ESQUIZOANÁLISE: CLÍNICA E SUBJETIVIDADE Sandra … · Estão para além da noção de estrutura,...

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ESQUIZOANÁLISE: CLÍNICA E SUBJETIVIDADE Sandra Lourenço CORRÊA 1 [ ... ] e mais importante do que o pensamento é "aquilo que faz pensar. (DELEUZE, 1987, p. 30) Porque se chamavam homens também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. (Lã Borges) Resumo: Este artigo pretende pensar a subjetividade como processo constituído por múltiplas linhas de possibilidades de existência, típicas do devir, que pela experimentação pode produzir processos de singularização. A esquizoanálise recusa qualquer lógica binária, dualística ou identitária da noção de subjetividade, compreendendo que esses aspectos correspondem a um domínio histórico- filosófico específico. O processo analítico será afirmado em sua potência revolucionária e criadora, pois a esquizoanálise, ao proceder com a análise do inconsciente, nada espera encontrar em termos de prefiguração do desejo. Palavras-chave: Clínica. Esquizoanálise. Subjetividade. Singularidade. A esquizoanálise, criada por Deleuze e Guattari, propõe pensar a clínica a partir de suas possibilidades de agenciamentos 2 , pois acredita em sua I Mestre em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto - Docente da FAC-FEA (Araçatuba/ SP). E-mail: [email protected] 2 Estão para além da noção de estrutura, ao englobarem elementos de toda ordem material, social, biológica etc. Avesso do Avesso, v.4, n.4, p. 33 - 51, novo 2006 33

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  • ESQUIZOANLISE: CLNICA E SUBJETIVIDADE

    Sandra Loureno CORRA 1

    [ ... ] e mais importante do que o pensamento "aquilo que faz pensar.

    (DELEUZE, 1987, p. 30)

    Porque se chamavam homens tambm se chamavam sonhos e sonhos no

    envelhecem. (L Borges)

    Resumo: Este artigo pretende pensar a subjetividade como processo constitudo

    por mltiplas linhas de possibilidades de existncia, tpicas do devir, que pela

    experimentao pode produzir processos de singularizao. A esquizoanlise

    recusa qualquer lgica binria, dualstica ou identitria da noo de subjetividade,

    compreendendo que esses aspectos correspondem a um domnio histrico

    filosfico especfico. O processo analtico ser afirmado em sua potncia

    revolucionria e criadora, pois a esquizoanlise, ao proceder com a anlise do

    inconsciente, nada espera encontrar em termos de prefigurao do desejo.

    Palavras-chave: Clnica. Esquizoanlise. Subjetividade. Singularidade.

    A esquizoanlise, criada por Deleuze e Guattari, prope pensar a

    clnica a partir de suas possibilidades de agenciamentos2, pois acredita em sua

    I Mestre em Psicologia pela USP de Ribeiro Preto - Docente da FAC-FEA (Araatuba/

    SP). E-mail: [email protected]

    2 Esto para alm da noo de estrutura, ao englobarem elementos de toda ordem material,

    social, biolgica etc.

    Avesso do Avesso, v.4, n.4, p. 33 - 51, novo 2006 33

  • capacidade de operar transfonnaes para alm das fonnas institudas. Isto no

    significa ignor-las, pelo contrrio, a esquizoanlise trabalha conhecendo esses

    modos de subjetiva03 institudos. Para Guattari, a clnica deve operar na ordem

    das micropolticas, sabendo que os aspectos da macropoltica sempre estaro

    presentes e passveis de transfonnao. No mbito clnico, estaramos muito

    mais na ordem esttica do que na ordem interpretativa. Neste sentido, so

    fundamentais os seguintes questionamentos que envolvem a prtica clnica: Que

    tipos de agenciamentos podem ser construdos? E que viso de sujeito penneia

    esta prtica?

    As respostas para estas questes tm incio com a aposta que se

    faz na contribuio da esquizoanlise para o plano clnico, que j se configura

    com uma certa noo de sujeito que se pretende desconstruir, produzido a partir

    de perspectivas identitrias, causalistas, em que a natureza de sua essncia est

    dada, faltando apenas um modo de investigao mais preciso que desvende

    seus mistrios mais profundos. Para tanto, busca-se romper com as interpretaes

    fundamentadas emprincpios psicolgicos e demasiadamente "humanos". Deleuze

    e Guattari (2004a, p. 114), comentando Nietzsche, afinnam que no se est

    diante de pessoas, mas de foras e quereres: "Sabe-se que, em Nietzsche, a

    teoria do homem superior uma crtica que se prope denunciar a mistificao

    mais profunda ou perigosa do humanismo".

    A clnica se faz necessria a partir do momento em que se acredita

    em um fazer clnico fundamentado na diferena e no emprincpios do idntico.

    Nesta nova proposta clnica no se busca um eu, um indivduo ou seus conflitos

    3 Diz respeito aos processos pelos quais um modo de subjetividade produzido, sendo radicalmente oposto idia de indivduo, sendo o indivduo um dos modos de subjetivao possvel de um determinado momento histrico. So as relaes constitudas no e pelo registro social. Guattari relacionou particularmente esses processos aos modos capitalsticos de produo social.

    34 Avesso do Avesso, vA, n.4, p. 33 ~ 51, novo 2006

  • edipianos, por exemplo. Trata-se de uma noo de clnica no comprometida

    com figuras familialistas. No se buscam encontrar os elos perdidos de um tempo

    passado estruturado miticamente. A clnica, ento, passa a ser lugar da diferena,

    do novo, do intempestiv04 No haveria histria para se remontar, nem umconflito

    para se superar, nem muito menos uma memria para se resgatar.

    A tarefa da esquizoanlise desfazer incansavelmente

    os egos e seus pressupostos, libertar as singularidades

    pr-pessoais que eles encerram e recalcam, fazer

    escorrer os fluxos que eles seriam capazes de emitir, de

    receber ou de interceptar, estabelecer sempre mais

    finamente as esquizas e os cortes, bem acima das

    condies de identidade, montar as mquinas desejantes

    que recortam cada um e o agrupam com outros.

    (DELEUZE; GUAITARI, 1976, p. 460)

    possvel que, no exerccio clnico, movimentos de

    desterritorializa05, juntamente com o surgimento de novos territrios, sejam

    produzidos em sua absoluta imanncia, sem que se perca de vista a fora e a

    especificidade deste exerccio. O que a psicanlise iniciou deve ser perseguido

    em sua forma estratgica, ampliando seus espectros de transformao social.

    4 Sobre esta noo, Deleuze e Guattari (2002b, p. 95), apoiados em Nietzsche, definiram: "[ ... ] o intempestivo, outro nome para a hecceidade, o devir, a inocncia do devir (isto , o esquecimento contra a memria, a geografia contra a histria, o mapa contra o decalque, o rizoma contra a arborescncia)". Estas idias sero definidas mais adiante. 5 So movimentos que desfazem territrios delimitados, lugares familiares pertinentes aos processos de subjetivao de uma determinada condio social, econmCa, cognitiva etc. Esto sempre acompanhados dos processos de reterritorializao. Os processos de territorializao, desterritorializao e reterritorializao caminham juntos e esto presentes em todos os momentos histricos da humanidade.

    Avesso do Avesso, v.4, n.4. p. 33 51, novo 2006 35

  • Inclusive, o prprio Guattari (1987, p. 166) acreditava no processo analtico

    pela natureza desse processo, ou seja, ele pode se constituir como lugar de

    passagem, de visita a outras paragens, sendo o prprio movimento nmade, to

    necessrio tarefa do viver.

    No h como investigar a subjetividade na clnica sem que esta no

    se coloque na interface com outros domnios do conhecimento, domnios

    compostos por diversas linhas que:

    [ ... ] vm ora da arte, ora da poltica, ora da filosofia, ora

    de outro domnio qualquer que esteja em processo de

    nomadizao, transmutando-se em devir, sendo

    minoritrio, rompendo-se enquanto totalidade,

    abandonando seus sujeitos-objetos disciplinados em prol

    da criao. (PASSOS; BARROS, 2000, p. 78)

    Passos e Barros (2000) referem-se ao projeto transdisciplinat' de

    clnica, onde o analista, alm de criar "intercessores", ou seja, novos elementos

    para as eventuais desterritorializaes, provocando passagens de um territrio a

    outro, ele mesmo, o analista, se faz um intercessor. Por clnica transdisciplinar os

    autores entendem um certo tipo de plano, onde ocorrem constantes ressonncias

    entre sistemas de toda ordem.

    No se trata de abandonar o movimento criador de cada

    disciplina, mas de fabricar intercessores, fazer srie,

    agenciar, interferir. Frente s fices preestabelecidas,

    6 A proposta transdisciplinar pretende romper com as barreiras dos especialismos e dos territrios fechados para alcanar uma conjugao global entre os saberes, indo muito mais alm de uma dimenso dialgica.

    36 Avesso do Avesso, v.4, n.4, p.33 51, novo 2006

  • opor o discurso que se faz com os intercessores. No

    uma verdade a ser preservada e/ou descoberta, mas

    que dever ser criada a cada novo domnio. Os

    intercessores se fazem, ento, em tomo dos movimentos,

    esta a aliana possvel de ser construda quando falamos

    de transdisciplinaridade, quando falamos de clnica.

    (PASSOS; BARROS, 2000, p. 77)

    Trata-se de produzir e manter uma tenso constante entre os

    processos de subjetivao molares e moleculares, at porque impossvel

    qualquer prtica sem tais comprometimentos, ainda que no explcitos. Portanto,

    este plano clnico no o plano das universalidades, nem muito menos das

    constncias, mas um plano sempre instvel- o plano do devir?, o que toma

    possvel os processos de criao, ou de singulariza08

    7 Este conceito no se reduz idia de imitao, nem muito menos a qualquer modelo. Ele diz respeito economia do desejo que opera no real e nos processos de desterritorializao. Nunca se deixa de ser algo para ser outra coisa como o caso das identificaes ou imitaes.

    Os fluxos de desejo procedem por afetos e devires, independentemente do fato de que possam ser ou no rebatidos sobre pessoas, sobre imagens, sobre identificaes. Assim um indivduo, etiquetado antropologicamente como masculino, pode ser atravessado por devires mltiplos e, aparentemente, contraditrios: devir-feminino que coexiste com um devir-criana um devir-animal, um devir-invisvel etc (GUATIAR! e ROLNIK, 2005, p. 382).

    8 Os processos de singularizao esto no centro de interesse da esquizoanlise, afinal, singularizar afirmar a potncia, o sentido positivo da ruptura, a criao de outros modos de existncia pela experimentao. Esses processos so os nicos capazes de romper com os modos de subjetivao capitalsticos. Trata-se de uma verdadeira lgica dos devires lgica das multiplicidades que esto sempre colocando em xeque qualquer tentativa de eternidade pelas universalizaes.

    Avesso do Avesso, v.4, n.4, p. 33 - 51, novo 2006 37

  • -----

    Pensar a clnica sob a perspectiva de Deleuze e Guattari , sem

    dvida alguma, permitir-se a novos modos de semiotizao que requerem

    movimentos de fluxos de toda natureza, sem, no entanto, cair em um campo

    clnico indiferenciado, apesar de todas as perturbaes que a perspectiva desses

    dois pensadores provoca em certas familiaridades do pensamento.

    De acordo com Rolnik (2000), a esquizoanlise vem ocupando um

    espao significativo de interesse nos mbitos da clnica psicanaltica institucional

    e nos acadmicos, sobretudo entre aqueles que procuram desenvolver uma

    dimenso crtica da clnica. Considerando que para esquizoanlise a

    subjetividade sofre modulaes ao longo da histria e que uma das ltimas

    invenes do homem moderno foi a subjetividade centrada no indivduo, pode

    se supor, ento, a possibilidade de criar formas heterogneas e singulares

    totalmente diferentes dos regimes identitrios desses ltimos tempos.

    neste sentido que a esquizoanlise pode ser pensada como

    resistncia aos modelos individualizantes da subjetividade que a normalizaram

    atravs de tcnicas de conhecimento, controle e poder. A resistncia traz o novo

    e provoca efeitos de toda sorte. Mas, como operacionalizar, ou melhor, como

    fazer uso de uma mquina (esquizoanlise) que no possui "manual de instruo?"

    Como se permitir, no exerccio clnico, a experincia do devir, sem cair no rtulo

    da "loucura ultrapassada" da dcada de 60? Ou de ainda viver "sem leno e

    sem documento?" Ou ser identificado como "bicho-grilo?" Ou talvez, ainda pior,

    como parte da categoria de profissionais que no fazem a menor diferena por

    no apresentarem um caminho til, metodologicamente cientfico, que d conta

    dos transtornos psquicos?

    Estes questionamentos retratam algumas das idias que aparecem

    com freqncia diante da proposta esquizoanaltica de clnica, manifestadas nas

    faculdades de psicologia, ou no prprio campo de trabalho "interdisciplinar".

    Como respond-los sem, necessariamente, usar recursos dos tempos da ditadura,

    ou da "gerao do desbunde" tal como Cazuza se autodenominou afirmando

    38 Avesso do Avesso, vA, nA, p.33 - 51, novo 2006

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  • que, "pra mudar alguma coisa a gente teve que gritar, se drogar, ir pra rua

    enfrentar a nossa prpria fraqueza"?

    Para que a clnica no respire e inspire esse tipo de ar contaminado

    da explorao pela dominao da subjetividade, necessrio que ela, com sua

    principal arma, o processo analtico, se transforme em mquina de guerra9 Para

    tanto, as idias dos autores aqui investigadas servem como ferramentas de forte

    potncia, se propagadas enquanto tais, antes mesmo de serem capturadas na

    mquina alienante das estratgias capitalistas. A esquizoanlist( corre esse perigo

    se for compreendida como um novo modelo estruturante dos procedimentos

    clnicos, como um novo idealismo a ser seguido. Neste sentido, pode-se afIrmar

    que a esquizoanlise no tem um territrio definido, j que sua proposta

    exatamente levar as linhas para mais longe, pois "somente quando um fluxo

    desterritorializado ele consegue fazer sua conjugao com outros fluxos, que

    desterritorializam por sua vez e vice e versa." (DELEUZE e PARNET, 1998, p.

    63)

    Na esquizoanlise no se representa nada, engendra-se e percorre

    se.

    Seria preciso opor dois tipos de cincias, ou de procedi

    mentos cientficos: um que consiste em 'reproduzir', o

    outro que consiste em 'seguir'. Um seria de reprodu

    o, de iterao e reiterao; o outro, de itinerao, se

    ria o conjunto das cincias itinerantes, ambulantes. Re

    duz-se com demasiada facilidade a itinerao a uma

    9 Segundo Deleuze e Guattari a mquina de guerra no tem a guerra como objeto, sendo uma noo muito prxima noo de linha de fuga, onde est presente um agendamento social que nunca se fecha em uma interioridade, mas constitudo pelos movimentos nmades (ZOURABICHVILI, 2004, p. 66)

    Avesso do Avesso, v.4, nA, p. 33 - 51, novo 2006 39

  • condio da tcnica, ou da aplicao e da verificao

    da cincia. Mas isto no assim: seguir no o mes

    mo que reproduzir, e nunca se segue a fim de reprodu

    zir. (DELEUZE; GUATfARI, 2002c, p. 39)

    No h dvida de que Deleuze e Guattari so cones de um tempo

    de beligerncia dos anos 60, marcados pelos movmentos dos anos contraculturas,

    quando a forma de luta se manfestava, sobretudo, por uma posio anti. Vive

    se um outro momento que requer modulaes coerentes com este novo plano

    de consistncia. Pelbart (2004, p. 19), investigando as transformaes do

    tempolO, afirma:

    H aqui urna topologia que lembra a Deleuze o que os

    matemticos chamam de 'a transformao do padeiro'.

    Dois pontos, por mais prximos que estejam num

    quadrado, resultaro distantes ao cabo de algumas

    transformaes em que o quadrado estirado em

    retngulo, dividido em duas metades, formando

    novamente um quadrado etc. assim que um

    acontecimento constantemente remanejado na 'massa

    do tempo' , corno um ponto a assinalado que se divide

    em dois, fragmentando-se, distendendo-se, conforme o

    lenol de passado em que jogado, ou no qual nos

    colocamos, abrindo-se a urna variao infinita.

    10 Pelbart (2004, p. 19) investiga uma outra dinmica do tempo, o tempo como massa modulvel, onde "uma perptua mistura vai tornar prximo o que estava afastado e longnquo o que era prximo, num tempo no cronolgico".

    40 Avesso do Avesso. vA, nA, p. 33 - 51, novo 2006

  • Ainda que a questo do tempo no possa ser discutida mais ampla

    mente neste artigo, ela perpassa, de um modo ou de outro, todos os

    questionamentos apresentados at aquLlsto porque, mesmo com as modulaes

    operadas, no de um tempo cronolgico a que se est reportando, mas de um

    tempo do devir em oposio ao tempo arborescente II , hierarquizado e

    genealgico.

    Contrariamente histria, o devir no se pensa em

    termos de passado e futuro. Um devir-revolucionrio

    permanece indiferente s questes de um futuro e de

    um passado da revoluo; ele passa entre dois. Todo

    devir um bloco de coexistncia. (DELEUZE;

    GUATTARI, 2002b, p. 89)

    A resistncia aparece onde os imperialismos reinam, e ela tem sempre

    a mesma natureza: desestabilizar a hegemonia. Portanto, mesmo que os tempos

    sejam outros, importante ressaltar que no se pode situar-se num tempo linear

    da histria. Trata-se de combater as perspectivas dominantes de subjetividade,

    que no s ignoram os processos de singularizao, como os rechaa, e isto em

    qualquer momento da histria.

    Como Pelbart (2004) afirma, os remanejamentos so feitos, e o

    que parece longnquo se torna prximo e vice-versa. E sempre de um certo

    lugar que se reporta ao passado. Nem Deleuze nem Guattari negligenciaram

    estas "crticas temporais", inclusive, distinguiram o momento do "OAnti-dipo"

    11 Os sistemas arborescentes esto presentes em um certo tipo de imagem do pensamento que obedecem a uma ordem hierrquica "que comportam centros de significncia e de subjetivao, autmalos centrais como memrias organizadas" (DELEUZE e GUAITAR!. 2000, p. 26). Tais sistemas se contrapem noo de rizoma.

    Avesso do Avesso, v.4, n.4, p. 33 51, novo 2006 41

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  • do trabalho realizado em "Mil Plats".

    Do mesmo modo, pode-se pensar a questo do tempo na clnica

    que, de acordo com as idias esquizoanalticas, no se prende ao princpio

    cronolgico de passado, presente e futuro. Tal como a arte, na viso deleuziana,

    a clnica no obedece ao tempo organizado, estratificado, pois no haveria "um

    passado a descobrir, mas a inventar segundo o dobramento a que estar

    submetido e que o ir situar num feixe de relaes insuspeitado." (PELBART,

    2004, p.19)

    Se forem novos tempos, como fazer uso das idias de Deleuze e

    Guattari no plano clnico? evidente que os aspectos histricos e os

    agenciamentos so diferentes, mas s o fato de se ter esta compreenso jjustifica

    as contribuies desses dois pensadores. sempre de uma lgica dos fluxos

    que um acontecimento produzido. E quando se trata de mquina e de devir,

    tambm a questo temporal linear colocada de lado.

    Trata-se ento de propor uma escuta apoiada no pensamento da

    diferena, no qual a noo de subjetividade pensada. Est-se diante de um

    novo olhar sobre a subjetividade que produz novos desafios e possibilidades na

    clnica. De um modo geral, o trabalho analtico consistiria em escapar de todos

    os reducionismos, criar linhas de fuga 12 capazes de produzir novas cartografias 13,

    resistir aos confinamentos tericos que cegam os olhos de quem procura

    compreender as construes dos universais e suas conseqncias no

    comportamento humano. Barros (1994, p. 379) esclarece:

    A estaria o trabalho que chamamos de analtico, aquele

    12 A linha de fuga uma desterritorializao.

    13 Cartografar no o mesmo que mapear. O primeiro, segundo os gegrafos, um

    procedimento que se altera de acordo com as mudanas das paisagens, enquanto que o

    segundo representa de modo esttico uma determinada configurao.

    42 Avesso do Avesso. vA, nA, p.33 51 . novo 2006

  • que no nega a molaridade dos modos de funcionamen

    to, mas pe a funcionar outros modos, inventa fugas,

    penetra no plano molecular de constituio de outras

    formas. O singular emergiria, assim, do coletivo

    multiplicidade, as identidades seriam convidadas ao

    mergulho na agitao das diferenas.

    A clnica esquizoanaltica visa a favorecer a vida ( subjetividade),

    que no cabe nos estratos (organismo, significncia, subjetivao), sem que se

    perca um plano que, ao mesmo tempo em que existe, tambm precisa ser

    construdo. Isto no significa que o processo analtico na esquizoanlise no

    tenha nenhuma direo e, por isso, seja classificado como um trabalho

    inconsistente e ilgico. Trata-se de uma outra perspectiva uma outra lgica

    uma lgica mxima, mas que no reconduz razo ou ao exerccio de uma pura

    recognio.

    O pensador antes de tudo clnico, decifrador sensvel

    e paciente dos regimes de signos produzidos pela

    existncia, e segundo os quais ela se produz. Seu ofcio

    construir os objetos lgicos capazes de dar conta dessa

    produo e levar assim a questo crtica a seu mais alto

    ponto de paradoxo [ ...] (ZOURABICHVILI, 2004, p.

    107)

    A mquina analtica louca sim, mas por refutar qualquer fundamento

    transcendente, por buscar o inesperado de um encontro e por afirmar a lgica

    das contradies e dos paradoxos. Est-se diante de um outro domnio que

    comporta as snteses disjuntivas, ou seja, a positividade da coexistncia de

    elementos que, aparentemente (na ordem molar das identidades), seriam

    Avesso do Avesso, vA, nA. p. 33 - 51. novo 2006 43

  • classificados como excludentes. Aqui se afirma a diferena e no a negao.

    Consideremos os pares vida-morte, pai-filho, homem

    mulher: os tennos a s tm relao diferencial, a relao

    primordial, ela que distribui os tennos entre os quais

    se estabelece. Por conseguinte, a experincia do sentido

    est no duplo percurso da distncia que os liga: no se

    homem sem devir-mulher etc.; e ali onde a psicanlise

    v uma doena, trata-se, ao contrrio, da aventura viva

    do sentido ou do desejo sobre o 'corpo sem rgos'14,

    da sade superior da criana, da histrica, do

    esquizofrnico. (ZOURABICHVILI, 2004, p. 104)

    A noo de multiplicidadel5 acompanha todo o raciocnio desta

    nova lgica, onde as dualidades no so negadas, mas recolocadas em uma

    outra ordem - ordem molar. O processo analtico, ento, produzido no plano

    molecular, no qual as linhas de fuga so inventadas e novas cartografias percorridas.

    Assim, no se buscam curas nem recuperao de algum estado por no se

    considerarem estruturas preestabelecidas. por esta razo que no se podem

    definir neuroses, perverses e esquizofrenias pelo destino das pulses, mas pelo

    14 O termo CsO aparece em Antonin Artaud corno um corpo sem imagem, onde o organismo inimigo do corpo, ou seja, determinada estratificao do corpo. Trata-se de urna experincia onde o CsO a superfcie de toda maquinaria do desejo. Rompe-se com toda idia de organismo, de prefigurao do desejo ou de imagens humanizadas. Este conceito se ope muito mais idia de organismo do que de rgos, por estar o primeiro relacionado a um "funcionamento organizado dos rgos em que cada um est em seu lugar, destinado a um papel que o identifica." (ZOURABICHVILI, 2004, p. 32) 15 "Urna multiplicidade no tem nem sujeito, nem objeto, mas somente determinaes, grandezas, dimenses que no podem crescer sem que mude de natureza (as leis de combinao crescem ento com a multiplicidade)." (DELEUZE e GUATTARI, 2000, p. 16)

    44 Avesso do Avesso, vA, n.4, p. 33 - 51, novo 2006

    ......_ .._--------~-- ..... __.~._-- .. --~

  • modo e espao que elas ocupam num determinado campo social.

    Seria inexato guardar para as neuroses uma interpretao

    edipiana, e reservar s psicoses uma explicao extra

    edipiana. No h dois grupos, no h diferena de

    natureza entre neuroses e psicoses. Porque de

    qualquer maneira a produo desejante que

    causa, causa ltima, seja das subverses psictcas que

    quebram dipo ou o submergem, seja das ressonncias

    neurticas que o constituem. (DELEUZE; GUATIARI,

    1976,p.164)

    Tudo depende do modo pelo qual cada um se posiciona diante dos

    cdigos sociais. Especificamente, quanto esquizofrenia e neurose, parece

    que o esquizofrnico no suporta a edipianizao enquanto o neurtico se deixa

    edipianizar.

    A esquizoanlise ao mesmo tempo uma anlise

    transcendental e materialista. Ela crtica, no sentido

    em que efetua a crtica de dipo, ou leva dipo at o

    ponto de sua prpria autocrtica. Ela se prope a explorar

    um inconsciente transcendental, em vez de metafsico;

    material, em vez de ideolgico; esquizofrnico, em vez

    de edipiano; no figurativo, em vez de imaginrio; real,

    em vez de simblico; maquinstico, em vez de estrutural;

    molecular, microfsico e microlgico, em vez de molar

    ou gregrio; produtivo, em vez de expressivo. Trata-se

    aqui de princpios prticos como direes da 'cura'.

    (DELEUZE; GUATIARI, 1976, p. 143)

    Avesso do Avesso, v.4, n.4, p.33 - 51 , novo 2006 45

  • H, pois, uma esquizofrenia que diz respeito ao fracasso de algum

    que no suportou o regime existente, mas no encontrou sada, malogrou, assim

    como o drogado pode se precipitar morte ou a uma repetio improdutiva por

    querer desfazer os estratos apenas com a droga, por desestratificar muito rpido.

    Da a prudncia, a arte de viver, de manter doses de estratificao que permitam

    a experincia e a passagem para outros estados ou territrios. Perguntou-se a

    Guattari, quando ele esteve no Brasil, sobre a idia de prudncia referida em

    "Mil Plats". Esta pergunta diz respeito aos riscos do trabalho esquizoanaltico,

    pois poderia levar a viagens l6 perigosas que desembocassem em territrios

    improdutivos ou indiferenciados. Um trabalho que, mesmo muito criativo, no

    levaria ningum a lugar algum. A resposta dada por Guattari muita clara e

    simples:

    Ento, ao invs de viagem, eu falaria, de um modo mais

    prosaico, de processo. No existe, a meu ver, nvel

    indiferenciado da subjetividade. A subjetividade est

    sempre tomada em rizomas, em fluxos, em mquinas

    etc.; ela sempre altamente diferenciada, sempre

    processuaL Portanto, um empreendimento, digamos,

    esquizoanaltico, um agenciamento criador, produtor de

    sentido, produtor de atos, produtor de novas realidades,

    algo que conjuga, associa, neutraliza, monta outros

    processos. Mas os efeitos no so necessariamente

    cumulativos. Processos podem se apoiar uns aos outros

    para chegar em territrios mortos. infelizmente o que

    16 A noo de viagem referida aquela tpica dos movimentos anticulturais - trip americana, "com todo o pano de fundo quase mstico que essa noo de viagem tomou, digamos, em toda a Nova Cultura." (GUATIARI e ROLNIK, 2005, p. 332)

    46 Avesso do Avesso. v.4, n.4. p.33 51. novo 2006

  • costuma acontecer muito, o que acontece

    freqentemente, na economia conjugal, na economia

    domstica. Duas pessoas esto envolvidas num processo

    amoroso e esse processo acaba desembocando num

    fechamento territorial, que neutraliza toda e qualquer

    possibilidade de riqueza (inclusive o desejo sexual), todas

    as aberturas. O mesmo pode acontecer com todos os

    outros modos de processo de expresso. (GUAITARI;

    ROLNIK, 2005, p. 332)

    neste sentido que a clnica esquizoanaltica no pode ser pensada

    como uma prtica espontanesta, ou o oposto, uma nova abordagem em clnica

    com procedimentos metodolgicos fechados, uma nova identidade de

    procedimentos. Trata-se de um exerccio clnico rizomticoJ7 Ele perigoso?

    Sim, mas no por ser a improvisao de qualquer coisa, um "libere-se". Se

    assim fosse, poder -se-iam temer os procedimentos estratificados, pois os regimes

    despticos tambm trazem seus perigos de manipulao, de explorao, de mais

    valia. O problema lidar com as rupturas, e estas so inevitveis. Elas so

    sempre produzidas por processos moleculares, maleveis, destitudos de

    implicaes meramente pessoais, psicolgicas, mas que tambm no ocorrem

    em um profundo abismo da indiferenciao. Quando um novo agenciamento

    produzido, tudo muda, da natureza dos processos rizomticos: em cada rizoma

    ocorrem agenciamentos de naturezas, ou regimes distintos. As rupturas so

    17 A noo de Rizoma definida em Mil Plafs (2000, p. 32-33). A noo surgiu da botnica, onde definido como um caule subterrneo responsvel pela produo de ramos areos com caractersticas de razes. Deleuze e Guattari ampliam a noo articulando-a a uma rede conectiva de vrios sentidos.

    Avesso do Avesso, v.4, n.4, p. 33 - 51, novo 2006 47

  • irreversveis e no esto restritas a cadeias semiticas, ou seja, est-se falando

    de planos18, de diferentes plats 19.

    Mas, ao buscar novas possibilidades no plano clnico, correm-se alguns

    riscos em decorrncia dos deslocamentos de sentidos provocados pelos rizomas

    e suas linhas de fuga. Seria como um "ato-perigoso", tal qual alertou Foucault

    em "As palavras e as coisas" (1999, p. 453):

    Antes mesmo de prescrever, de esforar um futuro, de

    dizer o que preciso fazer, antes mesmo de exortar ou

    somente alertar, o pensamento, ao nvel de sua existncia,

    desde sua forma mais matinal, , em si mesmo, uma

    ao - um ato perigoso. Sade, Nietzsche, Artaud e

    Bataille o souberam, por todos aqueles que o quiseram

    ignorar; mas certo tambm que Hegel, Marx e Freud

    o sabiam.

    Enfim, o que se pretende supor a subjetividade em sua relao com

    o Fora20, encontrar novos ares na exterioridade, e no na interioridade, onde o

    ar, por no circular, est envenenado e condenado, assim, morte.

    A esquizoanlise ou a pragmtica no tem outro sentido:

    18 Trata-se de um certo tipo de plano: o de imanncia. Tal plano difere do plano de referncia,

    das organizaes, das idealidades transcendentais, pois so processos onde operam toda

    ordem de fluxos em constantes mutaes e engendramentos.

    19 "U m plat um pedao de imanncia. Cada CsO feito de plats. Cada CsO ele mesmo

    um plat, que comunica com os outros plats sobre o plano de consistncia, ou imanncia.

    um componente de passagem." (DELEUZE e GUATTARI, 1999, p. 20)

    20 Este conceito impe um contraponto radical com a noo de transcendncia, quando

    mostra que a experincia no est submetida a representao. Trata-se de uma outra

    ordem a da impessoalidade - no domnio das foras.

    48 Avesso do Avesso, vA, nA, p.33 51, novo 2006

  • faa rizoma, mas voc no sabe com o que voc pode

    fazer rizoma, que haste subterrnea ir fazer

    efetivamente rizoma, ou fazer devir, fazer populao no

    teu deserto. Experimente. (DELEUZE; GUATTARI,

    2002b,p.35)

    Este o desafio da esquizoanlise: manter a prudncia e a suavidade

    mesmo que enfrentando as batalhas e as resistncias dos modos cristalizados de

    subjetivao.

    Parece que Deleuze e Guattari concordam plenamente com

    Fernando Pessoa quando afirma: navegar preciso, viver no preciso!!

    CORRA, Sandra Loureno. Schizoanalysis: Clinic and Subjectivity. Avesso

    do Avesso, Araatuba, v. 4, n. 4, p. 33 - 51, novo 2006.

    Abstract: This article intends to ponder on the subjectivity as the process forrned

    by multiple possibility lines ofexistence, typical ofcome to be, which, through

    experiment, can produce singularizing processes. The schizoanalysis refutes any

    binary logic, dualistic or related to identical, of the notion of subjectivity,

    understanding that these aspects correspond to a specific historie - philosophical

    dominium. The analytic process will be ascertained in its creative and revolutionary

    potency, since the schizoanalysis does not expect to encounter any anticipation

    of desire, when it proceeds with the analysis ofthe unconscious.

    Key words: Clinic. Schizoanalysis. Subjectivity. Singularity.

    Avesso do Avesso, v.4. nA, p. 33 51, nov. 2006 49

    http:2002b,p.35

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    Avesso do Avesso, vA, nA, p. 33 . 51, novo 2006 51

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