divises, e s 31,9% tinham mais de cinco divises; 76,6% das casas tinham pavimento de cozinha em pedra e soalho de madeira, 19,1% de outros materiais e 4,3% eram em terra; 91,5% das habitaes possuam energia elctrica e 8,5% possuam ilumina-o a petrleo; 46,8% dessas habitaes tinham torneiras de gua dentro de casa, enquanto que 22,7% possuam torneiras exteriores e 25,5% no tinham gua por meio de torneira; finalmente s 8,5% das habitaes pos-suam telefone, 40,4% televiso e 46,8% tinham rdio47.

    Nestes ltimos anos, o nosso contacto com a aldeia permitiu-nos eviden-ciar que alguns naturais emigrados comearam a construir (ainda que em nmero reduzido) a sua nova habitao, tendo em considerao esta nova realidade. Contudo, a fuga dos jovens para outros destinos fenmeno tradicional e ser ainda maior. Da que faamos apelo ao turismo, como uma das actividades que, racionalmente ordenada e gerida, poder desen-cadear e acalentar uma via de desenvolvimento para que o grupo humano recrie uma nova coeso social e econmica.

    O quadro de desenvolvimento turstico tem de ser alicerado e equacio-nado em bases slidas, fazendo apelo s aptides do solo, aos recursos de-mogrficos e socio-culturais, mas tambm a condicionantes de natureza geogrfica e ecolgica. Por conseguinte, uma condicionante o estatuto e os objectivos de parque nacional. Porque o Parque Nacional da Peneda-Gers engloba populaes residentes, duas vertentes tm de ser observadas, isto , por um lado, a prossecuo de aces de conservao e, por outro lado, que essas aces se compatibilizem com o desenvolvimento socio-econmico da regio. Ora o turismo uma das componentes desse desenvolvimento que faz afluir s reas com um significativo somatrio de valores naturais e culturais uma populao no residente, os turistas, capazes de fomentarem a aplicao de trs princpios, definidos na Conferncia sobre os Patrimnios Naturais da Europa, que decorreu no Peak National Park, em 1985, desta forma mencionados: 1) 0 turismo uma justificao econmica para a conservao; 2Q) 0 turismo um meio de consolidar o apoio conser-vao; 39) 0 turismo pode fazer afluir recursos conservao48.

    Mas esta via tem de ter um horizonte de mdio e longo prazo. Em que bases? Considerando os factos que temos vindo a expor, as bases estratgi-cas a explorar circunscrever-se-o ao sistema de uso humano praticado na Vrzea, com o seguinte enquadramento: a) afectar uma superfcie significa-tiva de monte para a recuperao natural, isto , assegurar condies para uma sucesso climcica, suporte biogeogrfico fundamental da paisa-

    47 Estes dados resultaram de um inqurito realizado pelos finalistas da Escola de

    Enfermagem de Viana do Castelo ao universo da populao desta aldeia. Cfr. Relatrio do campo de trabalho scio sanitrio de Vrzea-Soajo, E.E.V.C., Outubro de 1983.

    48 Cfr. Aristides G. LEITO, Turismo nas reas protegidas, in P Congresso de reas Protegidos, Lisboa, SNPRCN, 1987, p. 717-720.

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  • Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    gem e, desta forma, contrariar e limitar as consequncias da florestao praticada; b) acarinhar as actividades econmicas tradicionais, com melho-res condies de sustentao social, atravs de apoios tcnicos e financeiros, como forma de revitalizar e assegurar o quadro de vida nesta aglomerao; c) suster os indcios de desvirtuao do patrimnio cultural edificado, valori-zando a estrutura e os materiais tradicionais, e apoiar a melhoria das condies socio-sanitrias das habitaes serranas, no quadro de competn-cias assumidas e em vigor; d) estudar e criar, em locais mais apropriados, novas reas agricultveis de outfield, como uma das formas de compensa-o das terras agrcolas submersas e, assim, responder a uma economia do ambiente; e) desenvolver novas actividades econmicas, como sejam formas de recreio e de turismo, ajustadas s actuais condies geogrficas e com um mnimo de impacte] f) implementar, no fundo, um desenvolvimento com base endgena, que faa apelo participao da populao local, qe inte-gre os seus usos e costumes e as suas tpicas manifestaes culturais.

    Os agrupamentos vegetais constituem, hoje em dia, indicadores das condies do meio e testemunhos da vocao das paisagens. Da que esta componente seja um instrumento de anlise para a valorizao duma regio. Estas propostas devero ser enquadradas no conjunto da anlise inicial, ou seja, tomando em conta que as zonas serranas, sofrem actual-mente, por um lado, as consequncias de uma intruso exgena praticada desde h cerca de meio sculo no seu ecossistema e, por outro lado, uma desertificao humana que, ao empobrecer as relaes ecolgicas seculares entre o homem e este meio natural, potencializa uma nova aptido do es-pao e obriga a procurar um novo equilbrio de relaes dessas comunidades humanas com a natureza.

    A procura de um novo equilbrio deve-se enraizar nas actividades com maior potencial e ecologicamente adequadas. Est, neste caso, a criao de gado que, segundo os dados publicados referem, o aldeamento da Vrzea possua antes da florestao, nos seguintes quantitativos: um valor de 700 cabeas de bovinos, 400 de ovinos e 3 000 de caprinos; e, depois da flores-tao, esta actividade perdeu importncia, na medida em que passaram a possuir somente cerca de 500 animais bovinos, 300 ovinos e 700 caprinos49. Por conseguinte, a florestao limitou e condicionou as actividades de sus-tentao desta populao, o que veio provar o carcter perturbador das aces exgenas, quando no tm em devida conta os impactos sobre a economia local. Portanto, isto evidencia um empobrecimento do tecido socio-econmico desta populao, tanto mais grave quanto sabemos que a maior fatia das receitas da florestao canalizada para fora deste sistema de uso humano e de produo.

    Por estas razes, o desenvolvimento da actividade turstica ter de

    49 Cfr. Cludio C. LEO, Marginalisation et dveloppement des zones de montagnes mditerronennes: le cas de Ia commune de Soajo au Portugal, Institut Agronomique Mditerranen de Montpllier, s/d, p. 58-59.

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    submeter-se ao quadro da ecologia humana serrana e aos processos que melhor assegurem a conservao da natureza, ou seja, escolher a via "desenvolvimentista" que permita manter a perenidade dos valores e o carcter "atractivo" dos lugares. Da que o turismo tenha um papel integra-dor a desempenhar nas reas de conservao da natureza, atravs de um estilo de turismo, de um tipo de oferta e promoo turstica, de um grupo de consumidores tursticos, de uma carga turstica e de uma animao socio-cultural que seja harmnica e respeitadora da fragilidade dos recursos naturais em que o turismo se apoia.

    2. 2. A aglomerao de Amorosa no litoral de Viana do Castelo No litoral entre os rios Lima e Neiva, ao p da linha de costa e varrido

    pela nortada e pelas brisas martimas, existe um pequeno lugar, chamado de Amorosa, pertencente actual freguesia de Chaf, do concelho de Viana do Castelo. Implantado entre as dunas de areia, parte delas cobertas de pinhal, as construes a edificadas so muito recentes e entroncam na dinmica das actividades agro-martimas, potencializadas por uma signifi-cativa faixa rochosa intertidal, funcionando como fonte e reservatrio de recursos biogenticos marinhos (fig. 1).

    Numa descrio do nosso litoral, em 1891, se diz que na primeira ele-vao das dunas, adjacentes praia, algumas barracas ou cabanas e um posto fiscal aduaneiro formavam a primitiva povoao, que nessa altura correspondia a um dos muitos portos do sargao existentes no litoral norte, sendo esse porto denominado de Moinho do Bispo50. Esta descrio, com-plementada com dados recolhidos no local51, atesta que essas construes funcionavam como apoios de Vero s actividades de pesca e de recolha de algas marinhas para adubao orgnica das terras, tendo um carcter sazonal52. Mas neste sculo esse carcter temporrio desapareceu, dando origem a um aglomerado populacional permanente, funo de condies ecolgicas e econmicas muito particulares, e perpetuado numa inscrio embutida numa das casas trreas ainda existentes na Amorosa, com os seguintes dizeres: Em 1911 I Francisco Arezes Novo / criou o / Lugar da Amorosa / Anha53.

    50 Cfr. Baldaque da SILVA, Estado actual das pescas em Portugal, Lisboa, I.N., 1891,p.83-92. 51 Vide J. da Cruz Lopes Formaes dunares no litoral do Alto Minho, Separata do Boletim

    do Centro de Estudos Regionais Viana do Castelo, 1987, p. 2. 52 Vejam-se vrios exemplos citados por Rocha PEIXOTO (1898), um dos quais o local em

    anlise, acerca do qual escreveu que No littoral minhoto os grupos de barracas ou telheiras que mesclam a praia constituem, as mais das vezes, abrigos para os utenslios destinados colheita das algas e propositadamente edlfcados sobesseintento, merc do papel attribuido quella especiede adubo agrcola. Cfr. Rocha PEIXOTO, Os Palheiros do Litoral, Portuglia, Lisboa, I (l-4),1899-1903, p.85. Noutra obra, o lugar de Amorosa um dos locais citados em que se fixaram essas populaes pobres de cabaneiros, para quem o sargao apanhado para venda. Cfr. Ernesto Veiga de OLIVEIRA et ai., Actividades agro-martimas em Portugal, Lisboa, Instituto de Alta Cultura e Centro de Estudos de Etnologia, 1975, p. 47.

    53 Cfr. J. da Cruz LOPES et ai, Tradies martimas de Anha: tecnologia da apanha do

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    No sculo passado, o coberto de pinhal no possua a extenso que hoje tem, ou seja, o pinhal encontrava-se circunscrito mais para o interior da formao dunar e adjacente aos campos agricultveis. E a documentao que o comprova, ao mencionar que o litoral do concelho de Viana do Castelo tem extensos areiaes onde se deve proceder sementeira dos pinheiros [e que] a sua plantao nos montes e areiaes faz com que as terras se consolidem [...] e tambm impossibilita que se reduzam esterilidade os terrenos lavradios confinantes com os areiaes, por isso que existe ento entre uns e outros uma barreira vegetal que os separa54. Por conseguinte, uma significativa faixa de terrenos arenosos da beira-mar estava despida de um coberto arbreo des-tinado a reduzir a dinmica natural das areias, isto , o seu avano para o interior, facto que ocorria constantemente desde h longa data, como o comprova alguma documentao histrica disponvel relativa ao passado de muitas localidades prximas do litoral e de esturios. No caso, a rea em questo sofreu o impacto da invaso das areias de dunas, atestada pela extenso actual da mancha dunar, pelo topnimo Areia55, correspondente a um lugar habitado (da freguesia de Chaf) e com significativo nmero de populao, e pelo registo documental de que Santiago de Anha antiga-mente era a Parochia Matriz Nossa Senhora das reas, mas crescero estas tanto, que a Freguesia, e Igreja se submergiro com ellas, e muitas marinhas de sal56.

    Mas desde finais do sculo passado e incios deste que o esforo da flo-restao dos areais costeiros deu os seus frutos57. 0 pinhal avanou para muito prximo da linha de costa, merc desse esforo humano e da resistn-cia do pinheiro ao fenmeno de salsugem e da sua aptido a terrenos silicio-sos martimos e humidade atmosfrica, o que propiciou a relativa estabi-lizao dos cordes arenosos, a criao de ncleos e faixas de campos agrcolas, quase sempre ao longo de linhas de gua que drenam para o mar. Assim, as dunas secundrias, at a instveis e muito dinmicas, passaram a ser dunas arborizadas e a possuir uma relativa estabilidade.

    A Sul e muito prximo do local da actual povoao, correm duas peque-nas linhas de gua. O contacto directo com esta rea mostrou o que a car-

    sargao, Sep. do Boletim de Festas de Vila Nova de Anha, Viana do Castelo, 1987, p. 13-20. 54 Cfr. Eusebio C. P. Furtado COELHO, Estatstica do districto de Vianna do Castello, Lisboa, I.N., 1861, p.237-40.

    Neste lugar, a recente investigao arqueolgica provou, pelos vestgios postos a descoberto, ser o local da antiga parquia medieval de S. Joo de Ester, que desde o sculo XVI deixou de constar na documentao, pelo facto de ter sido soterrada pela avano das areias do mar. No local da interveno, no limite SW do lugar supracitado, o depsio de areias de duna de cerca de 30 cm. Vide A. Antunes de ABREU, 1987-1988: dois anos de pesquisa em Arqueologia Medieval e Moderna, in Cadernos vianenses, Viana do Castelo, 14, 1990, p. 155-162.

    56 Cfr.Antnio Carvalho da COSTA, Corografia portugueza e descrio topogrfica..., 2- ed., Braga, Domingos Gonalves Gouveia, 1868,1, p. 270.

    57 Alguns aspectos desse esforo so aflorados no artigo de Carlos M. L. BAETA NEVES, Flora, fixao e aproveitamento turstico das dunas em Portugal, Separata da Gazeta das Aldeias, n 2720/21 e 2723,1972, 22 pp.

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    tografia tenta espelhar, ou seja, que o terreno de cultivo que ladeia a linha de gua mais a Norte maioritariamente amanhado pelos habitantes do lugar e motivou a abertura, na dcada de sessenta, de uma estrada de acesso E.N. 13-3, e que corre ao longo do seu traado. Por outro lado, a acessibilidade destes campos arenosos agricultveis tornou-se cada vez maior, atravs do arroteamento progressivo de retalhos de dunas58, dando origem a que o contacto das construes com o espao agrcola passasse a ser feito por sueste. O homem criou, por conseguinte, uma base de susten-tao biogeogrfica (a Norte uma faixa de proteco arbrea de pinhal, que reduzia a instabilidade e o avano das areias, e a Sul um espao de produ-o) fornecedora de uma variedade de recursos que potenciaram a fixao de uma populao agro-martima e um sistema de uso humano harmonioso e ajustado s condies ambientais do territrio em questo (fig. 4).

    Portanto, o "modelo" de organizao do espao litoral pelo homem advm de um quadro de relaes de ecologia humana, o que explica o recente aparecimento do aglomerado de Amorosa59. Este lugar instalou-se na faixa de dunas primrias (fronteiras ao mar), em geral cobertas por um tapete herbceo descontnuo e de fraca diversidade florstica onde pontifica em geral uma espcie espontnea, a Ammophila arenaria L.60, apresentando uma disposio ligeiramente oblqua (NW-SE) em relao linha de costa, indo embater no cordo de dunas secundrias arborizadas de Pinus pinaster Sol.61.

    A Norte do rio Ave, citam-se vrias localidades, enquadradas em forma-es dunares, onde se fixaram populaes para quem o sargao apanhado

    58 O arroteamento das dunas s foi possvel atravs da incorporao intensiva de matria orgnica base do sargao, visto que as dunas so solos quase estreis do ponto de vista orgnico. Essas algas marinhas fornecem ao solo tanto substncias orgnicas como minerais, porque so ricas em vitaminas A, BI, B2, B12, C, D e E, e so um elemento 0,5 a 2 vezes mais rico em N[azoto], P[fsforo] e K[potssio] que o estrume dos gados domsticos. Ora, em zonas onde o nvel fretico est muito prximo da superfcie, condio fundamental para a humificao, a aco das biocenoses do solo cria um complexo hmico muito rico, que faculta a fertilidade agrcola do solo dunar. Cfr. P. DUVIGNEAUD, A Sntese ecolgica, Lisboa, Socicultur, 1977,11, p. 264-265.

    59 Segundo informao local, a este termo corresponde um dos nomes dados pelos pescadores a um afloramento rochoso existente no mar, na zona intertidal. De facto, na mar baixa, fronteira aglomerao, sobressai uma fiada de penedos, batidos pelo mar, que tm as seguintes designaes: Gio; Lagido; Lagosteira; Amorosa; e Queimado.

    60 Nas formaes dunares esta espcie vegetal espontnea est bem adaptada ao meio. Suporta a salinidade e as cristalizaes salinas, j que as suas folhas se enrolam quando as condies so desfavorveis, as suas raizes compridas asseguram a sua fixao a estas areias mveis de origem elica e muito permeveis. So estas caractersticas que fazem com que esta planta seja perene, se propague espontaneamente e tenha uma taxa rpida de crescimento, contribuindo desta maneira para a consolidao da areia e, em ltima anlise, para uma relativa estabilidade das estruturas dunares. Os habitantes de Amorosa do a esta espcie o nome vulgar de feno-das-areias. Tambm conhecida por estorno. Na flora de Gonalo SAMPAIO (1988) no se indica nenhum nome vulgar, somente que ocorre nos areais martimos de Norte a Sul do pas.

    61 Na flora de SAMPAIO (1988) indica-se que ocorre nos terrenos incultos de Norte a Sul do Pas, com o nome vulgar de pinheiro-bravo. Tambm lhe do o nome de pinheiro martimo e, por isso, haja quem o classifique por Pinus maritimum.

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    para venda62. o caso de Amorosa, desde sempre ligada explorao deste recurso natural para a fertilizao orgnica dos campos, e associada pesca local. Os dados descritos na obra de Baldaque da SILVA (1891) as-sim o comprovam, ao indicar que as pessoas ao sargao eram em nmero de 50; o nmero de embarcaes 7; e o de jangadas 15. Mas o curioso veri-ficarmos que a povoao vizinha, a Sul (Castelo do Neiva), com um sector costeiro intertidal muito mais significativo e rico em recursos algolgicos, apresenta dados relativos apanha do sargao de importncia menor63: as pessoas envolvidas no sargao eram em nmero de 40; e as jangadas de 7. Ora isto prova a perpetuao de uma realidade, ou seja, que a freguesia de Castelo do Neiva foi sempre mais importante na actividade agrcola e pis-catria do que na actividade da apanha de sargao, se bem que ambas sempre tenham sido complementares. Desde os anos sessenta que muitos sargaceiros eram, ao mesmo tempo, pescadores ou agricultores e vice-versa.

    Na dcada de sessenta e para a costa a Norte de Viana do Castelo, as estatsticas da produo de algas industrializveis registam, nos anos de 1967-69, valores relativos explorao e comercializao deste recurso natural, com um quantitativo mdio de 533 926 Kg de sargao seco, totali-zando um valor monetrio de 256 285$0064. Estes dados permitem ajuizar do valor econmico que este recurso natural representava para as popula-es costeiras. Hoje, este seu valor cada vez maior, face cada vez maior procura, determinada pela generalizada adopo da adubao orgnica em detrimento das matrias qumicas.

    No que diz respeito ao sector costeiro intertidal de Amorosa, este encon-tra-se desligado do lugar de Pedra Alta (lugar costeiro da freguesia de Castelo do Neiva e muito semelhante ao lugar em anlise) pela foz de um pequeno ribeiro, que serve de limite administrativo65. A, o que ns conhe-cemos em estudo de campo, realizado no ano de 1987, foi que esse ribeiro cortou um macio de dunas primrias para chegar ao mar, que na margem esquerda da sua foz existe uma zona intertidal chamada de Lousado66, e que esse stio tem tradio na apanha de sargao (fig. 4). A existncia de 36 palheiros de sargao atesta ainda hoje os fortes laos que unem essa comu-nidade humana aos recursos biolgicos marinhos, pelo que a difuso e/ou necessidade de mais recursos determinou a actividade da recolha de sarga-o para adubao das terras em sectores costeiros limtrofes e mais distan-tes do povoado primitivo. Estas consideraes visam dar um contributo

    62 Cfr. Ernesto V. de OLIVEIRA, op. cit, 1975, p. 47. 63 Cfr. A.A. Baldaque da SILVA, op. cit, 1891, p. 92-94. 64 Cfr. JCCP, Produo de algas industrializveis na safra de ..., Lisboa, Junta Central das

    Casas dos Pescadores/Departamento Tcnico, 1967 a 1969. 65 A essa linha de gua a populao local chama Rego do Negro e pedra de limite com a

    freguesia de Chaf, na borda desse nbeiro, chamam Marco do Rei. 66 Trata-se de um micro-topnimo que relacionamos com a natureza geolgica predominante

    da penedia que aflora neste sector da linha de costa. Na carta geolgica 5-C regista-se uma formao de xistos argilosos do Ordovcico e zona de jazida de invertebrados fsseis, onde foi colhida uma trilobite do gnero Synhornalonotus.

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  • Figura 4 Organizao do espao litoral da Amorosa

    para fundamentar as razes que seguramente estiveram na base do povoamento em Amorosa, bem como compreender a informao local de que os seus primeiros habitantes eram originrios de Castelo do Neiva.

    Na obra de E. Veiga de OLIVEIRA (1975), insere-se uma foto com as primitivas habitaes permanentes de sargaceiros-lavradores em Amorosa, ainda hoje existentes porque foram protegidas da fria do mar por um pequeno corredor de pedras em 1979/80. Mas o seu aspecto e configurao arquitectnica sofreu profundas alteraes em finais da dcada de sessenta, quando o turismo balnear a se tornou frequente e popular para certas franjas sociais. No caso de Amorosa, essas alteraes formais e funcionais da paisagem foram um pouco mais tardias. Em meados da dcada de setenta, descreve-se que o povoado se compunha de um sector de construes alinhadas em frente ao mar, j transformadas, e, mais internamente, um casario onde j eram raras as construes em madeira67. Progressivamente, assistiu-se transformao funcional dos primitivos barracos de sargaceiros, alguns de madeira em construes mais slidas, de pedra e reboco, at por vezes com a elevao de mais um piso.

    O carcter recente do povoado costeiro em anlise pode ser tambm

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    Jos da Cruz Lopes

    67 Idem, ibidem, p. 111.

  • Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    comprovado pelos dados demogrficos. Em 1911, no se regista nenhum quantitativo em fogos e populao. S mais tarde, em 1940, se indica que este lugar possua 22 fogos, e 96 indivduos68; em 1960, os fogos totaliza-vam 44 e a populao 158 indivduos69; em 1981, os alojamentos regista-vam o quantitativo de 74 (com 52 famlias) e uma populao presente de 209 indivduos (dos quais 96 eram homens)70. Ora estes ltimos dados provam o dinamismo demogrfico e fsico de Amorosa na dcada de setenta, em grande medida causado pelo tipicismo e qualidade ambiental da sua extensa praia arenosa e tambm valorizada pela existncia de uma unidade de restaurao71. Com uma significativa superfcie de dunas de areia na sua linha de costa de mais de 2,5 Km, esse espao natural consti-tua um atractivo e uma potencialidade turstica difcil de ignorar, o que vai estar na origem de um empreendimento imobilirio.

    Assim, em meados dos anos oitenta, este aglomerado agro-martimo viu nascer, no seu litoral norte e muito prximo da sua linha de costa, um loteamento residencial, em duas fases72, e uma terceira com pretenses recreativo-tursticas, calculada para um mnimo de 3000 e um mximo de cerca de 10000 residentes73 e ocupando actualmente 342000 m2 de rea dunar, adjacente s dunas primrias74. Em termos comparativos, as estru-turas edificadas do aglomerado tradicional ocupavam, em finais da dcada de sessenta, cerca de 47500 m2 75 e, nos incios dos anos oitenta, volta de 70000 m2 76. Tendo em considerao as informaes recolhidos para os Censos 91, o impacto desta estrutura determinava os seguintes dados: 248 edifcios; 1476 alojamentos; 70 famlias; e uma populao presente de 203 indivduos. Mas o mais significativo so os dados relativos ao ncleo origi-nal, que, para esse ano somente registava 12 alojamentos em 10 edifcios, 5 famlias, e uma populao presente de 18 indivduos. De facto, operou-se uma transferncia de populao em desfavor do ncleo primitivo e a conse-quncia previsvel ser a progressiva descaracterizao socio-cultural deste aglomerado.

    Esta nova rea residencial foi logo partida controversa, porque o seu

    Valor de populao presente.

    Valor de populao residente. In X Recenseamento Geral da Populao (Continente e lhas Adjacentes), Tomo 1, Volume 29, Lisboa, INE, 1960, p. 512.

    In XII Recenseamento geral da populao, resultados provisrios, distrito de Viana do Castelo, Lisboa, INE, 1982, p. 30.

    Trata-se do Restaurante da Amorosa, que nos seus incios possua na penedia lagosteiros (construes feitas em pedra, de forma rectangular e quadrada, para manter o marisco vivo), tambm conhecidos por viveiros.

    72 No total, este complexo contemplava 167 moradias e 1 260 habitaes em altura. 73 Cfr. Jornal de Notcias, 25 de Setembro de 1987. 74 Em 1986, a sociedade imobil ir ia, denominada SOCITUL, deu incio aos trabalhos de

    implementao das infraestruturas do citado loteamento. Essas infraestruturas ocuparam toda a zona interdunar e a faixa de dunas secundrias arborizadas, as quais tiveram de ser desbastadas para dar lugar abertura dos arruamentos e instalao do saneamento bsico, gua e electricidade. 0 De acordo com as informaes inscritas na folha 5-C da Carta geolgica, na escala 1:50 000. 76

    Cfr. Plantas topogrficas na escala 1:10 000.

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  • Jos da Cruz Lopes

    dimensionamento e enquadramento ambiental violavam o quadro de ecolo-gia humana praticado pela populao e desrespeitavam alguns princpios e normas adoptadas para um correcto ordenamento e gesto do litoral portu-gus: por um lado, violava frontalmente o Decreto-Lei n 292/80, de 16 de Agosto, que, no seu artigo 3o estipula que so declaradas cativas todas as formaes arenosas situadas na faixa costeira compreendida entre a margem das guas do mar e uma linha paralela ao seu limite interior e dele afastada 1 Km; e, por outro, colidia com o esprito que presidiu ao Decreto-Lei n 321/83, de 5 de Julho (que criou a reserva ecolgica nacional), particular-mente o seu artigo 2o. Ao contemplar uma superfcie edificada que,ultra-passava os ndices aconselhveis para esta rea geolgica e uma estrutura vertical edificada variada, com construes de dois e at dez pisos, o seu impacto ambiental e paisagstico no poderia ser feliz: antes pelo contrrio, deveria constituir um forte argumento para a sua rejeio. Um outro argu-mento que poderia ser aludido seria a aplicao do princpio de RAPPE (1977), segundo o qual "1/3 selvagem" deveria ser aplicado em todas as zonas tursticas. Este ordenamento do espao foi proposto na Bretanha para salvar falsias, esturios e praias. Num contexto actual, em 1980, foi pro-posto que as estruturas tursticas (de qualidade) deveriam respeitar um ndice igual a 1.5 turista /ha /ano afim de no deteriorar as dunas arenosas costeiras77. Por conseguinte, facilmente verificamos que estes dois princ-pios no foram, no mnimo, respeitados.

    Por outro lado, o posicionamento deste loteamento no tinha em conta a dinmica natural deste meio nem as especificidades dos fenmenos que a ocorrem. Por isso, o processo de licenciamento deste empreendimento en-fermou de graves violaes, uma delas j apontada, e, em grande medida, imputadas s entidades da Administrao Regional e Local com atribuies e competncias nesta rea. Muito provavelmente, ignoraram-se, de forma intencional, os sintomas de uma eroso costeira da linha de costa nesta rea, com incio em 1980, assim como todo o sistema dinmico das cristas de dunas, as quais se deslocam, no sentido poente-nascente. Num contexto de mdio e longo prazo, a interveno humana aludida no foi coerente nem racional relativamente a estas duas realidades.

    De forma mais clara, carreamos para o caso da Amorosa o conhecido ciclo de vida dos pinheiros, estudados no sistema de dunas do Parque Na-cional de Donana, no SW de Espanha. A constatou-se que, no decurso de quarenta anos, o coberto de pinheiros foi vtima de enterramento pela vaga das areias de duna em movimento. A espcie de pinheiros a existente est muito bem sincronizada com esta sequncia de acontecimentos, pois completa o seu ciclo de vida dentro desses quarenta anos. [...] H provas de que essa sequncia se tem mantido na rea h muito tempo, a partir dos gros de plen fossilizado preservados [nos depsitos de turfa e] de que esta sucesso

    77 Cfr. Jean-Pierre LOZATO-GIOTART, op. cit, 1990, p. 190

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  • Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    cclica decorre h pelo menos 13 000 anos78. Ora este fenmeno tambm existe nesta rea dunar, como se comprova pela observao de "pinheiros enterrados" e postos a descoberto nos locais de extraco de areias de dunas existentes na Amorosa. Por conseguinte, isto um aspecto em que o quadro de ecologia humana da rea em anlise no foi tido em considerao na configurao dos projectos idealizados pelos grupos socio-econmicos. Perante isto, exige-se que o sistema de ordenamento e planeamento regional e local formule novos princpios de aco, de forma a aplicar um planeamento de uso ecolgico79.

    De facto, s com um planeamento ecolgico se podero (re)solver alguns impactos humanos nefastos para o equilbrio dos sistemas naturais e das espcies que deles vivem. A este propsito, o desenvolvimento turstico tem contribudo para reduzir e mesmo eliminar alguns equilbrios naturais nas formaes dunares. O maior impacto diz respeito destruio da vegetao espontnea dunar pelo pisoteio exagerado, pela circulao de veculos moto-rizados e, de forma irremedivel, pelo abertura de estradas e edificao de construes. Mas outros equilbrios esto ameaados, pelo que vm mencio-nados na documentao. Um, o caso da espcie Oenanthe oenanthe (Chasco-cinzento) comum nos complexos dunares do litoral norte, zona onde hoje a sua populao meramente residual. A ocupao do litoral pela construo deve ter sido a principal causa desta alterao80; outro diz res-peito s espcies Sterna hirundo (andorinha do mar) e Sterna albifrons que tm nas dunas e praias o seu habitat (e nidificao). Tal facto ocasiona, particularmente no Sul do Pas (Algarve), que o surto de desenvolvimento turstico balnear seja o grande responsvel pela diminuio e mesmo desa-parecimento destas aves nesse litoral.

    Numa outra vertente e no que diz respeito ao sistema de uso humano praticado por esta comunidade, o nosso trabalho de campo, acima referido, pde registar uma realidade curiosa. Tratou-se de poder observar in loco o processo de feitura, acondicionamento e proteco de um palheiro de sarga-o. A zona sul do aglomerado e na faixa dunar entre a praia e o primitivo arruamento o local onde se desenrola a actividade dos sargaceiros, pos-suindo em Setembro de 1987 um total de 52 palheiros de sargao81. Remontando s primitivas manifestaes, os sargaceiros cuidavam proteger o seu palheiro de sargao das intempries das estaes seguintes atravs da sua cobertura e, desta forma, conservar as algas secas, porque ela

    78 Peter D. MOORE, Ecologia Animal, trad., col. "Animais de Todo o Mundo", Lisooa, Crculo

    de Leitores, 1990, p. 27. Vide Jean TARLET, La planification cologique: mthodes et techniques, Paris,

    Econmica, 1985, p. 17-39 Uma caracterstica do habitate desta espcie ter o seu limite sul de distribuio em

    Portugal situado entre a bacia do Mondego e do Vouga. Cfr. Rui RUFINO et ai, Atlas das aves que nidificam em Portugal Continental, Lisboa, CEMPA e SEARN, 1989, p. 141. 81 O

    nosso conhecimento sobre este assunto permite-nos indicar uma estimativa quantitativa relativa a este recurso natural: no total, o sargao representaria cerca de 78 000 Kg de peso seco, com um valor monetrio, nesse ano, que rondaria os 936 000$00.

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    impedia a penetrao das guas das chuvas. Essa cobertura era constituda por matria vegetal que, no caso de Amorosa, nos foi dito e comprovado se tratava em geral de palha das dunas, ou seja, de feno-das areias82 recolhido pelas pessoas nas dunas para cobrir o seu palheiro.

    Assim, observamos este caso em que no se tratava de colmo (palha de centeio) mas sim da espcie dunar que abundava nas formaes da costa norte de Amorosa. Isto leva-nos a concluir que as populaes locais, ao usa-rem, como recurso natural, esta espcie florstica de fundamental importn-cia para a estabilidade do sistema de dunas primrias, no inviabilizou as relaes de equilbrio deste meio, nem ps em causa o futuro do aglomera-do, face a um maior risco de movimentao das areias. Por outro lado, com-provamos tambm que esta actividade tradicional do sargao j se encon-trava numa fase de perda de importncia, pelo facto de ser um trabalho muito duro e um grupo de sargaceiro(a)s, na sua maioria, recorrerem ao profissionalismo de um antigo sargaceiro de Castelo do Neiva que, pelas suas capacidades tcnicas, era frequentemente chamado para "cobrir" os palheiros de sargao dAmorosa.

    Outro dado harmnico da relao entre a comunidade humana e o meio dunar que lhe serve de suporte consistiu em verificar-se que as informaes inscritas na carta militar de Portugal registavam, em finais dos anos quarenta, uma rede de caminhos mais densos no interior das formaes dunares, estando esses caminhos quase ausentes na faixa mais prxima da linha de costa. Ora isto prova um uso e frequncia do sistema dunar que tinha em conta uma experincia de vida acumulada no decurso de geraes, dada a vulnerabilidade das relaes biotopo-biocenose nesta rea litoral.

    Estes traos gerais sobre o modus operandi desta aglomerao agro-martima constituem uma referncia para repensar as formas de desenvol-vimento turstico mais consentneas com as reas naturais e, muito em particular, o grau de dependncia desse desenvolvimento, face aos recursos naturais e culturais do litoral. Pensamos que o caso de Amorosa, aqui aflo-rado, um bom exemplo da desregulao do ciclo econmico-social tradicio-nal, originado por um "modelo de desenvolvimento" que, por um lado, manifestamente desajustado e, por outro, no compatvel com a trans-misso de valores naturais e culturais identificativos de uma comunidade com um passado histrico recente. O empreendimento citado, ao no com-portar uma integrao ambiental e paisagstica, rompeu com certos laos de herana e feriu o tecido socio-cultural das populaes locais. Em ltima anlise, manifestamente um rgo que atrai e concentra um fluxo huma-no superior capacidade de carga turstica ptima para esta rea dunar. Da que, a breve prazo, surjam sintomas de degradao irreversvel deste sistema natural, vindo a extinguir-se, dessa forma, um fcies de ecologia humana muito peculiar.

    82 Ammophila arenaria; mas, por vezes, inclua exemplares de Juncus mantimus Lamk, tambm frequentes nas baixas dunares (zona-entre-dunas).

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  • Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    CONCLUSO Ao dar corpo a este projecto de trabalho, fica-se sempre com a impresso

    de ele nunca estar completo. De facto, o seu processo de elaborao foi sem-pre dinmico j que sempre esteve permevel a novos dados e ao amadurecimento das ideias.

    A estrutura conferida ao trabalho evidencia a opo por um tema central - o turismo. Sendo como marcante das formas de vida social no nosso sculo, a actividade turstica fez surgir novos ambientes humanos e um novo tipo de apropriao do espao pelo homem. O territrio de Portugal, pela sua posio geogrfica e enquadramento geo-poltico, esteve desde muito cedo ligado s grandes rotas e correntes tursticas europeias e inter-continentais. Em termos figurativos, definiu-se um palco e um actor, respectivamente, o territrio do Alto Minho - para onde converge a nossa anlise e o fenmeno turstico como agente de aco. Mas neste quadro onde se posiciona a ecologia humana? Atendendo a uma das definies de Ecologia Humana, como estudo do homem em relao com outros seres humanos e ambos com o mundo natural e cultural que o rodeia, sada do Seminrio Internacional sobre Ecologia Humana, Turismo e Desenvolvimento Sustentvel, realizado em Bali em Maro de 1990, o seu posicionamento corresponde ao cenrio e/ou ambiente que esse palco (o Alto Minho) comporta.

    Num perodo em que ocorrem grandes mudanas nas formas de praticar turismo, funo dos comportamentos individuais e colectivos do turista, as tendncias da procura esto hoje canalizadas para a fruio de diversifica-dos espaos e valores naturais, para os conjuntos etno-culturais "pitorescos" e para o consumo de actividades culturais e desportivas de alto valor cria-tivo e de equilbrio psicofsico. Porque esta procura criadora de novos ambientes humanos, cada ser humano um consumidor de ambiente e de recursos naturais. Da que o turismo no possa ser considerado como uma actividade no poluente e, por conseguinte, as grandes preocupaes actuais estejam voltadas para o campo dos impactos ecolgicos do desenvolvimento turstico.

    Ao optarmos pela abordagem de duas realidades locais no Alto Minho, foi nossa inteno, por um lado, seleccionar um caso onde o turismo poder ser integrado no quadro do desenvolvimento do contexto fsico, social e econmico, ou seja, valorizar, em termos endgenos, esse local geogrfico, e, por outro lado, explicitar um outro caso onde o desenvolvimento turstico proposto no compatvel com o contexto fsico e socio-econmico da rea em questo.

    A Ecologia Humana no uma cincia madura nem to pouco pode ser considerada como pertencente s Cincias Naturais nem s Cincias Soci-ais. Para JACKSON e STEINER (1985) a Ecologia Humana uma herana de outras cincias, tais como, a Antropologia, a Geografia, a Sociologia, a

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  • Jos da Cruz Lopes

    Psicologia, a Economia, bem como a Biologia. Por isso, ela emerge hoje como uma rea de saber interdisciplinar que une os resultados tcnicos e cientficos de dois sistemas do conhecimento em constante interaco e mtua dependncia, isto , o sistema da natureza e o sistema das aces humanas.

    O contedo e explicitao deste trabalho reflecte, em grande medida, o "entrecruzamento" de informaes e realidades, tanto do contexto geogrfico como do turstico, e uma anlise relacional que faz apelo aos propsitos da Ecologia Humana. Uma inteno foi claramente assumida, a que diz respei-to ao desenvolvimento, que hoje uma questo central de qualquer poltica econmica e cultural. Todos estamos conscientes de que, em Portugal, as formas de desenvolvimento turstico tero de se submeter a outra percepo da estrutura profunda que une o ser humano natureza e obedecer a valo-res mais altos que os do mercado.

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  • Ecologia humana e turismo no Alto Minho

    Resumo

    Na regio do Noroeste de Portugal o Alto Minho caractcriza-se por uma compartimentao marcada, no essencial pela aco ocenica e pelos acidentes orogrficos da Peneda-Soajo-Amarela. Da que essa natureza do territrio imponha quadros de relaes e formas de uso do solo muito prprias e fecundas no campo do estudo das comunidades, a uma escala local e regional. Atravs da escolha de dois lugares, povoao de Amorosa, no litoral, e aldeia de Vrzea, no interior serrano, procuramos referenciar essa realidade e evidenciar as especificidades do seu quadro de vida. Com essa contextualizao podemos identificar uma ecologia humana marcada no s pelo ritmo das dinmicas biofsicas deste territrio mas antes pelas estratgias de desenvolvimento scio-cultural criado pelas sucessivas geraes humanas que a se sucederam.

    Hoje essas relaes esto numa encruzilhada. Nesses lugares foram recentemente produzidas aces humanas, eminentemente exgenas, e de onde emergem novos quadros de relaes e mudanas que urge perspectivar e avaliar. O nosso estudo problematiza essas aces, esboa preocupaes com o futuro das relaes entre o homem e o ambiente em que se move e sugere os quadros de integrao da actividade turstica mais compatvel com a paisagem (herdada e criada) que hoje rodeia esses lugares.

    Nessa cadeia de relaes entre o homem e os ecossistemas, a ecologia humana tem a o sue campo de aco e reconstroi as suas metodologias. Com base nessa realidade esta pesquisa fornece frequentes pistas e linhas de investigao para o estudo aprofundado das comunidades humanas.

    Abstract

    The Alto Minho is part of NW Portugal which is an area characterised by a very specific geographical division. This is mainly due to its proximity to the Atlantic Ocean and to some orographic forms (hills and mountains) which simultaneously determine the use of the soil and the behaviour of the local/regional communities. In order to illustrate this reality, Amorosa, on the coast, and Varzea, in the Soajo's mountains, were selected. Such environmental context helps to identify a particular human ecology which is a result not only of the flow of the biophysical dynamics but, mainly, of the social and cultural strategies generated by the successive human generations.

    Today, things are changing. Both Amorosa and Varzea have recently been submitted to human interventions, coming from the outside, and this calls for an urgent revaluation of the community's roles. The present study questions those interventions foresees situations which can determine the behaviour of the community and its surrounding environment. Moreover, it suggests forms of using natural resources which generate tourist activities and reflect the new landscape.

    The effects of the above mentioned interaction Man/natural-systems compulsory leads to new methodologies. The findings of this natural dependence are to be the base of a further study in the field of Human Ecology.

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