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ARTIGOS DE REVISÃO GESTÃO DA NOITE E OPORTUNIDADES DE DESENVOLVIMENTO DOS TERRITÓRIOS Teresa Alves Doutora em Geografia Humana pela Universidade de Lisboa, Portugal. Professora do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, Portugal. E-mail: [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivos: reflectir sobre as mudanças nos contextos de uso de tempo e de espaço e nas práticas individuais e colectivas e como estas ajudam a compreender as dinâmicas de desenvolvimento dos territórios à noite e, em particular, o crescimento dos serviços; e discutir como é que os processos de planeamento e de gestão podem intervir para que os territórios possam ser vividos com qualidade e de uma forma sustentável à noite. Nesse percurso, em busca de respostas, apresenta as seguintes questões: O território à noite necessita de uma gestão diferente da do dia? Quais podem ser os domínios de intervenção das políticas públicas na gestão do território à noite? Por conclusão, são apresentadas iniciativas e exemplos de boas práticas de gestão dos territórios à noite. Palavras-chave: Gestão. Território. Noite. Planejamento urbano. Gestão da noite. 1 O TERRITÓRIO À NOITE NECESSITA DE UMA GESTÃO DIFERENTE DA DO DIA? 1.1 A noite não é um espaço-tempo igual ao dia A primeira reflexão que se coloca é como a podemos definir/delimitar o espaço-tempo noite? A definição astronómica de noite é o intervalo de tempo entre o pôr e o nascer do Sol. A extensão da noite de acordo a definição astronómica varia ao longo do ano com a latitude mas, em média, a noite dura sempre metade do tempo de um ano, a distribuição ao longo do ano é que pode variar. Em Portugal, a noite mais longa ocorre no solstício de Inverno, entre 21 e 22 de Dezembro, e a mais curta ocorre no solstício de Verão, entre 21 e 22 de Junho. Do ponto de vista económico e social a noite pode ser definida em função da diminuição da intensidade das actividades económicas e das relações da vida social no espaço público e pelo crescimento das funções que se orientam para as esferas da vida privada. Os limites serão ainda mais variáveis. Um estudo realizado em Estrasburgo revelou que a cidade nos espaços públicos parava apenas entre as 1h 30m e as 4h e 30m da manhã (GWIAZDZINSKI, 2007). A distribuição do tráfego da Internet, em Portugal, mostra que os picos de utilização só decaem depois das 3h da manhã (www.marktest.pt ). Mas há áreas nas grandes cidades que só ganham vida depois da meia-noite, quando começam a chegar os clientes das discotecas e dos bares ou as pessoas que apenas vão ficar nos espaços públicos criando as famosas “movidas” deambulando entre os diversos locais na noite. Os limites da noite são difíceis de estabelecer pois podem ter diferentes naturezas e variam conforme os lugares, as culturas e a sensibilidade pessoal (PAQUOT, 2000). O tempo dos territórios começou por ser ditado pelos ritmos naturais, a sucessão dos dias e das estações do ano. Com a urbanização da população o tempo dos territórios passou a depender da organização industrial do trabalho e os fluxos passaram a ter horas mais ou Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 2, p. 4-42, jul./dez. 2011. http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/pgc . ISSN: 2236-417X. Publicação sob Licença .

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  • ARTIGOS DE REVISO

    GESTO DA NOITE E OPORTUNIDADES DE DESENVOLVIMENTO DOS TERRITRIOS

    Teresa Alves Doutora em Geografia Humana pela Universidade de Lisboa, Portugal. Professora do Instituto de Geografia e Ordenamento do Territrio da

    Universidade de Lisboa, Portugal. E-mail: [email protected]

    Resumo Este artigo tem como objetivos: reflectir sobre as mudanas nos contextos de uso de tempo e de espao e nas prticas individuais e colectivas e como estas ajudam a compreender as dinmicas de desenvolvimento dos territrios noite e, em particular, o crescimento dos servios; e discutir como que os processos de planeamento e de gesto podem intervir para que os territrios possam ser vividos com qualidade e de uma forma sustentvel noite. Nesse percurso, em busca de respostas, apresenta as seguintes questes: O territrio noite necessita de uma gesto diferente da do dia? Quais podem ser os domnios de interveno das polticas pblicas na gesto do territrio noite? Por concluso, so apresentadas iniciativas e exemplos de boas prticas de gesto dos territrios noite. Palavras-chave: Gesto. Territrio. Noite. Planejamento urbano. Gesto da noite.

    1 O TERRITRIO NOITE NECESSITA DE UMA GESTO DIFERENTE DA DO DIA? 1.1 A noite no um espao-tempo igual ao dia

    A primeira reflexo que se coloca como a podemos definir/delimitar o espao-tempo

    noite? A definio astronmica de noite o intervalo de tempo entre o pr e o nascer do Sol. A extenso da noite de acordo a definio astronmica varia ao longo do ano com a latitude mas, em mdia, a noite dura sempre metade do tempo de um ano, a distribuio ao longo do ano que pode variar. Em Portugal, a noite mais longa ocorre no solstcio de Inverno, entre 21 e 22 de Dezembro, e a mais curta ocorre no solstcio de Vero, entre 21 e 22 de Junho.

    Do ponto de vista econmico e social a noite pode ser definida em funo da diminuio da intensidade das actividades econmicas e das relaes da vida social no espao pblico e pelo crescimento das funes que se orientam para as esferas da vida privada. Os limites sero ainda mais variveis.

    Um estudo realizado em Estrasburgo revelou que a cidade nos espaos pblicos parava apenas entre as 1h 30m e as 4h e 30m da manh (GWIAZDZINSKI, 2007). A distribuio do trfego da Internet, em Portugal, mostra que os picos de utilizao s decaem depois das 3h da manh (www.marktest.pt). Mas h reas nas grandes cidades que s ganham vida depois da meia-noite, quando comeam a chegar os clientes das discotecas e dos bares ou as pessoas que apenas vo ficar nos espaos pblicos criando as famosas movidas deambulando entre os diversos locais na noite.

    Os limites da noite so difceis de estabelecer pois podem ter diferentes naturezas e variam conforme os lugares, as culturas e a sensibilidade pessoal (PAQUOT, 2000). O tempo dos territrios comeou por ser ditado pelos ritmos naturais, a sucesso dos dias e das estaes do ano. Com a urbanizao da populao o tempo dos territrios passou a depender da organizao industrial do trabalho e os fluxos passaram a ter horas mais ou

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    mailto:[email protected]://www.marktest.pt/http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/pgc

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    menos fixas, independentemente, da durao do dia e da noite (GODARD, 1997). As inovaes relacionadas com a iluminao artificial permitiram prolongar as jornadas de trabalho independentemente da luz do Sol e alterar os ritmos da vida do dia-a-dia.

    Hoje, na sociedade dos servios, os ritmos so cada vez mais dessincronizados, fragmentando os tempos sociais (ASCHER, 1997). Os impactos nos territrios so evidentes. Enquanto uns descansam, outros trabalham, uns estudam e outros divertem-se. O prprio espao-tempo noite no uniforme! Para Gwiazdzinski (2007) existem trs tempos na noite que correspondem a trs formas diferentes de ocupao dos espaos pblicos: das 20 s 1h e 30m a noite avana invadida pelas actividades do dia, o perodo das sadas culturais, com os amigos, dos passeios, pode-se ficar no espaos pblicos ou regressar a casa; das 1h 30m s 4h 30m o corao da noite, o momento em que a cidade descansa, nos espaos pblicos ficam apenas os noctvagos e os trabalhadores com funes especficas, em geral, esto na noite para ficar; das 4h 30m s 6h a madrugada, a noite acaba e o dia comea, os que regressam da noite encontram-se com os que esto a iniciar o dia de trabalho.

    No existe uma noite, mas mltiplas noites. A noite um espao-tempo com limites fluidos e com naturezas que variam de acordo com diversos aspectos, mas acima de tudo com os diferentes modos de organizao da sociedade. 1.2 A noite um espao-tempo com caractersticas especficas

    A noite um espao-tempo com caractersticas especficas e, por isso, o

    comportamento nos territrios das pessoas, das empresas e das instituies no igual ao de dia. Em primeiro lugar, a ausncia da luz natural do Sol contribui para acentuar a segregao socioterritorial. H locais por onde passamos de dia e onde no queremos ir se for de noite. As acessibilidades no territrio podem ser condicionadas pela presena de iluminao artificial, mas tambm por pr-conceitos formados a partir de informaes que podem ser correctas ou no. O facto de no haver luz natural permite que outros aspectos do territrio que durante o dia so neutralizados por aquilo que podemos chamar a tirania da viso possam ser colocados em evidncia. A noite permite que desfrutemos de paisagens diferentes das do dia, ao nvel dos sons ou dos cheiros, mas tambm ao nvel do que podemos ver.

    A ausncia de luz natural tem implicaes sobre os territrios porque afecta o modo como as pessoas se sentem e se comportam porque a percepo da realidade diferente. Por exemplo, um rudo que durante o dia era quase imperceptvel, noite pode transformar-se em poluio sonora. Aspectos da organizao social que de dia passavam despercebidos no meio das dinmicas dos territrios, noite podem ficar muito mais em evidncia. Para o bem e para o mal a noite amplia os acontecimentos.

    A iluminao cria segregao socio-espacial, no passado porque s algumas ruas ou localidades eram iluminadas, hoje porque a qualidade da iluminao ambiental muito diferente de lugar para lugar.

    Por fim, h uma forte associao entre noite e insegurana. noite as pessoas esto mais inseguras porque sentem que no dominam, no conseguem conhecer os territrios como acontece durante o dia. A falta de luz natural tem implicaes sobre o modo como as pessoas se comportam. Embora no existam dados que associem directamente noite e criminalidade, o que certo que h uma forte ligao, ao nvel das representaes, entre noite e insegurana. Digamos que a escurido perturba e torna as pessoas mais sensveis e vulnerveis. evidente que existem conflitos que se acentuam noite, mas so as especificidades deste espao-tempo que de certo modo ampliam a realidade. Muitos destes conflitos podem resultar do territrio ser planeado para ser vivido de dia e no ter em conta que hoje existem cada vez mais pessoas a viver de noite, porque trabalham de noite, porque

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    estudam de noite, porque se divertem de noite. Articular no espao ritmos de vidas cada vez mais dessincronizados um dos grandes desafios do planeamento e da gesto territorial.

    1.3 A noite tem representaes muito negativas, mas por excelncia o momento da criao

    A noite de todos os momentos, aquele que encerra as representaes mais negativas (HEURGON, 2005). Em quase todos os domnios do saber a noite surge como metfora da ignorncia, da superstio e do fanatismo. Falamos da noite dos tempos para referir perodos muito recuados no tempo sobre os quais pouco sabemos. A longa noite fascista, a noite das facas longas, a noite de cristal, as noites do KKK, os bombardeamentos em directo na TV na noite de Bagdade, povoam de terror a nossa histria colectiva (ALVES, 2007b). Por oposio, a luz e o dia esto associados quase sempre ao progresso, ao bem e evidncia (ALVES, 2007b). Quando queremos esclarecer algo fazemos luz sobre a situao, ou quando queremos saber mais vamos pr em dia os nossos conhecimentos. As expresses derivadas de luz esto quase sempre associadas a algo de positivo: iluminar, clarear, aurora, iluminismo, Sculo das Luzes, a noite cai, mas o dia nasce ou eleva-se...

    Sem a noite, contudo, muitos dos progressos da humanidade no teriam acontecido (ALVES, 2007b). A noite por excelncia o momento da reflexo e da criao. Sem noite no teria havido, por exemplo, as grandes viagens martimas, porque foi a noite que, ao permitir a observao das estrelas, e garantiu aos navegadores o sistema de orientao por mares desconhecidos, permitindo dar novos mundos ao mundo. E porque ser que a maior parte das revolues nascem de noite?

    A noite , por excelncia, o espao das transgresses, dos ritos iniciticos, dos noctvagos, dos artistas, dos sonhos e do amor. A noite fascina-nos, perturba-nos, porque no nosso imaginrio colectivo a noite est associada aos momentos mgicos. Apesar de toda a carga negativa, da dimenso obscura que continua a inquietar-nos, a noite tem vindo a ganhar uma representao mais potica que valoriza aspectos como a liberdade e a criatividade.

    Um inqurito realizado em 2009 a alunos de duas Universidades em Lisboa sobre o modo como viam a noite deu os seguintes resultados. A noite surge associada predominantemente ao mistrio, ao repouso, ao sono e calma, bomia, festa e ao divertimento, insegurana, ao perigo e ao medo, mas tambm liberdade, aos artistas e criatividade... Para estes jovens a noite raramente evoca: obrigaes, trabalho, razo, estudo ou responsabilidades... Inquritos realizados em Frana tinham demonstrado que a noite definida pelos jovens como um tempo escolhido, um tempo de liberdade, enquanto o dia est associado s obrigaes (ESPINASSE; BUHAGIAR, 2004). Estes resultados em relao a um conjunto de jovens portugueses parecem ir no mesmo sentido. Os seus comportamentos nos territrios so certamente condicionados pela maneira como percepcionam e sentem o espao-tempo noite o que resulta das suas prprias experincias, ampliado pelo que lhes chega atravs da circulao da informao. 2 NOVOS CONTEXTOS DE USO DO TEMPO E DO ESPAO

    As mudanas na organizao da sociedade conduzem a alteraes no modo como

    empregamos o tempo: nos tipos de usos, nos ritmos, nas sequncias e nas sincronias (HERVE, 2001). Dormimos menos horas do que no passado. O tempo de trabalho depois de um perodo em que diminuiu, muda de caractersticas e pode mesmo estar a aumentar, apesar do crescimento do desemprego. Os tempos da sociabilidade vo sendo cada vez mais difceis de sincronizar. Todos nos queixamos que no temos tempo para a famlia, para os amigos, para ns. As novas tecnologias de comunicao introduzem mudanas no modo como organizamos as sequncias dos usos do tempo e podem subverter as fronteiras entre os tipos de uso, como

    http://www.revue-espaces.com/2003/espaces_personnes-1258,Espinasse.htmlhttp://www.revue-espaces.com/2003/espaces_personnes-3100,Buhagiar.html

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    acontece quando transportamos para o espao da vida privada o trabalho, abolindo horrios e a separao dos lugares sociais.

    A organizao do tempo de trabalho - aumento da intensidade e da polivalncia dos trabalhadores (ALVES, 2005), crescimento do emprego a tempo parcial forado, dos contratos por perodos de tempo indeterminado, da precariedade, dos perodos de desemprego e da desregulao dos horrios - continua a marcar os ritmos e as sequncias da vida do quotidiano, mesmo dos que no tm trabalho (EC, 2003).

    O trabalho foi, durante sculos, uma forma de socializao, onde se criavam laos de amizade, de famlia e de solidariedade que se prolongavam para fora do espao e do tempo de trabalho. Hoje, com a individualizao das prticas de trabalho tudo isto corre o risco de desaparecer (HERVE, 2001). As mudanas na organizao do trabalho (mais intenso, mais polivalente, mais desregulado) resultam da evoluo da prpria sociedade que se expressa em contextos de maior individualizao dos modos de vida, do crescimento do carcter efmero das referncias e dos relacionamentos, da diminuio da ritualizao da vida colectiva, da desorganizao dos ritmos e tempos de vida pessoal e familiar (ASCHER, 1997).

    Em resultado destas transformaes assistimos ao surgimento de novas lgicas de pertena que valorizam os grupos sociais formados em torno dos tempos livres e das prticas de lazer. Hoje os amigos para a vida no vm dos locais de trabalho, mas dos bancos da escola e, frequentemente, so os que se formam em torno das prticas dos tempos de livres. Estes novos contextos sociais, em termos territoriais podem estar a contribuir para a valorizao noite dos espaos pblicos, em detrimento das relaes associadas famlia e aos espaos privados. Assim se pode explicar a dinmica de espaos urbanos para onde confluem noite pessoas provenientes de diferentes lugares e que se renem para socializar depois de terem passado o dia em actividades localizadas em territrios muito dispersos. Em Portugal muitas das iniciativas de gesto do territrio que afectam o perodo da noite surgem em torno destes bairros onde se concentra o dinamismo econmico noite. Por exemplo na maior parte da cidade de Lisboa, o estacionamento no espao pblico gratuito a partir das 19 ou 20h, excepto nestes bairros onde se tem de pagar o estacionamento at s 2h da manh.

    Um dos factores que mais promoveu mudanas no uso do tempo e do espao foi a integrao das mulheres no mercado de trabalho. A necessidade de conciliar tempos de trabalho domstico e trabalho assalariado foi um factor-chave para o desenvolvimento de servios com horrios atpicos, nomeadamente, noite e ao fim-de-semana. A continuao da no partilha das funes domsticas, que continuam a ser um domnio especificamente feminino, impe ritmos e sequncias nos usos do tempo que impedem as mulheres de terem tempo para si e, em particular, para sair noite. Esta situao contribui para o facto dos pblicos da noite serem predominantemente masculinos criando formas de segregao socioterritorial que geram insegurana e podem afastar outros potenciais utilizadores do territrio noite. O sucesso de alguns espaos da noite decorre precisamente da heterogeneidade: de gnero, de etnias, de nacionalidades, de idades Os eventos nocturnos mais concorridos so os que cruzam geraes e pessoas das mais diferentes origens sociais, como acontece com as festas populares que cada concelho ou mesmo freguesia organiza durante os meses mais quentes.

    As mudanas nos ritmos e nos usos do tempo alteraram as relaes dos indivduos com os territrios e criaram novas dinmicas. A organizao do espao depende, cada vez menos, de conceitos tradicionais de distncia, proximidade ou densidade, e est, cada vez mais, relacionada com conceitos espcio-temporais como velocidade, movimento, acessibilidade, durao, horrios, ritmos, conectividade que decorrem das novas formas de organizao da sociedade, mais flexvel, mais rpida e com maior mobilidade (BOULIN, 2002). Os territrios herdados de uma concepo de tempo mais estvel foram ultrapassados por novas relaes territoriais que resultam de novas dinmicas na localizao do emprego, dos

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    locais de consumo e da residncia, das novas formas de mobilidade e de consumo, das tecnologias de comunicao e de uma organizao do funcionamento da sociedade cada vez mais em rede (ASCHER, 1995; CASTELLS, 1996; BOULIN, 2002), e em escalas cada vez mais diversas. Em vez de vivermos em territrios com limites bem definidos, vivemos em nublosas de geografia varivel, com limites incertos e com ritmos e tempos de funcionamento cada vez mais dessincronizados. Cada bairro pode ter temporalidades diversas. J no so apenas as questes relacionadas com os ritmos das periferias dormitrios que s tm vida ao incio e ao fim do dia, ou do esvaziamento dos centros histricos das cidades noite, mas outras reas que ganham e perdem vida com temporalidades diversas. O desenvolvimento de actividades predominantemente nocturnas em determinadas reas est a contribuir, at certo ponto, para novas fragmentaes socioterritoriais, aos territrios onde todos dormem contrapem-se os territrios que nunca se dorme, com todos os conflitos que esta situao pode gerar. Mas em determinados contextos o desenvolvimento de actividades predominantemente nocturnas pode ajudar a desenvolver espaos que do ponto vista social so tudo menos segregadores.

    O exemplo do Bairro Alto em Lisboa ilustra bem este aspecto. noite confluem para este espao pessoas das mais diversas provenincias geogrficas e origens sociais. A conflitualidade com os residentes mais antigos no significativa. A populao residente idosa no sente, em geral, a presena de vida na rua at tarde como uma ameaa ou risco. Nalguns casos o comrcio tradicional transformou-se alargando horrios e vendo nesta vida nocturna uma oportunidade de negcio, como acontece com as pequenas unidades de comrcio alimentar que funcionam at mais tarde para venderem produtos a preos muito mais reduzidos do que nos restaurantes ou nos bares. A presena de milhares de pessoas nalgumas noites do ano confere a este territrio um carcter nico que o transforma numa das principais atraces tursticas da cidade. Num centro de cidade que se caracteriza pelo declnio dos residentes esta dinmica demonstra que a cidade nocturna acolhe aqueles que durante o dia no tm lugar nela. Durante o dia a cidade mais segregadora do que durante a noite: porque na maior parte dos casos, durante o dia no h trabalho para esta populao, porque no existe habitao a preos compatveis com os seus rendimentos. Mas noite a cidade tem capacidade para acolher todos os que tiverem possibilidade de at ela se deslocarem.

    Os horrios dessincronizados, por outro lado, contribuem para o desenvolvimento de uma sociedade em contnuo com cada vez mais pessoas a utilizar os espaos pblicos durante a noite. Os ritmos mais acelerados estimulam a utilizao dos meios de transportes individuais, aumentam a mobilidade e promovem as deambulaes por razes diferentes das do passado e com lgicas de tempo muito diversificadas (HERVE, 2001). Mas o desenvolvimento de uma sociedade 24 horas/7 dias no significa que nas nossas cidades, os nossos territrios mais prximos, tenham de funcionar em contnuo. A acessibilidade a bens e servios, a qualquer hora e em qualquer lugar pode decorrer mais da facilidade de nos movimentarmos do que da proximidade fsica e acima de tudo do desenvolvimento das tecnologias de informao e comunicao. Este processo, conjugado com a desmaterializao crescente dos bens e servios consumidos, contribuiu de forma decisiva para a mudana no modo como podemos aceder a estes bens e servios e o incremento de uma sociedade 24 horas/7 dias que se organiza cada vez mais a diferentes escalas, do local ao global.

    medida que se desenvolvem novos usos do tempo e do espao mais dessincronizados e com maior destaque para os usos em tempos nocturnos os conflitos entre indivduos, nos espaos pblicos, podem acentuar-se. Nalguns bairros surgem conflitos entre habitantes ciosos da sua tranquilidade e os consumidores dos locais da noite, smbolos da emergncia de um espao pblico nocturno. O modo como os poderes autrquicos em Portugal tm procurado gerir estas tenses resume-se a uma poltica de horrios de funcionamento dos estabelecimentos e de normas sobre a circulao de veculos. Em muitos casos estas decises no s no alteram nada como exacerbam os problemas. Em alguns casos

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    o encerramento dos estabelecimentos a determinada hora s se traduziu no aumento do barulho no espao pblico, pois as pessoas ao sarem dos espaos privados permanecem no espao pblico at mais tarde. Noutros casos significou deslocalizar o conflito para outras reas da cidade onde os estabelecimentos podem permanecer abertos at ao amanhecer. As decises das polticas das autarquias em termos de horrios de funcionamento dos estabelecimentos no so uniformes em termos territoriais e criam processos de segregao que levam por vezes guetizao dos usos dos espaos. 2.1 Usos do tempo

    As mudanas nos usos do tempo so evidentes durante o dia, mas noite que as

    dinmicas so mais intensas: dormimos cada vez menos tempo; noite h cada vez mais pessoas a trabalhar em casa e fora dela; os horrios das actividades econmicas prolongam-se e entram pela noite dentro; ao mesmo tempo o trabalho domstico tambm se estende pela noite dentro, por vezes at altas horas; o tempo livre cada vez menos livre; o tempo dedicado ao lazer assume cada vez maior importncia configurando usos no territrio que at h pouco tempo se confinavam ao espao privado das nossas casas.

    Para analisar estas mudanas utilizmos uma classificao do tempo elaborada por um grupo de investigadores finlandeses (AAS, et al., 1986)e que est na base da maior parte dos inquritos oficiais que dividiu os usos do tempo em quatro categorias: contratado, comprometido, necessrio e livre.

    O tempo contratado o tempo dedicado ao trabalho remunerado e ao estudo. Tem uma dominncia diurna, mas ocupa cada vez mais o perodo da noite. O nmero de pessoas que trabalha e estuda noite no tem parado de crescer. Em Portugal e em todo o mundo dito desenvolvido. Num artigo com a Diana Almeida comparmos os dados que obtivemos para Portugal com outros pases europeus, Japo, EUA, Canad, Austrlia e Coreia do Sul verificamos que as tendncias de evoluo so semelhantes (ALVES; ALMEIDA, 2011).

    O tempo comprometido, tal como o tempo contratado, tem prioridade sobre o tempo necessrio e o tempo livre, na medida em que assumido como tempo dedicado ao trabalho produtivo (embora no entre nas contas nacionais, e claramente o que leva os pases do sul da Europa parecerem mais improdutivos do que os do norte). Refere-se ao tempo utilizado para fazer os trabalhos domsticos e as aquisies necessrias a manter a casa e a famlia e as deslocaes que lhes esto associadas. Hoje autores como Goodman (2008) incluem neste tipo o tempo dedicado ao trabalho voluntrio. O tempo comprometido reparte-se de um modo em que o perodo da noite tem vindo a ganhar relevncia, sobretudo medida que crescem os horrios atpicos e as mulheres entram no mercado de trabalho, pois muito do trabalho domstico feito noite.

    O tempo necessrio utilizado em actividades relacionadas com comer, dormir, higiene pessoal e em certa medida as actividades fsicas relacionadas com a sade e a qualidade de vida. O tempo necessrio ocupa, em geral, a maior parcela do tempo das pessoas pois o tempo que passamos a dormir tido em conta nesta categoria e este o tipo de uso do tempo mais relevante, pois ditado por necessidades fisiolgicas. O tempo necessrio o tipo de tempo que domina o perodo da noite.

    O tempo livre refere-se ao que resta das 24 horas do dia depois de subtrairmos os outros trs tipos de uso do tempo. Este tipo de uso do tempo no necessariamente um tempo discricionrio como o termo tempo "livre" parece implicar, porque as pessoas tendem a planear actividades com antecedncia e a criar tempo livre comprometido em vez de verdadeiro tempo livre.

    O tempo contratado tempo de estudo e trabalho e das viagens associadas - no o que ocupa a em mdia maior parcela do tempo dirio de um indivduo, mas o que tem maior

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    impacto na definio dos ritmos e das sequncias da vida do dia a dia, mesmo dos que no tm trabalho ou no estudam. As pessoas (so todas mulheres) que declararam nos inquritos do Projecto NOITe que no trabalhavam fora de casa, em mdia no dormem mais horas e continuam a levantar-se antes dos maridos e dos filhos para lhes prepararem o pequeno-almoo.

    Figura 1 - Repartio ao longo das 24h dos tipos de usos do tempo, Portugal, 2010/11 Fonte: Projecto Noite: Oportunidades e Inovao no Territrio (NOITe) (PTDC/GEO/64240/2006)

    De acordo com os inquritos realizados o tempo contratado ocupa em mdia 23% do tempo de um dia de semana de um indivduo adulto, enquanto o tempo necessrio ocupa quase 50% do dia (Figura 1). Enquanto o tempo contratado e o tempo comprometido so tempos iminentemente diurnos, cerca de 80% destes tipos de uso do tempo ocorrem entre as 8 e as 20h, o tempo necessrio o tipo de tempo que domina a noite, 75% deste tipo de uso ocorre entre as 20 e as 8h. O tempo livre o que se distribui de forma mais equitativa entre dia e noite, respectivamente 58 e 42%.

    Quando inquiridos sobre o que mudou no uso do tempo nos ltimos anos verificamos que as pessoas, medida que envelhecem e a qualidade dos espaos privados vo melhorando, vo saindo cada vez menos noite. Contudo, todas as pessoas inquiridas afirmaram sair noite por motivos de lazer vrias vezes ao ano. As idas a espectculos como o cinema, teatro ou concertos de msica so as razes mais frequentemente invocadas nas reas urbanas e as festas populares nas reas com cariz mais rural.

    Os adultos jovens so os que mais saem por motivos de trabalho e familiares. entre este grupo que surge com maior frequncia o trabalho que se prolonga pela noite dentro, no local de trabalho, mas sobretudo atravs do continuar em casa a jornada de trabalho. Entre os aspectos mais marcantes das mudanas no uso do tempo esto os que podem ser introduzidos pelas novas tecnologias de comunicao ao alterarem o modo como organizamos as sequncias dos usos do tempo e o modo como vo subvertendo as fronteiras entre os tipos de uso, como acontece quando transportamos para o espao da vida privada o trabalho, abolindo horrios e a separao dos lugares sociais.

    As diferenas entre os gneros continuam bem patentes nos usos do tempo. As mulheres dedicam, em mdia, mais tempo do que os homens, ao trabalho domstico e aos cuidados da famlia e dispem de menos tempo livre, o que revela o desequilbrio que

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    continua a observar-se na repartio de tarefas, tal como acontece em todos os pases europeus analisados num estudo de 2003 (EC, 2003). Se agregarmos o tempo de trabalho remunerado com o tempo de trabalho domstico, verificamos que as mulheres trabalham em mdia mais horas do que os homens. Como o dia tem apenas 24 horas no tempo da noite que as diferenas so mais evidentes: as mulheres dormem menos horas, trabalham at mais tarde, levantam-se em mdia antes da restante famlia, situao que se agrava quando existem crianas pequenas no agregado familiar.

    Comparando os dados do uso do tempo num dia de semana e ao fim de semana verifica-se que as grandes diferenas esto, em primeiro lugar, no tempo dedicado ao trabalho fora de casa e em segundo lugar no facto de se aproveitar o tempo da noite para actividades diferentes de dormir, que comea em mdia hora e meia mais tarde ao fim de semana. Quando inquiridos sobre as mudanas as pessoas declaram, todavia, trabalhar agora mais frequentemente ao fim de semana, quer em trabalho remunerado quer em funes de cariz domstico.

    Os resultados dos inquritos realizados no mbito do projecto NOIte mostram como as mudanas na organizao da sociedade conduzem a alteraes no modo como empregamos o tempo (nos tipos de usos, nos ritmos, nas sequncias e nas sincronias) e confirmam o aumento da relevncia do espao-tempo noite para todos os tipos de uso do tempo.

    3 NOVAS PRTICAS INDIVIDUAIS E COLECTIVAS

    As mudanas sociais e culturais das ltimas dcadas reforaram a importncia do espao-tempo noite em todas as esferas da sociedade. Entre os factores de mudana podemos salientar: as mudanas demogrficas como o crescimento do nmero de pessoas sozinhas, sem constrangimentos de horrios familiares, ou o facto de as pessoas constiturem famlia cada vez mais tarde, permanecerem mais tempo em casa dos pais, livres dos encargos associados vida familiar; a liberalizao de costumes e prticas sociais - em consequncia no s da reduo da influncia da religio, como tambm do crescimento dos nveis de instruo da populao; os modos de vida urbanos que reduzem a separao entre dia e noite, entre as estaes do ano, e promovem ritmos de vida muito mais diversificados; a revalorizao das prticas relacionadas com o tempo livre que, socialmente, deixaram de ser entendidas como uma perda de tempo e passaram a constituir-se como uma mais-valia na formao dos indivduos. 3.1 Idades e usos do tempo

    O aumento da esperana de vida tornou obsoleta a tradicional associao entre idades e principais usos do tempo: infncia tempo de formao; idade adulta tempo de trabalho; velhice tempo de repouso. Hoje, os tempos de transio infncia - idade adulta e idade adulta - velhice so muito mais relevantes do que no passado, porque se prolongam mais no tempo, porque os modos de transio so muito mais diversificados e porque se traduzem em novas prticas sociais com particular relevo para o espao-tempo noite.

    Espinasse e Buhagiar (2004) constataram que a noite exerce uma grande atraco sobre os jovens, por vezes mesmo muito jovens, mas um espao-tempo tambm muito importante para os celibatrios, os reformados jovens e os turistas. Os inquritos realizados no projecto NOITe confirmam esta tendncia em Portugal: as pessoas que declaram sair com maior frequncia noite para se divertir so os mais jovens e os adultos jovens sem constrangimentos familiares. Em contrapartida os que declaram sair com maior frequncia noite por motivos de trabalho so adultos at aos 40 anos. Os adultos j sem

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    constrangimentos associados vida familiar com filhos pequenos acabam por relevar maior tendncia para sair noite, mas por motivos de lazer.

    Se a infncia/juventude continua marcada pelo tempo da escola, o tempo da aprendizagem j no se confina apenas a este perodo da vida. Vivemos numa sociedade que consagra cada vez mais a formao ao longo da vida, contnua e permanente, o que leva a haver cada vez mais pessoas a estudar noite. O tempo de trabalho, comea cada vez mais tarde, porque a formao inicial se prolonga medida que so solicitados nveis de instruo mais elevados. A passagem para a idade adulta estende-se no tempo e a idade de ingresso no primeiro emprego torna-se muito diversificada. Os jovens e os adultos jovens (que se prolongam at idades cada vez mais avanadas) so os pblicos mais frequentes nas actividades associadas ao tempo livre nocturno.

    O crescimento do nmero de pessoas sozinhas, sem constrangimentos de horrios familiares, ou o facto de as pessoas assumirem compromissos familiares cada vez mais tarde, permanecerem mais tempo em casa dos pais, livres dos encargos, estimulam a procura de actividades de servios utilizadas, sobretudo, noite. Os adultos jovens com emprego e sem constrangimentos familiares, quer em termos de tempo, quer em termos econmicos, so os principais consumidores das actividades econmicas associadas noite. A vida profissional perde a uniformidade do passado medida que se sucedem os ciclos de desemprego, o aumento da precariedade do trabalho e as mudanas nos saberes que obrigam a novos ciclos de formao e aprendizagem. A formao e qualificao profissional e escolar ao longo da vida promovem o desenvolvimento de actividades em horrios cada vez menos convencionais, em particular noite. Os perodos de desemprego e a precariedade das relaes de trabalho contribuem para a mobilidade espacial e social em busca de novas sadas profissionais e incentivam a aceitao de horrios atpicos de trabalho como noite e aos fim-de-semana. O trabalhar noite no pode ser apenas visto como um sinal de modernidade, mas tambm como uma sada num contexto em que o desemprego aumenta e as oportunidades de trabalho diminuem, trabalhar noite pode ser a nica possibilidade de ter emprego.

    A passagem para a reforma faz-se de uma forma cada vez menos uniforme, com diferenas na idade, no tempo de actividade e nos modos de cessao que podem ser graduais ou repentinos. O nmero de pessoas activas entre os 55 e os 70 anos tende a aumentar na maior parte dos pases europeus, pois os sistemas dificultam cada vez mais a passagem para a reforma devido aos custos de manuteno da segurana social. As transformaes em termos de usos do tempo e do espao so muitas e variadas. A entrada na reforma em idades menos avanadas cria um mercado para servios como as viagens, o lazer, as prticas desportivas e culturais. Sem a imposio dos ritmos de trabalho, os reformados mais jovens adquirem novos hbitos de uso do tempo que os tornam consumidores de servios noite pois podem deitar-se mais tarde (ESPINASSE; BUHAGIAR, 2004). Em contrapartida, o prolongamento da actividade profissional at idades mais avanadas tem como consequncia a perda deste estmulo ao mercado econmico e o crescimento da procura de servios de cariz social, como os servios de sade e de apoio terceira idade. Nos inquritos que realizmos encontramos este grupo etrio com grande frequncia quer em festas tradicionais, quer como consumidores de servios culturais.

    A noite um espao-tempo muito relevante para os idosos. medida que envelhecemos dormimos cada vez menos horas e como hoje vivemos at muito mais tarde, a noite dos idosos requer um tratamento especial. No apenas por uma questo de segurana, mas atravs da prestao de servios de apoio. Durante a noite os idosos so grandes consumidores de programas de rdio e de televiso, mas raro haver programas especficos dirigidos para este grupo etrio. A noite acentua a solido e agrava os problemas de sade, por isso h toda uma gama de servios de proximidade que devem ser desenvolvidos. O

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    envelhecimento da populao obriga a que os cuidados de sade e os servios de apoio sejam cada vez mais prolongados no tempo, pela maior longevidade das pessoas, mas tambm pelo facto de o nmero de idosos a viverem sozinhos ser cada vez maior. O desenvolvimento de redes de servios sociais de proximidade, para actuarem predominantemente de noite, uma medida fundamental para a promoo da qualidade de vida. Para Espinasse e Buhagiar (2004) os idosos eram os principais excludos da noite. Nos inquritos que realizmos em eventos nocturnos so o grupo mais sub-representado.

    As crianas so outro dos grupos excludos da noite, mas os dados sobre o uso do tempo demonstram que, hoje, as crianas tm a maior parcela do tempo livre concentrada noite e permanecem acordadas at tarde, mas a ver televiso (LOPES; COELHO, 2002). Nos anos 50 e 60, quando a televiso no imperava na ocupao dos tempos livres em Portugal, era frequente, nas noites mais amenas, as pessoas encontrarem-se nos espaos pblicos depois do jantar. As crianas brincavam, os adultos conversavam ou participavam nos jogos e brincadeiras. O convvio intergeracional era estimulador das relaes pessoais e um meio de desenvolver competncias sociais. O planeamento do territrio pode promover estas prticas atravs da criao e manuteno de espaos pblicos, particularmente os de proximidade que estimulem uma ocupao do tempo livre mais participada colectivamente. Nos inquritos realizados noite a presena de crianas ocorria apenas nas actividades como as festas populares em que acompanhavam a famlia.

    4 COMPORTAMENTOS CADA VEZ MAIS INDIVIDUALIZADOS

    As mudanas nos modos de vida que geram comportamentos cada vez mais

    individualizados esto, segundo Herve (2001), associadas: ao desaparecimento da sociedade industrial taylorista com os seus ritmos massificados e estandardizados; ao declnio da importncia dos modos de produo sobre o comportamento; importncia do tempo fora do trabalho; ao recuo da pertena a religies, sindicatos ou grupos polticos; ao deslocamento dos centros de interesse polticos; a uma melhor qualificao profissional; desestandardizao do consumo; a uma maior diversidade das ofertas culturais; ao crescimento da permissividade de valores (em relao famlia, sexualidade, religio). O ideal de vida para ser feliz no comeo do sculo XXI era viver longe do centro da cidade e ter um automvel.

    Este movimento traduziu-se na procura crescente de casas individuais, promoveu a disperso da habitao e contribuiu ainda mais para a diversificao dos comportamentos individuais e a dessincronizao dos tempos sociais. Num inqurito realizado no Canad este estilo de vida aparecia associado necessidade de trabalhar mais tempo para dispor de meios financeiros para fazer face ao crescimento dos encargos: habitao individual era mais cara; necessidade de ter um veculo para cada membro da famlia (GWIAZDZINSKI, 2007). Os horrios de trabalho tornavam-se mais longos, avanando pela noite, e o tempo de trabalho no domiclio tambm aumentava, o que gerava novos usos do tempo e do espao, confundindo os lugares sociais.

    Os comportamentos mais individualizados parecem, contudo, abrir perspectivas ao aumento da procura para actividades que promovem a socializao, como os bares e a restaurao (encontros ao fim do dia de trabalho para conversar e tomar uma bebida ou uma refeio; sair noite para encontrar os amigos), a valorizao cultural, como os espectculos ou as exposies de arte ou cultura (as sesses mais concorridas dos cinemas so noite; os horrios dos espectculos de msica ou de teatro raramente so diurnos) e a prtica desportiva (cada vez menos em actividades de grupo; aumento das sesses personalizadas ou pelo menos individualizadas porque os horrios so muito mais facilmente articulveis com as limitaes impostas pelos tempos de trabalho; mesmo as crianas praticam desporto sobretudo ao fim do dia, incio da noite) (ALVES, 2005).

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    A vida colectiva est a mudar de sentido, a adquirir valores diferentes dos do passado. crescente individualizao da esfera privada, e dos seus espaos, est a corresponder uma crescente procura da esfera pblica e dos seus espaos para criar laos, relaes e pertenas. Nunca tantas pessoas se mobilizaram em funo de novas solidariedades, nunca a economia solidria foi to activa, os indicadores mostram que a vida associativa cada vez mais diversificada nas formas e nos modos de actuar, na realidade a vida colectiva ganhou novas esferas de actuao adequando-se s mudanas sociais. E o espao-tempo noite parece ser o espao-tempo por excelncia destas novas prticas sociais. 4.1 Novos valores e nveis de instruo mais elevados

    A reduo da importncia da religio teve como consequncia a liberalizao de costumes e prticas sociais, permitindo a afirmao de valores que facilitaram o trabalho ao domingo e nos dias santos.

    O trabalho nocturno deixou de ter uma carga pejorativa e passou a ser socialmente aceite, nomeadamente o trabalho das mulheres. Quando em Frana as mulheres puderam passar a trabalhar noite, a discusso era se tal devia ser entendido como um sinal de liberdade, ou mais um constrangimento (GWIAZDZINSKI, 2003). De qualquer forma, a lei francesa consagrou que uma mulher pode recusar o trabalho de noite se tiver a seu cargo a educao de crianas. Facto que no pode ser invocado por um homem. Os nveis de instruo mais elevados contribuem, por um lado, para uma mudana nos tipos de trabalho e, por outro, para mudanas nos valores e comportamentos. O crescimento de qualificao do emprego corresponde predominncia das actividades nos servios e favorece a diversidade de horrios, o avano do trabalho em horas menos convencionais e a aceitao de ritmos de vida mais dessincronizados. O que pode ser um estmulo ao consumo de novos servios que compensem a falta de tempo para a execuo de tarefas na esfera domstica, como acontece com a externalizao de funes como a preparao de refeies, a limpeza ou o tratamento da roupa (ALVES, 2005). Se nuns casos podem traduzir-se na contratao de servios domsticos que sero prestados no domiclio, noutros estimulam consumos fora do agregado domstico em horrios cada vez mais irregulares, promovendo o surgimento de novas actividades e empresas (ALVES, 2005). 4.2 Valorizao das prticas culturais e desportivas relacionadas com o tempo livre

    O aumento da intensidade do trabalho, decorrente do desenvolvimento de uma sociedade de servios, e os nveis de instruo mais elevados, que contribuem para novos valores e melhores remuneraes, promovem a valorizao das prticas culturais e desportivas relacionadas com o tempo livre que, socialmente, deixaram de ser vistas como uma perda de tempo e passaram a constituir-se como uma mais-valia na formao dos indivduos e um sinal de qualidade de vida. Como a maior disponibilidade de tempo livre ocorre, precisamente, noite esta mudana vai afectar o uso dos territrios durante esse perodo.

    As actividades que articulam a economia do espectculo e o enriquecimento cultural, como o teatro, o cinema, a pera, a msica e toda uma variedade de outros espectculos ocorrem, sobretudo, noite, provocando dinmicas nos territrios relacionados quer com os fluxos dos espectadores, como tambm com o trabalho que induzem. A localizao destes equipamentos determinante para a dinmica dos territrios noite. Nas principais cidades em Portugal duas tendncias contraditrias persistem: por um lado, a concentrao dos equipamentos mais antigos, ligados a formas mais elitistas de espectculos, ficam no centro das cidades e para funcionarem com nveis aceitveis de afluncia de pblico tm de atrair os residentes das periferias; por outro lado, o desenvolvimento dos espaos, onde se associam

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    cinema, restaurao e comrcio localizados nas periferias. Em qualquer das situaes a acessibilidade est dependente da capacidade de mobilidade associada ao transporte individual privado.

    A abertura nocturna de museus, centros de exposio ou galerias de arte ocorre, em geral, pontualmente, num dia especfico da semana ou por ocasio de um dado evento. Em Lisboa, por exemplo, a abertura do Museu do Oriente at s 22 h de sexta-feira teve como reflexo que outros espaos passassem a ter tambm um dia de abertura at mais tarde. Durante o vero inmeras instituies promovem a abertura noite, reproduzindo pelo menos 1 dia por semana o evento mundial que ocorre em Maio em torno do dia Mundial dos Museus. Assim, a conciliao de horrios possibilita a abertura destas actividades culturais a um pblico muito mais vasto.

    Por fim, as actividades ligadas s prticas desportivas que, para poderem ter horrios compatveis com os outros usos do tempo, nomeadamente com as horas de trabalho e de escola, tm de ser realizadas em horrios muito tardios. Os pavilhes gimnodesportivos, as piscinas, os complexos de campos de jogos tm os seus picos de utilizao aps as 18h e prolongam as actividades pela noite dentro. 5 A UTILIZAO DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAO E COMUNICAO

    A utilizao das novas tecnologias de informao e comunicao reduz as distncias e muda as noes de lugar, de tempo e de horrio. Sem sair de casa temos nossa disposio um sem fim de servios, de bens, de informaes que modificam as nossas prticas e comportamentos. Atravs das novas tecnologias de informao e comunicao podemos dar ordens de compra e venda, aceder a servios, alterar radicalmente a nossa vida domstica, organizar as nossas deslocaes, modificar as nossas prticas culturais e os nossos comportamentos sociais e pessoais, a qualquer hora, de dia, mas sobretudo de noite.

    As novas tecnologias de informao e comunicao criam continuidades entre tempo de trabalho e tempo livre, entre espao privado e espao pblico. As fronteiras so cada vez mais fluidas e as consequncias so evidentes em termos de confuso do uso do tempo e mesmo do espao. As novas tecnologias de comunicao que permitem obter tudo e a toda a hora, segundo imperativos individuais, podem criar tenses porque a vida social raramente est modelada segundo essa lgica.

    Em Portugal, de acordo com o INE, as pessoas que dispem de acesso Internet j passam mais tempo em frente dos computadores do que a ver televiso. No Reino Unido o uso do tempo dos utilizadores de computadores significativamente diferente do dos outros indivduos. Os 120 minutos, de mdia diria, dedicados aos computadores significam menos tempo nos trabalhos domsticos, na vida social e no tempo livre. E significa menos tempo passado nos espaos pblicos.

    5.1 Desenvolvimento de modos de vida cada vez mais urbanos

    O desenvolvimento de modos de vida cada vez mais urbanos reduzem a separao entre dia e noite, entre as estaes do ano, e promovem o funcionamento da economia e da sociedade 24h / 7 dias (Gwiazdzinski 2007). No passado, o mundo urbano distinguia-se do rural pelo desaparecimento dos ciclos de carcter natural e pela implementao de ambientes artificiais, que recriavam a noite ou o dia, o vero ou o inverno. Mas o mundo rural transformou-se cada vez mais pela adopo de estilos de vida que pouco ou nada se distinguem do das reas urbanas. Hoje, nas reas rurais a maior parte da populao trabalha nos servios e os ritmos de vida, os seus percursos, o uso que fazem do espao so cada vez mais ditados pelos horrios de trabalho e pelos tipos de consumo iguais aos dos espaos

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    urbanos. noite o tempo livre passado em frentes dos televisores, tal como nas grandes cidades.

    A incorporao na esfera da produo e do consumo do espao-tempo noite traduz-se no s no alargamento de horrios de trabalho de actividades diurnas, como tambm no surgimento de novas actividades para responder a novas necessidades de procura. Os novos contextos de uso do tempo e do espao traduzem-se em novos tipos de prticas sociais, o que conduz as mudanas na procura e na oferta das actividades de servios que se desenrolam predominantemente de noite. As diferenas nas dinmicas de desenvolvimento dos territrios novos ritmos, novas prticas, novas actividades, outras culturas, outras pessoas - vo condicionar o territrio em que vamos viver quando o sol nasce. Porque a noite no um espao igual ao dia, as necessidades de gesto dos territrios so diferentes, torna-se portanto necessrio desenvolver processos e instrumentos de planeamento que permitam implementar aces para que os territrios possam ser vividos com qualidade e de uma forma sustentvel quer de dia, quer de noite.

    6 NOITE E INSTRUMENTOS DE GESTO DO TERRITRIO

    Os territrios noite raramente so tema para os polticos, os tcnicos de planeamento

    das autarquias ou para a investigao cientfica (GWIAZDZINSKI, 2005). No Programa Nacional de Poltica de Ordenamento do Territrio, aprovado em Portugal em 2006, no h qualquer referncia especfica a polticas de ordenamento do territrio noite ou necessidade de promover a qualidade do cu. Nos documentos de poltica urbana ao nvel local podem surgir referncias promoo da vida nocturna em determinados pontos da cidade, aos problemas da segurana ou do barulho, a planos de iluminao pblica, mas uma reflexo profunda sobre a prospectiva e o ordenamento do territrio noite esto quase sempre ausentes.

    Il est temps danticiper le dveloppement prvisible des activits nocturnes pour rflchir un amnagement global de la ville 24/24. Chercheurs, pouvoirs publics et citoyens doivent investir cet espace-temps afin danticiper les conflits entre individus, groupes ou quartiers et imaginer ensemble les contours dune nouvelle urbanit. (GWIAZDZINSKI, 1998, p. 368).

    No passado, eram apenas as unidades industriais que tinham horrios nocturnos, hoje, quase todas as actividades tm horrios de trabalho de noite. As rdios, as televises, os transportes, os servios, o comrcio, os distribuidores automticos e as lojas de convenincia implantam-se por todo o lado, funcionam 24h sobre 24h, permitindo o consumo permanente. Um lugar eleito como local de frias ou dos momentos de lazer, em funo da animao da noite (QUEIGE 2005; ALVES, 2008; ALVES; FERREIRA, 2009).

    A noite j no s o espao-tempo de vida de grupos sociais marginais, os noctvagos. E os polticos j se aperceberam disso. A importncia poltica da noite reflecte-se nas apostas estratgicas da sua vivificao. Podem ser iniciativas de animao, como as festas das cidades, ou programas de regenerao urbana baseados no estmulo das actividades econmicas, essencialmente nocturnas, como acontece frequentemente no centro das principais cidades europeias (OCONNER 1997; PAIN 2008).

    Em Lisboa quando se pensou num espao como a EXPO98/Parque das Naes planeou-se de raiz um territrio para ser vivido quer durante o dia, quer durante a noite. O Pavilho Atlntico, a Feira Internacional de Lisboa, o Teatro Cames, o centro comercial ou o Casino de Lisboa so equipamentos e servios com picos de utilizao noite. Ao mesmo tempo, a qualidade da iluminao dos espaos pblicos torna o espao convivial e estimula a

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    deambulao nocturna, contribuindo para a dinamizao do consumo nos bares e restaurantes. At a estao do Oriente muito mais bonita noite... Mas, nos ltimos tempos, a ausncia de estratgias concertadas por parte das empresas e a reduo da capacidade de consumo, est a afectar o espao. A baixa densidade da ocupao que resulta da fraca atraco de utentes durante a maior parte da semana cria insegurana e contribui para uma imagem que est a tornar-se mais negativa.

    De acordo com Gwiazdzinski (2003) estamos a assistir ao surgimento de novas configuraes de cidade em contnuo (arquiplago, global, festivas...), habitada por mltiplas tribos (cidados, trabalhadores, excludos...), entre as quais surgem tenses, por vezes conflitos territorializados. Para Gwiazdzinski (2005) em termos de evoluo do espao-tempo associado noite urbana existem quatro cenrios possveis: i. banalizao - as actividades de dia no diferem das da noite, e esta deixa de ter qualquer especificidade; ii. autonomizao (separao ao nvel poltico) - umas reas da cidade so para ser vividas de dia e outras de noite; iii. exploso - conflito permanente entre as actividades e as pessoas que habitam o dia e a noite; iv. harmonizao - conciliao entre as actividades e as pessoas que habitam o dia e a noite, numa perspectiva de complementaridade. Neste ltimo cenrio a noite surge como um sistema de espao-tempo completo e equilibrado, assegurando todas as funes sociais e econmicas, onde as pessoas podem estar continuamente no espao e o direito ao territrio uma realidade. A noite afirma-se como espao de projectos, lugar de inveno duma nova urbanidade e estimuladora da investigao. Para Gwiazdzinski (2005) este o nico cenrio capaz de restituir o direito cidade nocturna, de reconstruir um sistema de funes urbanas completo e de desenvolver a noite de uma forma sustentvel e durvel. Os elementos que constituem as bases do planeamento urbano deveriam incluir um esquema de ordenamento da cidade noite. Este esquema deveria ser constitudo por cartas que mostrassem as actividades econmicas e sociais que funcionam durante a noite, por planos de luz (iluminao funcional, simblica e cintica) e por planos de animao cultural e artstica da noite.

    As polticas urbanas deveriam incorporar a noo de gesto do tempo a que seriam associados horrios de funcionamento diversificados para que o sentimento de insegurana diminusse, para que as paisagens nocturnas se transformassem e as actividades econmicas e sociais se desenvolvessem (BONFIGLIOLI, 1997; DATAR 2002). Com sistemas de transportes que funcionassem ao longo de toda a noite, a mobilidade poderia basear-se em transportes colectivos e contrariar a crescente utilizao de meios de transportes privados e individuais. A opo entre transporte colectivo ou privado quase sempre uma questo de gesto de tempo.

    J nos anos 60 Jane Jacobs (1961) alertou para a morte das cidades se as pessoas no vivessem os espaos pblicos. Com horrios mais diversificados e melhores sistemas de mobilidade as ruas tenderiam a ter mais pessoas, durante mais tempo. Mais confiantes, as pessoas estariam mais disponveis para socializar nos espaos pblicos. Como noite as pessoas esto menos apressadas, tm mais tempo, este seria por excelncia o momento mais propcio ao convvio e aos encontros, ao conhecimento do outro to necessrio para um desenvolvimento social menos tenso e mais equilibrado.

    Outro dos domnios centrais das polticas com incidncia territorial e com nfase no espao-tempo noite a questo da iluminao pblica. Apesar de nenhum estudo emprico demonstrar que existe uma relao forte entre segurana e iluminao, a maior parte das decises sobre a colocao de luz no espao pblico tem por base este pressuposto. As polticas de iluminao pblica comeam por se centrar na questo do dar visibilidade aos objectos mas, rapidamente, evoluram para o dar sentido, dar valores, nomeadamente estticos, aos territrios. Hoje, as polticas de iluminao pblica tm de incorporar a noo de eficincia energtica. Num momento em que a resoluo dos problemas associados s alteraes climticas esto claramente dependentes das solues a implementar em reas

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    como a produo de energia e as emisses de gases com efeitos de estufa, a gesto dos sistemas da iluminao pblica assumem um papel fundamental. O consumo de energia pelos Municpios, em Portugal, representa cerca de 14% do total (www.dgge.pt). Uma parte significativa iluminao pblica. As aces de racionalizao neste domnio podem ter um impacto muito relevante na diminuio da necessidade de produo de energia e na reduo das emisses poluentes.

    As polticas relacionadas com a segurana noite, comearam por ser uma preocupao que afectava apenas alguns pases e, dentro destes, apenas algumas cidades mas, nos ltimos anos, globalizou-se the moral and material geographies of fear are simultaneously about the ordinary geographies of everyday life and about the extraordinary geopolitics of the twenty-first century (PAIN; SMITH, 2008). A questo fundamental perceber os processos que se encontram por detrs da globalizao dos medos, nomeadamente o modo como estes so utilizados ao nvel local, para controlar, criar medidas de excepo, e investir em sistemas de policiamento, nomeadamente de empresas privadas, e em equipamentos de video-vigilncia.

    As polticas culturais tambm podem intervir a vrios nveis nos territrios noite. A animao dos espaos pblicos pode decorrer de decises relacionadas quer com a promoo da diversidade de horrios dos equipamentos culturais, quer com o desenvolvimento de programas e eventos que ocorram predominantemente noite. A muito curto prazo outras temticas devero ser tidas em conta, como o caso das mudanas nas polticas urbanas e no desenho do espao pblico decorrentes do crescimento do nmero de veculos movidos a electricidade. O facto de estes veculos necessitarem de pontos de acesso a energia para carregar as baterias, vai obrigar a que o espao pblico tenha de ser repensado, de forma a possibilitar a sua instalao e utilizao com segurana. O planeamento da cidade noite ter de ser tido em conta pois ser neste espao-tempo que decorrer, na maior parte das situaes, o perodo de carregamento das baterias. 6.1 Polticas relacionadas com a gesto do tempo

    As polticas relacionadas com a gesto do tempo podem interferir com os usos do

    espao noite de diferentes formas: i. pela definio de horrios das actividades econmicas e dos servios sociais que se prolongam pela noite; ii. pela alterao dos usos do tempo, por exemplo, poupar tempo nos processos de mobilidade ou aceder mais facilmente a bens e servios, permitem aumentar o tempo livre; como o tempo livre tem maior expresso nos horrios nocturnos, dispor de mais tempo livre pode traduzir-se em novas prticas que se relacionem directamente com usos dos territrios noite; iii. ao intervir nos usos do tempo das mulheres, as polticas de tempo urbano podem contribuir para que as prticas sociais no espao-tempo noite sejam menos segregadoras em termos de gnero (ALVES, 2009).

    Em Portugal, a gesto do tempo surge nas posturas municipais que estabelecem os horrios de abertura e encerramentos das actividades econmicas, que limitam a circulao de veculos em determinadas horas, devido ao rudo ou aos problemas de congestionamento de trfego, afectando a dinmica dos territrios. H muito que se discute a hiptese de serem as autarquias locais a definir horrios de servios pblicos, como as escolas ou os centros de sade. Tanto mais que os horrios de funcionamento de determinados servios so fonte de conflito entre autarquias locais e administrao central, como acontece frequentemente quando esta determina o encerramento noite de uma unidade de sade ou de uma escola.

    H vrios anos surgiram os Bancos de Tempo, uma rede de infra-estruturas de apoio social baseada na gesto do tempo para troca de servios (http://www.graal.org.pt).

    O desenvolvimento em Portugal uma iniciativa do Graal - uma associao internacional de mulheres, em vrios casos em articulao com autarquias locais, noutros com

    http://www.graal.org.pt)/

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    instituies ligadas igreja catlica. Na gnese so iniciativas muito semelhantes s que nos anos 70 se desenvolveram em Itlia e que esto na origem das polticas de tempo que hoje existem na Europa. Existem, em Portugal, dezasseis agncias espalhadas pelo continente e ilhas com clientes entre os 12 e os 92 anos, das quais 70% so mulheres. As actividades desenvolvidas so muito heterogneas: acompanhamento de crianas; actividades recreativas; ajuda domstica; tomar conta de animais e plantas; bricolage e pequenas reparaes; fazer companhia; cozinhar; fazer arranjos de costura; ensinar e estudar; ajudar na burocracia. O maior problema decorre do facto de estar a ser mais fcil mobilizar as pessoas que tm algo para dar do que as pessoas que necessitam de receber, havendo situaes em que os bancos acabam mesmo por paralisar por falta de quem utilize os servios (http://www.graal.org.pt).

    O desenvolvimento da prestao de servios on-line um dos processos com mais impactos na questo da gesto do tempo e com reflexos evidentes nas dinmicas territoriais. Depois da instalao das infra-estruturas e dos sistemas informticos, o problema centrou-se no desenvolvimento de contedos destinados a resolver problemas do dia-a-dia, como adquirir bens ou servios, resolver problemas burocrticos, obter informaes, fazer pagamentos ou dar ordens a instituies, aceder a espectculos e as actividades de lazer... As consequncias traduzem-se em melhorias pela diminuio das necessidade de mobilidade e por uma gesto do tempo mais personalizada. O facto de estes servios serem acessveis 24 horas por dia permite decidir sobre o momento em que queremos/podemos aceder sem as limitaes dos horrios tradicionais. 6.2 Polticas de iluminao em espaos pblicos

    As decises em termos de iluminao nos espaos pblicos abordam questes que vo

    muito para alm do dar visibilidade aos objectos (MAJOR, 2003; NARBONI, 2003a; MASBOUNGI, 2003). A luz urbana deixou de se limitar aos domnios do patrimnio construdo e passou a abarcar novos espaos, nomeadamente as grandes paisagens, como aconteceu com o projecto do Ruhrgebiet, na Alemanha (ALVES, 2004b). Surge, ao mesmo tempo, uma reflexo prospectiva sobre o papel que a luz deve ter na imagem, na paisagem e na ambincia nocturna das cidades. A luz pode conferir sentido a um lugar, dar-lhe um novo valor de uso. As mudanas de filosofia na iluminao acompanharam as mudanas do discurso urbano. Para Laurant Fachard (2003) estas mudanas resultaram do facto de se ter passado a considerar a arquitectura e os espaos pblicos como veiculadores de sentido, de valores, nomeadamente estticos. Assistiu-se, assim, a uma reorientao das intervenes de luz no sentido de as colocar ao servio das pessoas, revelando presenas, magnificando espaos, formas e materiais, mas permitindo uma apreenso multivariada dos lugares e dos eventos que a se desenrolam (MASBOUNGI, 2003). A luz passou a desempenhar novos papis pois pode contribuir, de uma forma decisiva, para a criao de laos de identidade entre as pessoas e os lugares onde habitam. Para Laurent Fachard a iluminao deveria deixar de ser pblica para se tornar cidad, porque a iluminao , sem dvida, uma das grandes conquistas sociais do sculo XX. Nas polticas urbanas as decises sobre a iluminao so um processo sempre presente, mas poucas vezes nos inquritos realizados junto das autarquias locais em Portugal verificmos uma verdadeira percepo das implicaes dessas decises em termos territoriais. Em simultneo com este processo de afirmao da iluminao, assistimos a uma tomada de conscincia ecolgica sobre o desperdcio de energia que ocorre na larga maioria das iniciativas relacionadas com a luz - devido poluio luminosa os EUA enviam para o cu 110 milhes de dlares por ano (FACHARD, 2003); a mancha luminosa emitida por Lisboa superior de Madrid, devido ao ineficiente uso da luz. Esta tendncia, ao chamar a ateno para o desperdcio de energia, veio reorientar o planeamento da luz no sentido da redescoberta da noite e da obscuridade. Isto no significa um retrocesso da importncia da

    http://www.graal.org.pt/

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    iluminao, mas pelo contrrio o reafirmar do poder simblico que pode estar subjacente a intervenes de luz. Toma-se conscincia que a luz s espectacular se emanar da escurido, para tal torna-se necessrio revalorizar o contraste entre luz e sombra. Dominar a luz abre a possibilidade descoberta de novas paisagens sonoras, olfactivas, mas, tambm, visuais, nomeadamente as decorrentes da luz artificial, ou as que resultam da luz natural do cu nocturno (luar e estrelas), dos vulces e das trovoadas. Os principais planos de ordenamento da luz tornaram-se em planos de obscuridade (NARBONI, 2003a).

    Nos ltimos anos, o tema "luz" passou a ser preocupao no planeamento urbano como forma de criar uma imagem de marca da cidade. Paris foi a primeira a ter esta associao - Paris Cidade Luz. Tal ficou a dever-se ao facto de ter sido na Exposio Mundial de Paris de 1900 que, pela primeira vez, a luz surgiu associada ao lazer, criao de prazer e de bem-estar (NARBONI, 2003a), possibilidade de uma apropriao nocturna da cidade por todas as pessoas. A imagem mais difundida de Nova York a do skyline formado pela silhueta dos aranha-cus iluminados por milhes de pontinhos luz que so as janelas. Tquio ou Xangai afirmam-se pela exuberncia da imagem dos anncios luminosos que animam as principais avenidas. No marketing das cidades uma boa imagem nocturna um trunfo que ajuda a consolidar a diferenciao.

    Alguns municpios, em Portugal, procuraram desenvolver planos-luz para o seu territrio ou, pelo menos, para as principais concentraes urbanas. Estes planos estabelecem, em linhas gerais, a diferenciao e a hierarquia das intensidades luminosas em termos funcionais e da importncia dos smbolos a iluminar. A tendncia , todavia, para a uniformizao das solues, esquecendo a valorizao das especificidades e das dinmicas de cada lugar. Na iluminao dos monumentos bem patente este processo, a utilizao de lmpadas semelhantes fazem com que todos os castelos, todas as catedrais, todos os edifcios relevantes sejam profusamente iluminados, com luzes mais ou menos amarelas, mas sempre com uma intensidade exagerada que esmaga as formas e no revela a diversidade dos materiais. Os melhores exemplos de aplicao de planos-luz so os centros histricos de vora e de Bragana (ALVES, 2009) onde se respeitou e valorizou a diversidade dos elementos urbanos. 6.3 Polticas relacionadas com a animao cultural

    No mbito das polticas culturais o espao-tempo noite devia ter um tratamento especfico pois muitas das actividades promovidas por estas tm expresso significativa neste espao- -tempo. As polticas culturais podem intervir a vrios nveis, mas destacaremos duas vertentes: os horrios dos equipamentos culturais e a promoo de actividades de animao em espaos pblicos noite (ALVES, 2009).

    Quanto aos horrios verificamos que o facto dos horrios dos museus, galerias, centros de exposies coincidirem com os momentos em que a maior parte das pessoas esto trabalhar impede que a generalidade das pessoas os frequente, traduzindo-se no afastamento das pessoas. A criao de sistemas como o prolongamento da abertura at mais tarde um dia por semana ou por ocasio de determinados eventos tem conduzido a ganhos significativos de pblico, com os consequentes efeitos sociais e econmicos.

    No Porto, Serralves em Festa, 40 horas non-stop, teve o seu momento mais alto, em 2007, com as 15 mil pessoas que por l passaram durante a noite. Nos anos que se seguiram a tendncia manteve-se.

    Na noite de inaugurao do Museu Berardo, em 2007, entre as 23 e as 9 horas da manh, passaram pelo Centro Cultural de Belm 10 mil pessoas. Na noite do aniversrio da abertura ao pblico da coleco Berardo o CCB mantm a tradio de estar toda a noite de

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    portas abertas criando um evento que j constitui um ritual no calendrio da vida nocturna de Lisboa.

    A retrospectiva sobre a obra de Amadeu de Sousa Cardoso, na Fundao Calouste Gulbenkian, em 2006-2007, teve mais de 100 mil visitantes, muitos dos quais nos ltimos 3 dias em que a exposio esteve aberta continuamente, 24/24 horas.

    O Museu do Oriente e o CCB, em Lisboa, foram os primeiros equipamentos culturais a encerrar s 22 h um dia por semana. Depois vrios espaos culturais seguiram o exemplo, por exemplo a Casa das Histrias em Cascais tem um horrio permanente, todos os dias, entre as 10-22h.

    As actividades de animao em espaos pblicos noite so factores decisivos na vida de muitas cidades e outras aglomeraes noite (ALVES; FERREIRA, 2009). Em Portugal quase todos os municpios se preocupam em organizar pelo menos num perodo do ano as festas locais. No incio eram apenas espectculos de msica ligeira, mas com o tempo, alguns concelhos passaram a associar mostras de produtos regionais, actividades de ndole cultural, actividades ldicas e desportivas. O momento alto quase sempre noite, pois nesse espao de tempo que as pessoas tm tempo livre e disponibilidade para participar (ALVES, 2009).

    Na organizao de eventos desportivos para alm das tradicionais S. Silvestre, corridas sempre noite, mesmo que no seja no ltimo dia do ano, assistimos organizao de corridas nocturnas em stios como Lisboa, Oeiras e Peniche. O objectivo tirar partido da disponibilidade de tempo dos que participam e dos que assistem, da menor presso do trfego na organizao do circuito, mas tambm do cariz excepcional que participar numa prova desportivo noite.

    7 INICIATIVAS E EXEMPLOS DE BOAS PRTICAS DE GESTO DO TERRITRIO NOITE

    Sigfried Giedon1 em Space, Time and Architecture reflectiu sobre o espao-tempo na arte, na arquitectura e no planeamento urbano e defendeu que as influncias sociais, econmicas e funcionais desempenhavam um papel fundamental em todas as actividades humanas, das cincias s artes, mas que existiam outros factores que deviam ser tidos em conta os nossos sentimentos e as nossas emoes, porque sem eles a vida perderia equilbrio. Para Sigfried Giedon a viso meramente funcionalista estava a conduzir o mundo por caminhos muito perigosos. Atravs da anlise do trabalho de artistas plsticos e de arquitectos como Walter Gropius, Mies van der Rohe, Le Corbusier e Alvar Aalto procurou mostrar como a ligao entre arte e arquitectura e a incorporao de sentimentos e emoes se traduziram em obras que contribuiram para que a vida tivesse muito mais qualidade.

    Os exemplos de iniciativas e boas prticas de gesto dos territrios noite, que vamos apresentar neste ponto, centram-se precisamente num domnio cujo sucesso depende da ligao entre arte e tcnica e que, quando aplicados nos espaos pblicos, devem ter em conta as emoes e sentimentos que vo provocar (fascnio, pertena, repulsa...) ou controlar (fobias, medo e insegurana). Planos-luz, iluminao artstica, eventos de arte da luz em espaos pblicos, animao dos territrios noite, requalificao urbana com base em investimentos em arte da luz so alguns dos exemplos de sucesso que contribuem para que possa haver vida com qualidade nos espaos pblicos noite e os territrios se tornem espaos de cidadania.

    A luz artificial pode ser um instrumento de transformao dos territrios, contribuindo para a revitalizao dos espaos pblicos: intervindo na requalificao; criando ambientes

    1 Publicado pela primeira vez em alemo (1941) foi traduzido para ingls (1949) e, sucessivamente, publicado e

    actualizado em 1954, 1962, 1967 e 1969.

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    adequados funcionalidade; regenerando e invertendo situaes negativas; promovendo planos de iluminao para valorizar espaos em dificuldade; criando sentimentos de pertena, de conhecimento dos lugares, dando novos sentidos para a apropriao dos territrios; valorizando o patrimnio construdo ou o patrimnio natural, criando novas percepes e construindo novas paisagens. As criaes no domnio da arte da luz podem desempenhar um papel estratgico atravs de objectos de arte qualificadores dos espaos pblicos ou promover territrios atravs de eventos de luz - marketing territorial criando registos artsticos especficos, associando a arte e a cultura. O trabalho com a luz tem a dupla qualidade do imediatismo e do custo, pois um efeito, uma dada imagem, pode ser obtida mais rapidamente e com menor custo do que uma interveno sobre o material (MASBOUNGI, 2003). Uma arquitectura medocre pode ser transformada atravs da luz, viabilizando um projecto inadequado. A luz facilmente pode ser utilizada para criar ambientes virtuais, e o espao encenado, pode tomar o lugar do real, com o risco de destruir o espao vivido. O objectivo investir em acontecimentos/eventos e em sistemas de iluminao permanentes ou efmeros que levem as pessoas a redescobrir os espaos pblicos, conferindo-lhes a qualidade de vida necessria para a sustentabilidade das cidades e dos territrios. 7.1 Nova Iorque: a noite como imagem de marca

    Para Gandelsonas (2003) a noite nas cidades americanas muito diferente da das

    cidades europeias porque no essencial a iluminao pblica depende da inciativa privada. A iluminao assegurada, de um modo geral, pelos anncios e pelas actividades econmicas, o que conduz a grandes disparidades entre as reas comerciais muito iluminadas e reas residenciais na mais completa penumbra. Linnaea Tillet2 mostrou como o pas mais rico do mundo um dos mais pobres em termos de concepo de iluminao devido ausncia do papel de comando dos poderes pblicos. Nos EUA as iniciativas de planeamento por parte dos poderes pblicos so raras. No caso da iluminao a situao ainda mais rara, sendo as paisagens nocturnas resultado, acima de tudo, da iniciativa privada.

    No caso de Nova Iorque (Foto 1) os grandes arranha-cus mantm as luzes acesas toda a noite, independentemente de haver pessoas ou no a trabalhar, criando uma ideia falsa de actividade 24/24 horas (ALVES, 2008). Ao nvel pedonal h um contraste entre reas muito iluminadas devido profuso de sinais/anncios luminosos e espaos comerciais e reas quase sem iluminao. Times Square destaca-se por ser a rea de Nova Iorque com maior aposta nos suportes iluminados, gerando uma poluio que pode ser vista a longa distncia do espao. Mas nem sempre foi assim.

    Times Square tranformou-se, de h uns anos a esta parte, num centro de lazer e comrcio que funciona 24/24 horas, 7/7 dias, durante todo o ano. A profuso de cor e luz associada aos anncios sempre caracterizou esta rea da cidade mas, nos ltimos tempos, houve uma aposta na mudana da imagem, transformando-a, por si s, num acontecimento. As fachadas dos edifcios deixaram de ser apenas suporte para os anncios estticos e as janelas at ao 5 ou 6 andar foram tapadas por ecrs de pixis onde atravs das mais modernas tecnologias se associam as caractersticas da televiso, do computador e do cinema (Gandelsonas 2003). Das fachadas, os pees e as pessoas dentro dos veculos so bombardeados com imagens como na TV, com notcias como nos media, mas exibidas em painis que transformam as paredes dos edifcios em ecrs gigantes de cinema. Quem pode parar e observar o que se passa naqueles ecrs tem ciclos de 15 a 20 minutos sem que uma s

    2 Linnaea Tillet (2008) The emotional city (New York)Conference Rencontres de la lumire, Lyon.

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    imagem se repita, conferindo uma dinmica, sem precedentes, cidade. Em Times Square a paisagem urbana muda velocidade das imagens (ALVES, 2008).

    Foto 1 - Nova Iorque Fonte: arquivo da autora

    Times Square um exemplo do modo como a iniciativa privada pode criar um evento

    baseado na animao urbana gerada pelo espectculo das imagens e luzes em contnuo movimento, cujo consumo turstico essencialmente nocturno (ALVES, 2008). A presena de cada vez mais pessoas nesta rea levou a que muitos dos problemas de segurana se atenuassem pois deixou de ser sentir o efeito de segregao associado presena de apenas alguns grupos sociais, como ainda acontecia no incio dos anos 90. As autoridades da cidade ao aperceberem-se do efeito passaram a estimular a mudana incentivando-a e dando o exemplo (ALVES, 2008). Incentivaram a mudana atravs de legislao que facilita a instalao dos suportes com imagens em movimento. Deram o exemplo ao participar nas mudanas atravs dos prprios servios pblicos. Assim a entrada para o metropolitano, o departamento da Polcia de Nova Iorque ou centro de recrutamento do exrcito mudaram de imagem, instalando suportes luminosos que contribuem, ainda mais, para animar esta parte da cidade. Nova Iorque o principal centro de atraco de turistas estrangeiros e nacionais nos EUA. A cidade atrai milhes de visitantes pelas caractersticas nicas da sua arquitectura e urbanismo, pela dinmica da sua vida cultural e pelo ambiente urbano decorrente de ser uma cidade onde pode haver vida 24/24 horas, 7/7 dias durante todo o ano. Assim, no de estranhar que uma das imagens de marca para a promoo turstica seja cada vez mais o skyline dos arranha-cus iluminados por uma grelha de milhes de luzinhas que so as janelas.

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    7.2 Chicago: arte e regenerao urbana

    A paisagem nocturna de Chicago impressiona mais pela extenso das grandes vias de circulao pelos subrbios do que pela exuberncia da iluminao dos grandes arranha- -cus do CBD (Fotos 2 e 3) . Mas s temos acesso a esta paisagem se se subir aos arranha-cus. A valorizao turstica deste recurso feita atravs da criao de circuitos em que se pode visitar o topo dos edifcios, mas acima de tudo atravs da instalao de restaurantes e bares que obrigam ao consumo para poder desfrutar a paisagem.

    Foto 2 Chicago em 2008 Fonte: arquivo da autora

    Chicago uma das cidades dos EUA com maior peso de negros e de catlicos na populao residente. Mas at agora nunca teve um mayor catlico e apenas uma vez teve um mayor negro. Segundo Clark (2008) a gesto da cidade assente no clientelismo deixou de surtir efeito pois acarretava custos de ineficincia para o sistema e o actual mayor, no poder desde 1989, assumiu a partir de meados dos anos 90 que a renovao da cidade tinha de ter em conta a multiculturalidade, pelo que aumentou as medidas de tolerncia para com diferentes grupos, e basear-se num maior investimento em cultura e amenidades.

    O sucesso de uma exposio de Monet no Art Institute of Chicago One hundred fifty-nine works from around the world were brought together for this once-in-a-lifetime show. The attendance was unparalleled. During its run from July 22 to November 26, 1995, advance admissions were completely sold out, leading to the surreal spectacle of tickets for an art exhibit being scalped as if it were the Super Bowl. (http://www.glyphs.com/art/monet/) demonstrou que a imagem da cidade podia mudar. E que o investimento no bem pblico, as preocupaes estticas e a promoo do consumo podiam contribuir para mudar a viso da

    http://www.glyphs.com/art/monet/

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    cidade com altos nveis de criminalidade, cujas principais figuras pblicas eram Lincoln e Al Capone.

    Foto 3 Chicago em 2008 Fonte: arquivo da autora

    Nos ltimos anos as autoridades da cidade envolveram-se num programa de regenerao do centro da cidade de modo a atrair populao para aqui residir e trabalhar. Para alm das iniciativas relativas construo de novas habitaes em lugares privilegiados como as margens do Lago Michigan e do rio Chicago, promoveram a instalao de novas empresas e a requalificao dos espaos pblicos. Nos ltimos 10 anos o centro de Chicago recuperou perto de 20 mil habitantes3. O programa de requalificao das margens do lago associou a renovao dos parques j existentes e a construo de novos, transformando a cidade numa das cidades com maior nmero de hectares de espaos verdes por habitante do mundo.

    A construo de marinas e a transformao das margens do Lago Michigan assentaram na ideia de desenvolver uma cidade comprometida com a defesa do ambiente. Assim, uma das reas privilegiadas foi o estmulo circulao em transportes pblicos e a utilizao de meios de mobilidade no poluidores. Para tal apostou-se na construo de ciclo-vias que j atingem mais de 160km, 35 dos quais ao longo das margens do Lago.

    A requalificao da cidade apostou em intervenes de arte nos espaos pblicos com trabalhos de Anish Kapoor, Frank Ghery e Jaume Pensa no Millenium Park (Foto 4). E em obras emblemticas como a nova ala do Chicago Art Institute (Foto 5), que abriu em 2009, com um edifcio concebido por Renzo Piano.

    3 Conferncia no ACSP-AESOP 4th Joint Congress Bridging the Divide: Celebrating the City Chicago, Illinois, Julho.

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    Foto 4 Trabalho de Anish Kapoor, Frank Ghery e Jaume Pensa no Millenium Park Fonte: arquivo da autora

    Foto 5 - Chicago Art Institute Fonte: arquivo da autora

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    Anish Kapoor nasceu na India, mas estudou e trabalha em Londres. Considerado um dos mais importantes escultores da actualidade tem obras em muitas cidades, caracterizando- -se sempre pela capacidade de interaco com os diferentes pblicos. Cloud Gate (2004) conhecido ao nvel local por bean e um dos elementos mais populares da paisagem urbana de Chicago. A forma e os materiais em que a pea foi realizada permitem mltiplas reflexes que funcionam como um jogo. O carcter ldico da obra faz com que seja uma das grandes atraces da cidade, de dia e de noite (Fotos 6 e 7).

    Foto 6 - Millenium Park Fonte: arquivo da autora

    O trabalho Crown Fountain de Jaume Plensa vive da projeco de imagens e de jogos de gua. Nas duas colunas de vidro so projectados retratos de 80 pessoas de Chicago e imagens de ambientes naturais. A gua que jorra das colunas cria um espao que atrai durante o dia, no Vero, centenas de crianas e adultos que brincam, criando uma animao urbana muito intensa e participada. A riqueza do efeito cnico ampliada pela noite e s imagens que se viam de dia acrescentam-se efeitos de luz que eram imperceptveis com a luminosidade diurna. De noite, mais do que dia, a obra plstica afirma-se como um marco na vida da cidade.

    Pritzker Pavilion (2004) de Frank Ghery funciona como um imenso palco para espectculos no meio do Millenium Park (Fotos 8 e 9). Com as caractersticas curvilneas das obras do autor noite, com a iluminao artstica, que revela as formas mais ousadas e inovadoras. Pena que o Parque encerre s 23h para que possam promover trabalhos de limpeza e de recuperao.

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    Foto 7 - Millenium Park Fonte: arquivo da autora

    Foto 8 - Pritzker Pavilion, Millenium Park Fonte: arquivo da autora

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    Foto 9 - Pritzker Pavilion, Millenium Park Fonte: arquivo da autora

    A eleio de Barack Obama para presidente dos EUA e a candidatura aos Jogos

    Olmpicos de Vero e aos Jogos Para-Olmpicos de 2016 representaram o incio de um novo ciclo na vida de Chicago. 7.3 Xangai: planear os territrios noite depende da conciliao entre iniciativas privadas e

    pblicas Xangai era conhecida, nos anos 20 e 30 do sculo passado, como a Paris da sia. A

    dinmica econmica da cidade tinha-a transformado na principal praa financeira do Oriente e na margem esquerda do rio Huang Pu, as grandes empresas construram edifcios majestosos para as suas sedes, criando o Bund, uma avenida marginal cheia de vida e de animao (Foto 10).

    Nos ltimos anos as autoridades chinesas procuram recuperar esta aura e, para alm da abertura da economia iniciativa privada, estimulam iniciativas para recuperar a imagem de cidade cosmopolita. Utilizando como pretexto a Exposio Mundial de 2010 foram realizados grandes investimentos em domnios, como as infra-estruturas, os equipamentos e os servios, mas acima de tudo implementou-se um novo desenho da cidade orientado pelo plano de 1992 concebido pelo gabinete do arquitecto Richard Rogers, que apostou desde o incio na iluminao artstica dos edifcios histricos do Bund. Esta aposta criou um espao nico que constitui uma das grandes atraces tursticas da cidade que se prolonga atravs da ferica rua pedonal de Nanjing, estabelecendo um percurso onde se vem residentes e turistas e se criou uma intensa animao nocturna apenas atravs da deambulao por entre vendedores ambulantes, artistas de rua e sem abrigos que procuram um lugar para passar a noite.

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    Foto 10 - Bund, Shangai Fonte: arquivo da autora

    Foto 10 - Pudong, Shangai Fonte: arquivo da autora

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    Do passeio ribeirinho do Bund podemos ver na outra margem Pudong a nova rea de

    expanso de Xangai (Foto 10). Pudong foi uma das primeiras reas abertas iniciativa capitalista nos anos 80 e os arranha-cus digladiam-se pelo ttulo de edifcio mais alto da sia, da China ou de Xangai. A paisagem nocturna surpreendente e permite descobrir outra cidade. Para alm das iluminaes artsticas, as fachadas so animadas permanentemente por anncios, construindo outro espectculo. Espectculo este que fica ainda mais surpreendente com a passagem contnua no rio escuro de barcos com ecrs gigantes com publicidade aos mais diferentes produtos e servios. Mas esta paisagem surpreendente vista de longe, porque o espao urbano de Pudong noite no atractivo. Como um centro de servios moderno, com os edifcios muito distantes uns dos outros, as deslocaes so feitas, predominantemente, de automvel e as ruas ficam desertas. Pudong noite , sobretudo, para ser visto distncia, no agradvel para ser vivenciado no espao pblico.

    Pelo contrrio, do lado da cidade mais antiga a vida criada pelos milhares de pessoas na rua at altas horas confere-lhe uma animao e um calor humano que d segurana aos turistas e estimula a deambulao para usufruir a cidade. Esta rea da cidade est, contudo, a sofrer um processo de demolio das habitaes tradicionais, a expulso dos habitantes para bairros perifricos distantes do centro e a substituio dos edifcios por novos arranha-cus ligados aos servios. Como as novas classes ricas se deslocam at aos luxuosos restaurantes do Bund de carro e observam do alto dos edifcios o espectculo da cidade nocturna ser de temer que muito em breve o caloroso ambiente de Xangai noite deixe de ser atraco turstica. 7.4 Atenas: como um plano-luz criou a cidade nocturna

    Aproveitando os investimentos para a realizao dos Jogos Olmpicos de 2004, o municpio encomendou um plano de luz com o objectivo de criar uma paisagem nocturna para Atenas.

    A equipa liderada por Roger Narboni (NARBONI, 2003) identificou como o principal valor da cidade o patrimnio arqueolgico e decidiu que o plano de luz devia centrar-se em torn-lo visvel noite. O que se passava que os stios arqueolgicos, facilmente identificveis de dia, noite estavam submersos por uma iluminao ambiental pouco hierarquizada. O objectivo do projecto foi desenvolver um esquema de iluminao pblica que colocasse em evidncia os principais monumentos, tornasse explcito os percursos e criasse nos principais espaos pblicos ambientes onde fosse confortvel estar para desfrutar a qualidade natural das noites mediterrnicas.

    Com a implementao do plano-luz do alto Monte Lykavitts (Foto 11) pode-se desfrutar de uma paisagem sem poluio luminosa, pois os candeeiros de reduzida altura apontam o feixe de luz para o solo, e no meio da escurido emergem espaos fulgurantemente iluminados: os stios arqueolgicos. O resultado foi o surgimento de uma paisagem nocturna que mais do que a diurna pe em relevo o patrimnio que , precisamente, o principal factor de atraco turstica da cidade. Ao mesmo tempo, nas principais praas e nos bairros mais tradicionais, como a Placa, a iluminao ambiental criou ambientes aprazveis e estimuladores do convvio ao ar livre, animando a noite da cidade.

    A planificao da cidade nocturna atravs da iluminao ambiental e artstica permitiu cidade de Atenas criar um raro produto turstico. A descoberta e vivncia nocturna do patrimnio arqueolgico diferente da experincia diurna. O plano-luz, ao mesmo tempo, que permitiu racionalizar o uso da energia melhorou o ambiente urbano, estimulando a vida na rua noite e economizando no consumo energtico.

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    Foto 11 - Monte Lykavitts Fonte: arquivo da autora

    7.5 Lyon: a cidade da luz4

    Lyon (Frana) foi a primeira cidade do mundo a ter um plano-luz, facto que a transformou numa referncia mundial na concepo de luz e nas questes de iluminao urbana. O primeiro plano-luz surgiu em 1989 e foi pioneiro tanto do ponto de vista tcnico, como poltico, como artstico. Ao mesmo tempo foram lanados vrios planos de ordenamento do territrio e de desenvolvimento econmico que tinham por objectivo transformar Lyon, at 2010, numa metrpole escala europeia. Para alm do apoio criao/fixao de empresas pretendia-se refazer a cidade a partir do tecido existente, investindo nos bairros, na qualificao do espao pblico, nos transportes e no marketing (Salgueiro 2002). Uma das orientaes da poltica urbana era precisamente valorizar a cultura e a critiavidade como vectores da aco econmica, apostando em acontecimentos de nvel internacional capazes de transformar Lyon num destino cultural (SALGUEIRO, 2002).

    A filosofia que esteve subjacente elaborao do primeiro plano-luz era que a colocao de luz no espao pblico no devia ter a ver apenas com segurana, mas que devia ter um papel fundamental na concepo e desenvolvimento do espao urbano e contribuir para um desenvolvimento sustentvel atravs da utilizao de formas de iluminar mais eficientes e amigas do ambiente. Ao organizar o desenvolvimento da iluminao da cidade de Lyon