ECOVILAS BRASILEIRAS E INDICADORES DE … · o movimento da contracultura. Muitas das expressões...

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  • ECOVILAS BRASILEIRAS E INDICADORES DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL DO IBGE: UMA ANLISE COMPARATIVA

    GABRIELA BELLEZE1 MARCOS EDUARDO CORDEIRO BERNARDES2

    CARLOS ALBERTO MXIMO PIMENTA3 PAULO CEZAR NUNES JNIOR4

    1. Introduo

    Este artigo tem como foco o estudo de ecovilas - mais especificamente a comparao quali-quantitativa de 11 Indicadores de Desenvolvimento Sustentvel, os chamados IDS, estabelecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica). Tais indicadores foram adaptados para as ecovilas participantes, os quais consideraram as que tm se des-tacado nas iniciativas de promoo e busca do desenvolvimento sustentvel.

    As discusses acerca do desenvolvimento sustentvel no Brasil demandam cada vez mais informaes e dados robustos, uma vez que buscam encontrar caminhos e aplicaes efetivas que exeram menos presso sobre os recursos naturais e minimizem os impactos negativos do modo de produo industrial e do consumo da sociedade vigente. Essa falta de dados inspirou a criao, aplicao, validao e publicao dos IDS-IBGE, os quais tiveram incio em 2002 e, desde ento, ocorreram quatro publicaes: 2004, 2008, 2010 e 2012. Para o IBGE, a principal finalidade dos IDS possibilitar a anlise de um conjunto de indicadores capazes de apontar os diferentes aspectos do desenvolvimento sustentvel, de forma objetiva e eficientesobre a mdia da populao nacional.

    Embora os IDS tenham sido desenvolvidos para serem usados em escala nacional, neste trabalho esses indicadores sero adaptados para a realidade das ecovilas, em funo de sua robustez, alm de se configurarem como o principal conjunto de indicadores do gnero no Brasil. Para isso, tambm sero levados em considerao os principais pr--requisitos descritos por Jannuzzi (2001).

    1. Mestranda do Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade (PPG DTecS) da Univer-sidade Federal de Itajub (UNIFEI). Email: [email protected] 2. Prof Dr do Centro de Formao em Cincias Ambientais (CFCAm) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Email: [email protected] 3. Prof Dr do Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade (PPG DTecS) da Universidade Federal de Itajub (UNIFEI). Email: [email protected] 4. Prof Msc da Universidade Federal de Itajub (UNIFEI) e Doutorando em Sociologia da Universidade de Coimbra, Portugal. Email: [email protected]

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    Para considerarmos o desenvolvimento sustentvel e as prticas que as ecovilas desenvolvem, a utilizao de indicadores torna-se uma ferramenta interessante, capaz de levar informao sociedade, alm de reforar a necessidade de gerao de informaes mais novas e concretas. Os indicadores tambm so indispensveis para identificao de comportamentos e tendncias, e podem permitir o estabelecimento de comparaes entre pases e regies brasileiras, alm de identificarem a necessidade de formulao, acompanhamento e avaliao de polticas pblicas (IBGE, 2012).

    Diante do exposto, como ser possvel garantir, ento, que as ecovilas sejam ca-pazes de promover o desenvolvimento sustentvel de forma integrada sociedade em geral? Nesse nterim, temos como objetivo compreender as prticas de desenvolvimento sustentvel existentes nas ecovilas e, de forma especfica, apontar os principais desafios enfrentados diariamente por esses grupos.

    Do ponto de vista metodolgico, utilizou-se o mtodo comparativo entre os IDS--IBGE (2012), com os mesmos indicadores para as ecovilas, os quais foram calculados e adaptados nesta pesquisa. Uma ficha, composta por questes abertas e fechadas, foi utilizada como instrumento de coleta de dados para 52 ecovilas. Dessa base, foram obti-das respostas de 32 ecovilas com diferentes graus de detalhamento. Tanto a metodologia quanto os resultados encontrados sero apresentados com mais detalhamento nas sees seguintes.

    O texto est estruturado em trs momentos que visam dar maior sentido s pre-tenses aqui consignadas: uma breve teorizao sobre as ecovilas e o desenvolvimento sustentvel; o universo emprico do estudo e as descobertas entre o IBGE e as ecovilas.

    2. A pertinncia do desenvolvimento sustentvel e as ecovilas

    A percepo da necessidade de desenvolvimento de modos de vida mais sustent-veis e responsveis de maneira que possamos lidar melhor com os desafios relacionados sobrevivncia humana no planeta tem crescido na sociedade. Exemplos como crises climticas, o uso o e compartilhamento de recursos naturais, alimentos, moradia, sade, transporte, consumo e educao j so, infelizmente, corriqueiros. Sendo assim, quais seriam as iniciativas prioritrias? Como implement-las? Como saber quais seriam as melhores solues para esses desafios?

    Cabe destacar aqui o conceito de desenvolvimento sustentvel de Sachs (2009), o qual adiciona a questo ambiental perspectiva humana. Para o autor, esse tipo de desen-volvimento pode ser alcanado a partir do aproveitamento dos sistemas tradicionais de gesto dos recursos, e tambm da organizao de um processo participativo de identificao das necessidades locais, exigindo a presena de facilitadores que possam negociar com todos os atores envolvidos. Ou seja, a populao local e as autoridades, subsidiadas por cientistas, associaes civis, agentes econmicos pblicos e privados definem o conceito de desenvolvimento como ao poltica.

    As ecovilas podem ser consideradas um espao de possibilidades sustentveis. So comunidades intencionais e sustentveis as quais podem ser provenientes de uma reao

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    ao sistema constitudo, em que o grupo idealizador se rene voluntariamente, ou seja, de maneira intencional. Alm disso, as ecovilas buscam aplicar prticas integradas ao meio ambiente as quais estimulem o uso de recursos de forma sustentvel (ROYSEN, 2013).

    A partir do princpio de que nenhuma atividade humana existe sem causar impacto econmico, ambiental, social, cultural, poltico, subjetivo ou simblico, deve-se incor-porar a ideia de reduo dos impactos negativos e maximizao dos impactos positivos. Nessas comunidades, h uma valorizao de estilos de vida alternativos aos corporativos tradicionais e tambm s produes de alimentos, produtos e bens em larga escala. Isso ocorre em funo da busca dessas comunidades pela incorporao de questes ticas, ambientais, sociais e culturais, as quais so normalmente consideradas pelo pensamento econmico clssico dominante como externalidades.

    O surgimento dessas comunidades se deu por volta da dcada de 1960, durante o movimento da contracultura. Muitas das expresses de rebeldia da poca eram mani-festadas atravs de movimentos opositores ao estilo de vida proposto pelo consumismo. Nesses casos, a contestao era uma forma de protesto, de experimentao e de busca por um novo rumo. Isso era possvel por meio de uma maior aproximao da natureza como forma de retorno essncia do homem, da qual havia sido afastado pela distncia imposta pela artificialidade tecnolgica, urbana e industrial. Nesse sentido, a busca por outras formas de se alimentar, vestir, curar e morar fez surgir diversas prticas, nas quais a inovao permitia uma forma mais criativa de viver em comunidade, de forma aut-noma, mais integrada ao ambiente e s pessoas. Esse novo estilo de vida se construa por meio da improvisao e do afastamento desses grupos dos espaos urbanos, para ento se unirem s chamadas comunidades alternativas, em prol de um mundo melhor no qual seus adeptos acreditavam (SANTOS Jr, 2006).

    Svensson (2002), a respeito da ideia permaculturali, observa que as ecovilas esto organizadas a partir do entendimento de que as coisas e os seres esto conectados, de forma que seu cotidiano entrelace os aspectos sociais, econmicos, culturais, espirituais e ambientais. No aspecto comunitrio, so percebidas relaes e trocas entre os membros, processos de tomada de deciso e gesto de conflitos, prticas alternativas de sade, formas significativas de trabalho, educao permanente, expresses culturais e respeito s diferenas. O aspecto econmico, por sua vez, formado pela gerao de renda local baseada na simplicidade voluntria, com negcios verdes, consultorias, cursos e moedas alternativas.

    A dimenso cultural e espiritual das ecovilas enfatiza a sensao de felicidade e a sensibilidade ao pertencimento de cada um para o todo por meio de celebraes, rituais, festas, expresses artsticas, respeito s diversas manifestaes de espiritualidade e de tradies culturais, viso holstica e crescimento pessoal (ROYSEN, 2013).

    Mundialmente, indicadores direcionados ao desenvolvimento sustentvel vm sendo aplicados. Um exemplo disso o ndice para uma Vida Melhor (Better Life Index), o qual engloba 11 quesitos relacionados ao bem-estar, a saber: moradia, renda, trabalho, comunidade, educao, meio ambiente, engajamento cvico, sade, satisfao pessoal, segurana e equilbrio entre vida particular e trabalho (AKATU, 2014). Trinta e quatro (34) pases da Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE),

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    fazem parte desse ndice, sendo que o Brasil ainda no um membro da organizao, mas est na lista de pases candidatos adeso. Com o tempo, a ideia expandir o ndice e englobar cada vez mais pases (OECD Better Life Index, 2014).

    Entre os vrios indicadores relacionados ao desenvolvimento sustentvel, os pon-tos fracos e fortes de alguns deles so analisados por diversos autores como van Bellen (2004), Siche et al. (2007) e Guimares e Feichas (2009).- uma vez que existem dificul-dades para a anlise dos aspectos e mtricas que cada um deles contm. Para a ONU, o desenvolvimento sustentvel multidimensional e para Sachs (2009), o desenvolvimento sustentvel um desafio planetrio.

    3. O universo emprico do estudo

    Os IDS IBGE (2012) so compostos de 62 indicadores, os quais abrangem qua-tro dimenses: ambiental, social, econmica e institucional. Como forma de valorizao dos IDS, na ausncia de outros indicadores de desenvolvimento sustentvel em mbito nacional, foram selecionados 11 indicadores que podem ser adaptados realidade das ecovilas. Os demais no foram selecionados em funo da dificuldade de obteno dos dados necessrios para os clculos ou por considerarem aspectos no aplicveis s ecovilas, como os industriais e os macroeconmicos, como exemplo os indicadores de Consumo Industrial de Substncias Destruidoras da Camada de Oznio, ndice de Gini da Distribuio do Rendimento e Balana Comercial. O indicador Consumo Mineral per capita, por exemplo, no foi selecionado, pois necessita das seguintes variveis: produo beneficiada (primria e secundria) das principais substncias minerais e volumes importados e exportados de mercadorias a elas associadas as quais so de difcil mensurao e obteno, no sendo, portanto, adaptveis ao cotidiano dos ecovileiros. Assim, dos 11 indicadores selecionados, cinco contemplam a dimenso ambiental, quatro a dimenso social e dois a dimenso econmica (Quadro I).

    Nenhum dos indicadores de dimenso institucional foi selecionado para esta pesquisa. Os indicadores Ratificao de Acordos Globais e Gastos com Pesquisa e Desen-volvimento (P&D), por exemplo, no so compatveis com o dia-a-dia das ecovilas. Por outro lado, essa dimenso foi abordada na ficha de coleta de dados aplicada, sem, no entanto, permitir uma comparao entre os dados obtidos neste trabalho e os indicadores institucionais do IBGE.

    Um levantamento de dados a respeito das tomadas de deciso, governana e aquisio e distribuio de recursos praticada dentro das ecovilas foi realizado como al-ternativa falta de indicadores de dimenso institucional adaptveis s ecovilas. Nesse instrumento, tambm foram abordados os principais entraves e oportunidades para que as comunidades das ecovilas consigam aplicar o conceito de desenvolvimento sustentvel. Tambm foi feito um levantamento da aderncia dos grupos definio de ecovila, como se define neste trabalho.

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    Quadro I: Indicadores de desenvolvimento sustentvel selecionados para aplicao em ecovilas.

    Indicadores selecionados do IBGE

    Descrio do Indicador Dimenso

    1 Uso de fertilizantesO indicador expressa a intensidade de uso de

    fertilizantes nas reas cultivadas de um territrio, em determinado perodo.

    Ambiental

    2 Uso de agrotxicosO indicador expressa a intensidade de uso de

    agrotxicos nas reas cultivadas de um territrio, em determinado perodo.

    Ambiental

    3Terras em uso

    agrossilvipastoril

    O indicador apresenta a proporo de terras imediatamente disponveis para a produo agrcola, a pecuria, a silvicultura e aquelas

    que foram degradadas por essas atividades, em determinado territrio.

    Ambiental

    4Queimadas e incndios

    florestais

    O indicador expressa a quantidade anual de queimadas e de incndios florestais ocorridos em

    determinado territrio.Ambiental

    5 Destinao final do lixoO indicador expressa a capacidade de se dar uma

    destinao final adequada ao lixo coletado.Ambiental

    6Doenas relacionadas ao saneamento ambiental

    inadequado

    O indicador representa as internaes hospitalares decorrentes de doenas relacionadas ao

    saneamento ambiental inadequado (DRSAI).Social

    7 Taxa de alfabetizaoO indicador mede o grau de alfabetizao da

    populao de 15 anos ou mais de idade.Social

    8 Adequao de moradiaO indicador expressa as condies de moradia pela proporo de domiclios com condies mnimas de

    habitabilidade.Social

    9Coeficiente de

    mortalidade por acidentes de transporte

    O indicador expressa a quantidade de bitos em consequncia de acidentes de transporte.

    Social

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    10Consumo de energia per

    capita

    O indicador expressa o consumo final anual de energia por habitante em um determinado

    territrio.Econmica

    11Participao de fontes renovveis na oferta de

    energia

    O indicador expressa a participao das fontes renovveis na oferta total interna de energia.

    Econmica

    Tais indicadores foram aplicados e calculados para a realidade das ecovilas, de acordo com a metodologia de clculo do IBGE. A ficha de coleta de dados foi utilizada para obteno das informaes gerais e especficas das ecovilas as quais se tornaram variveis necessrias para a efetivao dos clculos. A informao obtida na pergunta Quantos moradores fixos a ecovila possui?, contida na ficha, por exemplo, a varivel populao total residente. Dessa forma, o indicador Doenas relacionadas ao saneamento ambiental inadequado utiliza como variveis o nmero de internaes hospitalares ocor-ridas em decorrncia de doenas relacionadas ao saneamento ambiental inadequado e populao total residente. O clculo , ento, realizado pela razo entre o nmero de internaes hospitalares e a populao residenteii.

    A ficha de coleta de dados adotada neste trabalho do tipo autopreenchida, uma vez que foi respondida diretamente pelos participantes da pesquisa, virtualmente, sem a presena de um entrevistador, com perguntas abertas e/ou fechadas. Essa ficha foi elabo-rada na ferramenta virtual Google Docs, a qual permite acesso atravs de um link, que foi enviado para 52 ecovilas, via e-mail, redes sociais, sites, blogs e at mesmo contato via telefone, em alguns casos. A ferramenta de busca entre os cadastrados no site da GEN (Global Ecovillage Network) apresenta 29 ecovilas brasileiras, as quais foram todas contempladas pelo envio da ficha de coleta de dados.

    4. Resultados e Discusses

    Das 52 fichas de coleta de dados enviadas, 32 ecovilas e comunidades alter-nativas estabeleceram algum tipo de contato, como, por exemplo, informando que a comunidade estava em construo e que, portanto, no possua dados suficientes para responder a ficha de maneira efetiva; avisando que no havia interesse em participar da pesquisa, ou mesmo respondendo-a de fato: esses retornos correspondem a 62% das fichas enviadas. Os 20 contatos restantes que somam 38% das fichas enviadas - no deram nenhum retorno, no sendo assim possvel saber se realmente as fichas foram recebidas.

    No que diz respeito s 32 ecovilas e comunidades alternativas que estabeleceram contato, seis delas informaram estar em fase de construo, e que, portanto, no possuam dados suficientes para responder a ficha; 19 responderam a ficha (sendo apenas 6 ecovilas cadastradas na GEN) e 7 negaram a participao na pesquisa (sendo 2 ecovilas cadastradas na GEN). Das respostas negadas, houve casos em que simplesmente no havia interesse

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    em contribuir com a pesquisa, e outros em que no seria possvel responder devido a viagens ou trabalhos paralelos dos responsveis pelo envio das informaes.

    Com base no exposto, apresentamos o Grfico I, o qual mostra a diferenciao de localizao das ecovilas por regies brasileiras das 19 respondentes.

    Grfico I: Localizao geogrfica das ecovilas participantes da pesquisa.

    Algumas comunidades participantes do estudo no se identificaram totalmente com a definio de ecovila apresentada por Roysen (2013, p. 13), no que diz respeito ao ques-tionamento sobre o grupo se reconhecer como uma ecovila: As ecovilas so comunidades intencionais sustentveis, isto , so grupos de pessoas que se unem para criar um estilo de vida de baixo impacto ambiental e relaes interpessoais mais cooperativas e solidrias. A partir dessa definio, 15 grupos responderam que sim; trs responderam que no e um grupo respondeu no sei, fazendo com que os resultados apresentados neste trabalho se estendam para comunidades alternativas em geral.

    4.1 Entre o IBGE e as Ecovilas

    Nesta seo, sero apresentados na Tabela I os resultados dos 11 IDS calculados para a realidade das ecovilas e comunidades alternativas, baseados nas 19 respostas recebidas. A Tabela I apresenta, de maneira resumida, os resultados da comparao entre os indicadores calculados para as ecovilas e os IDS-IBGE (2012), mostrando que

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    as comunidades estudadas tiveram um caminho para desenvolvimento sustentvel com melhores resultados do que a mdia nacional.

    Tabela I: Tabela final com os resultados sobre o desempenho das comunidades em estudo em relao aos IDS-IBGE (2012).

    IndicadorDimenso

    Desempenho

    IBGE Ecovilas

    Uso de fertilizantes Ambiental Consumo de 150 kg/ha (2010)No utilizam fertilizantes

    sintticos

    Uso de agrotxicos Ambiental3,6 kg/ha de ingrediente ativo

    (2009)No utilizam agrotxicos

    Terras em uso agrossilvipastoril

    AmbientalPrincipal uso pastagem; alto

    impacto (2006)Principais usos de baixo impacto

    Queimadas e incndios florestais

    Ambiental60.000 ocorrncias de foco de calor

    (2011)1 ocorrncia

    Destinao final do lixo Ambiental67% do lixo coletado recebe destinao adequada (2008)

    100% do lixo coletado recebe destinao adequada

    Doenas relacionadas ao saneamento ambiental

    inadequadoSocial

    325 internaes hospitalares a cada 100.000 habitantes (2010)

    Nenhuma ocorrncia

    Taxa de alfabetizao Social90% da populao brasileira acima de 15 anos alfabetizada (2009)

    100% dos moradores acima de 15 anos so alfabetizados

    Adequao de moradia Social58% dos domiclios so considerados

    adequados (2009)70% dos domiclios so considerados adequados

    Coeficiente de mortalidade por acidentes

    de transporteSocial 2.000.000 acidentes por ano (2009) Nenhuma ocorrncia

    Consumo de energia per capita

    Econmica 50 GJ por habitante (2010) Entre 0,77 e 9,0 GJ

    Participao de fontes renovveis na oferta de

    energiaEconmica 45% (2010) -

    Dos 11 indicadores selecionados, em seis deles no houve a necessidade de clcu-lo, pois todas as respostas foram unnimes para a melhor situao possvel do indicador. Desses seis indicadores, trs fazem parte da dimenso ambiental e trs da dimenso social, respectivamente: Uso de Fertilizantes; Uso de Agrotxicos; Destinao Final de Lixo; Doenas relacionadas ao saneamento ambiental inadequado; Taxa de Alfabetizao; Coeficiente de mortalidade por acidentes de transporte. Nenhuma ecovila ou comunidade alternativa

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    declarou fazer uso direto de fertilizantes sintticos ou agrotxicos. Todas se enquadra-ram na situao adequada de destinao final do lixo proposta pelo IBGE, sendo que os resduos so tratados, na maioria dos casos, por responsabilidade prpria da comunidade (14) e, em alguns casos, pelo municpio ou pela concessionria de servio local (cinco).

    Em relao aos trs indicadores da dimenso social, nenhuma das ecovilas e co-munidades alternativas declarou a existncia de casos de doenas relacionadas ao sane-amento ambiental inadequado. Todos os moradores acima de 15 anos so alfabetizados e no houve ocorrncia de acidentes de transporte por responsabilidade dos moradores ou que envolveram qualquer morador das ecovilas e comunidades alternativas respondentes. No caso da alfabetizao, no foi possvel discriminar se o bom desempenho se deu por responsabilidade das comunidades ou pelas escolas locais de servio pblico ou particular.

    O clculo do indicador Terras em Uso Agrossilvipastoril, da dimenso ambiental, apresenta uma proporo de 13% de terras de uso agrossilvipastoril para as ecovilas e comunidades alternativas. J o IBGE apresenta uma proporo desse indicador de apro-ximadamente 26% para o Brasil em 2006. Os usos da terra das comunidades em estudo so feitos por meio de hortas orgnicas, agroflorestas e da criao de poucos animais - o principal uso brasileiro, por sua vez, a pastagem plantada, seguida da pastagem natural e lavouras temporrias e permanentes (IBGE, 2012).

    Para o indicador Queimadas e Incndios Florestais, da dimenso ambiental, houve apenas uma comunidade que relatou uma queimada criminosa em suas terras, a qual atingiu 4,5 hectares, aproximadamente. A porcentagem de ocorrncia de focos de calor entre os grupos estudados , portanto, de 5%.

    De maneira geral, com relao dimenso ambiental, pode-se dizer: a) sobre o uso de fertilizantes sintticos, que o Brasil consome cerca de 150 quilos por hectare de rea plantada e que as comunidades estudadas declararam no utilizar fertilizantes sin-tticos; b) o Brasil o principal consumidor de agrotxicos no cenrio mundial e que as comunidades em estudo no utilizam agrotxicos em suas plantaes; c) sobre o uso de terras agrossilvipastoris, que o principal uso no Brasil de pastagens, as quais degradam o solo e comprometem o uso de recursos j nas ecovilas e comunidades alternativas, o uso de terras dado por produes orgnicas e de baixo impacto ambiental, alm de grande parte das comunidades serem adeptas do vegetarianismo; d) sobre as queimadas e incndios florestais no Brasil, que foram registradas cerca de 60.000 ocorrncias de foco de calor em 2011, ao passo que nas comunidades estudadas houve apenas um caso, o qual foi considerado uma queimada criminosa; e) que no Brasil, 67% (em 2008) do lixo coletado recebe destinao adequada, sem degradao do meio ambiente e sem comprometer a sade humana; j nas ecovilas e comunidades alternativas, 100% do lixo gerado descartado de maneira adequada.

    Vale lembrar que a aplicao de fertilizantes sintticos e agrotxicos considerados nesta pesquisa, refere-se ao uso e ao consumo direto desses produtos. certo que, de maneira indireta, as ecovilas e comunidades alternativas consomem tais substncias, uma vez que esses grupos no so totalmente autossustentveis em suas prticas cotidianas, como na produo de seus alimentos, na obteno de roupas, medicamentos, artigos de higiene e no uso de automveis movidos a combustveis convencionais.

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    236 Belleze, Bernardes, Pimenta e Nunes Jnior

    Em relao ao indicador Adequao de Moradia, da dimenso social, trs comu-nidades apresentaram 27 domiclios considerados inadequados de acordo com os requi-sitos do IBGE os quais representam 30% dos domiclios das comunidades em estudo. Desses, um foi enquadrado como inadequado por fazer uso da tcnica de biodigestor anaerbio como esgotamento sanitrio, a qual no consta na lista do IBGE; e as outras duas comunidades que no se enquadraram, apresentaram trs moradores por dormi-trio. Os outros 64 domiclios foram considerados adequados por contemplarem todos os requisitos do IBGE, representando 70% dos domiclios das ecovilas e comunidades alternativas consultadas.

    Esse caso nos permite discutir a subjetividade da aplicao desses indicadores do IBGE na realidade das ecovilas. A tcnica de biodigestor anaerbio tambm pode ser entendida como um tratamento sanitrio adequado, caso seja feita por meio de tcnicas construtivas de baixo impacto. Porm, com base no enquadramento dos requisitos do IBGE e replicao desse indicador, ela foi considerada inadequada.

    Dessa forma, no que diz respeito dimenso social, pode-se observar que no Brasil ocorrem 325 internaes hospitalares decorrentes de doenas relacionadas ao saneamento ambiental inadequado a cada 100.000 habitantes, enquanto nenhum caso foi registrado nas comunidades em estudo.

    A taxa de alfabetizao no Brasil atinge cerca de 90% da populao, enquanto nas ecovilas e comunidades alternativas todos os moradores acima de 15 anos so alfabetizados. Ainda, no Brasil, aproximadamente 58% dos domiclios so considerados adequados j nas comunidades esse ndice chega a 70%. Em relao ao coeficiente de mortalidade por acidentes de transporte, so registrados no pas cerca de 2.000.000 por ano (IBGE, 2012), e nas comunidades estudadas nenhum caso foi registrado.

    No indicador de dimenso econmica Consumo de energia per capita, apenas seis comunidades descreveram os dados de forma a viabilizar os clculos, apresentando va-lores entre 214 KWh e 2.400 KWh para o consumo de energia per capita. Esses dados revelam valores muito abaixo dos apresentados para a populao brasileira pelo IBGE (14.700 kWh, em mdia).

    Para o indicador Participao de fonte renovveis na oferta de energia, da dimenso econmica, os dados obtidos no foram suficientes para calcular a porcentagem de uso da energia renovvel - uma vez que a mensurao desse tipo de energia dificultada quando as tcnicas de implantao utilizadas so de carter emprico e informal. Os tipos de energia renovvel utilizados pelas comunidades so obtidos, principalmente, a partir da lenha e da energia solar, alm de rodas dgua mecnica para bombeamento de gua e do biodigestor que fornece metano para os processos de aquecimento. Sobre as comunidades que forneceram informaes a respeito das ofertas de energia, apenas trs delas utilizam somente energia de fontes renovveis. Cinco no produzem energia, utilizando apenas as fontes convencionais no renovveis e as cinco restantes utilizam as duas formas de energia.

    No que tange a dimenso econmica, pode-se observar que o consumo de energia per capita no Brasil atinge valores da ordem de 50 GJ por habitante, enquanto nas ecovilas e comunidades alternativas os valores no passaram de 9 GJ por habitante. Em relao

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    237Ecovilas brasileiras e indicadores de desenvolvimento sustentvel do IBGE

    ao ltimo indicador Participao de fontes renovveis na oferta de energia, no foi possvel estabelecer uma comparao por falta de dados consistentes para o clculo necessrio. Porm, ficou evidente a busca das comunidades para que sejam implementadas novas formas de produo de energia.

    A partir dessas anlises, possvel observar que as comunidades estudadas em comparao populao brasileira, apresentam melhores desempenhos em todos os IDS discutidos e apresentados - com exceo do indicador de participao de fontes renovveis de energia, o qual no pde ser calculado devido falta de dados precisos nas fichas em que foram respondidas.

    vlido ressaltar que, em alguns indicadores, houve insuficincia de dados claros e respostas concisas, as quais poderiam ter contribudo sobremaneira para a pesquisa em questo caso tivessem sido cedidas da maneira esperada.

    Essa falta de conciso entre as informaes parece refletir em um distanciamento entre a implementao das tecnologias socioambientais aplicadas nas comunidades em questo e a disciplina cientfica de numerar, explicar e modelar os conhecimentos que se estabelecem entre as mais diversas reas na sociedade. Mesmo que certos registros numricos no ocorram com periodicidade e consistncia nas ecovilas e comunidades alternativas, pode-se afirmar que as prticas e aes desenvolvidas por elas vem gerando bons resultados na busca pelo desenvolvimento sustentvel, mostrando a integrao de suas aes, como foi dito por Svensson (2002).

    4.2 Relatos e revelaes: as ecovilas

    Na ficha de coleta de dados, foi feita uma pergunta a respeito das tcnicas de construo utilizadas nas comunidades em estudo. Todas as comunidades utilizam algum tipo de tcnica de baixo impacto ambiental como bioconstruo e utilizao de tijolos ecolgicos, materiais reutilizados (pneus, borrachas, garrafas, pallets, etc.) e madeira certificada. Algumas comunidades tambm declararam utilizar as tcnicas convencionais de construo (47%), embora ainda exista uma preocupao com as tcnicas de baixo impacto em todas as comunidades.

    No questionamento acerca do modo de governana da comunidade, 48% dos respondentes realizam assembleias nas quais todos os membros participam, opinam e tomam as decises em conjunto. Tambm houve um destaque no processo decisrio no qual um grupo ou pessoa escolhida pela comunidade realiza os processos de tomada de deciso (26%). Alm disso, outras formas de governana foram citadas como o uso de gesto colaborativa e a considerao da opinio dos moradores mais experientes.

    A respeito da arrecadao dos recursos financeiros das comunidades, observou-se que a maioria delas presta servios como o oferecimento de cursos, eventos e atividades de turismo na comunidade, realizao de projetos socioambientais e venda de produtos cultivados e produzidos na prpria comunidade (48%). Alm disso, grande parte das comunidades tambm tem um financiamento particular, por meio de contribuies voluntrias dos moradores ou at mesmo atravs de mensalidades (21%). Algumas co-munidades utilizam o financiamento particular como complemento do que arrecadado

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    pela prestao de servios (26%), e outra parte recebe recursos de doaes de visitantes e pessoas que acreditam nos projetos que a comunidade realiza (5%).

    Na maioria dos casos, os recursos arrecadados so destinados manuteno das atividades cotidianas da prpria comunidade, ao pagamento de contas e cobertura dos gastos com cursos e vivncias, alm de investimentos em projetos em andamento ou ainda em planejamento na comunidade - como o incio da produo de energia renovvel, por exemplo (47%). Os recursos tambm so divididos entre os moradores: em alguns casos, quando existem excedentes aps a quitao de todas as despesas da comunidade (11%) e, em outros (26%), quando so divididos entre os moradores a partir diferentes critrios, como por exemplo, de acordo com o envolvimento e mrito de cada um. Alm dessas, outras formas (16%) ainda foram citadas como o reembolso do investimento inicial na compra da terra para os moradores que contriburam para essa iniciativa.

    O ltimo questionamento foi em relao aos principais desafios enfrentados na manuteno da sustentabilidade na comunidade. As respostas foram classificadas em trs dimenses que englobassem o contedo discutido: dimenso econmica (42%); dimenso social/cultural (42%); e dimenso social/ambiental (16%). A seguir sero apresentadas algumas respostas utilizadas na classificao dessas dimenses, por meio da meno a alguns trechos literais recolhidos nas fichas:

    Dimenso Econmica: 1) Criar um projeto economicamente vivel comum. Ainda estamos buscando o sustento

    de forma fragmentada, com diversas frentes de atuao, muitas vezes sem a coeso necessria a uma sustentabilidade integral.

    2) Acesso. Estrada muito ruim. No mantida pela prefeitura. Inviabiliza a recepo de grupos com carros de passeio.

    Dimenso Social/Cultural:1) No nosso caso, acredito ser a falta de mais interessados, para que possamos distribuir

    melhor as atribuies e encaminhar mais projetos.2) Os brasileiros pensarem no coletivo e assumirem responsabilidades!3) Organizao das pessoas, do trabalho e das trocas.

    Dimenso Social/Ambiental:1) Estudar o melhor jeito de resolver as melhores solues para tanto lixo, tanta porcaria

    que a gente come, ir at o fim para melhorar nosso planeta, a gente tem muito desperdcio e vai fazendo as coisas no automtico, parar e refletir o que ns estamos fazendo com o planeta acho que a coisa mais difcil.

    2) que cada um se responsabilize pelo que gera no universo.

    possvel observar que a maioria das comunidades declarou enfrentar desafios nas dimenses econmica e social/cultural. Isso pode ser visto como um processo natural, uma vez que as pessoas que frequentam as ecovilas e comunidades alternativas j vm de movimentos ambientalistas. Esses frequentadores esto em busca de prticas de cons-

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    truo, de relao com o alimento, de menor gerao de resduos, e tambm de gerao de energia diferentes das convencionais, . Esses so vieses clssicos da procura de quem quer se relacionar de uma maneira diferente com o meio ambiente; como foi discutido em relao ao surgimento histrico desses grupos que buscaram maior aproximao e respeito pela natureza (SANTOS Jr, 2006).

    J a dimenso social/cultural enfatiza a dificuldade de adeso de outras pessoas a esses movimentos e da responsabilizao por suas aes cotidianas. Ou seja, muitos traba-lham pela melhoria da dinmica sustentvel da sociedade e at mesmo se juntam a essas comunidades com compromisso e envolvimento, o que demonstra, em alguns casos, o isolamento desses grupos, evidenciado pela manuteno das zonas de conforto e do status quo da sociedade em geral em relao falta de conhecimento sobre o que vem sendo exercitado, aprendido, avanado e praticado nas ecovilas e comunidades alternativas. Os desafios da dimenso econmica esto relacionados com a arrecadao financeira das comunidades e com sua gesto financeira, aparecendo com mais fora nas comunidades mais novas, mas tambm perdurando em algumas comunidades mais antigas.

    Como mencionado anteriormente, tais comunidades buscam conectar os aspectos que tangem seu cotidiano. Isso ocorre no s pelas tcnicas e preocupaes ambientais que vo sendo aprimoradas, mas tambm pelo aspecto comunitrio, no qual se destacam as relaes e trocas entre os membros, processos de tomada de deciso e gesto de conflitos, prticas alternativas de sade, formas significativas de trabalho, educao permanente, expresses culturais e respeito s diferenas (SVENSSON, 2002).

    importante observar o quo distante as aplicaes das ecovilas e comunidades alternativas esto da sociedade em geral, o que as coloca em posio de isolamento. Ge-ograficamente, as ecovilas j esto distantes dos centros urbanos e das propostas de vida das pessoas que compem os estilos praticados nas cidades (SANTOS Jr, 2006). Dessa forma, as ecovilas tem demonstrado um timo desempenho em relao sustentabilidade e podem incorporar cada vez mais outros hbitos no seu cotidiano, replicando em suas prprias vidas os saberes e atitudes sustentveis que os ecovileiros desenvolvem, sem que a sociedade tenha contato com suas atividades.

    5. Consideraes finais

    Dentro do problema e dos objetivos propostos, as ecovilas e comunidades alterna-tivas apresentaram condies diferenciadas de modo de vida coletiva quando comparadas populao brasileira por meio dos IDS-IBGE (2012).

    A organizao econmica, poltica e sociocultural de uma ecovila estabelecida dentro de um campo de foras baseado na lgica das relaes humanas atuais. Apesar disso, no se pode ignorar que as comunidades, em suas caractersticas, essncia e pers-pectivas, possuem prticas e aes que lhe permitam se desenvolver de forma sustentvel. No entanto, existe, pelo prprio modo de insero dos ecovileiros, um afastamento da sociedade em geral, tanto geogrfico como conceitual.

    O apelo das ecovilas constitui um fazer poltico com certa alternatividade, mas por ser um movimento isolado em si mesmo, com pouca troca de experincia, no esta-

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    belece um campo significativo de influncia econmica e sociocultural. Nesse contexto, empresta-se de Sachs (2008) a ideia de que no basta somente influir como alternativa ou contraposio, o movimento poltico, de escolhas coletivas que interferem no papel do Estado, do poder local e incide na concepo de desenvolvimento. Aparentemente, porm, as ecovilas parecem no ter a pretenso de assumir tal papel.

    Os desafios de uma ecovila esto intimamente relacionados preservao do desen-volvimento sustentvel no seu dia a dia, fato que implica o enfrentamento das dimenses econmica e sociocultural. Por outro lado, a dimenso socioambiental mais eficaz. A partir dessa perspectiva, acredita-se que os ecovileiros tm como base os movimentos ambientalistas, iniciados na poca da contracultura.

    Ainda, ressalta-se que os resultados coletados apontam que as ecovilas apresentam um desempenho superior aos descritos pelo IBGE, em decorrncia da anlise comparativa dos indicadores. Dada a diversidade e a heterogeneidade da populao brasileira, esse resultado deve ser explorado mais detalhadamente em trabalhos futuros, assim como a eventual possibilidade de desagregao dos IDS-IBGE para o aprofundamento no uso desses indicadores em contextos particulares. No que diz respeito sistematizao dos dados, evidente que os desafios a serem superados e aprimorados esto no campo das demandas sociais e econmicas presentes no cotidiano desses aglomerados.

    inegvel que os desafios que as ecovilas escolheram enfrentar so importantes para o entendimento de que a vida nessas comunidades no feita apenas de sintonias e acertos. Essas comunidades esto em busca constante por melhores hbitos e prticas, as quais com o passar do tempo podem gerar resultados e aes passveis de incorporao pela sociedade em geral, mas que no sero isentas de impactos negativos e de consumo de produtos e substncias nocivas ao ambiente.

    Registra-se que a comparao aqui realizada corrobora a ideia de que as ecovilas possuem algumas respostas para os problemas ambientais e sociais desencadeados pela aglomerao humana e pelos modos de produo industrial. Do ponto de vista socio-ambiental e econmico, pode-se dizer que esto em constante aprimoramento e ainda procura de prticas que resultem na autossuficincia de seus grupos.

    As prticas dessas comunidades so realizadas de forma emprica e artesanal, dife-rente dos modos corporativos de desenvolvimento implicados nas sociedades e organiza-es tecnolgicas. Esse aspecto revela a subjetividade intrnseca ao uso de indicadores e modelos para retratao da realidade ecovileira, como foi observado no caso do indicador Adequao de Moradia, o qual mostra que uma adaptao mais profunda desses indicadores para as comunidades em estudo - , e at mesmo a elaborao de outros indicadores que abordem outros assuntos seria interessante.

    Sendo assim, outras entradas de produo de conhecimento podem ser ana-lisadas, no sentido de buscar uma efetivao da realidade das ecovilas de maneira a torna-las verificveis, inclusive em cenrios futuros de certificao de prticas, por exemplo. Contudo, deixa-se registrado que o isolamento dos saberes e das experi-ncias geradas pelas ecovilas, em que a ausncia de comunicao mtua fortalece o desconhecimento de suas prticas para a populao em geral, ficou evidenciado. Sendo assim, pode-se dizer que as ecovilas e as comunidades alternativas ainda no

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    exercem influncia impactante sobre as dimenses socioculturais e socioambientais na sociedade convencional.

    Notas

    i O conceito da permacultura est relacionado ao desenvolvimento de pequenos sistemas produtivos organicamente integrados, partindo de seu princpio fundamental que o respeito pela natureza e a reproduo de seus ciclos nas aes e criaes do dia a dia (IPEMA, 2012).ii O detalhamento das variveis de cada indicador, bem como o clculo realizado, pode ser conferido no documento institucional dos IDS-IBGE (2012), disponvel em: ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursos_naturais/indicadores_desenvolvimento_sustentavel/2012/ids2012.pdf.

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    Submetido em: 19/06/2015Aceito em: 06/05/2016http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422ASOC20150164R2V2012017

  • Resumo: As ecovilas tm se destacado entre as iniciativas que promovem o desenvol-vimento sustentvel no mundo contemporneo. No entanto, pouco se sabe sobre a sua efetividade nos contextos econmico, social, ambiental e institucional, em relao so-ciedade em geral. O presente estudo comparou quali-quantitativamente 11 Indicadores de Desenvolvimento Sustentvel (IDS) do IBGE no pas atravs dos respectivos dados obtidos para as ecovilas participantes. Desses indicadores, cinco foram relacionados dimenso ambiental; outros quatro, dimenso social; e dois, dimenso econmica. Fichas de coleta contendo questes abertas e fechadas, com 32 respostas distribudas em diferentes graus de detalhamento, foram enviadas a 52 ecovilas. Os resultados sugerem que as ecovilas apresentam um desempenho superior aos descritos pelo IBGE, para a populao brasileira como um todo, em todos os indicadores analisados. Porm, ainda h desafios a serem superados, tais como a dificuldade desses grupos em lidar com aspectos sociais e econmicos.

    Palavras-chave: Comunidades intencionais; Comunidades alternativas; IDS-IBGE.

    Abstract: Ecovillages have outstanded among sustainable development initiatives in the contemporary world. However, little is known about their effectiveness on economic, social, environmental, institutional contexts, among others, in relation to the society as a whole. This study compared quali-quantitatively 11 national Sustainable Development Indicators proposed by the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE) against the respec-tive data of ecovillages which took part of the experiment. Amid the indicators, five were related to the environment dimension, whereas four and two others concerned social and economic aspects, respectively. Questionnaires, with both open and closed questions, were sent out to 52 ecovillages. In total, 32 ecovillages joined the study with replies of different levels of detail. Overall, results suggest ecovillages performed better than IBGE results, which take into account the average national results. On the other hand, there are several hurdles to be overcome, such as difficulties in dealing with social and economic aspects.

    ECOVILAS BRASILEIRAS E INDICADORES DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL DO IBGE: UMA ANLISE COMPARATIVA

    GABRIELA BELLEZE MARCOS EDUARDO CORDEIRO BERNARDES

    CARLOS ALBERTO MXIMO PIMENTA PAULO CEZAR NUNES JNIOR

  • Keyword: Intentional communities; Alternative communities; IDS-IBGE.

    Resumen: Las ecoaldeas han destacado entre las iniciativas que promueven lo desarrollo sostenible en el mundo contemporneo. Sin embargo, poco se sabe acerca de su efectividad en los contextos econmicos, sociales, ambientales e institucionales, en relacin a la sociedad en general. El presente estudio compara, en aspectos cualitativos y cuantitativos, los 11 Indicadores de Desarrollo Sostenible del IBGE con los datos respectivos para las ecoaldeas participantes. De ellos, cinco estaban relacionados con las preocupaciones ambientales; otros cuatro con la dimensin social y dos con la dimensin econmica. Se utilizaron for-mularios, con preguntas abiertas y cerradas a 52 ecoaldeas, con 32 respuestas en distintos grados de detalle. Los resultados sugieren que las ecoaldeas superan a los descritos por IBGE, para la poblacin como un todo, en todos los indicadores analizados. Sin embargo, todava hay retos que superar, como la dificultad de estos grupos en el tratamiento de los aspectos sociales y econmicos.

    Palabras Clave: Comunidades intencionales; Comunidades alternativas; IDS-IBGE.