Historia do Al-Qur'an, do Hadice e da Biblia · As Múltiplas Versões da Biblia ... humilde...

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  • Sheikh Aminuddin Muhammad

    HISTRIA DO AL-QURN, DO HADICE E DA BBLIA

  • FICHA TCNICA:

    Ttulo: Histria do Al-Qurn, do Hadice e da BbliaAutor: Sheikh Aminuddin MuhammadPrimeira Edio: Shabn 1430 / Agosto 2009Edio e Maquetizao: Sautul IsslamImpresso: Taj PrintersTiragem: 5.000 exemplares

    Sautul Isslam, 2009

    [email protected] Moambique

    Nota: Este livro contm versculos sagrados, razo pela qual pede-se aos estimados leitores que o tratem com o devido respeito.

  • NDICE

    Agradecimento .. 5Prefcio da Segunda Edio . 7Prefcio da Primeira Edio . 9

    Parte I Histria do Al-Qurn

    A Necessidade da Revelao .. 15Os rgos Sensoriais e Suas Limitaes 16O Juzo e Suas Limitaes .. 18Al-Wahy A Revelao .. 19As Abelhas Melferas .. 23As Formigas 27Um Outro Exemplo . 31Al-Qurn A Revelao Divina 33Primeiro e ltimo Versculo a Ser Revelado .. 35Breve Historial da Alfabetizao na Arbia 37Razes da Revelao Gradual do Al-Qurn .. 40Sababun-Nuzul Motivo ou Causa da Revelao .. 42Versculos de Makkah e Madina . 48Algumas Particularidades dos Versculos Makkiyah e Madaniyah 49Compilao e Preservao do Al-Qurn ... 51Escrita da Revelao Durante a Vida do Profeta 54Compilao do Al-Qurn na Era de Abu Bakr . 56Mtodo Seguido por Zaid Bin Sbit .. 57Compilao do Al-Qurn na Era de Ussman ... 59O Al-Qurn Foi Revelado em Sete Dialectos 64O Que Diferencia os Sete Quirtes? ... 65Os Sete Qris e Seus Respectivos Rwis (Narradores) .. 66Introduo de Pontos e Acentos .. 67Como o Al-Qurn Est Estruturado? . 69Grupos de Captulos 70

  • 4 ndice

    A Impresso do Al-Qurn .. 71O Respeito pelo Al-Qurn . 72Jurar pelo Al-Qurn ... 76Virtudes ao Recitar o Al-Qurn . 77Virtudes por Memorizar o Al-Qurn . 79O Efeito do Al-Qurn 80Al-Qurn Como o ltimo Livro Divino ... 81Os Milagres do Al-Qurn e a Cincia Moderna 83Interpretao do Al-Qurn e Sua Interligao com o Hadice 94O Estatuto do Al-Qurn . 97Autenticidade do Al-Qurn . 101Opinio de Algumas Personalidades a Respeito do Sagrado Al-Qurn .. 106Algumas Curiosidades Sobre o Contedo do Al-Qurn .. 109

    Parte II Histria do Hadice

    Defi nio e Classifi cao de Sunnat e Hadice .. 113Importncia dos Hadices ... 115Preservao dos Hadices ... 116Registo de Hadices pelos Companheiros do Profeta 118Compilao de Hadices Aps a poca dos Sahbah 122

    Parte III Histria da Bblia

    Compilao dos Evangelhos . 135Os Quatro Evangelhos Principais . 136Ser Que Estes Evangelhos So Autnticos? 144A Histria da Bblia .. 147Algumas Contradies na Bblia .. 150As Mltiplas Verses da Biblia . 152O Evangelho de Barnab .. 152Os Dois Testamentos So Temporrios 154Os Muulmanos Crem em Todos Livros Divinos ... 156Revelao de Deus ou de Paulo? .. 158Paulo No Respeitava as Leis e Nem a Jesus ... 159Ser Que Paulo Estava Livre de Pecados? 160Concluso . 161

  • AGRADECIMENTO

    Sou grato a todos aqueles que ajudaram e partilharam

    comigo no desafi o de propagar o Din.

    Que ALLAH recompense a todos eles, aceite de mim este

    humilde trabalho e me conceda foras e sinceridade para

    continuar a servir o Seu Din.min

  • PREFCIO DA SEGUNDA EDIO

    Todo o louvor para ALLAH, Quem revelou o Livro como guia, misericrdia e provas claras de orientao para a humanidade. Paz e bnos para o Seu servo Muhammad , o rei dos profetas para sua famlia e todos aqueles que o seguem e seguiro at ao Dia do Juzo Final.

    De facto, ALLAH foi misericordioso com as pessoas ao enviar mensageiros, com o objectivo de os chamar senda recta, e ao revelar livros, a fi m de esclarecer muitos assuntos importantes.

    Com tudo isso, ningum pode ter desculpas e argumentos aps a vinda dos mensageiros e livros revelados. Quem segui-los estar no bom caminho e quem rejeit-los estar na perdio.

    ALLAH terminou o ciclo de mensageiros ao enviar o profeta Muhammad e a revelao do Seu ltimo livro Al-Qurn numa lngua bem clara, uma escritura incontestvel e sublime.

    Obviamente que a falsidade no pode atingir este Livro Divino, em qualquer dos sentidos, pois trata-se de uma revelao por parte do Prudente e Digno de louvores, que fez do mesmo um guia esclarecedor, misericrdia para a

  • 8 Prefcio

    humanidade e uma prova para aqueles que recusam a verdade, ordenando ao Profeta para transmiti-lo e ensin-lo a todos. E foi exactamente o que ele fez, recitando palavra por palavra, ensinando versculo por versculo e transmitindo captulo por captulo.

    ALLAH ordenou ainda que se escrevesse tudo quanto lhe fosse revelado, o que aconteceu com todo o Al-Qurn, que foi escrito durante a sua vida. Tomando essa primeira escrita como base, foram posteriormente escritas outras cpias autnticas e, mais tarde, enviadas para os locais mais importantes do mundo isslmico, sendo assim que se atingiu todos os lugares do Mundo ao longo do tempo, na sua forma original.

    O presente livro trata precisamente deste tema, cuja primeira parte foi publicada em 1989 juntamente com um captulo intitulado Regras de Tajwid, que Insh-Allah tambm ser editado e publicado novamente como um livro didctico em separado.

    Agora, tenho a oportunidade de lanar a segunda edio, j revista, actualizada e compilada novamente cerca de vinte anos depois. Mesmo assim, peo aos entendidos na matria que me informem caso encontrem algum erro de forma a que possa corrigi-los.

    Se este livro for utilizado como material didctico, ento aconselha-se aos professores que encorajem os seus alunos a procurarem os versculos do Al-Qurn em rabe, cujas referncias foram mencionadas logo aps as respectivas tradues.

    Peo a ALLAH que me benefi cie atravs do contedo deste livro e o torne exclusivamente para Ele, e me proteja de qualquer falha. min.

    Wa M Taufi qui Ill Billah

    Aminuddin MuhammadMaputo Moambique

    Shabn / 1430Agosto / 2009

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 9

    PREFCIO DA PRIMEIRA EDIO

    ALLAH enviou-nos a Mensagem Divina Al-Qurn, Luz para a humanidade, que constituda por leis e condutas de comportamento mpares:J vos chegou de ALLAH uma luz e um Livro claro, com o qual ALLAH guiar aqueles que Lhe procuram agradar, para os caminhos da paz e, por Sua vontade, tir-los- das trevas, levando-os luz, encaminhando-os at o caminho da rectido. [Al-Qurn 5:15]

    Os muulmanos de expresso portuguesa passaram por um longo perodo em que se viram afastados e isolados do Al-Qurn, sendo por isso que a nossa ligao com este Livro Divino se tornou superfi cial, mais simblica do que real. Falamos da sua grandeza, autoridade e soberania, mas no fazemos qualquer esforo para fazer dele o foco intelectual, moral e religioso do nosso dia-a-dia. No caso extremo, limitamo-nos apenas sua leitura e memorizao, quando sem perceb-lo, impossvel p-lo em prtica.

    No seu livro Ihiy-ul-Ulum, Imm Ghazali (RA) narra uma passagem ocorrida na era de Umar , o segundo Khalifa.Consta que quando Umar estava viajando de Madina para Makkah, durante o seu percurso, deparou com um rebanho de ovelhas a ser pastado por um rapaz de origem africana.

    Com o objectivo de testar se os ensinamentos do Al-Qurn, pelo menos na sua forma elementar, haviam chegado a esse rapaz que vivia num canto remoto da Arbia, e at que ponto os mesmos refl ectiam na sua vida particular, Umar perguntou-lhe se estava interessado em vender algum cordeiro do rebanho.O rapaz respondeu pronta e claramente: No!O Khalifa retorquiu: Porqu? Porque no me pertencem; so do meu senhor e eu sou escravo dele. Que diferena faz isso? Pega neste dinheiro, d-me o cordeiro e diga ao teu senhor que um lobo (ou homem cruel) te arrancou o cordeiro.

    Sem saber de quem se tratava, o rapaz olhou para o Khalifa e disse: Eu posso enganar o meu senhor que est ali doutro lado da colina, mas como posso enganar Aquele grande Senhor que est a vigiar e a escutar a ns os dois?

  • 10 Prefcio

    O rapaz, que era analfabeto, nunca tinha estudado o Al-Qurn, mas a sua infl uncia no ambiente em que vivia, j o tinha tocado. Talvez tivesse escutado alguns versculos do Al-Qurn, como por exemplo:Ns criamos o ser humano e sabemos o que a sua alma lhe murmura, pois Ns estamos mais perto dele do que a (sua) veia jugular. [Al-Qurn 50:16]

    No reparaste que Deus sabe o que est no cu e na terra? No h confi dncia (conversa secreta) entre trs sem que Ele seja O quarto deles, nem entre cinco sem que Ele seja O sexto deles, nem que haja menos ou mais do que isso sem que Ele esteja com eles, onde quer que se renam. Depois, no Dia da Ressurreio, inform-los- daquilo que fi zeram, porque Deus tem conhecimento de tudo. [Al-Qurn 58:7]

    Portanto, o rapaz j tinha aprendido atravs do Al-Qurn que ningum pode vender ou dar algo que no lhe pertence. De facto, o muulmano que tem o Al-Qurn no seu ntimo, como seu guia eterno, no necessita de polcia nem de agentes da lei.Com a resposta do rapaz, pode-se imaginar a impresso profunda que Umar deve ter criado na sua mente, ainda mais tratando-se dum Khalifa do Isslam. Consta nas narraes que lgrimas comearam a escorrer pelo seu rosto.Depois, com toda a ternura, Umar disse ao rapaz que lhe guiasse at ao seu patro, dono do rebanho. Ao encontrar com este, Umar perguntou: Quanto pagaste por este escravo? Tanto, respondeu o dono.Umar disse: Eis aqui essa quantia, tome-a e liberte-o. E assim o rapaz se tornou livre graas ao Al-Qurn.

    A questo que se coloca : quantos de ns, muulmanos ou no, em todos os graus ou nveis de vida, sejam eruditos, graduados, lderes, etc., chegariam a ter uma atitude como a do referido rapaz africano, h cerca de 1400 anos.O Al-Qurn foi revelado com o objectivo de libertar o Homem e criar a noo da presena de Deus e, consequentemente, uma verdadeira civilizao, inspirando nas pessoas esse sentimento de que cada membro da sociedade pastor de outrem, tal como aconteceu com o referido rapaz.

    Ns possumos esta gloriosa herana e, portanto, devemos valoriz-la e darmos o nosso melhor na sua aprendizagem, compreenso e prtica. Orgulhamo-nos

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 11

    de ser a nica comunidade religiosa do Mundo que possui um Livro Sagrado autntico h mais de 14 sculos.O Profeta disse: Deixei duas coisas para vs, se vs as assegurardes, jamais vos extraviareis: o Livro de ALLAH e o Sunnat do Seu mensageiro.

    [Hkim]

    O Al-Qurn no s explica a relao entre o Homem e Deus como tambm estabelece os princpios da religio, bases fundamentais da teologia e cdigo de vida universal, satisfazendo assim as necessidades da natureza humana. Estabeleceu ainda o cdigo geral religioso, moral, social, militar, comercial, judicial e poltico, contendo todos os elementos para um cdigo perfeito, destinado todas as pessoas e para todos os locais e eras at ao Fim do Mundo.

    Este livro j transformou a vida de milhes de pessoas, desde o tempo do profeta Muhammad at hoje. Se desejar, pode transformar tambm a sua vida.Nele reside o sucesso de todos, quer para este mundo assim como para o outro. Portanto, muulmano! Conhea a histria do seu Livro Sagrado, o nosso maior patrimnio!

    A primeira parte do presente livro d-nos uma breve histria acerca do Al-Qurn e assuntos a ele relacionados, enquanto que a segunda(*) est relacionada com o Tajwid regras de recitao e pronncia.Quero agradecer com toda a sinceridade, a todos aqueles que directa e indirectamente me apoiaram na concretizao deste trabalho. Que ALLAH os recompense da melhor forma e aceite de mim este humilde trabalho, dando-me mais sinceridade, coragem e foras para servir o Seu Livro o sagrado Al-Qurn. min.

    Aminuddin MuhammadMaputo Moambique

    Rabiul-khir / 1410Novembro / 1989

    (*) A segunda parte da primeira edio do livro aqui referido no foi incorporada nesta nova edio, pois achou-se melhor public-la como um livro didctico parte.

  • PARTE I

    HISTRIADO AL-QURN

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 15

    A NECESSIDADE DA REVELAO

    Na Sua infi nita misericrdia, ALLAH criou o ser humano de forma mais perfeita, dotando-o de duas partes: fsica e espiritual. Ele criou ainda vrias plataformas a fi m de tornar possvel a vida do ser humano neste mundo.

    Uma delas a chamada Natureza, que a maior parte dos cientistas a classifi ca como aquilo que no pode ser criado pelo Homem. De facto, as rvores e seus frutos, as belas fl ores, o ar, a gua, o fogo, as leis fsicas do Universo, a luz dos astros (como o Sol, as estrelas, etc.), a grande variedade de animais e minerais, no foram e nem podem ser criados pelo Homem, mas so essenciais para o seu bem-estar fsico.

    A outra plataforma a espiritual. Se ALLAH foi to Misericordioso ao conceder inmeros favores para o conforto fsico do Homem, seria contrrio Sua compaixo se Ele no providenciasse algo para o bem-estar espiritual do ser humano, uma vez que o ser humano composto por essas duas partes.O Homem foi colocado no mundo para um teste, tendo-lhe sido impostas duas obrigaes: utilizar correctamente tudo quanto existe no mundo, sem provocar estragos, e ter em conta as ordens de ALLAH durante a sua estada nele, no cometendo qualquer acto que seja contra a Sua vontade.A situao espiritual do Homem depende extremamente do cumprimento ou no destas obrigaes. Por exemplo, o stress, as inmeras preocupaes que o afl igem, difi culdade em ser feliz, so perturbaes no esprito (alma) do ser humano, causadas por ele prprio, assim como consta no sagrado Al-Qurn:Todo o mal que te atinge de ti mesmo, ou seja, causado pelas tuas aces.

    [Al-Qurn 4:78]

    Para cumprir com tais obrigaes, o Homem necessita de Ilm (cincia, conhecimento), pois enquanto no conhecer a realidade do mundo que o rodeia, no saber como utiliz-lo para o seu benefcio. Da mesma forma, enquanto no conhecer as ordens de ALLAH e Suas vontades, no saber como passar a vida de acordo com o Seu agrado.

    Portanto, para adquirir o conhecimento, ALLAH colocou trs factores disposio do Homem:

  • 16 Parte I Histria do Al-Qurn

    1. Os rgos sensoriais,2. O juzo (inteligncia) e3. A revelao.

    H questes que frequentemente so colocadas e que no podem ser negli-genciadas ou ignoradas por qualquer religio ou sistema que reivindique ter razes na conscincia humana, tais como: Qual o incio e o fi m do Universo? Quem est a sustent-lo e manej-lo desta forma to perfeita? Ser que existe a vida aps a morte? Se sim, como essa vida e que requisitos so necessrios para a obteno de sucessos nela? Qual o papel e o objectivo do Homem neste mundo? Ser que ele senhor de si prprio? Ou dever prestar contas a Algum? Se sim, qual a relao com esse Algum e quais os Seus atributos?

    Se o objectivo do ser humano aqui neste mundo fosse somente a busca da satisfao carnal, ao comer, beber e procriar, nesse caso os animais irracionais super-lo-iam, pois fazem muito mais.Uma vez que os nossos sentidos e o nosso intelecto so incapazes de resolver estas e outras questes com as quais nos deparamos constantemente, surge a necessidade de existir um outro meio pelo qual possamos obter respostas para tais questes, que so to antigas como o prprio Homem e so levantadas em todas as pocas. A revelao fornece respostas a todas elas.

    Seguidamente, iremos debruar-nos sobre os meios e faculdades que aparen-temente nos podiam ajudar a encontrar respostas para as questes acima colocadas, vendo at que ponto chegam.

    OS ORGOS SENSORIAIS E SUAS LIMITAES

    ALLAH dotou as Suas criaturas de rgos sensoriais que constituem grandes fon-tes para a aquisio de alguns e especfi cos conhecimentos. Descobrimos o mundo e tiramos proveito dele atravs desses sentidos. Encontramos muitas leis fsicas, acumulamos grandes tesouros de observaes, experincias e percepes.

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 17

    Contudo, muitos fi lsofos consideram os sentidos fracos, duvidosos e um meio pouco digno de confi ana para a aquisio de conhecimento.No seu livro Recherche de la Verite, o fi lsofo Nicholas Malebranche (1638-1715) afi rmou que o maior motivo para o erro humano a crena errada de que os sentidos que foram facultados para servir em fi ns prticos so tambm capazes de revelar a natureza das coisas.Outro fi lsofo, Michel de Montaigne (1533-1592), diz que o conhecimento do Homem extremamente imperfeito e os seus sentidos so incertos e sujeito a erros. Segundo ele, nunca podemos ter a certeza de que aquilo que os sentidos nos mostram sempre verdade, pois s nos apresentam um mundo condicionado pela nossa prpria natureza e circunstncias (Bid, pg. 28).

    Todavia, tomemos em conta a seguinte questo frequentemente colocada: De onde viemos e para onde vamos? Ou seja, qual o incio e o fi m deste mundo?Ser que a nossa viso, audio, olfacto, paladar ou o tacto nos podero guiar s respostas para esta questo?Obviamente que no! Atravs das impresses sensoriais, podemos apenas saber onde estamos presentemente. Estas faculdades s nos guiam at um certo limite e param diante duma parede indestrutvel. No podemos ver ou ouvir para alm duma distncia fi xa.

    Se existe a vida aps a morte ou no, isso no pode ser afi rmado nem recusado pelas observaes sensoriais, pois esse um facto que no est no poder nem alcance dos sentidos. O mximo que estes podem fazer dizer que no percebem, mas no podem recusar a sua existncia, porque no perceber no sinnimo de no existir.Se recusssemos a aceitar tudo aquilo que no se percebe com os sentidos, no haveria diferena entre o ser humano e o animal. Uma vez que o Homem no compreende todos os aspectos da vida atravs dos rgos sensoriais, como ento poder obter mais pormenores atravs dos mesmos?

    Podemos compreender uma parte das leis fsicas que governam o Universo, pois os seus efeitos so sentidos e vividos por ns, alguns dos quais bastante bvios, como por exemplo, sabemos que o fogo queima, a gua elimina a sede e o veneno mata, mas a experincia sobre o comportamento moral uma coisa completamente diferente.

  • 18 Parte I Histria do Al-Qurn

    Pode-se sentir o calor e os seus efeitos atravs do tacto, mas no se pode descobrir o mal infl igido pela crueldade e falsidade atravs dos sentidos. A precisamos duma intuio tica, f religiosa e profunda segurana espiritual, a fi m de descobrir o caminho para efeitos de comportamento moral, sendo estes sufi cientemente distintos dos efeitos sentidos ao tocar o fogo.

    De facto, sentimos que os rgos sensoriais so sufi cientemente livres e actuam de forma independente. Aparentemente no achamos diferena alguma entre o ser humano e a besta, mas sabemos que o Homem um animal mais desenvolvido, capaz de falar e chegar a concluses atravs de pensamentos interligados.Este tipo de conceito levaria-nos concluso de que o objectivo principal da vida do Homem apenas a satisfao dos seus desejos, numa forma melhor e mais aperfeioada em comparao com a dos outros animais, se nos basearmos apenas nas funes dos rgos sensoriais.

    O JUZO E SUAS LIMITAES

    A principal diferena entre o ser humano e os animais irracionais a inteligncia, que foi concedida ao Homem. por essa razo que o Isslam probe tudo aquilo que possa prejudicar o juzo, tal como as bebidas alcolicas, drogas e outros txicos, pois devido ao juzo que ele superior a outras criaturas. Destruindo-o, no ir diferenci-lo dos outros animais, podendo vir a ser inferior a estes.

    O conhecimento adquirido atravs dos rgos sensoriais est fora do alcance do juzo (intelecto). Pode-se conhecer a cor de uma parede atravs da viso, mas se fecharmos os olhos e quisermos saber a cor dela, no ser possvel apenas com o juzo. Da mesma forma, o conhecimento adquirido atravs deste no pode ser feito apenas com os sentidos. Portanto, a funo do juzo comea precisamente onde termina o alcance dos rgos sensoriais. Mas o juzo tambm limitado, havendo casos em que tambm no funciona.O juzo nunca pode funcionar sozinho; se quisermos saber sobre algo que ele no conhece, temos que recorrer ajuda de outras coisas, ou seja, o intelecto depende das lembranas cedidas pelas impresses sensoriais. O juzo nada

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 19

    pode conceber por si prprio sem puxar por aquilo que as percepes sensoriais armazenaram anteriormente na mente.

    Onde os sentidos no funcionam ou a observao e percepo falham, a faculdade intelectual tambm se torna desamparada, assim como o homem que deseja atravessar o oceano sem barco ou voar sem avio; qualquer um pode pr esta hiptese prova.Ningum, por mais inteligente que seja, poder resolver uma equao aritmtica complicada se no estiver familiarizado com as leis da matemtica ou decifrar uma escrita sem conhecer o respectivo alfabeto. Ou seja, a inteligncia do Homem de nada lhe valer se no possuir previamente algum conhecimento bsico no ramo em que quiser aplic-la.

    Voltemos agora s questes atrs mencionadas. Ser que o juzo sozinho pode resolver e dar respostas exactas sobre as mesmas?Obviamente que no! Assim como os rgos sensoriais, o juzo tambm declara no ter capacidade para perceber ou provar algo e nem possui o direito de recus-lo na base das suas limitaes. Por exemplo, um cego no tem o direito de recusar a existncia de algo e muito menos entrar em pormenores apenas pelo facto de ele prprio no conseguir observar; o mximo que pode fazer afi rmar que no viu.Contudo, o ser humano nunca est satisfeito e sempre deseja intrometer-se em assuntos que lhe so desconhecidos; curioso por natureza e armado com a f cega nas suas capacidades, tenta formular respostas com ajuda da sua imaginao, juzo e especulao, baseando-se em limitados e imperfeitos dados colhidos atravs do senso.

    AL-WAHY A REVELAO

    Como os rgos sensoriais e o juzo se demonstraram incapazes de fornecer respostas s questes mencionadas anteriormente e de orientar a vida do ser humano aqui neste mundo, vejamos o que a revelao vinda por parte de ALLAH nos traz.O Homem foi dotado com capacidade de pensar e distinguir o bem do mal e est no seu instinto uma inclinao natural para seguir o caminho da bondade

  • 20 Parte I Histria do Al-Qurn

    e evitar o mal. Contudo, no foi entregue somente sua inteligncia, pois esta est sujeita evoluo e ao confl ito.ALLAH enviou mensagens humanidade atravs de profetas, seres humanos escolhidos com o objectivo de guiar o Homem no caminho recto. Estes mensageiros foram enviados com Revelaes para todas as camadas da humanidade, pois na esfera da crena e algumas verdades eternas, o Homem sempre se enganou a si prprio ao seguir suas paixes, presunes e concluses baseadas em observaes superfi ciais.

    A longa corrente de profetas trouxe sempre a mesma mensagem: guiar o Homem para o caminho da felicidade e salvao.Consta no sagrado Al-Qurn:Na verdade, Ns te revelamos ( Muhammad) assim como revelamos a No e aos profetas que vieram depois dele; e tambm revelamos a Abrao, a Ismael, a Isaac, a Jacob, as doze tribos, a Jesus, a Job, a Jonas, a Aro, a Salomo e demos os Salmos a David. [Al-Qurn 4:163]

    Etimologicamente, Wahy quer dizer informao dada em segredo. Nos termos de Shariah, signifi ca informao vinda por parte de ALLAH a um ser humano por Si escolhido, relacionada com tudo que sirva como orientao para a humanidade.

    O Wahy ocorria sob diversas formas, como por exemplo, conversa directa entre ALLAH e o servo escolhido (como aconteceu com Mussa [Al-Qurn 4:164] e Muhammad ), inspirao ou sonhos verdadeiros (como aconteceu com Ibrahim ), confi rmados pela ocorrncia da sua interpretao no dia seguinte (por exemplo, o sonho visto pelo Profeta antes da Batalha de Al-Badr, mencionado no sagrado Al-Qurn [8:43]).

    Podia ocorrer ainda por meio de mensagens enviadas atravs do Anjo Gabriel (Jibral ), que aparecia em diversas formas perante os mensageiros: na forma natural (aconteceu apenas duas vezes e diante do profeta Muhammad ), na forma humana (geralmente sob forma parecida de um Sahbi muito elegante chamado Dhya Al-Kalbi ), para que outros presentes o pudessem ouvir [Mussnad Ahmad], e por vezes, invisivelmente, em que se notava a transpirao (num Inverno forte) ou mudana da fi sionomia do profeta Muhammad .

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 21

    Consta no Bukhari de que certa vez, Hrice ibn Hishm perguntou ao Profeta como que lhe chegava a revelao, ao que respondeu: s vezes, vem como o repique dum sino e esta forma de revelao a mais dura para mim; depois, quando chega ao fi m quando eu compreendo inteiramente as palavras e decoro-as. Outras vezes o Anjo vem ter comigo na forma dum homem a falar comigo; eu compreendo e memorizo o que ele diz.Aisha (RTA) relata que at mesmo nos dias mais frios do Inverno em que o Profeta recebia a revelao Divina, a sua testa costumava fi car repleta de suor devido tenso que sentia durante essa experincia.Zaid bin Sbit narra que certa vez o Profeta tinha colocado a cabea sobre a sua coxa quando a revelao comeou a descer sobre ele; Zaid conta que sentiu tanta presso sobre a sua coxa que parecia que esta iria se esmagar devido presso [Bukhari].

    O Profeta viu Jibral na sua forma original pela primeira vez, aquando da primeira revelao, na Cave de Hir; a segunda vez foi na altura de Issr e Mirj. de salientar que para alm de Muhammad , ningum mais viu o Anjo Gabriel na sua forma natural.O sagrado Al-Qurn, a revelao de ALLAH para o profeta Muhammad , ocorreu na sua ntegra atravs de Jibral :E isto (Al-Qurn) uma revelao do Senhor dos Mundos. Trouxe-o o Esprito Fiel (Anjo Gabriel); e depositou-o em teu corao, para que sejas um dos admoestadores. (Est) em lngua rabe clara.

    [Al-Qurn 26:192-195]

    As mensagens de ALLAH para os Seus profetas eram gravadas nas mentes destes e nunca eram esquecidas, por ddiva Divina.E no foi concedido a qualquer mortal, que Deus lhe falasse directamente, a no ser por revelaes, ou por detrs de um vu, ou por intermdio de um mensageiro, que revela com Sua permisso o que Ele quer. Na verdade, Ele o Altssimo, o Sbio. [Al-Qurn 42:51]

    Portanto, essas so as trs formas atravs das quais ALLAH comunica com os Seus servos.A revelao desempenhou um papel muito importante onde os sentidos e o intelecto no puderam alcanar. Como a importncia da revelao maior

  • 22 Parte I Histria do Al-Qurn

    onde o juzo no alcana, no necessrio e nem possvel compreender todos os seus pormenores atravs do intelecto.Da mesma forma que saber a cor duma parede no funo do juzo mas sim do sentido (viso), existem muitas Orientaes Divinas que dependem somente da revelao e no do intelecto:Essas so algumas informaes do invisvel, que te revelamos ( Muham-mad). Tu no as conhecias antes disso, nem tu nem teu povo; portanto, s paciente! Por certo, o fi nal feliz est reservado para os piedosos.

    [Al-Qurn 11:49]

    Nem vos digo que sou anjo; no sigo seno o que me foi revelado.[Al-Qurn 6:50]

    Para o crente, isso fcil perceber pois acredita que o Universo foi criado pelo Omnipotente, sendo Ele Quem comanda tudo com prudncia. Foi tambm Ele Quem criou o ser humano para um objectivo nobre; portanto, no lgico que depois de o criar, o abandonasse sem orientao alguma e sem informar acerca da razo da sua vinda no mundo, suas obrigaes, seu fi m (destino) e como dever alcanar esse objectivo. E porque esse Deus que ns acreditamos no mudo, Ele tinha que informar dalguma forma o que pretende de ns.Por exemplo, se algum tiver um servente e quiser envi-lo para algum stio, poderia faz-lo sem defi nir o objectivo dessa viagem, sem o instruir sobre as aces a serem realizadas ou a obrigao a ser cumprida durante a mesma? Obviamente que no.Portanto, se uma pessoa vulgar no faz isso, como possvel que ALLAH, o Criador do Universo, com a prudncia que possui, no informasse ao ser humano acerca do objectivo da sua vinda aqui no mundo, abandonando-o nas trevas?

    A revelao uma realidade lgica. Contudo, como os ateus no crem no Shariah e suas provas, acreditam somente no juzo da maneira como eles o aplicam. Dizem acreditar somente naquilo que vem e assim, prendem-se ao materialismo e rejeitam tudo aquilo que esteja para alm disso.De seguida, explicaremos a possibilidade da existncia da revelao, utili-zando a comparao lgica:a) Hoje em dia, as tecnologias de comunicao esto to avanadas que temos

    coisas espantosas das quais tiramos proveito, tais como a transmisso de

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    dados, som, imagem e vdeos atravs do telemvel, rdio, televiso, satlite, etc. Atravs destes aparelhos, consegue-se falar e comunicar mesmo que as distncias sejam longas, at para fora do planeta.Ento, seria lgico que perante estas invenes feitas pelo Homem, o Criador deste no conseguisse comunicar com alguma criatura Sua atravs de anjos ou sem anjos?

    b) O avano cientfi co e tecnolgico permitiu a produo de super-computado-res, possuindo capacidades de armazenamento de informao nunca antes imaginados. Temos cassetes, discos e agora os pequenos Flash Disk com vrias coisas gravadas, desde livros completos, discursos, vdeos, etc. s aceder ao aparelho, que insensato, e pode-se reproduzir tudo que foi gravado nele, com total perfeio e exactido, isto atravs de mos humanas.Qual a estranheza se o Omnipotente, com ou sem a interveno de anjos, gravou palavras Divinas em certas almas puras, para que com elas pudesse guiar as Suas criaturas e provar a Sua veracidade, reproduzindo-as perfeitamente atravs de mensageiros, quando o desejasse?

    c) Na natureza, existes certos animais que possuem um sistema de convivncia, disciplina e trabalho bastante espantoso, levando-nos a acreditar com toda a clareza de que esses pormenores no so fruto do seu prprio pensamento ou iniciativa. Vemos que de facto, tudo isso provm duma Orientao, a partir da qual so inspiradas todas essas maravilhas com toda a perfeio e harmonia.Se isso possvel no mundo dos animais irracionais, porque achar estranho no seio do Homem, cuja capacidade de contacto com os horizontes bastante elevada?

    Para enriquecer ainda mais esta prova, tomemos como exemplo dois insectos, cujos trabalhos so realizados com excelente disciplina e organizao.

    AS ABELHAS MELFERAS

    No reino animal, de entre vrios outros que possuem estas caractersticas, a abelha uma delas. um insecto que pertence ordem dos Himenpteros, juntamente com as formigas e as vespas.

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    As abelhas melferas no s produzem o mel como tambm so responsveis pela polinizao de mais de 90 espcies de frutos comestveis que so colhidos. De facto, cerca de um tero da dieta humana provm de plantas polinizadas por insectos e a abelha melfera responsvel por 80% dessa polinizao, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.De todas as espcies de abelhas conhecidas, as melferas so, por vrias razes, o melhor agente polinizador da maioria das colheitas. Elas polinizam vrios tipos de plantas, repetidamente visitam a mesma planta e recrutam outras obreiras para fazerem o mesmo.

    ALLAH diz no sagrado Al-Qurn:E teu Senhor inspirou s abelhas: Constru vossas colmeias nas montanhas, nas rvores e nas estruturas que eles (os humanos) elevam (erguem).Em seguida, alimentai-vos de toda espcie de frutos e percorrei docilmente os caminhos traados pelo teu Senhor. E do seu ventre sai uma bebida de vrias cores, em que h cura para a Humanidade; na verdade, em tudo isto existe um Sinal para aqueles que refl ectem. [Al-Qurn 16:68-69]

    Numa colmeia, podemos encontrar trs tipos de abelhas: obreira, rainha e zango. Vejamos ento como esto organizadas e de que forma a sua convivncia.

    a) OBREIRA o nome pelo qual as abelhas operrias da colmeia so conhecidas. Desde que nascem at ao fi m das suas vidas, passam por vrias profi sses.Comeam por efectuar servio domstico no interior da colmeia, com a lim-peza dos alvolos, alimentao das larvas, construo de favos, amadurecimento do nctar trazido do exterior, proteco da colmeia, etc.A partir da terceira semana de vida, passam a trabalhar no exterior como camponeses, onde colhem o plen e nctar das fl ores, transportam gua e prpolis, uma substncia resinosa que utilizam para proteger a colmeia contra a invaso de micrbios e fungos e para envolver os invasores mortos que no puderam ser arrastados para fora.Na quarta semana, voltam novamente aos trabalhos no interior da colmeia. Suas glndulas secretoras de cera so activadas e transformam-se em pedreiros, passando a construir e concertar as clulas, dentro das quais se armazenam o plen e o mel.

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    Na ltima fase da sua vida, dedicam-se limpeza da colmeia e prestao de servio militar, permanecendo de guarda junto entrada para combater possveis intrusos.

    Esta a sequncia normal das funes; contudo, se algo de anormal acontecer vida do enxame, tal como a perca de muitas abelhas jovens, ento as adultas voltam a executar as suas tarefas antigas, adaptando-se s novas circunstncias.So fmeas atrofi adas cujo aparelho reprodutivo funciona apenas quando morre a rainha e no existe a possibilidade de criar uma outra. Nessa altura, pem ovos duma forma desordenada e delas s nascem zngos (machos). So providas de aguilho e morrem algumas horas depois de terem efectuado uma picada.Um enxame de tamanho mdio constitudo por cerca de 60 mil obreiras. Tm uma vida muito curta, chegando a durar cerca de seis semanas.

    b) RAINHATambm conhecida por me ou abelha mestra, tem como funo principal a sua postura. Geralmente, fecundada uma s vez por um ou mais zngos, guardando o smen numa bolsa chamada espermateca, que a vai utilizando ao longo da sua vida. Ela chega a colocar cerca de trs mil ovos por dia e a me de todas as abelhas que constituem o enxame.

    Segrega uma substncia que absorvida pelas obreiras e passada uma s outras. provida de aguilho, mas s o utiliza caso venha a travar uma luta ao encontrar outra rainha.Durante a sua vida, alimentada por uma papa especial chamada geleia real, uma substncia muito rica em protenas que segregada pelas obreiras jovens.Cada enxame possui apenas uma rainha, podendo existir at duas quando se trata de grandes enxames. A sua vida tem uma durao mdia de quatro anos.

    c) ZANGO o nome dado aos machos, cuja principal funo fecundar a rainha. Este acto d-se no exterior da colmeia e em pleno voo, vindo a morrer aps a cpula.Nascem de ovos no fecundados e existem em pocas de muita comida, podendo atingir cerca de cem num enxame mdio. Os machos no so providos de aguilho.

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    O nctar e o plen so armazenados nos favos, que so construdos de cima para baixo, como pequenas paredes suspensas a partir dum tecto. Cada favo formado por centenas de tubinhos de cera inclinados, uns de costas para os outros; a posio ligeiramente inclinada desses tubinhos muito importante pois no permite que o mel escorra para fora deles. H tubinhos para guardar mel, outros para o plen e outros ainda s para a criao das larvas. A cera o material usado para a construo da colmeia.

    Manter a colmeia fresca e slida em zonas quentes onde existe o receio da mesma se derreter um de entre os maravilhosos trabalhos que as abelhas realizam. Para tal, elas se subdividem em grupos e turnos e depois de terem depositado as gotculas de gua sobre a superfcie dos favos, vo agitando as suas asas conseguindo assim uma corrente de ar, fazendo com que se provoque uma reduo de temperatura e se conserve a colmeia e o mel que nela se encontra.J no Inverno, elas fi cam todas juntas umas s outras, mexendo-se pouco e comendo o mel; desta forma, provocam o calor e aquecem a colmeia.

    Outra maravilha a forma como conseguem o seu alimento. Quando uma abelha descobre o lugar onde existe alimento, tal como campo ou plantao, retorna colmeia para informar a sua descoberta. A comunicao feita essencialmente atravs de voos circulares (geralmente em forma de 8) sobre a superfcie do favo, como se tratasse de uma espcie de dana.Durante os voos, a inclinao do 8 em relao colmeia e posio do Sol, a obreira indica s companheiras a direco em que a fonte de alimentos se encontra. O nmero de voltas num determinado perodo de tempo indica a distncia e quanto mais rpido o voo, signifi ca que mais prximo o local ou vice-versa.Depois disso, uma outra obreira repete a dana para comunicar s descobridoras que a mensagem foi compreendida. De seguida, partem grupos de obreiras que voam at ao local para recolherem os alimentos.

    Atravs desses voos ou danas, as abelhas conseguem transmitir uma srie de informao que, se o ser humano procurasse fazer o mesmo atravs de desenhos demonstrativos, levaria cerca de meia hora e ainda sob condio de possuir conhecimentos geomtricos e fsicos que exigem estudos superiores.Porm, as abelhas o fazem instantaneamente, algo extraordinrio que s pode

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    ser compreendido com a existncia de uma revelao Divina proporcionada pelo Criador do Universo a essas pequenas criaturas que no tm o poder de raciocnio.

    Uma outra caracterstica da abelha de conseguir observar a radiao ultravioleta. Em regies hmidas onde o Sol no atinge directamente o solo, os raios ultravioletas atravessam as nuvens e permitem s abelhas sentir directamente a luz solar. Uma vez que elas vivem a maior parte do ano em zonas cobertas por nuvens, no fi cam impedidas de procurar os seus alimentos.

    No fi nal da sua vida e depois de ter desempenhado todas as suas funes, ela sente-se cansada e enfraquecida pela idade. Deixa ento a colmeia e distancia-se para aguardar a sua morte. O ltimo servio que presta sociedade a que pertenceu o de no incomodar com a sua prpria carcaa.

    Este poder e capacidade no podem ter sido adquiridos gradualmente pelas abelhas, atravs duma evoluo; h milhares de anos que se mantm inalterada a mensagem gentica que o Criador as dotou. Esta capacidade fi cou gravada desde o instante em que ALLAH criou a primeira abelha.

    AS FORMIGAS

    Assim como as abelhas, tambm as formigas realizam os seus trabalhos e vivem com muita ordem e disciplina, formando nveis avanados de sociedade. o grupo mais popular de entre os insectos.Embora nem todas as espcies constroem formigueiros, muitas fazem autnticas obras de engenharia, normalmente subterrneas, constitudas por um complexo sistema de tneis e cmaras com funes especiais, tais como armazenamento de alimentos, para a rainha, berrio onde so tratadas as larvas, etc.

    a) VIDA SOCIALAs sociedades das formigas so organizadas por diviso de tarefas. A reproduo realizada pela rainha e pelos machos. A rainha vive dentro do formigueiro e maior que as restantes formigas; perde as suas asas depois de fecundada e coloca ovos durante toda a sua vida.

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    Os machos aparecem apenas quando necessrio fecundar uma nova rainha; depois da fecundao, no so autorizados a entrar no formigueiro e, geralmente, morrem rapidamente.As restantes funes, tais como busca de alimentos, construo, manuteno e defesa do formigueiro, so realizadas por fmeas estreis, denominadas obreiras (tal como acontece nas abelhas).Geralmente, as formigas juntam os seus alimentos durante o Vero e conservam-nos num lugar longe da humidade. Se forem gros, partem-nos em trs ou quatro bocados, para assim garantir a sua conservao e impedir a germinao.Desde a etapa em que so ovos at se tornarem adultas, as formigas demoram entre seis a dez semanas. Algumas obreiras podem viver at sete anos, enquanto que as rainhas conseguem viver mais de quinze anos.

    b) FORMAS DE COMUNICAOAs formigas se comunicam entre si atravs da emisso de certas substncias qumicas, denominadas feromonas, que tm como objectivo provocar respostas comportamentais em caso de perigo iminente, defesa ou quando necessrio uma troca rpida de informao. Como passam muito tempo no solo, as mensagens qumicas esto mais desenvolvidas do que noutros Himenpteros.Assim como outros insectos, as formigas sentem o cheiro atravs das suas antenas. Quando duas delas se encontram, tocam as antenas e as feromonas que estiverem presentes fornecem informao sobre o estado de alimentao de cada uma, o que pode fazer com que uma delas passe a sua comida para a outra. Muitos humanos, ao ouvirem o roncar de estmago do seu semelhante, no possuem a bravura duma simples formiga!

    A rainha produz uma feromona especial que indica s obreiras quando devem comear a criar novas rainhas.Quando uma obreira encontra comida no caminho para o formigueiro, que reconhece atravs de pontos de referncia e da posio do Sol, ela deixa marcas qumicas para que as outras formigas as sigam. Por outro lado, uma formiga esmagada deixa uma feromona de alarme que, se for numa grande concentrao, faz com que as formigas que estiverem prximas entrem em ataque.

    Descobertas cientfi cas realizadas recentemente comprovam o milagre dum versculo do captulo An-Naml A Formiga, segundo o qual ALLAH nos

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    informa acerca da forma como as formigas se comunicam entre si, especialmente quando alertam umas s outras sobre algum perigo iminente e prximo:At que quando chegaram ao vale das formigas, uma das formigas disse: formigas! Entrai em vossas habitaes, a fi m de que Suleiman e seu exrcito no vos esmaguem (ao vos pisar) sem o perceber. [Al-Qurn 27:18]

    A formiga alertara s restantes sobre o perigo que lhes poderia causar, comunicando atravs de quatro anncios em separado:1. formigas! este o primeiro alerta dado pela formiga a fi m de atrair

    rapidamente a ateno das outras; ao receber essa comunicao, as outras formigas fi cam em alerta de forma a perceber outros sinais da mesma formiga falante.

    2. Entrai em vossas habitaes aqui, a formiga falante prossegue com um outro sinal, ordenando s companheiras a tomarem o passo seguinte.

    3. A fi m de que Suleiman e seu exrcito no vos esmaguem (ao pisar) Atravs destas palavras, ela indica o motivo desse perigo s outras formigas.

    4. Sem o perceber Como reaco aos alertas anteriores, as formigas procuram preparar certos tipos de defesa. A formiga falante tambm mostra s outras que elas no necessitam de atacar a fonte do perigo, pois no se trata dum inimigo real. O perigo no provm do ataque ao seu reino, pois Suleiman e seu exrcito no sabiam da existncia das formigas no caminho.

    Segundo a descoberta, esses tipos de alerta so expressados pela emisso de sinais qumicos (feromonas) emitidos pelas glndulas protectoras, que so responsveis por esses efeitos.No caso do estudo em questo, verifi cou-se o comportamento da formiga australiana. Quando estas enfrentam algum perigo, segregam algumas gotculas das glndulas protectoras de forma que as outras formigas corram e faam uma vibrao com as antenas, mostrando que esto em estado de alerta:1. A primeira substncia detectada pelas formigas o aldedo hexanal, que

    atrai a sua ateno e, como resultado, se agitam e levantam as suas antenas procura de outros cheiros.

    2. Quando elas detectam o hexanol (uma espcie de lcool), entram em estado de alerta e correm para todas as direces procura da fonte do perigo.

    3. Quando n-undecano emitido, as formigas so atradas em direco fonte do perigo, fazendo-lhes picar (morder) qualquer objecto que lhes seja estranho.

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    4. Finalmente, quando chegam prximo do alvo, emitem o butiloctenal, que aumenta a sua agresso e prontido para se sacrifi carem.

    A comunicao atravs de substncias qumicas o mtodo de comunicao mais importante para as formigas. Elas emitem diferentes tipos de substncia, tendo cada uma delas um cdigo diferente denotando uma certa mensagem. Estas mensagens so similares como quelas que foram transmitidas pela formiga e relatadas pelo Al-Qurn no versculo acima.As feromonas emitidas pela formiga em situaes como esta so de quatro tipos:1. Aldedo hexanal a primeira substncia que ela emite quando sente

    algum perigo, funcionando como alarme; ao receber essa comunicao, as formigas se juntam num local onde se mantm em alerta e prontas para receber mais informaes. Isto identifi ca-se com a primeira frase pronunciada pela formiga no versculo acima: formigas!.

    2. Ao receber a segunda substncia, hexanol, elas comeam a correr em todas as direces, a fi m de determinar a fonte dessa substncia; a formiga que emite a substncia deve determinar o caminho, para que as restantes no se percam pelo caminho. Foi isso que aconteceu com a formiga em questo, quando informou s outras: Entrai em vossas habitaes, ordenando a irem nessa direco, ou seja, ela encaminhou o movimento das formigas em geral.

    3. A terceira feromona emitida pela formiga o n-undecano, que lhes mostra a causa do perigo. Foi isso que a formiga falante fez ao dizer: A fi m de que Suleiman e seu exrcito no vos esmaguem (ao pisar); ouvindo isto ou recebendo esta substncia, elas se prontifi cam para enfrentar o perigo iminente.

    4. Na quarta fase, a formiga falante emite o butiloctenal, dando ordens e determinando o tipo de defesa, sendo isso que aconteceu na ltima frase, ao dizer: Sem o perceber; desta forma, a formiga preveniu s restantes do ataque, que as levaria morte.

    Depois, o profeta Suleiman sorriu como se estivesse a lhes dizer para no se preocuparem, pois ele j os tinha visto e escutado e que no permitiria que algum mal lhes atingisse.O sagrado Al-Qurn relata esta histria para nos mostrar que estes pequenos insectos possuem um avanado sistema de comunicao. Sabe-se que as

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    formigas apresentam uma vida social bastante organizada e, como exigncia dessa organizao, tm tambm uma rede de comunicao bem complexa.Elas utilizam uma variedade de mecanismos para se comunicar; graas aos rgos sensoriais bem apurados, constitudos por cerca de 500 mil clulas nervosas comprimidas num corpo de apenas 2 a 3 milmetros de comprimento, formam um sistema e constituio que espantam at o prprio ser humano.Devido essa extraordinria rede nervosa, as formigas so capazes de cami-nhar em fi leiras, transportar alimentos, construir os seus ninhos e combater os seus inimigos. Graas s suas habilidades excepcionais, so capazes de sobreviver perfeitamente sem necessitar de apoios.

    Estes factos cientfi cos descobertos recentemente de que as formigas se comunicam entre si atravs da emisso de substncias qumicas especfi cas para determinadas situaes, foram revelados ao profeta Muhammad h mais de 1.400 anos e esto mencionados no sagrado Al-Qurn!Uma formiga pequena que apresenta milhares de clulas nervosas um grande sinal que nos leva f em ALLAH. At mesmo numa criatura como esta, que primeira vista d-nos a entender que no tem outro objectivo na vida para alm de juntar alimentos para sobreviver, ALLAH criou uma estrutura perfeita, um sistema de comunicao superior e uma milagrosa rede de nervos.O facto do sagrado Al-Qurn relatar informaes desta natureza, numa altura em que no havia conhecimentos to detalhados nem mtodos de pesquisa avanados como os actuais, mais uma razo que nos leva a reconhecer de que se trata dum Livro maravilhoso que contm tambm milagres cientfi cos.E o facto das formigas conseguirem estabelecer uma organizao to perfeita comprova que elas actuam sob inspirao de ALLAH o Criador de tudo, e que todas as criaturas vivem sob Sua superviso.

    UM OUTRO EXEMPLO

    Existe um outro insecto chamado exciclop, que vive sozinho e morre imediatamente depois de colocar os ovos. Da, nascem os fi lhotes, sem patas e incapazes de se proteger contra inimigos e de adquirir a prpria alimentao. Mesmo assim, a sua vida exige que vivam cerca de um ano num local fechado, caso contrrio, fi cam sujeitos morte.

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    Acontece que quando chega a altura da desova, a me procura uma rvore ou qualquer outra madeira onde possa cavar um tnel. Depois de pronto, comea a acumular alimentos nele, sufi cientes para servir aos fi lhotes durante um ano. O alimento constitudo basicamente por rebentos de fl ores e outras folhas doces.No mesmo tnel, cria espao para colocar um ovo e depositar o alimento ao lado. Com palha de madeira, faz uma massa (pasta) para construir o tecto que servir de proteco ao ovo; a seguir, traz mais alimento e coloca-o sobre o referido tecto. Depois, coloca outro ovo e assim sucessivamente, at terminar a desova por completo. Por fi m, depois de deixar tudo pronto, a me morre.

    Colocam-se aqui algumas questes: Quem ensinou me que iria morrer depois de colocar todos os ovos, uma vez que ela prpria j nascera sem me? Quem lhe informou que, aps o nascimento, os fi lhotes iriam necessitar de alimento para se auto sustentarem durante um ano, em condies de fraqueza e incapacidade? Quem implantou no seu ntimo a preocupao e capacidade de suportar todo esse transtorno durante o perodo que coloca os ovos? Ser que tudo isto uma obra do acaso?

    A concepo de criaturas e sistemas de vida to perfeitos como os demons-trados acima no pode ser uma obra do acaso. O Al-Qurn diz:Glorifi ca o nome do teu Senhor, o Sublime, que criou (tudo) e aperfeioou, fi xou o destino (de toda a criatura) e a seguir guiou-o.

    [Al-Qurn 87:1-3]

    A principal questo que se coloca : Quem ensinou esses trabalhos espantosos a estas e outras criaturas existentes na natureza?No restam dvidas de que se trata de fenmenos extraordinrios que provam a existncia de um Criador e Harmonizador, que concede a todas as criaturas do Universo, conhecimento sufi ciente para poderem sobreviver de acordo com as suas caractersticas. ftil quando alguns aceitam isso como uma inspirao divina para criaturas insignifi cantes tais como estes insectos, mas que se recusam a aceitar o mesmo facto quando se trata do ser humano, a melhor de todas as criaturas, que precisa muito mais de tal inspirao e revelao.

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    Existem muitos outros exemplos de criaturas que possuem capacidades invulgares e que superam o ser humano em muitos campos, capacidades essas concedidas pelo Criador do Universo atravs de inspirao e revelao.Foi tambm com base na revelao que os profetas receberam Orientaes Divi-nas, para com elas guiarem outras criaturas. O primeiro foi dam e o ltimo foi Muhammad , que recebeu a revelao qual denominamos Al-Qurn.

    AL-QURN A REVELAO DIVINA

    Em termos gerais, Al-Qurn representa a palavra de ALLAH revelada ao profeta Muhammad e encontra-se perante ns na forma de livro, cuja recitao tambm um acto de adorao.Literalmente, uma palavra rabe que signifi ca Leitura e encontra-se bem guardado no Lawh Al-Mahfuz:Mas isto uma leitura, gloriosa, inscrita numa Tbua bem conservada.

    [Al-Qurn 85:21-22]

    De Lawh Al-Mahfuz, o Al-Qurn foi revelado sob duas formas diferentes:1. Uma revelao integral para Baitul Izzah (ou Baitul Mamur):O ms de Ramadhn, nele foi revelado o Qurn. [Al-Qurn 2:185]

    Na verdade, Ns revelmos o Al-Qurn numa noite abenoada.[Al-Qurn 44:3]

    Na verdade, Ns revelmos o Al-Qurn na noite de Al-Qadr.[Al-Qurn 97:1]

    Imm Abu Shama afi rma que esta revelao integral ocorreu para demonstrar a grandeza do Al-Qurn, manifestando aos habitantes celestiais que este seria o ltimo Livro de ALLAH e que posteriormente seria enviado ao ltimo Profeta, para servir de orientao humanidade.

    2. A segunda revelao foi feita gradualmente e consoante as necessidades do profeta Muhammad , que ocorreu durante um perodo aproximado de 23 anos, tendo comeado atravs do Anjo Gabriel, quando o Profeta tinha 40 anos.

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    por essa razo que o Al-Qurn denominado tambm por Al-Furqn, que signifi ca o que separa, pois este Livro veio para separar e distinguir a verdade da falsidade. Para alm disso, os seus versculos foram revelados separadamente, ou seja, de forma gradual e consoante as necessidades que surgiam, e no integralmente, tal como aconteceu com outros livros Divinos.No versculo 4 do captulo 3, ALLAH empregou a palavra Nazzala relati-vamente ao Al-Qurn, indicando a repetio da revelao, enquanto que para outros Livros Divinos, a palavra utilizada foi Anzala, demonstrando uma revelao integral e duma s vez.

    Sheikh Zarqni diz que as duas revelaes do Al-Qurn servem para demonstrar que este Livro est absolutamente livre de qualquer dvida ou suspeita. um livro que mudou a histria religiosa, social e poltica do mundo, algo que nenhum outro livro providenciou a tanta gente e para tanto tempo. Tem respostas compreensivas para questes como: Qual o objectivo da vida? Como se deve viver a fi m de alcanar esse objectivo?

    Assim como a vinda do profeta Muhammad terminou o ciclo da profecia, o Al-Qurn o livro com o qual ALLAH terminou os Livros Divinos e contm todas as leis bsicas da crena, adorao e comportamento contidos nos livros anteriores, com pequenas diferenas nos pormenores:Ele (Deus) prescreveu para vs a mesma religio que havia instrudo a No, a qual te revelamos, a qual havamos ordenado a Abrao, a Moiss e a Jesus, dizendo-lhes: Estabelecei a religio e no divirjais nela (no vos separeis em seitas). insuportvel aos idlatras aquilo para o qual os chamais (esta religio). Deus escolhe para Si quem Ele entende e conduz para Si os que voltarem arrependidos. [Al-Qurn 42:13]

    O sagrado Al-Qurn representa ainda a prudncia e a beleza de expresso e o ltimo guia para a humanidade. Foi revelado segundo trs objectivos principais:1. Servir de guia e orientao aos seres humanos e aos jinns, mostrando-lhes o caminho recto;2. Um milagre vivo para servir de apoio ao profeta Muhammad . Embora o Profeta tenha providenciado vrios milagres, o maior e o mais importante de todos eles foi o Al-Qurn;

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    3. Para ser recitado como meio de adorao, mesmo sem a sua percepo.Na verdade, aqueles que recitam o Livro de Deus e cumprem a orao com assiduidade, e gastam em caridade daquilo que Ns lhes demos, em segredo ou em pblico, contam com um comrcio que nunca falir. Deus lhes pagar os seus salrios aumentados com a Sua graa. Na verdade, Ele Perdoador e Agradecido. [Al-Qurn 35:29]

    ALLAH designou vrios ttulos para o sagrado Al-Qurn, indicando as suas inmeras fi nalidades e abrindo uma nova dimenso no estudo deste Livro. Alguns desses ttulos so: Al-Kitb, Al-Burhn, Al-Hud, Al-Furqn, Az-Zikr, Tazkirah, Al-Hikmah, Ar-Ruh, Ash-Shif, Al-Muhaimin, An-Nur, Al-Haqq, Ahsanul-Hadice, At-Tanzil, Majid, Mubin, Fassl, Mubrak, entre outros.Esses ttulos representam vrias formas do seu argumento, fazendo com que este sagrado Livro seja estudado na base do seu prprio mrito e com uma viso mais alargada.

    PRIMEIRO E LTIMO VERSCULO A SER REVELADO

    Consta no Bukhari que, segundo Aisha (RTA), a revelao teve incio com sonhos verdadeiros; o que o Profeta sonhava realizava-se claramente no dia seguinte.Depois disso, criou-se nele a vontade de adorar o seu Senhor na solido. Para tal, isolava-se das pessoas durante vrias noites e retirava-se j preparado para uma cave chamada Hir, localizada numa montanha nos arredores de Makkah, conhecida hoje por Jabal An-Nur ou Montanha da Luz.Quando acabava o seu mantimento, regressava casa e a sua esposa Khadija (RTA) preparava-lhe tudo novamente; assim, ele voltava outra vez cave.

    Certo dia e na mesma cave, apareceu o Anjo Jibral (Gabriel), enviado por parte de ALLAH, e disse-lhe: Recita.Assustado, o Profeta respondeu: Eu no fui alfabetizado.Conta o Profeta que a seguir, Jibral se aproximou, comprimiu-o ao mximo e de seguida largou-o, obrigando-o novamente a recitar.Ento o Profeta repetiu a resposta anterior: Eu no fui alfabetizado (eu no sei ler).

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    Este cenrio voltou a repetir-se com a mesma afi rmao do Anjo e igual resposta do Profeta , at que Jibral disse:Recita em nome do teu Senhor que criou; criou o Homem de um cogulo.Recita, e o teu Senhor o Mais Generoso.Que ensinou com a caneta; que ensinou ao Homem o que este no sabia.

    [Al-Qurn 96:1-5]

    Com estes versculos se iniciou a revelao; isso aconteceu em Makkah, na 17 noite do ms de Ramadhn, durante o 41 ano do nascimento do Profeta [Trikhul-Musshaf], correspondente ao ano 610 DC [Bukhari, Musslim].ALLAH diz no sagrado Al-Qurn:Por certo, ns revelamos o Al-Qurn numa noite abenoada.

    [Al-Qurn 44:3]

    Ns revelamos o Qurn na noite de Al-Qadr. [Al-Qurn 97:1]

    Ramadhn o ms em que foi revelado o Qurn. [Al-Qurn 2:185]

    Nos primeiros versculos que foram revelados, pode-se ver claramente a impor-tncia do conhecimento (cincia). por essa razo que o Isslam uma religio que incentiva a aprendizagem e combate a ignorncia e o analfabetismo em todas as suas formas.

    Aps a revelao dos versculos mencionados, ela foi interrompida durante cerca de trs anos, perodo este denominado por Fatratul-Wahy. Depois desta paragem, reiniciou-se a revelao sem cessar at morte do Profeta .

    O ltimo versculo a ser revelado foi o seguinte:E temei o Dia em que regressareis para ALLAH; depois, cada alma ser recompensada pelo que ganhou e elas no sero prejudicadas.

    [Al-Qurn 2:281]

    Aps a revelao deste versculo, o Profeta viveu apenas 9 noites e faleceu no ms de Rabiul-Awwal (terceiro do calendrio isslmico), no 10 ano de Hijrah, com os seus 63 anos lunares. Assim, o perodo total que durou a revelao foi de aproximadamente 22 anos e 5 meses [Trikhul-Musshaf].

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    BREVE HISTORIAL DA ALFABETIZAO NA ARBIA

    O Profeta foi enviado para um povo que na sua maioria era Ummy, ou seja, analfabeto, excepto um nmero muito restrito de pessoas que sabia ler e escrever. Em rabe, Ummy deriva de Umm que quer dizer me; o iletrado mereceu este nome pois se encontra ainda na situao em que a me o pariu, sem saber ler ou escrever.No seu conhecido livro Futuhul-Buldn, Allamah Balzari conta que quando o profeta Muhammad foi enviado com a sua misso, havia apenas dezassete pessoas que sabiam ler e escrever; dentre elas, algumas eram quraishitas e outras eram habitantes de Madina e arredores, especialmente judeus. Aqui, havia um professor judeu que alfabetizava as crianas.Eis algumas personagens de Makkah que sabiam ler e escrever e que merecem ser mencionadas: Abu Bakr, Umar, Ussman, Ali, Abu Sufi an, Tal-ha bin Ubaidullah, Muwiyah bin Abi Sufi an, Aban ibn Sad, Ubai ibn Al-Muqri; de entre as de Madina, constam: Umar bin Sad, Ubai bin Kab, Zaid bin Sbit, Mundhir ibn Amr.

    Por serem muito poucas as pessoas que sabiam ler e escrever, ALLAH deno-minou este povo de Ummy:Foi Ele Quem enviou aos analfabetos, um mensageiro escolhido de entre eles, para que lhes recitasse Seus versculos, lhes purifi casse, lhes ensinasse o Livro e a sabedoria, embora vivessem antes no engano manifesto.

    [Al-Qurn 2:62]

    Segundo os historiadores, foi Harb bin Umaiyah, pai de Abu Sufi yn (um famoso Sahbi), quem alfabetizou os quraishitas, uma vez que fazia muitas viagens de negcio, e assim, aprendeu a ler e escrever no estrangeiro, ensinando depois aos quraishitas em Makkah.Contudo, os historiadores divergem na designao do professor de Harb bin Umaiyah; uns acham que foi Abdullah ibn Jadn e outros acham que foi Bishr bin Abdul Malik.

    Transcreve-se de seguida, um pequeno dilogo entre Ziyd bin Anum e Abdullah ibn Abbass, narrado por Imm Ad-Dani e extrado do livro Tarikhul-Musshaf, da autoria de Sheikh Abdul Fattah Al-Qadhi:

  • 38 Parte I Histria do Al-Qurn

    Ziyd perguntou a Abdullah ibn Abbass, contemporneo de Quraish: Vocs escreviam com esta caligrafi a rabe na poca da ignorncia (Jhiliyah)? Abdullah ibn Abbass respondeu: Sim. Ziyd: Quem vos ensinou a escrever? Abdullah: Foi Harb bin Umaiyah. Quem ensinou a Harb bin Umaiyah? Foi Abdullah ibn Jadn. E quem ensinou a Abdullah ibn Jadn? Foram os habitantes de Anbar. E quem ensinou aos habitantes de Anbar? Foi um desconhecido que lhes apareceu, oriundo de Imen, da tribo Kinda. E quem ensinou a esse homem? Al-Khaljan ibn Al-Mauham, escrivo do profeta Hud que costumava escrever a revelao enviada por ALLAH.

    Existe uma outra narrao de Al-Kalbi, relatada por Awna, onde consta que Harb bin Umaiyah aprendeu a ler e escrever com Bishr bin Abdul Malik, contudo, com a mesma fonte inicial: Al-Khaljan, o escrivo do profeta Hud.De facto, o que nos interessa mesmo que foi Harb bin Umaiyah quem ensinou a ler e escrever aos rabes de Makkah.Os eruditos afi rmam que a caligrafi a que Harb bin Umaiyah aprendeu e ensinou aos quraishitas se chamava Al-Khat Al-Anbri, que em Hijz era conhecida por Al-Jazm ou Al-Hijzi. Foi essa mesma caligrafi a utilizada pelos escrives nas suas cartas, poemas, etc.

    A alfabetizao continuou de forma muito limitada na Pennsula Arbica, at altura em que o Profeta emigrou para Madina, quando comeou a encorajar e incitar a todos para aprenderem a ler e escrever, utilizando todos os meios possveis.

    Quando os muulmanos derrotaram os quraishitas na Batalha de Al-Badr, a primeira batalha decisiva travada contra os descrentes, setenta lderes e outros descrentes caram nas mos dos muulmanos.Para a sua libertao, o Profeta imps certas condies; assim, quem no tivesse a possibilidade de pagar mas que fosse alfabetizado, seria liberto se ensinasse dez crianas de Madina a ler e escrever.

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 39

    A alfabetizao expandiu-se mais ainda com o alastramento do Imprio Issl-mico por todos os horizontes onde chegava o Isslam e, em consequncia disso, nesse curto espao de tempo, o Profeta j tinha mais de quarenta escrives.

    Mais tarde, quando o Al-Qurn foi compilado na poca do primeiro Khalifa Abu Bakr e reproduzido em cpias na poca de Ussman , o segundo Khalifa do Isslam, foi utilizada a mesma caligrafi a (Al-Khat Al-Anbri) e continuou assim at o alastramento do Isslam. Em Kuf, alguns escrives se dedicaram tanto caligrafi a que a aperfeioaram at que ela se distinguiu da anterior, tomando uma nova forma e nome: Al-Khat Al-Kufi . Assim, comeou a se redigir o Al-Qurn nesta caligrafi a.Depois, apareceram outros escrives no perodo Abbassida que criaram uma caligrafi a mista entre as duas atrs mencionadas, que hoje considerada como base para a caligrafi a rabe.A caligrafi a desenvolveu-se bastante e tomou vrias formas, continuando a ser aperfeioada e ornamentada, assim como se pode ver nos dias de hoje.

    Em todos os pontos do Imprio Isslmico, as autoridades muulmanas trabalhavam arduamente para a expanso da alfabetizao, para provar que o Isslam e a cincia so dois companheiros inseparveis e que a nica religio que luta para a elevao do nvel do Homem para o topo da glria. por essa mesma razo que o Al-Qurn est cheio de cincia e o Isslam considera uma obrigao para todo muulmano adquiri-la, mesmo que para tal tenha que percorrer grandes distncias sua procura.

    Existem muitas virtudes para aquele que deixa a sua casa com inteno de aprender, seja algo religioso ou no. Tomemos como exemplo, alguns ditos do Profeta a esse respeito: Procurar progredir intelectualmente no um privilgio mas sim dever de todo muulmano, seja homem ou mulher; Despender mais tempo a aprender melhor do que passar muito tempo a orar (facultativamente); prefervel ensinar ou aprender durante uma hora do que passar toda a noite a rezar; Quem procurar o caminho do saber, ALLAH facilitar a sua entrada no Paraso. Os anjos estendem as suas asas em honra ao estudante;

  • 40 Parte I Histria do Al-Qurn

    A sapincia a melhor via para se atingir uma verdadeira liberdade, enquan-to que a ignorncia o pior tipo de servido e o maior inimigo do Homem; A sabedoria o tesouro que todo o crente deve procurar e onde a encontrar, deve tom-la.

    O Al-Qurn d tanta nfase educao ao ponto de ALLAH jurar pela caneta, assim como consta no primeiro versculo do captulo 68: ... pelo Kalam (caneta) e pelo que eles escrevem.Consta ainda nos Hadices de que a primeira coisa a ser criada por ALLAH foi a caneta e que o valor da mo em relao ao p por esta ser utilizada para escrever, pois se no fosse esse o seu objectivo, ela no se diferenciaria do p.

    RAZES DA REVELAO GRADUAL DO AL-QURN

    J se referiu que o Al-Qurn foi revelado gradualmente durante cerca de 23 anos.Certas vezes, Jibral trazia um versculo pequeno ou parte de um, assim como foi o caso de: A no ser aqueles que so invlidos. Estas palavras fazem parte de um longo versculo que pertence ao captulo An-Niss [4:95]; todavia, estas palavras vieram posteriormente parte, pois quando foi revelado no se igualam os crentes que permanecem em casa, ausentando-se do combate, um Sahbi que era cego lamentou a sua invalidez e ento ALLAH revelou as tais palavras.

    Noutras ocasies, a revelao chegava com vrios versculos ou mesmo captulos completos, como foi o caso de Al-Ftiha, Al-Assr, Al-Kauar, Al-Ikhlss, Al-Muawazatain, entre outros, e Al-Anm um captulo longo que foi revelado integralmente e duma s vez [Ibn Kacir, Vol. II].Temos ainda exemplos em que eram reveladas apenas parte dos captulos, como foi o caso do Suratul-Alaq, em que foram revelados os primeiros cinco versculos numa nica vez.

    Pode-se questionar sobre a razo de ALLAH revelar o Al-Qurn em partes e no duma s vez, pois os outros Livros Divinos foram revelados duma s vez na sua ntegra. Esta pergunta foi tambm feita pelos idlatras, assim como consta no sagrado Al-Qurn:

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 41

    E aqueles que no crem dizem: Porque que o Qurn no lhe foi revelado duma s vez? Ele foi revelado desta forma para com ele fortalecer o teu corao, e Ns recitmo-lo lenta e distintamente. [Al-Qurn 25:32]

    E dividimos o Qurn em partes, para que recites aos humanos pouco e pouco, e o fi zemos descer gradualmente (segundo as circunstncias).

    [Al-Qurn 17:106]

    Em resposta a estas questes, ALLAH no desmentiu a forma de revelao dos Livros anteriores, mas deu os motivos da revelao gradual do Al-Qurn. De seguida, citam-se alguns deles:a) Para fortalecer o corao do profeta Muhammad , pois ele enfrentava

    massacres e perseguies constantes por parte dos descrentes; assim, as repetidas vindas de Jibral com a revelao do Al-Qurn lhe serviam de consolo, aliviavam as afl ies e fi rmavam o seu corao, criando nele mais nimo pelo contacto com ALLAH.s vezes, ALLAH fi rmava-o revelando histrias de profetas e mensageiros anteriores consoante a necessidade, os incmodos que eles enfrentavam na divulgao da verdade e mostrando o fi m dos bons e dos maus:Tudo o que te revelamos das histrias dos mensageiros destina-se a fortalecer o teu corao. [Al-Qurn 11:120]

    A revelao das histrias dos profetas anteriores servia ainda para alertar os descrentes acerca do seu fi m, que poder ser semelhante caso eles continuem a insistir na teimosia e na descrena:Ento, eles no esperam seno dias iguais aos dos que passaram antes deles? [Al-Qurn 10:102]

    Os vossos descrentes so melhores do que aqueles? [Al-Qurn 54:43]

    Se eles virarem as costas e se afastarem, diz-lhes: Advirto-vos da vinda dum raio igual ao que foi enviado aos povos de d e Samud.

    [Al-Qurn 41:13]

    Outras vezes, revelava versculos que encorajavam a fi rmeza e pacincia e proibia-o de se preocupar devido rejeio do povo. Revelava ainda versculos

  • 42 Parte I Histria do Al-Qurn

    de advertncia e ameaa aos renegados e provas contra eles, como forma de refutar as suas falsidades no que concerne ao Shirk, recusa da Ressurreio, da vida aps a morte, etc.

    b) Se o Al-Qurn fosse revelado por completo duma s vez, tornaria obrigatria a sua aplicao e prtica imediata e essa mudana brusca seria um transtorno enorme, o que contrria natureza fcil do Isslam.

    c) A revelao do sagrado Al-Qurn s poderia ser gradual, pois contm respostas s perguntas feitas pelas pessoas, respeitantes a vrias passagens, ocasies e assuntos.

    d) Facilitava ainda a sua compreenso e memorizao para os crentes, pois com a reverso ao Isslam, eles se encontravam em constantes perturbaes (guerras, preocupaes familiares, etc.).

    e) Como o profeta Muhammad era iletrado, se o Al-Qurn fosse revelado no seu todo e de uma s vez, a sua memorizao tornar-se-ia difcil.

    f) Uma vez que um nico versculo ou o Al-Qurn no seu todo representa um milagre, de cada vez que fosse revelado, o milagre se renovava e relanava-se assim o desafi o contra os descrentes que tentassem produzir algo semelhante.

    g) O objectivo do Al-Qurn foi o de educar e preparar uma nova gerao para assumir a liderana do mundo, no seio de corruptos, e hoje, sabe-se que apenas uma educao e preparao gradual que so efi cazes.Consta no sagrado Al-Qurn:Deus prometeu queles de entre vs que crem e praticam o bem, faz-los governantes na terra, assim como fez com aqueles que os antecederam; prometeu-lhes estabelecer fi rmemente a religio que escolheu para eles e dar-lhes a segurana (tranquilidade) aps o medo em que viviam, (na condio de) que Me adorem e nada Me associem. Mas aqueles que depois disto renegaram, esses so os transgressores. [Al-Qurn 24:55]

    SABABUN-NUZUL MOTIVO OU CAUSA DA REVELAO

    O principal motivo pelo qual ALLAH revelou o Al-Qurn foi para nos guiar e mostrar o caminho recto, assim como consta:Esse o Livro; no h dvida alguma nele! Um Guia para aqueles que temem o Senhor. [Al-Qurn 2:2]

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 43

    ALLAH quer esclarecer-vos e guiar-vos pelos caminhos daqueles que vos precederam e aceitar vosso arrependimento. E ALLAH o Sbio e Prudente.

    [Al-Qurn 4:26]

    No sagrado Al-Qurn existem dois tipos de versculos:a) Aqueles que ALLAH revelou para as criaturas e que no so resposta a

    alguma pergunta nem esto ligados a alguma passagem; versculos deste gnero so inmeros e pode-se dizer at que constituem a maioria.

    b) Aqueles que foram revelados em resposta a alguma pergunta dirigida ao Profeta ou que esto ligados a alguma passagem; segundo os Mufassirin (comentadores do Al-Qurn), a isso se chama Sababun-Nuzul ou motivo da revelao.

    Existem muitos exemplos de versculos que tm Sababun-Nuzul e o conhecimen-to destes de extrema importncia. Muitos versculos no fi cam completamente esclarecidos enquanto no se conhecer o motivo da sua revelao.Por exemplo, pode aparecer num versculo uma palavra tal como Fi Sabilillah, que pode ter dois signifi cados: todos os bons actos no geral ou apenas o Jihd. Somente com o conhecimento do Sababun-Nuzul que se poder defi nir o signifi cado pretendido no versculo em causa.

    Apesar dos motivos da revelao estarem ligados a casos especfi cos que ocorreram na altura, a sua regra geral e aplica-se a todos aqueles que se encontrem em situao semelhante, pois o Al-Qurn um cdigo de vida completo para o resto dos nossos dias e para todas as eras e locais.De seguida, menciona-se alguns exemplos que servem para comprovar todos estes factos:

    1. Na poca da ignorncia, um Sahbi de nome Marssad bin Abi Marssad Ghanawi tinha contactos com uma idlatra chamada Unnq. Depois de ter abraado o Isslam, ele emigrou para Madina mas a referida mulher continuou em Makkah.Mais tarde, quando Marssad foi para Makkah devido a algum servio e a tal mulher o viu, convidou-o para o acto vergonhoso, ao que Marssad recusou dizendo: Entre mim e tu existe uma barreira que o Isslam, mas se quiseres e aps o consentimento do Profeta , poderei me casar contigo.

  • 44 Parte I Histria do Al-Qurn

    Depois de regressar a Madina, quando Marssad pediu autorizao ao Profeta para se casar com tal mulher, foi revelado o seguinte versculo, proibindo deste modo o casamento com idlatras:No caseis com (mulheres) idlatras at que elas se revertam (ao Isslam); uma escrava crente melhor (prefervel) do que uma idlatra (livre), mesmo que esta vos agrade mais. E no deis as vossas fi lhas em casamento aos idlatras enquanto estes no se reverterem (ao Isslam); um escravo crente melhor (prefervel) do que um idlatra (livre), mesmo que este vos agrade mais. Eles convidam-vos para o Fogo, e ALLAH, com a Sua benevolncia, convida-vos para o Paraso e para o perdo; e Ele esclarece os Seus versculos aos humanos, para que eles os meditem. [Al-Qurn 2:221]

    2. Antes da proibio do consumo de bebidas alcolicas, um Sahbi comeou a fazer o Salt no estado de embriaguez e recitou erradamente o captulo 109 de tal forma que a traduo se tornou vs descrentes, eu adoro o que vs adorais em vez da forma correcta eu no adoro o que vs adorais.Ento, foi revelado o seguinte versculo: vs que credes; no vos aproximeis da orao (Salt) quando estiverdes embriagados, at que saibais o que dizeis. [Al-Qurn 4:43]

    3. Algumas pessoas vieram ter com o Profeta e perguntaram-no acerca de trs coisas: a alma, os companheiros da caverna e Zul-Qarnain. O Profeta disse: Responder-vos-ei amanh, esquecendo-se de pronunciar Insh-Allah (se Deus quiser).Devido a esse esquecimento, ALLAH atrasou as respostas por um perodo de quinze dias e deu uma educao ao Profeta :E nunca digas de coisa alguma farei isto amanh sem acrescentar se Deus quiser e, quando te esqueceres, lembra-te do teu Senhor e diz: Talvez o meu Senhor me guie para um caminho que mais prximo da rectido do que este.

    [Al-Qurn 18:23-24]

    E sobre a realidade da alma, ALLAH revelou o seguinte:Diz, a alma est sob a ordem do meu Senhor. [Al-Qurn 17:85]

    4. Quando os Sahbah faziam certas perguntas com o objectivo de aprender algo acerca dum determinado assunto, ALLAH revelava a resposta ao Profeta :

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    Eles perguntam-te sobre o combate no ms sagrado; responde-lhes: Combater nele um grande pecado. [Al-Qurn 2:217]

    E perguntam-te o que devem gastar (caridade facultativa); responde: o que for suprfl uo. [Al-Qurn 2:219]

    Eles perguntam-te sobre as Luas Novas; responde-lhes: So marcos de tempo para os homens e para a peregrinao. [Al-Qurn 2:189]

    Quando perguntaram acerca da relao sexual com as esposas que estejam no seu perodo menstrual, foi revelado o seguinte:Consultam-te ( Muhammad) acerca da menstruao; diz-lhes: Isso um Az (algo malfazente ao ter relaes sexuais nesse perodo). Abstende-vos das mulheres durante a menstruao e no vos aproximeis delas at que (tomem o banho e) se purifi quem (desse estado). Portanto, quando elas estiverem purifi cadas, aproximai-vos delas como ALLAH vos ordenou, porque ALLAH ama os que se arrependem e ama os que se mantm limpos. [Al-Qurn 2:222]

    5. Certa vez um Sahbi encontrou a sua mulher a praticar o adultrio. Ento, foi ter com o Profeta e perguntou-lhe o que deveria fazer com ela. O Profeta pediu para que ele apresentasse provas, caso contrrio, seria castigado e aoitado com oitenta chicotadas, assim como ALLAH o instruiu:Os que acusam de adultrio as mulheres castas, em seguida, no apresentam quatro testemunhas, castigai-os com oitenta chicotadas e nunca mais aceiteis o seu testemunho, e esses so os perversos.E os que acusam de adultrio as suas prprias esposas, sem apresentarem testemunhas alm de si mesmo, ento o testemunho de cada um deles ser de ele jurar quatro vezes por ALLAH que dos verdadeiros (na sua acusao), e o quinto (juramento) consistir em invocar para si a maldio de ALLAH, se for dos mentirosos. [Al-Qurn 24:4-6]

    6. Perguntaram ao profeta : Quando ser o Quiymat, quando ir chover, o que est no ventre da me, o que a pessoa ganhar no dia seguinte e em que terra morrer? ALLAH revelou a seguinte resposta:Por certo, ALLAH possui o conhecimento da Hora (quando ocorrer); Ele faz descer a chuva e sabe o que est nos ventres das mes; ningum sabe o

  • 46 Parte I Histria do Al-Qurn

    que ganhar amanh e ningum sabe em que terra morrer. ALLAH Sbio e est a par de tudo. [Al-Qurn 31:34]

    7. Algumas pessoas perguntaram se ALLAH estava prximo ou longe, a fi m de Lhe invocarem em voz baixa ou alta, ao que foi revelado o seguinte versculo:E quando os Meus servos te perguntarem a Meu respeito, por certo, estou prximo, atendo splica do suplicante, quando Me implora. Que eles tambm respondam o Meu apelo e creiam em Mim, para que possam ser levados pelo bom caminho. [Al-Qurn 2:186]

    8. Quanto direco do Quibla, o Profeta estava ansioso em virar-se para o Kbah ao invs de Baitul-Maqdass (Jerusalm):Vimos o revirar da tua cara para o cu, Ns vamos virar-te para um Quibla que te agradar. Volta, pois, a tua cara (ao cumprires o Salt) na direco da Mesquita Sagrada (de Makkah). E vs todos, crentes, onde quer que estejais, voltai as vossas caras para essa direco. [Al-Qurn 2:144]

    9. No incio, muitos receavam que caminhar entre as colinas de Saf e Marw refl ectia a adorao de dolos, por se tratar dum ritual que se praticava na era da ignorncia, pelo que ALLAH esclareceu atravs do seguinte versculo:As colinas de As-Saf e Al-Marw fazem parte dos lugares sagrados de ALLAH; portanto, quem fi zer o Haj ou Umrah, no cometer pecado algum em percorrer a distncia entre elas. E quem faz uma boa aco voluntariamente, por certo, ALLAH Agradecido e Omnisciente.

    [Al-Qurn 2:158]

    10. Muitos julgam que praticar somente o Salt pode garantir-lhes o sucesso e um bom fi m; contudo, a resposta est no seguinte versculo:A piedade no consiste somente em voltar as vossas caras para o oriente e para o ocidente; a verdadeira piedade est naquele que cr em ALLAH, no Dia do Juzo Final, nos anjos, no Livro e nos profetas, que d dos seus bens em caridade, apesar de gostar deles, aos parentes, aos rfos, aos necessitados, aos viajantes, aos mendigos, em resgate de cativos (prisioneiros), que cumpre o Salt, que paga o Zakt, cumpre os compromissos contrados, que paciente na adversidade, no infortnio e em tempo de guerra. Esses so aqueles que so verdicos e esses so os piedosos. [Al-Qurn 2:177]

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    11. Quando era prtica de certas pessoas jurar em no fazer algo de bom a favor de algum e, devido ao juramento, mantinham a sua palavra, ento foi revelado o seguinte:E no tomei (o nome de) ALLAH como desculpa, em vossos juramentos para no serdes bondosos, piedosos e no fazerdes pazes entre as pessoas. ALLAH escuta e sabe de tudo. [Al-Qurn 2:224]

    O que signifi ca que no se deve fazer um juramento que impea a pessoa de praticar o bem e, caso tenha feito, ento deve-se quebr-lo, praticando o bem que se jurou no fazer e pagando o Kaffra (expiao) pelo mesmo.

    12. Quando os Sahbah ouviram o versculo:E se manifestardes o que est no vosso intimo ou guardardes escondido, em qualquer caso, ALLAH vos pedir contas de tudo isso. [Al-Qurn 2:284]

    tiveram medo de prestar contas de tudo aquilo que pudesse passar no seu ntimo e mencionaram o seu temor ao Profeta , ao que lhes disse para manterem a calma at que chegasse a revelao:ALLAH nunca exige de alma alguma alm da sua capacidade; para ela, somente o que ganhou, e contra ela, somente o que cometeu de mau.

    [Al-Qurn 2:286]

    13. Certa vez, enquanto o Profeta atendia exclusivamente alguns lderes quraishitas na esperana destes aceitarem o Isslam, apareceu um Sahbi cego de nome Abdullah ibn Umm-Maktum que, nesse mesmo instante, pediu para falar com ele a fi m de aprender algo. No entanto, o Profeta no gostou dessa atitude e no lhe ligou. Ento, ALLAH revelou os primeiros dez versculos do captulo 80:Ele franziu as sobrancelhas e se afastou, s porque o cego foi ter com ele...

    [Al-Qurn 80:1-2]

    14. Quando o Profeta recebeu a ordem para transmitir a mensagem do Isslam aos seus familiares, juntou a todos e comeou a convidar-lhes. Entretanto, Abu Lahab disse irritado: Morte para ti! Foi para isso que nos juntaste?Ento, ALLAH revelou o captulo 111, que comea com o versculo: Que peream as duas mos de Abu Lahab, e que ele tambm perea.

  • 48 Parte I Histria do Al-Qurn

    VERSCULOS DE MAKKAH E MADINA

    Depois de ser honrado com a profecia, o Profeta viveu em Makkah aproximadamente 13 anos; depois disso, emigrou para Madina onde viveu mais 10 anos e veio a falecer. Portanto, existem partes do Al-Qurn que foram reveladas em Makkah, outras em Madina e outras noutros locais.Os leitores mais atentos j devem ter reparado que no incio de alguns captulos do Al-Qurn vem escrito Makkiyah e no de outros encontra-se escrito Madaniyah.

    Geralmente, as pessoas pensam que Makkiyah quer dizer revelado na cidade de Makkah e Madaniyah revelado na cidade de Madina, o que est errado.O termo Makkiyah utilizado para todo o captulo ou versculo que foi revelado antes da emigrao do Profeta para Madina e os mesmos podem no ter sido revelados na cidade de Makkah, como por exemplo, todos os captulos ou versculos que foram revelados em Min, Arafah ou durante a ascenso (Mirj) e at mesmo os versculos que foram revelados durante a emigrao.Da mesma forma, Madaniyah utilizado para designar todos os captulos ou versculos que foram revelados aps a emigrao, mesmo que no tenham sido revelados na cidade de Madina. Para este caso, podem-se assinalar os versculos que foram revelados durante as viagens para fora de Madina, durante a conquista de Makkah, em Hudaibiyah ou mesmo na cidade de Makkah e arredores.

    Por exemplo, o versculo seguinte foi revelado numa Sexta-feira em Arafah, mas Madaniyah:Hoje completei para vs a vossa religio, aperfeioei a Minha graa sobre vs e aprovei para vs o Isslam (a submisso) como religio.

    [Al-Qurn 5:3]

    Tomemos tambm o seguinte versculo como exemplo, que considerado Madaniyah enquanto que foi revelado frente do Kbah, durante a conquista de Makkah [Al-Burhn, Manhilul-Irfn]:ALLAH ordena-vos que restitus os depsitos aos seus donos, e que julgueis com justia quando julgardes entre os humanos; quo excelente isso a que ALLAH vos exorta! Na verdade, ALLAH ouve tudo e v tudo.

    [Al-Qurn 4:58]

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 49

    H captulos que so considerados inteiramente Makkiyah ou inteiramente Madaniyah, como por exemplo, o Suratul-Muddassir, que inteiramente Makkiyah e o Surat l-Imran que completamente Madaniyah.

    Existem outros captulos que so denominados Makkiyah mas tm um ou mais versculos Madaniyah e vice-versa. Por exemplo, o Suratul-Araf Makkiyah mas contm versculos Madaniyah (163 a 172), enquanto que o Suratul-Haj Madaniyah mas tem alguns versculos Makkiyah (52 a 56).Portanto, conclui-se deste modo que um determinado captulo considerado Makkiyah ou Madaniyah dependendo da maioria dos seus versculos.

    ALGUMAS PARTICULARIDADES DOSVERSCULOS MAKKIYAH E MADANIYAH

    Conhecer os versculos Makkiyah ou Madaniyah muito importante, pois isso ajuda a perceber melhor a histria do Al-Qurn e as datas relacionadas s leis reveladas, as revogadas e as activas. A nica forma de conhec-los atravs das narraes autnticas dos Sahbah .

    Depois de fazerem um estudo aprofundado dos versculos, os telogos chegaram a certas concluses:a) Todo o captulo em que esteja mencionada a palavra Kall Makkiyah,

    que se encontra por 33 vezes em quinze captulos da segunda metade do Al-Qurn, cuja maioria foi revelada em Makkah.

    b) Todos os captulos que tm versculos contendo Sajdah (prostrao) so Makkiyah.

    c) excepo do Suratul-Baqarah, todos os captulos que contm passagem de dam e Ibliss (Satans) so Makkiyah; os captulos que falam de fi lhos de dam tambm so Makkiyah.

    d) Todos os captulos que comeam com letras como H-Mim, T-H, etc., so Makkiyah, exceptuando os captulos Al-Baqarah e l-Imran que so Madaniyah; quanto ao Suratur-Rad h diferena de opinio.

    e) Todos os captulos que permitem o combate (guerra) ou falam das suas regras so Madaniyah.

    f) Todos os versculos que falam dos Munfi quin (hipcritas) so Madaniyah.

  • 50 Parte I Histria do Al-Qurn

    g) Geralmente, nos captulos Makkiyah vem Y Ayyuhannss e nos Madaniyah vem Y Ayyuhallazina manu, pois em Makkah predominavam os descrentes. Contudo, no se trata duma regra geral pois, por exemplo, nos captulos Al-Baqarah e An-Niss (que so Madaniyah) vem Y Ayyuhannss Ubudu Rabbakumullazi Khalaqakum e Y Ayyuhannssut-Taqu Rabbakum.

    h) Geralmente, os versculos e captulos Makkiyah so curtos e abreviados, enquanto que os Madaniyah so longos e pormenorizados.

    i) No geral, os tpicos dos captulos Makkiyah so: monotesmo, profecia, ordem de pacincia ao profeta Muhammad , narraes de povos anterio-res, panorama do Fim do Mundo, Ressurreio, enquanto que os tpicos dos Madaniyah so: leis familiares e civis, crimes, regras de combate e cdigos de vida.

    j) Na sua maioria, os captulos Makkiyah falam de idolatria e idlatras, enquanto os Madaniyah falam dos adeptos do Livro e dos hipcritas.

    Os primeiros captulos Makkiyah consistem em frases curtas e concisas e foram revelados numa linguagem muito fl uente e efectiva de forma a se adequarem s pessoas a quem primeiramente foram dirigidos. So ricos em eloquncia, ritmo potico e ideias elevadas e brilhantes.Os captulos Makkiyah descrevem a Unicidade e Majestade de ALLAH e os horrores do Dia do Julgamento, denunciam a idolatria e prometem recompensas generosas (Paraso) aos que praticam boas aces. So repletos de referncias ilustrativas da natureza, comeando a maioria deles com um ou vrios juramentos.

    Quando o Profeta e os Sahbah tiveram que deixar Makkah devido intensa agressividade por parte dos quraishitas, partiram para Madina e encontraram aqui um novo ambiente. bvio que os captulos e versculos que fossem revelados aqui estivessem em conformidade com as ocorrncias do local.Portanto, os captulos Madaniyah so longos e narram eventos com mais por-menores, treinam os muulmanos na metodologia e na conduta sobre diferentes assuntos da vida e proporcionam passos necessrios para a organizao duma comunidade s e duma boa civilizao.Chamam ainda os adeptos dos livros, os hipcritas e os descrentes para o caminho recto e tambm traam regulamentos morais e reformas sociais.

  • Histria do Al-Qurn, do Hadice e da Bblia 51

    COMPILAO E PRESERVAO DO AL-QURN

    Ao contrrio do Torah, livro sagrado escrito em tbuas e enviado ao profeta Mussa (Moiss), que sabia ler e escrever, o Al-Qurn foi revelado ao profeta Muhammad atravs da recitao, pois ele era iletrado e no sabia ler nem escrever, assim como consta no Al-Qurn:E se fi zssemos descer sobre ti ( Muhammad) um livro escrito em pergaminho, e eles o tocassem com as suas mos, os que descrem diriam: Isto pura magia.

    [Al-Qurn 6:7]

    J se referiu que o Al-Qurn no foi revelado duma s vez, mas sim gradualmente. No entanto, na poca do Profeta , no era possvel conserv-lo na forma de livro logo priori, sendo portanto, a conservao do Al-Qurn baseada somente atravs da memorizao.Tal como muitos rabes naquela poca, o Profeta tambm era iletrado e por isso, preocupava-se mais com a memorizao dos versculos quando se iniciou a revelao, repetindo-os constantemente para no esquec-los.Ento, ALLAH revelou alguns versculos atravs dos quais o informou de que para a memorizao dos versculos, no seria necessrio a sua repetio precipitada, pois ALLAH criaria nele uma memria extraordinria, bastando para tal recit-los apenas uma nica vez:No movimenta demais a tua lngua para te apressares na recitao do Qurn, porque a Ns incumbe a sua compilao e a sua leitura e, quando a lemos, segue a sua leitura; a Ns tambm compete a sua explicao.

    [Al-Qurn 75:16-19]

    No te apresses ( Muhammad) em recitar o Qurn antes de se completar a sua revelao, e diz: Senhor meu! Aumentai-me no conhecimento.

    [Al-Qurn 20:114]

    Ns far-te-emos recitar ( Muhammad) de modo que nada esqueas dele (do Al-Qurn) excepto aquilo que ALLAH quiser (os versculos que ALLAH quiser revogar, esses ALLAH lhe far esquecer). [Al-Qurn 87:6-7]

    Deste modo, o corao e a mente do Profeta se tornaram na fonte e tesouro mais seguro do Al-Qurn, onde no era possvel existir qualquer falha, alterao,

  • 52 Parte I Histria do Al-Qurn

    adio ou diminuio. Durante a noite, o Profeta mantinha-se acordado na orao, recitando o Al-Qurn at que os seus ps fi cassem inchados.Apesar disso, todos os anos durante o ms de Ramadhn, ele fazia reviso dos versculos revelados, recitando-os perante Jibral . No ano em que veio a falecer, fez duas vezes a reviso do Al-Qurn.O Profeta disse: Aisha! O Jibral fazia a reviso do Al-Qurn comigo todos os anos uma vez, mas neste ano, fez reviso do Al-Qurn duas vezes; acho que o tempo de eu deixar este mundo j chegou (i., a minha misso j acabou).

    [Bukhari]

    O Profeta no recitava o Al-Qurn apenas quando estivesse a ss, mas tambm para as pessoas o escutarem, recitando em voz alta e calmamente. Ele explicava o signifi cado dos seus versculos e incentivava as pessoas a memoriz-los.Os Sahbah tinham tanta vontade de aprender e memorizar o Al-Qurn que at competiam uns com os outros. Deixavam o prazer da dormida e descanso durante a noite, preferindo recitar o Al-Qurn at ao amanhecer. Eram considerados melhores os que tinham mais versculos memorizados ou que percebiam mais os seus signifi cados, chegando-se ao ponto de algumas mulheres exigirem como dote no acto de casamento, que os maridos lhes explicassem ou ensinassem alguns versculos do Al-Qurn.

    Ubdah ibn Smit relata: Quando algum emigrava de Makkah para Madina, o Profeta recomendava a um de ns para que o ensinssemos o Al-Qurn. No Massjid Nabawi, criou-se tanto eco devido recitao do Al-Qurn (uns a aprender outros a ensinar) que o Profeta teve que ordenar s pessoas a baixarem a voz, para no cometerem erros [Manhilul-Irfn].

    Assim