Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico (volume 1)

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Em “Fúria Lupina - Brasil”, livro de lobisomens lançado em 2010, foi apresentada pela primeira vez a organização Green Death, e muitos leitores gostaram desse grupo ecoterrorista. Da conclusão de que foi marcante para muitas pessoas durante a leitura do Fúria Lupina, surgiu uma ideia interessante: por que não fazer um spinoff com contos de diversos autores, que trouxesse a visão particular de cada um deles sobre a Green Death? O resultado dessa empreitada pode ser conferido nesta série de e-books gratuitos.

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2. Green Death Volume 1 - 2013Organizao: Alfer Medeiros Capa: Silvio Medeiros Reviso: Alfer MedeirosTexto: Adrianna Alberti Alastair Dias Chico Pascoal Douglas Eralldo Franklin Lima Leon Nunes Vernica Freitas Wellington NovaesO e-book Green Death - Ecoterrorismo Licantrpico (volume 1) publicado sob uma Licena Creative Commons - Atribuio NoComercial - SemDerivados 3.0 No Adaptada. 3. ndice Apresentao da Srie .................................................................... 3 OOKAMI (Chico Pascoal) ................................................................ 6 CANAVIAIS DE MORTE (Douglas Eralldo) .................................. 22 Y FERAS (Leon Nunes) ............................................................... 26 BRIGA DE CACHORRO GRANDE (Alastair Dias) ....................... 34 UM BREVE ENCONTRO A TRS (Vernica S. Freitas) .............. 54 DESCOBERTAS (Adrianna Alberti) .............................................. 81 SANTO ARNALDO (Wellington Novaes) ..................................... 97 QUEIMADURAS (Franklin Lima) ................................................. 104 4. Apresentao da Srie Bem-vindo, leitor, a uma realizao pessoal. Quando escrevi o livro Fria Lupina Brasil um tempo atrs, no fazia ideia das propores que o projeto tomaria. Meu livro de estreia no s abriu muitas portas, como tambm me permitiu conhecer pessoas fabulosas entre leitores, escritores e crticos (ou tudo isso ao mesmo tempo). Nesse livro, lanado em 2010, foi apresentada pela primeira vez a organizao Green Death, e muito ouvi falar dela nos feedbacks dados pelos leitores. Da concluso de que esse grupo ecoterrorista foi marcante para muitas pessoas durante a leitura do Fria Lupina, surgiu uma ideia interessante: por que no fazer um spinoff com contos de diversos autores, que trouxesse a viso particular de cada um deles sobre a Green Death? Diversos convites foram feitos, alguns foram atendidos, e aqui temos o volume inicial deste projeto coletivo licantropo. Sou muito agradecido a todos que aceitaram o desafio de criar contos dentro do universo de uma outra pessoa, tarefa no muito simples, apesar de algumas liberdades criativas terem sido cedidas. Antes de partirmos para a leitura dos contos dos meus companheiros de letras, seria interessante mostrarmos um pouco do que esse cenrio dentro do qual foram produzidas as histrias: Contexto Conforme dito anteriormente, a Green Death faz parte do universo da srie Fria Lupina, onde lobisomens vivem e atuam em um contexto histrico/cultural real. Assim como na nossa realidade, os lobisomens so tidos como um mito. Isso quer dizer que da preferncia dos homens-lobo que as coisas permaneam assim, ou seja, as aes do grupo so planejadas de modo a no deixar pistas da existncia de tais seres. Aparies em pblico dos licantropos so evitadas a todo custo. Os Lobisomens So todos bpedes, um meio-termo entre a forma humana e a lupina. Possuem a fora de aproximadamente dez homens quando na forma lupina, e 3 5. na forma humana tm fora e habilidade correspondentes ao mais exmio atleta. Seus sentidos so extremamente aguados ao se transformarem em lobisomens, e algo disso preservado ao voltarem forma humana. Alguns paradigmas universais dos lobisomens no existem nesta realidade: a prata no o nico material que pode causar danos a estas criaturas, e a lua cheia no provoca transformaes involuntrias. No so imortais, apenas extremamente resistentes. Sua pele grossa como a de um rinoceronte e seus ferimentos so cicatrizados mais rapidamente. Possuem a capacidade de se comunicar mentalmente com os de sua espcie. A organizao hierrquica entre os lobisomens que vivem em alcateia segue o padro tradicional dos lobos, determinada pela fora e poder de liderana, em trs nveis: alfa (os mais fortes e com melhores capacidades de persuaso e comunicao), beta (totalmente capacitados, porm com algum ponto negativo que os diferenciam dos alfas) e mega (no conseguem se transformar em lobisomem e somente mantm suas capacidades de comunicao mental). A Organizao Surgiu no final dos anos 80 e, de incio, baseava-se em pequenas sabotagens em instalaes de fbricas poluidoras na Polnia e na Alemanha. Atualmente, sua base de operaes na Holanda, local onde os coordenadores das clulas terroristas se renem secretamente e transmitem as instrues aos seus subordinados. Sua rea de ao global, mantida por doaes de simpatizantes da causa. Quando em campo, atuam em clulas de 3 a 6 indivduos, sempre com um alfa coordenando as aes. Os betas so utilizados em confrontos diretos, e os megas trabalham no apoio e transporte. Sempre chegam aos lugares dos ataques sob disfarce; possuem conexes no submundo do crime que fornecem todos os documentos falsos necessrios para fazerem os ecoterroristas passarem por equipes de TV, membros de ONGs de ajuda comunitria, entre outros. O modo de agir bem simples: ataques rpidos e violentos, de modo a causar baixas e deixar os inimigos com uma tremenda sujeira para limpar e ter de se explicar com as autoridades locais. 6. Bem, acredito que me estendi demais nas explicaes, mas procurei mostrar de forma sucinta o que vem por a. Fico disposio para ouvir qualquer dvida, elogio ou crtica. Agradeo mais uma vez pelo interesse mostrado por este e-book, desejo uma tima leitura e j me adianto a convidlo a ler outros volumes da srie (o volume zero j foi lanado, e os restantes vo surgindo quando menos se espera), caso tenha apreciado este volume. A natureza lupina liberta. A natureza humana destri!Alfer Medeiros [email protected] www.AlferMedeiros.com.br 7. OOKAMI(Chico Pascoal)Permitam-me uma rpida apresentao: meu nome completo Mario Yukio Lopes Tsukimori. Sou brasileiro, sansei, terceira gerao de descendentes de japoneses. Tsukimori o meu sobrenome pelo lado paterno; o Lopes do lado da minha me, que descende de imigrantes portugueses aorianos aportados h cem anos na Ilha de Santa Catarina, no sul do Brasil. Nasci em Bastos, interior do estado de So Paulo, cidade com forte presena da imigrao nipnica, para onde meus pais se mudaram logo aps se casarem. H um provrbio antigo na provncia de Niigata, na ilha de Honshu, terra dos meus avs japoneses, que diz: "Um lobo pode se esconder at mesmo atrs de um junco". Lembro-me que, em certas ocasies, eu costumava ouvilos repeti-lo, sempre na sua lngua me, mas poca era pequeno demais para atinar o seu real significado. Mais tarde, j na minha adolescncia, meu pai me explicou como seus pais conseguiram, durante a Segunda Guerra Mundial, escapar das perseguies perpetradas pelo Estado Novo contra os sditos de Sua Majestade o Imperador Japons, e tambm quelas promovidas pelos sanguinrios militantes nacionalistas do Shindo Remei contra membros da colnia que ousavam duvidar da vitria do Japo: meus avs se utilizavam da ancestral Estratgia do Ookami, que significa lobo em japons. Que estratgia era essa? Fiquei curioso. Achei em princpio que tivesse a ver com artes marciais, e quis saber maiores detalhes; porm, meu pai, que era um homem introvertido e de pouca conversa, podou-me o mpeto juvenil como fazia com os seus bonsais; apenas me pediu que tivesse pacincia, que esperasse, pois quando chegasse o momento certo me seria dado conhec-la. Sou por natureza um sujeito apreensivo, detesto esperar. Ento, em desacordo com o conselho do meu pai, atirei-me de corpo e alma pesquisa na Internet, em bibliotecas, nos arquivos do Museu da Imigrao no Bairro da Liberdade, e descobri, por exemplo, que os Tsukimori descendemos de uma antiga casa notvel desde a Era Meiji por fabricar o molho de soja miss que provia os castelos de Daimyos, Shoguns e Imperadores. Fuando ainda nos pertences do meu pai, chamou-me a ateno em uma fotografia antiga do casamento dos meus avs um smbolo bordado nas mangas do belssimo quimono de seda do noivo. Tratava-se de um crculo com uma lua cheia no centro, rodeada por sete rvores. Aquele era o braso da nossa famlia, cujo significado correspondia ao seu nome: Tsuki (lua) e Mori (floresta, bosque). Porm, por mais que procurasse qualquer referncia tal Estratgia do Lobo, nada pude encontrar. Como a busca se mostrava infrutfera, com o tempo passei a direcionar meus interesses para outros assuntos comuns aos garotos da minha idade: estudo, esportes, garotas, entre outros. 8. Somente dois anos atrs, depois de ter emigrado ao Japo como o fizeram milhares de brasileiros nipo-descendentes, por conta de mais uma crise econmica que assolava nosso pas, que um acontecimento inslito trouxeme de volta aquele assunto que eu considerava encerrado. Uma noite eu havia sido o ltimo a sair da fbrica nos subrbios de Gunma onde dava duro montando autopartes, e pedalava sozinho e sem pressa aproveitando os declives da estradinha sinuosa e bem cuidada, rumo ao conjunto habitacional em que dividia um minsculo apartamento com mais dois amigos brasileiros. Aps dez horas de trabalho, estava extremamente extenuado. Tudo o que eu mais almejava naquele momento era um bom banho morno, uma sopa Udon fumegante, e uma cerveja bem gelada. Aquela era uma noite quente, mida e abafada que, todavia, havia sido recompensada com a presena de uma lua cheia e esplendorosa flutuando qual um balo de prata em um cu de imaculada limpidez. Estrelas, se havia, eram meninas tmidas, pois no as vi. Eu fazia diariamente aquele percurso exceto aos domingos, porque ningum de ferro; e confesso que tanto pela manh, na ida para o trabalho, ainda com resqucios de sono a me entorpecer os sentidos, como noite, ao voltar para casa, eu no me atinha a certos detalhes do caminho. Naquela hora erma, porm, depois de cruzar a pequena ponte adornada com lanternas de pedra sobre o riacho de guas lmpidas, e internando-me no bosque de pinheiros que se estendia a partir da encosta da elevao conhecida como Kitsuneyama, ou Montanha da Raposa, me senti apossado de uma estranha sensao. De um momento para o outro aceleravam-me sobremaneira as batidas do corao. Taquicardia, pensei. E com razo apavorei-me crente que houvesse chegado a minha hora. Logo as veias das minhas tmporas latejavam com tamanha presso e intensidade que minha cabea converteu-se em uma bomba prestes a explodir. Ao mesmo tempo todos os msculos do meu corpo contraram-se em terrveis cimbras. Larguei a bicicleta na beira da estrada e corri aos tropees em direo a um tronco apodrecido de pinheiro, onde me sentei na v esperana de que aquela crise passasse. Faltava-me ar. Meus pulmes ardiam como os altos-fornos de uma siderrgica. Eu no tinha dvida de que algo ruim estava prestes a me ocorrer. Isso foi s o comeo, pois imediatamente, sem que eu pudesse impedir, uma fora sobrenatural irrompeu impetuosa de dentro de mim e, guisa de um daqueles perversos instrumentos medievais de tortura usados para desmembrar hereges, agiu de forma violenta a alongar-me os ossos, a distender minha coluna cervical, a rasgar-me a pele, moldando-me em uma nova criatura. Partes de mim rapidamente se avolumavam e assumiam outros formatos. Articulaes rompiam-se e se recompunham de modo que o meu macaco de operrio j no me cabia. Isso sem falar no pandemnio que confundia totalmente os meus sentidos. A audio, assim como o olfato, tinham se ampliado sem qualquer controle e eu era capaz de ouvir dilogos ntimos 9. travados a quilmetros dali, assim como a queda suave de uma folha no fundo do bosque, o pio solitrio de ave noturna, o cheiro do arroz servido em uma refeio tardia, o odor dos feromnios de alarme de uma lebre ameaada por um predador. Desesperado tateei minha faces, e constatei com assombro que o meu nariz tinha se alongado ao mesmo tempo que, dentro da minha boca, minha arcada dentria se convertera em poderosa mandbula. No lugar das mos, agora eu tinha garras afiadssimas, e os pelos de tonalidade cinza brotavam espessos da minha epiderme como milhes de agulhas fincadas de dentro para fora. No foi como se me arrancassem de mim, mas uma sobreposio. O selvagem sobre o domesticado. O feroz sobre o dcil. No suportando mais tamanha dor, em um dado momento ca ao solo a me debater, a me contorcer em violentos espasmos e convulses, babando e transpirando em profuso, como se fora um portador de epilepsia ou um endemoninhado que carecesse de um providencial rito de exoro. Rios de lava incandescente corriam em minhas veias. Mas a tortura no se prolongou por mais tempo. J metamorfoseado em outro ser, ergui-me num salto testando a capacidade das minhas pernas vigorosas. Erguendo os olhos febris, perscrutei atravs das ramagens dos galhos altos dos pinheiros os contornos de uma lua desnuda e perfeita, testemunha nica da minha transformao. Como inerente aos da minha espcie, senti-me impelido a reverenci-la e libertei o aulido primitivo que estivera reprimido em minhas entranhas desde que eu viera ao mundo. Sim, eu era um lobisomem de quase trs metros de altura e de invejvel envergadura. Eu era um Ookami. O segredo da estratgia do lobo, aquela que os meus ancestrais recorriam em momentos de dificuldade, tinha enfim se revelado. E tive a certeza de que aquela era a hora da verdade qual meu pai se referira. Sentidos apurados, eu podia agora sentir mais intensamente e em toda sua plenitude a natureza qual de forma instintiva me integrava. O cheiro da terra mida, o farfalhar das folhas, o rudo das guas escorrendo por entre as pedras do leito do riacho Comecei ento a estudar o territrio, a familiarizarme com sua topografia, a definir seus limites. Orelhas e focinho em alerta, captei claramente em meio balbrdia de sons e odores um pedido silencioso e desesperado por socorro. Um pedido que no sara de nenhuma garganta, mas que se fazia claro minha nova percepo. O metabolismo do aminocido aromtico e a tenso arterial provocada pela adrenalina dele derivada que secretava uma presa acuada diante de um predador me fez enveredar em alta velocidade pela mata fechada. O chamado procedia do outro lado da montanha, e se eu tivesse que seguir a estrada vicinal para chegar at l, mesmo desenvolvendo uma velocidade surpreendente para os padres humanos, demonstrar-se-ia intil. Galhos, troncos, espinhos, pedras, ravinas... Aquele era o meu meio, o habitat do lobo. Nada havia que pudesse me impedir de chegar aonde me propunha. Sem perda de tempo fiz meu prprio atalho com desenvoltura, e em 10. questo de minutos alcancei um descampado que na poca das frias escolares servia como rea de camping. No centro da clareira, formando um crculo, fachos de luz de faris e o ronco ameaador de motores. Uma gangue de motoqueiros. Eram Bosozoku. Uma praga no Japo moderno. Hordas de delinquentes juvenis em suas motocicletas envenenadas que se juntam para transgredir as duras regras da sociedade nipnica e praticar barbaridades, principalmente contra trabalhadores imigrantes. nesses grupos de desordeiros que a mfia japonesa, a temvel Yakuza, recruta seus membros. Encurralado pela gangue, identifiquei um grupo composto de cinco rapazes e duas moas. Estavam em estado de pnico, paralisados pelo medo. Vestiam o uniforme cinza da fbrica de autopartes, o mesmo que eu usava antes da transformao, e do qual eu j nem me recordava. No os reconheci, mas algo em mim dizia que eu devia ajud-los. Filhos da puta!, berrava a plenos pulmes um dos motoqueiros, com elmo no estilo samurai, brandindo um taco de beisebol. De imediato identifiquei-o como sendo o lder do bando. Vociferava em portugus. As ofensas, mesmo pronunciadas com forte sotaque, me soavam familiares. Vamos l, guerreiros! Vamos detonar os vermes!, exortava colrico, agora em japons, os seus comandados. Algum tem que livrar o nosso pas dessa praga! A resposta do resto do bando ao chefe foi imediata. Entre urros, palavras de ordem e gritos de guerra, tomados de coletiva histeria, eles ergueram suas correntes e tacos e avanaram contra os trabalhadores indefesos. Nesse instante eu intervim. Do alto do pinheiro onde me encarapitara para observar melhor o campo em que teria de lutar, empreendi um salto magistral, aterrissando diante do comandante Bosozoku. Antes que ele pudesse atinar sobre o que estava acontecendo, testei o fio das minhas garras arrancando-lhe com um s golpe a cabea. Com potncia e preciso o golpe atirou-a longe, enquanto o corpo decapitado prosseguiu, ainda por alguns metros, pilotando a moto desgovernada . E o consequente cheiro adocicado de sangue despertou meu apetite. A maioria dos motoqueiros que vinha na empolgao do ataque em massa, ao se dar conta do que sucedera ao seu lder tentou, retroceder e acabou se atropelando mutuamente, o que facilitou meu trabalho. De dois deles, que por azar caram justamente aos meus ps, dilacerei sem esforo suas gargantas. O barulho do sangue gorgolejando, de ossos partindo, o odor nauseabundo dos excrementos vazados de seus corpos eviscerados, os gritos alucinados de pavor, tudo me excitava enormemente. O esprito kamikaze de lealdade de alguns daqueles caras para com o lder fazia com que no se importassem em se atirar em direo morte certa, desde que pudessem infligir algum dano ao oponente. Um, de notvel habilidade com sua mquina, empinou-a de forma a me atingir. A pancada forte 11. da roda dianteira da moto contra o meu costado fez com que eu perdesse o equilbrio e dois outros aproveitassem para me acertar. A corrente com que um deles me chicoteou enrolou-se no meu brao e eu o puxei para mim. Dava para ver o pavor instalado em seus olhos midos. Deu para sentir a urina encharcando as pernas do seu jeans apertado. Este eu tomei pelos pulsos, um com cada garra, e abri seus braos, aproximando o seu rosto das minhas mandbulas. Ento os estiquei at que a pele se rasgasse e os ligamentos se rompessem, desmembrando-o. Antes que comeasse a debandada geral, avancei como um raio sobre os restantes distribuindo dentadas a torto e a direito, rachando cabeas, massacrando-os, estraalhando-os. Fez-se o inferno na Terra. O s da motocicleta foi o ltimo que liquidei. Apanhei-o antes que alcanasse a estrada, onde talvez levasse vantagem sobre mim, e prendi-o pela nuca como comum aos lupinos e felinos quando carregam seus filhotes. Era um rapaz musculoso. Ele seria o que primeiro eu devoraria. Fibras. Sua energia e sua juventude haveriam de me revigorar. Olhei em volta. Os trabalhadores j no estavam presentes para testemunhar meu suculento repasto. Aterrorizados, tinham se aproveitado da confuso para cair fora pedalando rapidamente em suas bicicletas em direo cidade. Aquelas cenas de terror e extrema violncia tinham sido impressas em suas mentes de tal forma que, at o dia em que desencarnassem, as carregariam consigo. Sozinho com meus doze cadveres, deliciei-me mastigando com voracidade incomum as suas melhores partes. Sangue e carne vontade era tudo o que me importava naquele momento. E ai de quem ousasse me interromper! Sentia-me absoluto, senhor dos meus instintos, embora, de algum recndito do meu turvo inconsciente, s vezes aflorasse um resqucio de nusea, de repdio. O inevitvel conflito com o meu lado humano, com o meu outro Eu. Ao terminar o meu farto banquete, por volta da meia-noite, espessos edredons de nuvem agasalhavam a Lua. Roia ainda alguns fmures quando o meu sentido auditivo concentrou-se em uma voz suave e feminina que se sobrepunha s tantas que a minha audio privilegiada conseguia captar. Esta voz, porm, no vinha atravs de ondas sonoras, mas mentais. E dirigia-se diretamente a mim. Irasahimasse, irmo Ookami! Seja bem-vindo! Desconfiado, agucei o olfato e varri os arredores com minha viso. intil, irmo. Concentre-se e entraremos em perfeita sintonia, aconselhou a voz. Vamos, faa um pequeno esforo. Quem...?, respondi mentalmente. Muito bem! Aos poucos irs perceber que no to difcil dominar esta tcnica. Deixe que eu me apresente: Meu nome Eucyon. Temos mais em comum do que possa imaginar. Tambm sou uma mulher-lobo. Pensei que eu fosse... 12. O nico?, riu-se. s muito pretensioso. Saiba que somos uma grande alcateia. No estamos apenas no imaginrio popular, na cultura de cada povo. Fazemos-nos presentes em todos os continentes. Todos sujeitos a esta... Maldio? Se me permite, irmo Ookami, prefiro encarar como sendo uma beno. A minha misteriosa interlocutora ento me revelou que estivera o tempo todo a me observar, tendo inclusive elaborado um relatrio completo sobre a minha primeira transfigurao e o meu comportamento diante de uma situao de risco. O objetivo era avaliar se eu realmente tinha potencial para fazer parte dos quadros da organizao que ela representava. Relatrio? Organizao?, estranhei. Uma organizao composta por lobisomens, voc quer dizer? Licantropos. Militamos na Green Death. Nunca ouvi falar... Porque no usamos do recurso da visibilidade como o Greenpeace, a WWF ou os Mdicos sem Fronteiras. Pelo contrrio: acreditamos que quanto mais invisveis, melhor. Quanto mais acreditarem que somos apenas uma lenda, uma supertio, menos complicado ser atingirmos nossos objetivos. Uma organizao com fins ecolgicos? A natureza o nosso meio. Cabe-nos retaliar e vingar as agresses por ela sofridas. No impomos a ningum que se junte nossa causa, mas lhe estendemos o convite. Fique a vontade para pensar a respeito. Dentro de uma semana entrarei novamente em contato. Ah, um conselho, se permite, antes que crie srios problemas para o decassgui Mario Yukio, cuja forma daqui alguns minutos ter de reassumir: comece a limpar o terreno. Desaparea com todo e qualquer vestgio que possa indicar a presena de um lobisomem nessa regio. Sayonara! A conexo com a minha preceptora interrompeu-se, e em seguida me vi recolhendo os despojos daqueles infelizes, assim como suas motos e armas, e atirando-os em uma fenda estreita e profunda aberta por antigo sismo no alto da montanha. O forte odor de enxofre que emanava das guas termais que corriam nas entranhas da terra disfararia o cheiro decorrente da putrefao. Fi-lo com tanta naturalidade, que era como se j o tivesse feito outras tantas vezes. Horas mais tarde, de volta minha forma humana, cheguei seminu ao alojamento onde encontrei meus companheiros ainda em estado de choque. Mario! Pensamos que estivesse... abraou-me chorando minha amiga Yukari, visivelmente abalada. Estou bem, Yuka tranquilizei-a. Embora ela no me dissesse, eu percebia a extenso dos seus sentimentos em relao a mim. O que eu ainda no tivera coragem de lhe contar que tinha me desgastado muito com uma desiluso amorosa antes de vir para o Japo (um dos motivos que pesou na minha deciso de partir), e que no estava disposto a to cedo me envolver emocionalmente com algum. 13. Os Bosozoku... A criatura... J passou. Estamos todos bem agora, no estamos? Foi s um pesadelo. O restante do pessoal tambm estava aterrorizado e confuso com os estranhos acontecimentos daquela noite. Alguns cogitavam at largar tudo e embarcar imediatamente para o Brasil. Ento lhes pedi calma. Sugeri que o melhor a fazermos era dar por encerrado o assunto. No que fosse tarefa fcil apagar das nossas mentes aquelas cenas medonhas que os que os nossos olhos tinham presenciado. Mas que devamos tentar tocar normalmente as nossas vidas, continuar, apesar de tudo, correndo atrs dos nossos sonhos. Dos sonhos bons. A semana seguinte foi de angustiante apreenso. Temamos, e com razo, que a imprensa ou a polcia pudesse levantar qualquer suspeita sobre a o desaparecimento daqueles infelizes. Era como se o homem-lobo que viera em socorro dos trabalhadores decassguis fosse apenas fruto da sua imaginao. Aqueles dias eu andei meio avoado, disperso. No trabalho cheguei at a ser advertido duas vezes pelo meu supervisor. Yukari e os outros colegas, contudo, no estranharam, j que eles prprios ainda no se haviam recuperado plenamente do choque emocional decorrente do episdio com o lobisomem e os Bosozoku. Depois de analisar minuciosamente, pesar os prs e os contras da proposta apresentada pela Green Death, voltei ao bosque da Montanha da Raposa. O fato de poder me transformar em lobisomem, a princpio me assustara; mas por outro lado no tive dificuldade em aceitar a minha condio de diferente. Era uma herana dos meus antepassados, um presente raro. E eu no podia simplesmente reneg-la. Dispor deste dom e no utiliz-lo para um propsito que no fosse apenas a autodefesa, como o fizeram meus avs, me parecia uma atitude puramente egosta. Ento novamente assumi a forma de lobo e contatei Eucyon para comunicar-lhe a minha deciso. Minha preceptora , na hierarquia da Green Death, uma fmea mega. Seu forte justamente a comunicao mental; e o seu papel dentro da organizao identificar, recrutar, treinar e monitorar agentes. A sede da Green Death est secretamente localizada em algum lugar nos Pases Baixos. Eucyon pertence a uma das cinco clulas terroristas no Continente Asitico e sua base a ilha de Okinawa, ao sul do arquiplago japons. No nos conhecemos pessoalmente. Ficamos muitssimo honrados que tenha aceitado, irmo Ookami. Ontem mesmo, em reunio extraordinria, o Conselho da organizao reunido na Holanda fez comentrios muito positivos em relao ao meu trabalho, ou seja, sua avaliao; o que significa que oficialmente voc j pertence ao quadro da Green Death. Dentro da nossa hierarquia voc foi considerado um homem-lobo em nvel beta: o que o qualifica para atuar diretamente em confrontos e aes de risco. Meus parabns. Irashaimasse, irmo Ookami 14. Aquela mesma noite fui informado de que teria o meu batismo de fogo. Fora-me confiada uma misso, e eu teria a oportunidade de finalmente mostrar o meu valor. Em princpio fiquei pensando que tipo de desculpa daria para poder me ausentar do trabalho, ou mesmo o que diria aos meus colegas de alojamento. Mas o pessoal da Green Death era de uma eficincia mpar e j tinha pensado em tudo. No dia seguinte, na fbrica, mal assinei o ponto digital, o supervisor de servios da rea qual eu pertencia, Senhor Murakami, chamou-me sua sala. Senhor Tsukimori, volte para o alojamento e arrume as suas coisas. Precisamos que viaje imediatamente a Okinawa. Vai ficar uns dias por l, a trabalho. Eu estava surpreso. Tratasse-se de um alto executivo, v l. Mas eu era um simples peo naquela linha de produo, e alm do mais um imigrante. Ser destacado para prestar servio em outra unidade daquela renomada fbrica de autopartes, era algo, seno indito, quase inimaginvel. Pensei no mal estar que causaria, na inveja que despertaria principalmente entre os funcionrios efetivos. Est ficando importante, hein garoto! parabenizou-me Yukari quando lhe contei. Nem sei bem porque me escolheram disfarcei. Sem falsa modstia, Mario brincou Orlando, um paranaense j veterano De ns, voc que se vira melhor em japons. Isso conta muito para eles. No dia seguinte ao desembarcar o sul do arquiplago, em Naha, capital de Okinawa, Eucyon me esperava no aeroporto. Minha preceptora era bem diferente da imagem que dela eu fizera dela. Era quase uma adolescente, tingia o cabelo de azul e vestia-se de modo despojado, ao estilo das mundialmente famosas lolitas do distrito de Harajuku. Tsukimori-san? Sim. Voc deve ser... Meiko. Meiko Ogata. Seja bem-vindo a Okinawa Curvou-se numa reverncia. Os codinomes, ela tinha me alertado, no deviam ser usados em pblico. Tomamos um taxi para um bairro localizado nos subrbios da cidade onde ficava o apaato que Meiko dividia com seu namorado, um americano alto e ruivo. Clarence Sttummer era correspondente de um jornal do Hava, e tambm fazia parte da Organizao. Era um lobisomem da categoria alfa, e o seu codinome era Red Wolf. Prazer em conhec-lo, irmo Ookami saudou-me o americano estendendo-me gentil sua mo forte. Sou o responsvel pelo planejamento e pela logstica da misso. Eucyon me falou muito bem de voc. Obrigado. Vocs so muito gentis. 15. Mais tarde, depois do jantar, o simptico casal explicou-me em detalhes que tipo de ao ns iramos empreender e como deveramos proceder. H aproximadamente uma semana um navio de bandeira japonesa procedente do porto de Kobe transportou secretamente, para uma regio rural do Timor Leste, um enorme carregamento de lixo hospitalar que seria enterrado nas montanhas prximas a Dili, colocando em risco os mananciais que abastecem aquele pas. A informao, que nos foi passada dias atrs por nossos alcaguetes, que a famlia Yakuza Yamaguchi-gumi e um chefe poltico timorense estariam por trs do negcio que h de lhes render alguns milhes de dlares. O ideal seria que tivssemos conseguido impedi-los antes que os contineres fossem desembarcados reforou Meiko. No entanto, cremos que ainda h tempo hbil para fazermos algo de modo a evitar a ocorrncia de um terrvel desastre ambiental. do nosso conhecimento que j saltou de paraquedas antes disseme o alfa. E tive a certeza de que haviam vasculhado a minha vida como que revira um armrio. Uma vez apenas admiti Com uma turma de amigos em um aeroclube no Brasil. Por puro exibicionismo. *** O pequeno avio sobrevoou a cidade de Dili mas, contrariando as orientaes de pouso fornecidas pelo operador de trfego do aeroporto, seguiu em frente sempre margeando a costa, at se internar e tomar o rumo dos montes Matebian, elevaes consideradas sagradas pelos timorenses. Casa dos Mortos. o que Matebian significa na lngua nativa de Timor, o Macassai explicou Red Wolf enquanto eu me preparava para o salto Desa l Ookami-san, e faa com que aquela corja se sinta em casa. Entendi o recado e fiz sinal de OK. L embaixo, em meio uma densa nvoa, visualizei duas magnficas formaes geolgicas de aparncia tumular. Matebian Mane e Matebian Feto. Homem e Mulher. Era ali, no seio daquela natureza que me pareceu extremamente hostil, que a minha capacidade seria posta prova. Dentro das coordenadas traadas por meus preceptores, saltei de modo a aterrissar em uma pequena clareira localizada no meio da selva. E, fora um friozinho na barriga decorrente da ansiedade, no tive qualquer tipo de problema. Aterrissei em meio ao capim alto e, aps recolher o paraquedas e ocultlo sob as razes de uma rvore antiga, retirei um apito do bolso e soprei forte por trs vezes. Era o sinal combinado para que o guia que me aguardava me localizasse. Esperei ao longo de alguns minutos, atento a qualquer movimento ou rudo, mas ningum apareceu; ento comecei a temer que tivesse entrado numa fria. 16. A sombra que assomou qual uma projeo cinematogrfica em meio neblina, no obstante fosse gigantesca e em princpio aterradora, pertencia a um homem de baixa estatura, a um pequeno guerreiro descalo que se materializou na minha frente. Senhor Lopes? perguntou-me em perfeito portugus. A voz vigorosa contrastando com a sua dbil compleio fsica. Sim, sou eu respondi. Ele aproximou-se para que eu pudesse v-lo melhor. Era um homem de meia idade. As cs e a barba grisalhas, a pele morena e curtida, davam-lhe uma aparncia venervel. Trazia a tiracolo um embornal de lona e um velho fuzil com o nmero de srie do exrcito portugus na culatra. Ol, como vai? cumprimentou-me estendendo mo magra e calosa Sou Isidoro de Souza. Ex-combatente da FRETILIN e veterano das guerras da independncia de Timor. Fui designado para gui-lo ao Covil da Serpente. Imagino que conhea esta regio como a palma da sua mo. Pode apostar riu, abrindo um sorriso desdentado de gengivas escuras. Nasci aqui, aos ps dos Matebian. E aqui pretendo descansar meus ossos, quando a velha da foice me chamar. Mas creia-me, senhor Mario, no estou com pressa nenhuma. Rimos. Isidoro era realmente um sujeito espirituoso e caiu de imediato nas minhas graas. Achei que nos daramos muito bem e que faramos tima parceria. Enquanto seguamos rumo s montanhas o velho timorense me contou episdios e fatos ocorridos ali durante a guerra, lembrando os companheiros que haviam morrido defendendo a soberania de Timor Lorosae, sua ptria. Explicou tambm que faramos uma marcha por cerca de duas horas ao longo de uma trilha escondida na mata, e que se tudo corresse conforme tinha planejado chegaramos ao nosso objetivo antes do anoitecer. Por volta das cinco da tarde alcanamos uma garganta de quase um quilmetro de extenso, que de to estreita mal dava para passar um homem. Felizmente sou de compleio delgada, mas mesmo assim tive de percorr-la inteira de lado. Superado esse obstculo natural, detivemos-nos finalmente no topo de uma pedra enorme, uma espcie de mirante. O Covil da Serpente est logo ali embaixo apontou para um ponto invisvel no meio da indevassvel neblina. Foi uma antiga base do exrcito indonsio. E tem esse nome por causa da estrada sinuosa como uma cobra que conduz at l. Isidoro, como eu j desconfiava, era um mega, o nico em todo o territrio Timorense. Sem seu precioso apoio, mesmo para um agente experimentado o que no era o meu caso, a misso se tornaria praticamente invivel. O fato de falar portugus tinha pesado na minha escolha. Talvez tivesse sido mesmo uma sugesto do meu guia. 17. Aproveite para descansar, rapaz sugeriu o veterano Logo mais, quando a neblina amainar e a luz dos faris dos caminhes se fizerem visveis l no rabo da Serpente, voc vai at l mostrar a que veio. Retirando do embornal de lona um rolo de corda de fibra vegetal, firmou uma das pontas com um n no galho de uma pequena rvore arraigada nas rochas da encosta, e atirou-a no precipcio. atravs desta corda que voc vai poder descer at o prximo patamar. Dali em diante vai ter que confiar nos seus instintos de lobo. Ficarei aqui, mas estaremos conectados mentalmente. Caso precise de ajuda, no se faa de rogado. Chame-nos, e eu e a Sonia Braga aqui iremos em seu socorro. Sonia Braga? ri. como eu a batizei apontou para a carabina cruzada sobre suas pernas Um amor antigo, seu Mrio. Um casamento. No desgrudamos um do outro. Naquela bem-humorada comparao, pude comprovar o enorme poder de penetrao das telenovelas brasileiras mundo afora. s sete horas em ponto ouvimos finalmente o rosnado dos motores enfrentando o desafio dos aclives. Vistos do alto, os fachos dos faris dos veculos eram como lminas brancas de luz fatiando o fumo da cerrao. Dois camies trucados e dois veculos menores, provavelmente servindo de escolta observou Isidoro colocando a mo no meu ombro. Agora no h mais tempo a perder. V! Encaminhei-me relutante beira do precipcio e coloquei as luvas de couro e o equipamento de rapel. Lembrei-me de um tempo em que praticava esportes radicais, e que vencer cachoeiras ou descer rios caudalosos em uma boia era o meu maior desafio. Deixe a mochila comigo disse o guia. No vai precisar dela por enquanto. Desci cerca de dez metros por entre a bruma que se dissipava e alcancei a plataforma inferior, o ponto que Isidoro me havia indicado. Ali, mesmo com a temperatura despencando rapidamente, despi-me e me concentrei. Ouvi um zumbido crescer dentro do silncio e aos poucos fui entrando em sintonia com o veterano timorense, que me orientaria na minha primeira transformao induzida. Isidoro com a sua experincia e conhecimento do terreno faria com que as coisas se tornassem bem mais fceis para mim. Em questo de segundos, minha musculatura contraiu-se resistindo expanso violenta da minha estrutura ssea. Pelos grossos brotavam abundantes em minha derme, e o tremor que agora tomava conta do meu corpo, eu sabia, no era provocado pelo sopro gelado do vento sudoeste que assobiava nas ravinas e salincias rochosas. Urrei, antevendo a imensa e inevitvel dor que precederia a pujana e o prazer incomensurvel de me libertar da minha forma humana, domesticada, assumindo a condio primitiva e feroz de um homem-lobo. 18. Imagino que tudo tenha ocorrido muito rapidamente. Apenas imagino, pois a cada dolorosa transformao meus neurnios explodiam como se fossem tomos em processo de fisso, e o meu nvel de conscincia simplesmente inexistia. Logo eu era um lobisomem novamente. Um lobisomem vigoroso e feroz com garras afiadas e mandbulas de ao. Com focinho alongado e olhos raiados e brilhantes. Meus instintos superdimensionados agora captavam com nitidez os sons mais discretos da montanha, o rumor das guas, o temor noturno dos pequenos animais, o sussurro lamurioso das almas dos combatentes que ainda vagavam por aquelas paragens. E tambm os cheiros. Principalmente o odor ftido que exalava dos contineres trazidos pelos caminhes, e que infectava o ar puro dos Matebian. Jovem Ookami, o momento este, ouvi Isidoro me aconselhar dentro da frequncia estabelecida entre ns. O elemento surpresa seu trunfo. Os facnoras esto fortemente armados, e confiam que ningum se atrever a atrapalhar os seus planos. Agora v, garoto! Ah, se puder, poupe os motoristas. Eles sero teis para conduzir os veculos de volta costa. No levei mais que dez minutos para alcanar a clareira rodeada de palmeiras conhecidas por Tali Metan, onde ficava a base. Da escurido, divisei a silhueta dos dois homens que montavam guarda naquela velha construo de arquitetura portuguesa. Interpretando as conversas captadas pelos meus ouvidos, Isidoro identificou-os como sendo de origem indonsia. O primeiro era gordo, falador e cheirava a comida picante; o segundo era monossilbico e, nervoso, fumava um cigarro atrs do outro. No lhes dei chance para entender o que se passava: avancei dentro das sombras sem que percebessem e, juntando suas cabeas, bati uma contra a outra com uma fora que eu ainda no dominava. Um rudo de vasos que se quebrassem. A massa enceflica morna uma iguaria que no se deve desperdiar. Considerei-a como a entrada para o banquete que iria apreciar logo em seguida. Muito bem, rapaz!, elogiou Isidoro. Agora chega. No deve se desconcentrar nem deixar-se desviar do seu objetivo. Grunhi contrariado, mas as palavras do velho tinham o estranho poder de me dobrar. Obedeci. Isidoro sabia que, uma vez despertado, o meu apetite de besta interferiria de forma negativa prejudicando minhas aes, forando a saciedade. No se passaram nem dez minutos e um jipe de fabricao japonesa, sem capota e com trao nas quatro rodas, antecipou-se ao comboio e entrou na clareira. Nele havia trs homens: um ao volante e os outros dois, um do lado do carona e outro no banco traseiro, armados com rifles. Halo! gritou um deles, ainda antes do veculo estacionar. Chegamos! 19. No obtendo qualquer resposta, nem esperou pelos outros. Escalou rapidamente os degraus antigos da velha base e empurrou com o cano da arma a porta entreaberta. Ei! Se o vagabundos encheram a caveira de Arrack, podem se preparar: o chefe vai comer vocs vivos! Vivos? Exceto os pequenos insetos da noite, no havia mais ningum vivo l dentro. A cena com que deparou jogou-o para trs como um coice de uma carabina de grosso calibre aps um disparo: luz plida e oscilante de uma lmpada a querosene jaziam os corpos inertes dos dois infelizes. Puta que pariu! disse, enquanto retrocedia tropeando nos ps, sem se arriscar a dar as costas para quem ou o que pudesse vir da escurido dos cmodos contguos. Cruzando de volta o umbral da porta de entrada, trpego, correu em direo ao jipe, para junto dos seus companheiros. Contra o facho dos faris, porm, no os enxergava, embora acreditasse que estivessem ali. Fudeu! Algo deu errado! Os caras esto mortos deu o alerta, o pnico estampado na voz. Suas palavras perderam-se no vazio como tiros a esmo, sem surtir o efeito desejado. Logo ele descobriria que os que haviam permanecido no carro tambm estavam igualmente mortos, desmembrados, os corpos cruzados um sobre o outro. E teria a indigesta e angustiante certeza, talvez a ltima, de que aquele terrvel fim tambm lhe estava reservado. Suas pernas curtas, antes mesmo que o crebro alarmado emitisse qualquer comando, arrastaram-no em tresloucada fuga estrada abaixo, mas no o levaram muito longe: poucos metros frente esbarrou em um largo paredo de msculos sob pelos, contra o que reagiria disparando furioso a sua arma se pudesse. Gritaria tambm se uma garra de ao no o prendesse pelo pescoo, apertando-o at quebr-lo, emitindo um estalo seco. O silncio da morte pousou outra vez sobre a noite como uma enorme ave de mau agouro. Bom trabalho, Ookami-san, elogiou o mega, atravs da frequncia das ondas cerebrais. Primeira fase concluda com sucesso. Os caminhes basculantes, cada um com dois pequenos contineres, vencendo o cascalho da estrada estreita com os motores a rugir, apontaram na entrada da clareira cerca de quinze minutos depois. O jipe estava l. O motor ainda se encontrava ligado, mas no havia sinal dos batedores nem dos homens contratados para montar a guarda no local. Entrementes, na retaguarda, os ocupantes do segundo jipe eram surpreendidos pela minha forma escura e amedrontadora que desabara do alto das enormes palmeiras que ladeavam a estrada. Meu Deus! ainda teve tempo de pronunciar em vo a primeira vtima, antes que o fio das minhas garras estraalhasse a cartilagem da sua garganta, matando-a instantaneamente. 20. O segundo homem, tpico sicrio arregimentado na periferia pobre de Jacarta, mostrou timo reflexo ao sacar de uma pistola automtica e disparar duas vezes contra mim. Atirava bem, mas no pde confirmar jamais se conseguira acertar o alvo. Os estampidos de sua arma, contudo, serviram para alertar os condutores dos caminhes de que algo no corria bem. Aproveitando-se de um segundo de retardamento que representou a intil resistncia oposta pelo seu companheiro atirador, o chofer do jipe abandonou o volante e tentou escapar. Quando percebeu que eu, terrvel predador, viria nos seus calcanhares e o alcanaria, tentou uma ltima e desesperada cartada: atirou-se no abismo. Talvez pensasse que partindo a cabea nas pedras ou quebrando o pescoo em consequncia da queda tivesse uma morte menos traumtica. Tiros. O alarme fora dado. E ainda antes de abandonarem as cabines dos caminhes, os homens que as ocupavam j engatilhavam suas reluzentes automticas. Mera formalidade, pois confiavam ingenuamente que seu poder de fogo pudesse defend-los de minha ameaa inumana. Restam quatro, informou o preceptor. Posso v-los atravs do binculo para viso noturna. Eu sabia o que fazer. Difcil mesmo ia ser controlar minha inata ferocidade de modo a poupar a vida de dois daqueles infelizes. Galgando num salto silencioso os contineres do primeiro caminho, pousei sobre os escolhidos minha viso. O poder de vida e de morte daqueles homens estava nas minhas garras. Os que saam pelo lado do carona no veriam jamais a luz do dia seguinte. Gritos angustiados, lamentos sufocados, sangue gorgolejando, ossos partindo, tiros esparsos... Uma batalha que mal comeava j se dava por perdida. Os sobreviventes, encurralados entre os dois veculos, no atinavam por que a besta sanguinria, depois de trucidar com extremada fria seus desditados companheiros diante dos seus olhos, de repente, como se uma mo invisvel o impedisse, se contentasse apenas em tomar suas armas. Agora a parada comigo, Ookami-san disse uma voz, proveniente das sombras. A contragosto, me afastei. Carabina em punho, o timorense intimou os prisioneiros. Em japons, pois eram nipnicos. Com o pouco que sabia do idioma, consegui compreender sua frase seguinte: Vocs vo ter que levar toda esta imundcie de volta, seus bastardos! S por isso que esto vivos. Alguma objeo? Nem precisavam responder. Aqueles eram os termos da rendio. No havia mais o que se pudesse negociar alm de suas vidas. Sob a mira do exguerrilheiro e o meu olhar faminto, os motoristas desceram a serra em grande velocidade, amedrontados, e mais preocupados em se safar daquele pesadelo infernal que propriamente cumprir com o que lhes fora determinado. 21. Acompanhando o desenrolar da ao pelo binculo, Isidoro assistiu satisfeito quando, minutos depois, uma patrulha de capacetes azuis interceptou ambos os veculos. Relaxa, garoto. Coma alguma coisa. No me fiz de rogado e me atirei voraz sobre os cadveres que jaziam ainda mornos no solo poeirento da clareira, extraindo de ambos seus rgos internos. Coraes e rins eram as iguarias que mais satisfaziam o meu paladar. Mantendo uma razovel distncia, Isidoro esperou. Sabia do perigo que significava se aproximar de uma fera quando esta estivesse a se alimentar. Como posteriormente me disse ele, homem-lobo no sujeito metamorfose corporal, no raro era tomado pelo desejo de provar de carne humana. Quando isso acontecia, porm, seu estmago embrulhava de puro asco e nsia; e a vontade do homem acabava se impondo vontade do lobo. Meia hora mais tarde, a bordo de um dos jipes da escolta (o outro fizemos deslizar para o fundo de um precipcio, juntamente com os despojos do infelizes mortos), Isidoro e eu, j de volta forma humana, tomamos o rumo de Dli, a capital timorense. Isidoro conhecia um atalho que nos permitiria evitar a abordagem por parte dos soldados da Fora de Paz. Se a estratgia falhasse, no entanto, tnhamos um libi preparado: eu seria um jovem fotgrafo e ornitlogo com credenciais de uma importante revista brasileira, que ali me encontrava com o intuito de documentar as belezas naturais do pas; Isidoro fora contratado como seu guia. Entretanto tudo correu sem maiores incidentes. Quando o sol iluminou o dia, pudemos avistar ao longe as palmeiras que ladeiam o aeroporto de Dili. *** O Hotel Lorosae era uma construo moderna e ao e vidro situado na Avenida Portugal, nas proximidades do porto. Era ali que Red Wolf e Eucyon tinham marcado de me encontrar. A um quarteiro de distncia, porm, Isidoro parou o jipe no acostamento e se despediu. Daqui seguirs sozinho, meu jovem amigo disse o velho timorense. O hotel aquele ali adiante. Por precauo, bom que no nos vejam juntos. Foi uma honra combater ao seu lado, comandante Isidoro. Obrigado por tudo falei, estendendo-lhe a mo. No h de que, meu rapaz. Provaste ser um combatente de valor. V com Deus. Os sinos da Igreja Matriz de Dli dobravam solenes distncia, anunciando a missa das seis horas quando avancei pelo saguo do Hotel Lorosae. Sentia-me um trapo humano. Sono, fome, tenso haviam me desgastado a tal ponto que no pensava em outra coisa seno em convencer Meiko e Clarence a no embarcarem imediatamente rumo ao Japo. Necessitava de pelo menos mais um dia na capital timorense, para recuperar as baterias. 22. A magnfica manh do dia seguinte veio nos saudar, trs jovens licantropos estrangeiros em uma praia na belssima Ilha de Ataro, localizada a cerca de trinta quilmetros de Dli. A natureza ali, quase intocada, com suas guas calmas e translcidas, peixes coloridos, revoadas de pssaros marinhos das mais diversas espcies e um povo simples e hospitaleiro, parecia de alguma forma agradecer por termos atuado providencialmente em seu socorro quando mais precisava, livrando-a dos tentculos traioeiros que estiveram a amea-la.~*~ Contato com o autor: [email protected] http://microrelatosdocheeko.blogspot.com 23. CANAVIAIS DE MORTE (Douglas Eralldo) A criatura arrastava vagarosamente os ps carcomidos na estrada de terra, fazendo uma poeira fina soltar-se do cho. Do rombo em sua barriga desprendia-se um cordo de vsceras que se enrolava pelas pernas e caa ao cho como um pequeno rabo que, arrastado, desenhava na terra uma linha tortuosa. Sem qualquer coisa que fizesse sentido, a criatura grunhiu chorosamente, como se fosse um lamento fnebre por seu trgico destino. Seus pares que a acompanhavam na marcha repetiram o grunhido. Ansiavam todos por carne e gua. Mas frente tinham apenas o canavial e uma estrada desrtica e solitria. Quando a criatura que ia mais a frente, tomada por seu instinto selvagem de uma fera prxima morte, parou a caminhada intencionando comer das carnes dos outros caminhantes, o farfalhar vindo do meio do canavial distraiu-a de seus planos. E o que j era macabro ficou ainda pior. Do meio da plantao, um gigantesco lobo de cor marrom saltou contra o pequeno grupo. No salto, feito em uma parbola perfeita, com um nico golpe violento, a cabea de uma das criaturas voou como uma bola acertada por um taco de baseball. Com agilidade surpreendente, ficando sobre duas patas, o lobo deu um giro em trezentos e sessenta graus, e enfiando uma de suas garras no peito de outra criatura, arrancou-lhe o corao febril, cujo pulsar era ritmado e lento. Atordoadas pelo ataque surpresa, as criaturas que at dias atrs eram homens e mulheres trabalhadores do canavial, giravam em crculos, tontas pelo que acontecia. E sem qualquer remorso, o lobo, cujos olhos eram estranhos e temerrios, foi uma a uma retirando-as daquele meio termo de sobrevivncia, libertando as criaturas da febre mortal que os atingira. Em menos de dois minutos de ataque, o lobo estava no centro de um crculo de corpos decompostos e mutilados. No havia restado um nico zumbi. Mas para no deixar vestgios, ainda como lobo, a fera arrastou os restos mortais dos inimigos para um buraco, que logo depois foi entupido com 24. terra. Mesmo com fome, por via das dvidas preferiu no comer nenhuma das pessoas zumbificadas. Tinha medo de transformar-se num homem-lobo-zumbi. Eliminado os vestgios dos corpos, o homem-lobo regressou novamente sua forma humana. Seus constantes problemas de memria deram-lhe o apelido de Jay Bourne. Era um rapaz viril, de porte atltico, rosto quadrado e olhos penetrantes. Os cabelos cortados no estilo militar conferiam a ele um aspecto de fora e violncia, que quando humano no se confirmava, porm quando licantropo, era um espelho de sua ira. Com a misso ainda pela metade, Jay Bourne seguiu solitrio e nu pelo caminho de terra. A sua volta apenas o verde intenso do canavial que tomava grandes propores do terreno ondulado. E, muito distante no horizonte, o cintilar brilhante do ao da pequena usina. Enquanto caminhava na forma humana, o jovem lembrava-se de como encontrara a Green Death. Sua cabea parecia querer explodir a cada despertar de suas noites de lobo, das manhs nas quais acordava com o gosto agridoce do sangue em seus lbios, e com o corpo dolorido pela metamorfose. Foi buscando por respostas para sua identidade como lobisomem que o rapaz, cujo nome sempre esquecia, acabou por ser encontrado pela Green Death atravs da internet, pelo histrico de pesquisas que fazia na grande rede. Desde ento encontrou um objetivo para sua vida, quando soube que no era lobisomem, mas sim um homem-lobo, e principalmente, quando foi alistado para salvar o planeta de seus piores inquilinos: os humanos. Foi na Green Death que recebeu treinamento, e o codinome Jay Bourne. E tambm aquela primeira misso que serviria para comprovar seu valor perante a organizao ecoterrorista. Na regio sudeste do Brasil, a organizao havia sido informada de que usineiros estavam testando perigosos produtos qumicos em seus canaviais, poluindo as guas e o ar. Em alguns dos relatos, os estranhos elementos estavam provocando uma febre mortal nos trabalhadores da regio, colocandoos num estado de inconscincia, e ainda pior, degenerando clulas e tecidos. E Jay Bourne podia ver de perto o tamanho do mal que o veneno poderia significar para o planeta. No teria pena alguma de matar os usineiros e seus capangas. 25. A menos de um quilmetro da usina construda no meio do nada, e protegida por uma alta cerca de tela, Jay Bourne retornou a sua forma de homem-lobo. Iria atacar com rapidez e fora. No entanto, os recentes problemas com zumbis e com trabalhadores sem terra tinham feito os usineiros tomarem medidas de preveno a ataques. Havia homens armados para todos os lados, e nem bem o homem-lobo entrou no campo de viso dos seguranas, uma saraivada de balas tomou o ambiente. Jay Bourne esquivava-se de cada um dos tiros, mas no raro ouvia o zumbir das balas passar raspando por sua pelagem. Com as garras afiadas e cheio de ira, rasgou a tela e penetrou o permetro de segurana. Um dos capangas tinha-o na mira, porm Bourne deu uma cambalhota lupina surpreendendo seu algoz, e num s golpe rasgou a garganta do homem, de onde emanou um pequeno chafariz carmesim. Por um instante Jay Bourne pde contar com a incredulidade dos homens ao ver o lobo de mais de dois metros e meio de envergadura. Eles esperavam por zumbis zonzos, ou algum sem-terra de foice e faco. Jamais um lobo. O homem-lobo aproveitou o pequeno instante de pnico para rasgar meia dzia de barrigas, e decepar outra dzia de cabeas. No tardou para as balas retornarem o ataque, mas contando com a pssima pontaria dos capangas, um a um foi tombando, deixando para trs um rastro de carne, ossos e sangue. A fria de Jay Bourne s fazia aumentar, e quando entrou no pequeno escritrio, encontrou os dois usineiros, com os olhos arregalados pelo terror que presenciavam. Um deles, o mais magro, empunhava um revlver, no entanto o tremor em suas mos no o permitiria atirar. Se quiser pode ficar com tudo isto disse o outro usineiro mostrando uma pilha de dlares sobre a mesa. Apenas nos deixe viver falou gaguejando, sabendo que a fera da qual projetava-se a assustadora sombra podia compreend-lo. Mas Jay Bourne no deu mais tempo para splicas. Rasgou o pescoo dos dois num nico golpe. Faminto depois de tanta ao, como vingana saboreou cada pedao de carne dos dois usineiros, deixando ao fim apenas os ossos brancos como marfim. A tarde caa sobre a usina, e os abutres se aproximavam atrados pelo cheiro de sangue e carne morta. 26. Jay Bourne retornou forma humana depois de se certificar que no restara mais ningum vivo em todo o complexo industrial no meio do canavial. Dos mortos, roubou uma cala, e um telefone celular. No aparelho discou um nmero de nove dgitos. Pode mandar a equipe de limpeza disse ele ao telefone. H muitas pistas a serem apagadas. Sentando-se num tronco cado no ptio, Jay Bourne apenas olhava os corpos espalhados. De um deles havia roubado tambm um pacote de fumo e papel. Enrolou o artefato e tragou a fumaa. Era sua ode particular por enfim ser um soldado da organizao ecoterrorista. O Sol punha-se alaranjado no horizonte, e a fumaa do tabaco danava no ar, enquanto Jay Bourne aguardava o restante da equipe de limpeza da Green Death. Seus pensamentos formavam um turbilho de sentimentos, sentindo na boca o gosto amargo da carne, e na conscincia dezenas de ponderaes a respeito do que fizera naquele dia. As ltimas horas tinham-lhe rendido muitas novidades.~*~ Contato com o autor: [email protected] http://www.douglaseralldo.com 27. Y FERAS(Leon Nunes)I. A Visita A inteno de Teo, membro da Green Death Brasil, era de preparar um relatrio completo acerca das ocorrncias ps-embate que resultou na carnificina ocorrida no final de 2009, alguns meses depois do ocorrido. Fora sozinho tanto Amaznia, onde teve contato com informaes mais relevantes, quando Santa Maria Psiquiatria de modo a completar os dados faltantes. No era sua responsabilidade, todavia, minuciar os acontecimentos; cria que com o relatrio completo, uma vez obtido xito, ocuparia uma posio mais privilegiada na organizao. Era ms de fevereiro, poca de carnaval em 2010. A loucura, a confuso e a balbrdia carnavalesca passavam longe daquelas paredes, o que contribua para o xito de sua tarefa, seus objetivos. Teo adentrou a sala do mdico psiquiatra do S.M.P. com o crach no peito escrito visitante. Fbio recebeu-o com certa dose de entusiasmo e desconfiana, por se tratar de um suposto colega de profisso mais novo e tambm pelo assunto a ser discutido: o paciente do Quarto 239. Sem muitas delongas, depois de uma rpida apresentao, Teo incontinenti pediu autorizao para falar com o paciente. Fbio, por seu turno, apesar de no ter relutado ideia, fez questo de explicar certas coisas antes de permitir a entrada do colega; mal sabia que o verdadeiro motivo era outro, cuja necessidade e urgncia daquela simples visita no visavam estudos acadmicos. Ele balbucia coisas como fera comeou a explicar Fbio, um olhar professoral. s vezes dentes pontiagudos salivantes informou, enquanto anotava o nmero do quarto em um papel. E., como o chamaremos para preservar sua identidade, chegou em estado de choque, devo dizer. Coisas desconexas deu de ombros. Tambm sou um mdico, embora residente. Minha rea a psiquiatria, como bem sabe disse Teo, velhaco. Quando ouvi falar deste caso, sobre eventos envolvendo licantropia, achei um campo muito rico para estudos. Pensei que o fato de sermos colegas de profisso pudesse abrir 28. algumas portas. Enfim. Parece que ocorreu algo violento na Amaznia. Digamos uma carnagem disse, arqueando o sobrolho. Foi encontrado este livro com E. falou Fbio, mostrando algumas fotos tiradas no dia da chegada do paciente ao S.M.P. Estavam dentro de um envelope pardo, que por sua vez repousava intocvel dentro da ltima gaveta da mesa. E o que significa? perguntou Teo. E. no quis dizer respondeu Fbio No exatamente. No sei explicar, mas captei se tratar de algo mais impalpvel falou, com um pontode-interrogao na face. No este o termo exato. Bem, de sbito atinei o nome: Necronomicon deu de ombros. No fao ideia do significado, ignoro; tambm nada mais sei do caso. Eu me viro l dentro. O resto eu fao sozinho. A pesquisa, digo. Fbio conduziu Teo direto ao 239. Diante da porta com uma pequena janela retangular foi possvel ver o paciente de costas. Fbio fez questo de frisar que, se precisasse de ajuda, bastava chamar. Viria rpido porque ficaria prximo dali, no corredor. Teo no achava que precisaria de ajuda, saberia lidar com a situao a seu talante. Assim que ficou sozinho com E., o barulho do ferrolho indicou que a porta fora novamente fechada. O relato seria certamente algo que nunca se ouviu no mundo lupino.II. REVELAES Um ms. Aqueles dentes pontiagudos salivantes falou E., quebrando seu longo silncio. Os horrores. Horrores duplos, eu digo. A Amaznia. Naquele stio arqueolgico. Na Amaznia. Descobrimos o que aquela floresta tem... um portal. Para os Grandes Antigos! Eles viriam; passariam. Ns os invocaramos. Foi Sandro quem descobriu: o portal na Amaznia. Poderes vindos de antes da juventude da Terra. Antes da prpria Terra; do Cosmos como ainda no conhecemos. Y! Y. Clamaramos o retorno dos Old Ones; Nyarlathotep o mais rumorejante... Eu j falei sobre isso? Sobre ser Nyarlathotep o mais rumorejante? Onde estou? Teo, no? 29. Eu sei. Queramos o retorno de Cthulhu. Estvamos preparados para invoclos. Eu temi pelo resultado; fui o nico. Sandro me convenceu, coa ajuda de Miguel, convidamos Joca tambm. Ele era louco por natureza. He-He. Louco. Louco. Sandro, Miguel, Joca, Fabrcio. Edgar, o temeroso. Eu temi. Eu. Temi. Pelas nossas vidas; pela minha vida, minha sanidade! Foi um alvio ter sado daquele lugar falou E. batendo a mo na cabea. Alvio. Ter vindo para c. Mas inda escuto rumores. Aqui. Na cabea. Nyarlathotep. Foi apenas um contratempo. Oras! Apenas. Eu no tenho medo como voc pode imaginar. Voc sente. Eu sinto. Voc escuta? Eu escuto. Preparamos ainda em So Paulo nossa bagagem. Carregvamos algumas peas de roupas para o caso de rasgarmos a que vestamos. Dentro, levvamos o livro. O Necronomicon. Que espcie de medo voc acha que senti? Pergunta tola. Pelo que vi, a ansiedade pelo que iria encontrar. Confuso que no se apaga. Fomos dar no Aeroporto de Santarm, acho. Dali, estradas ruinosas, esburacadas, precrias. At o local determinado por Sandro. Vi nele obstinao. Fui a marca do receio naquele grupo, do medo. Depois do que ocorreu perdi completamente a noo da realidade; entrei em outra. Queria ter esquecido. Queria... Como queria. Mas cada dia que passa, cada hora, minuto, segundo... Tudo! Eu lembro. Eu quero esquecer. Eu lembro. S o que apagou de minha memria foi como cheguei aqui. Quanto ao resto... Eu j falei? Horror. Fria. Dentes. Havamos transposto o Rio Amazonas num barco alugado; quase nem cabamos dentro dele. Foi o que deu o dinheiro. No lembro a cidade em si; quando chegamos ao local, quilmetros de uma rea de extrao ilegal de madeira, preparamos o terreno, Joca nos guiava com a bssola. Cobrimos a pedra com a alfombra e comeamos nosso ritual. Y CTHULHU! Empunhei o Necronomicon, pronto para abri-lo. A esta hora a voz de Nyarlathotep vinha atravessando a mata fechada em derredor. O cu quis escurecer mais; ainda... ainda era dia? O tempo era estranho. Quanto tempo se passou? No sei. Minutos? No, eu no sei. Horas? Eu apenas estava l para despertar. Queria ver Cthulhu passar pelo portal... O que vi foi coisa feia. Coisa de outro mundo. Dos filmes, dos livros. De um lugar da imaginao. AH! Eu gritei... gritei. Ouvi os estalos, vi a maldita metamorfose. Fera. Os pelos. As feras. 30. Eu no sei nem fiz meno de perguntar a Sandro como ele soube daquele lugar, da pedra, um monlito inteirio em meio mata. Talvez a marca que ele tinha, um queloide bastante grosso na palma da mo, explique. Ele sempre disse que o sangue o elo; eu nunca entendi. Teo, no? Voc sabe do que estou falando? Sabe de Cthulhu? Dos Grandes Antigos? Da Amaznia? Deste ltimo com certeza. Sabe. No sei como, mas sabe. Estvamos l para abrir o portal e achei ter visto a cauda de Dagon no Amazonas. Parecia um sinal. De repente a aproximao dos homens-peixes... Nunca entendi direito a relao. No. Foi apenas impresso; o livro ainda estava fechado. Mas na mata eles j estavam prontos. As Crias respondentes. Y! Era aquilo e nada mais. Deveria, pelo menos. Sandro estava certo que o portal se abriria. No cu ou no altar, no importava. Ele mesmo se doaria aos esfaimados Seres que haveriam de ser despertos. O sono. A letargia daria lugar a uma nova realidade, porque foi s com o sono Deles que ns, humanos, sobrevivemos e proliferamos e vivemos. Daramos de volta o que era Deles por direito; esta era a nossa ideia. A ligao. O Necronomicon era a chave; nele estava o encantamento, o chamamento csmico do no-tempo. Me recuso a responder qual era o contedo do livro. No confio. No. A tarefa era despertar... E esperar. Pelo resultado. E baseado nos rumores e cicios de Nyarlathotep, seria imediato. Seria. Dentes. Dentes pontiagudos salivantes. Sandro comeou, diante da pedra, o ritual. Havia pousado uma faca que trouxera sem que soubssemos; pelo menos eu no sabia. Fui o primeiro a escutar, mais ao fundo e quase imperceptvel em relao ao som vindo de Nyarlathotep, estalos na mata. Ele recitou. Y CTHULHU FTAGHN. Do cu o guincho de Yog-Sothot escutamos... Eu era o nico a continuar a ouvir os estalidos anmalos na mata. Sem chances de serem os Mi-Go ou os TchoTcho. Sandro me admoestou. Me havia dispersado um pouco com os barulhos e acabei esquecendo de fazer minha parte. Vamos. Disse ele. Vamos. Miguel. Joca. Fabrcio. Fizeram o mesmo, s que com o olhar. Eu abri o Necronomicon, as pginas... As pginas j estavam marcadas. O sangue. Eu falei que o sangue o elo? Pois ento. HE. HE. O elo. O elo. Joca foi quem pegou a faca. Eu vi nos olhos de Miguel uma ponta de desespero. Sandro sentou na pedra coberta pela alfombra. Acho que no falei sobre o cheiro do cho mido e apodrecido que ainda sentamos... Mata 31. fechada... Muito calor... No sei exatamente como tudo aconteceu, porque, afora o fato de eu ter sido o nico a escutar algo anmalo na mata, foi tudo muito... Rpido. Rpido! Mas foi possvel ver perfeitamente, pedao por pedao, sangue por sangue, o que ocorreu. Sandro vagarosamente deitou. Eu recitava palavras profanas e Miguel posicionava a faca sobre o peito do desmiolado Sandro. Vez ou outra ele a balanava levemente, quase solta na mo. Quando cheguei na parte do chamamento, os olhos de Miguel reviraram e suas mos cravaram a faca com fora, movidas por uma fora que no se explica. Incontinenti Joca e Fabrcio, no mais eles, vez ou outra gemiam Y, esclera dos olhos tambm a mostra. Aquele era nosso objetivo a despeito de meus medos internos. Eu senti uma agitao cada vez maior dentro daquela mata. Fui o nico que no entrou em transe porque no quis o sinal impresso em minha pele. De todos eles, menos em mim ps a mo no peito ao falar , vi o sinal da Elderich. Brilhoso. Ofuscante. E dos cus, alm das vozes e cicios e sussurros, a presena maior dos Grandes Antigos. Aquela era a apoteose de Cthulhu! A Amaznia nunca vira coisa igual! De toda forma algo aconteceu que tambm a Amaznia nunca viu. Errado? No importa. Aconteceu e somente eu vi. Vi talvez porque em meus olhos refletiam meu medo interior. Deveria ter aceitado o sinal, afinal. Sandro mal conseguia respirar, estava praticamente morto quando o ataque ocorreu. Aqueles rudos na mata, eu sabia que algo estava errado. Somente eu escutei os rudos. Eles aumentavam de intensidade. Os sons, os estalos, o barulho da recomposio corprea. Eu vi. Ouvi. Como se ossos fossem esmagados; ou melhor, quebrados sem nem mesmo ficarem fora do corpo. No era os Mi-Go. Os Tcho-Tcho. Eu sabia que no. O ataque foi repentino. Aquelas feras. Dentes pontiagudos salivantes. Os corpos; os pelos dos corpos! Eram malditos cachorros grandes. Focinhos avantajados, dentes pontiagudos. Dois deles, pelagem cinza. Eu... eu me acaapei a um canto enquanto... O barulho dos ossos triturados. De meus amigos, os ossos. O ataque foi cruel. O primeiro abocanhou Miguel, diante da pedra que Sandro repousava morto; arrancou o brao dele. O segundo pulou em cima de Joca. Pulou. Eu disse que pulou. Pulou. Com uma fora animal E. se encolheu um pouco mais. Dentes salivantes, pontiagudos... E os pedaos dos corpos de 32. Miguel e Joca no meio daqueles dentes pontiagudos e salivantes. Muito sangue. Vi que eles estavam entretidos demais coa caa. Me aproximei da pedra usada como altar. Segurei firme o Necronomicon. Perdido, voltei minha posio de antes. Eles, mortos. Aqueles malditos lobisomens. O ataque. Muito sangue; aquelas garras que prendiam os corpos que devoravam com uma fria inumana. A prpria fria, no sei se irracional, de bestas das selvas brasileiras. Animais que faziam aquilo por prazer. Eu vi. Nos olhos. Deles. Os brilhos daqueles olhos lupinos. Possudos por irracionalidade danavam uma dana macabra. O ataque em si, as mordidas, a saliva. As bocas fedorentas. Os sons dos corpos sendo devorados. Os barulhos daquelas bestas sobrepujando os do rumorejante Nyarla. Maiores em meus ouvidos do que os vindos do cu. Aquele banquete. Eu... no sei. Talvez no me viram. No. Me viram sim. Em minha cabea um turbilho de coisas passava. Era tanto medo que j no sabia do que mais eu tinha medo. As bestas com pelos; as garras. Quando todos haviam sido mortos... Sandro, mesmo morto, foi igualmente devorado; experimentei o que talvez tirou de mim o pouco de sanidade. Acho que j estava sem, por isso os escutei em minha cabea. Quando todos haviam sido mortos por aqueles lobisomens, ouvi deles um uivo que penetrou meu corao e ficou gravado no fundo de minha alma para meu crebro nunca mais esquecer. Que eles existem, os lobisomens. Os lobisomens, eles existem; acredite. Um uivo glido. Penetrou fundo em meu corao e na noite emprestada que se havia formado para o retorno dos Grandes Antigos. No sei. Dizer que espcie de uivo, no sei. Se ouvi ou se estava em minha cabea fora do juzo tido como normal, nunca saberei. Apenas fiquei acaapado. Dentes pontiagudos salivantes. Dentes... feras. Lobisomens! E o ataque. Como aqui cheguei? Dentes pontiagudos salivantes. Eu no quero mais ver E. disse, balanando um pouco o corpo acaapado no canto, imitando aquela noite. No quero. Isso foi tudo. Do ataque, pelo menos. Feio; muito feio. Os lobisomens, feios. Um deles se metamorfoseou em humano. Eu o olhei sem querer olhar. Aquele que devorara Joca. No sei mais de Fabrcio, talvez foi devorado igual aos outros... Eu no vi, no quis ver. Aquele que devorou Joca. Uma... mulher. Nua. Loura, forte. A mulher-lobo metamorfoseada olhou para mim. Olhos azuis 33. reluzentes, aqueles olhos profundos reluzentes. Ela... ela me disse. Me falou! Sem voz. Em minha cabea, sequer moveu os lbios sujos de sangue. Corpo sujo do sangue de meus amigos. Aqui! Aqui! Em minha cabea. A voz dela, ainda em minha cabea. No vamos parar. At o ltimo de vocs. No vamos. Uma ameaa em minha cabea; uma voz doce, mas cruel. Na sequncia ela voltou ao corpo lupino; os pelos. As garras. Voc no acredita, no? Fera. Dentes pontiagudos salivantes. Mais nada. Assim como chegaram, foram. Hipnotizados. Os dois. Lobisomens; na forma. No lembro E., ofegante, quase indo s lgrimas pela lembrana. Acho que foi porque eu carregava o Necronomicon... Algum encantamento... Me salvou... No sei. Como cheguei aqui, no lembro. Eu senti quando voc chegou. Quem... Agora entendo... Quem? Voc. Agora eu sei... Voc um deles! A fera! As feras! Saia daqui! O ataque. Dentes pontiagudos salivantes. Muito sangue. Sai. Sai! Eu sei o que voc ! No abriu a boca um s instante para falar. Sai lobisomem! E., agressivo, gritou, cuspindo saliva; uma careta de horror no rosto. Sai. Sai. SAI! E. continuou aos gritos, encolhendo-se mais, cabea encaixada nos joelhos. Fera. Fera. Presas. Os dentes. Dentes pontiagudos salivantes e sangue. Sai!III. REPORTE GREEN DEATH Tudo leva a crer que a testemunha de fato encontrou nossos agentes Berserkr e Fnix. O nico sobrevivente sustenta que chegaram Amaznia para a prtica de rituais, a princpio nada que fosse ofensivo regio seno a eles prprios. Nossos colegas da Green Death acabaram por confundir aquele grupo de jovens suicidas aos desflorestadores na prtica ilegal de extrao de madeira. Talvez o fato de terem-no deixado vivo esteja ligado ao nefasto livro, o tal Necronomicon. No possvel comprovar, todavia do livro apenas uma foto foi possvel ver, o artefato sumiu depois do ocorrido. No sabido exatamente se foi ou no usado algum encantamento; convm, apesar de algo menor, considerarmos as possibilidades sem, contudo, as contestar. Tal reporte comprova, sem deixar dvidas, que o grupo da testemunhasobrevivente no foi o responsvel pela morte de Berserkr tampouco pelo estrago da misso passada. E a despeito desta confuso, nada atravancar 34. nosso caminho. Nenhum empecilho cessar a continuao de nossas atividades. O ideal no feneceu. Nossa batalha continua.~*~ Contato com o autor: [email protected] http://leonnunesescritor.blogspot.com 35. BRIGA DE CACHORRO GRANDE (Alastair Dias) O homem encarou a bela jovem que entrava na lanchonete. Era capaz de detectar aquele odor peculiar dos lobos por baixo do perfume que ela usava; uma mistura de vida e de artificialidade, de um esprito selvagem preso no corpo de uma mulher sedutora e independente. Ela no era como os outros, abenoados com o dom de mudar de forma, de ser uma criatura to perfeita que poderia decidir sobre a vida dos homens que cruzassem seu caminho agitado. O cheiro dela era de impureza, de hormnios to humanos quanto os daquelas pessoas que estavam ali ao redor, to frgeis e fteis quando o mais insignificante dos seres rastejantes. Captados pelo raro espcime, traos psquicos fortes, alarmados, frases que no eram de sua mente, apesar de a garota se esforar para cont-los em sua mente. Ele sorriu, desviando o olhar para a rua movimentada l fora, arranhando de leve a mesa de madeira, escutando os passos da mega a se aproximar. Era capaz de detectar as batidas cardacas aceleradas; ela o temia tal como uma presa teme um caador, mas havia certa confiana, algo mpar at aquele momento para sua experincia com aquela raa orgulhosa de sua natureza. Algo lhe proporcionava segurana, e era por isso que estava ali. O primeiro encontro com Cassandra foi uma semana antes, durante um encontro entre ele e o Green Death. Se no fosse o pedido dela, aqueles trs licantropos estariam mortos por ousar se meter em sua rea de atuao. Um brilho em seus olhos azulados o deteve, e aquela splica mental foi to intensa que o corao do homem-co se condoeu de alguma forma; farejando-a antes de partir, dedicou algum tempo a observ-la. No tardou para que ele quisesse conversar com ela. Encontre-me na lanchonete perto de um canil, daqui a dois dias!, pediu ele, ao passar pela mega numa manh. V sozinha ou matarei voc e quem mais a acompanhar! O convite foi aceito. Sente-se, por favor! pediu o homem, cuja cabea careca reluzia pela luz da lmpada do estabelecimento, fitando-a com gentileza. Juro que no mordo moas lindas. 36. Seu sorriso foi estranho e assustador, mas Cassandra no identificava qualquer sinal de segundas intenes. Hesitou um pouco, mas atendeu ao pedido. Por que implorou para que eu no matasse seus companheiros, que me atacaram naquela rinha? surpreendeu-a, pondo as mos grandes perto das dela, que as recolheram para junto de seu busto. Era meu direito natural revidar e me vingar, contudo voc me impediu. Por qu? Eu o impedi? Sim. Eu no pude atac-los, e tive de sair correndo. Voc me impediu de fazer aquilo que venho fazendo h anos com quem se mete em meu caminho. A jovem ajeitou os fios negros que caam sobre seus olhos, surpresa por aquela revelao to brusca vinda de uma criatura desconhecida e perigosa. Os relatrios dos encontros com aquele monstro que se denominava Licurgo eram todos repletos de sangue e crueldade; mortes de homens-lobo ocorriam quase sempre, e quem escapava era mutilado sem piedade, servindo de aviso sobre a fora descomunal e descontrolada do nico espcime de uma nova raa agressiva e indomvel, que nutria dio tanto pelos humanos quanto por aqueles que eram seus semelhantes. Eu apenas queria que no os matasse... s isso respondeu ela, com a voz suave. Muitos clamaram para viver, e eu os abati sem pestanejar. No me envergonho em ter matado mulheres mais poderosas do que voc, as quais eu nunca estuprei, ao contrrio do que pensam os da sua espcie. No sou um monstro. Voc, entretanto, salvou todos eles. Consegue entender o motivo de eu a querer hoje aqui? Cassandra balanou a cabea em negativa, sem compreender aquela conversa. Sempre achei os lobisomens to parecidos com os homens que me distanciei justamente de quem era to prximo a mim comeou ele, com seriedade. Matei muitos de vocs sem perguntar seus motivos, suas causas; eu era apenas levado pelo desejo de provar ser o melhor, ser acima de tudo aquilo que eu odiava, de pertencer raa humana. Compreende? 37. Acho que sim respondeu a garota, buscando localizar nas ondas mentais do interlocutor sinais de verdade ou de mentira. Ensine-me sobre vocs, sobre quem so e como surgiram. Quero entender quem eu sou e o motivo de ser assim, uma fera meio homem, meio co. Por favor, me ajude! Havia sinceridade naqueles olhos castanho-avermelhados. Nem lembrava a besta to robusta daquela madrugada que quase assassinou o seu irmo; estava ali um homem confuso quanto ao belo dom dado pela vida, uma ddiva que o tornava diferente, e ainda assim impuro. Era um co assustado entre homens e lobos, contudo disposto a se abrigar junto aos seus parentes puros. Como posso ter certeza de que no est me enganando? questionou ela, olhando-o com desconfiana. No pode respondeu Licurgo, levantando-se com firmeza , mas juro que no a matarei ou a seus companheiros num prximo encontro, pois certo de que nos veremos novamente. Ele revirou o bolso da cala jeans e retirou algumas notas amassadas, pondo-as sobre a mesa. Obrigado por ter vindo, Cassandra concluiu, antes de se afastar. Foi um prazer imenso conhec-la. A mega ficou surpresa com aquela atitude. E sabia que havia perdido uma oportunidade nica e irrecupervel. Abaixando a cabea, pensou nas longas explicaes que teria de dar aos seus superiores. *** esquerda, cinco homens drogados, avisou Cassandra, fazendo o irmo cessar os passos largos e silenciosos. O grande homem-lobo de pelos castanhos e grossos moveu-se com sutileza pela sombra, seguindo a direo indicada pela irm, cujo poder teleptico era alm do normal entre os megas, conseguindo ser precisa at em mapear quantos humanos estavam ali. No toa, as misses das quais participava eram aplaudidas por aqueles holandeses burocratas, e tal habilidade preveniu o grupo quanto ao ataque do homem-co meses antes. Ele andou sobre as quatro patas, atento ao ambiente, afinal a jovem no poderia prever aes, apenas alertar. Esgueirou-se com agilidade, enxergando 38. os alvos mencionados pela companheira; detectou os odores de tabaco, cocana, maconha, urina e suor em quantidades to altas que causavam repulsa. Aguardou o momento oportuno, saltando sobre os dois capangas que estavam mais perto da moita alta em que se escondia; suas garras foram precisas na degolao, e um movimento para frente estripou o terceiro, que tombou de joelhos tentando conter as vsceras de escapar pelos cortes que iam de um lado a outro do corpo, horizontalmente; o quarto foi abocanhado pela cabea, que explodiu em uma massa sangrenta de ossos quebrados e miolos; e o ltimo teve o pescoo torcido como se fosse uma galinha que serviria de almoo numa data festiva. Oriente os demais!, ordenou o lder da misso para a garota dentro de um jipe, quilmetros antes do local, largando os corpos mutilados e subindo a parede adjacente num pulo fenomenal. Certo, respondeu Cassandra, antes de passar as coordenadas aos outros dois agentes que seguiam para a rinha em direes opostas. Ela estava explicando para a mulher-lobo como chegar a um ponto em que um dos capangas transava com uma viciada que vendia seu corpo em troca de drogas, quando um rastro forte e agitado a fez olhar instintivamente em volta. Nenhum sinal de movimentao. Ele est aqui, informou imediatamente, direcionando seus pensamentos aos trs companheiros em campo. Tomem cuidado! Era evidente que a criatura estaria em uma rinha onde ces de todas as raas se enfrentavam para o divertimento das pessoas sdicas que tinham muito dinheiro. Aquela fazenda era bem situada, distante da cidade, longe de olhos indesejados; o proprietrio tinha muitos amigos na prefeitura e na polcia, o que permitia fazer o que bem entendesse, desde trfico de drogas a ponto de prostituio, de rinha de animais a comrcio clandestino de espcies raras muitas vindas de outros pases para colecionadores e caadores que pudessem pagar. Ali era um terreno que interessava tanto ao Green Death quanto a Licurgo. Os sinais mentais dos quatro em ao eram fortes, entretanto somente trs estavam amedrontados pela presena do intruso. Com concentrao, Cassandra conseguiu contatar o homem-co, questionando suas intenes. 39. Jurei no matar voc e seus companheiros, retrucou ele, enquanto escalava com rapidez uma rvore alta e farejava melhor o ar, localizando os alfas ativos. Costumo cumprir meus juramentos. Seus olhos ferozes vasculharam toda a rea, fixando-se onde as luzes eram constantes. Latidos, uivos, rosnados e a gritaria bestial de seres humanos eram ouvidos. Emitiu um rosnado baixo, saltando para o cho, caindo de uma altura de vinte metros apenas sobre as patas traseiras musculosas. O sangue ardia em suas veias. Nada de ferrar tudo!, orientou a mega, interpretando as ondas psquicas que ele espalhava sem o mnimo controle. Nossa existncia deve ser mantida em segredo. Eu sei resmungou Licurgo, ao mesmo tempo em que enviava sua resposta. Eu sei. Correndo com fria, surgiu entre trs homens bbados que gargalhavam de forma pattica enquanto tentavam urinar. Sua bocarra arrancou o brao de um deles, que urrou de dor, sob os olhares surpresos dos outros; ainda mastigando aquele pedao generoso, agarrou os dois pelos pescoos, cravando as garras negras e afiadas sem misericrdia, estalando os ossos e os encarando com um prazer sdico. Estraalhou suas gargantas, largando-os apenas quando engoliu uma poro satisfatria de carne. O som da msica eletrnica invadiu seus ouvidos quando a ira diminuiu. Pondo-se de quatro, moveu-se cautelosamente rumo para o casebre perto do rio; ali ficava todo o equipamento que produzia a eletricidade da fazenda. Valeu a pena aquela visita investigativa durante o dia sob o pretexto de ser uma pessoa em busca de trabalho, embora as splicas dos animais presos quase o fizessem atacar logo e pr fim a tudo aquilo. Onde esto seus amigos?, perguntou para a mega, conforme se dirigia para o local em que estava o gerador de energia. Eu no consigo detectar os pensamentos deles. No confio ainda em voc. Ainda acha que quero mat-los? Voc j tentou isso uma vez. E tentaria de novo, quando vocs chegaram meia hora atrs, num jipe, e minha mente estava bloqueada. Eu estava sobre um galho, observando. Vi 40. quando aquele sujeito magro se insinuou para voc e sei o que pensou quando identificou os pensamentos e sentiu os hormnios dele. Eu poderia t-los matado facilmente em qualquer momento, mas preferi no fazer isso. Cassandra arfou, pega de sobressalto. Ento, ainda acha que quero mat-los como farei com cada humano que encontrar esta noite?, indagou ele, enquanto socava o peito de um homem armado com uma carabina, afundando seus ossos torcicos. Tomando a arma da vtima, golpeou na cabea um que saiu do casebre que vigiava, nocauteando-o. Entrando na casa do gerador, desviou de um disparo com destreza e arremessou uma ferramenta no meio da testa do atirador, que caiu com o objeto transpassado em seu crnio, estremecendo. Ele comeou a destruir a fiao, desligando toda a energia eltrica. Sem perder tempo, saiu dali, seguindo em sua nsia por sangue. O local em que ocorriam as lutas de ces era no outro extremo, num casaro reformado especialmente para aquela finalidade. Era um espao amplo, comportava at mil pessoas ao redor de uma rinha circular cercada por grades. No piso inferior, como um calabouo, estavam os animais e os treinadores; seis portinholas e uma porta maior davam acesso ao ponto em que as pobres criaturas se enfrentavam, sendo que as primeiras eram exclusivas aos combatentes e a outra ao responsvel em retirar o derrotado, que em geral era morto e incinerado. Os trs agentes do Green Death receberam a mensagem da mega com desconfiana, pois era muito suspeito algum com um histrico de assassino de homens-lobo agora querer ajudar. Trocaram breves informaes entre si, tomando cuidado para que a criatura no soubesse sobre o que conversavam. Agiriam juntos, preparados para qualquer trapaa que pudesse acontecer. Ele est indo para a rinha, avisou Cassandra, assim que o homem-co reportou seus passos. O local est sem eletricidade, o que ir nos favorecer por um tempo. Licurgo rosnou e uivou como um co raivoso, atiando os cachorros cativos, que o imitaram. Foi uma algazarra ensurdecedora e medonha, que fez os frequentadores se entreolharem com hesitao. Alguns disparos bastaram para todos correrem para fora, apavorados. 41. De um lado a outro, como anjos da morte, as feras espalhavam corpos e sangue, desmembravam e estripavam, escapando dos tiros como se fossem fantasmas oriundos do inferno, bebendo e comendo indiscriminadamente. O horror de olhos desacostumados com aquelas bestas hbridas logo era substitudo por outro, o de ter parte de seus corpos arrancados por garras e presas furiosas; os mais afortunados, contudo, morriam sem conhecer seus assassinos sobrenaturais, sem testemunhar os olhos rasgando as trevas. As pessoas fugiam em carros e motocicletas, apenas ouvindo gritos de ordem e rosnados ferozes, disparos e gritos horrendos de quem encontrava seus destinos de maneira grotesca. Os homens-lobo e o ser canino se encontraram dentro do casaro, encarando-se como oponentes. Todos cobertos de sangue e vestgios de carne e entranhas, ofegantes e poderosos. Trs lobos, um castanho e dois negros, e um co, muito semelhante a um rottweiler, embora maior do que os seus parentes. Inimigos naturais que se viam depois de algum tempo ou raas distintas que possuam uma origem comum? *** Ningum no Green Death acreditava que o famigerado Licurgo estava na sala com Loki, conversando calorosamente sobre sua unio ao grupo. Por precauo, seis agentes estavam na sala de espera, aguardando qualquer sinal de ameaa; entre eles, a responsvel por aquela faanha, Cassandra, cuja habilidade extraordinria de telepatia com licantropos e humanos se mostrou capaz de domesticar aquela fera canina feita de msculos, fria e desejo vingativo. Na manh em que o grupo retornou com Licurgo, os olhares foram inevitveis, e a mega pde identificar cada rastro mental. dio, surpresa, admirao, frustrao, decepo, curiosidade, dor. Eram tantas emoes reunidas que ela precisou bloquear sua mente para aquilo tudo ou enlouqueceria; era como se a presena do homem-co despertasse neles instintos primitivos e selvagens, contaminando sua natureza lupina, aquilo que eles tanto valorizavam. Mas, para o homem loiro e sorridente, que os parabenizou pela misso to bem executada e a chegada do provvel integrante da causa, havia apenas 42. motivos para comemorar. Ele cumprimentou um a um, e seu aperto de mo foi firme quando tocou a mo grande do espcime raro. Ento, voc o quase lendrio Licurgo, o caador de lobos? questionou o lder das operaes da organizao em terras brasileiras, com um sorriso desdenhoso. E presumo que seja voc um deus da mentira retribuiu o careca, sem emitir qualquer expresso que demonstrasse estar brincando , afinal, voc se considera digno de ser chamado de Loki, no? Houve alguns risinhos, mas os olhos verdes e sombrios de Loki os abafaram. Conhece algo de mitologia nrdica? estranhou ele, ainda mantendo o sorriso, embora com resqucios de irritao. De trapaceiros e mentirosos tambm retorquiu Licurgo, sem alterar seu tom de voz ou o modo de pronunciar aquelas palavras audaciosas. Um esgar brotou da face do homem, e muitos acharam que ele avanaria contra aquele atrevido. Contudo, com certa calma, pediu que o convidado o acompanhasse at sua sala, onde acertariam alguns detalhes cruciais. E j havia se passado meia hora desde que ambos se fecharam; parecia que a conversa estava sendo produtiva e interessante, pois nenhum membro, alfa, beta ou mega, detectou o menor sinal de estresse ou alterao que representasse alguma desavena, embora houvesse um aumento de hormnios e elevaes de pensamentos, mas to confusos que era impossvel distinguir a quem pertenciam. Quando saram, foram observados com expectativa por todos, que no puderam disfarar a curiosidade quanto ao resultado de toda aquela novela que se tornou os encontros e confrontos com aquele espcime h anos. Muito se falava entre os licantropos a respeito do cachorrosomem, como ele pejorativamente passou a ser chamado por quem desdenhava de sua natureza canina. Bem, quero que sadem o agente Licurgo! exclamou Loki, com orgulho no tom de voz, tocando no ombro esquerdo daquele homem to alto e forte, que emitiu um som gutural baixo e mantinha-se srio. Quero que vocs mostrem a ele o que for preciso, preparem-no quanto ao regulamento e o treinem para que possa estar apto para as misses futuras! 43. Parabns, Licurgo!, pensou Cassandra, concentrando-se para que apenas ele recebesse a mensagem. Fiz por voc, moa, foi tudo o que o novo integrante respondeu. Os dias seguintes foram de trabalho rduo para os treinadores. No tanto por terem de ensinar tudo ao novato, que apresentava dominar como poucos seus pensamentos, isolando-os a ponto de que ningum mais acessasse sua mente, exceto quem ele permitisse; a mega que o recrutou era capaz de sondar parte de todo aquele oceano de recordaes e vontades, mas era mais complicado decifrar e repassar ao seu superior, que parecia cada vez mais fascinado com os avanos do homem-co. O problema maior da criatura era controlar tanta impulsividade, o que explicava os ataques cruis e sangrentos aos agentes do Green Death quando se encontravam. Com a ajuda certa, no decorrer do treinamento, ele foi aprendendo sobre a hierarquia, a obedecer ordens e a agir em prol do grupo. Passeando pela madrugada atravs de ruas desertas e matas densas, onde caava pequenos animais com a alcateia, Licurgo foi adquirindo os hbitos lupinos, voltando ao estado puro e original. Entretanto, o motivo para sua aceitao em ser recrutado ainda era um mistrio que precisava ser desvendado, afinal a suspeita ainda pairava sobre ele. Os lobos so superiores aos homens falou um dos agentes, no refeitrio, para trs amigos, quando a jovem mega e o recruta passaram por perto e aos ces tambm, claro. Todos riram, exceto os dois que iam transitando com suas bandejas. Ignore-os!, pediu ela, percebendo o olhar frio do outro para o quarteto. Sim, vou ignorar esses filhos da puta que se borram de medo quando me veem como realmente sou, concordou o homem-co, permitindo aos quatro engraadinhos captar seus pensamentos. Um deles fez meno de se levantar, mas ao encontrar os olhos provocativos do outro, sentou-se de novo. Eles so uns idiotas falou Cassandra, quando eles se sentaram ao redor de uma mesa desocupada. A maioria aqui tem orgulho de ser homemlobo, sabe? Eu, infelizmente, nasci uma mega, para a desgraa de meus pais. Isso o que a torna diferente desses patetas, moa consolou Licurgo, quando viu os olhos azulados dela se encherem de lgrimas. Se voc fosse 44. uma alfa ou uma beta, eu a teria matado h muito tempo. Mas, como nunca conheci algum assim, uma mega, dei uma chance a seu povo. E o que tem achado de ns? Mudou algo em relao ao que pensava sobre a gente? Bem comeou ele, cortando um bife com pacincia , h muito lobinho metido aqui, mas me parece um bom grupo, bem organizado e treinado para todos serem os melhores. Apenas no sei se me aceitariam como sou. Por que acha isso? Ele olhou em volta, fixando o olhar no quarteto que se mostrou preconceituoso. No acho concluiu. Tenho certeza, moa. E levou o pedao de carne mal passada boca, mastigando-o com calma. *** Licurgo agarrou o infeliz pelo pescoo, quebrando os ossos como se fossem gravetos secos. Virou-se para o homem encolhido num canto da sala, tremendo de medo e balbuciando palavras sem sentido. Andou at ele, abaixando-se e encarando-o com seriedade. Bom dia, doutor sussurrou, carregando a voz com um tom rouco e animalesco, apesar de estar na forma humana. Por que o medo de mim? Do lado de fora do laboratrio, os agentes do Green Death destruam todos os equipamentos, libertando os macacos, gatos, ces, ratos e pssaros que serviam de cobaias. Pelos corredores havia corpos mutilados e muito sangue nas paredes; o trabalho estava completo ali. Um pouco antes, na forma humana, aquele homem alto e careca matou com a fora bruta seguranas armados, numa demonstrao agressiva de que era uma mquina natural perfeita, permitindo aos companheiros de misso adentrar o prdio sem serem descobertos. gil e mortal, socava, chutava, nocauteava e fraturava com uma facilidade impressionante, e um dos alfas na misso parou por um instante vendo-o derrubar dois homens com golpes de capoeira e afundar seus peitos com cotoveladas. Voc gosta disso, no? De triturar ossos? 45. a graa de ser um predador no topo da cadeia!, riu o recruta, antes de correr para uma sala, onde ho