Entre fadas e bruxas: o mundo fe©rico dos contos para ... a composi§£o musical de...

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  • Entre fadas e bruxas:o mundo ferico dos contos

    para crianas e jovens

    Organizao

    Eliane DebusRegina Michelli

    2015

  • FICHA CATALOGRFICAD286 DEBUS, Eliane; MICHELLI, Regina (Orgs.) M623 Entre fadas e bruxas: o mundo ferico dos contos para crianas e jovens / Eliane Debus; Regina Michelli (Orgs.) - Rio de Janeiro: Dialogarts, 2015. Dialogarts Bibliografia ISBN (impresso) 978-85-8199-049-1 1.ContosdeFadas.2.Maravilhoso.3.Fantstico. 4.Literatura Infanto-juvenil. I. Debus, Eliane; Michelli, Regina. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. III. Departamento de Extenso. IV. Ttulo.

    Copyrigth 2015 Eliane Debus; Regina Michelli

    Dialogarts(http://www.dialogarts.uerj.br)

    Coordenadora do projeto:Darcilia Simes

    Co-coordenador do projeto:Flavio Garca

    Projeto de capa:Mrcia Cardeal

    Diagramao:David Vieira Marques

    RevisoresAnaCarolinaOstetto Caroline Grusman Keuryn AraujoNayaraBatistaVincius Pereira

    ndiceparacatlogosistematico:1. Ensino da literatura: 8072. Literatura e Retorica: 800 3.Literaturafantstica:843.0923

  • Os COntOs nO tm FROntEIRas: RElEItuRas PaRa CRIanas dE um COntO tRadICIOnal Em

    PORtugal E nO bRasIl

    ngela BalaFernando Azevedo

    IntROduO

    Neste estudo, de forma breve, procuramos refletir sobre as diversas manifestaes da literatura tradicional e, mais concretamente, dos contos tradicionais, na atualidade. Centramos o nosso texto em releituras para crianas, em suporte livro e online, de um conto tradicional, recolhido no sculo XIX, por Tefilo Braga, na ilha de So Miguel, no arquiplago dos Aores, Portugal.

    Consideramos muito interessante o fato de essas releituras serem em portugus europeu e em portugus do Brasil, o que nos leva a pensar na circulao dessa literatura tradicional, num espao civilizacional comum, embora geograficamente muito distante. De acordo com Loureno,

    Fomos com a lngua e a lngua foi connosco. [] a nossa lngua, como a cultura de que era expresso, derramou-se por contaminao, pela natural ou mesmo forada companhia entre senhores e escravos ou autctones, mobilizados para trabalhar ou rezar (se possvel) no para aceder a conhecimentos e saberes que s a elite missionria ou eclesistica, algum homem de leis ou militar, cultivava. (2007, p. 45-46)

    Na verdade, os contos tradicionais integram a cultura e o imaginrio dos povos e acompanham-nos ao longo da sua existncia. Em um estudo efetuado sobre as narrativas tradicionais, na regio da Amaznia, Sales afirma que:

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    A literatura tradicional brasileira se compe de trs etnias branca, negra e indgena para formar a memria que se estende desde as sociedades pr-colombianas at o uso do povo atual. Aborgenes, portugueses e africanos possuam cada um seu folclore, mitos e lendas que se adaptaram umas s outras e se aclimataram neste solo, utilizando elementos locais. (2014, p. 21)

    Contadosemdiversoscontextos,recolhidosefixadosnoutros,reescritosainda noutros, os contos tradicionais permanecem vivos e so um substrato queconstituianossamatrizcivilizacional,quepermite identificar-noscomuma cultura, com um povo e com uma nao.

    Desdemuitoqueessescontostmsidoobjetodereflexoparaasmaisdiversascincias.Lembremosapenas,attulodeexemplo,aliteratura,comaobra Morfologia do conto de Vladimir Propp; ou a psicanlise, com a clebre obradeBrunoBettelheim,Psicanlise dos Contos de Fadas.

    Ainda hoje continuam a existir projetos de recolha, de estudo e dedivulgao desses contos tradicionais, promovidos pelas mais diversas instituies.Dentremuitos,salientamosoProjetoOralidades, desenvolvido entre2008e2012,numainiciativaapoiadapelaUnioEuropeia.Esteprojetofoi coordenado pelo Municpio de vora e estabeleceu parcerias com outras cidades de Portugal, Espanha, Itlia,Malta e Bulgria. O seu objetivo eravalorizar o patrimnio cultural imaterial, comum ao sul da Europa. Igualmente patrocinado pela Unio Europeia foi o projeto European Mobility Folktales (EUMOF), que entre 2011 e 2012, compilou verses de contos populares que se centravam na viagem, num dilogo entre Portugal, Grcia, Chipre, ustria e Polnia.

    Por outro lado, no s essas reflexes e projetos, como tambm osdiversos contextos e utilizaes dos contos tradicionais, na sociedadeatual, nos demonstram as enormes potencialidades estticas, ldicas, ideolgicas e pedaggicas dos mesmos.

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    Aonvelesttico,asreleiturasdoscontostradicionaissempreforamumarealidade, em diversos campos da arte pintura, escultura, msica, cinema evdeo.Artistasdevrioscamposcontinuamentesesentiramatradosporessasnarrativas,muitasvezesdesconcertantes.Clebresso,porexemplo,os quadros de Paula Rego, que convocam os contos tradicionais portugueses; acomposiomusicaldeSergeiProkofiev,Pedro e o Lobo (1936); ou os vrios filmes produzidos pelos estdios da Disney, entre outros, onde os contostradicionaissorelidos,reinterpretadosesubvertidos.

    Cada vez mais as novas geraes tomam contato com esses textos e com as suas potencialidades ldicas atravs da televiso ou da social web. Inmeras so as sries de desenhos animados que convocam os contos tradicionais; na social web encontramos jogos de computador, vdeos no youtube, sites na internet, blogsondecrianaseadultospodemler,ouvir,jogaredivertir-secomessasnarrativastradicionais.

    Aescola,bemcomooutrasinstituiesdecartereducativo,aproveitaopotencial ideolgico e pedaggico desses contos tradicionais. Presentes nas listas do Plano Nacional de Leitura e, muitas vezes, nos prprios programas oficiais e nosmanuais escolares, atravs desses contos veicula-se para ascrianas e para os jovens mensagens e valores que vo ao encontro do que a sociedadequertransmitir,ensinareincutirnosmaisnovos.

    Do mesmo modo, tambm o mundo empresarial encontra nos contos tradicionais um manancial de hipteses de explorao com um carter ideolgico e pedaggico. Lembremos, apenas a ttulo de exemplo, asinmeras campanhas publicitrias que fazem uso das personagens e dos motivos dessas narrativas, exigindo aos consumidores leituras crticas eatentas,casonoqueiramtornar-seconsumidorespassivosemercdosinteressesmercantisdestemundodasempresas.

    Em todas essas manifestaes, assistimos releitura dos textos deliteraturatradicional,queseconstitui,aindahoje,numverdadeirofiloparaas mais diversas reas de atuao na sociedade atual.

    Naturalmente que, neste texto, nos centramos nas releituras dos contos tradicionais, cujos potenciais leitores so as crianas. Alis, de acordo com Bala e Pires,

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    muitos dos textos que tm circulado, sobretudo em suporte oral, ao longo dos sculos, foram-se constituindo como textos preferencialmente para crianas, desde o sculo XVII, primeiro de forma pouco assumida mas gradualmente, ao longo dos trs ltimos sculos, com esse objetivo claramente definido. (2013, p. 13)

    Contados e escutados com deleite, pois Ouvir histrias permanece como uma das paixes mais assumidas e constantes da primeira infncia (ALBUQUERQUE, 2000, contracapa), na famlia e, mais tarde, na escola que as crianas tomam contato com essas releituras dos contos tradicionais. O contar e o escutar juntam-se, posteriormente, reescrita desses textos, que proliferam em Portugal, no mercado editorial, com diferentes nveis de qualidade literria e plstica.

    Essas obras surgem muitas vezes sem serem integradas em colees, como o caso, apenas a ttulo exemplificativo, da obra Fiz das pernas corao: contos tradicionais portugueses, uma seleo e adaptao de contos da responsabilidade de Jos Antnio Gomes, com ilustraes de Danuta Wojciechowska, publicada pela Editorial Caminho, no ano 2000. Prova do rigor da seleo destes contos e logo da qualidade desta obra a preocupao em assinalar a provenincia dos textos, indicando o nome de quem os recolheu e em que obra esto originalmente inseridos.

    Porm, o mercado editorial portugus tambm frtil em colees de contos tradicionais para crianas. Das muitas, salientamos a coleo assinada por Antnio Torrado, Histrias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo, editada pela Livraria Civilizao nos anos 80 do sculo XX e objeto de mltiplas reedies at a atualidade. Antnio Torrado deu voz a um vasto conjunto de textos que integram a literatura tradicional e que so reconhecidos pelos leitores como pertencendo sua matriz nacional e civilizacional. Dentre todos, destacamos, por exemplo, O macaco de rabo cortado, Histria da Carochinha e do Infeliz Joo Rato ou O Menino Gro de Milho.

    Mais recente a coleo Contos Tradicionais Portugueses, publicada

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    pela Editora Campo das Letras, na primeira dcada do sculo XXI, com textos assinados por Joo Pedro Messder ou Jos Viale Moutinho. Esta coleo, tal como a anteriormente mencionada, integra ttulos que fazem parte do imaginrio popular/infantil portugus, dos quais salientamos O Coelhinho e a Formiga Rabiga mais a Cabra e sua Barriga ou A sopa de pedra.

    , pois, neste contexto, que surgem as verses do conto tradicional que nos propomos a analisar detalhadamente neste estudo.

    RElEItuRas PaRa CRIanas dE um COntO tRadICIOnal

    Nestetextovamo-noscentrarnocontotradicionalintituladoAs orelhas do abade, nas suas mais diversas verses. Em primeiro lugar, abordaremos a versorecolhidaporTefiloBraga,nosculoXIX;numsegundomomento,a verso reescrita por Maria Teresa dos Santos Silva (2003) e ilustrada por JosMiguel Ribeiro; por ltimo, debruamo-nos na verso em portugusdo Brasil, veiculada online, no site Histrias Faladas, alojado em 1.

    Tefilo Braga (1843-1924) foi um escritor, poltico e Presidente daRepblica Portuguesa (1915). Republicano convicto, Braga pertenceu a uma gerao de homens que se interessou e nos deixou um imenso legado na readaetnografia,daantropologia,do folcloreeda literatura tradicional.So seus contemporneos Adolfo Coelho, Consiglieri Pedroso ou Leite de Vasconcelos.DeacordocomLeal (1986,p.14),emTefiloBraga,dentreosseuscontemporneos,quepodemose