Historiografia e Tempo - Barros

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    Dimenses, vol. 32, 2014, p. 240-266. ISSN: 2179-8869 240

    A historiografia e os conceitos relacionados ao tempo*

    JOS DASSUNO BARROSUniversidade Federal Rural do Rio de Janeiro

    Resumo: Busca-se examinar a relao entre Tempo e Histria,

    particularmente atentando para os principais conceitos referidos a estarelao: temporalidade, durao, evento, processo e outros. Em um segundomomento, desenvolve-se com maior especificidade uma reflexo sobre asperspectivas de tempo que, a partir de conceitos como estes, foram pensadase desenvolvidas pelos historiadores ligados Escola dos Annales, atentandoem especial para a dialtica das duraes de Fernand Braudel.Palavras-chave: Tempo, temporalidade, estrutura, evento.

    Abstract: This article aims to examine the relation between Time andHistory, attempting in particular to the mainly concepts referred to thisrelation: Temporality, duration, event, process, and others. In a secondmoment, its developed a contrast with more specificity a reflection about theperspectives of time that, based in concepts like that, were thought anddeveloped by the historians linked to the Scholl of the Annales, attempting,

    ins special, to the dialectic of durations developed by Fernand Braudel.Keywords: Time, temporality, structure, event

    *Artigo submetido avaliao em 23 de fevereiro de 2014 e aprovado para publicao em 25de maro de 2014.

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    UFESPrograma de Ps-Graduao em Histria

    Tempo e Histria

    arc Bloch dizia que a histria a cincia dos homens no tempo.A frase, destacada emApologia da Histria(BLOCH, 2001, p. 55),chama ateno para esta que a instncia mais definidora da

    Histria: o Tempo. De fato, se por acaso fosse possvel excluir a perspectivatemporal do trabalho do historiador, este facilmente se transformaria emsocilogo, antroplogo, gegrafo, ou, em alguns casos, em psiclogo,

    lingista ou crtico literrio. No que a perspectiva temporal estejanecessariamente ausente de disciplinas como a sociologia, a geografia ou aantropologia (existem mesmo sub-reas das demais cincias humanas queestendem um importante fio interdisciplinar em direo Histria, tal comoa sociologia histrica ou a lingstica histrica). A questo que, no caso daHistria, a perspectiva do tempo visceral. Sem ela, os historiadoressimplesmente no existem.

    A conscincia do tempo entre os historiadores pode ter variadoconsideravelmente no decurso da histria da historiografia, ao adquirir asmais diversas formas e intensidades, mas de alguma maneira ela estevesempre ali, desde os primrdios da prtica historiogrfica. Herdoto (485-420 a.C)responsvel por consolidar a figura do historiador entre os gregosantigos atribua palavra istorieas ideias de relato e investigao sobreas aes humanas. Embora a noo de tempo ainda no ocupasseexplicitamente o centro definidor do novo campo de prticas e saberes que

    ele estava apresentando aos seus contemporneos, o fato que as aeshumanas que se passavam no tempo eram o seu objeto de investigao erelato1.

    1Na Histriaescrita por Herdoto em torno de 450 a.C, podemos surpreender pelo menosdois destes dois sentidos da palavra pesquisa e relato com especial clareza. De fato,no Prefcio desta obra, histria se refere a uma pesquisa conduzida sistematicamente ecom o uso da razo; ao mesmo tempo, em diversas passagens do livro, aparece o sentido derelatrio, relato, narrativa; em uma palavra: de exposio dos resultados de umapesquisa realizada. Ver por exemplo o livro VII, item 96 (HERDOTO, 1988, p. 365).

    M

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    Tambm no puderam se furtar perspectiva temporal os escribas

    akkadianos do terceiro milnio antes de Cristo que, muito antes deHerdoto, haviam sido incumbidos de escrever uma histria laudatria damonarquia de Akkad (2270-2083 a.C), na Mesopotmia.2Eles tiveram a seucargo a tarefa de registrar as vitrias e realizaes de seus reis e de seu povo,rigorosamente inscritas em uma seqncia temporal demarcada no interior deum ciclo demarcado pela Dinastia a quem serviam. Podemos discutir at seeste modelo de tempo era o mesmo dos historiadores de hoje, e considerar

    que de alguma maneira j tnhamos aqui uma espcie de tempo cclico, umavez que cada dinastia refundava o mundo mais uma vez e a medio dotempo voltava ao seu ponto de partida. De todo modo, o tempo j estava ali,soberano e altissonante, como dimenso instituidora de uma nova prtica. Aconscincia do tempo, portanto, acompanha os historiadores desde os seusprimrdios.

    medida que a prtica historiogrfica avana em direo historiografia cientfica do perodo moderno passando antes pelasexperincias historiogrficas da Antiguidade, Idade Mdia e primeiramodernidadea necessidade de definir a Histria nos termos de sua relaoespecfica com o tempo vai se reconfigurando como uma questo de primeiraordem. A definio ou a forma desta relao entre Histria e Tempo podiamudar, e de fato mudou muito em diversos momentos da histria dahistoriografia, mas estabelec-la e atualiz-la tornou-se a primeira tarefa doshistoriadores. Podemos lembrar variaes na perspectiva de relao entre

    Histria e Tempo a partir do perodo em que os historiadores assumem aperspectiva de uma historiografia cientfica. Assim, houve uma primeira fasedeste perodo em que os historiadores tendiam a se contentar emcompreender a histria como estudo do Passado Humano. Marc Bloch,todavia, considerou esta definio deficiente, e props um reajuste que athoje considerado eficaz: aquela com que abrimos o conjunto de reflexes

    2Sobre o estabelecimento de uma prtica de relato histrico na monarquia de Akkad, antesde Herdoto, cf.: Hartog (2003, p. 13).

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    deste artigo e que diz que a histria o estudo [ou a cincia] dos homens no

    tempo.3

    De fato, a redefinio de Marc Bloch abre a possibilidade de pensarem estudos historiogrficos que no precisariam se referir, necessariamente,ao passado humano. Apenas para dar um exemplo, um dos campos dedestaque na historiografia contempornea a Histria do Tempo Presente.Entrementes, se em casos como este o estudo do Passado deixa de ser umaobrigatoriedade para o trabalho historiogrfico, pode-se ressaltar que a

    perspectiva temporal prossegue sendo essencial para uma caracterizao dequalquer estudo histrico. Mesmo ao estudar o tempo presente, o historiadorest ainda assim impregnado da perspectiva temporal. Isso o diferencia muitoclaramente do socilogo ou do antroplogo que se volta para os mesmosobjetos de estudo. De igual maneira, os historiadores tambm tomaram paraseu objeto de estudo a literatura de todas as pocas, inclusive da sua prpria.Tambm nestes casos, a perspectiva temporal a conscinciapermanentemente atualizada de que o seu objeto est enredado pelo tempo, ede que a prpria anlise do historiador que examina este objeto est elamesma inscrita no seu tempo especfico diferencia o historiador dolingista ou do crtico literrio que se debruam sobre os mesmos objetos deanlise. O Tempo, enfim, visceral entre os historiadores. Na seqnciadeste artigo, discutiremos alguns conceitos relacionados ao tempo que setornaram importantes para o trabalho dos historiadores, passando a integraro seu vocabulrio habitual. A inteno discutir o vocabulrio historiogrfico

    referente ao tempo, entretecendo este conjunto de consideraes comreflexes que possam ser teis acerca das perspectivas filosficas sobre otempo com as quais tambm tm dialogado os historiadores.

    3No incio do segundo item primeiro captulo de Apologia da Histria, Marc Bloch confrontaa antiga definio: Diz-se, algumas vezes, a histria a cincia do passado; [no meumodo de ver] um modo errado de se falar (BLOCH, 2001, p. 55). Mais adiante, Blochestabelece a sua prpria definio: a histria a cincia dos homens no tempo (BLOCH,2001, p. 55).

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    O sistema conceitual relacionado ao tempo

    Propor definies de Tempo adentrar um desafiador e rico debateque tem envolvido filsofos, cientistas, antroplogos, historiadores epensadores os mais diversos. Da possibilidade de se pensar um tempoabsoluto s concepes revolucionrias propostas pela Teoria da Relatividadede Einstein, que abalou definitivamente a j tradicional ideia de um tempoabsoluto e independente, sem deixar de lembrar a concepo da Fsica

    Quntica, que aprendeu a enxergar a sucesso em simultaneidade, os debatesso interminveis. O tempo existe externamente ao homem? conseqnciade sua maneira especfica de apreender o mundo? Altera-se conforme ascircunstncias que envolvem o ser humano pensante? Percebemos o tempo,todose em todas as sociedadesda mesma maneira? Como se relaciona otempo com a histria, compreendida como o universo de processos histricose acontecimentos, e com a historiografia, aqui entendida como o campo desaber que estuda estes mesmos processos? Como definir, enfim, estainstncia to ambgua e enigmtica que percebemos como tempo?

    As dificuldades de definir o tempo e mesmo os sentimentos defrustrao dos pensadores frente a estas dificuldades so j bastanteantigos. Santo Agostinho (354-430), nas suas Confisses, j se contorciaintelectualmente diante deste desafio de definir o Tempo, evocando-oinicialmente como aquilo que se sabe, mas no se consegue dizer. Ossculos passaram, e no se pode dizer que as ambigidades que envolvem as

    tentativas de definir o conceito de tempo tenham se dissipado.Muitos filsofos reconhecem que muito mais fcil nos

    aproximarmos do conceito de tempo de maneira enviesada, atravs dealgumas noes que lhes so correlatas: tempo