EUCALIPTO, FELIZMENTE EXISTE · 1 EUCALIPTO, FELIZMENTE EXISTE Roberto Ferreira de Novais(1)...

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EUCALIPTO, FELIZMENTE EXISTE

Roberto Ferreira de Novais(1)

Comentrios no favorveis ao eucalipto ouvidos por minha filha, atualmente

preparando-se para o vestibular, fizeram com que ela viesse conversar comigo sobre o

assunto, sabendo do meu envolvimento cientfico com essa planta.

Em uma conversa longa, procurei dar a ela uma viso do que se conhece com o

necessrio fundamento cientfico sobre esta planta e seu cultivo, sem, contudo, utilizar a

linguagem cientfica que faria com que nossa conversa fosse mais rapidamente dada por

satisfeita pela minha aluna casual.

Ela estava brincando com uma chave na mo quando iniciamos nossa conversa.

Lembro-me de sua indiferena inicial, prpria da idade de grandes problemas,

outros que no o eucalipto, quando lhe perguntei se para fazer aquela chave alguma

rvore de eucalipto teria sido cortada. Imediatamente, a chave em sua mo ficou imvel,

sua ateno voltou-se para nossa conversa, dada sua expectativa de acerto a mais uma

pergunta com alternativas, o que ela tanto exercitava nos ltimos tempos. Neste caso,

ela era favorecida pela escolha de uma nica resposta entre duas alternativas apenas.

Ouvi um enftico claro que no, seguido de um nada a ver, prprio da idade,

e uma fisionomia do triunfo no apenas por aquele momento mas tambm como um

pressgio do sucesso que teria no vestibular.

Disse-lhe eu: sim, felizmente uma rvore de eucalipto havia sido cortada para

que aquela chave existisse. A fisionomia de triunfo de minha filha mudou-se

imediatamente para a de contestao, no apenas pelo sim mas, tambm, e

principalmente, pelo felizmente.

A justificativa para o sim foi mais fcil: aquela chave embora devesse ser uma

liga de metais, seu principal constituinte ferro. Este metal encontrado na natureza na

forma oxidada Fe3+ ou ferro frrico (linguagem comum ao vestibulando com chances de

sucesso) semelhante ao encontrado na forma de ferrugem em superfcies metlicas e

tambm em nossos solos vermelhos ou avermelhados.

A partir do Fe3+, sem forma definida, sem a rigidez necessria a todos os

produtos do ferro metlico Fe0 e suas ligas como a de uma faca, martelo, motor de

automvel, estrutura metlica de prdios, etc. e a chave como a que ela tinha na mo,

(1) Professor Titular do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viosa

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esse Fe3+ do intil teria que ser reduzido ao Fe0, metlico, do til, como a chave

numa insistncia repetitiva, necessria manuteno da ateno de jovens pouco

antenados.

A ansiedade de minha aluna aumentava, demonstrada na pergunta: e o que faz

o eucalipto?

As grandes reservas de mineral de ferro em nosso pas, como a de Carajs, para

se tornarem teis s diversas demandas do homem, entre elas a chave, o Fe3+ desses

minrios ter que ser reduzido, como j comentado, e voc como brilhante vestibulanda

sabe que para isto este elemento ter que receber trs eltrons. Alguma fonte de energia

ter que suprir esses eltrons que, como se sabe, tambm ilumina ambientes com as

lmpadas acessas, entre muitas outras funes. A fuso de Fe3+ com algum composto

em forma reduzida (com grande estoque de eltrons), como a gasolina e o carbono

fixado C0 , que o carvo que tambm usamos na churrasqueira, iria suprir ao Fe3+

os eltrons necessrios sua reduo a Fe0. Nesse processo, o C0 do carvo torna-se

menos (ou no) energtico e transformado a CO2, como tambm a energtica

gasolina ao ser queimada como combustvel nos veculos motorizados; depois de

cumpridas suas funes libera CO2 para a atmosfera, no cano de escarga

A indstria siderrgica para a produo do ferro gusa a partir dos minrios de

ferro, matria prima para a fabricao de aos especiais e ligas diversas, consome

carvo como redutor suprimento de eltrons ao Fe3+ da natureza.

E aqui comea o envolvimento de eucalipto no processo: matria prima para

fazer o carvo vegetal necessrio obteno da matria prima, o ao, para fabricar

veculos, implementos agrcolas, vergalhes necessrios estrutura do concreto nas

construes, etc., etc. ... e chave, como a sua. Antes que me esquea, adianto-lhe que

carvo tambm necessrio fabricao de armas diversas com revolveres,

metralhadoras, canhes, ... Sua gerao, mais que a minha, saber dar o fim bom ao Fe0

como para a uma construo que d conforto ao homem e no para sua destruio.

Os padres culturais do homem atual no permitiriam, em hiptese alguma,

sobreviver sem Fe0 e seus derivados e esta forma reduzida de ferro no existe sem a

reduo do Fe3+, disponibilizada em grandeza espetacular como se a natureza tivesse

previsto durante a gnese dos minerais de Fe a grande demanda que o homem teria

deste elemento no planeta.

Com um ar abatido da adolescente vencida pelos argumentos, novos para ela,

tentou sua ltima cartada: e voc considera que cortar uma rvore seja felizmente?

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Para justificar o felizmente comecei por perguntar-lhe, mais com o objetivo de

mant-la ligada nossa conversa, sobre as vantagens do carro a lcool em comparao

ao carro gasolina.

Sem o preconceito anterior do eucalipto, sou contra que pelo incio da

conversa, lhe haviam incutido em um crebro ainda receptivo aos comentrios

inquestionveis de professor, numa reminiscncia dos inquestionveis tios do

primeiro ciclo, ela deu uma aula de conhecimento, recheado de entusiasmo.

Sumariando toda a sua conversa, ela disse que o lcool um combustvel

renovvel e o petrleo no era. Assim, o produto final do lcool depois de cumprir suas

funes energticas no carro, era CO2 e este voltava a formar lcool pela fotossntese

das plantas a partir do ressuprimento de eltrons pela luz solar, para energizar, de

novo, o combalido e desgastado CO2 do cano de escarga. Dessa maneira, a concentrao

de CO2 da atmosfera no seria alterada dado um processo de ciclagem viabilizado pela

recomposio do nvel de energia inicial do lcool pelo processo fotossinttico das

plantas, cana de acar, principalmente, no caso do lcool etlico.

Para gasolina, tendo tambm como produto final de sua desenergizao o CO2,

idntico ao da queima do lcool, no h como voltar gasolina a partir desse CO2,

como acontece com o lcool. No haveria ciclagem, ou renovao do combustvel: mais

petrleo seria explorado e transformado em energia mais CO2, num processo crescente

de seu aumento na atmosfera com os conseqentes efeitos-estufa e suas bem conhecidas

e sentidas conseqncias.

Eu disse ento que o petrleo era um mal necessrio e que o homem atual no

sabe, ainda, viver sem sua ajuda. E, por outro lado, o lcool era o bem necessrio e que

tudo indicava que com ele e outras de suas variantes, como o biodsel, poderamos

deixar o petrleo sepultado para sempre onde no causaria mal vida da terra pela sua

impossibilidade de liberar CO2 nessas condies.

A conversa at ento foi uma preparao apenas para justificar de maneira

incontestvel o felizmente para o corte da rvore de eucalipto.

Disse minha aluna predileta que a reduo do Fe3+ poderia tanto ser feita com

o carvo vegetal como com o carvo mineral (coque) retirado de jazidas naturais,

semelhana do petrleo. fonte de energia para diferentes fins como o carvo vegetal:

reduo de Fe3+, aquecimento para fins diversos e, no passado, para o suprimento de

calor, pela sua queima, para movimentar mquinas a vapor o mesmo pode ser feito

com petrleo; observe a enorme semelhana entre o par petrleo e carvo mineral e

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entre o par lcool combustvel e carvo vegetal. No primeiro par no h como voltar ao

produto original e a conseqncia de seus usos seria o aumento do CO2 atmosfrico; no

segundo caso no, como j explicado.

A utilizao do carvo mineral ou coque como redutor, alm de liberar CO2 que

no mais volta origem, libera tambm diversos gases txicos, entre eles aqueles

constitudos de enxofre, matria prima para chuvas cidas, bronquites, etc.

A resposta de minha aluna foi definitiva: concordo! Ainda bem que para

fabricar minha chave cortou-se uma rvore de eucalipto e no se utilizou carvo mineral

ou coque.

Embora ela tenha utilizado ainda bem que mais ameno ou menos impactante

que felizmente, numa reao prpria da idade do concordar com ressalvas, ela me

fez uma pergunta que me deixou feliz: quantas rvores de eucalipto foram cortadas para

fazer o Titanic? Infelizmente, nenhuma, disse-lhe eu, porque naquela poca s se

usava carvo mineral mas sim o coque na indstria do ao; no plantavam eucalipto

como hoje. Terminei fazendo-lhe uma sugesto: pergunte a seu professor se a

construo do Titanic teve alguma culpa nas crises de bronquite que voc tem tido. Se

ele achar que sua pergunta um desproposito, sem sentido, suas chances de aprovao

no vestibular so um pouco menores.

Alguns dias depois de minha primeira conversa sobre eucalipto com minha filha,

ela me apareceu com uma nova pergunta sobre a mesma planta, desta vez com um

sorrizinho maroto, indicativo de vitria antecipada.

Era evidente que seu professor voltara ao tema com um novo argumento contra o

eucalipto, muito provavelmente depois da prensa que deve ter levado de minha filha

com os argumentos anteriores sobre a chave; com certeza, para aflorar mais sua

veemncia, com um misto de prepotncia, ela deve ter comeado a discusso com seu

professor sobre a relao entre o Titanic e suas crises de bronquite. Certamente, o

professor se sentiu perdido, foi convencido por ela quanto a algum grau de dependncia

causal entre as duas coisas e contra-atacou com algum argumento do tipo: mas todo

mundo sabe que o eucalipto seca o solo, e contra isto no h argumento!

De novo, minha resposta deixou minha nova aluna das causas florestais

espantada, agora no mais com o desdm de nossa primeira conversa mas com uma

postura de precauo, sinal que de alguma maneira nossa conversa anterior tinha

mudado sua postura para melhor.

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Minha resposta foi simples e direta: felizmente o eucalipto, como qualquer outra

planta, seca o solo. Esse novo felizmente causava desta vez uma perceptvel

curiosidade e, at mesmo, ansiedade sobre o que tinha para ouvir sobre este aparente

paradoxo do felizmente, seca!.

Para lhe dar o suporte necessrio compreenso de toda a fundamentao

terica sobre o que amos discutir, iniciei falando sobre como os solos so formados a

partir das rochas, num processo denominado intemperismo. O intemperismo causa a

desestruturao da forma compacta da rocha em partculas menores que alteradas

qumica e biologicamente vo constituir o solo ou a terra numa linguagem mais comum.

Embora alguns fatores estejam envolvidos na maior ou menor eficincia do

intemperismo para transformar rocha em solo, uma facilmente imaginada: as

caractersticas da rocha como sua dureza ou resistncia desagregao. Alm disso,

dois outros fatores so extremamente importantes nesse processo do intemperismo:

gua e temperatura. Por exemplo, na Antrtica a quase ausncia de gua lquida ela

seqestrada pelas baixas temperaturas transformando-se em gelo e a temperatura

muito baixa fazem com que nessa regio a existncia de solo, quando ocorre,

incipiente, o que faz com que a existncia de plantas torne-se extremamente precria.

H muitas rochas, riqussimas em nutrientes essenciais s plantas mas, por se

encontrarem presos s estruturas das rochas, as plantas no os acessam. Nessas

condies de ausncia de gua na forma lquida e temperaturas muito baixas o

intemperismo ocorre numa lentido extrema.

gua uma condio essencial s reaes qumicas (hidrlise) que fazem com

que coisas aconteam mmias com mais de 2.000 anos so encontradas em regies

ridas dos desertos do Egito em condies de conservao, mas no o seriam sob mais

de 2.000 mm de chuvas anuais na Amaznia.

medida que o volume mdio de chuvas numa regio elevado, como nos

Cerrados do Brasil Central, comparativamente ao Semi-rido dos Sertes do Nordeste,

ambos em condies de temperaturas elevadas, o solo torna-se muito profundo nos

cerrados algumas dezenas de metros mas no no Semi-rido, com um perfil mdio

de poucos centmetros.

Pode-se deduzir que o volume de gua pluvial que cai sobre uma regio,

mantendo outras caractersticas relacionadas formao dos solos constantes

temperatura, relevo, caractersticas da rocha que deram origem ao solo, entre outros -

um grande definidor da espessura do solo sobre a rocha que lhe deu origem. Portanto, a

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rocha matriz vai se distanciar cada vez mais da superfcie do solo embora, com o tempo,

de maneira menos rpida que no incio quando ela se encontrava junto a superfcie e

sujeita todas as aes desagregadoras do intemperismo. Essa menor lentido de

formao de solo com o tempo conseqncia de sua proteo s aes do

intemperismo por um perfil de solo cada vez mais espeo.

Sumariando: os solos sero profundos (1) em regies planas como nos Cerrados

como que para preparar o tamanho da caixa (perfil do solo) capaz de acumular todo o

volume de gua precipitado durante a estao chuvosa. Por outro lado, no Semi-rido

dos Sertes Nordestinos as pequenas precipitaes pluviais, mesmo em condies de

temperaturas elevadas, fazem com que os solos sejam rasos.

Portanto, as chuvas que caem ao longo dos milnios sobre uma regio talha na

rocha o volume de caixa com a capacidade necessria para estocar o volume de gua

compatvel com o que chega na estao chuvosa: muita chuva, perfis profundos; pouca

chuva, perfis superficiais ou praticamente ausentes como na Antrtica.

Minha filha, j inquieta com a longa conversa que lhe parecia completamente

fora de foco, voltou a carga: e da, porque felizmente as rvores, e o eucalipto como

uma delas, secam os solos? Parece-me um absurdo!.

Vamos abrir mais um parntese sobre o conhecimento de minha aluna a respeito

do que calor especfico da gua. Outra vez, seu interesse em demonstrar como estava

preparada para o vestibular, aflorou com entusiasmo: calor especifico uma

propriedade da fsica que trata da energia necessria em calorias para alterar 1 C a

temperatura de um grama de uma substncia; o calor especifico da gua 1 ou seja

necessria uma caloria para elevar ou abaixar 1 C da temperatura de 1 g de gua.

Uma pergunta adicional deixou claro o quanto o conhecimento adquirido pelos

nossos estudantes, de modo geral, particulado, reducionista: qual o sentido prtico

desta informao, para que serve?

Depois de algumas respostas especulativas, no conclusivas, expliquei-lhe que a

umidade relativa elevada em uma regio fazia com que sua temperatura se mantivesse

mais amena, sem os excessos de calor no vero e de frio no inverno. Este

tamponamento da temperatura era causado pela umidade, dado seu elevado calor

especfico que fazia com que fosse necessria maior entrada de energia na rea para que (1) Comentrios paralelos foram apresentados minha filha como este: Em regies declivosas, como nas montanhas, o solo formado pelo intenso intemperismo erodido pela prpria gua em elevados volumes que ao mesmo tempo que faz solo o transporta para as regies mais planas. Nessas regies declivosas no h tambm razo para perfis profundos para estocar gua como na regio plana, por razes bvias.

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a temperatura se elevasse ou o contrrio: a energia estocada na umidade atmosfrica

compensaria menor entrada de energia sobre a regio durante a noite, no permitindo

quedas bruscas de temperatura, por exemplo. Comentei com minha filha sobre as

temperaturas extremas nos desertos, com temperaturas diurnas acima de 40 C e

noturnas abaixo de 0 C no h umidade no ar bastante para evitar esses extremos.

Por razes semelhantes, compreendia-se a maior participao da gua como

maior componente dos seres vivos, de modo a torn-los menos susceptveis s

alteraes de temperatura do ambiente.

Falamos anteriormente que o regime pluvial de gua de uma regio era um forte

componente da definio da espessura do perfil do solo como caixa programada para

estocar aquela gua que o definiu.

Sabemos tambm que o crescimento de plantas fortemente dependente, de

maneira positiva, do aumento da pluviometria e da temperatura de uma regio; basta ver

as exuberantes florestas tropicais que j existiram ou ainda existem nas costas leste

brasileiras Mata Atlntica e na Regio Amaznica, onde os estoques de nutrientes

originais dos solos foram maiores que os dos Cerrados. Mesmo nos Cerrados, naqueles

locais onde h uma maior reserva de nutrientes no solo e de gua, em algumas posies

topogrficas de acmulo, a vegetao escassa, rala, muda na direo de cerrado, cada

vez mais fechado e com rvores maiores com um perfil j no mais das rvores tortas

dos Cerrados.

E agora o ponto importante de nossa conversa: as chuvas mais intensas nesses

ambientes de vegetao natural com maior biomassa devero encher a caixa por elas

mesmas preparadas ao longo dos milnios. Essa gua estocada, uma condio tambm

para a ocorrncia de grandes rvores, dever ser esvaziada no perodo de estiagem

para que a gua das chuvas no prximo perodo chuvoso tenha caixa disponvel no solo

para ser, de novo, estocada.

Nossa qualidade de vida existe porque durante o esvaziamento da caixa, que

lento e gradual ao longo dos meses mais secos, e em particular durante o dia quando a

transpirao ocorre em taxas elevadas, a umidade relativa do ar mantida em nveis

mais elevados tamponando a temperatura, diminuindo seus extremos, o que causado

pelo conforto do esvaziamento da caixa dgua.

E a natureza ajustou um ndice de rea foliar (IAF) entre 4 e 5 (indica que a

somatria de todas as superfcies das folhas 4 a 5 vezes maior que a superfcie do solo

onde essas plantas com suas folhas umidificadoras da atmosfera se encontram). Maior

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IAF induz a pensar em maior ganho de energia (eltrons de novo; lembra-se de nossa

primeira conversa?) a gerar maior crescimento, mais biomassa, que intimamente

dependente da perda de gua pela transpirao.

Todo o fenmeno maravilhoso: folhas com grande superfcie para realizar um

trabalho de ganho de energia e aumentar a umidade relativa do ar com suas vantagens,

at mesmo para a prpria planta: mais estmatos abertos, mais CO2 fixado, mais energia

metabolizada e, como no poderia deixar de ser, maior IAF, maior transpirao,

temperatura sem extremos, mais tamponadas, e toda a vida sobre a terra agradece,

inclusive ns. J viram e ouviram sobre a grande importncia de zonas verdes nas

cidades, os parques, as alamedas; poderamos ter como um indicador de qualidade de

vida dos cidados de uma cidade o nmero de rvores por habitantes ou melhor ainda a

rea foliar (AF) no por rvore mas por habitante. Quanto maior a relao AF/habitante

maior seria a qualidade climtica para a populao.

A cidade de Curitiba (Pr) tem 51 m2 de rea verde por habitante, muito superior

aos 4 m3/habitante recomendados pela ONU, em garantia da elevada qualidade

ambiental que essa cidade possui.

Ento, secar o solo pelas plantas uma das maravilhas da natureza? Perguntou

minha filha j sem a resistncia inicial alterao de um conhecimento que julgava

irretocvel. Ento, agora compreendo, disse ela, que nos anos em que as chuvas so

muito mais volumosas, as caixas do solo (perfil) que no foram programadas para

tanto excesso de chuva transbordam; mesmo com a transpirao a todo vapor, h as

enchentes que causam calamidades de toda ordem. Nas cidades, entende-se porque uma

vez que as caixas (os solos) foram impermeabilizados com asfalto ou concreto,

quando chove, toda a cidade torna-se um caos. Mesmo no campo, por ocasio de

grandes chuvas (quantidade e intensidade), uma vez que o perfil do solo foi estabelecido

por fenmenos mdios e no pelos extremos como neste caso, a situao pode tambm

tornar-se complicada pelas enchentes.

Em algumas regies da Costa Leste do Estados Unidos, denominadas

Everglades, pouco acima do nvel do mar, os alagados eram uma constante no

passado o perfil do solo, como caixa para estocar gua era limitado pelo elevado

lenol fretico definido pelo mar. Assim, neste caso a compatibilizao do tamanho da

caixa (perfil do solo) no pde ser definido pelo volume de chuvas uma vez que havia o

limite em profundidade definido por um lenol fretico muito elevado. Nessas

condies, o corte de florestas plantadas de pinus naquela regio somente feito em um

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mosaico de pequenos talhes alternados, deixando-se os intermedirios de p,

transpirando gua para a atmosfera e com isso no permitindo a retomada da regio pelo

alagamento que dificultaria o replantio da rea com florestas, se grandes extenses

fossem cortadas de uma s vez. Nesse caso, pode-se dizer que felizmente aquelas

rvores secam o solo por sustentarem o cultivo por cortes sucessivos ao longo de

dcadas. Em condies no to extremas a seca do solo pelas rvores torna o ambiente

em que vivemos com uma condio climtica umidade relativa e temperatura muito

mais adequada a uma qualidade de vida superior.

O que vai acontecer se eu plantar florestas de eucalipto na Antrtica, onde h

pouca gua lquida, admitindo que a temperatura fosse adequada, ou no Nordeste Semi-

rido onde a gua naturalmente insatisfatria para a vida, de modo geral, pela sua

escassez, perguntou-me minha filha.

Voc mesma poderia responder a essa pergunta, mas vamos l. Haveria

crescimento de uma floresta em um ambiente com forte limitao hdrica? Para essas

condies que foram desenvolvidos os processos de irrigao. Uma floresta de

eucalipto no vai crescer se a limitao por gua for extrema; vai crescer um pouco e

da por diante, somente enquanto houver mais gua para ser esvaziada da pequena

caixa.

Voc no compra uma bomba de grande potncia e capacidade para esvaziar um

poo com um pequeno volume de gua que poderia ser retirada com uma pequena

bomba. Da mesma maneira que h um tamanho de bomba adequado para cada volume

de gua a ser bombeado, h uma vegetao (IAF) com grandeza limitada pelo volume

de gua disponvel para ser transpirada e novamente preenchido com novas entradas de

gua (chuvas) num processo curiosamente em fase. Bomba grande para caixa pequena e

bomba pequena para caixa grande um desperdcio. Portanto, o tamanho da caixa

define o tamanho da bomba e no o contrrio.

Se as rvores no secassem os solos ou morreramos afogados nos perodos das

chuvas, ou pelas temperaturas extremas ao longo do dia e, de maneira mais aguda, ao

longo das estaes do ano.

Alguns dias se passaram sem que minha filha voltasse ao assunto eucalipto.

Provavelmente, seu professor tivesse entendido que coisas relativas ao meio ambiente

no podem ser tratadas com a emoo apenas, que a complexidade do tema no permite

uma anlise simplria, mesmo com a melhor das intenes.

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Resolvi, ento, provocar minha filha com uma pergunta sobre o mesmo assunto

eucalipto dado o retorno que minha aluna predileta teve em nossas conversas

anteriores: sua capacidade de ouvir havia melhorado, j no era necessrio ficar

brincando com uma chave na mo como se a conversa, antes de ser iniciada, iria ser

enfadonha e, por outro lado, ela fazia transparecer que o tipo de conversa que estvamos

desenvolvendo instigava sua curiosidade, provavelmente pelo final inesperado como

nos bons livros de suspense.

Eu lhe perguntei se o eucalipto empobrecia o solo, outra pergunta ouvida com

muita freqncia. Antes que ela me perguntasse o que empobrecer o solo eu lhe

disse: essa expresso significa para ns, que trabalhamos, estudamos e pesquisamos os

solos e a nutrio de plantas, que o eucalipto, como qualquer outra planta, para crescer,

absorve elementos minerais denominados nutrientes e que desta maneira os solos teriam

esses elementos subtrados pela planta e seus estoques nos solos iriam se tornando cada

vez menores, medida que as florestas crescessem.

Compreendo, disse minha filha, s que se este o fato, medida que os

nutrientes vo sendo transferidos do solo para as rvores no h como dizer que os solos

no sero empobrecidos com as florestas, quaisquer que sejam, como as do eucalipto, de

pinus, da Amaznia, entre outras. Vai ser o caos para as futuras geraes! Um sorriso

maroto estampou-lhe sutilmente a face.

Aquela veemncia fechada, acabada com um ponto final e pronto! me fez

transparecer a maneira pouco analtica que provavelmente os assuntos mais abrangentes

eram tratados em sua escola. A biologia provavelmente seria tratada como cincia exata,

sem mais de uma resposta correta, independente de premias e de condies diversas.

Mais como uma pequena provao, o que a faria se manter ligada nossa

conversa, disse-lhe com um ar professoral: felizmente empobrece! Como j antevejo,

essa resposta ser amenizada no final com sua substituio para: h grandes vantagens

para que isto acontea!

De novo para que voc, minha aluna dedicada, entenda o que eu vou dizer

necessrio que compreenda todo um embasamento terico (no muito!) para que o

desfecho de nossa conversa lhe seja convincente, como nos casos anteriores.

Os solos atuam como um sistema bancrio. Os bancos administram nosso

dinheiro de modo a guardar excessos de dinheiro que no bolso poderiam ser submetidos

a perdas diversas, como roubo, gastos por compulso, etc. Guardamos um mnimo no

bolso para os gastos imediatos, mantendo o restante protegido no banco. Quando o

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disponvel no bolso gasto, vamos ao banco, retiramos uma nova quantia para

recompor o bolso; o reverso verdadeiro: a receita de nova quantia de dinheiro faz com

que o excedente migre para o banco.

No solo, ocorre sistema semelhante: um elemento nutriente adicionado

soluo de um solo, por meio de fertilizantes, cinza de queima de um resduo orgnico,

dejetos de origem animal, decomposio de folhas, frutos, razes de plantas, etc. Se os

nutrientes liberados por essas fontes permanecessem na soluo do solos eles,

semelhana de grandes quantias de dinheiro no bolso, poderiam se perder por lixiviao,

volatizao, precipitao, etc. antes que a planta os absorvesse, tirando-os da soluo do

solo de modo a evitar suas perdas. O solo atua de modo semelhante ao sistema bancrio

como conseqncia de suas cargas eltricas negativas e positivas atraindo ons

(nutrientes) de cargas contrrias. As cargas negativas atraem os ctions (com cargas

positivas), como clcio (Ca2+), magnsio (Mg2+) e potssio (K+), e as positivas atraem

os nions, como fosfato (H2PO4-), sulfato (SO42-), nitrato (NO3-), etc. Quando a planta

absorve um nutriente, sua forma retida (adsorvida) na fase slida do solo ir repor o que

foi subtrado da soluo pela planta, e novos ganhos daquele nutriente no solo, como

pela aplicao de fertilizantes, faro com o aumento repentino do nutriente na soluo

migre para a forma adsorvida, tambm denominada trocvel, protegendo, dessa

maneira, possveis perdas.

medida que os solos so submetidos a altos nveis de imtemperismo eles se

tornam o que na cincia do solo denominado solos altamente intemperizados e na

linguagem popular: solos velhos, como numa boa analogia s nossas idades.

Com esse envelhecimento crescente (avanar do imtemperismo), os solos

perdem cargas negativas e, em contrapartida, ganham cargas positivas; portanto, o solo

vai se tornando menos eletronegativo e, por outro lado, mais eletropositivo. Neste caso,

numa anlise apenas aritmtica desse fenmeno, podemos dizer que os ctions como os

nutrientes Ca2+, Mg2+ e K+ podero se perder mais intensamente por lixiviao por

serem permitidas suas presenas em maiores concentraes na soluo do solo a fase

mineral do solo, ou o sistema bancrio solo, torna-se cada vez mais indiferente aos

ctions, perdendo sua eficincia em retir-los da soluo do solo, o que os protegeria.

Por outro lado, os nions estariam cada vez mais protegidos, pela afinidade

crescente entre a fase slida, dado o aumento do nmero de cargas positivas, e assim,

cada vez mais resguardados de possveis perdas. Esse o lado aritmtico, simplista do

fenmeno que deixa a imagem de que com o aumento do imtemperismo o solo seria

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cada vez mais relapso quanto aos ctions mas, por outro lado, mais cuidadoso quanto

aos nions.

Do ponto de vista da qumica de solo, a situao no exatamente esta:

nutrientes catinicos principais, como Ca2+, Mg2+ e K+, so adsorvidos ao solo por meio

de ligaes muito frgeis eletrovalncia ou atrao eletrosttica enquanto os nions

como fosfato e sulfato so adsorvidos ao solo por ligaes covalentes, de alta

estabilidade. A ligao do fosfato (fsforo, generalizadamente) no solo, por essa razo,

to estvel que comum a planta no conseguir absorv-lo em quantidades

necessrias dada sua restrita liberao para a soluo.

Sumariando, podemos dizer que os solos jovens, pouco imtemperizado como os

do Canad, por exemplo, tero muitas cargas negativas e pela quantidade compensando

a m qualidade da ligao com aqueles nutrientes catinicos, e a pequena presena de

cargas positivas, bastante para evitar lixiviao de fosfato, entre outros nions, mas no

tanto a ponto de o solo competir com a planta por este nutriente, como ocorre nos solos

de Cerrado, de modo geral, por exemplo. Por outro lado, no outro extremo, os solos

muito intemperizados, como a maior parte de nossos solos um bom exemplo so os de

Cerrado no favorecem as plantas quanto baixa reteno de Ca2+, Mg2+ e K+ e, por

outro lado, so extremamente vidos por fsforo, entre outros nutrientes; este nutriente

no perdido por lixiviao mas tambm no disponibilizado planta nos padres de

qualidade como encontrado nos citados solos jovens do Canad, entre outros.

Agora, depois de tanta conversa de embasamento para a compreenso do

assunto, apesar de minha filha j se encontrar agitando nervosamente uma caneta em

suas mos, demonstrando ausncia crescente minha conversa, consegui acalm-la

com a volta pergunta inicial:

Compreende agora porque felizmente florestas e entre elas o eucalipto

empobrecem o solo, perguntei-lhe para que sasse da letargia em que eu a teria metido.

A resposta foi um lacnico no!

Agora eu j tinha como justificar esse ltimo felizmente; alm de tudo, minha

aluna voltou a ficar ligada, o que era bom. Comecei minha explicao com uma

pergunta: Voc j imaginou ganhar sozinha todo o bolo de uma Sena acumulada e

coloc-lo num banco absolutamente no confivel?

Os nossos solos mais intemperizados poderiam, dessa maneira, ser comparados a

esse banco no confivel.

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Portanto, em muitos dos nossos solos, de modo particular naqueles que a

fertilidade originalmente no era to limitante ao crescimento das plantas, em um

ambiente com muita chuva e temperaturas convenientemente elevadas, como na Marta

Atlntica e na Regio Amaznica, os nutrientes esto imobilizados na biomassa

exuberante dessas florestas e, pode-se dizer, praticamente ausentes nos solos.

Portanto, os nutrientes enquanto imobilizados na vegetao dessas florestas estaro

resguardados de perdas significativas enquanto, se no solo, no estariam.

primeira vista, parecem ser incoerentes macios florestais como esses,

crescendo em solos to infrteis. Umidade e temperaturas elevadas, e pequena reserva

de nutrientes mais a ciclagem de nutriente na planta nutrientes passando tambm por

fora da rvore, por meio da queda de folhas, frutos que decompostos liberam os

nutrientes que, de novo, sero absorvidos pelas plantas permitiu o milagre na

linguagem humana e sapincia na linguagem da natureza.

Observe que o solo quando jovem um bom banco para evitar perdas de

nutrientes e, nestas condies, a presena de florestas como um banco adicional e

confivel a garantia global otimizada de preservao da qualidade ambiental para as

geraes futuras. Portanto, os nutrientes em florestas do Canad, em nosso exemplo de

solos pouco intemperizados, jovens, esto duplamente protegidos, fazendo com que a

sustentabilidade da qualidade produtiva da biomassa e, no menos importante, da

qualidade climtica e ambiental, seja a maior possvel naquelas condies.

Um pera a de minha filha, com um ar de quem poderia estar sendo enganada,

interrompeu minha conversa. E ela disse: at agora voc no falou, em suas

comparaes, utilizando as culturas de arroz, milho, soja, entre outras! No h como

voc dizer que a cultura da soja no um banco de nutrientes to bom como as

florestas nativas! E a comparao entre florestas nativas milenares intocadas e,

idealmente, intocveis e as florestas de eucalipto?

Senti-me entusiasmado com a evoluo de nossa conversa. Ento, disse-lhe em

tom verdadeiro e no apenas como estimulante do ego de minha aluna e filha a

responsabilidade era dupla, uma vez que deveria acrescentar-lhe conhecimento e

crescimento humano : vou comear com uma nova metfora. Se voc dirigir um carro

a 80 km/hora mais ou menos seguro que a 130 kg/hora? Certamente, meu risco de

morte menor a 80 km/hora mas, por outro lado, chego mais depressa andando

velocidade maior. Observao lgica, disse-lhe eu. Voc compara o benefcio de chegar

depressa com o custo possvel de perder a vida. Voltaremos a essa conversa custo

14

benefcio mais frente. Um parntese para voc acompanhar meus argumentos: Os

cultivos de soja, milho, entre muitos outros que tm apenas uma espcie plantada na

mesma rea, so denominados monoculturas. So tambm monoculturas a pastagem, o

cafezal e, no se esquea, tambm, o eucalipto, contrariamente s florestas nativas com

centenas ou mesmo milhares de espcies convivendo no mesmo ambiente.

Voltando velocidade de sua viagem, temos nas florestas nativas um carro

parado na garagem voc nunca perder a vida com uma batida, mas como custo no

vai a lugar algum, a chave no poder ser feita no caso do eucalipto, com ciclo de

corte de seis a oito anos, podemos assumir que a velocidade correspondente seria

intermediria, 80 km/hora, com algum risco de morte, mas menor que naquela

correspondente s culturas como a soja ou milho, 130 km/hora.

No vejo relao alguma de nada com nada, disse minha filha, com ar de

zangada.

Vamos ento, inicialmente, juntar essa idia da velocidade da viagem quela

anterior de planta como um banco de preservao de nutrientes. Se o ciclo de cultivo

do milho, soja, algodo e diversas outras, de trs a quatro meses apenas e o resto do

ano oito a nove meses o banco planta praticamente desativado, transferindo-se a

responsabilidade para a manuteno dos nutrientes para o sistema quase falido banco

solo tropical.

Voc acha que a sustentabilidade desse sistema vai ser to boa como em

florestas nativas, com o banco sempre ativo?

O claro que no! de minha aluna foi indicao de que meus argumentos agora

estavam sendo compreendidos; que as peas comeavam a se juntar preparando-lhe a

base para a compreenso de nova peas que ainda seriam juntadas.

Voc nota, insisti, que o eucalipto fica no meio do caminho nessa comparao,

soja versus floresta nativa, em cima do muro, como dizem vocs. Todavia ele, o

eucalipto, desativado a cada 6-8 anos e reativado poucos meses depois, com o

plantio de nova floresta durante todo o ano, contrariamente quelas monoculturas, em

que o plantio vai se dar no incio do novo perodo chuvoso. Portanto, durante um ciclo

mdio de sete anos da floresta de eucalipto, o banco eucalipto est ativo; por outro

lado, o banco soja, com um ciclo mdio de quatro meses, vai estar ativo em apenas

2,3 anos ao longo dos sete anos do eucalipto. Observe que tanto a maior velocidade do

carro como a da cultura para fechar seu ciclo de produo leva, semelhantemente, a

15

situaes de insustentabilidade da vida numa batida, no primeiro caso, ou da

insustentabilidade do sistema solo-planta como fator de produo agrcola no segundo.

Nessa comparao de tempo de utilizao e de cobertura do solo com planta,

mantendo-o no exposto, uma srie de consideraes devem ser feitas:

1. Em condies tropicais, a exposio do solo luz e, por conseguinte, a elevadas

temperaturas causa perdas de matria orgnica do solo (indicador da qualidade da

sustentabilidade da produo agrcola dos solos, particularmente dos mais

intemperizados); danos a microbiota do solo, ciclos mais rpidos de umedecimento e

secagem dos solos (observe que sob uma floresta os solos tendem a se manter mais

midos) que causam a compactao do solo; certamente aumento da perda de umidade

do solo por evaporao (lembre-se que quando transpirada, a gua, entre outras

vantagens, pode causar crescimento de plantas).

Uma observao: voc deve utilizar bloqueador solar de modo mais sistemtico

em condies tropicais para que no tenha a pele manchada, cncer de pele, etc. O

bloqueador solar para os solos, tambm aqui em condies tropicais de modo especial,

so as plantas, mantendo-os sombra. De novo: na floresta nativa o bloqueador solar

est sempre presente; no eucalipto ele permanece continuamente na maior parte durante

ciclos de sete anos e alguns meses sem ele entre o corte e o replantio (ou brotao) de

uma nova floresta; nas culturas anuais h quatro meses com e o restante do ano sem

bloqueador(1).

2. Sete ciclos de cultivo enquanto ocorre apenas um de eucalipto permite entender

que a mecanizao ser mais freqente nos monocultivos: para o cultivo da soja haver,

pelo menos, um trfego de mquinas para o plantio e um para a colheita, a cada ano,

enquanto para o eucalipto processos semelhantes devero ocorrer a cada sete anos

apenas.

A mecanizao dos cultivos agrcolas trfego de mquinas uma das

principais razes para a compactao dos solos, principalmente quando conduzida em

perodos chuvosos que tornam o solo mais propenso e facilmente compatvel. Essa

alterao do solo particularmente danosa em solos tropicais muito intemperizados

(solos velhos) dada a baixa resilincia poder de recuperao da forma original, antes

do estresse desses solos, contrariamente aos solos do Canad, com elevada resilincia.

(1) Com o plantio direto, esta situao foi parcialmente corrigida embora o plantio convencional ainda prevalea em muitas regies e culturas. O cultivo de eucalipto tem sido feito por todas empresas de produo de carvo ou celulose no Pas por meio de plantio direto ou cultivo mnimo.

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A frao argila dos solos mais intemperizados muito pouco ativa, constituda

predominantemente de xidos e hidrxidos de ferro e alumnio, com alta estabilidade de

volume, independente da maior ou menor umidade do solo. Por outro lado solos pouco

intemperizados (Canad) tem argilas com alta atividade que aumentam de volume

(at dobram) quando midas e diminuem quando secas so chamadas argilas

expansivas (argilas do tipo 2:1, como vermiculita e montimorilonita). Portanto, a

simples alternncia entre umidecimento e secagem dos solos do Cerrado, por exemplo,

pode causar compactao como comentado no item anterior e, contrariamente,

descompactao nos solos jovens, pouco intemperizados.

Verifica-se que tambm, quanto aos padres ideais de fsica de solos para o

crescimento de plantas otimizao dos fluxos de gua e de gases entre solo e

atmosfera, por exemplo os solos jovens tm grandes vantagens sobre os solos

velhos. Aqui, muito mais que no Canad, a mecanizao dos solos pode se tornar um

problema crescente com os cultivos.

medida que nossos solos so compactados, a infiltrao de gua das chuvas

diminui (menor condutividade hidrulica), conseqentemente, o perfil ter menos gua

para ser esvaziado, mais enchentes nas chuvas e maiores dficits hdricos nas secas

(menor umidade relativa do ar e temperaturas com maiores flutuaes ao longo dos dias

e do ano, como j comentado).

Nota que esta a direo da compactao do solo para o extremo, que acontece

nas grandes cidades, com suas superfcies impermeabilizadas. Por outro lado, nessas

condies, no campo h grandes perdas de gua e de solo, principalmente da camada

superficial, mais frtil e com mais matria orgnica, pelos processos erosivos.

Todo esse processo indesejvel segue, para condies semelhantes de

declividade, tipo de solo, etc., a seguinte ordem crescente de insustentabilidade: mono-

cultivos anuais > pastagens > florestas de eucalipto > florestas nativas.

3. Quando comparados ciclos distintos entre cultivos, alteraes prprias do status

nutricional do solo para cada caso devem ser consideradas. Como j comentado a

eficincia, a confiabilidade do banco planta aumenta na direo: cultivos anuais

< pastagens < eucalipto < florestas nativas.

Alm do tempo de atividade do banco planta ao longo dos anos, h diversas

outras variveis embutidas nessa comparao que merecem aprofundamento.

Resultados de pesquisa sobre o assunto mostram que monoculturas como da soja

demandam mais nutrientes aplicados ao solo na forma de fertilizantes por unidade de

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produto econmico final gros de soja ou por unidade de tempo de rea

disponibilizada para seu cultivo, que o eucalipto com seus produtos madeira, carvo,

celulose, leos essenciais resultados no comparveis com as florestas nativas, que

no so fertilizadas e no existe um tempo definido de cultivo.

Retirados os produtos da rea de cultivo e os nutrientes minerais neles contidos,

ficam os resduos que sero mineralizados, voltando os nutrientes contidos nesses

resduos, ao solo depois de emprestados planta para estabelecer a fbrica de

produtos energizados. Sabe-se tambm que a quantidade de nutrientes minerais

imobilizados na parte area da planta durante seu ciclo de cultivo e que volta ao solo em

relao a quantidade que sai da rea na forma de produtos (eroso de ponteira)

muito maior para a cultura da soja que para a do eucalipto, quando se tem apenas o

lenho retirado da rea como tcnica recomendada para o cultivo do eucalipto. Portanto,

o solo muito mais solicitado como fonte de nutrientes para a soja que para o eucalipto,

para o mesmo perodo de utilizao do solo com essas duas espcies. De novo, trs

aspectos principais devem ser considerados nessa comparao soja x eucalipto: o tempo

necessrio para que os nutrientes imobilizados nos resduos da parte area voltem ao

solos (mineralizao dos resduos com a liberao dos nutrientes para o solo, ou na

nossa linguagem bancria: tempo necessrio para que o banco planta devolva o

emprstimo para o banco solo); a exausto dos nutrientes do solo enquanto a planta os

absorve, com conseqncias diversas aos solos enquanto temporariamente

empobrecidos; e a grandeza dessas retiradas numa escala de tempo: para a soja esta

retirada (emprstimo) ocorre durante quatro meses enquanto para o eucalipto ele

ocorre durante sete anos.

Cada um desses trs aspectos merece comentrios adicionais:

a- Os nutrientes minerais imobilizados nos resduos da soja (raiz, caule, folhas e

palha das vagens) voltam ao solos em um perodo de no mais que um ms aps a

colheita. H, assim, uma liberao rpida de grandes quantidades dos nutrientes ao solo,

este com qualidades duvidosas quanto ao poder de ret-los no ritmo intenso da

devoluo. Lembre-se que a absoro desses nutrientes do solo pela cultura deu-se

durante um perodo de quatro meses em contraposio a um perodo de reposio de

apenas um ms. Se o banco planta mais confivel que o banco solo,

principalmente quando esse solo alm de muito intemperizado textura mdia ou

arenosa, teramos nesse processo de troca de bancos um favorecimento a perdas de

nutrientes na alternncia desfavorvel ao tempo de participao do sistema protetor em

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relao ao sistema de menor proteo: a resultante entre a alternncia entre o bom e o

mau, em tempos iguais, dever ser zero; por outro lado, maior tempo com o bom, a

resultante dever ser positiva e, ao contrrio, maior tempo com o mau a resultante

dever ser negativa.

No caso do corte da floresta de eucalipto, os resduos so constitudos por uma

gama mais ampla de tecidos quanto taxa de mineralizao (velocidade com que o

resduo mineralizado). As folhas so mineralizadas em um perodo de tempo no

superior que um ms; os galhos finos um tempo maior alguns meses os galhos mais

grossos numa escala de tempo de anos; as cascas deixadas no campo em um tempo

maior ainda, e os troncos e razes em um tempo superior ao ciclo da cultura em uma

cintica varivel com o dimetro das razes, tecidos constitutivos das razes e tronco,

etc.

Portanto, para o eucalipto, o retorno ao solo dos nutrientes imobilizados nos

resduos da explorao florestal ocorre de maneira mais lenta e gradual, em um perodo

de tempo total superior ao ciclo de explorao da cultura.

Esse o caso, contrario ao da soja, em que a participao do banco bom

(planta eucalipto) superior ao do banco mau (solo) com uma esperada resultante

positiva na sustentabilidade dos nutrientes nos solos.

b- Quanto exausto de nutriente do solo e sua reposio parcial com a volta dos

resduos na colheita, tem havido um pensamento que se o balano de nutrientes do solo

sada na forma de produtos e reposio por meio de fertilizantes no for negativo ou,

idealmente, positivo, o sistema solo no perderia sua sustentabilidade qumica para

manter a produtividade de biomassa ao longo das geraes.

Esse balano tem uma viso parcial de um todo que deve ter nos elementos

(nutrientes) do solo funes adicionais que a de simplesmente nutrir as plantas. O

clcio, por exemplo, tem funes extruturais no solo, como condicionante da agregao

de partculas do solo, aumentando seu espao de macroporos, viabilizando maiores

fluxos de gua e de gases nos solos, com suas vantagens como j fartamente discutido.

Este elemento est entre aqueles absorvidos pelas plantas em maiores quantidades.

Sabe-se tambm que esses nutrientes, como o clcio, tm funes seculares no solo, de

modo particular, e conhecido, aprimorando as propriedades fsicas do solo,

minimizando os j comentados problemas da impermeabilizao do solo, na

linguagem anteriormente utilizada, com suas conseqncias sobre o tambm discutido

balano hdrico solo-planta-atmosfera.

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Quando h retiradas intensas e rpidas de clcio(1) como no caso da soja e de um

modo mais lento e gradual, com intensa ciclagem biogeoqumica a partir dos trs anos

(o clcio imobilizado em folhas, cascas, razes mortas, etc. liberado pela mineralizao

desses resduos e reabsorvido pela planta sem uma demanda adicional ao solo), como

o eucalipto, imaginar que com a reposio deste clcio via calagem assim que seus

teores no solo se tornarem baixos, aps os cultivos, est tudo resolvido, uma

percepo simplificada de um fenmeno muito mais complexo que uma simples

manuteno de um balano positivo entre entradas e sadas deste nutriente dos solos.

c- Voltamos ao carro viajando a 130 km/hora (soja) a 80 km/hora(eucalipto) ou

parado na garagem (mata nativa) e os riscos de morte do motorista.

A soja ao longo dos sete anos de um ciclo do eucalipto submete o solo a sete

cultivos: sete retiradas e sete reposies de nutrientes, entre eles o clcio de nosso

exemplo, numa retirada deste nutriente do solo e sua devoluo ao solo numa grandeza

em torno de sete vezes maior que a ocorrida num ciclo de eucalipto. Pode-se imaginar

as conseqncias para os ciclos de empobrecimento x enriquecimento do solo em to

curtos espaos de tempo. Lembra do que dissemos sobre o maior nmero de ciclos de

umedecimento e secagem causando maior compactao em nossos solos,

comparativamente a um menor nmero de ciclos sob florestas?

Vamos imaginar esta situao de outra maneira: h uma planta perene que voc

deseja cultivar em solo naturalmente infrtil, como os de Cerrado em geral. Para faz-la

crescer voc obrigado a adicionar todos os nutrientes minerais na forma de calcrio e

fertilizantes de modo a tornar vivel o cultivo. Em um talho voc cultiva esta planta

por um ano, corta sua parte area sem retirar nenhum resduo da rea; deixa toda a

biomassa em decomposio por um ano quando se espera que os nutrientes, em suas

formas minerais, voltem ao solo. Voc planta de novo a mesma planta (espcie) e um

ano mais corta sua parte area, deixa-se um ano e repete o processo dez vezes,

perfazendo um perodo de tempo total de 20 anos.

Em um talho ao lado, igualmente fertilizado, voc planta a mesma espcie, no

mesmo dia do plantio inicial anterior, e no o corta durante 20 anos. Observe que voc

elevou o status inicial de nutrientes do solo a um nvel bem acima do originalmente

(1) Situao semelhante ocorre com o nitrognio como componente essencial matria orgnica do solo um dos indicadores mais utilizados pela literatura como medida da sustentabilidade da qualidade do solo como componente da produo agrcola. O enxofre, como o nitrognio e o fsforo, componente tambm essencial matria orgnica do solos, sua microbiota e diversos outros componentes e processos com funo de longo prazo secular mesmo.

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existente anteriormente, em equilbrio secular. No primeiro caso, os nutrientes foram em

boa parte absorvidos e imobilizados na planta, protegidos pelo confivel banco planta

durante 10 dos 20 anos do experimento, enquanto em boa parte dos outros 10 anos os

nutrientes voltaram para o pouco-confivel banco solo do Cerrado. Digo boa parte

dos 10 anos porque logo que a planta cortada os nutrientes no so imediatamente

liberados pela biomassa, indicando que uma liberao (mineralizao), mais lenta dos

nutrientes pelos resduos, o que , portanto, mais conveniente para evitar maiores perdas

de nutrientes do solo como no caso da liberao mais rpida.

Em qual das duas situaes os nutrientes aplicados inicialmente no solo

permanecero em nveis mais prximos ao inicial?

Minha filha, em uma linguagem prpria sua idade disse: h um banco do bem,

a planta, e um banco do mal, o solo; assim, quanto menos o banco do mal participar

desse jogo melhor, a reserva de nutrientes vai permanecer na rea, mesmo que

predominantemente na planta o pacote solo + planta ter mais nutrientes no caso da do

cultivo contnuo durante 20 anos do que no intermitente com 10 cortes.

Perguntei-lhe, ento, o bvio: e se a comparao fosse entre o cultivo do milho,

com ciclo de quatro meses, do eucalipto com sete anos e da mata nativa com ciclo

infinito (no cortada), tendo-se inicialmente uma mesma fertilizao, constante, em qual

dos cultivos os nutrientes seriam mais preservados?

veio voc esta achando que eu sou tosca.

Embora eu no gostasse do veio (velho) e ela tivesse que me explicar o que

significa tosca (boba, debiloide), eu me dei por satisfeito com sua resposta, embora

dita de maneira transversa.

Em mais uma metfora: bancos que guardam nosso dinheiro lucram mais e

tambm nos pagam mais por isto quando deixamos nosso dinheiro l parado por mais

tempo; em ciclos de tempo menores entre aplicaes e retiradas, pode-se chegar a um

ponto que comeamos a pagar ao banco para ele guardar nosso dinheiro.

Em suas interminveis apostilas e um sem nmero de listas de questes de

vestibulares formuladas por universidades e cursinhos, minha filha encontrou um

comentrio sobre eucalipto a temporada de caa ao eucalipto estava aberta!

A leitura do comentrio me sugeriu, de novo, a viso simplista de um fenmeno

complexo e, por sinal, muito interessante.

O comentrio era o seguinte:

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O eucalipto, por exemplo, libera atravs de suas razes uma substncia

txica (toxina), que impede a germinao de plantas a seu redor. Isso evita que

outras plantas possam competir com ele para obter gua ou nutrientes do solo.

Ao redor do eucalipto no crescem outros vegetais. Mais dois exemplos: a

aroeira e o ip, duas rvores comuns no Brasil.

Por tudo que j havamos falado sobre essa planta, percebi na fisionomia de

minha aluna um misto de curiosidade e do-no-desejo de antecipar opinies, contrrio

ao que fazia com freqncia, mesmo que o assunto no fosse de seu domnio. Bom

sinal!

Provavelmente, esta postura de minha aluna era conseqncia dos

desdobramentos imprevisveis que nossas conversas anteriores haviam tomado.

Como das vezes anteriores, iniciamos nossa conversa de modo a dar minha

aluna as informaes bsicas sobre o fenmeno alelopatia. Esta uma palavra que

vem do grego: allelon = de um para outro (mtuo) e pathos = sofrer (prejuzo), ou seja,

a influncia de um indivduo sobre outro. Para voc imaginar a importncia desse

fenmeno, disse-lhe, existe a Sociedade Internacional de Alelopatia que trata do

assunto com a profundidade cientfica que merece. E, segundo essa Sociedade,

alelopatia definida como o processo envolvendo metablitos secundrios(1) produzidos

por plantas, bactrias e fungos que influenciam o crescimento e desenvolvimento de

sistemas agrcolas e biolgicos.

De maneira mais simples, para o caso particular de plantas, alelopatia diz

respeito produo de compostos qumicos ou metablitos denominados aleloqumicos,

que liberados por uma planta podem inibir ou prejudicar a germinao e, ou, o

crescimento e desenvolvimento de outras plantas prximas.

Embora menos freqente, os efeitos elelopticos podem tambm ser no sentido

de beneficiar uma planta ou microrganismos na vizinhana da planta que libera o

eleloqumico.

Esses aleloqumicos so constitudos por diversas substncias, como fenis,

alcalides, cidos graxos, taninos, solanina, etc. e produzidos como conseqncia da

evoluo das plantas (ou de outros organismos) no sentido de se beneficiar de uma

vantagem comparativa contra a ao de plantas vizinhas, de microrganismos, vrus,

insetos ou predadores em geral.

(1) So compostos orgnicos produzidos por um organismo, sem a essencialidade sua vida, como ocorre no metabolismo primrio.

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Esses aleloqumicos encontram-se em diferentes partes da planta, sendo

liberados no ambiente pelos tecidos vivos e, ou, pelos resduos em decomposio.

H diversas plantas que apresentam atividade aleloptica; entre elas h: a cevada

(voc sabia que dela feita a cerveja?), batata doce, trigo, algumas variedades de arroz,

sorgo, aveia, girassol, alfafa, canela, algumas plantas de cerrado como a lobeira ou

fruta-do-lobo, e at mesmo do capim-citronela (voc dever tomar seu ch na poca do

vestibular para ficar calminha um meio sorriso de desaprovao piada ficou

estampado no rosto de minha filha), pinus, e tambm, o eucalipto, entre muitas outras

plantas estudadas e muitas outras ainda no avaliadas.

Para voc ter uma idia do significado do fenmeno, os restos culturais da

lavoura de trigo podem retardar o crescimento de algodo ou de arroz cultivados em

sucesso ao trigo; os restos culturais da soja podem inibir o crescimento de razes de

plantas de milho em sucesso. A atividade aleloptica do trigo to intensa, que

extratos de suas folhas podem inibir a germinao de sementes e o crescimento do

prprio trigo.

Que irado, disse minha filha. Depois de sua traduo, entendi que ela quis

dizer legal, gria de minha juventude. Estvamos conseguindo nos comunicar!

Ao irado, ela acrescentou: e o felizmente no se aplica mais? O sarcasmo

era evidente!

Voc j foi assaltada por um pivete (uma das neuroses de minha filha)? Graas a

Deus, no! Foi sua resposta imediata.

Graas a Deus mais forte que felizmente? Claro que , disse-me ela. timo!

Pensei eu.

O eucalipto, como todos esses exemplos de plantas com diferentes graus de

atividade aleloptica so iguais a ns quanto a pivetes ou ladres. Olha s nossa casa:

tem alarme, cerca eltrica, por sabermos que apenas portas e chaves no evitariam a

entrada de visitantes inoportunos. O nosso carro tem alarme e se morssemos em uma

cidade maior, trocar o carro atual por um blindado seria uma hiptese a ser cogitada.

Observe que no nosso caso utilizamos diversos aleloqumicos, semelhantemente

produzidos por ns homens, para no sermos molestados por invasores que querem se

apoderar de nossos bens. Em casos extremos, adquirimos armas de fogo para no caso de

todos aqueles aleloqumicos falharem, termos um ltimo, com elevadssimo poder

aleloptico.

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Felizmente, temos grande atividade aleloptica, atualmente, o que nos d a

segurana de no sermos importunados. Lembra-se quando, no passado, nossa casa

ainda no tinha toda a segurana atual, e fomos roubados (uma devassa!)? Lembro-me,

disse-me ela com ar desolado, antevendo onde aquela conversa ia dar. Para encurtar a

conversa ela disse, com forte entonao:

Felizmente, temos muitos aleloqumicos! Posso dormir tranqila!

E por que felizmente para ns e no para o eucalipto, para o arroz, trigo,

girassol, lobeira entre muitas outras plantas? Minha aluna brilhante preferiu ficar calada.

Apenas trs comentrios para darmos esse assunto por encerrado, disse-lhe eu:

Num primeiro comentrio, podemos considerar os aleloqumicos que, primeira

vista, poderiam ser considerados como vilo entre as plantas tm se mostrado como

alternativa futura para o controle biolgico (natural) de plantas invasoras, pragas e

doenas em substituio aos herbicidas, bactericidas, fungicidas e inseticidas usuais,

sintticos. Pesquisas neste sentido j esto em andamento em diversas partes do mundo.

O meio ambiente agradecer.

Portanto, o vilo na viso simplista do desinformado sobre o assunto dever se

transformar em mocinho, e as futuras geraes podero comemorar com um felizmente

a existncia dos aleloqumicos. Ns, na tranqilidade de nossa casa, com os nossos

aleloprotetores j comemoramos de maneira semelhante.

Num segundo comentrio, apenas especulativo, mas com o objetivo de aguar

seu esprito analtico: H compostos semelhantes aos discutidos at ento, denominados

fitoalexinas, tambm metablitos secundrios de plantas, que so produzidos em

resposta ao ataque de microrganismos patognicos e insetos, como mecanismo de

proteo das plantas.

Assim, plantas no submetidas aos biocidas sintticos que mal utilizados podem

ser altamente txicos aos homens e animais e biota de modo geral tero com o maior

ataque de pragas e doenas a sntese de biocidas naturais estimulada. Esta a situao

dos cultivos orgnicos. Nessas condies, a maior presena compensatria dos biocidas

naturais nas plantas pode ser considerada completamente inqua cadeia trofica?

Algumas plantas de pradarias acumulam aleloqumicos em seus bulbos,

tornando-os repelentes aos ratos de modo a no inviabilizarem a vida destas plantas. De

modo semelhante, diversas plantas evoluram produzindo metablitos que as tornam

no atrativas ao pastejo pelos animais.

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Bem, comeo a entrar num terreno minado, da especulao, o que pode me

coroar como o desinformado discutindo o complexo, o que tanto temos criticado ao

longo de todo este texto.

De todo modo, pense sobre o assunto: biocidas sintticos versus biocidas

naturais. Ambos indiscutivelmente seguros? Palavra de pai: no sei, mas gostaria

muitssimo de saber.

E num terceiro e ltimo comentrio, vamos voltar ao texto sobre o eucalipto, que

voc encontrou na apostila de seu cursinho.

Efeito aleloptico no pode ser confundido com competio, como diz esse

texto. No crescer plantas debaixo de uma mangueira frondosa conseqncia de

competio por luz. Na alelopatia, a planta adiciona ao meio um aleloqumico, um

produto de seu metabolismo que poder fazer com que outras plantas, em sua

vizinhana, tenham seu crescimento inibido.

Finalmente, os sistemas integrados de cultivos de arroz e soja nos dois primeiros

anos, intercalados ao plantio de eucalipto e depois o cultivo de braquiria at o corte da

floresta (sistema agrosilvopastoril) tem se mostrado extremamente produtivo, em todas

as suas fases, indicando que no houve prejuzo algum s espcies cultivadas pelo

eucalipto, sendo que para a braquiria, com crescimento superior ao que se v em

pastagens da regio, o efeito aleloqumico, se houve, foi positivo, como teoricamente

pode acontecer, pelo que voc j sabe sobre a definio do fenmeno.

Depois de alguns dias de conversa sobre o eucalipto, minha filha, sem um aviso

prvio, expressou todo o seu esprito de contestao comum aos adolescentes com uma

pergunta em tom enftico, mas, com evidente sarcasmo. Quando felizmente do

eucalipto ser infelizmente; h algum caso?

Fiz uma longa pausa para organizar algumas idias e, ento, procurei faz-la

entender que nossas atividades, no apenas aquelas comerciais, mas de qualquer ordem,

relativas s coisas da vida cotidiana, so avaliadas pelo balano custobenefcio. O que

pago por um dado modelo de uma marca de automvel vai me trazer mais ou menos

benefcios que outro, com o mesmo preo, de outra marca e modelo?

mais econmico eu produzir a hortalia que consumo em minha casa ou

compr-la no mercado? Neste caso, a relao custo-benefcio facilmente estimada;

todavia, a satisfao em cultivar minha prpria horta, a melhoria da qualidade de vida

pelo exerccio fsico e mental praticado, podero compensar o custo maior dos produtos

obtidos pelo cultivo da horta em minha casa. Note que dependendo da varivel

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considerada na comparao dinheiro ou satisfao pessoal a escolha entre as duas

opes muda.

Se voc perguntar a um francs sobre a relao custo-benefcio da Torre Eiffel

em Paris ele vai dizer que s h benefcios; por outro lado, para outros que tiveram

algum de seus familiares ou amigo morto pelo suicdio, saltando daquela torre trs a

quatro pessoas por ano se matam desta maneira vo torcer o nariz quando ouvirem

sobre a Torre Eifel.

A cidade de So Paulo, como exemplo, com toda a sua essencialidade e

benefcios vida, disponibilizando conforto aos seus habitantes, tem como razo para o

grande custo sua arquitetura com grandes prdios e o negro do asfalto que absorvem

energia luminosa e a dissipam na forma de calor, mantendo temperaturas

demasiadamente desconfortveis nos dias mais quentes, e tambm no absorve gua

devido s superfcies do solo impermeabilizadas condicionando baixa umidade relativa

do ar com suas conseqncias indesejveis j discutidas. Neste caso, h um benefcio

evidente e, tambm, um custo elevado: recebe-se muito mas paga-se muito tambm, de

diversas maneiras, talvez at mesmo com um balano final negativo quanto qualidade

de vida global.

Com o j elevado e crescente preo da gua tratada em muitas cidades

brasileiras, com todo o seu beneficio, at mesmo pela ausncia de sucedneo, os jardins,

hortas, gramados, que consomem gua, esto sendo eliminados e essas reas

impermeabilizadas pelo concreto; haver com isto menos gua estocada no solo,

enchentes cada vez maiores e menores nveis de umidade relativa do ar, com o seu

desconforto causado a todos porque h cada vez menos gua estocada e tambm menos

plantas para transpir-la. Ento, aumentar o preo da gua traz beneficio para quem a

trata e distribui mas com elevado custo causado pelo seu menor consumo para irrigar

plantas que j no podem mais ser cultivadas dado o custo dessa gua e, da para frente,

o ciclo conhecido das enchentes, qualidade climtica, etc. se repete.

Na caso mais especfico de plantas qual a relao custo-beneficio para o cultivo

de fumo, maconha, coca? Um custo altssimo para um benefcio desprezvel ou

negativo, com a exceo do fumo dados os altssimos impostos cobrados pelo governo

na verdade um grande malefcio ao fumante, pelo menos.

E, monoculturas como o algodo, com diversos benefcios diretos sabidos (o

produto) e indiretos (emprego, impostos, etc.) tem um custo muito alto pela exposio

do solo temperaturas muito elevadas, eroso, dada a manuteno da cultura sempre

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no limpo, sem plantas invasoras, com conseqentes danos fsica desse solo como a

compactao e suas conseqncias diversas. Outra caracterstica de alto custo para o

algodo o consumo intenso de pesticidas e suas conseqncias ambientais bem

conhecidas.

Outras monoculturas como a soja, caf, cana-de-acar tm relaes custo-

benefcio distintas mas numa mesma ordem de grandeza: os benefcios so conhecidos

pelos produtos disponibilizados e os custos so retratados por alteraes indesejveis no

solo e no meio ambiente, nem sempre contornveis.

Pois bem, minha mais nova e dedicada aluna, voc verifica que as opes do

homem para manter sua qualidade de vida so no sentido de ter suas demandas

atendidas com o menor dano (custo) ambiental, possvel. No h mais como o homem

ter toda a protena animal disponvel caando os animais nas matas e campos nativos

como num passado mais distante; ou os criando soltos nos quintais de suas casas. Hoje

so necessrias as monocriaes numa analogia aos monocultivos de aves, bovinos,

peixes, etc. com seus eficientes matadouros.

curioso observar que o mais empedernido ambientalista no faz crticas pelos

animais mortos quando os consome num rodzio, sendo que neste caso h meios para

no os consumir, utilizando outras fontes de protena; por outro lado, critica com

veemncia as florestas de eucalipto, esquecendo-se que essas so essenciais at mesmo

ao papel utilizado em sua higiene pessoal. Ou esse papel dever ser feito de mogno ou

de pequizeiro? Utiliza ferro e suas ligas nos carros, avies, utenslios domsticos e na

chave lembra-se de nossa conversa inicial? - semelhana das carnes do rodzio,

sem remorso algum, como se para todos aqueles produtos no tivesse que existir um

redutor do ferro frrico para ferro metlico. Esse redutor deve ento ser o carvo

mineral? Ou ento o carvo vegetal dever ser feito de mogno, pequizeiro?

Observe, minha prezada aluna, que nossa conversa teve uma viso ampla

(holstica) e que cada ponto central discutido pode ser esmiuado cada vez mais numa

viso reducionista de seus componentes cada vez menores.

Voc deve ter em mente que a viso ampla resultante de efeitos de

componentes menores, nem sempre na mesma direo alguns anulando outros, ou

invertendo uma direo inicial. medida que os componentes dos componentes

menores so levados em considerao, chegamos a um ponto em que nosso melhor

conhecimento torna-se insatisfatrio. Vocs que vo nos suceder nessa tarefa de

conhecer o desconhecido atual vo ter seus limites tambm estabelecidos.

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Quero deixar com voc esses comentrios com o objetivo maior de faz-la compreender

que no h nada acabado e que h muito por ser compreendido sobre meio ambiente e

sua preservao e que isto s ser conseguido com muito esforo de pessoas

competentes, daquelas que conhecem muito de muito e no daquelas conhecem muito

de pouco, embora isto possa ser bastante para se conseguir um ttulo de ps-graduao;

agora, aquelas que conhecem pouco de pouco no deveriam dizer que o eucalipto

uma rvore do mal, porque, na verdade, no sabem at mesmo de que feita a

insubstituvel chave de sua casa. Felizmente, o eucalipto existe!