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  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA

    A Fbula na Literatura Portuguesa: Catlogo e Histria Crtica

    Projeto avaliado e financiado pela FCT PTDC/CLE-LLI/100274/2008

    CAPTULO 9

    A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA: HERANAS E METAMORFOSES

    PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

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    CAPTULO 9

    A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA: HERANAS E METAMORFOSES

    As each poem is said to have its own poetics, so has each fable its own ground of justification.

    (Blackham, 1985: 225)

    Tendo percorrido praticamente todas as culturas humanas e pocas histricas, a

    fbula constitui um gnero de origens e fronteiras incertas. A sua presena ubqua no

    imaginrio potico ocidental ajuda a compreender o emprego consensualizado do termo,

    mesmo se qualquer tentativa de circunscrio tipolgica parea esbarrar, no caso da

    fbula, com uma prtica literria esquiva a todas as categorizaes. No diagnstico

    certeiro de Hegel, La fable est comme une nigme qui serait toujours accompagne de

    sa solution (Esthtique, II).

    Com efeito, desenhando um arco diacrnico que se estende da antiguidade clssica

    at contemporaneidade, a fbula tem suscitado incontveis exegeses e classificaes,

    raramente unnimes e nunca definitivas, sobretudo em virtude das constantes mutaes

    do gnero e da abundante mas nem sempre iluminadora teorizao que em torno

    dele tem sido produzida.

    A natureza hbrida e polimrfica que, desde as suas primeiras manifestaes, o

    gnero fabulstico tornou patente repercute-se, desde logo, na ambiguidade que parece

    afetar a prpria designao de gnero na qual confluem vrias acees.

    Etimologicamente, o termo fbula deriva do substantivo latino fabula, ae (narrao,

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    histria ou conto), cuja raiz se encontra no verbo fari (falar, contar histrias, narrar)

    (Gaffiot, 1934:646), o que permite, desde logo, consider-la como une prise de parole

    (Bassy, 1994:843), isto , como uma revendication du pouvoir de la parole contre une

    situation de fait (ibid.).

    Num verbete consagrado ao gnero, Gabriella Parussa, associando a fbula a

    qualquer enunciado oral ou escrito, bem como arte de inventar histrias e a essas

    prprias histrias , atribui-lhe dois sentidos distintos: por um lado, o de esquema geral

    da narrao, ou seja, le rcit pris indpendamment de sa ralisation particulire dans

    une oeuvre (sujet ou discours) (Parussa, 2002: 213); por outro, em estreita articulao

    com o seu estatuto de vasto thesaurus de narrativas colhidas numa ancestral tradio

    oral, o de mise en scne danimaux, dtres inanims ou dhommes dans un rcit

    gnralement bref qui renferme un enseignement moral, et appel aussi apologue

    (ibid.).

    Numa primeira aceo, portanto, a fbula designa a histria ou a concatenao de

    aes que permitem conformar uma especfica dispositio narrativa. Sob a designao de

    mythos (o termo grego correspondente), Aristteles define-a, na sua Potica, como a

    composio dos actos", considerando-a um dos seis ingredientes estruturais da tragdia,

    em conjuno com o carter, a elocuo, o pensamento, o espetculo e a melopeia

    (Aristteles, 1994: 111). justamente neste sentido que os termos fabula ou mythos

    sero reclamados pelos formalistas russos para denominar o conjunto de

    acontecimentos comunicados pelo texto narrativo, representados nas suas relaes

    cronolgicas e causais (Reis, 1991: 151), por contraponto com a intriga que implica a

    representao dos mesmos acontecimentos segundo determinados processos de

    construo esttica (ibid.). Nestes termos, a fbula corresponde ao material pr-

    literrio que vai ser elaborado e transformado em intriga, estrutura compositiva j

    especificamente literria (ibid.). A fbula representa, pois, as aes da narrativa na sua

    sucessividade diacrnica, enquanto que a intriga se reporta ao domnio da histria

    artisticamente reconfigurada. luz destas premissas que deve, assim, entender-se a

    definio de fabula proposta por Umberto Eco que recupera, nos seguintes termos, a

    vieille opposition nonce par les formalistes russes entre fabula et sujet (Eco, 2010:

    130):

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    La fabula, cest le schma fondamental de la narration, la logique des actions et la syntaxe des

    personnages, le cours des vnements ordonn temporellement. Elle peut aussi ne pas tre une

    squence dactions humaines et porter sur une srie dvnements qui concernent des objets

    inanims ou mme des ides. Le sujet, cest en revanche lhistoire telle quelle est

    effectivement raconte, telle quelle apparat en surface, avec ses dcalages temporels, ses sauts

    en avant et en arrire (anticipations et flash-back), ses descriptions, ses digressions, ses

    rflexions entre parenthses. (ibid.:130-131)

    Num primeiro sentido, a fbula designa, portanto, a sequncia de aes que

    compem a diegese. Convm, contudo, reter a distino entre a fbula como

    componente estrutural da narrativa e a sua especfica codificao enquanto gnero

    autnomo. , naturalmente, esta segunda aceo a que de maior pertinncia se reveste

    no mbito deste estudo.

    na Retrica de Aristteles que ocorre a primeira definio da fbula considerada

    como gnero retrico, entendendo por retrica a capacidade de descobrir o que

    adequado a cada caso com o fim de persuadir (Aristteles, 1994: 48). Neste sentido, o

    Estagirita prope-se elencar diferentes provas, tendo em vista a persuaso de um

    auditrio, entre as quais arrola o exemplo ou induo retrica (raciocnio por induo)

    e o entimema ou silogismo retrico (raciocnio por deduo) (ibid.: 50). Como a

    designao sugere, o exemplo (do latim exemplum e do grego paradeigma) constitui um

    caso particular que o orador apresenta perante o auditrio e a partir do qual se induz

    uma verdade geral: Quando os dois termos so do mesmo gnero, mas um mais

    conhecido do que o outro, ento h um exemplo (ibid.: 54). Aristteles aponta duas

    espcies de exemplo: os reais (extrados de factos histricos ou mitolgicos) e os

    fictcios (inventados pelo orador). Nesta ltima categoria se incluem a parbola e a

    fbula:

    H duas espcies de exemplo: uma consiste em falar de factos anteriores, a outra em invent-los o prprio orador. Nesta ltima, h que distinguir a parbola e as fbulas, por exemplo, as fbulas de Esopo e as Lbicas. (ibid.: 147)

    O autor da Retrica salienta ainda o valor probatrio-demonstrativo das histrias

    inventadas (fbulas) na exemplificao da tese e na substanciao dos argumentos do

    orador, com vista a uma mais eficaz persuaso do auditrio: As fbulas so

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    apropriadas s arengas pblicas e tm esta vantagem: que sendo difcil encontrar

    factos histricos semelhantes entre si, ao invs, encontrar fbulas fcil (ibid.: 148).

    Ora, ao reconduzir o gnero ao terreno da retrica e ao relevar o seu valor

    argumentativo, bem como a sua funo perlocutria, esta definio inaugural de fbula

    cauciona a precedncia do seu ethos comunicativo e da sua vocao perlocutria sobre o

    argumento narrativo. A narrativa , deste modo, ressemantizada pela lio a comunicar

    que a condiciona e a transcende. Em sntese, la fable constitue un macro-acte de

    langage vise perlocutoire, qui peut tre dcrit comme suit: [Convaincre [Raconter]]

    (Canvat, Vandendorpe, 1996: 30).

    Por forma a precisar os contornos conceptuais do gnero, Aristteles transcreve duas

    fbulas, incluindo uma de Esopo, que, a despeito da extenso, aqui se reproduz

    integralmente, atendendo sua importncia para a discusso das origens e da indagao

    terica do gnero fabulstico:

    Esopo, por sua vez, quando falava publicamente em Samos, numa altura em que se julgava a pena capital aplicada a um demagogo, contou-lhes como que uma raposa, ao atravessar um rio, foi arrastada para um precipcio e, no podendo de l sair, aguentou durante muito tempo, alm de ser atormentada por numerosas carraas agarradas pele. Um ourio que andava por ali, ao v-la, aproximou-se compadecido e perguntou-lhe se queria que lhe tirasse as carraas: mas a raposa no lho permitiu. E como o ourio lhe perguntasse porqu, ela respondeu: porque estas j esto fartas de mim e sugam-me pouco sangue; se mas tiras, outras viro esfomeadas e sugar-me-o o sangue que me resta. Tambm no vosso caso, homens de Samos, disse Esopo, este homem no vos prejudicar mais (porque j rico), mas se o matais, outros viro, pobres, que vos ho-de roubar e esbanjaro o que vos resta. (Aristteles, 1994: 148)

    Aristteles apresenta-nos, pois, a fbula, e mais rigorosamente a fbula espica,

    como um texto bissetado: um relato breve, que consiste na micronarrativa propriamente

    dita, inscrita num plano ficcional e cujos actantes so seres humanos ou animais; e a

    lio ou ensinamento moral, concretizado na formulao tendencialmente epigramtica

    do telos da diegese, condicionando a receo e assegurando o movimento de translao

    da narrativa para o plano da enunciao gnmica ou da injuno pedaggica. A alegoria