INTERPRETAÇÃO BÍBLICA, HISTORIOGRAFIA E de Oliveira Lima.pdf · PDF...

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  • ISSN 1980-9824 | Volume IX Ano 9 | Maro de 2014

    www.revistaancora.com.br

    INTERPRETAO BBLICA, HISTORIOGRAFIA E LINGUSTICA: NOVOS

    PARADIGMAS PARA A EXEGESE LATINO-AMERICANA

    Anderson de Oliveira Lima

    Resumo:

    O artigo prope-se a introduzir a discusso de alguns pressupostos que esto se renovando

    desde o incio do sculo passado na exegese bblica, buscando apontar, em especial, os

    efeitos dessa renovao na atual exegese latino-americana e brasileira. As novidades dessa

    rea se explicam pelos contatos interdisciplinares que so cada vez maiores, pelas

    influncias que a exegese recebe de outras disciplinas, particularmente da historiografia e

    da lingustica. Em relao s influncias vindas dos estudos histricos, o artigo se ocupa

    com as transformaes advindas desde a Escola dos Annales at os dias atuais, fazendo

    dessa Histria da Historiografia um roteiro para o trabalho. Quanto lingustica, busca

    mostrar como as teorias propostas por algumas escolas como a Semitica Literria, a

    Anlise do Discurso e o Pragmatismo norte-americano marcam nossa exegese. O texto

    destaca alguns pontos desse processo evolutivo a fim de divulgar entre leitores brasileiros

    da Bblia esses novos paradigmas, ao mesmo tempo em que oferece um breve panorama

    bibliogrfico da exegese no cenrio nacional.

    Palavras-Chave: Exegese. Interpretao Bblica. Narratologia. Teoria da Histria.

    O autor doutorando em Cincias da Religio pela Universidade Metodista de So Paulo, especialista em

    Bblia (Lato Sensu) tambm pela Universidade Metodista, doutorando em letras na Universidade

    Presbiteriana Mackenzie, e bacharel em msica erudita pela Universidade Cruzeiro do Sul.

    http://www.revistaancora.com.br/

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    Abstract:

    This article opens space for discussion of some assumptions that are being renewed since

    the beginning of last century in biblical exegesis, and especially for the effects of this

    renewal in contemporary Brazilian exegesis. The news of this area are explained by the

    interdisciplinary contacts that are constantly improving by the influences that exegesis

    receives from other disciplines, namely, historiography and linguistics. From history well

    deal with their transformations since the Annales School to the present day, making this

    History of Historiography like a script to our work. As for language, well see schools as

    Literary Semiotics, Discourse Analysis and the American Pragmatism touch us. This paper

    presents some relevant sections of this evolutionary process in order to disseminate among

    Brazilian readers of the Bible these new paradigms, while also offering a brief

    bibliographic overview of exegesis on the national scene.

    Key-words: Exegesis. Biblical Interpretation. Narratology. Theory of History.

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    Introduo

    Ainda que a Bblia seja um livro to lido na Amrica Latina devido sua vinculao

    com a f crist, e ainda que nestes crculos de f sua leitura seja de certa maneira

    incentivada, a verdade que nos dias de hoje seu uso deixou de ser exclusivamente

    religioso e tornou-se tambm um objeto das cincias. O que fez de muitos intrpretes da

    Bblia cientistas no foi a criao de cursos de teologia, mas o desenvolvimento de mtodos

    para a interpretao crtica dos textos. Este novo status conquistado pelos biblistas, todavia,

    nem sempre uma conquista bem aproveitada pela leitura popular ou religiosa. Na verdade,

    em muitos momentos parece mesmo haver um muro invisvel que mantm exegetas e

    igrejas separados, o que nos parece ser um fator negativo para ambos. O resultado desta

    conjuntura, aqui apontada de maneira bem superficial, que os exegetas so cientistas

    desprestigiados nos meios acadmicos por se debruarem sobre um objeto de estudo to

    amarrado cultura religiosa, e desprestigiados tambm nos crculos de f por sua

    abordagem crtica da Bblia que desinteressante ao pblico em geral. Por sua vez, os

    crculos religiosos so tratados pela sociedade ps-moderna como fundamentalistas que

    nada tm a dizer.

    Este artigo foi escrito por um exegeta brasileiro que enfrenta estes desafios na

    cidade de So Paulo. um texto que tem por finalidade discutir a metodologia exegtica

    oferecendo sugestes para que os exegetas diminuam a sua defasagem acadmica em

    relao s demais cincias, distncia que muitas vezes resultado das limitaes

    metodolgicas dos prprios biblistas, que em muitos casos ainda esto demasiadamente

    presos a pressupostos cannicos que simplesmente no interessam academia. Por outro

    lado, este artigo tambm procura atender aos interesses da leitura popular da Bblia, que

    est voltada principalmente para os fins pastorais, mas que no precisa continuar forando a

    inteligncia dos ouvintes e leitores cristos ao insistir de maneira ingnua na historicidade

    de mitologias.

    Ao longo das prximas pginas discutiremos as principais mudanas nos

    paradigmas da historiografia que afetaram diretamente o modo como ns, estudiosos da

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    literatura bblica, lidamos com nosso objeto de pesquisa. Isto , veremos como a histria

    evoluiu nos ltimos sculos e como hoje os cientistas sociais devem abordar as fontes

    antigas de sua pesquisa, fazendo consideraes simultneas em relao exegese bblica.

    Escolhemos falar sobre exegese por meio da histria da historiografia por um motivo

    simples: as fontes da pesquisa historiogrfica como cincia social so muitas vezes

    similares s nossas, e no por acaso, os caminhos trilhados por historiadores ligam-se aos

    caminhos dos exegetas. As maneiras como os historiadores lidam com textos antigos, com

    fontes orais, com vestgios humanos de todos os tipos, nos servem como guias para que a

    nossa exegese cresa e tambm conquiste maior espao como cincia, alm de oferecer um

    discurso mais atual aos leitores de modo geral. Sem dvida, nessas pginas no poderamos

    discutir a histria da historiografia de maneira satisfatria se no escolhssemos desse

    processo evolutivo apenas alguns fatores que nos parecem mais relevantes, e nem

    poderamos discutir exegese ou metodologia de interpretao bblica a no ser limitando

    nossa abordagem a pontos especficos. Assim, esperamos que o leitor interessado em

    detalhes ou conhecedor de histria no se decepcione com nossa superficialidade no

    tratamento de questes de natureza to complexa. Nosso objetivo apenas oferecer ao

    leitor da Bblia reflexes interdisciplinares que o levem a pensar sobre sua atividade.

    1 O fim das crnicas e a historiografia positivista

    O primeiro ponto a ser mencionado a quebra de um antigo paradigma que

    praticamente inaugurou a historiografia como cincia. Trata-se da desvinculao daquela

    velha tradio da cronstica, onde historiar era nada mais que narrar cronologicamente os

    eventos marcantes dos imprios, as trajetrias polticas, as vitrias militares, entre outros

    fatos selecionados que s diziam respeito a minorias elitizadas. Este tipo de tradio reunia

    documentos sem interpret-los, privilegiava sempre os fatos mais notveis, hericos, e por

    conseguinte, negligenciava a realidade muito mais complexa da histria humana, que no

    se limita s elites, s guerras, e s mudanas de regimes polticos. A virada nesta situao

    ocorreu j a partir da influncia do Iluminismo europeu, e consolida-se nos incios do

    sculo 19. Julio Arstegui falou sobre essa transio assim:

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    O pensamento do Iluminismo representou uma modificao profunda da concepo

    da Histria. Ele trouxe a idia [...] de que a Histria no uma narrao de fatos

    memorveis, geralmente polticos, que ilustram a vida dos grandes homens, os governantes

    e os poderosos, mas que se refere aos fatos da civilizao e que uma explicao do

    passado e no sua descrio. (1996, p. 102).

    Alm da evidente abertura que essa nova perspectiva traz para o florescimento de

    todas as chamadas cincias sociais, podemos dizer que a exegese bblica como a

    conhecemos hoje desenvolveu-se significativamente nestes mesmos dias, embora seus

    primeiros passos possam ser datados num perodo anterior (Cf. VOLKMANN, 1992, p.

    26-29). Referimo-nos principalmente ao Mtodo Histrico-Crtico (MHC), que na verdade

    uma coleo de mtodos de anlise dos textos que, hoje vemos, caracterizam-se por

    pressupostos tpicos da historiografia do sculo 19 (a qual poderamos aqui chamar de

    historiografia positivista) e que foi a abordagem exegtica predominante at meados do

    sculo 20. Temos no Brasil algumas publicaes que servem como manuais de metodologia

    exegtica baseados no MHC, e o que nos parece mais influente o de Uwe Wegner,

    chamado Exegese do Novo Testamento de 1998, que aparentemente continua sendo o

    principal instrumento para a o ensino do MHC entre os estudiosos brasileiros.1

    O mtodo chamado histrico porque aborda as fontes (os textos bblicos) como

    documentos histricos, produzidos em tempos passados, e que precisam ser estudados

    dentro de sua prpria perspectiva temporal. Ou seja, se d grande importncia ao contexto

    histrico, ao mundo em que os textos foram construdos, e evoluo dos textos no

    decorrer tempo. A exegese, conforme proposta pelo MHC, tambm crtica porque

    analisa as fontes e emite juzos sobre os texto e seus significados, o que nos aproxima do

    carter explicativo da historiografia de ento. O primeiro pilar do MHC, portanto, a

    anlise cuidadosa dos ele