HOJE - Titulo Provisorio

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“O mal está em querer compreender. O maior absurdo é: existo. O resto segue”. Adélia Prado HOJE (TÍTULO PROVISÓRIO) (O espaço é uma sala de teatro. Ou de cinema. Plateia diante da tela. A luz se apaga e começa o filme, um curta-metragem de faroeste. Podem ser usadas imagens de clássicos do gênero reeditadas. Homem de 45 anos cavalga por uma estradinha do interior, passa por paisagens rurais e entra na vila. Pôr do sol. O homem chega no bar. O garçom o serve. O homem joga baralho com mais três, bebem a pinga, apostam dinheiro. O homem parece nervoso, está perdendo. Vem uma mão boa. O homem deposita as cartas triunfante sobre a mesa e se levanta, num rompante de alívio. Encerra o jogo bagunçando as cartas e pega o dinheiro que ganhou. O adversário bate na mesa. Partem para cima um do outro, os outros os separam. Fora do bar. O homem e o adversário dirigem-se aos seus cavalos em lados opostos. O adversário pega uma arma e vira-se apontando-a para o homem. O homem se enfurece e vai desarmá- lo. Luta corporal. Três tiros acertam o chão, o quarto, o abdômen. O adversário larga a arma, o homem cai no chão. Close no rosto morto).

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Peça de teatro.

Transcript of HOJE - Titulo Provisorio

  • O mal est em querer compreender.

    O maior absurdo : existo.

    O resto segue.

    Adlia Prado

    HOJE (TTULO PROVISRIO)

    (O espao uma sala de teatro. Ou de cinema. Plateia diante da

    tela. A luz se apaga e comea o filme, um curta-metragem de

    faroeste. Podem ser usadas imagens de clssicos do gnero

    reeditadas.

    Homem de 45 anos cavalga por uma estradinha do interior,

    passa por paisagens rurais e entra na vila. Pr do sol.

    O homem chega no bar. O garom o serve. O homem joga

    baralho com mais trs, bebem a pinga, apostam dinheiro.

    O homem parece nervoso, est perdendo.

    Vem uma mo boa. O homem deposita as cartas triunfante sobre

    a mesa e se levanta, num rompante de alvio. Encerra o jogo

    bagunando as cartas e pega o dinheiro que ganhou.

    O adversrio bate na mesa. Partem para cima um do outro, os

    outros os separam.

    Fora do bar. O homem e o adversrio dirigem-se aos seus

    cavalos em lados opostos. O adversrio pega uma arma e vira-se

    apontando-a para o homem. O homem se enfurece e vai desarm-

    lo. Luta corporal. Trs tiros acertam o cho, o quarto, o

    abdmen. O adversrio larga a arma, o homem cai no cho.

    Close no rosto morto).

  • (Atriz entra pela plateia agitadamente, coloca-se diante da tela

    congelada na imagem do rosto morto e a acaricia. Escora-se

    nela.

    Retoma o flego.

    Sua camisola est molhada, uma gua ligeiramente avermelhada,

    como sangue limpo com as mos e diludo pela chuva.

    No silncio, ouvem-se estrondos de trovo vindos de fora. O

    barulho de chuva persiste o tempo todo da apresentao.

    Ela se d conta da presena do pblico e vira-se. Sua fala

    confusa, um tatear no escuro por palavras que incorporem as

    perturbaes internas).

    O delrio, e...u interrompo? ...desculpem... Eu no devia......

    bom quando a gente v um filme, parece que sai do prprio

    corpo...

    Eu vim aqui... No sei como vim parar aqui. H pouco, eu...

    caminhava. E vi aquela porta. Eu vi aquela porta e entrei.

    Desculpem...

    No era o que vocs esperavam.

    No sou o que eu esperava.

    (Olha as mos avermelhadas. Limpa-as nas costas, escondendo

    que o faz.)

    Vocs podem acender a luz?

    (Enquanto ela fala, desenovela um rolo de barbante e cria uma

    teia intrincada com fios altos como um varal.)

    Eu estava no meio da cidade, no meio dos carros... No meio das

    buzinas e das pessoas, e me perdi no meio de todo aquele... rudo.

    Toda aquela luz... e sombras.

    No era mais um mundo onde eu cabia!

    De repente, uma escurido me tomou... (paralisa)

  • No fui mais eu.

    Vocs j sentiram isso?

    (Comea a tirar suas peas de roupa molhadas e a pendur-las

    nos fios)

    Era como se... fosse antes.

    Ainda antes... Antes de tudo, sabe?

    Antes dos carros, antes das luzes... antes de mim.

    Como se eu no fosse.

    Eram s algumas clulas... E algum no algum, uma voz

    uma voz chamou aquilo de vida.

    E essas clulas, essas clulas foram se multiplicando e ficando

    cada mais complexas at que algum aquele mesmo ou outro

    chamou aquela desordem muito pior de feto.

    Beb.

    E, dizem, ento, eu nasci. Voc nasceu. No, voc ou eu... no!

    Aquele amontoado cada vez mais desordenado e complexo de

    clulas. Saiu por um canal, que outro amontoado complexo e

    desordenado de clulas.

    E ganhou um nome.

    Qual o seu? (pergunta a um espectador).

    E aquilo, (repete o nome do espectador, como vocativo),... aquela

    desordem recm-sada do canal, onde tinha ficado nove meses

    alheia ao fato de ser qualquer outra coisa...

    Foi olhada pela primeira vez.

    (Atriz encara o pblico.)

    Eu no vim aqui para morrer hoje.

    (estrondo de trovo)

    Vocs me entendem?

  • Chove muito l fora agora, vocs ouvem? No se molharam? A

    chuva comeou faz pouco...

    Que bom que vocs esto aqui, mesmo nesses tempos instveis.

    to difcil sair de casa s vezes, eu sei.

    Levantar da cama, vestir a roupa, escovar os dentes, calar os

    sapatos, pegar a carteira, girar a chave, pisar na rua... s vezes

    difcil! Vocs no acham? Abrir os olhos j to difcil! Lembrar-

    se...

    Eu esqueci o guarda-chuva, vim desprotegida... Eu venho aqui

    todos os dias, todas as noites, desde que tudo isso comeou. Mas

    hoje est mais difcil que o normal. Deve ser o tempo.

    Vocs tm alguma roupa pra me emprestar?

    (Olha para a coxia, avista uma arara de roupas, puxa-a para o

    centro do palco)

    Essas esto midas. Deve ter goteira aqui...

    (Ela comea a pendurar as roupas nos fios, procurando uma

    mais seca.

    H saias curtas e compridas, blusas, calas sociais, vestidos,

    lingerie, toga, terno e burca. Ela deve provar as roupas e

    escolher ali o que deseja usar.

    Ela recusa todas as combinaes que experimenta. Parece

    desconfortvel na prpria pele)

    Eu preciso vestir algo pra me sentir segura.

    Eu estou aqui, diante de tantos olhos. Tantos julgamentos...

    (Veste algo que o pblico d ou que estivesse na arara)

    (Outro estrondo de trovo, mais forte. A luz fraqueja)

    Este pode ser o nosso refgio. Aqui estaremos protegidos, mesmo

    sem nos conhecermos ainda...

    Eu sou...

  • Eu, eu me pareo muito pouco comigo mesma.

    Talvez fosse melhor se eu representasse uma personagem agora.

    Aquela que perdeu o pai e enlouqueceu de amor. Aquela que o

    rio no conservou. A mulher na forca. A mulher com as veias

    cortadas. (...)

    (representa uma fala de Hamlet Machine, de Heiner Muller )

    Ontem deixei de me matar. Estou s com meus seios, minhas

    coxas, meu ventre. (...) Com as mos sangrando rasgo as

    fotografias dos homens que amei e que se serviram de mim na

    cama, mesa, na cadeira, no cho. Toco fogo da minha priso.

    Atiro minhas roupas no fogo. Exumo do meu peito o relgio que

    era o meu corao. Vou para a rua, vestida em meu sangue.

    (Encara a plateia em silncio).

    Desde que meu pai morreu, eu perdi a capacidade de fabular.

    S consigo representar a mim mesma.

    (sorri) E j difcil!

    (Experimenta outros trajes, tenta outras combinaes. Descarta

    as meias).

    Meias me lembram do meu pai. Ele detestava! Eu tambm, Nunca

    gostei. Sempre tirava no meio da noite, mesmo nos dias mais frios

    l do sul. Quando a temperatura ficava abaixo de zero, eu

    empurrava a meia com o dedo s at a metade do p, sabe?

    Elas me sufocam.

    Desculpem. Eu preciso tomar um ar... Tomar uma bebida. Uma

    bebida forte. Gim!, forte? Vodka, como os russos.

    (Acha na coxia uma garrafa e um copo, serve-se e bebe.

    Representa a fala de As Trs Irms, de Tchkhov.)

    Hoje faz exatamente um ano que morreu nosso pai, dia 23 de

    maio (trocar conforme a data). Fazia muito frio e chovia. Eu

    pensava que no iria sobreviver, e voc, desmaiada, estava

  • estendida aqui no cho como um cadver. Porm desde ento se

    passou um ano, e j podemos record-lo...

    T chovendo muito l fora. Esse tempo de chuva, esse nosso

    tempo d medo. Essa ameaa acima de ns. Dentro de ns.

    Uma pessoa no escapa se no for para se distinguir daquilo que

    ela no .

    (devagar, como se s ento entendesse:) Uma pessoa escapa pra

    se distinguir daquilo que ela no .

    Este pode ser o nosso refgio. (Trovo)

    Talvez venha um tornado. Sim, no muito comum nessa regio,

    no muito comum... na verdade to raro que eu nunca vi,

    nunca ouvi falar, no, mas talvez venha um tornado hoje. Porque

    os tornados, eles vm, eles vm e levam o que est no meio do

    caminho. E quem sobrevive recolhe as telhas do cho, procura as

    partes nos escombros. Reconstri o que pode.

    Mas, antes, enterra os seus mortos.

    A gente veio aqui pra esquecer?

    Eu vim falar da morte do meu pai. Do assassinato do meu pai. Ele

    morreu com um tir... Vocs viram? Eu no vi, eu no estava l.

    Mas eu no vim falar de mim. O assassino sempre o outro, no

    ?

    Meu pai morreu faz dez anos. como se ele estivesse viajando h

    dez anos, no ?

    Como se ele morasse em outro pas h dez anos, no ? Em outro

    planeta?

    Como se ele pudesse entrar aqui a qualquer momento?

    Agora?

    Como se um dia ele fosse pegar nos braos os filhos que eu ainda

    posso ter, no ?

  • Como se os meus filhos, eles fossem um dia conhecer o meu pai.

    No ?

    Mas talvez aqui, nesta noite... apesar da chuva, apesar de tudo...

    ns, que nem nos conhecemos bem... ns possamos enterrar

    nossos mortos.

    Desenterrar nossos monstros.

    (trovo)

    No se preocupem, se a luz apagar, eu fao uma fogueira.

    Ento, poderemos formar uma roda em volta do fogo e contar

    histrias... as histrias dos nossos mortos.

    Talvez eu pegue uma lanterna e aponte para um de vocs e pea

    um nome, uma palavra, uma lembrana, um esquecimento. E a

    gente possa transformar isso em alguma coisa material: um

    punhado de areia, um origami, alguma coisa que queime. E a

    gente possa dar alguma forma para isso.

    Talvez a gente pegue um pouco de argila e saia daqui cada um

    com sua perda transformada em algo material e simblico, algo

    que seja possvel tocar, como essas peas de roupa, algo que seja

    possvel guardar num fundo de armrio, no subsolo da casa, algo

    que seja possvel enterrar no quintal, a sete palmos, algo que seja

    possvel rasgar, jogar no cho e estilhaar at que retorne ao p.

    Mas hoje tambm vai acontecer um julgamento aqui.

    Vocs faro parte disso. Sero o jri, o jri popular. Vo julgar as

    vtimas e os carrascos dessa histria. A, sim, poderemos enterrar

    os nossos mortos.

    Esto prontos para enterrar os seus?

    (Ela se constrange de novo)

    Eu vou dizendo essas coisas, vou fazendo perguntas ntimas,

    irrespondveis...

    Vocs nem me conhecem.

  • Vocs devem se perguntar: quem essa mulher que chegou

    dizendo coisas sem sentido?

    Eu me chamo (vacila ou ri).

    Andei pensando em trocar de nome. O que tinha descolou de

    mim, perdeu o sentido, sabe? Como quando uma palavra de

    repente parece absurda, e quanto mais voc repete, menos familiar

    soa? He-le-na. Le-na. A. Li-ce. Cla-ri-se. I-se. Pe-n-lo-pe. Pe-n.

    Pe-n? L-cia. Nas-t-cia. Ci-a. E-ma. Bovary?

    De quem falam quando me chamam?

    E se trocssemos de nome, voc e eu?

    O que diz um nome, afinal?

    O que diz qualquer palavra?

    O que diferencia algum como eu de vocs, ou da maioria de

    vocs, so palavras. Simples assim. As palavras: o assassino do

    meu pai. Elas existem no vocabulrio de qualquer um de ns,

    falantes do portugus. Mas elas no tm referencial real para

    qualquer falante do portugus.

    Uma vez ouvi minha me perguntar se eu me lembrava da voz do

    seu pai.

    O que diferencia algum como eu so palavras. Frases como a de

    minha me terem um referente real. O assassino do meu pai. A

    voz do meu pai morto. O corpo do meu pai morto. O meu pai

    assassinado.

    Quando voc repete essas palavras, elas tm um referente real pra

    voc tambm?

    Mas que diz uma palavra, no ?

    ries.

    Dizem que eu sou de ries. Ascendente em escorpio e lua em

    peixes. Na numerologia, nove. No eneagrama, quatro. O nmero

    da inveja. Meu pai era seis. Contrafbico. Contra o medo. uma

  • espcie de reao ansiedade: em vez de fugir do que te causa

    medo, voc vai em busca dele de uma vez. Uma espcie de

    impacincia, sabe? Um tipo... suicida. Um tipo que se pe na

    frente de uma arma engatilhada por algum disposto a atirar.

    Vocs carregam essa herana?

    (Ela tira as peas de roupa como quem se despe de uma herana

    pesada, como quem se liberta. Ostenta o prprio corpo, a pele o

    que tem de seu.)

    Me diz, ento, quem eu devo ser?

    Burca ou o biquni?

    Se eu visto algo sensual, me sinto igual quele frango assado que

    fica rodando exposto para os cachorros, sabe? Mas se eu ponho

    algo pudico, como se... Como se no sendo atraente eu no

    fosse boa o bastante para existir...

    Te incomoda me ver nua? Ou voc gosta?

    Se eu for homem, incomoda mais?

    E se eu sangrar? Todo ms?

    (Ela observa o corpo semidespido. Tateia-se, como quem busca

    seus rgos internos. Com os dedos sujos de tinta vermelha,

    esboa desenhos dos rgos sobre a pele. Seus desenhos so

    como clulas desordenadas).

    E se eu mostrar aqui meus rgos internos, incomoda? Meus

    ovrios nus?

    Dizem que eu tenho dois ovrios. Um tero. Vagina. Clitris.

    Dizem que eu sou mulher.

    Quem diz? Aquele primeiro olhar o olhar que apreendeu o

    amontoado desordenado de clulas na primeira carapua. O olhar

    que ordena e define.

    Uma menina.

  • (Concentra mais crculos no lado direito do abdmen,

    obsessivamente, enquanto diz como quem empilha tijolos

    pesados:) Ocidental, branca, latina, brasileira, catlica, no,

    htero, sria, responsvel, histrica, neurtica, no, calma, magra,

    gorda, alta, feia, linda, no, louca, obsessiva, instvel, estranha,

    no?

    Carapuas.

    Vocs sabem do que eu estou falando. Vocs esto me olhando

    agora. Vocs veem?

    Cada par de olhos pousa uma imagem sobre mim. Uma imagem

    de mim que eu intuo e que me modela. Vocs veem?

    Eu s existe como reao ao olhar de vocs.

    Se no houvesse esses olhos, se nunca tivessem me visto...

    Eu vim aqui e eu me dei conta. No eu. Esse amontoado

    desordenado de clulas que anterior minha prpria imagem de

    mim. Vocs veem?

    Quando vocs veem, eu vejo.

    Mas no escuro de mim, nada me diz: mulher. Nada me diz. Nada

    me diz vtima. Nada me diz assassina.

    O escuro de mim lava.

    Eu caminhava. Eu vim parar aqui, agora, eu entrei por aquela

    porta, eu trouxe minhas mos manchadas e eu me pus aqui sob os

    olhos de vocs. Mas o que vocs veem, no sou eu.

    E o que eu vejo? (olha individualmente espectadores como os

    rotula mentalmente). No, no so vocs. Amontoado de clulas

    sobre o qual nenhum olhar nunca pousou.

    (Cobre a regio do abdmen com as mos, como quem estanca

    uma hemorragia).

    (Trovo fortssimo Blackout desfazem-se os varais, entra em

    cena uma ou mais balanas com alguns pes em cima, a arara

  • com poucas peas, uma cmera polaroide, velas e fsforo. A

    tempestade diminui.)

    S meses depois eu me lembraria da cor do luto. Nada mais

    encenado do que aquela elegncia unnime nos velrios e

    enterros. Cad o desconcerto? Que apuro esttico resta quando a

    gente tomba com o fim de quem ama?

    Curioso como o mundo parece mais real desde aquela madrugada.

    Ou foi a sensao de absurdo que ganhou materialidade?

    Eu dormia. A voz da tia atravessou pastosa a escurido. Parecia

    dor no estmago. Me enrolei mais um pouco no lenol. No sei

    quanto tempo depois, veio a sentena:

    Seu pai sofreu um acidente.

    Nuvens de gelo no estmago e ento a calma.

    Imaginei meu pai viajando pelo interior: Batida. Capotamento.

    Ambulncia. Hospital. Internao. Ferimentos. Perna amputada,

    UTI, tubos, cadeira de rodas, cegueira. Cirurgia. Parada cardaca.

    Coma.

    Senti pena dele e o carinho me preencheu da perfeio de ter um

    pai.

    A tia continuava ali. Eu quis diminuir o impacto do que ela ainda

    hesitava em dizer. Se eu cogitasse a pior das hipteses, um sim

    salvaria a todos.

    Ele est vivo?

    (Atriz corta pedaos de po e distribui para o pblico).

    Cortei com os dedos pequenas pores de po puro. As fibras iam

    se desfazendo entre o indicador e o polegar. Mastigava devagar,

    engolia devagar. O gosto do po era primitivo: gosto da farinha.

    As clulas do meu abdmen ainda tremiam, a agitao

    aprisionada na parede do estmago. Sentir o sabor de qualquer

  • outro alimento s iria aumentar a confuso interna. As lgrimas

    saiam devagar e poucas, a comida entrava devagar e pouca.

    Perto das seis da manh, meu tio chegou para nos levar de carro.

    Eu tinha trocado a camisola rosa gasta por um vestido verde

    estampada com o desenho de uma garotinha, a primeira pea que

    vi no guarda-roupa.

    Sentei no banco de trs do carro e encostei a lateral da testa

    janela, sentindo a frieza do vidro. Colei ali e perdi o olhar na falta

    de densidade das nuvens. Como era concebvel partir para velar o

    pai assassinado?

    O que no assustadoramente concebvel?

    Viajamos por quase oito horas em silncio. Minha irm me

    recebeu com um abrao e falou: Parece que ele est dormindo.

    Um cadver, o meu pai.

    O primeiro que vi.

    Deitado no caixo com a expresso doce e serena que me desperta

    uma vida de sensaes de carinho, de aconchego e amor. A pele

    fria de textura alheia, como eu nunca havia sentido. Borracha?

    Carne?

    Depois, eu teria pavor de tocar as bochechas de um homem vivo

    porque imediatamente o imaginava frio e morto.

    Beijei a testa fria muitas vezes, mantive a mo sobre as bochechas

    para esquent-las e abrandar a rigidez. Tentei decorar cada trao

    do rosto, com pavor de esquecer. A boca estreita. O nariz

    quebrado, com algumas sardas. A barba rasteira. O queixo

    pequeno.

    Os olhos azuis e os cachos ralos, o corpo que me abraava no sof

    aos poucos se desintegra no cemitrio. alimento da terra. Tento

    no pensar nisso para afastar o pnico. Fui incapaz de pr a carne

    de qualquer mamfero na boca durante mil dias. Nunca comi tanto

    po de queijo.

  • Ficaram as fotos, descarnadas. Mas a voz, a voz do meu pai me

    chamando... nunca mais.

    (luz fraqueja)

    Tudo passado, passado e perdido... Mas se eu fecho os olhos, sou

    capaz de voltar l. Sou capaz de sentir.

    (blackout)

    Sou capaz de sentir o sof, deitar minha pele sobre o tecido

    rugoso e encostar o meu corpo no seu corpo quente, ao seu lado,

    pai. Deitar a cabea no seu peito, pai, e ver os poucos pelos

    fincados na pele muito clara, as manchinhas vermelhas como

    bolhas. Sou capaz de sentir o ar quente sair do seu nariz, pai. O

    peito inflar e desinflar. O ar entrar e sair. Inflar e desinflar, entrar

    e sair, e a minha respirao vai sincronizando... Sou capaz de

    sentir seu corao bater, pai. Ba-ter, ba-ter, ba-ter, ba-ter, ba-ter,

    ba-ter, ba-ter. Sou capaz de voltar, pai, voc capaz de voltar.

    Pai, voc est a? (Luz).

    Eu me lembro! Eu me lembro desse lugar, eu me lembro DESTE

    lugar! Me lembro de estar a nesse lugar, onde voc est, bem a,

    com ele do lado, nessa cadeira ao lado, a gente veio aqui uma vez.

    A gente esteve aqui. Ainda estamos. Fica algo de ns, no fica?

    Nessas cadeiras, que roaram a pele. Quando era viva. Nas

    retinas. Nos ouvidos. Na memria. Nos afetos transformados,

    fica. Algo fica. Fica um pouco da gente nos lugares onde j

    estivemos. No um tempo linear. Eu, algo de mim, ainda est l,

    em cada lugar onde j fui. Em todos os lugares onde j estive. Em

    todas as pessoas com quem j estive.

    s vezes eu passo por uma rua e me vejo passando por essa

    mesma rua anos antes, e como se estivesse passando por essa

    rua desde ento.

    Ser que algo da gente permanece?

    Algo de impalpvel?

  • Algo dos outros permanece na gente. Algo de impalpvel e algo

    de palpvel.

    Eu no carrego mais nenhuma 3x4 dele na bolsa. T, ningum

    mais leva foto em carteira, a memria um chip... Mas s hoje eu

    vou me permitit ser anacrnica.

    (Pega a polaroide)

    Voc pode tirar uma foto minha?

    Obrigada, deixa eu ver como ficou... (Comenta o resultado).

    Nunca me vi assim antes. Nunca me vi pelos seus olhos antes!

    Posso tirar uma foto sua? Assim. Um minuto...

    (A outro espectador). Voc conhece ele? Ento, toma, a imagem

    dele agora sua. Posso tirar uma sua tambm?

    Esta vou dar...

    ...pra ela.

    (Tira fotos de mais espectadores e distribui a outros deles. Esse

    um momento mais aberto a improvisos, a uma troca direta com os

    espectadores e entre eles).

    Vamos levar essas imagens para casa? Daqui a cinco, dez anos, a

    gente pode ach-las numa gaveta e pensar: mas quem era esse

    mesmo? Quem era eu? Ser que ele ainda est vivo...?

    Quem vai olhar nossas fotos quando ns j estivermos mortos?

    Hoje. Vamos tirar uma foto todos juntos? Acho que a polaroide

    no vai dar conta... (vasculha uma caixa na coxia, pega uma

    cmera digital e um trip. Monta o trip de frente para a plateia e

    programa a mquina para fotografar, depois se posiciona com a

    plateia para a foto. A fotografia aparece projetada ao fundo do

    palco como uma polaroide gigante. Atriz desarma o trip. Olha

    para a imagem projetada, silencia um instante).

    Vocs se lembram desse momento? Daquele momento passado?

    Do instante do flash? Faz cada vez mais tempo! Vocs se

  • reconhecem? Olhem bem, olhem direito. Daqui, de onde eu vejo,

    parece mesmo com vocs. Mas, no ntimo, voc se reconhece

    quando se v?

    Aqui. Quantas vezes vocs j estiveram aqui? Quantas vezes j

    pensaram: agora? Viveram: agora? E quantas vezes quiseram

    voltar?

    Ta: o registro de quem a gente era.

    Quem sabe quem vai v-lo daqui a duzentos anos.

    (imagem se apaga).

    (Ela pega um casaco masculino sobre o vestido. Canta The

    Beast in Me, do Jhonny Cash, na verso do The Vaccines

    Talvez dance com o casaco primeiro e s depois o vista).

    The beast in me

    Is caged by frail and fragile bars

    Restless by day

    And by night, rants and rages at the stars

    God help the beast in me

    The beast in me

    Has had to learn to live with pain

    And how to shelter from the rain

    And in the twinkling of an eye

    Might have to be restrained

    God help the beast in me

    Sometimes it tries to kid me

    That it's just a teddy bear

    Or even somehow manage

    To vanish in the air

    Then that is when I must beware

  • (Ela saca uma arma do bolso, mas a mantm suspensa, para

    baixo). s vezes, como se eu me perdesse de mim... Eu me

    desordeno, isso, me desorganizo, sabe?

    Acho que eu no matei um homem hoje.

    Ainda no...

    Eu estou aqui diante de vocs (aponta a arma plateia) e nada

    me impede...

    Os meus dedos so capazes de empunhar essa arma e de apertar o

    gatilho, como eles apertaram o boto daquela polaroide. No

    esforo algum. Os meus olhos, eles identificam o alvo (tempo do

    olhar sobre os espectadores). E no falta raiva... nunca faltaram

    motivos...

    (Exalta-se em energia destrutiva)

    Nada. Na verdade, nada me impede de romper com essa

    encenao, aqui e agora. Ningum assinou contrato de

    representao ilusria. E mesmo se houvesse registro em cartrio,

    com firma reconhecida em trs vias... Eu estou aqui, de verdade,

    vocs esto aqui, de verdade, e se o meu tiro acertar a veia cava

    no seu abdmen, em 15 minutos voc morre. No vai ver nem

    sentir mais nada. Esse corpo vai ficar desabitado e no demora a

    feder.

    (Disparo de flash, claro e rudo, como um tiro. Ela sente o golpe

    e cai).

    (Sobe na balana).

    A sesso j vai comear!

    Eu deveria estar nervosa, minhas pernas deveriam tremer, mas as

    minhas mos no suam, a minha voz nem vacila. como se eu

    no estivesse aqui. como se ela estivesse aqui. Vocs esto?

    Silncio no tribunal!

  • ( plateia esquerda) O papel de vocs ser o de acusao.

    Vocs so o pai no, o pai no. A me, as irms, as filhas, os

    filhos, os amigos do morto.

    Vocs esto aqui para acusar.

    ( plateia direita) Vocs: pai, me, irmos, filhos, sobrinhos,

    amigos do assassino.

    Vocs vieram pela defesa, pela absolvio.

    Mas eles (A espectadores do centro)

    Vocs: um, dois, trs, quatro, cinco, seis. Vocs so o jri

    popular. No defendem nem acusam. Vocs no amam. Vocs

    julgam.

    Prontos para decidir o destino de todos ns?

    Ento digam, sob juramento: a diviso de papis confortvel?

    Defesa. Acusao. Jri. isso o que vocs representam no

    mundo? Se no for esse o seu papel, essa a hora de se

    posicionar.

    O julgamento vai comear.

    VISTOS, relatados e discutidos estes autos de apelao do crime

    466.666-9, da 1 Vara Criminal, em que so apelantes o

    Ministrio Pblico de Neverland e o Capito Gancho, sendo

    apelados os mesmos. Capito Gancho foi submetido a julgamento

    pelo Tribunal do Jri da Comarca de Neverland, que,

    reconhecendo excesso culposo na legtima defesa, rejeitou a

    imputao inicial e o condenou s penas de 3 anos e 6 meses de

    recluso e 2 anos e 2 meses de deteno (em regime semi-

    aberto), mais 130 dias-multa, incurso no artigo 10 da lei nmero

    9.447/97, pelos fatos assim descritos na denncia:

    1 Fato. No dia 23 do ms de maio do ano de 2003, por volta da

    uma hora da madrugada, o denunciado Capito Gancho, cessada

    j uma discusso travada com a vtima Peter Pan, no interior do

    bar do Neverland Country Club, pela disputa de uma partida de

  • baralho, dirigiu-se ao seu navio estacionado na piscina daquele

    clube recreativo e, fazendo uso de uma pistola, marca Beretta,

    calibre 22, sem registro e licena concedidos pela autoridade

    competente, a pretexto de agredir fisicamente de morte a vtima,

    Peter Pan, efetuou, naquele mesmo local, um disparo em direo

    ao cho, a fim de provocar uma possvel agresso da vtima, se

    preparando para ir embora daquela terra do nunca.

    Na sequncia, quando a vtima Peter Pan ento passou a vir em

    sua direo, o denunciado Capito Gancho, de acordo com o

    plano previamente arquitetado, dolosamente, efetuou um segundo

    disparo com a referida arma de fogo, em direo ao abdmen da

    vtima Peter Pan. Ato contnuo, na tentativa de retirar-lhe a arma

    de fogo das mos, a vtima Peter Pan entrou em luta corporal com

    o denunciado Capito Gancho, que, por sua vez, desferiu,

    dolosamente, mais outros disparos com aquela arma de fogo em

    sua direo, acabando, no entanto, um dos disparos efetuados pelo

    denunciado Capito Gancho por atingir o lado esquerdo do

    abdmen da vtima, Peter Pan, causando-lhe as leses corporais

    descritas no laudo de necropsia de folhas 151, as quais,

    entretanto, foram a causa eficiente de sua morte.

    Adeus, Peter Pan.

    E Peter Pan disse: Nunca diga adeus, porque dizer adeus

    significa ir embora e ir embora significa esquecer.

    (Trovo. Black out)

    (Entra projeo em vdeo:

    Ela corre pela cidade de camisola, trpega. Passa pelas ruas,

    escora-se numa mureta, arranha os prprios braos e pernas,

    sangra. Limpa as mos sujas de sangue no tecido da camisola.

    Segue caminhando sem rumo, vacilante, como quem se abandona

    ao caminho. Enquanto isso, a atriz num delrio canta:)

    ...I went walking through the city, like a drunk but not.

    With my slip shown a little, like a drunk but not.

  • And I am one of your people but the cars don't stop.

    And I am one of your people, but the cars dont stop...

    (Luz. Ela sobe na balana e presta um depoimento)

    Eu estava l no, eu no estava l, era como se aquele homem,

    ele

    Desculpem. As frases, elas ficam pela metade. Os predicados...

    no se encaixam mais. isso: esse desencaixe. isso que eu no

    consigo dizer!

    Eu estou eu estou tentando ser objetiva! Prefere uma mentira?

    Uma mentira objetiva?

    No-ma-tei-meu-marido.

    Satisfeito? Mas se quer a verdade, a verdade no tem nada de

    objetivo, nada. Eu ainda estou tentando entender.

    Posso continuar?

    Acontece que eu no sei se as coisas de que eu me lembro na vida

    so a memria do fato. Ou a memria da memria, de tanto

    repetida. E o que eu sinto: o sentimento? Ou s a memria do

    sentimento sentido?

    Senhores jurados, vocs me olham e eu leio nos seus olhos:

    neurtica, obsessiva, histrica. Culpada.

    Mas isso que eu falo eu (vacila) psicose isso? Me digam?!

    Porque s vezes, eu, eu me descolo. Quando isso acontece,

    aquelas palavras bonitas pai, me, amor elas se esvaziam,

    sabe? Elas ficam ocas, elas se descolam. No sobra nada, nenhum

    vnculo.

    horrvel isso!

    No, no horrvel. Apenas . Eu saio do papel, como se eu

    pudesse desvestir uma roupa, despir uma roupa, sabe? E ela fica

    l: oca.

  • O que aconteceu, o que quase aconteceu: eu despi o sentimento.

    Porque o que eu sinto s vezes s a memria do sentimento

    sentido. Vira sentimento encenado. Ento eu sa do papel, eu vi

    tudo de fora, descolado: o meu nome, descolado; minha memria,

    descolada.

    Eu levantei no meio da noite para beber gua e vi a faca de po

    sobre a pia. E fingi para mim mesma que no pensei o que eu

    pensei. Voltei para o quarto. E o vi dormindo. Um homem que a

    gente ama dormindo lindo. Um homem que a gente no ama

    dormindo s pattico.

    Eu vi o travesseiro branco ao lado. Eu vi minhas mos pegarem o

    travesseiro e apertarem contra a cara dele, daquele homem que

    dormia, pattico, com a boca aberta. E de repente minha espinha

    arrepiou e eu colei de volta, eu senti de volta, eu o amei de volta.

    E joguei o travesseiro longe.

    Quando ele acordou eu estava chorando, eu soluava, ele acordou

    com meus soluos.

    Eu peo aos senhores que digam, me digam, o que eu sou?

    Um homem um homem. Uma mulher um homem.

    Um homem um culpado. Um culpado uma vtima.

    Uma vtima uma crueldade. Uma crueldade um homem.

    Um homem um condenado. Um condenado um culpado.

    Um culpado um punido. Um punido uma vtima.

    Uma vtima uma mulher. Uma mulher um homem?

    Um homem um homem. Uma mulher um homem.

    Um homem um culpado. Um culpado uma vtima.

    Uma vtima uma crueldade. Uma crueldade um homem.

    Um homem um condenado. Um condenado um culpado.

    Um culpado um punido. Um punido uma vtima.

  • Uma vtima uma mulher. Uma mulher um homem?

    Aquela mulher. Aquele homem. Aqueles que estiveram aqui. Que

    estaro aqui. Que esto aqui. Aqueles. Ns. Vocs. Aqui. Quando

    for. Porque era. Eles foram. Porque ramos. Quando ramos. Eles

    tentaram. Ns estamos tentando. Estamos com medo. Porque a

    nossa coragem. Nossa coragem mata. Eles mataram. Eles se

    mataram. Ns morreremos. Aqueles que tentaram. Antes, quando

    eram. Agora. Quando ns desistimos. Quando desistirmos. Eles

    desistiram. S depois. Aqueles. Bem depois. Quando eu era viva.

    Aquela mulher. Quando ela for. Quando vocs estavam. Aquele

    homem. Sempre ser.

    Assassino. Morto. Vtima.

    Filho do assassino. Filho do morto. Vtima.

    Neto do assassino. Neto do morto. Vtima.

    Bisneto do assassino. Bisneto do morto. Vtima.

    Tataraneto do assassino. Tataraneto do morto. Vtima.

    Vtima. Vtima. Vtima.

    E no futuro, ento, ainda estaremos aqui.

    aqui aonde a gente vem para esquecer?

    (Trovo)

    L fora.

    L fora o papel a representar:

    Aquela que viveu a vida olhando de fora para as coisas como se

    no lhe pertencessem, aquela que transita por todos os lugares e

    assuntos como se nada lhe pertencesse. A impotente. A que no

    cruza a linha. A linha que eu cruzei para estar aqui, ao olhar para

    vocs, ao falar com vocs.

    Aqui.

  • Aqui dentro, a suspenso da descrena. O papel de juza. A

    balana.

    So dois lados, vocs veem?

    Em um, pesa o crime. No outro, o castigo.

    A vingana no tem lugar. Se ela pesar, o equilbrio se rompe.

    Uma vingana um novo crime, e o novo castigo gera outra

    vingana. A balana est aqui para evitar isso.

    (A atriz sobe em um dos lados da balana e convida espectadores

    a, um a um, ocuparem o outro lado, at que se equilibrem)

    Voc, da acusao: pode subir do outro lado?

    No, no temos o mesmo peso.

    Voc, da defesa, pode vir para o lugar dele?

    Eu peso mais.

    Voc pesa mais.

    Quem aqui tem o mesmo peso que eu?

    H castigo justo para o nosso crime?

    (Atriz desce da balana. Entra luz intensa direta sobre os olhos

    dela, que a cega como um sol. Representa fala de O

    Estrangeiro, de Camus).

    Quando me deu o revlver, o sol refletiu-se na arma. Ficamos

    imveis, como se tudo se houvesse fechado em nossa volta.

    Olhvamo-nos sem baixar os olhos e tudo aqui se detinha entre o

    mar, a areia, o sol, e o duplo silncio da flauta e da gua. Pensei

    neste instante que disparar ou no disparar, era tudo o mesmo.

    Na vida imaginria fcil matar.

    Eu li isso. No livro de uma escritora que tingia as casas de

    sangue. Ela dizia que mais fcil matar quando no se sabe

    discernir fico de realidade. Ou foi assim que eu entendi.

  • Sabe quando a vida fica meio nebulosa?

    Quando eu era mais nova, tambm li num livro de filosofia para

    adolescentes que no se pode confiar nos sentidos. Naquela

    madrugada, acordei com a sensao de que o mundo tinha perdido

    a densidade material, e que eu talvez no existisse, meu corpo no

    existisse ou meu pai no existisse.

    Teria sido mais fcil matar algum naquela madrugada?

    (A um espectador pode ou no ser um ator sentado na plateia)

    Me ajuda a representar uma cena: faz cara de assassino de

    aluguel!

    No, olha o clich...

    Faz cara de algum que est acostumado a matar. Eu vou fazer

    uma garota sofrendo porque o pai morreu assassinado. No por

    voc, por outro homem.

    (Entrega a ele uma folha com as falas masculinas e sussurra no

    ouvido pedindo que faa a cena com ela)

    Ele A bem mais fcil.

    Ela Por que mais fcil?

    Ele Voc no precisa ser atriz. Essa a sua histria.

    Ela Isso torna algo mais fcil?

    Deixa que eu fao...

    Ele No, eu fao!

    Ento a moa quer se vingar do assassino do seu pai?

    Ela Quero.

    Ele Considere feito! s escolher o mtodo.

    Pra moa delicada, no recomendo faca. Degola num

    esguicho! Nem forca... que muita brutalidade. Um

  • incndio pode causar pesadelos! O corpo estalando no fogo,

    todo retorcido...

    Recomendo tiro: rpido e definitivo.

    Ela No!

    Ele Mas a moa quer ou no vingar o homem que matou seu

    pai?

    Ela Quero.

    Ele Um tiro ento!

    Ela No! Nem tiro nem faca nem forca. Tiro no. s...

    s pegar esse homem, amarr-lo ou dop-lo, voc escolhe,

    tanto faz. Mas no mata! Pega o homem e enterra. Enterra

    ele na cova do meu pai. Enterra ele no caixo do meu

    paiEnterra ele, vivo, ao lado do meu pai, morto. Vivo ao

    lado do corpo do meu pai morto e apodrecido, que pra ele

    acertar as contas com o cadver que criou. E com os vermes

    que dele se alimentam.

    Ele (suave) Voc vai morrer tambm.

    Ela Eu no preciso mais de voc. Vai embora.

    Ele (grita) Eu no matei o seu pai!

    Ela puxa a folha das mos dele Um homem matou. E voc um

    homem.

    (troveja e relampeja forte)

    Que tenho eu com esse pai? Com meu pai, que tenho eu?

    Vem s vezes um sentido de irrealidade...

    Voc j sentiu?

    Vida, memria, eu no reconheo mais como minhas. Como se

    acontecesse com ela, no comigo. Com Oflia, com Wendy, com

  • Olga, com Desdmona, com Geni, com Emma, Lady Macbeth ou

    madame Bovary.

    Quem so essas pessoas?

    Pai, me, eu? O que me conecta a elas, o que me conecta a mim?

    Eu no estou aqui de verdade, estou?

    (Outro trovo, muito forte, muito alto. A luz cai e permanece num

    longo blackout).

    A luz vai voltar?

    Parece que ficamos sem luz. A tempestade piorou, no

    recomendvel sair l fora.

    Acho que vi alguns fsforos por aqui...

    (Acende algumas velas).

    Nossas vidas acabaram. Como ns conhecamos, acabaram. Tudo

    o que no est aqui, no existe mais.

    L fora: l fora no existe mais.

    Casa, cama, carro, rua, prdio, rvore, poste, grama, pai, me,

    irmo, amigo: no existe mais. Se no est aqui, no existe mais.

    preciso aceitar, logo. No tem o que fazer. No adianta revolta.

    Nem luto. Gastam um tempo e uma energia que no temos.

    Medo!? Eu devia dizer que no adianta o medo. Mas talvez seja

    s o que nos sobre. Que nos salve. O medo. Se no nos paralisar

    antes. Depois morreremos de medo. E sobre nossos tmulos

    nascero flores amarelas e medrosas.

    Mas ainda h tempo de um ltimo ato de coragem.

    Vem aqui contar uma histria. No mais a minha, a sua.

    (Distribui aos espectadores papis e algumas canetas).

    Nos papis brancos, voc pode escrever o nome da vtima, da sua

    vtima. E o crime.

  • Nos amarelos, escreva o nome do carrasco. E o castigo.

    Podem traz-los aqui na balana. Neste prato vocs colocam os

    brancos. Neste, os amarelos.

    (Atriz bota fogo nos dois pratos da balana e apaga as velas)

    Agora, podem vir contar uma histria! Tem uma plateia diante de

    voc, aproveitem! Eles esto com os ouvidos abertos. Eles

    tambm tm medo. So apenas pessoas, como voc, pessoas

    amarelas e medrosas.

    Cruze a linha. Conte algo que seja a coisa mais importante que

    voc tem a dizer para algum no mundo.

    Ou essa minha autorizao no basta para voc deixar seu lugar

    de conforto, de quem olha de longe, protegido?

    (espao para que algum venha ou no contar sua histria)

    Quando eu era pequena, bem pequena, morava numa cidade do

    interior que no parecia um cenrio real. Talvez porque todo ano

    eu prometia voltar para a minha Moscou. Naquela poca, eu

    pensava que vivia numa coxia e algum dia ia cruzar o limite e

    subir ao palco. Eu dizia isso sem muita noo do que eu dizia,

    porque nem tinha teatro l, s televiso. Mas eu sentia que vivia

    na coxia. E eu acho que a gente faz isto: a gente vive na coxia, na

    poltrona do espectador ou em qualquer outro lugar onde possa se

    proteger do medo. espera de que alguma coisa acontea para

    que seja possvel de fato viver. E por de fato viver eu quero

    dizer tomar decises, agir mesmo. E por de fato viver eu quero

    dizer ser o que se .

    O que isso quer dizer?

    Talvez sair da coxia seja justamente entender essa pergunta.

    O que ser o que eu sou?

    Porque s vezes parece que a gente sabe e parece que a gente ,

    mas no . s vezes tem uma distncia to grande entre aquilo o

  • que a gente mostra e permite para si mesmo e aquilo que, l

    dentro, num lugar inacessvel, a gente realmente sente e deseja. E

    a gente bota a culpa no outro, a gente aponta o dedo, a gente

    vtima. At que uma tempestade nos destelhe e liberte o nosso

    monstro.

    (Ela d play num gravador e fala sobre a prpria voz gravada)

    Eu s queria conhecer o ltimo olhar do meu pai. O olhar do

    momento em que ouviu o tiro e sentiu a pele queimar. O olhar do

    momento em que soube que morreria. O olhar que se sabia o

    ltimo olhar. E que nunca mais nos veria, nada veria.

    (A luz da fogueira acaba. Atriz sai de cena. O gravador continua

    com a voz dela.) Ningum intuiu que ela ia desaparecer na

    escurido e nunca mais voltar. Deixaria a ltima fita. Ela j no

    mais um corpo. essa coisa esquisita, carnosa e tecnolgica, que

    o registro de voz de algum que j foi e que no vai voltar. J

    foi e no vai voltar, j foi e no vai voltar, j foi e no vai voltar...

    (Trovo mais forte, som de desabamento. Outro som se sobrepe

    ao udio, vindo de um autofalante): Ateno! Ateno! A defesa

    civil alerta para o agravamento da tempestade. Ateno! Ateno!

    A defesa civil alerta para o agravamento da tempestade. O

    tornado est destruindo a cidade! Recolham-se em abrigos,

    procurem esconderijos subterrneos, escondam-se debaixo da

    mesa, corram para debaixo da cama, voltem para dentro de si, no

    saiam, ateno, ateno, no saiam! L fora perigoso! No

    saiam! O mundo est acabando, no saiam de seus abrigos, no

    saiam mais de dentro de si, no saiam mais, no saiam nunca

    mais!

    (O tornado invade o teatro. Som de desmoronamento. Luz vacila.

    Blackout final).

    Luciana Eastwood Romagnolli, 07 de julho de 2015.