Introdução as Ciências Sociais

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INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS Brasília-DF.

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Sociologia

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  • Introduo s CInCIas soCIaIs

    Braslia-DF.

  • Elaborao

    Aline SabbiEssenburg

    Rogrio de Moraes Silva

    Produo

    Equipe Tcnica de Avaliao, Reviso Lingustica e Editorao

  • SUMRIO

    aPrEsEntao ..................................................................................................................................... 5

    orGanIZao do CadErno dE Estudos E PEsQuIsa ................................................................................. 6

    Introduo ......................................................................................................................................... 8

    unIdadE nICa

    INTRODUO S CINCIAS SOCIAIS ............................................................................................................. 9

    CaPtulo 1

    ORIGEM DO PENSAMENTO FILOSFICO ......................................................................................... 11

    CaPtulo 2

    A FILOSOFIA COMO SABER REFLEXIVO E CRTICO ............................................................................. 13

    CaPtulo 3

    PRINCIPAIS PARTES DO ESTUDO FILOSFICO .................................................................................. 32

    CaPtulo 4

    GRANDES CORRENTES DO PENSAMENTO SOCIAL ............................................................................ 47

    Para (no) FInalIZar ......................................................................................................................... 54

    rEFErnCIas ..................................................................................................................................... 56

  • 5APRESENTAO

    Caro aluno

    A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa rene elementos que se entendem necessrios para o desenvolvimento do estudo com segurana e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinmica e pertinncia de seu contedo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas metodologia da Educao a Distncia EaD.

    Pretende-se, com este material, lev-lo reflexo e compreenso da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos especficos da rea e atuar de forma competente e conscienciosa, como convm ao profissional que busca a formao continuada para vencer os desafios que a evoluo cientfico-tecnolgica impe ao mundo contemporneo.

    Elaborou-se a presente publicao com a inteno de torn-la subsdio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetria a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

    Conselho Editorial

  • 6ORGANIZAO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA

    Para facilitar seu estudo, os contedos so organizados em unidades, subdivididas em captulos, de forma didtica, objetiva e coerente. Eles sero abordados por meio de textos bsicos, com questes para reflexo, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradvel. Ao final, sero indicadas, tambm, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.

    A seguir, uma breve descrio dos cones utilizados na organizao dos Cadernos de Estudos e Pesquisa.

    Provocao

    Pensamentos inseridos no Caderno, para provocar a reflexo sobre a prtica da disciplina.

    Para refletir

    Questes inseridas para estimul-lo a pensar a respeito do assunto proposto. Registre sua viso sem se preocupar com o contedo do texto. O importante verificar seus conhecimentos, suas experincias e seus sentimentos. fundamental que voc reflita sobre as questes propostas. Elas so o ponto de partida de nosso trabalho.

    Textos para leitura complementar

    Novos textos, trechos de textos referenciais, conceitos de dicionrios, exemplos e sugestes, para lhe apresentar novas vises sobre o tema abordado no texto bsico.

    abc

    Sintetizando e enriquecendo nossas informaes

    Espao para voc, aluno, fazer uma sntese dos textos e enriquec-los com sua contribuio pessoal.

  • 7Sugesto de leituras, filmes, sites e pesquisas

    Aprofundamento das discusses.

    Praticando

    Atividades sugeridas, no decorrer das leituras, com o objetivo pedaggico de fortalecer o processo de aprendizagem.

    Para (no) finalizar

    Texto, ao final do Caderno, com a inteno de instig-lo a prosseguir com a reflexo.

    Referncias

    Bibliografia consultada na elaborao do Caderno.

  • 8INTRODUO

    Ao tratarmos de temas relacionados s cincias sociais, primeiramente, vamos apresentar os aspectos importantes da origem do pensamento filosfico, permeando a maneira como o homem relaciona-se com o mundo em que est inserido, uma vez que a histria da cultura ocidental marcada pelo desenvolvimento do pensamento filosfico.

    Em seguida, abordaremos a filosofia como saber reflexivo e crtico, apresentando as principais partes do estudo filosfico.

    Ao final, dedicaremos boa parte de nosso estudo s grandes correntes do pensamento social.

    Este Caderno de Estudos e Pesquisa, portanto, visa proporcionar informaes acerca da Introduo s Cincias Sociais, com o compromisso de orientar os profissionais da rea de Filosofia, para que possam desempenhar suas atividades com eficincia e eficcia.

    objetivos

    Conhecer a origem do pensamento filosfico. Identificar a filosofia como saber reflexivo e crtico. Conhecer as principais partes do estudo filosfico. Identificar aspectos relevantes das grandes correntes do pensamento social.

  • UNIDADE NICAIntroduo s CInCIas soCIaIs

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    CAPTUlO 1Origem do Pensamento Filosfico

    A fim de conversarmos um pouco sobre as cincias sociais, necessrio trilharmos um caminho pelo surgimento da Filosofia, permeando a maneira como o homem relaciona-se com o mundo em que est inserido. Afinal, a histria da cultura ocidental marcada pelo desenvolvimento do pensamento filosfico.

    E, aqui, no podemos deixar de mencionar os mythos, que seriam a narrativa neste caso, lendria pertencente tradio cultural de um povo, que procura explicar o que est sua volta, ou melhor, o funcionamento do universo, da natureza. Era por meio dele que os gregos antigos buscavam respostas para a vida e o cosmos, e o fazem baseados em falas que permeiam a imaginao da comunidade (como no mito de Prometeu)1,2. Pressupomos que o mito era aceito por todos, sem maiores fundamentaes, sendo simplesmente repassado para a populao, com o apoio da f, da crena, na tradio popular. Aristteles (2002) j dizia, em sua Metafsica, que no se tratava de uma cincia, pois apenas eram repassadas doutrinas sem questionamentos. No podemos deixar de observar que o mito era parte intrnseca de um povo, ou melhor, era todo o seu conhecimento, passado por meio da narrativa oral para as seguintes geraes.

    Os deuses e o destino eram tidos como os responsveis por tudo o que existia, por isso as prticas religiosas, maneira de ligao entre os homens e o mundo misterioso e divino. No mito, foras anmicas possuem a natureza (portadora de vontades) e o homem, para domin-la, faz seus rituais.

    O mito era contado por um poeta-rapsodo a quem os deuses permitiram ver o passado e a origem de todas as coisas que falava sobre o testemunho do nascimento do mundo e de seus objetos, bem como do duelo entre as foras divinas, dos castigos, do bem e do mal. Era uma narrativa genealgica, pode-se assim dizer, vista como simbolicamente verdadeira, no momento em que tratava dos fenmenos divinos e naturais. Homero foi um dos poetas que registrou, em sua Ilada e Odisseia3 (sc. IX a.C.), algumas lendas do povo grego, deixando entrever o contexto e a estrutura cultural de uma sociedade. Eram os poetas os responsveis por repassar e manter as tradies, onde tudo era promovido por Zeus, Posseidon e por Apolo.

    1 O mito de Prometeu foi contado, primeiramente, por Hesodo, na Teogonia (versos 507 a 616). HESODO. Teogonia: a origem dos deuses. So Paulo: Iluminuras, 2006.

    2 Goethe escreveu, em 1774, um poema sobre este mito, com o ttulo de Prometheus: Encobre o teu Cu Zeus /com nebuloso vu e, /semelhante ao jovem que gosta de recolher cardos /retira-te para os altos do carvalho ereto /Mas deixa que eu desfrute a Terra, /que minha, tanto quanto esta cabana /que habito e que no obra tua /e tambm minha lareira que, /quando arde, sua labareda me doura. /Tu me invejas! / [...] /Eu honrar a ti? Por qu? /Livraste a carga do abatido? /Enxugaste por acaso a lgrima do triste? /[...] /Por acaso imaginaste, num delrio, /que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo /por alguns dos meus sonhos se haverem /frustrado? Pois no: aqui me tens /e homens farei segundo minha prpria imagem: /homens que logo sero meus iguais /que iro padecer e chorar, gozar e sofrer /e, mesmo que sejam parias, /no se rendero a ti como eu fiz. (GOETHE, J. W. Poemas. Antologia, verso portuguesa, notas e comentrios de Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1979)

    3 A Ilada considerada o mais antigo poema grego. Homero, neste poema pico, fala sobre os ltimos anos da guerra de Troia (localidade chamada Ilion). A volta de Ulisses, rei de Itaca, para casa aps a vitria da Grcia, descrita na Odisseia. (MANGUEL, Alberto. Ilada e Odisseia de Homero: uma biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008)

  • 12

    O homem sempre procurou pela ordem do mundo e o fazia amparado nas imagens mticas. Mas em algum momento ele, como de sua natureza, iria se questionar, e colocar prova o que tinha sido repassado de gerao em gerao at ento, e neste momento que comea a se esboar a filosofia, procura de uma verdade coerente de fato, e no tradicionalista. Uma verdade possvel de se conhecer por meio da razo, e nisso est o cosmos, a natureza e o prprio homem. A filosofia nasce quando o homem busca por explicaes racionais para os fenmenos naturais, sobre a origem do mundo e sua ordem, e no justificaes mitolgicas.

    Comea a ocorrer uma ciso com o pensamento mtico, no momento em que a realidade observada mais de perto e passa a ser questionada, na tentativa de ser explicada a partir de suas causas e consequncias. O mito j no dava conta de responder a todos os questionamentos, diante da mudana estrutural que a sociedade estava vivenciando. O homem, portanto, passa a utilizar mais a sua racionalidade, de maneira a criticar e a tentar explicar os fenmenos, deixando a imaginao para segundo plano. H, ento, a passagem do mito (mythos) para a razo (logos).

    Esse pensamento filosfico mais cientfico (Grcia sc. VI a.C.) investigativo, necessita de certa coerncia, de lgica, dada a partir da observao emprica. De fato, a partir do momento em que ocorrem especulaes a respeito dos fenmenos, h o desenvolvimento de ramos do conhecimento.

    Ocorrem, neste perodo, o que fomenta a investigao do homem, as viagens pelos mares (desmistificando as moradas dos Deuses), o calendrio (mostrando que h uma repetio coerente de fatos), h maior aglomerao de pessoas em certa localidade, trazendo necessidades como a utilizao da moeda (um smbolo, no mais a coisa de fato) e a escrita.

    E quando falamos em sociedade, no h de se negar que h os comerciantes que se enriquecem e querem mostrar seu poder, e o fazem no momento em que prestigiam as artes e o conhecimento, fomentando o pensamento filosfico. H a necessidade de organizao da populao, quando esta v a necessidade de regras para uma melhor convivncia, e essas regras so feitas pelo prprio homem, e no por um Deus onipresente. A autoridade no mais do narrador dos mitos, mas do ser humano, que rege a sociedade. o homem, ele prprio, quem passa a decidir o que melhor para ele e a quem deve favorecer com suas leis. ele quem discute, cria e muda o que quer, a sua voz que rege o sistema comunitrio agora.

    A filosofia que comea a surgir interessa-se, particularmente, pela relevncia dos pr-socrticos (sc. VI-V a.C.), pensando cientificamente a natureza, em busca de uma substncia nica, o princpio do mundo. Aqui, entende natureza no apenas como fsica, mas tambm como metafsica, ou seja, relativa ao ser e ao ente.

    Os primeiros filsofos eram voltados natureza, ou melhor, a physis, eram os phsicos. Indagavam a respeito do mundo ao redor, trazendo tona a divergncia entre cincia e senso comum. Este um discurso, naturalmente, diferente da maneira como ocorre no mito. Agora as explicaes para os fatos devem ser coerentes, h que ter explicaes. O homem quer elaborar por si, para si, quer ele mesmo examinar e experimentar o mundo e seu pensamento. De fato, entra em declnio o pensamento mtico, da gnese do surgimento do mundo e da ordem. O divino vai, pouco a pouco, esvaziando-se.

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    CAPTUlO 2A Filosofia como saber reflexivo e crtico

    H que se observar que o homem ainda no o centro das indagaes, mas apenas uma parte do mundo, questionado pela Escola Jnica, Pitagrica, Eleata e Atomista. Talvez o progresso de ricas cidades asiticas tenha fomentado um pensamento mais instrumentalista, substituindo os esquemas antropomrficos.

    Tales, Anaximandro e Anaxmenes faziam parte da escola Jnica, em busca da causa e do princpio do mundo natural, no pautado em nada mitolgico. Procuravam explicar livremente as teogonias e cosmogonias antigas. Tudo natureza, physis, formando um universo homogneo. H a procura por algo imutvel intrnseco s coisas, de uma substncia, matria primeira que constitusse o ser, na explicao da realidade a partir dela mesma, nada de ilusrio ou falacioso. Buscavam por um princpio bsico (que fosse um elemento natural) que permeasse toda a realidade, buscando explicaes nos elementos naturais (gua, fogo, terra e ar), como causa primeira (arkh princpio fundamental) para o surgimento do mundo. Tales de Mileto (640-548 a.C.) dizia ser a gua, Anaxmenes de Mileto (588-524 a.C), o ar, e Anaximandro de Mileto (610-547 a.C.), o peiron (o indefinido). Herclito de feso (sc. VI-V a.C) acreditava no fogo, no constante movimento, na impermanncia. Parmnides de Elia (544-524 a.C.) j considerava que o ser era uno, imutvel, o movimento, portanto, seria apenas uma iluso. Demcrito (460 a.C 370 a.C.) acreditava no tomo como a causa primeira. De fato, a partir desses questionamentos que surge a noo de kosmos (organizao e harmonia).

    No momento em que explicavam a realidade, o faziam por meio da observao emprica da natureza. Procuravam causas, discursavam racionalmente, discutiam os fatos, faziam o logos, era a racionalidade humana a servio da realidade. No h mais absolutismo, mas tudo pode ser questionado e passvel de crtica, havendo, inclusive, divergncias entre os discursos a partir da percepo de cada indivduo.

    Recorre-se, cada vez mais, s justificaes tcnicas, ao invs ao crescimento da natureza, para explicar as mudanas do cosmo. De fato, o homem compreende melhor o que ele mesmo cria. Mas devemos nos ater que a razo da qual tratamos aqui um pouco diversa da cincia contempornea (mais experimental, focada nos fatos e na sua sistematizao). Era uma razo que procurava formalizar a experincia sensvel de maneira, digamos, matemtica, sem a explorao, de fato, do real. Isso porque a razo no est na natureza, mas na linguagem. Por isso a razo grega no transforma o mundo sensvel, mas reflete sobre ele.

    E as questes mundanas so debatidas publicamente, mostrando a autonomia do homem. Vrios assuntos da vida comum em geral eram levados gora, que era o novo centro da cidade, ou seja, a praa pblica. L eram feitas as crticas e os debates. Todos participavam, fazendo existir a polis, na melhor das definies, na medida em que se criou um espao cvico. Dessa maneira, a palavra tornava-se um instrumento poltico. E quem melhor fazia a oratria, quem melhor apresentava seus argumentos, convencia os demais e possua a arch (o comando). Observamos que, na Grcia clssica, havia professores itinerantes

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    que ensinavam a arte do discurso, os chamados sofistas. Com seus ensinamentos, os cidados ficavam preparados para argumentar nos embates na gora. Portanto, no havia um compromisso com a verdade, pois os argumentos se davam a partir da percepo, opinio e crena de cada indivduo.

    No momento em que tudo passa a ser discutido em praa pblica, vemos a intensificao da polis, da divulgao da vida social. Tudo posto prova, desde certas condutas do homem e seus valores, como algumas tcnicas de conhecimento. A religiosidade e seus smbolos so tambm discutidos na gora, tornam-se, por vezes, apenas imagens ao alcance de todos. O que antes era reservado ao olhar e posse de poucos magistrados, agora se torna pblico. Tudo o que era pautado nos mitos (e em realizaes do rei), passam a valer-se do logos.

    No demorou para que os escribas deixassem de ser os nicos a registrar o que se passava na sociedade, os cidados tambm aprenderam a escrita, e alguns filsofos puderam escrever seus livros, como Anaximandro e Ferecides. O conhecimento passa para o domnio de quase todos, que o aplicam, assim como as leis, da mesma maneira, unificando os cidados democraticamente. E esse primeiro conhecimento escrito, no momento em que procurava sistematizar o que havia sido discutido, era tomado como verdade pelos habitantes.

    De fato, em meio pblico que ocorre a participao poltica da sociedade, por meio da retrica e da persuaso, levando prtica da filosofia.

    Notamos que, com o nascimento dos filsofos, ocorreu tambm o surgimento do cidado, que vive em uma ordem poltica, em uma isonomia.

    Pensar racional e criticamente, de modo sistemtico, parte contingente da filosofia. E ela discorre sobre a natureza do mundo, a estrutura da realidade (metafsica), sobre crenas, ou melhor, a definio do conhecimento (epistemologia) e condutas humanas e valores (tica), e h tambm a sistematizao das verdades (lgica). H tambm a filosofia da religio, a poltica, a esttica e a filosofia da arte, a filosofia da cincia, da mente e da linguagem.

    Diante disso, h quem observe uma racionalidade exacerbada na cincia, daquela observada apenas em laboratrios, e defenda a volta percepo direta da natureza. Merlau-Ponty (1964) configura no texto O Olho e o Esprito esta questo. A sua ontologia faz uma crtica ao objetivismo clssico, que reduz o ser do ente, que cria um modelo absoluto, distanciado do real. A cincia, conforme acredita o filsofo, se ocupa em explicar a realidade, mas deixando de lado a primordialidade de nossa expresso, do outro e das coisas corriqueiras.

    Merleau-Ponty (1964) anuncia que a cincia, por vezes, dirige-se s coisas como se elas no pertencessem a uma realidade La science manipule ls choses et renonce ls habiter4 a partir de conceitos elaborados entre quatro paredes, em um laboratrio fechado e no a partir do mundo. Desse modo, procura encaixar cada coisa em seu lugar, classificando de maneira estanque, sem perceber que h imbricaes. Coloca no mundo um conhecimento elaborado. Quando deveria fazer o contrrio, ou melhor, partir do mundo para da gerar o conhecimento.

    Dessa maneira, ocorre a construo de uma realidade soberana, submetendo a vida s definies ideais preestabelecidas. H, ento, receitas prontas vlidas para tudo, acarretando um prejuzo imenso

    4 As tradues desta obra foram utilizadas da edio em portugus. A cincia manipula as coisas e renuncia a habit-las.

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    experincia. Esta no deve ser submetida s representaes, segundo o filsofo, mas so as experincias que tornam possveis as significaes objetivas.

    Sil est vrai que la philosophie, ds quelle se declare rflexion ou coincidence, prjuge de CE quelle trouvera, Il lui faut encore une fois tout reprendre, rejeter les instruments que la rflexion et lintuition se sont donns, sinstaller em um lieu ou elles ne se distinguent pas encore, dans ds expriences qui naient ps encore t travailles, qui nous offrent tout La fois, ple-mle, et ls ujet et lobjet, et lexistence et lessence, et lui donnent donc les moyens de ls redfinir. Voir, parler, mme penser, sous certaines rserves, car ds quon distingue absolument le penser du parler on est dj en rgime de rflexion , sont ds expriences de ce genre, la fois irrcusables et nigmatiques. Elle sont um nom dans toutes les langues, mais qui dans toutes aussi porte ds significations entouffe, ds buissons de sens propres et de sens figurs, de sorte que ce nest ps un de ces noms, comme ceux de ls cience, qui font la lumire, en attribuant CE qui est nomm une signification circonscrite, mais plutt lindice rpt, le rappel insistant, dum mystre aussi familier quinexpliqu, dune lumire qui, clairant le reste, demeure son origine dans lobscurit.5

    Merleau-Ponty est em busca de uma filosofia que no faz sobrevoo, mas que vive o real, que seja vertical, ou seja, feita de simultaneidades, inclusive de passado e do de vir. No h sedimentao de sentido, como se estivesse incorporado cultura desde sempre, estando institudas, ignorando sua origem. O mundo assim dado apenas contemplao, em que h sempre dicotomias. No mundo vertical h o invisvel, uma universalidade oblqua, um entrelaamento do homem com o mundo, h experincias particulares. Isso porque no somos espectadores contemplando e interpretando o mundo, mas o habitamos. No o possumos intelectualmente, mas o interrogamos constantemente, estamos envolvidos pelas coisas do mundo. De fato, o mundo est em constante formao, impossvel de ser dominado totalmente pela intelectualidade.

    Merleau-Ponty no pretende ignorar a cincia, mas reconhecer uma compreenso originria e no determinada, aqum do olhar cientfico, uma compreenso que se d por meio do nosso corpo. por isso que estuda os pintores, pelo fato de eles emprenharem o corpo em aes criativas e inaugurais, como na experincia perceptiva.

    O corpo do sujeito atual, e no um simples objeto no espao, ele v e se movimenta no mundo, espectador e seu participante est inserido no mundo, dele faz parte e no as domina ou as toma para si, sua extenso, como um amlgama. O filsofo diz que:

    Visible et mobile, mon corps est au nombre des choses, il est lune delles, I lest pris dans le tissu du monde et sa cohesion est celle dune chose. Mais, puisquil voit et se meut, il tient les choses en cercle autour de soi, ells sont une annexe ou un prolongement

    5 MERLEAU-PONTY, Maurice. Le Visible etlInvisible: suivi de notes de travail. Paris: Gallimard, 1964, p. 172. Se verdade que a filosofia, desde que se declara reflexo ou coincidncia, prejulga o que encontrar, torna-se-lhe necessrio ento recomear tudo de novo, rejeitar os instrumentos adotados pela reflexo e pela intuio, instalar-se num local em que estas ainda no se distinguem, em experincias que no foram ainda trabalhadas, que nos ofeream concomitante e confusamente o sujeito e o objeto, a existncia e a essncia, e lhe do, portanto, os meios de redefini-los. Ver, falar, at mesmo pensar sob certas reservas, pois desde que se distinga absolutamente o pensar do falar j estamos em regime de reflexo so experincias desse gnero, ao mesmo tempo irrecusveis e enigmticas. Possuem um nome em todas as lnguas mas, em todas, esse nome carrega tufos de significaes, arborizao de sentidos prprios e figurados, de sorte que no um desses nomes, como os da cincia, que iluminam, atribuindo ao que nomeado uma significao circunscrita, mas antes o ndice repetido, o apelo renovado e insistente de um mistrio familiar e inexplicado, de uma luz que, aclarando o resto, conserva sua origem na obscuridade.

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    de lui-mme; ells sont incrustes dans sa chair, elles font partie de sa definition pleine et le monde est fait de ltoffe mme du corps.6

    A filosofia deve interrogar o mundo, dessa maneira ele pode se mostrar. A filosofia experincia, mas de pensamento, em busca de uma significao conceitual. criao, a construo de uma nova significao a partir do j dado, e isso feito a partir da linguagem, o testemunho do mundo habitado.

    Portanto, a cincia s poder ter algum ganho quando no chegar no mundo objetivamente com conceitos j prontos e estanques. E dessa maneira que o mundo poder ser desvelado e chegaremos s coisas elas mesmas, as que surgem da experincia espontnea, em uma ordem nascente, sem explicaes causais.

    Merleau-Ponty est em busca do mundo e seu conhecimento somente possvel se empreendermos nosso corpo em experincias. O que no quer dizer ter uma conscincia passiva, que apenas recebe sensaes. No uma relao constitutiva, mas h um contexto relacional, em busca da unidade relacional de Descartes, na mistura de corpo e alma, embora este filsofo pense na supremacia da conscincia. No somos apenas uma conscincia, mas vivemos em um contexto relacional, com a linguagem. Vivemos o mundo, no apenas o pensamos. No o possumos em sua vastido, visto ser ele inesgotvel. No h simulacros, mas a prpria dimenso do real.

    De fato, Merleau-Ponty procura pela vivncia e no por explicaes, pois, dessa maneira, pode-se chegar compreenso objetiva, mas sem categorias lgicas e julgamentos. S assim pode chegar originalidade do corpo atuante no sensvel.

    no sensvel, na experincia real, que vemos respostas sobre o funcionamento do cosmos, como a sequncia de Fibonacci, ou melhor, de Leonardo Pisano (ou de Pisa) ca. 1170 ca. 1250. O matemtico, ao viajar pelo Mediterrneo, entrou em contato com a matemtica islmica e a aplicou em seus estudos sobre clculos aritmticos e lgebra. Fibonacci props uma sequncia numeral, a partir da observao do nascimento de coelhos, que possui o numeral 1 como primeiro e segundo da ordem. O numeral seguinte se d da soma dos dois antecessores, e seu quociente da diviso do nmero e seu antecessor o nmero PHI (1.618).

    6 MERLEAU-PONTY, Maurice. LOeiletlEsprit, p. 19. Visvel e mvel, meu corpo est no nmero das coisas, uma delas; captado na contextura do mundo, e sua coeso a de uma coisa. Mas j que v e se move, ele mantm as coisas em crculo volta de si; elas so um anexo ou um prolongamento dele mesmo, esto incrustadas na sua carne, fazem parte da sua definio plena, e o mundo feito do mesmo estofo do corpo.

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    Ao observar a natureza, Fibonacci viu esta proporo em vrias plantas, como nas folhas de bromlias e em conchas, como no Nautilus Marinho.

    Nautilus Marinho

    Girassol

    Essa proporo chamada urea, ou divina, j utilizada pelos gregos em suas construes no Parthenon (construdo por Fdias em 430-440 a.C) e pelos egpcios em suas pirmides.

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    Parthenon

    Estudo para a construo de uma pirmide

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  • 19

    Artistas, como Michelangelo e Leonardo da Vinci, tambm a utilizaram em seus trabalhos, e este ltimo observou que a proporo urea tambm estava no corpo humano.

    David, de Michelangelo.

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    Mo fechada

    Corpo humano

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    O Homem Vitruviano, que acompanhava as notas de Leonardo da Vinci (1490), mostra uma figura masculina em duas posies sobrepostas, seguindo os preceitos ureos. O desenho foi inspirado no livro De Architectura, do arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio, um tratado de arquitetura que contm as descries de proporo do corpo humano.

    Os 4 dedos fazem uma palma e 4 palmas fazem 1 p, 6 palmas fazem um cbito; 4 cbitos fazem a altura de um homem. 4 cbitos fazem um passo e 24 palmas fazem um homem. Se abrir as pernas at termos descido 1/14 de altura e abrirmos os braos at os dedos estarem ao nvel do topo da cabea ento o centro dos membros abertos ser no umbigo. O espao entre as pernas abertas ser um tringulo equiltero. O comprimento dos braos abertos de um homem igual sua altura. Desde as razes dos cabelos at ao fundo do queixo um dcimo da altura do homem; desde o fundo do queixo at ao topo da cabea um oitavo da altura do homem; desde o topo do peito at ao topo da cabea um sexto da altura do homem; desde o topo do peito at as razes do cabelo um stimo da altura do homem; desde os mamilos at ao topo da cabea um quarto da altura do homem. A maior largura dos ombros contm em si prpria a quarta parte do homem. Desde o cotovelo at a ponta dos dedos um quinto da altura do homem e desde o cotovelo at ao ngulo da axila um oitavo da altura do homem. A mo inteira ser um dcimo da altura do homem. O incio dos rgos genitais marca o centro do homem. O p um stimo do homem. Da sola do p at debaixo do joelho um quarto da altura do homem. Desde debaixo do joelho at o incio dos rgos genitais um quarto do homem. A distncia entre o fundo do queixo e o nariz e entre as razes dos cabelos e as sobrancelhas a mesma e , como a orelha, um tero da cara.7

    Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci.

    7 Este texto acompanha a figura Homem Vitruviano.

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    A proporo urea tambm est presente em muitas sinfonias, como a 5 e 9 de Beethoven. O diretor russo Sergei Eisenstein se utilizou do nmero Phi no em O Encouraado Potemkin, marcando as partes de maior relevncia do filme, ao medir a razo pelo tamanho das fitas de pelcula. Atualmente, algumas medidas so padronizadas de acordo com a proporo divina, como o tamanho de um carto de crdito, tamanhos de livros, jornais e at mesmo de uma fotografia.

    De fato, ao vivenciarmos o mundo, empenhando-nos de maneira atual, chegaremos sua essncia. E devemos ter o cuidado de no colocar a cincia em um patamar superior, como sendo o estgio mais evoludo da humanidade, como na fala de Comte8. No devemos ser dogmticos. Vemos o exemplo de Ode Triunfal (1914), de Fernando Pessoa (2006), que critica a mecanizao humana.

    Ode Triunfal

    dolorosa luz das grandes lmpadas elctricas da fbrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. rodas, engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fria! Em fria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lbios secos, grandes rudos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabea de vos querer cantar com um excesso De expresso de todas as minhas sensaes, Com um excesso contemporneo de vs, mquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical Grandes trpicos humanos de ferro e fogo e fora Canto, e canto o presente, e tambm o passado e o futuro, Porque o presente todo o passado e todo o futuro E h Plato e Virglio dentro das mquinas e das luzes elctricas S porque houve outrora e foram humanos Virglio e Plato, E pedaos do Alexandre Magno do sculo talvez cinquenta, tomos que ho de ir ter febre para o crebro do squilo do sculo cem, Andam por estas correias de transmisso e por estes mbolos e por estes volantes, Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, Fazendo-me um acesso de carcias ao corpo numa s carcia alma.

    8 Auguste Comte (1798-1857), fundador do Positivismo.

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    Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma mquina! Poder ir na vida triunfante como um automvel ltimo modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de leos e calores e carves Desta flora estupenda, negra, artificial e insacivel! Fraternidade com todas as dinmicas! Promscua fria de ser parte-agente Do rodar frreo e cosmopolita Dos comboios estrnuos, Da faina transportadora de cargas dos navios, Do giro lbrico e lento dos guindastes, Do tumulto disciplinado das fbricas, E do quase-silncio ciciante e montono das correias de transmisso! Horas europeias, produtoras, entaladas Entre maquinismos e afazeres teis! Grandes cidades paradas nos cafs, Nos cafs osis de inutilidades ruidosas Onde se cristalizam e se precipitam Os rumores e os gestos do til E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento! Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas s docas, Ou a seco, erguidas, nos planos inclinados dos portos! Atividade internacional, transatlntica, Canadian-Pacific! Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotis, Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, E Piccadillies e Avenues de LOpra que entram Pela minhalma dentro! H-l as ruas, h-l as praas, h-l-hlafoule! Tudo o que passa, tudo o que para s montras! Comerciantes; vrios; escrocs exageradamente bem-vestidos; Membros evidentes de clubes aristocrticos; Esqulidas figuras dbias; chefes de famlia vagamente felizes E paternais at na corrente de oiro que atravessa o colete De algibeira a algibeira! Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! Presena demasiadamente acentuada das cocotes Banalidade interessante (e quem sabe o qu por dentro?)

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    Das burguesinhas, me e filha geralmente, Que andam na rua com um fim qualquer; A graa feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra E afinal tem alma l dentro! (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) A maravilhosa beleza das corrupes polticas, Deliciosos escndalos financeiros e diplomticos, Agresses polticas nas ruas, E de vez em quando o cometa dum regicdio Que ilumina de Prodgio e Fanfarra os cus Usuais e lcidos da Civilizao quotidiana! Notcias desmentidas dos jornais, Artigos polticos insinceramente sinceros, Notcias passez -la-caisse, grandes crimes Duas colunas deles passando para a segunda pgina! O cheiro fresco a tinta de tipografia! Os cartazes postos h pouco, molhados! Vients-de-paratre amarelos como uma cinta branca! Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, Como eu vos amo de todas as maneiras, Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligncia como uma antena que fazeis vibrar! Ah, como todos os meus sentidos tm cio de vs! Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! Qumica agrcola, e o comrcio quase uma cincia! mostrurios dos caixeiros-viajantes, Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indstria, Prolongamentos humanos das fbricas e dos calmos escritrios! fazendas nas montras! manequins! ltimos figurinos! artigos inteis que toda a gente quer comprar! Ol grandes armazns com vrias seces! Ol anncios elctricos que vm e esto e desaparecem! Ol tudo com que hoje se constri, com que hoje se diferente de ontem! Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! Progressos dos armamentos gloriosamente mortferos! Couraas, canhes, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.

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    Amo-vos carnivoramente. Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vs, coisas grandes, banais, teis, inteis, coisas todas modernas, minhas contemporneas, forma actual e prxima Do sistema imediato do Universo! Nova Revelao metlica e dinmica de Deus!

    fbricas, laboratrios, music-halls, Luna-Parks, couraados, pontes, docas flutuantes Na minha mente turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que no se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantssima. Eh-l-h fachadas das grandes lojas! Eh-l-h elevadores dos grandes edifcios! Eh-l-h recomposies ministeriais! Parlamentos, polticas, relatores de oramentos, Oramentos falsificados! (Um oramento to natural como uma rvore E um parlamento to belo como uma borboleta). Eh-l o interesse por tudo na vida, Porque tudo a vida, desde os brilhantes nas montras At noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene, lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Plato era realmente Plato Na sua presena real e na sua carne com a alma dentro, E falava com Aristteles, que havia de no ser discpulo dele. Eu podia morrer triturado por um motor Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuda. Atirem-me para dentro das fornalhas! Metam-me debaixo dos comboios! Espanquem-me a bordo de navios! Masoquismo atravs de maquinismos! Sadismo de no sei qu moderno e eu e barulho! Up-l h jockey que ganhaste o Derby, Morder entre dentes o teu cap de duas cores! (Ser to alto que no pudesse entrar por nenhuma porta! Ah, olhar em mim uma perverso sexual!)

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    Eh-l, eh-l, eh-l, catedrais! Deixai-me partir a cabea de encontro s vossas esquinas. E ser levado da rua cheio de sangue Sem ningum saber quem eu sou! tramways, funiculares, metropolitanos, Roai-vos por mim at ao espasmo! Hilla! hilla! hilla-h! Dai-me gargalhadas em plena cara, automveis apinhados de pndegos e de..., multides quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, Rio multicolor annimo e onde eu me posso banhar como quereria! Ah, que vidas complexas, que coisas l pelas casas de tudo isto! Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, As dissenses domsticas, os deboches que no se suspeitam, Os pensamentos que cada um tem a ss consigo no seu quarto E os gestos que faz quando ningum pode ver! No saber tudo isto ignorar tudo, raiva, raiva que como uma febre e um cio e uma fome Me pe a magro o rosto e me agita s vezes as mos Em crispaes absurdas em pleno meio das turbas Nas ruas cheias de encontres! Ah, e a gente ordinria e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavres como palavras usuais, Cujos filhos roubam s portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! Masturbam homens de aspecto decente nos vos de escada. A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreiteza e podrido. Maravilhosamente gente humana que vive como os ces Que est abaixo de todos os sistemas morais, Para quem nenhuma religio foi feita, Nenhuma arte criada, Nenhuma poltica destinada para eles! Como eu vos amo a todos, porque sois assim, Nem imorais de to baixos que sois, nem bons nem maus, Inatingveis por todos os progressos, Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! (Na nora do quintal da minha casa O burro anda roda, anda roda, E o mistrio do mundo do tamanho disto.

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    Limpa o suor com o brao, trabalhador descontente. A luz do sol abafa o silncio das esferas E havemos todos de morrer, pinheirais sombrios ao crepsculo, Pinheirais onde a minha infncia era outra coisa Do que eu sou hoje...) Mas, ah outra vez a raiva mecnica constante! Outra vez a obsesso movimentada dos nibus. E outra vez a fria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios De todas as partes do mundo, De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, Que a estas horas esto levantando ferro ou afastando-se das docas. ferro, ao, alumnio, chapas de ferro ondulado! cais, portos, comboios, guindastes, rebocadores! Eh-l grandes desastres de comboios! Eh-l desabamentos de galerias de minas! Eh-l naufrgios deliciosos dos grandes transatlnticos! Eh-l-h revolues aqui, ali, acol, Alteraes de constituies, guerras, tratados, invases, Rudo, injustias, violncias, e talvez para breve o fim, A grande invaso dos brbaros amarelos pela Europa, E outro Sol no novo Horizonte! Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto Ao flgido e rubro rudo contemporneo, Ao rudo cruel e delicioso da civilizao de hoje? Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, O Momento estridentemente ruidoso e mecnico, O Momento dinmico passagem de todas as bacantes Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. Eia comboios, eia pontes, eia hotis hora do jantar, Eia aparelhos de todas as espcies, frreos, brutos, mnimos, Instrumentos de preciso, aparelhos de triturar, de cavar, Engenhos brocas, mquinas rotativas! Eia! eia! eia! Eia electricidade, nervos doentes da Matria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metlica do Inconsciente! Eia tneis, eia canais, Panam, Kiel, Suez! Eia todo o passado dentro do presente!

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    Eia todo o futuro j dentro de ns! eia! Eia! eia! eia! Frutos de ferro e til da rvore-fbrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-h--! Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. Engatam-me em todos os comboios. Iam-me em todos os cais. Giro dentro das hlices de todos os navios. Eia! eia-h! eia! Eia! sou o calor mecnico e a electricidade! Eia! e os rails e as casas de mquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, mquinas a trabalhar, eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-l! Hup-l, hup-l, hup-l-h, hup-l! H-la! He-h! H-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! Ah no ser eu toda a gente e toda a parte!

    O poeta, em uma esttica contrria a Aristteles, une o corpo, a escrita e o sensvel, em uma imanncia contextual. Aqui destacada a velocidade do progresso, a civilizao industrial, que logo fica sem sentido e tediosa, ocorrendo um desencanto, que se aproxima do conceito merleaupontyano de fala falada9.

    No texto A Linguagem Indireta e as Vozes do Silncio, Merleau-Ponty fala da fala falada e da fala falante. Esta ltima seria a fala criativa e autntica, em que h a instituio, ou melhor, uma produo de uma nova fala, no sendo somente uma articulao de pensamentos consolidados. Aqui, a partir de significaes conceituais j dadas e retomadas como pensamentos, criamos novas formas lingusticas, implicando uma significao existencial. Pelo fato de a fala falante no possuir a comunicao corriqueira, ela expressiva, e a inteno do falante est em estado nascente. Aqui os pensamentos se fazem no processo, na palpitao das intenes. Seria no repetir o que j foi dito, mas falar de maneira inovadora, para alm do emprico. De fato, nossa cultura capitalista est repleta de pensamentos j formulados, fazendo-nos perceber a importncia da linguagem somente queremos formular algo indito. A esta linguagem primordial, Merleau-Ponty ope a que denomina fala falada, a qual contm formas lingusticas j utilizadas, comprometidas com intenes significativas. Aqui ocorre apenas a articulao de significaes disponveis, em falas que repetem o j dito, cuja significao e inteno do falante so possveis de identificar, pois esto em pensamentos j cristalizados.

    Essa mecanizao e racionalidade exacerbada, Cortzar (1983) tambm critica, de maneira irnica, em seu Manual de Instrues, no livro Histrias de Cronpiose de Famas.

    9 MERLEAU-PONTY, Maurice. Le Langage Indirecteet les Voix du Silence, in Signes. Paris: Gallimard, 1960.

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    Prembulo s Instrues para dar Corda no Relgio

    Pense nisto: quando do a voc de presente um relgio esto dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouo de ar. No do somente o relgio, muitas felicidades e esperamos que dure porque de boa marca, suo com ncora de rubis; no do de presente somente esse mido quebra-pedras que voc atar ao pulso e levar a passear. Do a voc eles no sabem, o terrvel que no sabem do a voc um novo pedao frgil e precrio de voc mesmo, algo que lhe pertence mas no seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Do a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigao de dar-lhe corda para que continue sendo um relgio; do a obsesso de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notcia do rdio, no servio telefnico. Do o medo de perd-lo, de que seja roubado, de que possa cair no cho e se quebrar. Do sua marca e a certeza de que uma marca melhor do que as outras, do o costume de comparar seu relgio aos outros relgios. No do um relgio, o presente voc, a voc que oferecem para o aniversrio do relgio.

    Instrues para dar Corda no Relgio

    L no fundo est a morte, mas no tenha medo. Segure o relgio com uma mo, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as rvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do po.

    Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as ncoras, cada coisa que pde ser alcanada e foi esquecida comea a corroer as veias do relgio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E l no fundo est a morte se no correm, e chegamos antes e compreendemos que j no tem importncia.

    Essa ironia na literatura, Scrates j utilizava em sua filosofia, aparecendo a a maiutica, ou melhor, se utilizava da dialtica para questionar, para fazer com que os sujeitos descobrissem as coisas por eles prprios. Vemos na histria outros pensadores que tambm se utilizavam deste gnero, como Marx10, mostrando a ironia do sistema capitalista.

    No podemos deixar de citar aqui Cildo Meireles, que tambm questiona a sociedade e seus sistemas de regras e cdigos. Yankees, go home foi o que Cildo escreveu em garrafas de Coca-Cola smbolo mais eminente do imperialismo norte-americano (projeto Inseres em circuitos ideolgicos entre os anos 1960 e 1970) e as devolveu para a circulao do mercado, como uma crtica ao controle centralizado da informao). Tambm carimbou notas de um cruzeiro com a frase Quem matou Herzog? (dcada de 1970).

    10 Karl Marx (1818-1883), terico socialista, fundador da teoria marxista.

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    Yankees, go home projeto Inseres em circuitos ideolgicos

    Quem matou Herzog?

    Em Zero Cruzeiro e Zero Dollar (1977), o artista substituiu as imagens de heris nacionais por ndios e internos de instituies psiquitricas. A cdula de valor zero, mas carregada de valores simblicos, de poltica, de cultura, de economia, e, sobretudo de valores sociais.

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    Zero Cruzeiro e Zero Dollar

    Em Misses: como construir catedrais (1987), Cildo conecta o poder material, espiritual e a tragdia, que se repete ao longo de toda a histria da humanidade. No teto esto dois mil ossos pendurados, e no cho, seis mil moedas, ligados por uma coluna central composta por 800 hstias. No h como no pensar na morte de milhares de ndios nas Misses Jesutas.

    Misses: como construir catedrais

    Salientamos, novamente, que o pensamento racional foi decisivo para a cultura ocidental, na busca por respostas rigorosas condizentes com a vida poltica e social da poca, rompendo com a lgica da ambivalncia. Mas, assim como os mitos estavam a servio da aristocracia rural e foram deixados de lado quando a aristocracia da cidade comeou a se evidenciar, o pensamento tecnicista est a servio de quem financia o conhecimento cientfico.

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    CAPTUlO 3Principais partes do estudo filosfico

    Mas ser que o mito est, hoje, to longe de nossas sociedades? Ser que ainda h povos que vivem em uma crena cega? Vejamos o filme A Vila um ensaio sociolgico do diretor e roteirista M. NightShyamalan (2004) e o modo de como o discurso pode influenciar e dominar uma cultura.

    O filme trata da histria de nove pessoas que se isolaram dos grandes centros urbanos, formando uma comunidade onde criam seus filhos sem qualquer contato com o mundo externo. Para manter todos no vilarejo, essas pessoas (os ancios) criaram lendas sobre monstros que habitam a floresta que cerca a localidade.

    No decorrer da narrativa, vemos que a floresta que cerca a Vila, na verdade, propriedade de um dos ancios, e h guardas florestais, empenhados em ajudar para que a vida no vilarejo continue sempre como est. H muros, cercas eltricas e cmeras de monitoramento para proteger o mundo perfeito do patriarca da comunidade, visto pela sociedade urbana como uma reserva biolgica.

    A modernidade da cidade no est na Vila, uma sociedade fora de seu tempo e de seus costumes (comunidade rural autossustentvel ambientada no sculo XIX), que se mantm por meio de um mito.

    A Vila denuncia uma resistncia ao moderno, mas reinventa uma sociedade. Aqui no h a circulao de moeda, e h a gesto por um conselho de pessoas que tiveram perdas de familiares de maneira violenta em centros urbanos. Por cansao do medo da vida moderna, idealizaram a Vila, construram uma estrutura comunitria. E o fizeram amparados nos mitos de criaturas que vivem no limiar da comunidade. Os ancios criaram um mito, a fim de se protegerem contra uma possvel revolta dos jovens ou quebra de regras, a fim de manter a estabilidade. So eles que direcionam a vida no lugarejo, so os que tm a autoridade por terem conhecimento dos smbolos da comunidade. O medo pelo desconhecido paira entre seus habitantes, que vivem em um mundo fantasioso. Ser que essa maneira de manter a vila no reproduz as condies prprias da modernidade? Os habitantes esto em constante medo das criaturas, seguem regras morais rgidas, regras territoriais. E os ancios no ficam longe do medo, mas do medo da descoberta de toda a fantasia que foi criada por eles.

    O medo, que fora o motivo pelo qual os antigos moradores urbanos resolveram construir a comunidade, tambm est presente em seus habitantes, institudo para que estes no queiram sair da Vila e no descubram, assim, o segredo dos ancios. O bosque, repleto de mistrios, abriga o primitivo, a falta de civilizao; a cidade tida como local onde ocorreram tristezas; o campo , portanto, o refgio, em busca de relaes mais humanas. Aqui lembramos de Boisier (1999) quando elucida seus capitais, sobretudo o sinergtico.

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    Boisier discorre sobre formas de capital contidas em um territrio. O capital econmico tido como os recursos financeiros e, para que eles existam, necessria a conversa entre o governo e os agentes que possuem o poder monetrio. O capital cognitivo o conhecimento tanto tcnico quanto cientfico de uma localidade, que pode promover, se bem utilizado, o seu desenvolvimento. O discurso regional, autorreferente, a proposta do capital simblico, aqui a palavra tem o poder de colocar a comunidade em relao competitiva com o mercado internacional. Os produtos imateriais (literatura, pintura, dana, msica) e os materiais (especficos de um local) constituem a identidade coletiva, referindo-se ao capital cultural. O capital institucional tido como as instituies e sua atuao tomada de decises (velocidade, flexibilidade, maleabilidade, virtualidade e inteligncia), alm do trabalho cooperativo entre elas. Pensamento e ao, emoes e sentimentos, confiana em si e a ideia de um futuro construdo de maneira conjunta constituem o capital psicossocial. Se os membros de uma localidade so cooperativos e h confiabilidade, existe a o capital social. No capital cvico, predomina a democracia nas prticas polticas bem como a confiana nas instituies pblicas. O capital humano relaciona-se s habilidades e conhecimentos dos sujeitos. Agir em detrimento da coletividade o capital sinergtico, este, de grande destaque nas ideias de Boisier. aqui que o autor v a possibilidade de se fomentar o desenvolvimento da sociedade, quando este capital se articula com os demais.

    O conceito de capital simblico tambm utilizado por Bourdieu (1989). Segundo este autor, ele aparece de um modo velado, ou seja, no dado de maneira explcita na sociedade, mas est em toda parte. Seria o prestgio que um sujeito ou instituio possui frente a um campo, por vezes reforado por uma marca, como a roupa do sacerdote. Com isso, h a imposio deste reconhecimento diante dos que no o possuem. Diz o socilogo: o poder simblico , com efeito, esse poder invisvel o qual s pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que no querem saber que lhe esto sujeitos ou mesmo o exercem. (BOURDIEU (1989). por isso que Bourdieu indica que este capital simblico pode se transformar em capital cultural ou econmico, na medida em que o acesso ao capital econmico escolhido pelo efeito de valorizao deste sujeito, ou seja, o smbolo serve s classes dominantes.

    As ideologias, por oposio ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo []. Este efeito ideolgico produz a cultura dominante dissimulando a funo de diviso na funo de comunicao: a cultura que une (intermedirio da comunicao) tambm a cultura que separa (instrumento de distino) e que legitima as distines compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distncia em relao cultura dominante. (BOURDIEU, 1989, p. 11)

    Bourdieu elucida sobre os neokantianos, para estes, linguagens simblicas arte, mito, cincia so instrumentos para a construo do mundo objetivo, ou seja, o sentido objetivo se d pela estruturao das subjetividades. Por isso, acredita Bourdieu, ao se analisar a estrutura, possvel conhecer as formas simblicas. Com isso lembramos de Saussure11 quando diz que: sistema estruturado, a lngua fundamentalmente tratada como condio de inteligibilidade da palavra, como intermedirio estruturado que se deve construir para se explicar a relao constante entre som e sentido. (BOURDIEU,

    11 Ferdinand de Saussure (1857-1913), fundador da lingustica moderna.

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    1989, p. 9). A realidade construda pelo poder simblico, acredita o autor, de modo a estabelecer uma ordem gnosiolgica.

    Bourdieu fala das relaes de comunicao como sendo, na verdade, relaes de poder, sejam simblicas ou materiais. So os sistemas simblicos os instrumentos estruturados e estruturantes de comunicao e conhecimento, de modo a legitimar os smbolos a favor de uma classe. De fato, a luta de classes, aqui, seria uma luta do simblico, por sua dominao. H o poder de impor e mesmo de inculcar instrumentos de conhecimento e de expresso (taxionomias) arbitrrios embora ignorados como tais a da realidade social. (BOURDIEU, 1989, p. 12)

    Os smbolos so produzidos e utilizados pela sociedade, de modo a criar e a retirar dela os que no so mais de seu interesse, como acontece com os mitos ou com os smbolos religiosos.

    Os ancios, do filme A Vila, racionalizaram o modo de viver, se utilizando da dominao por meio da subordinao, da opresso e da falta de conhecimento dos habitantes, instituindo seus smbolos na comunidade. E para manter as pessoas em seus lugares, em uma dinmica interna, minando a sua autonomia, eles se utilizavam da repetio de rituais.

    H um ideal romntico tardio na concepo de uma vila em plena modernidade, perodo em que o homem se reconhece como autnomo, acreditando que sua racionalidade pode sobrepor a natureza.

    Inventaram tradies e impuseram a maneira de suas construes, da educao, e de como enxergam o mundo, emancipando-se da sociedade moderna. Mas ser que no esto fazendo o que a sociedade moderna fez com eles, aprisionando sujeitos em um lugar em que eles no podem se perceber na realidade?Aqui h a imposio de ideias em uma coao externa, assim como, por vezes, acontece na sociedade urbana.

    Ainda, hoje, h conflitos entre racionalidade e crenas em nossa sociedade, e a esto entremeadas a poltica e a economia. O homem cria uma imagem de si, vemo-nos, na contemporaneidade, em imagens em espelhos em shoppings centers. mito ou realidade? O que est por trs das aparncias?

    Em Simulacros e Simulao, Baudrillard (1981) trata da relao entre a imagem e o real, mais propriamente na ps-modernidade. nessa poca histrica que se inicia a saturao imagtica, o excesso de informaes e representaes dirias, causando um empobrecimento da percepo. De fato, as categorias imagem e reproduo mudam de nfase, e, consequentemente, as ideias de realidade e irrealidade.

    De maneira irnica, Baudrillard denuncia que os smbolos parecem ter maior importncia e fora que o prprio real lembramos de Truman Show, filme inspirado nas ideias deste autor.

    O Show de Truman (1998), dirigido por Peter Weir e roteiro de Andrew Niccol, uma crtica contemporaneidade, como sendo uma sociedade do espetculo. Trata-se da histria de Truman Burbank, trabalhador comum de uma empresa de seguros, que vive em um reality show desde que nasceu por isso no sabe da trama na Ilha de Seahaven, na verdade, um gigantesco estdio.

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    Todos os que cercam o personagem, desde sua esposa e amigos aos demais moradores da cidade, so atores. Truman comea a questionar o mundo em que vive, to harmnico e perfeito, em uma busca pela verdade sobre sua existncia.

    J na abertura do programa, a atriz que interpreta a esposa do personagem, comenta sobre a unio entre a vida pblica e a privada. E isso que se d com Truman, privado de uma vida de verdade, onde pudesse exercer, de fato, sua autonomia e ter suas prprias experincias.

    Vale notar os inmeros merchandisings que se do de maneira integrada ao cotidiano da cidade, e tudo est venda no catlogo Truman.

    A realidade parece ser colocada em segundo plano e o sujeito ps-moderno passa a viver em sua representao, em seu simulacro, difundido exacerbadamente de maneira sedutora pelos meios miditicos. A imagem do objeto, por exemplo, parece ser mais atraente que ele prprio. Aqui, lembramos de imagens de obras de arte em revistas ou catlogos, to difundidos na sociedade. Quando estamos diante da obra, ela mesma, nem nos deleitamos, pela falta de interesse que temos diante dela, j to vista sua imagem e dilacerada de seus sentidos. A sua reproduo na revista parece melhor que a prpria pintura.

    Ren Magritte, ao pintar Ceci nest pas une pipe (1928), procura mostrar ao espectador que ele est diante de uma pintura de um cachimbo, e no do prprio objeto. Crtica que podemos estender ao mundo imagtico, ao que se prope a ser hiper-real.

    Ceci nest pas une pipe

    Picasso, ao ser observado pintando a pele de uma mulher na cor verde, indagado a respeito da cor real da pele humana, ao qual o pintor responde tratar-se de uma pintura e no de uma mulher. A pintura tratada, pelo artista, como uma fico, e no realidade, em que no h confuses. Uma se pauta na outra, no sua cpia.

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    Mulher nua com colar (1968)

    De fato, houve mudanas substanciais na cultura aps as inovaes tecnolgicas, das quais Baudrillard, influenciado por Mauss12 e Marx, tratou. Baudrillard reavalia de maneira crtica alguns postulados marxistas, e prope que o mundo contemporneo construdo a partir de tecnologias de reproduo de imagens e signos. O autor refutou o pensamento cientfico tradicional, propondo um pensamento acerca do virtual, das realidades construdas, das hiper-realidades provocadas pela cultura de massa.

    Baudrillard (1981) chegou a afirmar que a Guerra do Golfo, em 1991, no ocorreu, defendendo que, com a manipulao de imagens, no se poderia ter o atestado de credibilidade do acontecimento, nem saber qual nao teria sido vitoriosa.

    Muitos outros acontecimentos (a crise petrolfera, etc.) nunca comearam, nunca existiram, seno como peripcias artificiais abstract, substituio (Ersats em alemo) e artefactos de histria, de catstrofes e de crises destinadas a manter um investimento histrico sob hipnose. Todos os media e o cenrio oficial da informao existem apenas para manter a iluso de um acontecimento, de uma realidade dos problemas, de uma objetividade dos fatos. Todos os acontecimentos devem ser lidos ao contrrio, ou apercebemo-nos (os comunistas no poder em Itlia, a redescoberta pstuma, retro, dos goulags e dos dissidentes soviticos, como a redescoberta, quase contempornea, por uma etnologia moribunda, da diferena perdida dos selvagens) de que estas coisas acontecem demasiado tarde, com uma histria de atraso, uma espiral de atraso, que esgotaram o seu sentido com muita antecipao e vivem apenas de uma efervescncia artificial de signos, que todos estes acontecimentos se sucedem sem lgica, numa equivalncia total das mais contraditrias, numa indiferena profunda pelas suas consequncias (mas que j no tm mais: esgotam-se na sua promoo espetacular) todo o filme da actualidade d assim a impresso sinistra de kitsch, de retro e de porn ao mesmo tempo isto sem dvida que todos o sabem e, no fundo, ningum o aceita. A realidade da simulao insuportvel mais cruel que o Thtre de La Cruaut de Artaud, que era ainda o ensaio

    12 O antroplogo Marcel Mauss falou, em seus trabalhos, da economia da troca nas sociedades. Segundo ele, surgem vnculos entre os sujeitos que a praticam seja troca de mercadorias, cumprimentos, favores. (MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a Ddiva, in Sociologia e Antropologia. Rio de Janeiro: Cosac e Naify, 2004)

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    de uma dramaturgia da vida, o ltimo sobressalto de uma idealidade do corpo, do sangue, da violncia de um sistema que j estava a ganhar, no sentido da reabsoro de todos os problemas sem um vestgio de sangue. (BAUDRILLARD, 1981)

    Nesse mundo hbrido, fragmentado e fugaz, onde h confuso entre o real e o imaginrio, a reproduo ganha notoriedade. No h mais uma explicao real das coisas, pois tudo pode ser manipulado. De fato, na sociedade contempornea h o consumo e a produo de mitos, levando os sujeitos a se afastarem cada vez mais do real e permearem por um mundo de imagens propagadas pelos meios de comunicao em massa.

    Baudrillard (1995) fala tambm que o valor de uso de um objeto mercadolgico se d de acordo com sua utilidade para os sujeitos, a mercadoria tambm um signo, com sentidos e significados. As trocas no so somente econmicas, mas h trocas simblicas. Baudrillard toma o objeto a partir de quatro lgicas: a lgica das necessidades individuais (valor de uso, o objeto torna-se um instrumento); a do mercado (valor de troca, o objeto um bem); a das trocas simblicas cotidianas (valor de smbolo) e a lgica da representao (valor de signo).

    Os objetos no so fabricados apenas para a utilidade dos sujeitos, mas o so de modo a significar um estilo de vida, um certo prestgio, uma ideologia. As marcas e imagens valem mais que os prprios objetos, transformando todo o sistema econmico.

    Lembramos da crtica feita pelo artista Piero Manzoni, em 1961, quando produziu 90 latinhas de Merda dartista, em uma crtica ao mercado artstico. Cada lata continha, segundo acreditava-se, fezes do autor e seu peso era contabilizado em ouro, o valor de venda da obra.

    Merda dartista

    A propaganda a grande influenciadora na ps-modernidade, ela gera o desejo no sujeito, desejo este que no era dele, mas foi instaurado pela mdia. E esta vontade pelo produto no dada pela sua utilidade, mas pelo seu preo. Quanto mais caro, maior o status de ter a mercadoria. como se o valor determinasse o produto agora. No mundo da imagem, os sujeitos esto em busca da sua prpria imagem perante os demais, em uma busca vida pelo prestgio.

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    No mundo contemporneo h as inter-relaes entre as mdias, fazendo com que a produo de sentidos no se d pelo olhar, mas pela lente da cmera, uma vez que parece que as aes e acontecimentos s ocorrem para os meios de comunicao, que fomentam a troca de valores simblicos, em uma sociedade pautada na troca miditica e no somente nas trocas reais.

    Substitumos a transmutao dos valores por sua comutao, sua transfigurao recproca por sua indiferena mtua e sua confuso. No fundo, sua transdesvalorizao. A conjuntura contempornea de reabilitao de todos os valores e de sua comutao indiferente a pior de todas. At mesmo a distino do til e do intil no pode mais ser colocada, devido ao excesso de funcionalidade que leva sua contaminao o fim do valor de uso. O verdadeiro se dilui frente ao mais verdadeiro o reinado da simulao. O falso absorvido pelo demasiado falso para ser falso o fim da iluso esttica. E a perda do mal ainda mais dolorosa que a do bem, a do falso mais dolorosa ainda que a do verdadeiro. (BAUDRILLARD, 2001)

    No h mais falso ou verdadeiro, pois a tecnologia dos meios de comunicao de massa no reproduz a realidade, mas produz o real. Baudrillard (2005) fala:

    O significado e o referente foram abolidos para o nico proveito do jogo de significantes, de uma formalizao generalizada na qual o cdigo j no se refere a nenhuma realidade subjetiva ou objetiva, mas sua prpria lgica.

    O simulacro parece j no representar o outro, mas ele tornou-se o prprio outro. Acontece como que uma hiper-realidade, onde no h mais a coisa, semiologicamente.

    A obra Uma e trs cadeiras (1965), de Joseph Kosuth, discorre sobre esta questo: cadeira real, fotografia da cadeira e uma definio de cadeira.

    Uma e trs cadeiras

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    H a perda de referencial, onde a realidade no tem origem nela mesma.

    Os signos, por vezes, no tm mais referncia no mundo real.

    J no existe o espelho do ser e das aparncias, do real e do seu conceito. J no existe coextensividade imaginria; a miniaturizao gentica que a dimenso da simulao. O real produzido a partir de clulas miniaturizadas, de matrizes e de memrias, de modelos de comando e pode ser reproduzido um nmero indefinido de vezes a partir da. J no se tem de ser racional, pois j no se compara com nenhuma instncia, ideal ou negativa. apenas operacional. Na verdade, j no o real, pois j no est envolto em nenhum imaginrio. um hiper-real, produto de sntese irradiando modelos combinatrios num hiperespao sem atmosfera. Nesta passagem a um espao cuja curvatura j no a do real, nem a da verdade, a era da simulao inicia-se, pois, com uma liquidao de todos os referenciais pior: com a sua ressurreio artificial nos sistemas de signos, material mais dctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalncia, a todas as oposies binrias, a toda a lgebra combinatria. J no se trata de imitao, nem de dobragem, nem mesmo de pardia. Trata-se de uma substituio no real dos signos do real, isto , de uma operao mquina sinaltica metaestvel, programtica, impecvel, que oferece todos os signos do real e lhes curta-circuita todas as peripcias. O real nunca mais ter oportunidade de se produzir tal a funo vital do modelo num sistema de morte, ou antes de ressurreio antecipada que no deixa j qualquer hiptese ao prprio acontecimento da morte. Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginrio, no deixando lugar seno recorrncia orbital dos modelos e gerao simulada das diferenas. (BAUDRILLARD, 1981)

    Os signos, nos meios de comunicao de massa, perdem sua capacidade de representao. Eles se esvaziam e ocorrem as simulaes. O simulacro nega o signo como valor e no h contato verdadeiro com o mundo, sendo, portanto, diferente das representaes, que se pautam nas coisas elas mesmas.

    Baudrillard fala que, nas sociedades primitivas, o real e seus signos estavam relacionados. Dos sculos XV a XVII, a significao dada a eles era determinada pelas classes dominantes, tendo em vista o prestgio. A partir da Revoluo Industrial h a reproduo dos signos, regidos pelo valor comercial. Na sociedade contempornea, eles j so simulaes, visto o avano das tecnologias, que possibilitam a reproduo de imagens e signos em srie. Aqui, a imagem do objeto ganha destaque frente a ele mesmo, a cpia prevalece diante do original, as reprodues tcnicas chamam mais ateno que o prprio real. Podemos observar, conforme o termo utilizado por Benjamim ao tratar das obras de arte, que houve a perda da aura.

    O autor leitor de Marx e Freud discorre sobre o incio da era da reproduo tcnica, que se deu graas ao conhecimento dos gregos da tcnica da fundio e relevo, o que possibilitou a fabricao de moedas.

    Com a xilogravura se deu a multiplicao de imagens antes mesmo da inveno da prensa por Gutemberg. Houve a gravura em metal (gua forte e gua tinta) e a litografia. As artes grficas ganham espao no cotidiano social, e no demora para que a fotografia e o cinema dominassem o mundo imagtico.

    Em A obra de arte na era da reprodutibilidade tcnica (1936), Walter Benjamim (2000) vem falar que as tcnicas de reproduo desenvolvidas nos sculos XIX e XX causaram a perda da autenticidade e unicidade da obra artstica, uma vez que algumas delas tornaram-se efmeras. Portanto, elas perderam sua aura. O que no de todo mau, pois deixam a tradio de lado e chegam aos olhos da grande massa,

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    por meio de sua reproduo. A autenticidade tem relao com sua temporalidade e espacialidade, indissociveis sua essncia. Constitui-se no aqui e agora da obra, pela sua materialidade, pelo fato de estar no espao e no tempo. Nela esto registradas as transformaes, sua histria. A unicidade fundamenta-se no seu carter ritualstico, fundamenta-se no seu valor de culto, que remonta sua origem elas, a princpio, eram destinadas a rituais e cultos tendo um fundamento teolgico e transcendental. Por isso, na antiguidade, poucos tinham acesso a ela. O autor define aura como uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a apario nica de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja. (BENJAMIM, 2000, p. 170)

    Neste ensaio, Benjamim reflete sobre as alteraes provocadas, sobretudo pela fotografia e cinema, no meio cultural. Analisa o que as tcnicas de reproduo causaram na maneira de produzir e receber um objeto esttico, modificando o papel da arte na sociedade. De fato, o elemento aurtico superado, uma vez que a autenticidade e unicidade j no existem em detrimento produo em srie. A obra passa, ento, a ter outra funo social, ou seja, sai do patamar de privilgios, deixa de ter como referncia o real e de ser observada de maneira individual e subjetiva. Agora ela possvel de ser vista por todos os sujeitos, em qualquer parte do mundo, qualquer um pode ter um exemplar uma reproduo de sua pintura preferida, e, inclusive, qualquer um pode produzir uma obra de arte, que seja apenas sua cpia. Benjamim (2000, p. 171-172) diz que: no momento em que o critrio da autenticidade deixa de se aplicar produo artstica, toda a funo social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra prxis, a poltica.

    Pelo fato de qualquer um poder produzir uma obra, a ideia de um gnio criador deixa de existir, e o artista entra para a esfera de pessoas comuns. Diferente da obra aurtica, que recusava qualquer funo social, feita apenas para a fruio desinteressada e subjetiva por parte do receptor. (MARCUSE, 1997, p. 95)

    A criao de uma hiper-realidade difundida por meios televisivos, que simulam os acontecimentos e noticiam de modo que no sabemos mais o que real ou imaginrio, o que ser ou aparncia. O simulacro se passa por real, e parece ser mais real que a prpria realidade. De fato, os meios de comunicao, alm de informar, recriam, de sua maneira, o mundo, e o transformam em espetculo.

    Guy Debord (1992) denunciou, em A Sociedade do Espetculo um mundo regido por imagens, que dominariam a sociedade ideologicamente. com este pensador situacionista, ps-marxista, que se d a gnese do pensamento sobre a situao espetacularizada em que a sociedade se tornou. Debord trata da preferncia pela imagem em detrimento do real, do mundo das aparncias, das iluses, da maneira de como o sujeito recebe as informaes sem pensar sobre elas, aceitando as imposies e valores capitalistas.

    Vivemos em um mundo espetacularizado, interdisciplinar e com culturas hbridas.13 Os meios de comunicao em massa fomentam o consumo permanente de produtos, de fatos, de imagens, e os sujeitos passam a maior parte de seu tempo passivos, vivendo em um mundo aparente.

    O espetculo diz Debord consiste na multiplicao de cones e imagens, principalmente atravs dos meios de comunicao de massa, mas tambm dos rituais polticos, religiosos e hbitos de consumo, de tudo aquilo que falta vida real do homem comum: celebridades, atores, polticos, personalidades, gurus, mensagens publicitrias tudo transmite uma sensao de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e

    13 Termo utilizado por Edgard Morin.

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    ousadia. O espetculo a aparncia que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o fetichismo da mercadoria (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicao de massa diz Debord so apenas a manifestao superficial mais esmagadora da sociedade do espetculo, que faz do indivduo um ser infeliz, annimo e solitrio em meio massa de consumidores. (ARBEX, 2001)

    O espetculo no se d somente no conjunto de imagens, mas tambm a relao entre as pessoas, por meio das imagens, fala Debord, ou seja, as relaes sociais tambm se transformaram em espetculo. O dilogo pessoal deu lugar ao isolamento e separao social, que permanecem em frente aos meios de comunicao. O que antes era discutido entre a famlia, hoje feito pela televiso. a mdia que passa a determinar os temas que norteiam a cultura e a sociedade.

    O homem passou a viver de maneira sonhadora e idealizada, de modo a inverter o papel da realidade e da fico. Bucci (1997) explicita dizendo que ocorre o efeito realidade-fico/fico-realidade quando os telejornais, que seria a realidade, atuam como melodramas, e as novelas parecem ser o real. Com isso, h um entendimento fragmentado dos acontecimentos.

    Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivaes eficientes de um comportamento hipntico. O espetculo, como tendncia a fazer ver (por diferentes mediaes especializadas) o mundo que j no se pode tocar diretamente, serve-se da viso como sendo o sentido privilegiado da pessoa humana o que em outras pocas fora o tato; o sentido mais abstrato, e mais sujeito mistificao, corresponde abstrao generalizada da sociedade atual. Mas o espetculo no pode ser identificado pelo simples olhar, mesmo que este esteja acoplado escuta. Ele escapa atividade do homem, reconsiderao e correo de sua obra. o contrrio do dilogo. Sempre que haja representao independente, o espetculo se reconstitui. (DEBORD, 1992)

    importante citar que Debord fala de dois espetculos: o concentrado e o difuso. O concentrado o que mascara uma realidade, enfatizando um fato determinado, de maneira a ser burocrtico e ditatorial, a exemplo do governo cubano e do Brasil ps 64. O espetculo difuso est em sociedade em que, com uma grande produo de mercadorias, promove a liberdade de escolha, mas isso acontece apenas de maneira aparente.

    A cultura imagtica e dos meios de comunicao tamanha, que, se no foi noticiado, coloca-se em dvida a validade do real vivido, mas no h tempo para a verificao.

    No plano das tcnicas, a imagem construda e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligao do indivduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir. A partir de ento, evidente que a imagem ser a sustentao de tudo, pois dentro de uma imagem possvel justapor sem contradio qualquer coisa. O fluxo de imagem carrega tudo: outra pessoa comanda a seu bel-prazer esse resumo simplificado do mundo sensvel, escolhe aonde ir esse fluxo e tambm o ritmo do que deve a se manifestar, como perptua surpresa arbitrria que no deixa nenhum tempo para a reflexo, tudo isso independe do que o espectador possa entender ou pensar. (DEBORD, 1992)

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    A mdia causa uma mudana de paradigmas e chega a mudar conceitos e referncias a partir dos signos lingusticos, pedimos por um Bom Brill no supermercado, ao invs de palha de ao, por exemplo. O signo (palha de ao) perdeu seu sentido original, e foi ultrapassado pelo seu simulacro.

    Diante dessa exacerbao imagtica, h ainda a tentativa de manufaturar, pode-se assim dizer, o real. Baudrillard conta que, em 1971, as Filipinas resolveram devolver a tribo Tasaday floresta, mantendo-os longe da civilizao, como assim viveram durante oito sculos. A inteno de preservar a comunidade nada mais que a influncia do poder dos governantes.

    O ndio assim devolvido ao ghetto, no sepulcro de vidro da floresta virgem, volta a ser o modelo de simulao de todos os ndios possveis de antes da etnologia. Esta d-se assim o luxo de se encarnar para l de si prpria, na realidade bruta destes ndios inteiramente inventados por ela selvagens que devem etnologia o serem ainda selvagens: que reviravolta, que triunfo para esta cincia que parecia votada a destru-los. Claro que esses selvagens so pstumos: gelados, criogenizados, esterilizados, protegidos at a morte, tornaram-se simulacros referenciais e a prpria cincia se tornou simulao pura. (BAUDRILLARD, 1981)

    Na contemporaneidade, no de se negar que haja um fac-smile, uma produo em larga escala de universos reais, muito mais reais que a prpria realidade.

    De fato, possvel criar esta realidade antecipadamente. A cada data comemorativa dada a mesma notcia, de maneira quase igual ao ano anterior. E tudo pode ser copiado nas prximas notcias, como se houvessem modelos prontos que precedessem os fatos.

    que estamos numa lgica de simulao, que j nada tem a ver com uma lgica dos fatos e uma ordem das razes. A simulao caracteriza-se por uma precesso do modelo, de todos os modelos sobre o mnimo fato os modelos j existem antes, a sua circulao, orbital como a bomba, constitui o verdadeiro campo magntico do acontecimento. Os fatos j no tm trajetrias prprias, nascem na interseo dos modelos, um nico fato pode ser engendrado por todos os modelos ao mesmo tempo. Esta antecipao, esta precesso, este curto-circuito, esta confuso do fato com o seu modelo (acabam-se a falta de sentido, a polaridade dialtica, a eletricidade negativa, a imploso dos polos antagnicos), sempre ela que d lugar a todas as interpretaes possveis, mesmo as mais contraditrias todas verdadeiras, no sentido em que a sua verdade a de se trocarem, semelhana dos modelos dos quais procederem, num ciclo generalizado. (BAUDRILLARD, 1981)

    Ser que o real est desparecendo? Se isso for verdade, no pela ausncia de realidade, mas pelo excesso de mundos criados. E o mesmo pode ocorrer com as informaes, se elas ocorrem de maneira demasiada, no h comunicao.

    Em toda a parte a socializao mede-se pela exposio s mensagens miditicas. Est dessocializado, ou virtualmente associal, aquele que est subexposto aos media. Em toda a parte suposto que a informao produz uma circulao acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido homlogo mais-valia econmica que provm da rotao acelerada do capital. A informao dada como criadora de comunicao, e apesar do desperdcio ser enorme, um consenso geral pretende que existe, contudo, no total, um

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    excesso de sentido, que se redistribui em todos os interstcios do social assim como um consenso pretende que a produo material, apesar dos seus disfuncionamentos e das suas irracionalidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza e de finalidade social. Somos todos cmplices deste mito. o alfa e o mega da nossa modernidade, sem o qual a credibilidade da nossa organizao social se afundaria. Ora o fato que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde pensamos que a informao produz sentido, o oposto que se verifica. (BAUDRILLARD, 1981)

    Segundo Benjamim, antigamente as experincias vividas eram repassadas s geraes seguintes por meio da oralidade, de maneira simples, atravs de histrias e provrbios. Hoje, com a invaso dos meios de comunicaes, cada vez mais variados, as informaes se do a qualquer hora e em qualquer lugar, mas desvinculadas experincia direta. Aqui, tudo se d pela ordem do simulacro. Muniz Sodr relaciona este simulacro com o mito de Narciso:

    Como a imagem de Narciso no espelho, o simulacro inicialmente um duplo ou uma duplicao do real. A imagem no espelho pode ser o reflexo de um certo grau de identidade do real, pode encobrir ou deformar essa realidade, mas tambm pode abolir qualquer ideia de identidade, na medida em que no se refira mais a nenhuma realidade externa, mas a si mesmo, a seu prprio jogo simulador. Neste caso, o espelho deixa de ser algo que transcendentemente reflita, duplicando, o real, para tornar-se espao/tempo operacional, com uma lgica prpria, imanente. Sem a necessidade de uma realidade externa para validar a si mesmo enquanto imagem, o simulacro ao mesmo tempo imaginrio e real, ou melhor, o apagamento da diferena entre real e imaginrio (entre o verdadeiro e o falso). De fato, um certo imaginrio, tecnologicamente produzido, impe o seu prprio real (o da sociedade industrial), que implica um projeto de escamoteao de outras formas de experincia do real. (SODR, 1984, p. 29)

    De fato, o mundo contemporneo est repleto de simulacros e hiper-realidades, de modo que cada vez menos necessrio um pensamento crtico sobre o que nos apresentado.

    Lembramos que o Iluminismo, no sculo XVIII, j se propunha a libertar os homens da imaginao, ou seja, dos mitos, da magia, do fetiche. Mas ser que isso ocorreu ou a sociedade moderna apenas mudou o objeto de adorao? Se antes eram os mitos, agora a razo e a tcnica so exacerbadas. Os heris mticos agora so outros (lembramos aqui das histrias em quadrinhos).

    Os super-heris fazem parte da contemporaneidade na medida em que ocorre uma crise de identidade e a ciso de fronteiras. Vejamos o caso do Super-Homem e do Homem-Aranha. O primeiro possui poderes naturais e de outro planeta, por isso a criao de uma identidade humana. Clark Kent tem personalidade tmida e desajeitada, o oposto do Superman. Vemos aqui uma crtica humanidade, s suas fraquezas e sua vulnerabilidade. O Homem-Aranha adquiriu seus poderes em laboratrio, aps ser picado por uma aranha radioativa. Ambos escondem-se entre as pessoas comuns, vivendo duplamente. H que observar que ambos trabalham em um jornal, um porque precisa estar a par dos fatos, como reprter, e outro porque quer a credibilidade da informao, como fotgrafo.

    De fato, na dcada de 1970 os meios de comunicao de massa se sobressaem e ampliam-se, discutindo, sobretudo, questes polticas. As identidades sociais, e sua desestabilizao diante da globalizao, entraram em pauta nos anos 1980. Nos anos 1990, esta questo discutida na teoria social, como nos

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    mostra Stuart Hall (1999, p. 7): velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, esto em declnio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivduo moderno, at aqui visto como um sujeito unificado.

    de se notar que o Super-Homem (1930) e o Homem-Aranha (1960) nasceram em momentos de crises e reflexes, ou seja, os super-heris so produtos da sociedade industrial. Observamos algo interessante, na era moderna que se cria um heri, mas com caractersticas pautadas nos mitos.

    Alm de ter sido o prottipo de uma linhagem de super seres, ele possui, como nenhum outro heri da cultura de massa,os predicados bsicos de um mito de ontognese clssica. [...] soma de elementos antigos (mitologemas) ligados aos feitos dos deuses e seres divinos, transmitidos atravs dos tempos pela tradio mas sujeitos a transformaes de acordo com as necessidades. (AUGUSTO, 1971, p. 28)

    Os super-heris parecem ser entidades mitolgicas, mas com objetivos a cumprir, sejam sociais ou mesmo polticos. E medida que ocorreram transformaes na sociedade, mudou-se o perfil desses personagens. Bom, e se antes eles salvaram mocinhas, como observa Ricardo Calil (2007), hoje pretendem salvar a indstria americana da crise.

    Os personagens dos quadrinhos sofreram modificaes em sua identidade e em seus corpos. Minayo (1992, p. 158) mostra que nas cincias sociais (as representaes) so definidas como categorias de pensamento, de ao e de sentimento que expressam a realidade, explicam-na, justificando-a ou questionando-a. Aqui se intensifica a ideia de que a sociedade se expressa por meio de representaes, para tentar compreender o mundo, por meio de semelhanas entre a fico e a realidade.

    Eco (1979), em um olhar semitico, discorre sobre o espectador dos super-heris, colocando-o na condio de fantoche diante do poder imagtico americano.

    Clark Kent aparece como portador de poderes, como invencvel em suas lutas que terminam no mesmo instante presente. O que seria o desejo do cidado comum, em uma busca pela ascenso social, lutando contra suas frustraes, desejando ser a prpria imagem formada pela mdia. E a mdia que incute essa vontade de ser um super-homem, com seus problemas resolvidos em segundos, no agora, sendo sempre vitorioso. O fracasso e as roupas comuns do lugar a uma condio onde no h problemas, nem de autoestima nem financeiros, no h sofrimento nem grandes esforos. E todos querem deixar sua condio de humano para ser cone, diferenciando-se dos demais.

    O super-heri caracterizado por sua intelectualidade, por seu porte fsico, poderes, alm de coragem e bondade. Tambm ultrapassa obstculos e enfrenta perigos, de modo a organizar novamente a comunidade. colocado como sempre estando do lado dos mais fracos, protegendo-os aqui toma o papel do monarca ou do Estado e dando segurana a eles, por isso cultuado por todos.

    O heri criado de maneira estereotipada, espelho da hegemonia e poder americano. Mas esse heri no salva ningum da fome e das injustias sociais, da escravido ou das guerras, no d emprego e no melhora as condies de higiene de uma comunidade.

    A histria das civilizaes permeada por cones e dolos, com poderes simblicos dados pela prpria sociedade que persuadem, por meio de sua imagem idealizada, toda uma populao.

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    vlido notar que com essas imagens, com mitos e heris, que comunidades puderam difundir seus valores e anseios, alm de fundamentar sua existncia e leis ticas.

    A seduo e a persuaso no sistema da sociedade de massas so imensurveis, fomentando o desejo e a necessidade, talvez, mercadolgica de criar novos personagens, ou signos, na fronteira entre o humano e os seres divinos, que seriam os dolos contemporneos, e outros ficcionais, como os arqutipos e os super-heris. Estes ltimos, tanto seu aspecto fsico quanto valores, coincidem com seres criados nos primrdios da memria cultural do mundo.

    A produo e o consumo acelerado de bens fazem com que cada vez mais surjam uma multiplicidade de seres mticos, cujas narrativas sejam condicionadas economia.

    notvel que cada vez mais aparecem heris originados da robtica, enaltecendo o saber e a cincia. Tambm vemos o advento de mquinas do tempo e outros mecanismos, colocando em evidncia a fico cientfica. H um esgotamento dos elementos naturais, que tanto nomearam e deram atributos aos heris. As virtudes, os mitos e a religio no do conta de seres que lutam contra a destruio, que no se d mais pelas foras divinas.

    O heri e sua amada, alm dos sujeitos que so protegidos por ele, fazem referncia ao ncleo familiar e afetivo, a fim de aproximar a vida comum do espectador fico.

    Vale observar que nos anos 1940 foram vendidas, nos Estados Unidos, muitas revistas com o personagem Capito Amrica, que protagonizava guerras contra os nazistas, inclusive, a capa da primeira edio trazia este personagem nocauteando Hitler. Ao final da Segunda Guerra, as vendas caram, uma vez que os sujeitos reais haviam vivido, de fato, os horrores da guerra. As histrias tornaram-se superficiais, assim, muitos personagens e narrativas tiveram que ser remodelados.

    Eco (1979) diz que o Superman um mito moderno como os deuses o eram na antiguidade cujo papel seria manter a ordem. De fato, os dolos permeiam nossa imaginao e o mundo social, mas esta sociedade, esta em que vivemos de maneira operante, como constituda?

    Notamos, na filosofia grega, em escritos como A Repblica, de Plato (1907-1990) em que fala da organizao das cidades-Estado e A Poltica, de Aristteles (1998) que trata de mudanas institucionais a favor Estado uma certa preocupao com a sociedade.

    A Repblica (em grego Politeia), de Plato, escrita no sculo IV a.C., contm a primeira ideia de sociedade. Essa seria harmnica e fraterna, isenta de todo o caos, ou seja, uma cidade idealizada, permeada por toda a racionalidade de seus dirigentes. No h egosmo e as paixes esto sob a mira da razo. H compreenso por parte dos discpulos, que aceitam bem as renncias, quando necessrias. Sujeito e sociedade dividem os mesmos interesses. At mesmo Plato reconheceu a utopia desse projeto.

    Na figura do filsofo estava o ideal humano, este no teria preocupaes com a sobrevivncia, a ela estavam incumbidos os trabalhadores, que no eram considerados cidados pelo fato de no terem tempo para a contemplao terica e para a poltica.

    A Repblica comea e termina com um dilogo sobre a justia como virtude