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A gaia cincia dos trovadores medievais*Jos DAssuno Barros1Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

Resumo Entre os sculos XII e XIV no contexto do desenvolvimento do trovadorismo medieval prosperaram, em reinos que iam desde a Frana at os reinos ibricos de Portugal e Castela, movimentos trovadorescos que continham similitudes e contrastes. Frente a isso, este artigo delimita os principais traos desses movimentos, suas especificidades, bem como suas influncias obtidas por meio do dilogo com outros movimentos trovadorescos. As fontes utilizadas so as cantigas provenais, as cantigas do Carmina Burana e as cantigas satricas do Cancioneiro Galego-portugus, nesse ltimo caso, mediante suas trs coletneas principais: o Cancioneiro da ajuda (CA), o Cancioneiro da biblioteca nacional (CBN) e o Cancioneiro da Vaticana (CV). Palavras-chaves: Poesia e poder; trovadores medievais; tenses sociais. Abstract In XIII and XIV centuries in the historical context of the development of the troubadours movements there were in kingdoms as France and the Iberian kingdoms of Portugal and Castela troubadours movements that had in mutual comparison similitude and contrasts. The subject of this article will be to discuss and delimit the principal aspects from each one of these troubadours movement, its singularities and the influences captured in the reciprocal dialogue between the several troubadours movements. The utilized resources are the Provencal chants, the chants included in the Carmina Burana, and the satirical chants of the Cancioneiro Galego Portugus, in this last case through theirs three principal collections: the Cancioneiro da Ajuda (CA), the Cancioneiro da Biblioteca Nacional (CBN), and the Cancioneiro da Vaticana. Keywords: Poetry and power; medieval troubadors; social tensions.__________________________________________________* 1

The gaia sciense of the medieval troubadours Endereo para correspondncias: Rua Senador Vergueiro, 218, ap. 205, 20.230-001, Rio de Janeiro, RJ (E-mail: [email protected]).

Revista de Cincias Humanas, Florianpolis, EDUFSC, v. 41, n. 1 e 2, p. 83-110, Abril e Outubro de 2007

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aia j foi o nome da deusa que, na mitologia dos antigos povos romanos, representava a Terra e se ligava fertilidade, portanto, vida. A palavra, transformada em adjetivo e no decorrer da histria das sociedades medievais, passaria a ter significados como mundano (no sentido de inserido no mundo), mas tambm alegre, intensamente vivo, plenamente livre. Um pouco de cada um desses sentidos aparece na incorporao do adjetivo gaia palavra cincia, para designar a arte potica dos trovadores europeus da Idade Mdia Central (sculos XII a XIV). A Gaia Cincia, portanto, aqui entendida como a alegre cincia ou o alegre saber dos trovadores medievais, que um saber inteiramente dedicado capacidade de viver intensamente, ao envolvimento amoroso, exaltao da natureza, experincia da verdadeira liberdade e, sobretudo, fina arte de tecer versos e fazer da prpria vida individual, ela mesma, uma obra de arte. A expresso encontra seus primeiros registros conhecidos no provenal, lngua medieval falada ao sul da Frana e que seria precisamente o idioma da mais influente corrente de trovadores medievais (os trovadores provenais).2 Aqui, gai saber (gaya scienza) corresponde simultaneamente habilidade tcnica e ao esprito livre que seriam requeridos para a criao e escrita dessa nova poesia que estava nascendo com os trovadores medievais.3 Quem eram esses trovadores medievais esses misteriosos cultuadores de uma nova forma de liberdade que os tornava capazes de se alegrar sinceramente com a natureza, mas tambm de sofrer intensamente com a prtica amorosa? Quem eram, enfim, esses magnficos poetas e msicos que criaram um sistema to novo de perceber e sentir o mundo, que se chega a dizer mesmo que eles inventaram um novo tipo de amor?4

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A palavra trobaire (poeta) tambm provm da lngua provenal, e origina-se do verbo trobar, que significava inventar ou encontrar. Em 1882, o filsofo alemo Friedrich Nietzsche utilizaria esta mesma expresso, Gaia cincia, como ttulo de um de seus principais livros uma obra estruturada em 383 aforismas partilhados em cinco volumes na qual, dentre outras audaciosas crticas, o filsofo opunha-se veementemente dogmtica e rancorosa cincia que teria se desenvolvido na modernidade ocidental, a partir de pesada restrio de perspectivas e de limitados modos de ver o mundo (NIETZSCHE, 2001). Nietzsche (1997, p.85), em Para alm do bem e do mal (1886), observa que o amor como paixo que a nossa especialidade europia foi inventado pelos poetas-cavaleiros provenais, esses seres humanos magnficos e inventivos do gai saber a quem a Europa deve tantas coisas e a quem quase inteiramente se deve ela prpria. Acerca dos modos de sensibilidade que surgira m com os trovadores e com os romances corteses, ver Rougemont (1988). Ainda sobre o amor corts, ver Lazar (1964).

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oportuno ressaltar que, desde os primrdios da Idade Mdia, tem-se notcia de poetas cantores que percorriam o ocidente europeu atuando como msicos, cantores, recitadores e que por vezes se ligavam a outras formas de espetculo. Menestris, jograis, trovadores so to diversas quanto imprecisas as designaes que surgiram para dar conta desse enorme conjunto de poetas cantores que esconde, na verdade, grande gama de possibilidades e tipos. Skops anglo-saxnicos desde o sculo IV, escaldos islandeses e noruegueses a partir do sculo X, trovadores cortesos do sculo XII em diante, goliardos desde o sculo IX, jograis por toda a Idade Mdia nem sempre fcil identificar as nuanas entre esses vrios tipos. A designao jogral, por exemplo, das mais vagas, j que por vezes se refere no s ao msico poeta, mas tambm ao artista saltimbanco, ao histrio, ao malabarista e a tantos outros profissionais do espetculo. Em face dessa diversidade, deve-se levar em conta que o movimento trovadoresco, como designao, pode ser entendido tanto em uma acepo mais ampla como em uma mais restrita. Em sua acepo mais ampla, ele indica aquele grande circuito de produo e circulao potica e musical que atingia diversas esferas, desde a palaciana e cortes at a popular, desde o ambiente rural at o urbano, desde as festas at as cruzadas, e que, por fim, enquadra-se em uma durao que se confunde com o prprio perodo medieval. Na acepo mais restrita, o movimento trovadoresco remete ao meio das cortes rgias e senhoriais a partir do sculo XI, quando a cultura aristocrtica assimilou a produo potico-musical como uma de suas atividades distintivas. Assim, essa acepo mais restrita representa uma espcie de recorte, no espao social e no tempo, dentro da produo trovadoresca mais ampla. Refere-se pois poesia, popular ou aristocrtica, que circulava no meio corteso note-se que dessa circulao participavam os mais diversos tipos sociais. Alm disso, remete a um perodo que vai do sculo XI ao XIV, e estende-se ao sculo XV em algumas cortes das regies da atual Alemanha. Caracterstica comum a boa parte dos trovadores medievais era sua itinerncia, ainda que no deva ser exagerada, j que muitos trovadores se estabeleciam a seu tempo em alguma corte ou regio. Ser um meio movente trazia efervescncia especial ao meio trovadoresco. O trovador ligava-se por essa afinidade s figuras do cavaleiro andante, do clrigo errante, do peregrino, do mercador e navegante cada qual foi um elemento importante no processo de transformao da sociedade medieval a partir do sculo XI.

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So atores sociais que anunciaram um novo cenrio na grande aventura medieval e que se contrapuseram quelas j conhecidas figuras do monge em clausura, do servo da gleba, do nobre encastelado e de outras que tradicionalmente remetem pesada estabilidade medieval. No por acaso, todas as novas figuras que, cada uma a seu modo, representam dinamismo e movimento surgem precisamente no contexto de uma poca inovadora que traria consigo a reintensificao do comrcio de longa distncia, a urbanizao, o surgimento de inusitadas formas de religiosidade.5 Ao mesmo tempo, essa itinerncia punha em contacto os trovadores, facilitava trocas culturais e criava uma grande malha que recobria o ocidente europeu com seu tecido de versos e sonoridades. O grande concerto dos poetas cantores tinha, contudo, seus timbres internos. Para efeito de simplificao, consideremos as cinco principais regies culturais em termos de produo trovadoresca. A Frana via-se dividida em norte e sul, gerando dois subconjuntos distintos e separados pela linguagem: no sul occitnico, o subconjunto provenal dos troubadours, da langue doc e da formao cultural ctara, bero do amor corts; no norte, os trouvres, cantando na langue doil as primeiras canes de gesta. Em torno do vale do P, foi mais tardio o movimento dos trovadores italianos, que depois daria origem ao dolce stil nuovo. Ao norte a Minnesang contribua com sua verso germnica para o amor corts (minne = amor sutil). Por fim, o subconjunto dos trovadores galego-portugueses unia mediante uma lngua potica comum boa parte da hispania crist (com exceo de Arago e Catalunha, ligados ao circuito provenal). Dos cinco subconjuntos destacados, o provenal pode ser tomado como o grande plo de irradiao que desencadeou o trovadorismo de corte. claro que, uma vez que o trovadorismo provenal j aparece nos primeiros registros de que podemos ter notcia como poesia amadurecida e refinada, possivelmente vinha de um desenvolvimento anterior. Esse desenvolvimento at agora desco