Eliane Cristina Deckmann Fleck

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    24-Jul-2015
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Eliane Cristina Deckmann Fleck Ttulo del Simpsio: Las Misiones Jesuitas en la America Colonial, siglos XVI al XVIII Clave del Simposio:Hist 25 Tema I: La evangelizacin, el misionero y los indios. Ttulo de la ponencia: Las reducciones jesuitico-guaranes en la perspectiva de la histria de las mentalidades Autor: Eliane Cristina Deckmann Fleck Resumo A proposta de pesquisa est centrada na anlise do impacto exercido pelas concepes crists-ocidentais acerca das doenas e da morte na mentalidade guarani, em especial, nas suas manifestaes concretas de religiosidade, enfim, no seu modo de ser e de sentir. Aps leitura da produo bibliogrfica sobre a prtica missionria jesutica, entre os Guarani da regio do Guair, e aps anlise documental, referente ao perodo de 1609 a 1639, pudemos constatar a influncia que as doenas e as concepes e rituais cristos ligados morte exerceram sobre o pensamento mgico-mtico guarani, a ponto de contriburem decisivamente na etapa de implantao do projeto reducional, para a converso ao Cristianismo. Neste sentido, o projeto tem como objetivo primordial responder pergunta: o medo da doena, o medo da no-cura, o medo da morte, o medo dos mortos, at que ponto foram essenciais/decisivos parta o xito do processo de converso dos Guarani ao Cristianismo? As redues jesutico-guaranis na perspectiva da histria das mentalidades. Eliane Cristina Deckmann Fleck UNISINOS Aps leitura da produo bibliogrfica sobre a prtica missionria jesutica, entre os Guarani da regio do Guair, e aps anlise documental, referente ao perodo de 1609 a 1639, pudemos constatar a influncia que as doenas e as concepes e rituais cristos ligados morte exerceram sobre o pensamento mgico-mtico guarani, a ponto de contriburem decisivamente, na etapa de implantao do projeto reducional, para a converso ao Cristianismo. Neste sentido, o projeto tem como objetivo primordial responder pergunta: O medo da doena, o medo da no-cura, o medo da morte, o medo dos mortos at que ponto foram essenciais/vitais para o xito do processo de converso dos Guarani ao Cristianismo?

Do que se tem medo? Da morte, foi sempre a resposta. E de todos os males que possam simboliz-la, antecip-la, record-la aos mortais. (.) De todos os entes reais e imaginrios que sabemos ou cremos dotados de poder de vida e de extermnio: da natureza desacorrentada, da clera de Deus, da manha do Diabo, da crueldade do tirano, da multido enfurecida; dos cataclismos, da peste, da fome e do fogo, da guerra e do fim do mundo.1. Nestas consideraes, Chau nos aponta de forma bem clara qual a causa maior dos nossos medos e qual a relao que se estabelece entre a morte e os males que a simbolizam, ou mesmo, a provocam. Sobre o medo, Sartre escreve: Todos os homens tm medo. Todos. Aquele que no tem medo no normal (.)2. Para Delumeau, o medo ambguo , uma defesa essencial, uma garantia contra os perigos, um reflexo indispensvel que permite ao organismo escapar provisoriamente morte . 3 Refletindo sobre o medo da morte, Philippe Aris afirma: Num mundo sujeito mudana, a atitude tradicional perante a morte aparece como um embrio de inrcia e de continuidade. Est agora to apagada dos nossos costumes que temos dificuldade em imagin-la e compreend-la. A atitude antiga em que a morte ao mesmo tempo prxima, familiar e diminuda, insensibilizada, ope-se demasiado nossa onde faz tanto medo que j no ousamos pronunciar o seu nome.4 Foi durante a Idade Mdia que os homens da Igreja, enquanto conselheiros espirituais, empregaram uma pedagogia do choque, substituindo por medos teolgicos a pesada angstia coletiva resultante de estresses acumulados . 5 (.) para a Igreja, o sofrimento e a aniquilao (provisria) do corpo so menos temveis do que o pecado e o inferno. O homem nada pode contra a morte, mas com a ajuda de Deus lhe possvel evitar as penas eternas.6 Aris faz ainda consideraes importantes sobre a importncia da pregao crist e da introduo de conceitos como os do Purgatrio e do Inferno. (.) compreende-se que o medo do alm tenha podido conquistar ento populaes que ainda no receavam a morte. Este medo do alm traduziu-se sem dvida pela representao dos suplcios do Inferno. A aproximao entre o ponto da morte e o momento da deciso suprema arriscava estender prpria morte o medo suscitado por uma eternidade infeliz.7 Atravs de imagens fortes como as da morte, os pregadores procuraram impressionar, comover e converter as populaes. Os homens da Igreja sempre tentaram meter medo, medo do Inferno, mais que da morte. Nos sculos XIV - XVI (.) os pregadores falavam da morte para fazerem pensar no

Inferno. Os fieis talvez no pensassem necessariamente no Inferno, mas foram ento mais impressionados pelas imagens da morte.8 Difundiu-se tambm neste perodo a convico de que as calamidades, as doenas e a prpria morte no so naturais, mas resultantes da clera divina e dos santos. No Ocidente dos sculos XV - XVII, conheciam-se e temiam-se bem umas quarenta doenas designadas pelo nome de um santo, podendo uma mesma enfermidade ser relacionada a vrios santos diferentes. As mais temidas, e aparentemente as mais freqentes, eram o fogo de santo Antnio (ergotismo gangrenoso); o mal de so Joo, tambm chamado de mal de saint-Lou (epilepsia); o mal de santo Acrio, dito tambm mal de saint-Mathurin (loucura); o mal de so Roque ou so Sebastio (a peste); o mal de saint-Fiacre (hemorridas e verruga do nus); o mal de saint-Maur ou mal de saint-Genou (gota).9 Em especial, as pestes, devido aos seus reaparecimentos repetidos, criavam nas populaes um estado de medo permanente, somado a um sentimento de culpabilidade ante demonstrao da clera divina. Delumeau nos apresenta tambm outros aspectos a serem considerados quando se fala de pestes e epidemias que se abatem sobre populaes inteiras: o da ruptura com o habitual e o do traumatismo psquico que recai sobre os sobreviventes. A insegurana no nasce apenas da presena da doena, mas tambm de uma desestruturao dos elementos que construam o meio cotidiano.10 (.) Em perodos de peste (.) o fim dos homens se desenrolava, ao contrrio, em condies insustentveis de horror, de anarquia e de abandono dos costumes mais profundamente enraizados no inconsciente coletivo. 11 Aos sobreviventes restava implorar a misericrdia divina atravs da confisso, do jejum e das preces em inteno dos mortos, ou, sobretudo, atravs das procisses que apresentavam carter penitencial expiatrio e traos de exorcismo pago. Lembre-se aqui que (.) a procisso contra a peste liga-se a ritos muito antigos de circumambulao destinados a proteger uma coletividade contra foras e esprito malficos.12 Constata-se que a Igreja aceitou a permanncia desses ritos anteriores ao Cristianismo, limitando-se a condenar as prticas que tentavam fugir a sua vigilncia, merc da conscincia que tiveram os homens da Igreja quanto estreita relao existente entre medo e religio e da necessidade de preservao dos rituais que empregavam o exorcismo. (.) os toques de sinos durante a tormenta, a colocao das cruzes de encruzilhadas para que protejam do granizo os campos vizinhos, o uso de talisms e breves. (.) Compreendese, nessas condies, que as populaes rurais tenham visto no sacerdote aquele que, dotado pela Igreja de poderes excepcionais, poderia afastar de uma terra granizos e tempestades manifestaes evidentes da clera divina. 13

E o medo dos mortos? Como se manifestou? Como a Igreja conseguiu control-lo em favor da mensagem de uma salvao eterna? Segundo Aris, apesar da familiaridade com a morte, os antigos temiam a vizinhana dos mortos e mantinham-nos afastados. Honravam as sepulturas, em parte porque temiam o regresso dos mortos, e o culto que consagravam aos tmulos e aos manes tinha por objectivo impedir os defuntos de voltarem para perturbar os vivos . 14 Nas sociedades arcaicas os defuntos so vivos de um gnero particular, com quem preciso contar e compor e, se possvel, ter relaes de boa vizinhana. Eles no so imortais, mas amortais durante um certo tempo. Durante longo tempo sobreviveu essa viso, enquanto a concepo crist de uma separao radical da alma e do corpo no momento da morte progredia lentamente, mesmo porque a Igreja muito se valeu de fantasmas e aparies de defuntos com fins moralizantes e edificantes. Deus no permitiu que as almas dos mortos se mostrem aos vivos sob as aparncias de seu corpo de outrora (.) Mas todas essas aparies s acontecem com a permisso de Deus e para o bem dos vivos. Portanto, se a sobrevivncia dos corpos defuntos rejeitada como um erro no plano terico, recuperada, no entanto, pelo discurso teolgico. Este, valorizando a alma (.) permite aos mortos reaparecer na terra para fazer ouvir uma mensagem de salvao. Os fantasmas vm instruir a Igreja militante, pedir oraes, que os libertaro do purgatrio ou admoestam os vivos para que vivam melhor. 15 As aparies das almas do Purgatrio que vinham pedir aos vivos oraes, coletas de donativos ou a reparao de erros cometidos foram transformadas em uma crena de significao moral pela Igreja. Isso implicou uma nova atitude crist a respeito dos mortos, na medida em que estes deixaram de fazer medo aos vivos e que se ampliava o apego ao dogma da ressurreio dos corpos. A ressurreio, por sua vez, esteve ligada at o sculo XIV a uma concepo judiciria do mundo, a do Juzo Final, na qual o moribundo se via diante de uma audincia solene, na presena de todas as foras do Cu e do Inferno, cabendo a ele vencer as sedues dos diabos com o auxlio do seu anjo da guarda. A partir do sculo XV a concepo do Juzo Final perdeu sua popularidade, separando-se da idia da ressurreio; no entanto, o medo do julgamento no deixou de vencer a confiana na ressurreio . 16 Ento a morte deixou de ser balana, liquidao das contas, julgamento, ou ainda sono, para se tornar cadver e podrido, j no fim da vida e ltimo suspiro, mas morte fsica, sofrimento e decomposio.17

A evocao dos horrores da decomposio durante a vida, tanto como depois da morte, explorada por literatos, pintores e clrigos produziu entre os ainda