FUNÇÕES REGULATIVAS EM KANT E ?· EM KANT E NIETZSCHE Márcio José Silveira Lima* ... na forma mesma…

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  • kriterion, Belo Horizonte, n 128, Dez./2013, p. 367-382

    FUNES REGULATIVAS EM KANT E NIETZSCHE

    Mrcio Jos Silveira Lima* mjslima@ufba.br

    RESUMO A presena de Kant e possvel influncia na filosofia deNietzsche motivo de muita controvrsia. Se em seus primeiros escritos NietzscheclaramenteinfluenciadoporKant,ostextosdoperodomaduronodeixampercebercomclarezaoteordodilogoquenelesseestabelece,uma vez que Nietzsche assume uma postura radical contra Kant. Essapostura esconde justamente que, em meio aos rompimentos diante doidealismotranscendental,NietzschepermanecedevedordeKant.Umaspectodessa dvida a noo de fico regulativa. Pretendemos, assim,mostrar,primeiramente,queaconcepodeNietzschedequeafalsidadedeumjuzono constitui uma objeo contra ele um trao decisivo de seu pensamento antidogmtico e, em seguida, defender que esse antidogmatismo temascendncianaconcepodeKantdeprincpiosregulativos.

    Palavras-chave Kant, Nietzsche, princpios regulativos, ficesregulativas.

    ABSTRACT The presence of Kant and its possible influence inNietzschesphilosophyisacontroversialissue.IfinhisearlywritingsNietzscheisclearlyinfluencedbyKant,hismatureperiodtextsnolongerallowanyoneto see clearly the content of thedialog established therein, onceNietzscheassumes a radical view against Kant. This view hides that, regardless thedisruptions done in faceof the transcendental Idealism,Nietzsche remainsdebtortoKant.Anaspectofthisdebtisthenotionofregulativefiction.We

    * Professor da UFBA. Artigo recebido em 31/07/2013 e aprovado em 08/11/2013.

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    intend, thus, to show:first, thatNietzsches conception that the falsityofajudgmentdoesnotconstituteanobjectiontoitself isadecisivetraceofhisanti-dogmatic thoughtand,secondly, toarguethat thisanti-dogmatismhasascendancyinKantsconceptionofregulativeprinciples.

    Keywords Kant,Nietzsche,Regulativeprinciples,Regulativefiction.

    Kant figura como umas das presenas mais constantes na obra de Nietzsche. Habermas e Foucault, dois dos mais influentes pensadores contemporneos, interpretam de forma oposta a relao entre os dois filsofos. Habermas elege Nietzsche como um ponto de inflexo no projeto racionalista da modernidade inaugurado por Kant. Embora se atenha ao esprito geral do projeto de transvalorao de todos os valores, a letra nietzschiana em que se apoia para apresentar os elementos constitutivos daquela viragem a das primeiras obras, quando a invocao a uma cultura dionisaca se fazia ouvir sob os ecos da filosofia crtica kantiana.1 Foucault, por sua vez, na interpretao da Antropologia de Kant, considera que toda filosofia posterior e as cincias humanas confrontaram a questo kantiana Was ist derMensch?. Situada entre uma crtica cuja resposta pergunta prescinde do absoluto, mas conserva o carter transcendental do a priori, a antropologia kantiana teria aberto o caminho ou para uma iluso antropolgica de uma cincia do homem que no compreendeu a dimenso da resposta kantiana ou de filosofias que no superaram o problema da subjetividade, mas nela se fecharam. Em ambos os casos, haveria uma iluso antropolgica ou de um mal-entendido da crtica kantiana ou de um subjetivismo em que a verdade do homem o espelho para a verdade mesma. Em conjunto, essas duas vertentes teriam interditado a tarefa de uma crtica iluso antropolgica, caminho aberto apenas por Nietzsche com o bermensch.2

    Se a interpretao de Habermas concentra-se nas ideias do jovem Nietzsche e a de Foucault nas obras tardias, ainda possvel interpretar a influncia de Kant desde outra perspectiva, seguindo os passos dessa influncia ao longo do trajeto do pensar nietzschiano. De fato, questes e problemas importantes com que se ocupa Nietzsche e nos quais se pode perceber alguma

    1 Justamente Habermas, que se vale amide da ideia de contradio performativa, considera Nietzsche o primeiro filsofo a confrontar radicalmente o projeto moderno iniciado com Kant, baseando sua anlise precisamente nas obras de Nietzsche em que a influncia kantiana era explcita. Para a interpretao geral de Habermas sobre Nietzsche, assim como sobre a noo de contradio performativa, cf. Habermas (2002, pp. 121-151, 170, 182, 261-262).

    2 Cf. Foucault, 2011, pp. 106-111.

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    filiao kantiana aparecem desde os primeiros livros. Ainda mais: talvez devssemos considerar concepes ulteriores da obra de Nietzsche como sendo uma resposta mais elaborada a problemas herdados de Kant e para os quais Nietzsche no conseguiu oferecer solues prprias nas primeiras obras. H pelo menos duas formas como Nietzsche lida com a filosofia de Kant em seus primeiros escritos. Por um lado, ele se apropria de pressupostos kantianos sob vrias perspectivas para erigir aquilo que sero seus alicerces. Esse tipo de posicionamento aparece com muita clareza em obras como O nascimento da tragdia e A filosofia na poca trgica dos gregos e de forma menos intensa em Sobre verdade e mentira no sentido extramoral. Por outro lado, encontramos um outro tipo de postura, isto , um posicionamento mais distante, comumente marcado por uma crtica moderada a princpios fundamentais da filosofia crtica. Quase sempre, essas duas tendncias implicam contradies do pensamento de Nietzsche, e ele prprio entoar um lamento por isso.3

    A partir de seus livros intermedirios, Nietzsche adota outra postura. No assume deliberadamente a apropriao que faz da filosofia de Kant, que passa a ser menor, bem verdade, atitude que se converte na crtica radical de suas obras. Ora, o tom dessa crtica esconde justamente a permanncia da presena kantiana em seu pensamento, o que acaba por dificultar a viso de que a influncia no apenas permanece, como ainda mais forte do que Nietzsche gostaria de admitir, pois se enraza desde os primeiros livros. A concepo de fico regulativa revela bem a presena da filosofia de Kant na obra de Nietzsche, sem, no entanto, deixar transparecer-se com muita evidncia. Essa presena, como veremos, sugere uma relao especular entre os dois filsofos, existente desde as primeiras obras, cuja verso final seria o desenvolvimento e a coroao de um processo.

    Na arquitetnica kantiana, entre suas vrias divises e subdivises, a ciso entre coisa em si e fenmeno ser claramente decisiva para a filosofia de Nietzsche, mas de modo nada explcito a diferena entre princpios constitutivos [constitutives Princip] e princpios regulativos [regulativesPrincip] e entre uma lgica da verdade [LogikderWahrheit] e uma lgica da aparncia [LogikdesScheins] tambm causou grande impacto no pensamento nietzschiano, os quais, por sua vez, integram a dissoluo promovida pela distino entre o que terico e o que prtico. No mbito da Crtica da

    3 Na autocrtica que acrescenta edio de 1886 de O nascimento da tragdia, Nietzsche lamenta que no tinha ainda uma linguagem prpria quando escreveu sua obra sobre a tragdia, da ter se utilizado de expresses kantianas e schopenhauerianas (Cf. Nietzsche, 1967/1978, O nascimento da tragdia [NT], ensaio de autocrtica 6, KSA I, p. 19).

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    razo pura, os aspectos prticos so reservados s partes finais da obra, especialmente dialtica transcendental, num movimento que primeiro apresenta as condies tericas para a possibilidade de um conhecimento objetivamente vlido para, em seguida, vetar que um conhecimento desse tipo seja possvel quando se trata dos objetivos da metafsica clssica, como Deus, alma e mundo, ou Deus, imortalidade e liberdade. Apesar de limitar o alcance da razo especulativa, Kant considera que, no domnio prtico, tais ideias so imprescindveis. Problema que encontra uma explicao condensadssima na clebre passagem segundo a qual Kant teve de suprimir o saber para encontrar lugar para a crena.4

    Percurso diferente do de Kant far Nietzsche ao analisar o problema do conhecimento desde uma perspectiva moral, considerando que as categorias com que a filosofia tradicionalmente se ocupa em sua busca por fundamentao e justificao da verdade tm uma procedncia no terreno valorativo da moral. Segundo o texto de juventude mas cuja importncia no que tange ao problema do conhecimento e da verdade imprescindvel no conjunto da obra nietzschiana Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, o pathos da verdade, isto , a necessidade humana de crer em coisas eternas, no sujeitas ao criar-se e destruir-se prprio do vir a ser, antes de tudo uma necessidade introjetada no intelecto humano a partir do convvio social. Como Nietzsche afirma num fragmento pstumo, apenas com Scrates a veracidade [Wahrhaftigkeit] se apodera da lgica.5

    No texto de 1873, Nietzsche assume a distino kantiana entre coisa em si e fenmeno, tomando aquele como um conceito-limite,6 um X desconhecido ao qual o intelecto jamais poderia conhecer a essncia. Da perspectiva fenomnica, no entanto, ser outra a postura em relao ao legado kantiano. A princpio, Nietzsche concorda com a idealidade do pensamento, todavia no assume a deduo kantiana das intuies sensveis e das categorias. por meio de uma concepo retrica que Nietzsche pensa a organizao idealista do mundo fenomnico. O intelecto s pode manter com o mundo e seus objetos um tipo de relao mediada por uma capacidade retrica da linguagem, especialmente por meio da metfora. Nesse ponto, Nietzsche

    4 Kant, 2001, B XXX, p. 27.5 Cf. Nietzsche, 1967/1978, Fragmento pstumo 19 [216] do vero de 1872-comeo de 1873, KSA 7, p.

    286.6 Cf. Kant, 2001, B 311, p. 270.

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    insere no idealismo transcendental de que est se apropriando um elemento inteiramente novo.7

    Resgatando a noo aristotlica de metfora como transposio,8 Nietzsche considera a impossibilidade de o pensamento corresponder aos objetos justamente porque o meio que teria para tanto, ou seja, a linguagem, s capaz de basear-se em metforas, nunca numa expresso adequada [adquatenAusdruck].9 Analogamente a K