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LIA TOYOKO YAMADA

O HORROR E O GROTESCO NA PSICOLOGIA A AVALIAO DA PSICOPATIA ATRAVS DA ESCALA HARE PCL-R (PSYCHOPATHY CHECKLIST REVISED)

Dissertao apresentada ao Programa de PsGraduao em Psicologia do Instituto de Cincias Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obteno do ttulo de Mestre em Psicologia. Orientadora: Prof. Dra. Ceclia Maria Bouas Coimbra rea de concentrao: Subjetividade, Poltica e Excluso Social

NITERI 2009

Ficha Catalogrfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoat

Y19

Yamada, Lia Toyoko. O horror e o grotesco na psicologia A avaliao da psicopatia atravs da escala Hare PCL-R (Psychopathy Cheklist Revised) / Lia Toyoko Yamada. 2009. Orientador: Ceclia Maria Bouas Coimbra. Dissertao (Mestrado) Universidade Federal Fluminense, Instituto de Cincias Humanas e Filosofia, Departamento de Psicologia, 2009. Bibliografia: f. 112-118. 1. Psicologia. 2. Psicologia criminal. 3. Avaliao. 4. Teste psicolgico. I. Coimbra, Ceclia Maria Bouas. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Cincias Humanas e Filosofia. III.

128 f.

FOLHA DE APROVAO

LIA TOYOKO YAMADA

O HORROR E O GROTESCO NA PSICOLOGIA A AVALIAO DA PSICOPATIA ATRAVS DA ESCALA HARE PCL-R (PSYCHOPATHY CHECKLIST REVISED)

Niteri, ____/____/_____

_________________________________ Prof. Dra. Ceclia Maria Bouas Coimbra - Orientadora Universidade Federal Fluminense

_________________________________ Prof Dra. Lilia Ferreira Lobo Universidade Federal Fluminense

_________________________________ Prof Dra. Cristina Mair Barros Rauter Universidade Federal Fluminense

_________________________________ Prof Dra. Vera Malaguti de Souza Weglinski Batista Universidade Cndido Mendes

Aos presos recalcitrantes que no se submeteram ao modelo cientfico de uma psicologia grotesca. Aos profissionais encarcerados que, mesmo na dureza do dia-a-dia, no se cansaram de apostar em uma psicologia menos opressora e mais libertadora. Em memria de meus pais.

AGRADECIMENTOS Ceclia Coimbra, pelo apoio incomensurvel e extremamente comprometido de estar no mundo e com quem a cerca, o que no poderia ser diferente em suas orientaes. Sua firmeza, intensidade e presena constante na dissertao foram fundamentais para o desenvolvimento e concluso do trabalho. Com muita firmeza, mas sem perder a ternura... Lilia Lobo, por ter instigado o gosto pela pesquisa, por contribuir na formao de um pensamento crtico, no acomodado e resignado com as questes do presente. Por ter apresentado Michel Foucault, uma relao que perdura at hoje, e influenciado tambm no gosto pelos infames, pelos personagens marginalizados pela histria, pelos desviantes e mostrado o quanto que eles podem nos ajudar a pensar a nossa prpria constituio e o nosso mundo. Cristina Rauter, pelo apoio fundamental no incio do meu encarceramento, nos conflitos vivenciados com um tal teste psicolgico e por conseguir reunir leveza e consistncia nos momentos cruciais da minha formao. Vera Malaguti, pela generosidade, pela disponibilidade em dialogar com os diversos saberes, pela aposta em outras possibilidades para alm do encarceramento que contagia o seu redor e pelas contribuies para a presente dissertao. Aos profissionais encarcerados que na dureza do dia-a-dia conseguem fazer do quartelpriso um espao menos mortificante, menos adoecedor e com pequenas resistncias que permitem continuar na labuta diria. Um agradecimento especial ao Comandante Ccero e ao Comandante Mozar que estimularam meu ingresso no Mestrado e permitiram conciliar os compromissos assumidos com o curso com as obrigaes contradas no trabalho. Ao Comandante Paulo Roberto, devo tambm um sincero agradecimento, por facilitar a continuidade do curso e conceder a licena de 3 meses, fundamentais para a concluso da dissertao. Ao Capito, pelos dilogos intensos, duros, muitas vezes inflamados, mas que serviram para pensar o crcere e a querer dialogar com determinados pensamentos. Eliane, pelo apoio, incentivo, pelas corridas e, especialmente, pela amizade. Aos amigos que tambm fizeram parte do processo, uns j cumpriram sua pena, outros ainda aguardam o seu alvar de soltura: Maurcio, Adriana, Fabola, Dra Ely e Teresa. Aos amigos e professores do Mestrado, s contribuies trocadas durante as disciplinas, na Praa do Gragoat e nos espaos informais de discusso que muito potencializaram o presente trabalho. Um agradecimento especial aqueles que estiveram mais prximos: a gauchinha mais fofa que eu j conheci, Alice, ao amigo da cachaa, Luiz, Paty*, na doura sua de sempre, Marina, uma amiga querida que as distancias territoriais no iro nos afastar, e Patrcia, minha querida Chuchu, uma amizade linda, permeada por momentos de cumplicidade, carinho, respeito e parceria. Aos amigos da Soma e a todos que participaram do processo de descoberta de novas sensibilidades e maneiras de estar no mundo: Gabi, Mateus, Francesco, Belinda, Beta, Mari, Raquel, Lo, Nelson e ao meu terapeuta anarquista mais querido, Joo da Matta. Aos meus queridos padrinhos de casamento: Camila, por me acolher na fase mdia-final do Mestrado e estreitar uma amizade que j havia se consolidado h muito tempo e pelo exemplo de fora, determinao e coragem em apostar nas suas escolhas. Ao Fbio, pelos debates

provocativos que ora me tiravam do srio, ora me instigavam a efetivamente pensar e rever algumas posies. Ao Marcelo, a quem eternamente serei grata por todo incentivo que sempre fez s minhas conquistas pessoais e profissionais, por fazer parte da minha formao intelectual informal e pela influncia marcante que teve nas minhas escolhas e em diversos momentos felizes, difceis e tambm cruciais da vida. Obrigada por todo apoio despendido durante o percurso da estudante-doutora at o Mestrado da UFF. minha famlia pequeninha, mas enorme de corao, aos meus irmos queridos, que muito me apoiaram, que compreenderam as dificuldades vivenciadas nos ltimos anos, estando do meu lado me fazendo sentir confiante e segura no percurso do trabalho. Marina, pela amizade e afinidade inigualvel que ns compartilhamos e que no pode ser compreendida pelas racionalizaes cientficas. Ao Beto, pelo carinho e compreenso e aos meus cunhados Leandro e Alex e cunhadinha Juju que tambm ajudaram e, muito, no processo geral, apoiando os irmos e estando perto nos momentos bons e ruins. Keikinha, meus agradecimentos, por fazer parte da minha vida e mesmo pela distncia no deixar de estar presente. Aos meus pais, distantes fisicamente, mas presentes pelas influncias, pelo legado tico e exemplar que deixaram e que se concretizam na presena constante de seus ensinamentos. Ao Bernardo, meu amor. Pelas contribuies jurdicas dissertao. Por apostar e acreditar numa vida a dois sem encarceramento, e por um amor tecido com linhas de cumplicidade, apoio, carinho e dilogo (sempre!). Por ser protagonista na minha vida e pelas reflexes que comeam com intelectualizaes, mas que terminam em beijos e outras cositas ms...

RESUMO O presente trabalho tem como objetivo problematizar um instrumento proposto para avaliao do grau de psicopatia presente na populao prisional: a Escala Hare PCL-R (Psychopathy Checklist Revised) de Robert Hare. A anlise ser realizada a partir de uma perspectiva tica e poltica de cincia com base em referenciais tericos da Anlise Institucional, da genealogia de Michel Foucault e de aliados que possam pensar a cincia e seus instrumentais situando-os numa rede social que, longe dos pressupostos de neutralidade e de separao entre cincia e cultura, localizam-se no mesmo plano. A despeito do PCL-R ter sido apresentado como soluo para o exame criminolgico e, apesar das promessas de cientificidade e objetividade, o uso do PCL-R no contexto prisional serve como um instrumento efetivo de sano e excluso e colabora para fundamentar aes de controle social e normatizao da populao. Alm disso, o PLC-R viola os princpios fundamentais previstos no Cdigo de tica Profissional do Psiclogo, como tambm rejeita as responsabilidades e compromissos da profisso no respeito e na promoo da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declarao Universal dos Direitos Humanos. Palavras-chave: Psicopatia Escala Hare PCL-R Avaliao psicolgica Teste psicolgico

ABSTRACT

This paper aims to discuss a proposed instrument for assessment of psychopathy in the prison population: Scale Hare PCL-R (Psychopathy Checklist Revised) by Robert Hare. The analysis will be conducted from an ethical and political perspective science-based theoretical framework of institutional analysis, of Michel Foucaults genealogy and his allies that may think science and its instrumental placing them in a social network that, far from the assumptions neutrality and the separation between science and culture, located in the same plane. Despite the PCL-R have been presented as a solution to the criminological examination and, despite promises of scientific objectivity, the use of the PCL-R in the prison context serves as an effective instrument of punishment and exclusion, and contributes to ground control actions and social norms of the population. Moreover, the PLC-R violates the fundamental principles of the Code of Professional Ethics of Psychologists, as well as rejects the responsibilities and commitments of the profession in the respect and promotion of "freedom, dignity, equality and integrity of human beings, supported the values underlying the Universal Declaration of Human Rights ". Key-words: Psychopath; Hare PCL-R; Psychological testing; Psychological evaluation

SUMRIO

INTRODUO A metamorfose da estudante................................................................................................ p.10 O PCL-R enquanto instrumento punitivo prisional.............................................................. p.16 C