Fernanda Zaché (UFV) ·  · 2017-03-18A escrita deste ensaio trata da análise dos estudos de...

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  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 201

    A construo do gnero na obra de Milton Hatoum

    Le Pardon, La Vrit, La Rconciliation: Quel Genre?

    (Jacques Derrida)

    Fernanda Zach (UFV)

    Resumo

    A escrita deste ensaio trata da anlise dos estudos de gnero presentes na obra de Milton

    Hatoum, no conto O adeus do comandante do livro A cidade ilhada. Pretende-se analisar

    como o trabalho da construo de gnero transita pelos papis que so definidos e construdos

    em um contexto social, repensando criticamente estas representaes e a naturalizao de

    discursos culturais, como podemos pensar na sociedade patriarcal. Neste nterim encontram-

    se ainda imbricados outros processos como a representao da diversidade cultural.

    Palavras-chave: Milton Hatoum, gnero, diversidade cultural.

    Abstract

    The aim of this essay is talking about the analysis genre studies present in the Milton

    Hatoums tale O adeus do comandante in the book A cidade ilhada. We intend to analyze the

    work of Genres Building moving through the built and finished roles in the social context,

    rethinking critically these depictions and the naturalization of cultural discourses besides how

    we can think the patriarchal society. Although in this research, we can find other processes as

    the depiction of cultural diversity.

    Key- Words: Milton Hatoum, genre, cultural diversity

    Introduo

    Desde que surgiu, em meados de 1989, a literatura Hatouniana foi muito bem recebida

    pelos leitores e mdia, que o consagraram como um dos autores mais traduzidos e premiados

    da literatura contempornea brasileira. A heterogeneidade de seus temas trata de assuntos

    como cultura, memria, regionalismo, identidade, entre outros, e chama a ateno para a

    construo e representao de seus personagens. A diversidade cultural presente nos enredos

    ainda rica e multifacetada.

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 202

    Em sua obra Hatoum traz, como ele mesmo intitula confisso de brasileiros comuns

    e impressiona pelos recortes do cotidiano, pela forma concisa com que articula a linguagem, o

    regionalismo e a multiculturalidade presentes e mpares. Portador de um gosto peculiar pela

    conciso e pelo enxugamento da trama, Hatoum acredita na fora potica das palavras e

    desfila uma capacidade de reduzir, resumir o que vai ser dito, conceito este teorizado nas

    consideraes de Ezra Pound(2006), no seu livro ABC da Literatura, onde discorre sobre a

    habilidade peculiar de alguns artistas, em condensar em poucas palavras muitas ideias, o que

    julga ser o caso de poucos e raros escritores e poetas, como o caso do autor analisado neste

    estudo.

    A cidade ilhada o primeiro livro de contos do escritor, que traz na bagagem quatro

    romances premiados, e apresenta nesta nova proposta momentos condensados de

    sensibilidade e filosofia, um refinado labor da palavra, pensada, repensada, construda e

    desconstruda, enfim, aprimorada, que traz em seus contos um tom de crnica e uma grande

    presena do criticismo.

    Lendo seus textos possvel revisitar as palavras do filsofo Derrida (2006) quando na

    primeira parte de seu ensaio sobre o Mito de Babel, levanta questionamentos sobre o que a

    Babel, invocando o Dicionrio Filosfico de Voltaire, e problematizando a alegoria da ponte

    entre o eu e o outro, de seu estado de imperfeio e possibilidade de aprimoramento,

    constante construo e desconstruo: a obra de Hatoum povoada destas muitas

    possibilidades. Contudo, o dilogo que o texto hatouniano faz com as teorias do filsofo

    francs no se limita a apenas este vis. Como herana que Derrida (2006) recebe do filsofo

    alemo Friederich Nietzsche, em seu texto sobre a Desconstruo, destaca a necessidade de

    olhar o no-dito, as entrelinhas e no apenas o ipsis litteris, mas o olhar para o unimportant,

    pois o texto excludo, recalcado, como nas teorias da psicanlise, constitui pea to valiosa

    anlise quanto aquilo expresso literalmente.

    Partindo de tais pressupostos pretende-se destacar os processos da construo da

    identidade de gnero no conto hatouniano O adeus do comandante como objeto de anlise

    deste estudo que para tal, exige uma teorizao prvia que seja pertinente s questes de

    gnero problematizadas.

    Identidade de Gnero e a Ps Modernidade

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 203

    A configurao das identidades femininas e masculinas no decurso dos anos, trouxe

    para a modernidade alguns debates em meio a estudos sociais e histricos. Colquios

    cientficos acadmicos h muito pesquisam e questionam acerca das consideraes em torno

    dos estudos de gnero.

    Desde crianas somos condicionados a manter um padro de regras e costumes que

    reafirmam nossas caractersticas, femininas ou masculinas, como cdigos que vo nos rotular:

    o menino recebe o carrinho e a cor azul, a menina, a boneca e a cor rosa. A trajetria da vida

    sexual feminina e masculina no ocidente portanto, caracterizada pelas diferenas, no s

    biolgicas e fsicas, mas no que tange aos interesses e aspiraes que vo se estabelecendo

    atravs de fronteiras culturais que se sustentam frente sexualidade do homem ou da mulher.

    Homens e mulheres vem sendo alvo de pesquisas nas mais diversas reas, como

    sociologia, psicologia e literatura. Classificar parmetros que definam a masculinidade ou

    definir critrios que a delimitem na contemporaneidade, um desafio para os estudiosos.

    Papeis historicamente atribudos aos homens, como os clichs de que homem no chora, ou

    que sua funo ser racional e provedor do lar, vem sendo debatidos e questionados visto que

    nos tempos atuais o homem vem se tornando um ser favorecido de sensibilidade, demostrando

    dificuldades no seu exerccio de poder sobre a famlia, mais subjetivo e reflexivo, menos

    racional.

    A autora e historiadora francesa Elisabeth Badinter destaca em seu ensaio XY Sobre a

    identidade masculina, que uma das caractersticas da masculinidade em destaque na

    contemporaneidade a heterogeneidade. Esta identidade se encontra associada a algumas

    aes como os verbos penetrar, possuir e dominar, entre outros, como afirmao pelo poder

    da fora. Em contraposio, a identidade feminina constitui-se de forma antagnica e

    subserviente, ao passo que suas caractersticas seriam o oposto: dcil, passiva e submissa.

    Resumidamente, segundo as teorias da escritora, poderamos sujeitar as identidades sexuais

    inscritas no conceito de dominao da mulher pelo homem. Neste nterim, segundo a autora, a

    homossexualidade seria classificada como uma patologia ou perturbao da identidade de

    gnero (homossexualismo). Segundo consideraes de Badinter(1993) a respeito da

    construo da identidade masculina, a autora cita um exemplo dramtico existente em

    civilizaes primitivas da Nova Guin: trata-se de um rito de passagem onde os garotos

    adolescentes so submetidos a extrema violncia, e depois de torturados, forados a beber o

    prprio lquido masculino (esperma), como forma de auto afirmao do prprio sexo. Para a

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 204

    crtica, no que tange a construo da identidade masculina socialmente, o pnis a

    possibilidade do menino ascender ao primado da masculinidade (...).

    Como contribuio para os conceitos a respeito da construo da identidade de gnero,

    podemos destacar tambm a escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir (...) que

    colaborou muito atravs da produo acerca da constituio feminina em seus romances, alm

    de uma profunda anlise sobre o papel das mulheres na sociedade e polmicas teorias, que a

    academia aceitou sem questionamentos, como a de que a mulher no nasceria mulher, mas se

    tornaria uma mulher.

    A psicanalista Jerzu Tomaz (2001), conceitua a feminilidade como um conceito

    bastante complexo - injunes discursivas, possibilidades lgicas, indicativas da posio do

    sujeito na cultura e que segundo Brando (2014) essa complexidade se d pois ele depende

    do contexto em que aplicado.

    Podemos sugerir contudo, que a definio de gnero perpassa trajetos de significados e

    traos que um indivduo possua ou adquira em sua vivncia e assim os atribua como sendo

    masculinos ou femininos. Ressaltamos ainda que o termo identidade de gnero empregado

    para caracterizar aspectos que o indivduo possui, e que contribuem para a conscincia que ele

    tem do prprio sexo, mas que segundo Badinter (1992), nossas definies se daro por

    processos de identificao e diferenciao com outros indivduos.

    Na famlia brasileira entre os sculos XVI e XVII, a autoridade regia absoluta pelo

    homem, inclusive sobre a vida da prpria mulher. Badinter (1993) considera o advento do

    Patriarcado, que define o homem, pai e proprietrio, como base da escala familiar na

    sociedade, e um dos marcos que definem o homem como ser privilegiado socialmente,

    situando-o num patamar superior a mulher:

    Ele se julga mais forte, mais inteligente, mais corajoso, mais responsvel,

    mais criativo ou mais racional. Esse mais justifica sua relao hierrquica

    com as mulheres, ou pelo menos com a sua. (BADINTER, 1993)

    O Patriarcado no Brasil

    A literatura intelectual feminista dos ltimos anos tem encontrado neste assunto um

    terreno frtil de produes e centralidade na sociedade brasileira. Muitos debates intelectuais

    dentro da academia e em destaque ao pensamento feminista nas Cincias Sociais tem dado

    nfase aos estudos das relaes entre homens e mulheres. A literatura feminista de mbito

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 205

    internacional tem destaque, visto a ausncia de existncia de regulao da esfera privada onde

    h desequilbrio de poder.

    Alguns tericos como Silvio Romero, Srgio Buarque de Holanda e Antnio Candido,

    entre outros, defendem que a principal instituio social brasileira, independente do estado,

    a famlia, como herana da sociedade escravista, argumento este, contra o qual Raimundo

    Faoro (2009) rebela-se por apoiar que o patriarcado brasileiro deu seu lugar a um Estado

    Patrimonialista. Silvio Romero (2001) foi um dos pioneiros na conceituaes sobre o

    patriarcalismo brasileiro e seu pensamento social, e junto ao terico Antnio Candido (2011),

    situou os vieses da mestiagem brasileira, a adaptao do povo ao meio em que vivia. O

    argumento de Faoro pode ser resumido ao domnio do Estado sobre a Economia. As

    consideraes de Romero consistiam em alternativa s vises romnticas de sociedades ento

    dominantes na literatura brasileira. O terico tratava de mtodos relacionados ao Positivismo,

    onde propunha que as formas de expresso literria vinculassem-se s variedades das

    experincias sociais no Brasil.

    A percepo de uma significativa subservincia da famlia ordem pblica se d,

    portanto, na literatura atravs do totalitarismo. A separao do pblico e do privado se deu de

    forma to visceral que notrio na esfera familiar perceber-se a criao de situaes de

    dependncia das mulheres com relao aos homens, e a presena da violncia domstica

    uma evidncia clara e antiga de tal fenmeno. O Patriarcado, em suas mltiplas formas,

    sujeita, portanto, a vida e decises femininas ao poder masculino,

    Os sistemas mltiplos de assujeitamento, de resignao, de subservincia feminina

    resume um poder que para Foucault (1984) tem sua importncia como controle social para a

    manuteno da vida, e nos levam a pensar criticamente os problemas que se deixam

    perpassar pelas hierarquias de gnero. A represso sexual para Foucault existe desde o sculo

    XVIII, e levanta pressupostos crticos sobre as relaes de sexo e poder. Ao interrogar a

    hipocrisia social em A histria da sexualidade, Michel Foucault interroga os reprimidos e

    questiona onde se encontram as formas de poder veladas e a hipocrisia em meio a essa

    represso, o que corrobora para as consideraes de Bourdieu (1999) que destaca que aos

    homens, historicamente, ficou relegado o poder de dominar os espaos pblicos e a sociedade.

    Fragmentos: O Male Gaze de Laura Mulvey

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 206

    Segundo a crtica feminista britnica Laura Mulvey (1975), que cunhou o termo Male

    Gaze, baseada nas teorias freudianas e lacanianas, delimitou uma teoria do olhar masculino.

    Atualmente Mulvey atua como professora de filmologia e estudos miditicos na universidade

    de Londres, e destaca em suas consideraes que o olhar do cinema narrativo clssico

    classificado de trs formas: o olhar da cmera, o olhar do telespectador e o olhar dos

    protagonistas masculinos do filme. Dentre estes, destacaremos aqui, como pressupostos para

    corroborar com as conceituaes de gnero estudadas em nossa anlise, os olhares que

    deixam claro o domnio do masculino sobre o feminino.

    A contemplao da beleza feminina, inmeras vezes erotizada no cinema e em outras

    mdias, deixa clara a presena dos trs olhares categorizados pela feminista, em circunstncias

    em que pode-se ver os homens hipnotizados pela beleza do sex appeal representado por um

    belo corpo feminino, o da cmera que focaliza os melhores ngulos deste esteretipo como

    objeto sexual, e por ltimo, do expectador que entra no jogo flmico, recebendo a erotizao

    representada pela sensualidade da mulher na cena.

    O problema dessa intensa masculinizao do olhar, e sua predominncia, para alguns

    estudiosos como a terica da crtica feminista Elisabeth Ann Kapplan (1995) levam a

    concluso de que nossa cultura est bastante comprometida com mitos das dicotomias do

    masculino/feminino.

    Gnero no Conto de Hatoum

    Ao analisarmos o conto O adeus do comandante pontuaremos de forma sucinta alguns

    pressupostos a respeito das consideraes acima levantadas. Para iniciarmos a anlise, se faz

    necessrio contextualizar uma breve fortuna crtica do autor, espaos, o discurso e os

    esteretipos da mulher e do homem manauaras, que tornam-se peas importantes em nossa

    pesquisa.

    Enquanto foco de anlise, os esteretipos hatounianos tornam difcil uma classificao

    homognea, visto a diversidade e heterogeneidade das personagens que o autor demarca em

    sua obra. Porm, a linguagem usual utilizada ou muitas vezes uma ironia subentendida,

    facilitam o entendimento dos acontecimentos, que so por vezes fices mescladas

    realidade. Os finais de seus contos so muitas vezes abruptos, o que reflete uma caracterstica

    semelhante a estratgia utilizada pelo escritor irlands James Joyce, que nos faz odi-lo

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 207

    muitas vezes por deixar em suspenso o no-dito. Os Ecos de escritores da alada de

    Machado de Assis, Guimares Rosa, Clarisse Lispector ou mesmo Dalton Trevizan, ases

    notveis da narrativa breve, no so novos, mas aparentemente mais ntidos nesta obra do

    autor amazonense.

    O escritor Milton Hatoum possui um discurso denso, porm sucinto, no qual o leitor

    obrigado a facear a verdade e uma conscincia de seu lugar no mundo. Os contos do escritor

    seguem uma estilstica dramtica que exige do mesmo uma acuidade e domnio da linguagem,

    alm de uma escolha rigorosa do lxico utilizado. A sobreposio de textos estratgia

    lingustica que deixa implcitos muitos contextos, e uma arte peculiar deste escritor. Seu

    discurso enxuto e conciso discorre sobre a vida dos que neste mundo circulam: suas buscas,

    resgates, memrias. Seus contos possuem um notvel tom de crnica, repletos de uma fora

    peculiar que aplaudido pela crtica literria.

    Na obra em questo, o autor desnuda o exotismo amaznico de forma descritiva, e a

    capital Manaus, alvo de estrangeiros, mas tambm terra dos nativos transeuntes, se transforma

    em microcosmo dos personagens do universo hatouniano, caracterstica essa que se aplica ao

    conto estudado.

    Seus personagens so seres enraizados, porm em constante movimento, pois, vo e

    vem nos espaos e tempos construdos. Todos parecem buscar algo, principalmente os

    personagens de contos que remetem ao movimento por outros espaos (estrangeiros ou

    nativos que deixam a capital, seja por razes polticas, trabalho ou espao no mundo). H

    contudo, os que ficam, e vivem presos, exilados na rotina de sua vida, como o caso do

    comandante Dalberto, protagonista do conto O adeus do comandante.

    As representaes do feminino e masculino na obra de Hatoum, se desenham

    primeiramente, na mulher da cultura do norte, que se configura na cristalizao de um

    esteretipo de mulher procriadora, passiva e irracional. A emoo, a fraqueza e a

    dependncias contudo, no fazem parte desta viso feminina, por questes culturais: a mulher

    forte pois enfrenta adversidades comuns da mulher do norte, que aprende a viver com

    dificuldades e sua dureza, antagnica a emotividade, necessria pois corrobora com a fora

    e a independncia.

    A figura masculina se configura no tradicionalismo do papel do homem que trabalha

    rdua e duramente para dar o sustento a famlia mulher e filhos, e evitar as privaes de uma

    sociedade provinciana que convive com uma subsistncia limitada. Sua honra e sua palavra

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 208

    so suas armas mais poderosas, com a lei constituda pela peixeira que lhe adorna a cintura,

    semelhante ao cabra macho nordestino.

    O adeus do comandante o sexto conto da obra A cidade ilhada e no apresenta

    imigrantes ou estrangeiros como outros contos da mesma obra. Trata-se de uma narrativa que

    d enfoque maior as questes da Manaus que no se enquadra na urbe retratada em maior

    parte dos textos, mas provncia amaznica.

    A arte do contista alvo de discusses e vale ressaltar as consideraes nas palavras

    do famoso escritor argentino Julio Cortzar (2006), a respeito dos contos orais regionalistas,

    das provncias do centro e do norte argentino:

    Um bom tema como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema

    planetrio de que muitas vezes no se tinha conscincia at que o contista,

    astrnomo de palavras, nos revela sua existncia.

    (Cortzar, 2006)

    Em resumo a histria do conto conduzida pelo narrador, um velho vendedor, Seu

    Moamede. Percebemos que o personagem que introduz o conto, trata-se de um mercador

    viajante, vendedor de mercadorias ao longo das margens dos rios amaznicos, descrito no

    incio do conto com caractersticas masculinas bem marcadas do homem da regio voz

    conhecida e rosto e peculiares (vermelho - queimado de sol), mo amorenada, cabelo

    branco (experincia que impe respeito e escuta) e molhado de suor (indica que chegava de

    seu labor) e trazia a rede enrolada debaixo do brao.

    Ao chegar ao recinto rene e convida as crianas, que ansiosas aguardavam por ver a

    primeira imagem da tv, para ouvir uma histria. Assim, de forma respeitosa, as crianas lhe

    tomam a bno e ele remonta uma tradio regionalista oral, muito comum nas rodas de

    histrias, contadas e recontadas, por muitas geraes, pela populao ribeirinha: estrias de

    pescador, e certamente contadas s margens dos rios amaznicos.

    A descrio do seu itinerrio nas linhas seguintes mostra a clara definio do homem

    trabalhador, forte e cheio de bravura, que trazia o cheiro do barco, da viagem e da caada,

    onde faz questo de mostrar seus trofus, indicados por seu compadre e ajudante: uma paca

    esquartejada e os dentes de um javali.

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 209

    Ao comear a estria, Seu Moamede prepara os ouvintes com um suspense e diz que

    no histria de boto, mito da cultura do norte muito conhecido entre os ribeirinhos

    para reforar a veracidade dos fatos. Logo vemos a descrio do comandante Dalberto,

    quando o velho cita o encontro com o barco Princesa Anara, e relata a amizade que j existia

    com o seu dirigente:

    O nome do barco me atraiu, eu conhecia o comandante. Olhei para a cabine e

    l estava o Dalberto, caboclo musculoso e ex-cabo da polcia, filho do rio

    Tapajs. Um paraense da gema, desconfiado e de poucas palavras, mas

    corao de novia: deixava o povo pobre viajar de graa. E era homem

    valente, doido de tanta coragem: enfrentava de mos vazias os brutos com

    peixeira na cintura.

    (Hatoum, 2014)

    O velho prossegue enfatizando as virtudes do amigo, com um propsito que se

    configura nos trechos seguintes, ressaltando situaes comoventes, como o dia em que

    salvou crianas e mes na grande enchente que afogou povoados inteiros, e diz que seguiu a

    bordo do barco que serve de transporte para a populao ribeirinha atravessar os rios que

    cortam os variados vilarejos da regio, ao reconhecimento do amigo.

    Na sequncia da histria contada, a certa altura da viagem sobe ao barco um caixo

    vazio que desperta a estranheza dos passageiros e passageiras. Este fato destaca-se por ser um

    momento em que podemos perceber o comportamento das mulheres da regio, que viajavam

    pra Nhamund, um povoado mais prximo:

    Mal as passageiras enxergaram o caixo, se benzeram, e uma delas

    perguntou: o defundo era de Parintins ou de Nhamund? (...) Uma senhora

    puxou uma Ave-Maria, outras fizeram coro, mas o barulho do motor abafou

    as preces.

    (Hatoum, 2014)

    O narrador prossegue e diz que o barco desvia de sua rota, entrando por um vilarejo

    em beiras de guas desertas. Neste nterim o comandante Dalberto para o barco e segue por

    um destino incerto e desconhecido, e onde percebemos sua personalidade forte na figura do

    determinado protagonista, e mais uma vez a cultura feminina de cisma e receio:

    O comandante saltou: Volto j, Deus me abenoe. (...)As mulheres se

    entreolharam; depois todo mundo se interrogou com os olhos. (...) Uma

    passageira pigarreou e suspirou: Vixe Maria, lugar medonho! E todas se

    benzeram pela segunda vez.

    (Hatoum, 2014)

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 210

    Os momentos seguintes, segundo o narrador, so seguidos de uma manifestao

    sobrenatural que instiga e assombra a todos o tremor que o barco comea a manifestar, sem

    sinal qualquer de vento ou impulso, o que gera a comoo e comportamentos peculiares e

    tpicos segundo as caractersticas dos personagens representados pelos homens e mulheres da

    regio:

    De repente, o diabo do barco comeou a balanar...

    Ventania?

    Que nada rapaz! Balanou sem vento (...) uma coisa assombrada.

    O cigarro tremeu nos lbios, eu disfarcei, sou velho viajante, mas senti o

    corpo formigando. Uma moa cunhat de uns quinze anos, deu um grito,

    comeou a chorar, queria subir na cabine e buzinar. No deixei.

    (Hatoum, 2014)

    Podemos perceber o comportamento da mulher mediante o drama e suspense da

    situao ocorrida em questo como manifestao de histeria e descontrole emocional, visto a

    situao de horror e insegurana que se instalou, enquanto o comportamento masculino

    decorre do fato de este ser o responsvel por manter a calma e a ordem, ter o domnio, ser o

    protetor, que mesmo diante do medo que sentiu faz por onde domin-lo e disfar-lo diante

    das mulheres frgeis e desprotegidas.

    No retorno ao barco, munido de uma carga indefinida, o comandante Dalberto precisa

    da ajuda dos braos fortes do amigo para dar o desfecho a situao para a qual se ausentou:

    L longe a silhueta tremeu no mormao, foi crescendo e se

    alargando at tomar forma de homem. Era o Dalberto (...) O comandante

    andava devagar, puxando uma corda amarrada a um saco.(...)Era uma rede

    vermelha, de um vermelho vivo, encarnado. Dalberto ps a rede nos braos,

    caminhou na gua rasa e gritou: Seu Moamede, me ajude. (...) notei o rosto

    cansado, suarento, mas cheio de orgulho. (...) Caou uma anta, comandante?

    Cacei o caador, ele respondeu. Depois, cochichou pra mim: Amigo, abra o

    caixo. (...) a tampa, seu Moamede, abra a tampa. Como que pode?

    Obedeci, ajudei, abri. Ele mesmo arrumou aquela coisa pesada dentro do

    caixo.

    notrio novamente, nos trechos acima, o comportamento masculino de bravura do

    homem, que no se rende a fragilidades, mas bravo e valente diante da caada. Embora

    carecido da ajuda de seu Moamede em alguns momentos, esta caridade representa um

    momento de abnegado respeito e obedincia ao amigo, independente do acontecimento seu

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 211

    Moamede prontamente e sem titubear o auxilia, como que no s por amizade, mas tambm

    por medo diante da situao que se configura.

    Ao compreender o fato, diante do preenchimento do caixo antes vazio, agora a

    populao no barco encontra-se esclarecida, porm em pnico iminente e a explicao sobre o

    que havia no caixo e a despedida do comandante comeam a se desenhar:

    A foi um deus nos acuda, as mulheres ficaram juntinhas, espremidas,

    abraando as crianas. Dalberto ps a tampa, subiu pra cabine e deu a

    partida. (...) Ningum falava, nem conversa de jogar fora. Quando atracamos

    em Nhamund, os passageiros saram dando pulos, num alvoroo de alvio.

    E eu fiquei com meus fardos, o comandante e o caixo. (...) O senhor vem

    comigo, quero mais uma ajudazinha. Quatro caboclos que estavam no porto

    nos ajudaram a colocar o caixo numa carroa. Vamos ao cemitrio?,

    perguntou o carroceiro. Pra casa, minha casa, ordenou o comandante, com

    raiva. (...) fechou os olhos, (...) e sussurrou essas palavras: Estou dando

    adeus para o meu barco.

    (Hatoum, 2014)

    Seu Moamede fala ainda da curiosidade do povo que v o caixo seguindo, o pesar nos

    olhos do comandante e sua lealdade em companhia do amigo, enquanto ele finaliza todo o

    processo do funeral, e sua frieza e auto controle, mesmo ao chegar em casa em busca da

    esposa:

    Dalberto, com voz seca, perguntou pela patroa. T na igreja com as crianas, disse a empregada. (...) o caixo em cima da mesa da sala (...)

    Dalberto tirou a tampa, a aba da rede encarnada, e vi o rosto de um moo.

    Rosto bonito, feies delicadas, ombros largos, olhos quase abertos. Um

    jovem que me lembrava uma pessoa conhecida.(...) trouxe quatro

    velas.(...)Tirou a rede encarnada, manchada de sangue. (...) olhou o morto,

    murmurou palavras que no entendi e se benzeu. Depois se virou para o

    canto da sala e encontrou a empregada, mos juntas, em prece, acuada e

    medrosa como um bichinho.(...)

    Ao fim do conto, o desabafo no desfecho revelam a traio da esposa e do prprio

    irmo, e o cumprimento da vingana pelo adultrio com a justia pelas prprias mos, em

    honra aos filhos:

    Quando tua patroa chegar, acenda as velas e diga que tem visita nesta sala. E

    diga a meus filhinhos que ele podem viver de cabea empinada. Saiu me

    puxando pelos braos sem olhar para os curiosos. (...)o rosto de Dalberto.

    Dor e lgrimas. Mas a voz dele ainda tinha muita bondade e coragem: Seu

    Moamede, sei que nunca mais vou navegar no Amazonas. Mas salvei minhas

    honras e tirei a vergonha de meus trs filhos. Por isso matei meu irmo

    caula. Matei sem covardia. Homem contra homem e s uma faca na mo.

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 212

    Agora me faa um ltimo favor. Me acompanhe at a delegacia e sustente

    uma mentira, que a pura verdade: diga que me viu desafiar e matar o

    amante de minha mulher Anara.

    (Hatoum, 2014)

    Podemos perceber que o comandante diz apenas o necessrio e deixa claro o

    cumprimento de sua vingana, lavada pelo sangue do prprio irmo, com a descoberta de um

    caso amoroso entre ele e sua esposa. O adultrio da esposa mulher, frgil, vtima, submissa

    e persuadida, me de seus filhos, cria nela a anistia que o faz colocar o irmo como ru e

    responsvel por todo o desenlace, punido com a morte, por ser homem capaz de tal ato e

    portanto igualmente capaz de suportar o seu destino. Sua mulher contudo, embora ilesa

    fisicamente no fica totalmente impune, pois a ela relegado o recado e deixado o amante

    morto para ser velado a dor psicolgica e emocional, a qual melhor lhe cabe.

    Concluso

    Via de mo nica numa sociedade patriarcal e machista, a liberdade sexual feminina

    durante muito tempo foi alvo de intolerncia e desrespeito masculino. Segundo Bruschini

    (1990), a sexualidade feminina sempre esteve associada ao ato da procriao, enquanto a

    sexualidade masculina sempre pde ser vivida de forma mais livre e desimpedida. Por medo

    da perda do poder sexual que exerce, o homem no aceita esta liberdade, por ela demandar ao

    sexo feminino maior controle.

    No conto analisado percebemos que a cultura tm significativo peso no desfecho dos

    destinos. O irmo trado sente-se responsvel por lavar a honra da famlia e dos filhos, mesmo

    que para isso se fizesse necessrio a morte do prprio irmo. A mulher no merece viver o

    adultrio condio inconcebvel, embora para o homem esse comportamento fosse algo

    muito mais aceitvel e natural, principalmente nas culturas do norte o homem ter mais de

    uma mulher algo instintivo, compreensvel, fisiolgico, mas esta condio poligmica

    relegada a mulher, algo considerado desrespeito a honra do homem.

    O suspense do conto de Hatoum e as configuraes que apenas ao final se definem

    a traio, a morte do prprio irmo, a questo cultural relativa honra e hombridade

    masculina, a punio da esposa e mulher, retratam as questes de gnero de forma clara e

    sucinta, mas prximas da realidade, desde sua introduo, onde o mito que povoa o

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 213

    imaginrio da populao amaznica citado para resguardar que os fatos ali contados eram

    verdadeiros no eram histria de boto, mas realidade em sua essncia mais pura.

    Fica claro o comportamento do homem em meio a tomar uma atitude diante de sua

    condio de trado e socialmente humilhado lavar sua honra com sangue, mas mantendo a

    segurana dos filhos e do objeto de amor que o levou a protagonizar todo um drama: sua

    esposa.

    Para Simone de Beauvoir (1980), a mulher a grande responsvel pelos

    comportamentos do homem. Constituda como mito na literatura, ela tem ali um papel

    fundamental, por valores e aspectos mltiplos, negativos ou positivos, e segundo a filsofa, o

    homem se realiza continuamente atravs deste mito, transcendendo do mal ao bem, do dio ao

    amor, e vice-versa, configurando-se essa ambivalncia o ponto de partida que o impulsiona.

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