Efeitos do eucalipto 2

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    04-Jun-2015
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  • 1. DOSSI DESERTO VERDEO Latifndio do EucaliptoMaro 2006Texto compilado pelo Gabinete Frei Srgio PT/RS

2. A Insustentvel Produtividade da Celulose A verdadeira selvageria utilizar extenses de terra para uma monoculturaque agride o pas ambientalmente, gera lucros para uma minoria e em nadacontribui para combater a desigualdade social ainda no foi percebida pela elitepensante. Os inconformistas quase nunca tem razo nos precisos termos em que semanifestam. Mas, quase sempre tem razo na identificao do problema que osinconforma e no sentido geral da soluo que eventualmente lhe ser dada. Aosinconformistas s a histria, nunca os contemporneos, pode dar razo.(Boaventura de Souza Santos) No calor do abril vermelho, nenhuma outra ao patrocinada pelasorganizaes do movimento sem terra provocou tanta indignao na elitepensante brasileira quanto as invases das plantaes de celulose de mega-empresas como a Klabin e a Veracel (leia-se Aracruz Celulose) em Santa Catarinae na Bahia. Sem terra agora invadem terras produtivas, apressarem-se aalardear, quase agradecidas pela munio que lhes era oferecida, as manchetes echamadas dos principais jornais e telejornais brasileiros. Afinal de contas, noseria mesmo indefensvel a ocupao de terras de empresas rentveis, queempregam mo-de-obra nacional e pagam (quase sempre) em dia seus impostos?O senso comum e disso se aproveitaram alguns respeitveis colunistas deeconomia parece dizer que sim. Entretanto, uma anlise mais prxima impe oseguinte questionamento: Sim, a terra produtiva. Mas, produtiva para quem,cara plida?. Neste artigo, vamos utilizar o exemplo da Aracruz (a Klabin fica para umasegunda oportunidade). A Aracruz Celulose uma empresa transnacionalcontrolada pelos grupos Lorentzen, da famlia real norueguesa, Safra e Votorantin,com cada um possuindo 28% do capital votante. A empresa se instalou no EspritoSanto h 35 anos e hoje a lder mundial da produo de polpa branca decelulose de eucalipto, respondendo por 31% da oferta do produto em todo oplaneta. Das primeiras terras adquiridas no Brasil, no municpio de Aracruz, eladeu um salto e possui hoje 247 mil hectares plantados com eucalipto nos estadosdo Esprito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Sua capacidadenominal de produo no Brasil de 2,4 milhes de toneladas de polpa de celulosepor ano. Apenas a unidade de Barra do Riacho (ES), onde existem trs fbricas decelulose, responsvel pela produo de 2 milhes de tonelada/ano. O detalhe que cerca de 95% da polpa de celulose produzida no Brasil destinada ao mercado externo, sobretudo para a Unio Europia e os EstadosUnidos. Nesses lugares, cerca de 80% a polpa importada do Brasil transformadaem papel higinico e lenos de nariz. O retorno financeiro para a Aracruz muitoalto: em 2003, a empresa registrou um lucro lquido de R$ 870 milhes, o maiordesde sua criao. Com o beneplcito do BNDES no governo de FernandoHenrique Cardoso em 2002 o banco injetou R$ 840 milhes na construo deuma nova fbrica a Aracruz foi a empresa que teve maior aumento nos ganhosem 2003 se comparado ao ano anterior, obtendo um aumento de 7.000%. Atualmente, a menina dos olhos da Aracruz a Veracel Celulose, empresacriada em sociedade com outra gigante do setor, a Stora Enso (50% do capital2 3. para cada). A Veracel j tem 70 mil hectares de eucalipto plantado no sul da Bahiae seu complexo industrial fabril, com entrada em operao prevista para 2005,ser capaz de produzir 900 mil toneladas de celulose por ano. Como se v, muita riqueza, e isso que parece entusiasmar osdefensores das terras produtivas da Veracel/Aracruz na grande imprensa. Oproblema que essa riqueza distribuda, sim, entre as poucas famliasacionistas da empresa e no para a sociedade brasileira como se quer fazercrer. Mesmo a propalada gerao de empregos um mito, como j comprovaramestudos realizados pela Universidade Federal do Esprito Santo e pela Federaode rgos para Assistncia Social e Educacional (FASE) que demonstraram quea monocultura do eucalipto altamente mecanizada em todas as suas fases edemanda pouca mo-de-obra nos locais onde est instalada. A Veracel, com todoo seu faturamento e gigantismo, promete gerar cerca de cinco mil empregosdiretos e indiretos no Brasil, sem especificar por quanto tempo, ao passo que odesenvolvimento de um programa de agricultura familiar variada pode gerar at 30postos de trabalho permanente por hectare. Ao contrrio, a monocultura doeucalipto expulsa o trabalhador do campo, como nos mostra o exemplo de Vitria.Antes da Aracruz, a capital abrigava 15% da populao capixaba, atualmenteabriga 50%. Existem ainda os prismas histrico e ambiental. Sob o primeiro, difcilnegar mesmo para os inebriados acionistas da empresa que se esbaldam nasfestas de So Paulo que a consolidao da Aracruz Celulose no Brasil seconfunde com o deslocamento forado, a represso e o assassinato de indgenas,quilombolas e outras populaes tradicionais em Minas, na Bahia e, sobretudo, noEsprito Santo. Para lutar contra os danos que a monocultura do eucalipto causaao meio ambiente, mais de cem organizaes ambientalistas brasileiras criaram aRede Deserto Verde, para evitar a continuidade da compra de terras pela Aracruzno Brasil. Alm da evidente perda da biodiversidade provocada pela monocultura,o eucalipto acusado de exaurir os lenis de gua subterrneos num curtoespao de tempo. A ltima novidade surgida sobre o impacto ambiental das atividades daAracruz foi revelada em estudo da FASE publicado em maro deste ano, apsseis meses de anlise dos rios Sahy, Guaxindiba e Doce, localizados em reservasindgenas Tupiniquim e Guarani no norte do Esprito Santo. De acordo com aanlise, a empresa estaria se apropriando da maioria dos recursos hdricos daregio e deixando as aldeias sem gua. Aps adquirir 90% das terras em tornodas fontes de recursos hdricos, a Aracruz consome por dia, sem pagar nada porisso, o equivalente ao consumo de 2,5 milhes de pessoas, o que representaquase a populao de todo o Estado. Ciente dessas informaes, somente por m vontade algum pode querercriminalizar os sem terra por invadir as terras produtivas da celulose, sejam elaspertencentes a Veracel/Aracruz ou a Klabin. O fato que, enquanto milhes debrasileiros ainda passam fome no campo, esse setor, por mais que queira setravestir de moderno e gerador de divisas, nos revela a face (talvez a cara de pau,se me permitem o trocadilho) de um capitalismo excludente para o povo e inseridonuma lgica mundial onde o Brasil ainda um quintal produtor de matrias primasou secundrias para atender as metrpoles. 3 4. Em um ato visto como selvageria pelos defensores dessas terrasprodutivas, as trs mil e quinhentas famlias que invadiram a fazenda da Veracelem Porto Seguro derrubaram 25 hectares de eucalipto e, em seu lugar, plantarammilho e feijo. A verdadeira selvageria utilizar largas extenses de terra boa parauma monocultura que agride o pas social e ambientalmente, gera lucrosindecentes para uma minoria e em nada contribui para que seja combatida nossaterrvel desigualdade social ainda no foi percebida pela elite pensante. Talvezno tenham entendido o que disse, na sua sabedoria, o trabalhador rural flagradopelas cmeras de televiso em terras da Veracel: Estamos com fome, uai,eucalipto no se come!. * Maurcio Thuswohl editor de Meio Ambiente da Agncia Carta Maior. Monocultivo de rvores, Papel e Celulose na Metade Sul do RSI - INTRODUODada a complexidade do tema que envolve o plantio de monocultivos de rvoresna metade Sul do Estado, basicamente para a produo de celulose destinada exportao, com repercusses econmicas, sociais, culturais, ambientais epolticas, faz-se necessrio um debate tcnico e poltico, para construirmos umaopinio poltica e uma estratgia de logo prazo acerca destes projetos.Apresento a seguir um conjunto de informaes sobre as empresa, potenciaisproblemas ambientais e algumas idias bsicas de possveis medidascompensatrias para a agricultura familiar, envolvida nas cadeias tradicionais daregio.II - AS EMPRESAS1 - Aracruz Celulose S.A.Atualmente a Aracruz a maior produtora de celulose branqueada de eucalipto nomundo. Em 2004, a companhia produziu 2,4 milhes de toneladas de celulose,sendo que 97% foi exportada. A Aracruz utiliza exclusivamente plantio deeucalipto para produzir celulose de fibra curta de alta qualidade para produzir umgrande nmero de produtos de alta qualidade, como papel para imprimir eescrever, todos de alto valor agregado.A Aracruz, em associao com Weyerhauser, tambm produz madeira serrada,atravs de sua unidade fabril no Estado da Bahia.A Aracruz possui 252 mil hectares de plantao de eucaliptos nos Estados deMinas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Espirito Santo, alem de 71 mil hectaresde rvores de eucaliptos plantados e manejados por agricultores.4 5. Conforme o relatrio do terceiro trimestre de 2005, a Aracruz produziu no trimestre688 mil toneladas de celulose, j includo a participao de 50% na VERACEL, ouseja, 18% acima do mesmo trimestre de 2004. A produo acumulada de janeiro asetembro de 2005 soma 2,027 milhes de toneladas, ou seja, 10% superior aomesmo perodo de 2004. VERACEL produziu, no terceiro trimestre de 2005, 174 mil toneladas de celulose,das quais, 87 mil toneladas corresponde participao da Aracruz na VERACEL.As vendas no trimestre foram de 650 mil toneladas, 3% a mais do que o mesmotrimestre de ano anterior.O lucro liquido do terceiro trimestre foi de R$ 296,8 milhes, inferior aos R$ 368,2milhes do mesmo trimestre de 2004. J o lucro liquido de janeiro a setembro de2005 soma R$ 990,5 milhes.A Unidade de Guaba (RS), no terceiro trimestre, teve uma produo de papel de14 mil toneladas, que representa o consumo de 12 mil toneladas de celulose, aquiproduzidas.Os investimentos na unidade de Guaba somam R$ 100 milhes, sendo R$ 42,1milhes s no terceiro trimestre. Esto previstos ainda mais R$ 12 milhes para oquarto trimestre de 2005. Recursos destinados otimizao e modernizao daindustria. Tambm esto sendo investidos R$ 50 milhes em melhoria