HISTÓRIA E ESTÓRIA NA NARRATIVA DE GUIMARÃES ROSA · PDF...

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  • MEMENTO - Revista de Linguagem, Cultura e Discurso

    Mestrado em Letras - UNINCOR - ISSN 1807-9717

    V. 07, N. 2 (julho-dezembro de 2016)

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    HISTRIA E ESTRIA NA NARRATIVA DE GUIMARES ROSA

    Fabola Procpio Sarrapio 1

    RESUMO: A discusso entre as semelhanas, diferenas e inter-relaes entre histria e literatura,

    realidade e fico, permeia as obras de muitos especialistas de ambas as reas h muito tempo.

    Vocbulos como estria e histria foram e ainda so, em alguns contextos usados, no Brasil, com

    diferentes significados: estria referir-se-ia a fices, algumas vezes mirabolantes e inverossmeis, e

    histria trataria do real. Na obra rosiana, a Histria e a Estria coexistem em perfeita harmonia. As

    fronteiras entre o histrico e o mito so tnues, quase imperceptveis. Em suas narrativas, a realidade

    brasileira, a religiosidade, as tradies populares as histrias esto inseridas nas estrias de

    forma suave e inseparvel. Neste artigo pretendemos refletir sobre as possveis relaes, empreendidas

    por Guimares Rosa, entre a histria e a estria nos contos Nas margens da alegria e Os cimos, de

    Primeiras estrias, livro publicado em 1962.

    PALAVRAS-CHAVE: Estria, histria, Guimares Rosa.

    ABSTRACT: The discussions about the similarities, differences and inter-relationships between

    History and Literature, reality and fiction, has been an issue currently presented by researches of many

    experts from both areas for a long time. Words like story and history were and still are, in some

    contexts used, in Brazil, with different meanings: the story would refer to fictions, sometimes

    fantasizing and unlikely, and history would refer to the real. In Guimaraes Rosa's works, the History

    and the Story coexist in perfect harmony. The boundaries between history and myth are blurred,

    almost imperceptible. In their narratives, the Brazilian reality, the religiosity, the popular traditions

    the stories are inserted in the stories smoothly and inseparably. In this article we intend to reflect

    about the possible relationships, undertaken by Guimares Rosa between History and story in the short

    stories In the margins of joy and The heights of the First stories, a book published in 1962.

    KEYWORDS: Story, History, Guimares Rosa

    Primeiras Estrias, o ttulo do livro de Guimares Rosa em que se encontram os

    contos que constituem o corpus deste artigo, nos leva reflexo sobre o termo estria e sua

    relao com histria.

    Os vocbulos estria e histria foram e ainda so, em alguns contextos usados, no

    Brasil, com diferentes significados: estria referir-se-ia a fices, algumas vezes mirabolantes

    e inverossmeis, e histria trataria do real. No entanto, segundo Antonio Carlos Secchin

    (2007, p. 209),

    A palavra estria est registrada no Dicionrio ortogrfico da lngua

    portuguesa da Academia Brasileira de Letras e j constava no Dicionrio de

    Moraes (1813) como sinnimo de histria. Luiz da Cmara Cascudo diz que

    a acepo de conto popular foi proposta por Joo Ribeiro e Gustavo Barroso

    1 Mestranda em Letras pela Universidade Vale do Rio Verde UNINCOR. E-mail: [email protected]

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    em artigo do Correio da Manh (22-XI-1942) para distingui-la de Histria, a

    exemplo dos ingleses que dizem history e story (Dicionrio do folclore

    brasileiro I. Rio de Janeiro: INL, 1962, 298-299).

    Em 1919, Joo Ribeiro, gramtico da Academia Brasileira de Letras, prope o

    emprego de estria para diferenciar os contos infantis ou irreais em contraposio a histria,

    utilizado para designar fatos considerados reais. Porm, em 1943, com a reforma ortogrfica,

    foi eliminada tal distino grfica, recomendando-se o uso de histria em qualquer situao:

    realidade ou fico. (Cf. MORENO, 2009, s/p)

    A palavra estria, portanto, pouco utilizada na atualidade, uma vez que histria

    pode servir para descrever tanto narrativas reais quanto narrativas ficcionais. Dessa forma,

    para distinguir os dois termos necessria a anlise por meio do contexto de sua utilizao.

    A discusso entre histria e literatura, realidade e fico, permeia as obras de muitos

    autores. O filsofo grego Aristteles, considerado o criador do pensamento lgico,

    estabeleceu que cabe ao historiador tratar daquilo que realmente aconteceu, enquanto ao

    escritor daquilo que poderia ter acontecido, ou seja, o primeiro trata da verdade e o segundo,

    da verossimilhana. (PESAVENTO, 2000, p.33-34)

    Somente no sculo XIX a separao entre esses discursos parece ter ocorrido de fato,

    porm, segundo Antnio Esteves, em seu livro O romance histrico brasileiro

    contemporneo, tal divrcio nem sempre foi muito claro ou de longa durao (Cf.

    ESTEVES, 2010, p.18), pois

    A partir da segunda metade do sculo XX, quase consenso generalizado

    que a histria e a literatura tm algo em comum: ambas so constitudas de

    material discursivo, permeado pela organizao subjetiva da realidade feita

    por cada falante, o que produz infinita proliferao de discursos. (ESTEVES,

    2010, p. 17)

    A historiadora Sandra Jatahy Pesavento procura resgatar, em seu artigo Fronteiras da

    Fico: dilogos da histria com a literatura, como textos histricos comportam recursos

    ficcionais e textos literrios cercam-se de estratgias documentais de veracidade

    (PESAVENTO, 2000, p. 56). Ela defende que o texto histrico comporta a fico e que,

    apesar de ser uma ideia pouco aceita entre eles, historiadores so narradores, visto que as

    perguntas investigativas feitas por eles j remetem fico, so perguntas atuais que partiram

    dele prprio, o historiador/narrador. Alm disso, os historiadores tambm preenchem as

    lacunas da histria investigada com narratividade, o que subentende uma construo,

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    Ou seja, so as perguntas que o historiador faz aos registros do passado que

    lhe chegam s mos que ir dot-los ou no de significncia para seu

    trabalho. Logo, a prpria categorizao de algo como fonte , j, uma

    construo. (PESAVENTO, 2000, p. 39)

    Assim, compreende-se que essa diviso acontece principalmente no campo terico,

    pois o real, muitas vezes, pode estar refletido na fico; sendo assim, pode-se considerar a

    possibilidade de, atravs da fico, analisar aspectos da realidade. E, em se tratando das

    questes o que histria e o que fico, o prprio Esteves sugere a leitura de Mario

    Vargas Llosa, o qual toma como um peixe dentro dagua nessas questes. Vargas Llosa, no

    captulo A verdade das mentiras, em livro homnimo, diz que [...] os romances mentem

    no podem fazer outra coisa , porm essa s uma parte da histria. A outra que,

    mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se expressar escondida,

    disfarada do que no . (VARGAS LLOSA, 2004, p. 12).

    Ou seja, a expresso da verdade como mentira a melhor ou a nica forma de

    express-la. Isso no quer dizer que os romances apenas mentem. Eles contam verdades por

    meio de mentiras. Para o autor, todo bom romance diz a verdade e todo mau, mente. A grande

    arte despertar no leitor a sensao de que aquilo que ele l verdade, porque dizer a

    verdade, para um romance, significa fazer o leitor viver uma iluso, e mentir, ser incapaz

    de conseguir esse engano, esse logro. (Cf. VARGAS LLOSA, 2004, p. 16). Para Llosa, os

    homens no esto contentes com seu destino e quase todos gostariam de ter uma vida

    diferente da que vivem. Para aplacar esse desejo, surge a fico, na qual os homens podem ter

    a vida que se resignam em no ter: No embrio de todo romance ferve um inconformismo,

    pulsa um desejo insatisfeito. (VARGAS LLOSA, 2004, p. 12).

    J que a discusso rodeia o fio tnue entre a fico e o texto histrico, Vargas Llosa

    questiona a diferena existente entre uma fico e uma reportagem de jornal, ou um livro de

    histria, se todos so compostos por palavras. Ele explica que

    Trata-se de sistemas opostos de aproximao ao real [...] a noo de verdade

    ou mentira funciona de maneira distinta em cada caso. Para o jornalismo ou

    para a histria a verdade depende da comparao entre o escrito e a realidade

    que o inspira. Quanto mais proximidade, mais verdade, e quanto mais

    distncia mais mentira. (VARGAS LLOSA, 2004, p. 16)

    Se a fico e a vida so retratadas por palavras, cada vez que se tenta expressar a vida

    com palavras ela fica reduzida a meras palavras. No possvel descrever um momento

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    sequer, na ntegra, com palavras. No possvel descrever uma paisagem com uma fotografia.

    Benedito Nunes muito claro ao afirmar a capacidade de sntese das duas artes:

    Em princpio, a Histria e a Fico se entrosam como formas de linguagem.

    Ambas so sintticas e recapitulativas; ambas tm por objeto a atividade

    humana. Como o romance, a Histria seleciona, simplifica e organiza,

    resume um sculo em uma pgina. (NUNES, 1988, p. 12)

    Toda a histria construda atravs da memria. Sendo assim, pode-se considerar

    como legtimo o ponto de vista de quem a escreve sem, ao mesmo tempo, d